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segunda-feira, 13 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27918: Notas de leitura (1913): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
É elevado o número de oficiais do quadro permanente que neste livro aparecem a conversar com os filhos, e vemos que estas crianças, em situações frequentes, conheceram o internato no colégio militar e no instituto de Odivelas. Os pais tinham uma defesa na sua correspondência, acompanhavam os estudos dos filhos. São bem distintas as histórias que hoje aqui têm lugar.
Abílio Santiago Cardoso fez duas comissões em África que deixaram boa memória aos filhos. A terceira comissão é passada na Guiné, na região de Catió, entre 1967 e 1969. É parcimonioso nas descrições do seu dia a dia, os filhos socorreram-se da história da Unidade para saber mais da comissão do pai. Este veio muito abalado, comentam os filhos, demorou a recuperar. Nenhum dos filhos seguiu a carreira militar, os mais velhos revelaram-se contestatários e chegaram a ser presos na contestação ao regime e à guerra, em meio académico portuense. Amável Velez Serra, mal saído da Escola do Exército, ofereceu-se como voluntário, parte para Angola em 1955. Segue-se a Índia onde ficou prisioneiro, voltará a Angola entre 1963 e 1965. Também nunca escreveu aos filhos sobre a guerra, revelou-se profundamente terno a falar individualmente a cada um dos filhos, busca todos os assuntos, como as prendas de Natal, as aulas de piano e de judo, a catequese. voltará a ser mobilizado em 1970 para Moçambique, e logo a seguir para Angola. Também nunca quis falar com os filhos sobre a natureza das guerras que viveu.

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 3

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

É uma longa série de relatos, as autoras captaram perfeitamente a natureza dos laços afetivos, as contingências que perpassam toda esta correspondência onde é por demais evidente que o militar procure silenciar o mundo da guerra em que vive. É o caso de Abílio Santiago Cardoso que assim escreve: “Meus filhos queridos, não me façam mais perguntas sobre este assunto e peçam a Deus que me ajude a cumprir o meu dever.” Vamos agora falar deste oficial de artilharia que fez três comissões.


Só recentemente é que os descendentes, os filhos e as noras de Abílio e Maria Lúcia, ao desmanchar a casa dos pais, encontraram a correspondência trocada durante a comissão militar na Guiné, entre 1967 e 1969.

Abílio teve a sua primeira comissão em Moçambique, em 1955. Ele e Maria Lúcia casaram por procuração e em Lourenço Marques nasceram os três filhos mais velhos. No regresso, em 1956, a família vai para Penafiel, ficando a viver no quartel, foi aqui que nasceu o quarto filho, em 1961.
A segunda comissão foi em Cabo Verde, Abílio leva a família toda, a comissão deixou boas recordações. Regressam a Penafiel. Em 1967 Abílio é tenente-coronel de artilharia vai comandar o Batalhão de Artilharia nº 1913, vão para o setor S3, com sede em Catió, ali vivem na área controlada pelos militares cerca de 6000 pessoas.


Consta do livro da Unidade a descrição do inimigo: “apresenta-se num setor bem instruído, experiente, moralizado e bastante aguerrido". O filho mais novo acompanha a mãe e vão para a Régua, os outros três filhos ficam internos no Colégio Militar. O pai escreve-lhes incentivando-os no desempenho escolar, mostra-se orgulhosos com os prémios que os filhos gémeos recebem. Numa carta Abílio escreve aos filhos: “É necessário que todos nós, os 6, formemos um bloco unido e pronto a ampararmo-nos uns aos outros seja em que circunstância for e implique os sacrifícios que implicar.” Os filhos gémeos terão na altura 12 anos. Abílio está acerca de um mês em Catió quando escreve esta carta aos filhos mais velhos:
“É a última vez que vos falo da minha atividade aqui. Operações são coisas muito sérias em que morrem a guerrear uns homens que têm pais, mulheres ou filhos ou todos os parentes mencionados. Claro que se esses homens estão do outro lado, lamentamos o facto de nos obrigarem porque eles assim o quiseram. Quando se trata de homens nossos, o problema é muito doloroso.”


Os filhos que irão conhecer a realidade da comissão através do tal livro da Unidade. O Batalhão aposta na ação psicológica e no apoio social. Há população que estava sob o controle do inimigo que se apresenta nos aquartelamentos do Batalhão. Este regressou a 2 de março de 1969. Em combate teve 26 mortos e 137 feridos. Nos tempos subsequentes à chegada do pai a guerra não era tema de conversa. Nenhum dos filhos seguiu a carreira militar. Abílio foi sempre aos almoços de confraternização, era muito querido entre os seus antigos subordinados.

É a vez de falar de Amável Velez Serra, que se alistou como voluntário aos 19 anos de idade. Tinha feito a Escola do Exército, a sua primeira comissão foi em Angola. Casa-se por procuração em 1957 com Maria Julieta Rogado. O primeiro filho nasce um ano mais tarde em Benguela, e no ano seguinte, nasce uma filha em Nova Lisboa, permaneceram em Angola quatro anos.

Em 1961, Amável, já como capitão, é mobilizado para a Índia, a família acompanha-o. Pouco antes da invasão pela União Indiana, a mãe regressa com dois filhos e grávida do terceiro. Amável é preso. Regressa e é novamente mobilizado para Angola, a partir desta terceira comissão a família não acompanha o pai. Amável ficará em Angola entre 1963 e 1965, receberá a visita da mulher e do filho mais novo.

Em 1966, começa em Évora a constituição do Batalhão de Caçadores n.º 1903, Amável vai novamente para Angola, vão para Zau-Evua, há uma grande dispersão da população por sanzalas, grande parte da população fala português. Seguem-se outras deslocações, o Batalhão regressa em junho de 1969. Durante estes dois anos de ausência, Amável nunca escreveu aos filhos sobre a guerra, fala sempre do quotidiano dos filhos, é muito terno na escrita.

