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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27627: Humor de caserna (232): As formigas e as abelhas, nossas amigas... (José Teixeira, ex-1º cabo aux enf, CCAÇ 2381, "Os Maiorais", Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70)


Formiga de correição do género Dorylus, mais frequentes do centro e lestye de Áfrcia,. Há cerca de 200 espécies de formigas carnívoras... Não constroem colónias, são conhecidas por organizarem expedições periódicas de milhares de indivíduos.  Têm um modo de vida em constante movimento.

Fonte: Wikipedia


1. Comentário ao poste P27619 (*), assinado pelo José Teixeira (ex-1º cabo aux enf, CCAÇ 2381, "Os Maiorais" (Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70);  régulo da Tabanca de Matosinhos;  um histórico do nosso blogue, onde tem mais de 450 referências):

Quanto ao humor no tempo da guerra, aí vai mais uma, que se perdeu no interior do Blogue.

Quando estava deslocado em Mampatá, tinha uma tarefa, em partilha com o alferes e furrieis, fazer uma ronda pelos postos de sentinela e ficar a conversar um pouco para ajudar a passar o tempo.

Uma bela noite, cheguei ao primeiro posto e sentei-me ao lado do sentinela. Passados uns dez minutos, ao levantar-me, senti um horror de picadas pelas pernas acima até aos tintins.

Como solução, foi tirar as calças e as cuecas, pendurá-las na ponta do cano da G3 emprestada e continuar a ronda pelos outros três postos.

Quanto às lassas, aprendi com um milícia no primeiro ataque que tive, em me colocar em estátua, sem mexer nem que passasse um car*lho  pela boca! Lembram-se dessa!

Pois bem, nos outros dois ataques de abelhas, aguentei pianinho, de olhos fechados, sem me mexer. O zumbido era ensurdecedor, senti-as pousar, senti o vento que provocavam ao voarem à minha volta, mas saí incólume, a tempo de salvar um camarada, todo picado e alérgico.

Um bom ano.
Zé Teixeira



2. Comentário do editor LG:

Zé, no nosso blogue, nada se perde, e tudo se transforma. A tua história pícara das "formiguinhas, nossas amigas", já a localizei (**). Aliás, volto a reproduzi-la, aqui, trata-se de uma entrada do teu diário (Mampatá, 23 de setembro de 1968).

Por outro lado, registo o vocábulo "lassas", que deve ser crioulo, como sinónimo de abelhas... Cito aqui o nosso Mário Fitas;

(...) "Por informações recolhidas,  a CCAÇ 763 será conhecida no PAIGC com a alcunha de 'Lassas'. Pelo que se veio a saber, 'lassa' será uma espécie de abelha existente na Guiné, a qual, não sendo molestada, não tem problemas, mas se for atacada é terrivelmente perigosa tornando-se fortemente enraivecida.

Esta alcunha resultaria da actuação da CCAÇ 763, pois ao chegar a uma povoação em que a população não fugisse, não haveria problemas, falava-se com a mesma e tentava-se resolver os problemas que houvesse. Em caso contrário, se a população fugisse e abandonasse as suas moranças, estas eram literalmente destruídas.

Pelo que ficou assim com este procedimento, a companhia crismada de 'Lassas'. (...)" (***)

Quanto às nossas amigas formigas, "carnívoras", julgo que se trata das formigas-correição. Temos de melhorar a pesquisa sobre este inseto que, a abelha selvagem, era um dos nossos inimigos mais temidos, talvez até mais do que o próprio inimigo em carne e osso.


3. Excerto de "O Meu diário", de José Teixeira

Mampatá, 23 de Setembro de 1968

Tudo está calmo, há dias que o IN não ataca. Todos estamos convencidos que o próximo objectivo é Mampatá e com o seu novo sistema de ataque nos vai dar que fazer.

Uma das coisas que me agrada fazer, embora perigosa, é a ronda nocturna pelos postos de sentinela. No princípio detestava, mas agora dá-me prazer. Normalmente passo um quarto de hora em cada posto, a conversar baixinho com o camarada que está de sentinela. Assim, ajudo-o a passar o tempo e a manter-se atento. Esta missão nocturna é distribuída pelos Alferes, pelos Furriéis e por mim.

Ontem aconteceu-me uma cena que dá para rir. Como é hábito, avisei com um pequeno assobio (a senha) o primeiro sentinela que me estava a aproximar. Sentei-me ao lado dele no chão e ficamos a conversar. Não notei que me tinha sentado em cima de um carreiro de formiga preta e quando me levantei senti o corpo todo a ser ferrado. 

Que dores horríveis pelo corpo todo!

