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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28430: Notas de leitura (1970): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
É melhor tarde do que nunca. Não vale a pena andar a verrumar a consciência por ter esquecido este livro monumental (na dimensão e no sopro) em que intervêm ex-combatentes, gente que terá andado para os lados de Mueda, regressam nos inícios de 1970 e começam nova vida, um tenente-coronel que entretanto enviuvara e se vai meter de amores com a mulher a dias, isto muito antes de aparecer uma das figuras mais notáveis da galeria romanesca de Lobo Antunes, dá pelo nome de A nuvem de perfume; o soldado Abílio que trabalha na empresa de mudanças do tio, o oficial de transmissões que é militante de uma organização maoísta, o alferes que casa com uma menina muito bem e que nem sonha com o que lhe vai ser reservado com o 25 de abril, estão todos em jantar de convívio, há para ali um narrador que passa por capitão ou tenente, já há uns capitães em movimento, este jantar mete os desabafos mais íntimos, contam-se os desmandos que cada um vive ou está a viver... e o leitor que se prepare que o 25 de abril só vem mais adiante.

Um abraço do
Mário



Chegámos da guerra, apanhámos o fim do Estado Novo, vivemos o 25 de abril e o depois: como e porquê "Fado Alexandrino", de Lobo Antunes, é um notável romance ancorado no fado de ex-combatentes – 1

Mário Beja Santos

Esta obra-prima de António Lobo Antunes teve a sua primeira edição em 1983, vem na sequência de um ciclo de obras que versam a experiência dele como tenente-médico em Angola, a sua vida profissional como psiquiatra, os desabafos sobre a sua vida íntima. Fado Alexandrino, considerado pela crítica como um dos seus textos fundamentais, justamente premiado, prende-se com a história de um conjunto de militares no período final do Estado Novo, segue-se o 25 de abril e o PREC e o culminar de um tempo de rescaldo.

Romance a várias vozes, por vezes interferindo quase em vertigem o que eles vão dizendo uns aos outros ou o que guardam para si no discurso da consciência, falando desabridamente da vida amorosa onde não faltam desastres e desencontros, no seu trabalho, da atmosfera do país, temos aqui um retrato da década de 1970 e o início da próxima.

Abre as hostilidades o soldado Abílio, veio de Moçambique, aliás como todos aqueles que vão entrar nesta monumental sala de espelhos, é desmobilizado num quartel na Encarnação, sente-se lá e cá, sabemos que os pais, entretanto, faleceram, vai bater à porta da casa onde os pais viveram e onde agora vive a irmã Maria Otília. Vai conversando com os camaradas ao longo do jantar, conta-lhes que a irmã se juntou com o primo da porteira, um mulato que trabalhava no restaurante do aeroporto, e que a vai derreando de filhos,  de porrada, não há lugar para ele naquela casa, irá procurar o tio Ilídio, no serviço de mudanças teremos muitos pormenores mais adiante.

Intervém agora o alferes, dizendo que era casado e com uma filha pequena nessa altura, chegado de Moçambique apresentou-se no banco, tal como o soldado anda por lá e cá:
“Sentei-me no gabinete, fechei a porta e pensei Não houve guerra nenhuma, não andei vinte e tal meses em Moçambique de espingarda às costas, inventei coisas parvas esta noite: a disenteria, a água choca, os mortos, os feridos, o oficial de sapadores que ficou sem o braço ao desarmar uma mina. Pensei Não houve guerra não houve guerra não houve guerra não houve guerra, e comecei devagarinho a esquecer-me. Quando me trouxeram o café, às onze da manhã, nunca saíra de Lisboa e África era os nomes dos rios que se decoravam na escola e a gente esquecia logo a seguir, para os substituir por serras, gramática e o ramal da Beira Baixa. Olhava as pessoas, meu capitão, as secretárias, os colegas, os empregados, os contínuos, despachava requerimentos, folheava propostas, assinava relatórios, e pensava É claro que ontem estive cá, que merda devia eu para ter chupado tantos sonhos esta noite?”

A obra tem um narrador, um tanto misterioso, pensamos que por vezes é um tenente ou um capitão. Temos agora o oficial mais graduado a apresentar-se, tenente-coronel, foi comandante de batalhão desta gente, a mulher morreu-lhe de cancro, vai conversando com um oficial de transmissões, este queixa-se da vida cara, o tenente-coronel encontra a casa vazia, vazio anda ele, não deixa de meditar no futuro:

“Que vou fazer agora um ano inteiro, atrás de uma secretária, a dar ordens a sargentos bolorentos, e depois de novo Angola ou Guiné ou Moçambique e vinte e tantos meses de guerra, armas, caixões, rostos cansados de sobreviverem todos os dias ao próprio medo, à própria inquietação, ao próprio pequenino desespero tenaz a evaporar-se…”

Outra figura em cena neste jantar de largas centenas de páginas: 

“O oficial de transmissões morava com a madrinha surda e uma cadela gorda, às manchas brancas e pretas, sem raça, num andar muito velho, de salas enormes, na rua por detrás da feira popular (…) A minha madrinha morreu em setenta e cinco, gasta da PIDE ir lá a casa de madrugada, buscar-me para os interrogatórios.” 

Interrompe o tenente-coronel para se queixar da então vida sem rumo, atropela o oficial de transmissões, vai descrever a sua vida de esquerdista-maoísta, iremos até às profundezas de uma organização ultraminoritária sonha em revoluções, assaltos e atentados com esquemas de completa risota.

É a vez do alferes contar a sua história, os seus amores pela Inês, uma menina oriunda de um meio muito bem a viver numa quinta em Carcavelos, houvera casamento apressado, a Inês já ia de esperanças, o nosso alferes, que se chama Jorge, recorda que lá em Moçambique um catequista lhe vendeu uma menina, houve que pagar dote pela criança, perpassa na narrativa um dos fantasmas mais dolorosos do colonialismo.

