1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Maio de 2026:Queridos amigos,
Foi bom revisitar esta obra pioneira da literatura da guerra colonial. Dos autores escolhidos, alguns irão figurar como figuras proeminentes da literatura contemporânea, caso de António Lobo Antunes, Carlos Vale Ferraz, Lídia Jorge, Álvaro Guerra ou João de Melo. Este último, o organizador da antologia, deu também voz a escritores nacionalistas que se iriam impor como nomes sonantes, caso de Luandino Vieira ou Pepetela. Ninguém ignora que de 1988 à atualidade este subgénero literário cresceu desmesuradamente, falta-nos um João de Melo para nos dar uma panorâmica atualizada da evolução desta literatura, na multiplicidade das suas vozes. Porque é indispensável ir acompanhando tudo quanto se escreveu em Angola, Guiné e Moçambique, e se os diferentes candidatos a organizadores não se sentirem com traquejo de se meterem na empreitada a uma só voz, então que façam a organização a três vozes. Precisamos de, como de pão para a boca, de tal iniciativa.
Um abraço do
Mário
Revisitar uma obra de referência sobre a história da literatura da guerra colonial – 2
Mário Beja Santos
Os levantamentos de obras literárias relacionadas com a guerra colonial são poucos e estão perfeitamente identificados. A primeira iniciativa coube ao escritor e ex-combatente João de Melo, a primeira edição de Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os portugueses em África, Crónica, Ficção e História, data de 1988 e abarca obras que se prendem com a preparação militar, os teatros de operações da Guiné e Angola, obra em dois volumes com edição do Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote. Como é óbvio, a edição está completamente esgotada, mas ainda é possível através de vendedores online conseguir adquiri-la por cerca de 30€, tanto a edição do Círculo de Leitores como a de Publicações Dom Quixote.
Este segundo volume abre uma apresentação histórica da guerra em Moçambique feita por Joaquim Vieira, e desse teatro de operações vamos retirar um texto assinado por Carlos Vale Ferraz, que está inserido na obra-prima deste escritor intitulada Nó Cego, primeira edição em 1972; muda-se de direção e Joaquim Vieira contextualiza os acontecimentos da Guiné, há belas páginas de Álvaro Guerra, como também de José Martins Garcia, autor de uma obra de referência, Lugar de Massacre; de novo Joaquim Vieira apresenta uma exposição sobre as forças armadas portuguesas, irão intervir escritores como Lobo Antunes, Lídia Jorge ou João de Melo.
Carlos Vale Ferraz recenseou admiravelmente o modo como terá sido apresentada a operação Nó Górdio, parecia ser a solução mágica para acabar com a guerra de guerrilhas em Moçambique:
“Meus senhores, hoje é um dia histórico! – assim começou o general antes de prosseguir:
- Vamos dar início ao planeamento final da operação que desequilibrará decisivamente a situação sociomilitar em Cabo Delgado a nosso favor. Vamos dar a estocada de morte no coração do inimigo no planalto dos Macondes. – Sorriu a observar o efeito das palavras na assistência e continuou:
- Nome de código: Nó Cego, classificação de segurança: muito secreto. Com esta operação inauguraremos a época da guerra de grandes meios em ordem ao aniquilamento total do IN. Vamos concentrar o nosso esforço aqui!
Quando o general pronunciou ‘aqui!’, um coronel atarracado, de barba cerrada numa queixada tetraédrica a fechar uma cabeçorra demasiado grande em relação ao corpo, apontou com uma lapiseira extensível três círculos desenhados a cores sobre a mica que cobria os mapas que ele próprio destapara anteriormente, com gesto de contrarregra a correr a cortina do palco.
- Graças aos esforços conjugados das repartições de informações militares e da DGS é agora possível saber a localização exata das três grandes bases IN no planalto dos Macondes: a Gungunhana, a Moçambique e a Nampula. Graças às essenciais modificações em comandos, com a vinda do senhor brigadeiro para o setor de operações e do senhor tenente-coronel para o Batalhão de M., a situação alterou-se profundamente para melhor. – O General fez uma pausa, que o coronel aproveitou para colocar novos mapas, e prosseguiu:
- O conceito da operação é o seguinte: cerca-se esta zona – o coronel apontou -, aproveitando as estradas existentes e construindo com a engenharia as que faltam, para fechar um quadrado de cerco que será guarnecido com emboscadas permanentes realizadas por tropas normais e patrulhamentos regulares com esquadrões de reconhecimento. Quando a ratoeira estiver montada, quando ninguém puder entrar ou sair, lançaremos ao assalto das bases as nossas companhias de tropas especiais, os comandos para a base Alfa, nome de código de Gungunhana, os paraquedistas para a Bravo, a Moçambique e os fuzileiros, em segunda fase, para a Charlie, a Nampula. – Os oficiais do Estado-Maior e os civis das informações abanavam a cabeça de aprovação. – Há dúvidas? - Perguntou o general sem as esperar, continuando:
- Dentro deste quadrado tudo o que mexer é inimigo, será a guerra total! Nesta guerra, meus senhores, não existe a clássica divisão estabelecida entre povos civilizados de cultura cristã ocidental, que distingue combatentes e civis não beligerantes, nesta guerra as próprias populações, de acordo com a estratégia marxista, são o sustentáculo de subversão. Assim, todo o ser vivo encontrado é um inimigo a abater. Esta é uma luta de vida ou morte!”