Tirei a roupa toda, arranquei as formigas como pude, coloquei a roupa na ponta da espingarda e continuei a ronda completamente nu. Estava no primeiro posto, faltavam cinco. Os meus camaradas ao verem-me chegar ao posto com o fato que a minha mãe me deu ao nascer, gozaram em cheio e durante uns dias não se falou noutra coisa.

A formiga preta faz carreiros de quilómetros à procura das suas presas. Na família desta formiga existem várias funções e tamanhos físicos. Assim as batedeiras são grandes e gordas. Normalmente andam fora da fila a procurar as presas e são as mais agressivas. A fila é composta por duas alas laterais e duas alas interiores, sendo as laterais como que soldados, mais fortes que as que vão no interior, as escravas que transportam o alimento para um esconderijo debaixo da terra

Quando as batedeiras localizam a presa, morta ou viva, esta por qualquer razão em estado imobilizado, automaticamente a fila abre-se em duas e começa o envolvimento e a tomada de assalto sem que a vítima dê por nada. Quando esta se mexer sentirá milhares de ferradelas. 

Os cornos das formigas ficam de tal maneira cravados, que muitos ficam agarrados ao corpo, quando a vítima se tenta libertar. Foi isso que me aconteceu. Dizem que gostam muito de atacar os ‘tomates’ e eu que o diga!

Disse-me a Aliu Djaló que a giboia, depois de asfixiar a presa, explora a zona num raio de 20 a 30 metros e se sentir que há formigas, abandona o alimento. Acontece que como fica vários dias a deglutir o animal que caçou, se as formigas forem atraídas pelo sangue da vítima, ou a descobrirem, cobrem-na e no momento em que com o estômago cheio tenta abandonar o local, as formigas atacam e ficam com alimentação para vários dias.

São milhões de formigas. Eu vi uma cobra apanhada pela formiga, melhor, vi uma mancha negra do que fora uma cobra. (...)

(Revisáo / fixação de texto: LG)
_________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 9 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27619: Humor de caserna (231): "Filhos da p*ta, m*rda, car*lho!... Quem me acode?!... Os filhos da p*ta... matam-me!": debaixo de fogo, até um padre diz asneiras: o capelão militar, madeirense, Adelino Apolinário Silva Gouveia, que o saudoso Alcídio Marinho (1940-2021), do Porto, Miragaia, evoca e homenageia aqui

(**) Vd. poste de 11 de janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - P420: O meu diário (José Teixeira, CCAÇ 2381) (6): Mampatá, Setembro-Outubro de 1968

7 comentários:

Victor Costa disse...

Essa de passar um ca.alho pela boca nunca tinha ouvido, mas ouvi em Tavira uma parecida. Um militar em sentido, não fala, não chora e não ri, nem que passe um saraivada de ca.alhos pela boca. Em Tavira também ficou famosa a do DELICADINHO DA 5ª.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Claro que a formiga carnívora da Guiné que adorava os nossos "tintins", não era daquele tamanho que mostra a imagem...Mas que a gente não conseguia arrancá-la inteira,é verdade!... Deixava lá cravadas, na pele, aquelas garras de aço!

Victor Costa disse...

Eu conheci tambem conheci as formigas e as "casas" que elas fabricavam, mas o paludismo só me abandonou à cerca de 20 anos, quando tive de ir ao Hospital. O paludismo nunca mais apareceu, mas no Hospital a médica também disse que tinha uma falha na válvula mitral e que devia ter muito cuidado. Eu ri-me para a médica e fui aguentando,mas passados cerca de 10 anos o meu amigo de infância o Dr. Gomes confirmou e hoje não me separo deste cartão.
Victor Manuel Ferreira Costa
Implant Data:16-Jan-2019
Gonçalo Coutinho,M.D.
Hospital da Universidade
COIMBRA
HospitalID:19520401456
Model 4450 - 34MM - Position AORTIC - Serial:6397106--ANNULOPLASTY RING

Victor Costa disse...

Já que ninguém responde eu continuo.
Eu sou apenas um cristão, que admira a Ordem do Templo, mas continua a acreditar que: A vida são dois dias e o carnaval são três.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Victor, estás vivo e és um homem sorte, por viveres num país que tem um SNS e professionais de saúde de grande competência e dedicação com o teu amigo doutor Gonçalo Coutinho, reputado especialista em cirurgia torácica e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.

Antº Rosinha disse...

O SNS foi a maior criação do 25 de Abril.
Tudo o resto foi tão "absolutamente relativo", que para a maioria do povo, ingrato por natureza, ate se esquece que sem saúde não vale a viver.

Victor Costa disse...

Nem mais, "Já morri 3 vezes, já fiz um requerimento ao S. Pedro a pedir mais 50 anos e o ingrato ainda não respondeu", mas uma coisa é certa, é preciso saber cair, deitar no chão, tirar a roupa, levantar os pés, respirar fortemente e depois levantar calmamente.
É como dar instrução.