O tal capitão, que às vezes se assume como narrador pergunta ao soldado Abílio como é que ele se adaptou ao trabalho, ele responde-lhe e bem divertido:

“Chegava às oito da manhã ao armazém, com os vidros das janelas lá no alto, junto ao teto de zinco, todos partidos, paredes fuliginosas, as palavras NÃO FUMAR, a encarnado, pálidas como batom numa camisa velha, móveis e caixotes e armários coxos que uma claridade difícil, a vara, vinda não se sabia de onde, iluminava, revelando superfícies poeirentas, estofos devorados pelos ratos, armações de bidés, a gaiola do escritório do tio à entrada. Era aí, meu capitão, do lado de fora, claro, que se aguardava o serviço do dia (Mudar o recheio do número Tal da rua Tal para a avenida Tal, trazer a tralha mais pesada de uma vivenda em Caneças, ir a este endereço de Caxias rebocar dois pianos para a Amadora), batendo as solas no chão com frio, fumando cigarrecos baratos, observando o céu descolorido pelas fendas no telhado. Havia uma espécie de galeria precária no primeiro andar, onde se deixavam as lancheiras do almoço, se mudava de roupa e se comia, com um postigo para a cerca do asilo dos malucos, na qual miseráveis homenzitos de farda castanha gesticulavam no meio de árvores polémicas. O senhor Ilídio entrava às oito e meia sem cumprimentar ninguém, soprando a sua asma feroz de pacaça num susto de roncos e de silvos, de barba crescida e olhos inflamados por insónias tormentosas, palpava o casaco à procura da chave e encerrava-se no cubículo entulhado, carimbando faturas, protestando contra a anarquia de papéis que ele próprio segregava.”

O soldado Abílio descreve os outros empregados, um velho a quem faltavam três dedos e um tipo magro que não falava nunca.

Como já se preveniu, esta escrita prima por excessos, cenas delirantes, a paixão de Abílio pela Odete, que se saberá mais adiante que é a Dália da organização maoísta, nesta altura do andamento do jantar o nosso tenente-coronel já tem informação que os capitães andam muito agitados com a possibilidade dos milicianos virem a concorrer na escala, o tenente-coronel medita na sua infância e na sua juventude e temos mais uma história de caixão à cova, o tenente-coronel mete-se de amores com a mulher a dias, a filha entra de surpresa lá em casa, cobre a boca aberta com a mão numa infinita surpresa de criança.

Vamos seguidamente conhecer a história do oficial de transmissões lá no Terreiro do Paço, a fazer vigilância em nome da sua organização maoísta, que só sonha com revoluções, atentados e raptos e irá planear um assalto a um banco, dada a sua exiguidade de fundos.


António Lobo Antunes (1942-2026)

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 9 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28419: Notas de leitura (1969): Nos 100 anos do historiador Padre Henrique Pinto Rema e onde fala dos Lusíadas e a Guiné (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28419: Notas de leitura (1969): Nos 100 anos do historiador Padre Henrique Pinto Rema e onde fala dos Lusíadas e a Guiné (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Setembro de 2026:

Queridos amigos,
Tive a felicidade de estar presente, não conhecia pessoalmente este ilustre historiador, dele muito tenho falado no blogue e fiz uma súmula do seu magistral trabalho a "História das Missões Católicas na Guiné" no Tomo I de "Guiné Bilhete de Identidade". Miraculosamente, apareceram à venda alguns exemplares deste livro, de há muito esgotado, parecíamos sete cães a um osso, e havia também um conjunto de brochuras onde encontrei este trabalho de Pinto Rema datado de 1972, faço dele um curto comentário acerca dos cruzamentos entre o rigor histórico e as movimentações propagandísticas, naturalmente distorcedoras da verdade documental. A Academia Portuguesa de História, de que Pinto Rema foi seu Secretário-Geral, esteve presente em força, a historiografia deste Franciscano excede a Guiné e em muitos pontos é constituída por obras de referência.

Um abraço do
Mário



Nos 100 anos do historiador Padre Henrique Pinto Rema e onde fala dos Lusíadas e a Guiné

Mário Beja Santos

O Centro Cultural Franciscano situa-se no Largo da Luz, em Carnide, anexo de uma casa apalaçada que também pertence à Ordem Franciscana, atravessei a Feira da Luz em plena ebulição com olaria, padaria e haveres de muitas espécies, em 23 de setembro, pelas quinze horas, iria ocorrer a sessão de homenagem pelos seus 100 anos do historiador Padre Henrique Pinto Rema, a quem a história da Guiné muito deve, com destaque para uma obra de referência História das Missões Católicas na Guiné. Ali chegado, verifiquei que havia publicações à venda, esta História das Missões Católicas estava completamente esgotada e apareciam ali alguns exemplares, atirei-me como gato a bofe, em minutos desapareceu um stock que tinha ficado estranhamente em depósito, fui um dos felizardos a arrebanhar um exemplar espúrio. E descobri uma pequenina brochura intitulada Os Lusíadas e a Guiné, obra do Padre Rema, publicada nas comemorações do IV Centenário da publicação d’Os Lusíadas, Bissau 1972. Dele falaremos mais adiante, e até se encontrou um documentário da RTP alusivo, vamos ver o Padre Rema em Bissau a apresentar a exposição camoniana a pessoas como o Ministro da Defesa, Sá Viana Rebelo, o Ministro do Ultramar, Baltazar Rebelo de Sousa e o Governador António de Spínola. O leitor pode consultar o respetivo site aqui: https://arquivos.rtp.pt/conteudos/exposicao-camoniana-em-bissau/.

Os académicos cumpriram o seu serviço, seguiu-se uma tocante homenagem ao aniversariante, sempre sorridente deu conta das velas e choveram as palmas após o cântico da praxe. Vim para casa e comecei a ler a brochura, era a melhor homenagem que podia prestar a este homem devotadíssimo à sua missão apostólica e que deixou uma obra cultural assente numa investigação rigorosa e perdurável.

Comecei por ver os comentários da obra ímpar de Camões em cujas estâncias se alude às viagens de Gama pela costa ocidental africana. O navegador está a contar a sua viagem para a Índia. Diz que deixaram Massília, que é a África do Norte, uma costa estéril, porque não produz nada, o deserto do Sara, em baixo vivem os Azenegues na Barbaria, segue-se a “Etiópia” ocidental, este é o tema da Estância VI do Canto V. Fala-nos depois de o “limite aonde chega o sol” é o trópico de Câncer, abaixo vivem os povos de cor negra, a quem os navegadores irão chamar Terra dos Negros. Camões usa linguagem mitológica, fala do pai Apolo (ou Sol). O primeiro rio que se encontra é o Senegal. Na Estância VII fala-se no Cabo Arsinário, nome que foi dado por navegadores para Cabo Verde, perto de onde hoje se levanta a cidade de Dakar. O épico volta atrás para falar das Ilhas Canárias, noutra Estância falará de Santiago, e assim chegamos à Estância X onde ele refere a província Jalofo, a mui grande Mandinga e o rio Gâmbia. Na Estância seguinte falará das Dórcadas, há quem as identifique com o arquipélago dos Bijagós. Nas estâncias seguintes, Camões refere-se à viagem em direção ao sul (“Austro”), deixando para trás a Serra Leoa com o seu Cabo das Palmas, nome dado pelos portugueses.