Recorda-se ao leitor que João de Melo entendeu fazer esta antologia a quatro mãos, ou seja, introduziu alguns textos de escritores africanos ligados às chamadas lutas de libertação nacional.
Antes das suas publicações em livros, Álvaro Guerra publicou um conto intitulado “O Tempo Em Uane” em Antologia do Conto Ultramarino, organização de Amândio César, em 1972 e, anteriormente, em Histórias Breves de Escritores Ribatejanos, Antologia organizada por António Borga, Lisboa 1968. A obra consta neste volume de Os Anos da Guerra, mas preferi escolher um texto de um dos seus primeiros livros, intitulado O Disfarce, que teve a sua primeira edição em 1978:
“Sugeriram-lhe que deitasse fogo à aldeia antes de se irem embora e ele recusou porque a sua guerra não era a mesma em que se estava a bater, a sua ainda não tinha começado, seria uma guerra de ganhar ou perder e não aquela, se bem que duvidasse que essa outra guerra alguma vez chegasse. O mais rapidamente que puderam iniciaram a corrida desigual através das picadas traiçoeiras, corrida contra a surpresa que estaria montada algures no seu caminho (…) Foi logo a seguir. Caiu em cima deles a surpresa, uma chuva de ferro, estampidos e silvos de ar vergastado e quedas e ramos partidos e pragas e explosões e o gargalhar fantasmagórico das rajadas matadoras e o homem ao lado dele com o sangue no ventre e nas mãos que disse ‘Ai, mãe!’ e morreu.
Atrás da sua árvore levou a mão ao bolso e tirou-a, a reluzente granada com quem os seus dedos andavam calhados de amor e vício, puxou a argola amarela num repente de furor e ficou um momento a mirá-la, a cavilha apenas presa pelos dedos brancos de força enquanto, desfocado, o cadáver do ventre sangrento o olhava fixa e friamente; jogou-se para a luz, para lá do escudo eleito, e atirou-a para de onde vinha a morte sonora e invisível que semeava surpresas de sangue. Por um momento foi a rainha da metralha e da luz ondulante de calor e do inacessível outro lado da estrada e foi esperança também, soturna esperança subindo numa nuvem de pó castanho após deflagrar e se desfazer como um velho astro em meteoritos escaldantes. Mas já não estava sobre o coração, nem à cintura, nem no bolso, e ele ficou terrivelmente tranquilo, monstruosamente tranquilo e sozinho, a pensar na mulher de quem gostava, na adolescência provinciana e em certos lugares seus preferidos e em como eles seriam se e quando lá voltassem, enquanto, tranquilamente, disparava a metralhadora. Tudo estava aviado, até o esquecimento.”
Outro autor que se impôs nas décadas de 1970 e 1980 foi um ex-oficial que teve comissão na Guiné, José Martins Garcia, irá ter obra extensa e variada, mas houve um livro que então ganhou notoriedade e ainda hoje é motivo de estudo académico, intitulado Lugar de Massacre, com primeira edição em 1975, distingue-se por uma inteira rebeldia, quadros de regabofe, com tiradas delirantes, atmosferas surreais, fica aqui uma amostra dessa trama que oscila entre a sátira e o truculento:
“Eram sete, na camarata, todos por conta da Neuropsiquiatria, no Hospital Militar de Bissau, no mês de maio de 1968, gozando os benefícios do ar condicionado e da desintegração psíquica. O maior falador chamava-se Barnabé e fora enlouquecido por problemas alimentares. Contava as suas desventuras várias vezes por dia, amaldiçoando o ex-comandante do batalhão, um diabético insuportável, cujo ódio aos saudáveis atingira a demência, a ponto de punir com alguns dias de prisão todo aquele que ousasse levar para a mesa qualquer iguaria além da ementa.
- Estou vingado! – rematava o Barnabé.
Vingado pelo novo Governador, de quem já circulavam notícias contraditórias: para alguns tratava-se de mais um louco; para outros, de um justiceiro. Chegara ao batalhão do comandante diabético, vira o descalabro da unidade e prevenira: ‘Faça as malas’. Dez dias de prisão. Justiça.
