1. Mensagem de 14 de Março de 2026 do nosso camarada António Rosinha que foi Fur Mil, ainda do tempo da farada "amarela", em Angola, 1961/1962; topógrafo em Angola; emigrante no Brasil, e mais tarde na Guiné-Bissau, onde trabalhou, de 1978 a 1993, na empresa TECNIL. Entrou para o nosso blogue, em 29/11/2006, é um histórico da Tabanca Grande e autor da série "Caderno de Notas de Um Mais Velho"; tem cerca de 150 referências no blogue.
A TERAPIA DOS ALMOÇOS DA TROPA
Quem entre os 70 e os 83 anos, com alguma saúde, anseia pela convocatória anual dos almoços com os camaradas que andaram aos tiros nas ex-colónias, todos juntos, quando tinham 20 anos, com certeza que devem sentir-se uma geração historicamente diferenciada dos seus contemporâneos, que não tiveram aquela experiência.
Haverá muita nostalgia, haverá também orgulho em muitos, mas com certeza esses encontros são um alívio de tensão que dá vida e ânimo para manter a sanidade mental no seu devido lugar.
E mesmo quando nessas reuniões se invocam os nomes dos camaradas que morreram quer em combate quer pela vida fora, com ou sem visitas aos cemitérios, como se vê fazer em almoços a nível regional, missa e idas aos cemitérios, até esse recordar dos que morreram, como que completa uma obrigação de dever cumprido.
E quando se fala de muitos camaradas que ficaram com traumas e sem um tratamento adequado, podiam encontrar um bom tratamento em encontros/convívios e evitar desencontrar-se com antigos camaradas da tropa.
Mais antigos, já terão dificuldade em realizar esses encontros, uns vão desaparecendo, alguns mais entusiastas já não conseguem reunir camaradas com capacidade de deslocação com autonomia, e, no caso recente do problema do covid 19, com a interrupção aconselhada de reuniões, para muita gente esses almoços foi o fim total.
Pessoalmente, como ex-tropa da guerra de Angola, acabou-se o almoço anual, e tive a hipótese de frequentar um almoço mensal, com pessoal mais reduzido, com a interrupção do covid, não mais se retomou esse hábito.
E pessoalmente conheci ainda o poder terapêutico desses "almoços" em reuniões de retornados, que não era de jovens na casa dos vinte anos, mas em muitos casos foi com gente nos 50/60 anos... casos familiares terríveis, mas esses encontros funcionaram com muito sucesso, no "deixar para lá" e desabafar uns com os outros e retomar as rédeas da vida.
Como ex-militar, recorro muitas vezes aos lugares através do google earth para visitar os lugares por onde passei de arma ou sem arma na mão, para ver por onde passei, seja em Angola, Guiné ou Brasil, e ver como aquilo está, também essas visitas (virtuais) ajudam a encarar o nosso passado de frente.
E como diz o nosso grande escritor e também ex-militar, Lobo Antunes, que se preocupou muitíssimo comigo e todos os retornados, em que inclui grandes retornados tal como Vasco da Gama e mesmo por onde esses antigos andaram, eu gosto de visitar e desopilo imenso com isso.
Imagine-se hoje, 2026, lembrar que um desses guerreiros portugueses antigos, Afonso de Albuquerque, mandou construir o Forte Nossa Senhora da Conceição em 1515 na Ilha de Ormuz para cobrar portagem a barcos que quiserem transportar especiarias do oriente para norte e hoje nesse mesmo lugar alguém quer impedir petroleiros de transpor essa mesmíssima portagem sem pagar.
E segundo Lobo Antunes, fazem-nos falta petroleiros em frente aos Jerónimos.
Com reuniões e almoços, ou acompanhar Luisgraca de perto, não é só viver do passado, é viver a nossa história de frente.
Um abraço
Antº Rosinha
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Nota do editor
Último post da série de 22 de Julho de 2025 >Guiné 61/74 - P27044: Caderno de notas de um mais velho (Antº Rosinha) (58): O racismo em Portugal... onde ninguém sabe se os seus antepassados foram escravos ou esclavagistas...
Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
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segunda-feira, 16 de março de 2026
Guiné 61/74 - P27827: Caderno de notas de um mais velho (António Rosinha) (59): A terapia dos almoços da tropa
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8 comentários:
Ó Rosinha!
Já te esqueceste da morte do filho de D. Francisco de Almeida e da sua resposta?
E não é que não posso deixar de concordar com o "mais velho" Rosinha?
Muito, quase tudo, do que escreveu, e das "receitas terapêuticas" enunciadas, são de facto um dos últimos refúgios desta geração que está a acabar.
Como dizem os brasileiros: - FALOU, SEU ROSINHA!!!