Importa agora refletir a que propósito foi dado como altamente conveniente publicar sobre os Lusíadas e a Guiné e fazer uma exposição evocativa do IV Centenário d’Os Lusíadas em Bissau. O Padre Rema deixa claro que a Guiné pertence À memória histórica e literária de Portugal, à presença portuguesa em África, à conexão lusíada com África. Recorde-se que o Padre Rema vinha publicando desde a década de 1960 estudos no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, caso de A primeira envangelização da Guiné (1434-1533). Camões é a ponte entre o passado e o presente. Este tipo de análise acabaria por se cruzar com interesses políticos tanto do governador Spínola como da lógica da política ultramarina, mas há uma distinção a fazer: Rema reflete no plano da memória, da história da cultura, o regime e o governador da Guiné tem objetivos políticos e propagandísticos, estamos em 1972, o marcelismo intenta pôr as comemorações ao lado da sua política. Numa intervenção de “conversa em família”, em 1971, Marcello Caetano apontava 1972 como um ano de grandes comemorações, associando a celebração de Camões com a presença de Portugal no mundo e até a defesa do Ultramar.

O trabalho de Pinto Rema era útil para o regime, mas o historiador era muito mais do que um agente necessário para aquela ocasião evocativa. Na sua obra maior, História das Missões Católicas na Guiné, publicada em 1982, a profunda investigação nada tem de propagandístico, espelha fielmente sucessos, fracassos, conflitos e contradições da presença missionária portuguesa.

O evento de Bissau procurava fazer acreditar que a história de Portugal, o poema épico, as referências ao Senegal e Cabo Verde, tal como as referências às Canárias e a presença portuguesa, a menção do Jalofo, da mui grande Mandinga era tudo e a mesma coisa, Os Lusíadas davam chancela à Guiné Portuguesa. Acontece que a História não teve o mesmo curso que o poema épico. A tal Guiné, Senegâmbia, Rios de Guiné de Cabo Verde, Etiópia menor, Terra dos Negros e menções afins, como aparece em textos dos séculos XV e XVI era uma extensão geográfica com outra amplitude que aquela Guiné, que teve uma superfície reconhecida pela Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. Um aspeto muito curioso de um outro texto de Pinto Rema, dedicado às missões católicas na Guiné, é que ele utilizou a estância X do Canto V para definir historicamente a Guiné.

Não podemos iludir que a Guiné pertence à memória histórica portuguesa e à sua presença naquela região africana. A lógica do regime era aproveitar o poema épico para dar um aval à presença portuguesa contemporânea na Guiné. Só que os versos camonianos nada têm a ver com o Estado ou o território definido em 1886. Pinto Rema procedeu a uma leitura histórica retrospetiva, tem o ponto de partida numa geografia africana cabo-verdiana e coloca-a na história daquilo que, no século XX, era a Guiné Portuguesa.

É neste contexto que a brochura é muito interessante como objeto de análise. Se ir saudar este homem de grande envergadura missionária e historiador de alta qualificação da Guiné era o meu propósito, também beneficiei ficar com uma brochura que nos ajuda a pensar como existe uma diferença abissal entre o rigor da história e o manuseio propagandístico.

O Padre Henrique Pinto Rema vai soprar as velas do bolo do seu aniversário
Mesa da sessão de homenagem aos 100 anos do Padre Rema, ele foi Secretário-Geral da Academia Portuguesa de História, e a Academia esteve presente em cheio, incluindo os académicos franciscanos
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Notas do editor:

Vd. post de 18 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28358: Agenda cultural (931): Convite para a Sessão Comemorativa do Centésimo Aniversário do Pe. Frei Henrique Pinto Rema, a realizar no próximo dia 23 de Setembro, a partir das 15,00 horas, no Centro Cultural Franciscano, Largo da Luz, n.º 11, em Lisboa

Último post da série de 5 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28404: Notas de leitura (1968): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 2 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28358: Agenda cultural (931): Convite para a Sessão Comemorativa do Centésimo Aniversário do Pe. Frei Henrique Pinto Rema, a realizar no próximo dia 23 de Setembro, a partir das 15,00 horas, no Centro Cultural Franciscano, Largo da Luz, n.º 11, em Lisboa

100.º ANIVERSÁRIO DO PE. FREI HENRIQUE PINTO REMA

23 SETEMBRO 2026 ÀS 15 HORAS

Faz-se divulgação da sessão comemorativa do Centésimo Aniversário do Pe. Frei Henrique Pinto Rema, a realizar no próximo dia 23 de Setembro, a partir das 15:00H, no Centro Cultural Franciscano, em Lisboa (Largo da Luz, 11), Organização da Província Portuguesa da Ordem Franciscana e da Academia Portuguesa da História.

Com os melhores cumprimentos,
LUÍS SILVA
Apoio Técnico Administrativo




Pe. Henrique Pinto Rema, missionário franciscano, autor da mais importante obra sobre a missionação na Guiné, a ser condecorado pelo Presidente da República.

Como bem refere o nosso confrade Mário Beja Santos: "A dívida da historiografia da Guiné com ele (Pe. Henrique Pinto Rema) é impagável"

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Nota do editor

Último post da série de 28 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28302: Agenda cultural (902): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império", de Recaredo (Angelino Santos Silva): apresentação do livro,. amanhã, sábado, 29 de agosto, em Paredes (Biblioteca Municipal), e 1 de outubro, quinta feira, no Porto (Unicepe)

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Guiné 61/74 - P26406: Agenda cultural (877): Rescaldo da apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade", de Mário Beja Santos, levada a efeito no dia 13 de Janeiro de 2025 na Livraria Municipal Verney, Oeiras (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Janeiro de 2025:

Queridos amigos,
É uso e costume nas apresentações oferecer aos participantes uma súmula do que se pretende apresentar. Lamentavelmente, uma tendinite muito arreliadora no meu ombro direito tirou-me entusiasmo para preparar um datashow onde se passassem imagens alusivas a algumas passagens significativas da exposição. Impunha-se explicar à assistência que o meu trabalho nem de perto nem de longe é uma História da Guiné, não passa de uma antologia o que eu considero um acervo de textos um tanto determinantes para entender como se processou a presença portuguesa na Grande e na Pequena Senegâmbia, até se chegar à fundação da Guiné, com as fronteiras aproximadas que tem hoje, facto que só aconteceu em 1886. Portanto, o arco histórico vai da crónica de Zurara a Honório Pereira Barreto, foi ele que deu corpo à junção de parcelas que se estendiam do litoral para o interior, foi ele que se forçou para que o Governo de Lisboa defendesse com unhas e dentes perante a França a legitimidade que tínhamos em toda a orla do Casamansa, em vão. E havia que justificar a razão de dois anexos, um referente à missionação e outro ao pensamento ideológico subjacente à criação do Terceiro Império, a História de Portugal, e por tabela a História da Guiné, têm essa dívida para com a Sociedade de Geografia, muito particularmente entre 1875 e 1900.

