Guiné > Região de Tombali > Gadamael > Op Dissaurso Negro > CCP 122 / BCP 12 > 2 de junho de 1973 > Desembaeque
(...) No dia 2jun73, chegou a Gadamael Porto a CCP 122, depois a CCP 123 a 4jun73 e a minha Companhia, a CCP 121, ainda não completamente refeita dos acontecimentos de Guidage, embarcou no dia 11jun73 pelas 23h30, no cais de Bissau, na LDG Bombarda, rumo a Cacine aonde chegámos no dia 12 de madrugada. Fomos transferidos para um Navio Patrulha (LFG) que nos levou até perto de Gadamael Porto.
Fizemos transbordo para botes de borracha e sintex em virtude da maré estar baixa e da zona do cais estar a ser atacada.
Fomos deixados na margem mas dentro de água num braço do rio oposto ao cais, choviam granadas que entravam na água à nossa frente mandando um repuxo de água pelos ares. Primeiro “rebentavam”, depois ouvia-se o silvo da trajectória e só mais tarde a saída.
Chamávamos-lhe "supersónicas" , era um tipo de granadas a que não estávamos habituados, mais tarde vim a saber que se tratava dum canhão 130. Não houve estragos por se enterrarem no lodo, fez-me lembrar cenas do filme “ O dia mais longo”, a uma escala muito reduzida (...) (**)
(...) Nós, nos intervalos quando não estávamos no mato, procuravámos passar o tempo jogando às cartas, loto ou qualquer outro entretenimento. Ele naquele dia queria loto, eu olhei para a altura do Sol e depois para o relógio, disse-lhe que não porque estava na hora do ”lanche”. Uns chamavam-lhe "lanche", outros chamavam-lhe “o chá das 5”.
(...) Eram aproximadamente dez horas da manhã quando saímos de Cacine com rumo a Gadamael. Desta vez o transporte foi feito em LDM (lancha de desembarque médio), que por serem mais pequenas eram mais facilmente manobráveis no rio que ia estreitando à medida que penetrava em terra. Conforme nos aproximávamos ia-se também acentuando o nosso nervosismo que, em alguns de nós, era já perfeitamente visível. Levaríamos connosco, o equipamento necessário para dois dias. Tudo o resto ficou nas LDM.
A quatro ou cinco quilómetros de Gadamael Porto, passamos ordenadamente das LDM para os Zebros (botes de borracha com motor fora de borda) dos fuzileiros. A partir dali, era extremamente perigoso continuar nas lanchas. Os Zebros, muito mais pequenos e de fácil manobra, permitiam-nos um desembarque rápido debaixo de fogo.
Pela primeira vez, desde há muitos anos, foi ordenado o uso do capacete, que apenas tinha sido usado nos primeiros meses da guerra em Angola. Fiquei irritado com esta ordem. O capacete é, neste estilo de luta, um apêndice que não se justifica de modo nenhum e que não compensa o esforço que o combatente despende para o aguentar.
(iii) Bernardino Sena (natural de Portimão, esteve 4 anos na Marinha, 1970/74); antigo tripulante da LFG Argos, junho de 1973):
(...) Tenho esta imagem na minha memória desde junho de 1973.
A LDM, na foto, esteve abordada à LFG, NRP Argos, navio onde eu fazia parte da guarnição, na altura fundeada no rio Cacine, frente a Gadamael Porto.
Após eu ter feito o quarto à máquina das 4 às 8, fui descansar um pouco, até antes da hora de almoço, ao vir ao convés por essas horas, deparo-me com essa lancha de desembarque abordada por estibordo e dentro do poço vejo um pelotão de militares, formados na posição de "à vontade", com equipamento de combate e capacete de aço na cabeça.
Ainda meio confundido com o que via, pois até aquele momento nunca tinha presenciado nada semelhante, levei algum tempo a recuperar tentando identificar que "tropa era aquela".
Trocando conversa com camaradas de serviço ao convés, fiquei então a saber que faziam parte do Batalhão de Paraquedistas, os mesmos heróis que já tinham dado o seu melhor, no norte da Guiné, onde, infelizmente, tinham perdido alguns camaradas na zona de Guidage/Binta/Bigene, onde nós também andámos envolvidos a partir do rio Cacheu dando apoio aos destacamentos de fuzileiros que também por lá combatiam.
Que tristes dias aqueles de Maio, Junho e Julho de 1973. (...)
(Seleção, revisão / fixação de texto, links, negritos, título: LG)
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(***) Vd. poste de 6 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28406: In memoriam (590): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte VI: Recordações amargas de Gadamael (3)
(****) 4 de junho de 2008 > Guiné 63/74 - P2915: Com os páras da CCP 122/ BCP 12, no inferno de Gadamael (Carmo Vicente) (1): Aquilo parecia um filme do Vietname






2 comentários:
Paulo Santiago, o camarada que tu achavas que podia ser o nosso querido amigo e camarada e teu conterrâneo Victor Tavares (o primeiro da esquerda da foto nº 2), será alguém da CCP 122 (e não da CCP 121)...Com o "chapéu de pano" é difícil de distinguir as feições... E a IA, sabes como, tem muitas "alucinações"... A foto original, a preto e branco, é de muito baixa resolução...
Quem seria o apontador da MG42, que se destaca na foto no. 1, á esquerda, em segundo plano?
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