Abraço
Há cerca de dois anos, li uma biografia de Afonso de Albuquerque, um calhamaço de 700 páginas intitulado "O Terrível", da autoria de José Manuel Garcia (https://www.fnac.pt/O-Terrivel-Jose-Manuel-Garcia/a1349162), que parece estar agora esgotado.
Ao longo de quase dez anos, e quando já tinha uma idade (mais de 60 anos!) em que muitos portugueses do séc. XXI já só anseiam pela chegada da reforma, Afonso de Albuquerque conseguiu fazer de todo um oceano (o Índico) um mar português a milhares de quilómetros da pátria-mãe, graças ao controlo de três pontos estratégicos fundamentais: Goa, Malaca e Ormuz. Faltou-lhe tomar Aden (no atual Iémen), cuja tentativa de conquista resultou num completo desastre, em que o próprio Albuquerque quase perdeu a vida e ficou com um braço inutilizado para sempre.
Fala-se agora muito em Ormuz e da sua extraordinária importância estratégica. Pergunta-se: que interesse teria Afonso de Albuquerque em controlar o estreito de Ormuz no séc. XVI? Numa clara ironia, escrita para não ser levada a sério, como é evidente, o camarada Rosinha escreve que Albuquerque quereria cobrar portagens às naus que atravessassem o estreito...
O chorudo comércio de especiarias e de outras riquezas (sedas, ouro, marfim, madeiras preciosas, etc.) entre o Oriente e a Europa estava nas mãos dos turcos otomanos. Afonso de Albuquerque queria apoderar-se deste rendosíssimo comércio e Ormuz era a sua "chave". Quem controlasse o estreito de Ormuz, controlaria o fluxo de todas estas riquezas. Afonso de Albuquerque entrou em contacto com o rei de Ormuz, para que este permitisse a construção de uma fortaleza na sua ilha, mas foi-lhe negado.
Ormuz era um pequeno reino que era vassalo do Império Persa. Perante a recusa do rei de Ormuz, Afonso de Albuquerque entrou em contacto com o xá da Pérsia, para que este obrigasse o rei de Ormuz a ceder. O xá viu que os portugueses poderiam ser seus aliados na contenda que mantinha com os turcos, seus inimigos históricos, e acedeu ao pedido de Afonso de Albuquerque. Podemos por isso dizer que, naquele tempo, o agora chamado Irão foi aliado de Portugal. O xá depôs violentamente o rei de Ormuz e colocou em seu lugar um soberano que foi favorável aos portugueses e permitiu que estes construíssem uma poderosíssima fortaleza, que era inexpugnável para a época. A partir deste momento, o comércio turco entre a Ásia e a Europa ficou cortado e os portugueses puderam navegar e comerciar livremente ao longo de todo o Golfo Pérsico.
(Faço agora um parêntesis para chamar a atenção para o que aconteceu ao rei deposto de Ormuz, o tal que se opôs aos portugueses. Em vez de matá-lo, o xá da Pérsia ordenou que lhe fossem furados os olhos, assim como a toda a sua família! Eram tempos bárbaros, aqueles. Afonso de Albuquerque mandou então que o ex-rei cego e os seus familiares, também cegos, fossem metidos numa nau e levados para Goa. Em Goa, Albuquerque deu-lhes o melhor acolhimento possível e ordenou expressamente que eles fossem tratados com a maior consideração e respeito, porque eram de sangue real).
Com o Golfo Pérsico à sua mercê (a meias com os persas), os portugueses fartaram-se de comerciar ao longo de toda a costa arábica do dito Golfo. Por exemplo, os cavalos árabes puro-sangue eram (e são) apreciadíssimos, como se sabe. Os mercadores portugueses compravam cavalos na Arábia, metiam-nos nas naus, levavam-nos para a Índia e vendiam-nos aos marajás e outros ricos dignatários indianos.
O agora independente emirado do Bahrein foi uma possessão portuguesa durante quase um século. Luís de Camões faz-lhe referência no Canto X de "Os Lusíadas", chamando-lhe Barém. O que teria o Bahrein de tão especial, que atraísse a cobiça dos portugueses? Resposta: pérolas. Onde quer que houvesse riquezas, os portugueses iam lá.
Obrigado, pela partilha dessa tua "preciosa" leitura da biografia do Afonso de Albuquerque. Vou tomar nota. É uma boa leitura de verão. Luis
Li "algures" que parece que há um peixe, particularmente voraz, no Índico, a que os povos locais denominaram de "Alfonso".
Apenas uma curiosidade.
Também comprei o "calhamaço" e depois "alguém" me ofereceu um quadro com o Mapa de Cantino.
Hélder, estás-te a referir ao "alfonsim", como é conhecido nos Açores ?
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