Um abraço do
Mário



Da Grande para a Pequena Senegâmbia: a Guiné antes da Guiné
(Apontamentos para a apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade", Tomo I, na Livraria Verney, Oeiras, 13 de janeiro de 2025)


Mário Beja Santos

Agradecendo em primeiro lugar, na pessoa do Sr. Coronel Manuel Barão da Cunha, o honroso convite para estar convosco e dar-vos conta do meu trabalho, onde procuro os textos mais relevantes que fundamentam a identidade guineense, não só como empório comercial, colónia e país independente, empreendimento de dois livros, é do primeiro que vos vou falar, dessa Guiné do comércio dos rios e rias, a Guiné de Cabo Verde, as praças e dos presídios, das relações luso-africanas, dos judeus na Senegâmbia, nas companhias majestáticas, do tráfico negreiro, das insurreições e também dos acordos com as chefaturas regionais, e assim chegamos a uma fase agregação do território, a ação de Honório Pereira Barreto que foi ajuntando território avulso, também se falará de um período verdadeiramente trágico, os tempos do domínio filipino, que reduziram a presença portuguesa praticamente ao enclave que existe desde o século XVII. Que pode o leitor esperar deste empreendimento a que lancei mãos?


Guiné, Bilhete de Identidade, não é mais que uma tentativa de organizar numa sequência cronológica os factos e feitos mais destacados da presença portuguesa, desde meados do século XV até à governação do comandante Manuel Sarmento Rodrigues, tempo em que a Guiné passou a ser mais do que um ponto no mapa. Importa esclarecer-vos que não se subentenda que foi meu intento fazer uma História da Guiné Portuguesa, tarefa para o qual não vejo condições de viabilização até que se constitua uma ampla equipa multidisciplinar, proveniente de um conjunto de países com história associada à Guiné-Bissau (pelo menos a Guiné-Bissau, Cabo Verde, Senegal, Guiné-Conacri). O meu trabalho é muito modesto e tem um alvo definido: organizar um elenco de textos alusivos, desde a crónica de Gomes Eanes de Zurara até aos atos governativos que no Pós-Guerra uma dinâmica de desenvolvimento deu uma indiscutível identidade política à região, de tal modo que a comunidade internacional jamais pôs em dúvida a legitimidade das suas fronteiras, independentemente de sonhos que tenham passado pela cabeça de um Sékou Touré para arrebatar território em nome do seu projeto da Alta Guiné, ou da conflitualidade da fronteira entre a Guiné-Bissau e o Senegal, que persiste, e não exclusivamente por razões de uma zona marítima que parece ser economicamente promissora – o Casamansa é mais um desses sinais de que os mapas desenhados na Conferência de Berlim não coincidiram com a natureza dos povos a quem outorgaram nações coloniais. Um drama que persiste.

Em termos de organização, cedo me pareceu que não era editorialmente aceitável publicar num só volume todas estas centenas de páginas. E recebi o bom acolhimento das Edições Húmus, o projeto podia cindir-se em dois volumes, havia só que ter em consideração os dados mais relevantes da cronologia. Deste modo, o volume I abarca a chegada dos portugueses à Terra dos Negros; estando liminarmente afastada qualquer hipótese de uma política de conquistas, houve que estabelecer relações com as chefaturas locais e escolher lugares apropriados em regiões do litoral para fazer o trato de mercadorias e também o tráfico negreiro. Gerou-se uma literatura de enorme riqueza, de acordo com a preparação do viajante, as navegações de Cadamosto, o olhar de um geógrafo como Duarte Pacheco Pereira, as expressões assombrosas que acompanham os relatos de Valentim Fernandes ou Diogo Gomes, entre muitos outros, e ganhará preponderância um texto deslumbrante pela observação do pormenor, o Tratado Breve dos Rios da Guiné, de André Álvares de Almada, cavaleiro da Ordem de Cristo. A presença nos rios e rias fez-se com luso-africanos e judeus, havia que enfatizar essa realização e falar de uma figura que permanecerá ativa durante séculos, o tangomao, um perturbador das ordens régias, mas um cabouco da aculturação, e até de uma nova ordem linguística.

Como é compreensível, não me mantive alheado do contexto histórico anterior à presença portuguesa. Mas ninguém ignora que não há fiabilidade nem rigor quanto aos povos autóctones e aos de proveniência sudanesa-nilótica, nem me pareceu de utilidade, já que este meu projeto não se aparenta, nem mesmo colide, com a História da Guiné, e daí não se procurar referenciar, mesmo à luz dos conhecimentos atuais, quais os impérios e reinos que conviveram neste território. Contudo, dá-se a palavra a Carlos Lopes, o seu trabalho sobre o Império do Cabo permite aflorar quem efetivamente aqui foi poder, mesmo que não tenha tido assento em todo o território da atual Guiné-Bissau. Nem mesmo entendi ser útil referências a Arguim e S. Jorge da Mina, dado que a Coroa delimitou rigorosamente, desde o contrato com Fernão Gomes, que as áreas de comércio não se estendiam a outros pontos que não desde o Cabo Verde continental até à região periférica da Serra Leoa.

Impunha-se igualmente referenciar o tráfico de escravos e a importância assumida pelo arquipélago de Cabo Verde no território da Senegâmbia; havia também que falar da competição com holandeses, espanhóis, franceses e ingleses, pois aparecem na Mina, sobem o Senegal, os ingleses formam uma sociedade de comércio na Serra Leoa, os holandeses tomam a ilha de Bezeguiche (Goreia) aos portugueses, como mais tarde Arguim. Isto para relevar que a União Ibérica foi a vários títulos funesta para a presença portuguesa nestes pontos da costa ocidental africana. Com a Restauração, como se disse atrás, essa presença ficou mais ou menos circunscrita ao enclave atual. Funda-se Cacheu, no tempo dos Filipes, com a Restauração nomeia-se capitão-mor para Cacheu, fundam-se Farim e Ziguinchor, floresce o comércio de escravos para o Brasil. Dado que a missionação se constituiu como um fator poderoso da presença portuguesa, entendeu-se pôr em anexo elementos considerados como fundamentais da sua história, por uma questão de racionalidade não se suspendeu a cronologia em 1879, veio-se até ao tempo presente.