Amável voltará a ser mobilizado em 1970, para Moçambique, onde ficou mais dois anos. E logo a seguir para Angola onde se encontrava quando se deu o 25 de abril. Os filhos não encontraram correspondência que o pai tivesse enviado destas comissões, embora recordem que ele escrevia com regularidade, sobretudo os pais entre si, e também os filhos recordam que o pai nunca falou de situações pelas quais tivesse passado durante o período em que esteve mobilizado, nem sequer do tempo em que esteve preso na Índia, nem mesmo com o filho mais novo, que seguiu a carreira militar.

Itinerários diferentes são o que iremos reportar a seguir, envolvendo Carlos Alberto de Oliveira e Lemos, Oficial da Marinha, que deixou uma correspondência singularíssima, e de Pedro João dos Santos Reis, Oficial da Arma de Infantaria. Recordamos ao leitor que estamos a passar em sequência a correspondência entre pais mobilizados e os seus filhos menores durante a Guerra Colonial. Em aerogramas escritos e desenhados, o militar vai desempenhando o seu papel de pai. Os filhos, por seu lado, consoante a idade, vão respondendo da maneira que conseguem, por vezes a com a ajuda das mães. Esta troca de correspondência oferece-nos uma reflexão muito particular sobre a ideia de família numa sociedade em mudança.

Ana Vargas e Joana Pontes

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 6 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27894: Notas de leitura (1911): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 10 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27909: Notas de leitura (1912): Um manjar para filatelistas acérrimos: "Os Selos Coroa da Guiné" (Mário Beja Santos)

6 comentários:

Alberto Branquinho disse...

Pois é, Mário

O Coronel Santiago Cardoso foi o Comandante do meu Batalhão e apresentas o Homem, não o Militar, sob um ponto de vista que eu desconhecia.
Por outro lado, não fazes referência a um dos filhos que é (ou foi) figura pública e que, em dado momento, teve grande intervenção no Norte. Talvez por essa razão não seja referido. Conheci-o num dos almoços do Batalhão que teve lugar no quartel de V .N Gaia, onde nós (BART 1913) estivemos antes da partida para a Guiné.
Abraço

Carlos Vinhal disse...

Diz-se a determinada altura do texto que o BART 1913 teve 26 mortos em combate. Percorri as páginas do Tomo II Guiné -Livro I da CECA, entre 26 de Abril de 1967 e 02 de Março de 1969, não tendo encontrado esse número de baixas nem nada parecido.
A guerra foi demasiado violenta e houve mortos a mais para se empolar os números.
Carlos Vinhal
Coeditor

Eduardo Estrela disse...

O Alberto Branquinho como militar que foi desse BART 1913 poderá esclarecer-nos sobre esse número de baixas.
Abraço
Eduardo Estrela

Alberto Branquinho disse...

Olá Carlos e Olá Eduardo!

Foi preciso falar em mortos para a gente se encontrar...
Pois, o que vos posso dizer é o seguinte:
- O BART 1913 com a sua CCS mais a CART 187 foram, logo de início, para Catió (a CART1687 em Cufar, a uns 10/12 Kms. de Catió);
- A CART 1688 foi colocada em BULA (não Buba) e nunca mais os vimos;
- A CART 1689 (a minha) saiu do Uíge directamente para uns batelões e lá fomos Geba acima para Fá Mandinga/Bambadinca; aí ficámos de intervenção, a fazer de mulher-a-dias, em casas alheias, durante uns seis meses; a seguir fomos para casa do pai, para Catió, onde estivemos outros cinco/seis meses; depois voltámos a vida de mulher-a-dias e uma das limpezas que fizemos foi a segurança à construção do novo quartel de Gandembel no "corredor de Guileje (uns 40/45 dias) e outro na zona de Tite (Gubia).
Nunca mais voltámos a ver o BART 1913 nem as outras duas companhias do Batalhão a não ser no Uíge, de novo, no regresso. E não me lembro de se falar em mortos.

Com isto quero dizer que nada sei nem procurei saber sobre os mortos ou feridos das outras duas companhias do Batalhão. Soube sim que nenhum dos meus mais próximos tinha morrido. E nunca mais os vi porque saí de V.N.Gaia a correr quando me disseram que o meu Pai estava muito mal (morreu pouco depois). Lembrei-me agora que vi o ex-alf. Cerqueira da CART 1688 no Porto, algum tempo depois, à porta de um stand de automóveis, cheio de problemas a fazer uma manobra com o carro novo que tinha acabado de comprar e, quando berrei por ele, parou e pediu-me "20 paus" para meter gasolina; nunca mais o vi.

Em resumo: quanto a mortos só sei os da minha companhia, que foram 4, mas creio que morreu mais um (soldado nativo) já em Bissau. Evacuado durante uma operação.

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Eduardo Estrela disse...

Obrigado Alberto!
Ficam então os números oficiais que segundo refere o Carlos Vinhal, nada se parecem com os mencionados.
Abraço
Eduardo Estrela

Alberto Branquinho disse...

Boa noite Carlos e Eduardo

Depois de ler os três (!) textos aqui publicados sobre o mesmo livro, onde são abordados casos de militares do QP (e suas famílias), pois, ao que parece pelo livro, a guerra foi feita SÓ por militares do QP que tinham escolhido essa profissão e não pelas dezenas de milhar de rapazes a quem a vida foi "truncada" durante cerca de quatro anos (esperemos para ver), surgiu-me a seguinte questão: - Será que consideram "baixas" todos os militares que, por qualquer razão foram abatidos ao efectivo do do batalhão?
Para nós baixas eram os mortos!