- Há um mês que estou aqui, nos malucos – disse Barnabé. – Ao fim ao cabo, não se está mal. Vais ver como te habituas…
Desciam para a consulta, empijamados. Mostravam-se atulhados os corredores do hospital. Desde as pernas partidas às chagas repugnantes, desde as bochechas inchadas por abcessos dentários até às vítimas trémulas do paludismo. E havia os que, de muletas, entravam para a grande lista das vítimas das minas, sem pés, às vezes sem pernas. Um bafio monstruoso, agora acentuado pela chuva (…) – Não tenho nada contra o seu riso – disse o psiquiatra. – O riso liberta. Mas, quando puder, fale.
Voltou à camarata, ao entardecer, e reconheceu que os helicópteros eram reais. Foi até à varanda e pôde certificar-se da existência de um grande inseto acionado por hélices. Do bojo eram retirados os feridos envoltos em ligaduras. Depunham esses montes de carne humana em macas de cabos luzidios de tanto serem percorridos por mãos suadas de maqueiros. O hospital absorvia toneladas de carne esfacelada, múmias recentes, arrobas de membros partidos, porque a estação das chuvas trazia o aumento dos desastres bélicos.
Mas quem não perdia uma só de tais cenas ensanguentadas era o alferes Jardim, um novato que, antecipando-se à sorte, chegara à Guiné já absolutamente desequilibrado. Tinha amado a tal ponto os estudos de Engenharia que não lhe escapava manivela, maquineta, alavanca ou válvula sem verificação das possibilidades funcionais. Adorava a eficiência do helicóptero. Mal lhe ouvia o rumor, corria para a varanda, envergando o pijama mais porco de todo o hospital, porque a paixão pela técnica o levava a oleosos sítios, onde chafurdava, feliz, em porcaria de toda a sorte, limpando em seguida mãos sumárias ao pijama já de cor indefinida. Ficava fascinado pela máquina. Assistia, soprando entusiasticamente, à descolagem. Seguia com olhos piscos até à confusão da máquina com a bruma. E suspirava, saudoso, na despedida, todo entregue à esperança da próxima carnificina.”
Assim se põe termo a uma importante obra que se revisita com prazer, obra pioneira, com enquadramento histórico de Joaquim Vieira e uma antologia variegada de onde emergiram vultos literários como João de Melo, Álvaro Guerra, Carlos Vale Ferraz ou José Martins Garcia.
João de Melo
Carlos Vale Ferraz (1946-2025)
José Martins Garcia (1941-2002)
Álvaro Guerra (1936-2002), imagem dos Arquivos da RTP, com a devida vénia
Duas imagens retiradas do livro "Os Anos da Guerra", organização de João de Melo
Capa da edição de Os Anos da Guerra, Publicações Dom Quixote
_____________Notas do editor:
Vd. poste de 28 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28382: Notas de leitura (1966): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 1 (Mário Beja Santos)
Último post da série de 2 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28394: Notas de leitura (1967): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 2 (Mário Beja Santos)








5 comentários:
O cuidado com que o Beja Santos vai o buscar o pior da nossa guerra, agora em Moçambique. Há quem goste...
Abraço,
Ant´+onio Graça de Abreu
Mário
Estava à espera de mais. Termina com o nº. 2.
Tantos autores citados no livro do João de Melo, incluindo uma autora que aprecio (mas não como autora de "literatura DA guerra colonial", apesar de entender que terá frequentado a Messe de Oficiais em Moçambique) e acaba no 2º. episódio.
Agora aguardemos a publicação do texto n "O Combatente da Estrela", como habitualmente.
.
Alberto Branquinho, ouvi à mesma autora, numa palestra numa biblioteca municipal, há uns anos em Vila Franca de Xira, que sobre a guerra em Lourenço Marques, soube muita coisa no salão de cabeleireiro muito frequentado por esposas de oficiais.
Mas tens razão, pois nas messes de oficiais dos batalhões não seria apenas whiskies e poker.
Olá, António Rosinha
Obrigado pela informação, dada assim, pessoalmente e como testemunha.
É que já tinha ouvido isso de outra pessoa, mas não me lembro quem foi.
Claro que Lídia Jorge poderá não ter pretendido escrever "literatura DA guerra colonial", mas, isso sim, retratar, um estado de coisas, estados de alma, um ambiente social, embora, tanto em Lourenço Marques como em Luanda a guerra estivesse... muito longe. Como tive ocasião de observar em algumas deslocações a ambas as cidades.
Abraço .
AGA, pior que isto, tive nas minhas andanças em Luanda na minha repartição um bombeiro voluntário que era ao menor sinal de algum acidente, era ele o primeiro a despachar-se, largar tudo e correr para socorrer os sinistrados.
E os colegas ficávamos ansiosos para sabermos do acontecimento.
Mas a nossa ansiedade era que fosse a descrição feita por esse mesmo colega bombeiro voluntário.
Porque uma perna esfacelada, uma cabeça a sangrar descrita por ele, dava um filme de terror, e a assistência a ouvir e ele a relatar até os mais pequenos pormenores, até se babava.
Sentia-se realizado e ficava à espera ansioso do próximo pedido de socorro.
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