No século XVII, Cacheu foi elevada a vila, aparecem estabelecimentos portugueses no rio Bolola e em Guinala (portanto, no Sul). As companhias majestáticas com o exclusivo da navegação e comércio da Guiné, foram um insucesso, tinham o nome de Cacheu a elas associado. Bissau torna-se um ponto de grande interesse, ir-se-á de construção em construção até que no reinado de D. José surge a fortaleza que hoje dá pelo nome de Amura, houve mesmo necessidade de mandar navios de guerra para intimidar os naturais da ilha a não impedirem a construção da praça. Temos então dois capitães-mores, o de Cacheu e o de Bissau. Malsucedidas as empresas majestáticas, em 1783 faz-se contrato com a Sociedade das Ilhas de Cabo Verde para o exclusivo do comércio nestas terras da Guiné.

Na transição do século, os ingleses marcam a sua presença e revelam-se dispostos a ocupar Bolama e não só. A abolição da escravatura irá exigir uma reflexão sobre o que fazer na economia do território. Honório Barreto adquire o que pode, sufoca insurreições, castiga quem comete desacatos, começa a ganhar-se uma certa fisionomia territorial, alarga-se a presença portuguesa, criam-se estabelecimentos. Enquanto isto se passa, os franceses posicionam-se no rio Casamansa, ignoram inicialmente Ziguinchor, fundam os seus próprios comércios, navegam livremente no rio. Não deixa de impressionar a polivalência de Honório Pereira Barreto, a enfrentar hostilidades internas ou externas: a França a Norte, a Inglaterra a Sul e um pouco por toda a parte insubordinações, tratados de paz, acordos com chefaturas. Em maio de 1858, é proclamada a libertação de escravos existentes no território português. Algo tinha de mudar radicalmente na economia do território, havia que investir noutros recursos, nascia a curiosidade pelas potencialidades que a terra oferecia, logo a agricultura.

É altura de vos informar das razões que me levaram a incluir nos anexos um documento que julgo poder iluminar as preocupações de uma elite que se apercebeu de que o destino português se tinha que orientar para África, e o principal e verdadeiramente dinâmico grupo de interesses que se constituiu foi a Sociedade de Geografia de Lisboa; procurei então, sob a forma de ensaio, analisar o que movia estes homens, e como encontraram um catalisador fora do comum, Luciano Cordeiro. As riquezas de África passam para primeiro plano, há que fazer expedições, procurar definir fronteiras, ocupar cada vez mais espaço. Obviamente que esta matéria fará parte do segundo volume, é um cenário que se abre com a Conferência de Berlim e a Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886, a Guiné passava a ser mais do que um conjunto de praças e presídios e estabelecimentos. A sentença do presidente Ulysses Grant foi favorável a Portugal, quando a Guiné se autonomizara em 1879, não será por acaso que a escolha da capital recairá sobre Bolama.

É toda esta trama que vem desde a Crónica da Guiné de Zurara até à autonomia de 1879, independentemente dos enlaces cronológicos e de acontecimentos históricos que não se podem compartimentar, que é o objeto deste livro. Tratando-se de um despretensioso trabalho de divulgação, achou-se por bem incluir em cada episódio a sede de leitura mais apropriada; o mesmo procedimento se adotará quanto ao volume II onde a consulta nos Reservados da Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa ganhou uma outra dimensão, como a seu tempo se verá. Infelizmente, não encontrei documentação que relate, do olhar português, a crença islâmica, já bastante enraizada quando chegaram os primeiros navegadores; em contrapartida, há testemunhos sobre o peso do animismo numa boa parte da população guineense, mas tal matéria aparece devidamente relevada com a antropologia e a etnologia, obviamente que dela se fará menção no volume seguinte.

Devo-vos também uma explicação quanto ao teor dos documentos que se anexam. Há uma história da nossa missionação, a obra do Padre Henrique Pinto Rema é já um clássico, estando completamente esgotada a edição de 1982, impunha-se fazer aqui uma síntese e dar a palavra a outros investigadores mais recentes. Nada se pode entender do que foi o espírito do III Império (depois do traumatismo da independência do Brasil, e após a guerra civil e a ascensão da monarquia constitucional, foi-se gradualmente dando atenção a África), se não se atender ao grande detonador para o sonho africano, este teve a sua sede nos fundadores da Sociedade de Geografia de Lisboa, a Guiné, se bem que tenha sido alvo de subalternização, fez parte desse pensamento, pareceu-me indispensável reequacionar a nossa presença na Guiné à luz de um quadro ideológico que, com profundas adaptações, figurou até ao fim do Estado Novo.

Gostaria, feita esta apresentação, que me pusessem questões merecedoras de desenvolvimento ou me apresentasse lacunas que têm este trabalho.

Muito obrigado pela vossa atenção.

Fortaleza de S. José de Bissau (Amura), fundada no século XVIII, muito intervencionada até aos tempos modernos
Fortaleza do Cacheu, fundada no século XVII
Brasão de Fernão Gomes de Mina, Livro do Armeiro Mor, de João do Cró, 1509., Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Porto antigo de Cacheu que, segundo a tradição oral local, servia para embarque de escravos.
Fotografia AD - Ação para o Desenvolvimento

Máscara/pendente da Rainha-mãe, em marfim, ferro e cobre, princípio do século XVI, Benim. Na tiara e colar encontram-se representações de navegadores/comerciantes portugueses.
Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque, EUA

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Nota do editor:

Vd. post de 10 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26371: Agenda cultural (876): Apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade", de Mário Beja Santos, dia 13 de Janeiro de 2025, pelas 14h30, na Livraria Municipal Verney, Rua Cândido dos Reis, 90 - Oeiras

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Guiné 61/74 - P25904: Notas de leitura (1723): Breve história da evangelização da Guiné (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Abril de 2023:

Queridos amigos,
Estamos chegados ao Estado Novo e os autores dão-nos conta das atividades desenvolvidas desde a Missão da Guiné, constituída em 1940, até praticamente aos finais do século XX. Esta Missão foi desafetada do bispado de Cabo Verde, começaram grandes desafios para Franciscanos e para as Franciscanas Hospitaleiras, estas ficaram à frente dos Asilos de Bor e Bafatá. Logo a seguir vieram os missionários italianos de duas ordens, dinamizou-se o trabalho na leprosaria de Cumura. Dinamizou-se a atividade educativa que, evidentemente, foi fustigada pela guerra de libertação, e que levou ao encerramento de muitas escolas missionárias. Com a libertação, Roma decide criar a diocese de Bissau, aumentaram as vocações sacerdotais e religiosas, nasceram novas missões, a evangelização abriu as causas da saúde, educação e da promoção da mulher, uma evangelização que abarca hospitais, uma leprosaria, um liceu diocesano e duas escolas profissionais médias. Esta monografia tem o mérito de atualizar o trabalho de referência do padre Henrique Pinto Rema.

Um abraço do
Mário



Breve história da evangelização da Guiné (3)

Mário Beja Santos

Já aqui se deu amplo acolhimento à obra magna do Padre Henrique Pinto Rema, "História das Missões Católicas na Guiné", dela até coligi um resumo para um livro que tenho em preparação sobre os textos fundamentais da presença portuguesa na Guiné. Mas também não se pode descurar outras iniciativas como esta "Breve História da Evangelização da Guiné", da autoria de dois franciscanos devotados a estudos guineenses. Trata-se de uma edição do Secretariado Nacional das Comemorações dos 5 Séculos, datada de maio de 1997. Os autores explicam o significado daquele ano jubilar, tem a ver com a deslocação de D. Frei Victoriano Portuense, há precisamente 300 anos, saiu da sua sede de diocese, na Cidade Velha, na ilha de Santiago, e foi visitar as comunidades cristãs da Guiné; o significado também abrange os 20 anos de existência da Diocese de Bissau.

Já estamos em plenos anos 1940 e 1950. Viviam-se tempos anteriores ao Concilio Vaticano II, a tolerância dialogante sobre valores existentes em todas as religiões eram palavras desconhecidas. A evangelização na Guiné não escapava à regra – religião única era apenas a cristã. Com boa vontade, talvez possamos encontrar duas pequenas exceções a esta regra: o interesse dos Franciscanos no século XVIII em conhecer os usos e costumes dos Pepéis da ilha de Bissau (o desejo de conhecer é o primeiro passo para o respeito e pelo diálogo subsequentes); na morte de Becampolo Có em Bissau, em finais do século XVII, como era cristão o corpo do rei foi sepultado na capela do hospício franciscano em Bissau – os pepéis condescenderam, mas exigiram e conseguiram obter dos frades que nas cerimónias do choro que se pudessem matar vacas, bem como beber e comer à vontade.

Falemos agora da Missão da Guiné, 1940. Em 4 de setembro desse ano, o Papa Pio XII separou definitivamente a Missão da Guiné do bispado de Cabo Verde, ao qual estivera ligado desde 1533. Autónoma nos seus destinos, já com duas congregações religiosas permanentes (Franciscanos portugueses e Franciscanas Hospitaleiras portuguesas) e com a perspetiva de se poder abrir a outras congregações, com uma nova organização missionária voltada para a evangelização e promoção social, a Missão da Guiné trazia amplas expetativas.

Em 1932, os Franciscanos portugueses foram quase obrigados a regressar onde, nos séculos anteriores tinham estado mais de 170 anos seguidos. Regressaram e estabeleceram quartel-general em Bula, sendo durante alguns anos os únicos missionários presentes no território. Mas “arrastaram” consigo as Irmãs Franciscanas Hospitaleiras portuguesas (logo em 1933), primeiramente em Bula e depois nos Asilos de Bor e Bafatá e no Hospital Central de Bissau. A seguir chegaram os missionários estrangeiros, os primeiros foram os missionários do Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras, e com o seu precioso auxílio foi possível garantir melhor a assistência religiosa permanente a Geba-Bafatá, Bambadinca, Catió, Farim e Suzana. Em 1955, juntaram-se também à missionação os Franciscanos da província de Santo António de Veneza. Deste grupo faziam parte D. Settimio A. Ferrazzetta, o primeiro bispo de Bissau, e Frei Epifânio Cardin, que trabalhou na missão de Cumura. Em 1969, assumiram a direção da leprosaria. Mais tarde estenderiam a sua ação de bem fazer e de evangelização até Bolama, Biombo, Nhacra e Bissau. Também os Franciscanos italianos virão a “arrastar” consigo as Irmãs Franciscanas do Coração Imaculado de Maria, que chegarão à Guiné em 1970, trabalhando primeiro na leprosaria de Cumura e posteriormente em Quinhamel. Em 1969, chegavam à Prefeitura Apostólica da Guiné as Irmãs do Instituto do Santo Nome de Deus, italianas, que se instalaram em Suzana e em Bubaque até 1993.

A ação educativa missionária ir-se-á revelar do maior interesse. A partir da entrega do ensino primário não-oficial às Missões, muitas escolas espalharam-se pelo interior da Guiné. Para o regular funcionamento das aulas, os missionários socorreram-se de professores catequistas, formados sobretudo das escolas das missões de Bula e Bafatá.

Na assistência social e sanitária, foi igualmente relevante o papel das missões católicas em Bor, Bafatá, Bula, Bissau, sem esquecer os internatos menores de Bubaque, Mansoa, Quinhamel e Cumura. A guerra de libertação, como é facilmente compreensível, causou uma enorme perturbação da atividade missionária da Guiné. Muitas escolas missionárias tiveram de fechar as portas por falta de gente que as fizesse funcionar.

E assim chegamos à Diocese de Bissau (1977-1996). Pela Bula Rerum Catholicorum, de 21 de março de 1977, o Papa Paulo VI elevou a Prefeitura Apostólica da Guiné à dignidade de diocese. A sede ficou em Bissau, o seu templo principal é a igreja catedral de Nossa Senhora da Candelária.

Houve um fomento claro e decidido de vocações sacerdotais e religiosas no país. Em 1977 não havia um sacerdote autóctone, em 1997 eram 15. Após 1977 abriram-se mais 6 paróquias em Bissau e novas missões em Tite, Buba, Empada, Bedanda, Ingoré, Cacheu, Caió, Bajob, Betenta, Bigene, Nhoma, Bissorã, entre outras. É uma evangelização que não esquece a promoção social: na saúde, educação e promoção da mulher. Além de 3 hospitais de maiores proporções e de uma leprosaria, há uma trintena de pequenos centros onde diariamente as pessoas acorrem e onde bebés desnutridos ou adultos com toda a sorte de doenças ou problemas vêm procurar alívio.

Por fim, os autores resumem as atividades da educação e da promoção da mulher. A diocese possuiu já um liceu diocesano e duas escolas profissionais médias. Mais de 200 guineenses estudaram fora da Guiné com bolsas obtidas pela diocese, graças aos Amigos das Missões. Hoje as bolsas continuam a ser dadas, mas para estudos dentro do país, no liceu João XXIII e nas faculdades de Medicina e Direito em Bissau.

Trata-se pois de uma monografia que reatualiza o indispensável trabalho do padre Henrique Pinto Rema.


Igreja de Catió, agosto de 1973. Imagem retirada do blogue Arquivo Digital, com a devida vénia
Festa religiosa de Nossa Senhora de Fátima, Padroeira de Catió, 2014
Igreja de Nova Lamego (hoje Gabu), imagem retirada do nosso blogue
Imagem tirada durante a celebração de uma missa no Gabu, 2014
Administração do Crisma a jovens da Paróquia de Santa Isabel de Gabu
Cerimónia presidida pelo segundo bispo de Bissau, D. José Lampra Cá
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Notas do editor:

Vd. post anterior de 26 de agosto de 2024 > Guiné 61/74 - P25882: Notas de leitura (1721): Breve história da evangelização da Guiné (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 30 de agosto de 2024 > Guiné 61/74 - P25896: Notas de leitura (1722): Factos passados na Costa da Guiné em meados do século XIX (e referidos no Boletim Official do Governo Geral de Cabo Verde, ano de 1873) (18) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Guiné 61/74 - P25882: Notas de leitura (1721): Breve história da evangelização da Guiné (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Abril de 2023:

Queridos amigos,
Da evangelização remota já se falou, aborda-se agora o papel do clero regular com destaque para dois padres guineenses de gabarito, Marcelino de Matos de Barros e Henrique Lopes Cardoso; os autores referem a importância do relatório preparado pelo sexto bispo que pisou a Guiné, D. José Alves Martins, documento que dirigiu ao governador em 1931, dele irá resultar a carta magna das missões católicas na Guiné que perdurará até à independência do país e à subsequente criação da diocese de Bissau, em 1977, não deixando fazer uma descrição pormenorizada da organização missionária. Lembram ainda que a Guiné não tem restos de igrejas dos séculos passados, com exceção da velha capelinha de Nossa Senhora da Natividade, em Cacheu, que vem do século XVII.

Um abraço do
Mário



Breve história da evangelização da Guiné (2)

Mário Beja Santos

Já aqui se deu amplo acolhimento à obra magna do Padre Henrique Pinto Rema, História das Missões Católicas na Guiné, dela até preparei um resumo para um livro que tenho em preparação sobre os textos fundamentais da presença portuguesa na Guiné. Mas também não se pode descurar outras iniciativas como esta Breve História da Evangelização da Guiné, da autoria de dois franciscanos devotados a estudos guineenses. Trata-se de uma edição do Secretariado Nacional das Comemorações dos 5 Séculos, datada de maio de 1997. Os autores explicam o significado daquele ano jubilar, tem a ver com a deslocação de D. Frei Victoriano Portuense, há precisamente 300 anos, saio da sua sede de diocese, na Cidade Velha, na ilha de Santiago, e foi visitar as comunidades cristãs da Guiné; o significado também abrange os 20 anos de existência da Diocese de Bissau.

Referiu-se no primeiro apontamento a história mais remota desta evangelização, não se iludindo a enormidade do insucesso até ao século XVII que foi na Guiné um século de expansão missionária. Cabe agora mencionar o papel do clero secular, tecer a sua apreciação até meados do século XX. Os sacerdotes do clero secular foram os primeiros a fixar-se em algumas praças da Guiné e foram também os mais regulares nessa estadia até aos inícios do século XX. Quando, por exemplo, os Franciscanos Portugueses se ausentaram da Guiné por um período de quase 100 anos (1834-1932) foram os padres seculares os únicos a aguentar o peso da missionação. Estes padres seculares visitavam temporariamente ou fixavam-se nas principais praças (Bissau, Geba, Farim, Ziguinchor, Bolama) e aí atendiam, sobretudo, os moradores das mesmas, ou a elas estritamente ligados: administradores, comerciantes, militares, grumetes. D. João V desejou expressamente deixar ao clero secular o trabalho religioso das praças (centros digamos urbanos) e entregar aos religiosos franciscanos o trabalho de missionação no interior da Guiné e nos rios distantes da Serra Leoa. Entre os séculos XVI a XVIII, os sacerdotes seculares vieram frequentemente à Guiné apenas como simples visitadores; nos séculos seguintes, embora em número sempre escasso, tiveram um caráter de permanência mais regular.

Para um envio de sacerdotes seculares teve real importância no século XIX a criação do seminário de Cernache do Bonjardim bem como no Seminário-Liceu de S. Nicolau, sem esquecer também o seminário na arquidiocese de Goa: o clero secular que missionou na Guiné ao longo dos séculos ou era português ou cabo-verdiano ou goês ou guineense.

Os autores irão destacar duas figuras eméritas de sacerdotes guineenses: os padres Marcelino Marques de Barros (1844-1929) e Henrique Lopes Cardoso (1863-1914). O padre Marcelino frequentou o Colégio das Missões de Cernache de 1855 a 1866, ano em que foi ordenado presbítero, tendo regressado à Guiné em dezembro desse ano. Paroquiou em Bissau, Ziguinchor, Farim, Bolor e Cacheu. Em 1873 foi feito Vigário-Geral da Guiné. Gozou férias em Portugal entre 1877 e 1878, frequentou a Academia de Belas Artes, aspirou a frequentar o curso de Ciências Naturais, mas não lhe deram tempo, teve que regressar à Guiné. Coube-lhe apresentar um trabalho de organização missionária (1880) que ficará mais ou menos letra morta. Em 1885 regressou definitivamente a Portugal onde passou a fazer investigações e a publicar textos do maior interesse. Deve-se-lhe, entre outras, o primeiro dicionário de português-crioulo, com 5.420 palavras.

O padre Henrique Lopes Cardoso nasceu em Bissau em 1863, filho de pai cabo-verdiano e mãe bijagó. Fez o curso do Seminário-Liceu de Cabo Verde, em 1889 foi presbítero e regressou logo à sua terra. Aqui fará a sua primeira estadia de 14 anos paroquiando em Bissau e Geba. Entrará em conflito com o Governador Vasconcelos e Sá que o desterrará para Geba nos finais de 1893, no ano seguinte foi deslocado para a paróquia de Cacheu, será aqui pároco durante 6 anos, acumulando com o cargo de Vigário-Geral. Entrega ao Governo da Guiné um importante parecer a respeito da administração eclesiástica da Guiné, propondo a fundação de uma Missão com Escola de Artes e Ofícios. Tudo letra morta. É na segunda estadia em Bissau que o padre Henrique escreve o seu pequeno, mas importante, “Vocabulário do dialeto Pepel”, seguramente o primeiro e único dicionário pepel até hoje publicado. Até à sua morte, paroquiou em Cabo Verde e Guiné, estando sepultado numa igreja em Santiago.

É significativo que ao longo de 407 anos (até à criação da Missão em 1940) apenas 7 bispos tenham visitado a “terra firme da Guiné”. O sexto bispo a passar pela Guiné foi D. José Alves Martins, foi ele que lançou as bases para uma nova missionação através de um relatório dirigido ao governador com data de abril de 1931, sugeriu uma congregação que se voltasse a fixar na Guiné, falou na necessidade de escolas catequísticas guineenses chefiadas por leigos guineenses. Estas escolas permanentes, a serem subsidiadas pelo Estado, ministrariam o ensino religioso e literário bem como a língua portuguesa. Daqui irá resultar a carta magna das missões católicas na Guiné que perdurará até à independência do país e à subsequente criação da diocese de Bissau, em 1977.

Seguidamente os autores fazem uma descrição muito pormenorizada dessa nova organização missionária, têm uma palavra sobre os hospícios e a evangelização permanente, não deixando de dizer que o número de missionários foi sempre diminuto (raramente ultrapassando a dezena) para um território que até 1886 se estendia desde o Senegal até à Serra Leoa. Até à vinda dos Franciscanos, em 1656, foi possível criar dois pequenos conventos, em Cacheu e Bissau. A Guiné não tem restos de igrejas dos séculos passados, com a única exceção da velha capelinha de Nossa Senhora da Natividade, em Cacheu, que veio do século XVII.

E vamos seguidamente ver o trabalho missionário até ao final do século XX.

Estas quatro imagens foram retiradas do livro em análise
Imagens a cores da viagem
Seminário das missões em Cernache do Bonjardim, na atualidade

(continua)
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Notas do editor

Post anterior de 19 de agosto de 2024 > Guiné 61/74 - P25859: Notas de leitura (1719): Breve história da evangelização da Guiné (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 23 de agosto de 2024 > Guiné 61/74 - P25874: Notas de leitura (1720): Factos passados na Costa da Guiné em meados do século XIX (e referidos no Boletim Official do Governo Geral de Cabo Verde, de 1872 a 1873) (17) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Guiné 61/74 - P25859: Notas de leitura (1719): Breve história da evangelização da Guiné (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Abril de 2023:

Queridos amigos,
Continua-se a dar cumprimento a fazer reportório de toda a literatura para que seja alusiva à presença portuguesa na Guiné, a dimensão missionária não podia ser descurada. Recordo ao leitor que a obra magna continua a ser o memorável trabalho do Padre Henrique Pinto Rema intitulado a História das Missões Católicas na Guiné, mas mais recentemente um escol de franciscanos tem vindo a publicar obras, e delas temos feito referência. Mas há investigação espúria, recordo também que já aqui se aludiu em recensão o percurso geográfico e missionário de Baltasar Barreira, um jesuíta que deixou cartas relativas à missão de Cabo Verde entre os anos de 1604 e 1612.

Um abraço do
Mário



Breve história da evangelização da Guiné (1)

Mário Beja Santos

Já aqui se deu amplo acolhimento à obra magna do Padre Henrique Pinto Rema, História das Missões Católicas na Guiné, dela até preparei um resumo para um livro que tenho em preparação sobre os textos fundamentais da presença portuguesa na Guiné. Mas também não se pode descurar outras iniciativas como esta Breve História da Evangelização da Guiné, da autoria de dois franciscanos devotados a estudos guineenses. Trata-se de uma edição do Secretariado Nacional das Comemorações dos 5 Séculos, datada de maio de 1997. Os autores explicam o significado daquele ano jubilar, tem a ver com a deslocação de D. Frei Victoriano Portuense, há precisamente 300 anos, saiu da sua sede de diocese, na Cidade Velha, na ilha de Santiago, e foi visitar as comunidades cristãs da Guiné; o significado também abrange os 20 anos de existência da Diocese de Bissau.

Começam os autores por elencar as primeiras tentativas de evangelização, mesmo antes da criação da Diocese, em 1533, há prova de que alguém levou a mensagem evangélica a estes povos. Com efeito, o Papa Pio II nomeou Frei Afonso de Bolonho, franciscano, como primeiro responsável do grupo de missionários que partiram para a missão de Guiné. As dificuldades foram inúmeras, estava aceso o conflito entre Portugal e Castela por causa da administração das ilhas Canárias, um problema que só foi solucionado com a celebração do Tratado de Toledo, em março de 1480. Sobre a atividade deste religioso e dos seus 16 companheiros em terras da Guiné nada em concreto se sabe, a documentação é inexistente.

O território dos rios de Guiné foram demarcados a partir da fundação da Diocese da Guiné e Cabo Verde. Pela Bula Pro Excellenti, de 1533, foi criada a Diocese, englobando, além das ilhas de Cabo Verde “o espaço de 350 léguas de terra firme, a começar no rio Gâmbia, junto ao promontório ou lugar de Cabo Verde, continuando até ao promontório ou lugar chamado Cabo de Palmas e rio de Santo André”. Os autores fazem uma descrição dos povos e das regiões da Guiné ao tempo, recordam que os animistas creem no Irã, para eles a verdadeira força espiritual; os muçulmanos estendiam-se principalmente pelo interior, o que facilitou o contacto dos portugueses com as etnias animistas da costa. Contactos que se estabeleceram com os Balantas, Brames, Felupes e Papeis, a um nível comercial. Nesta época os comerciantes portugueses foram-se fixando sucessivamente em Arguim, na ilha de Goreia, Ziguinchor, Cacheu, Bissau e Buba. O nativo africano entendia bem a linguagem do comércio, mas de modo algum aceitava o estatuto de submissão.

No capítulo subsequente, os autores dão conta do que foi a evangelização entre a data da presumível chegada portuguesa à região (1446) até à criação da Diocese, em 1553. Apareciam esporadicamente os padres de visitadores que alimentavam a fé dos cristãos mas diz-se claramente que ao longo de mais de dois séculos a missionação da Costa da Guiné não foi preocupação da Igreja Católica. E daqui os autores transitam para a narrativa das atividades da diocese até à criação da missão contemporânea em 1941. Alertam o leitor para a efémera presença portuguesa em toda a faixa da África Ocidental, explanam as primeiras tentativas de fixação de missionários nas terras da Guiné, recordam os clérigos seculares, os capuchinos franceses e espanhóis e os jesuítas. Alguns pontos são controversos, veja-se este exemplo. Não há notícias da estadia dos Carmelitas Descalços na Guiné, em todo o século XVI, escreve o Padre António Brásio; mas o jesuíta Padre Fernão Guerreiro assegura que nessa época houve missionação na região do Rio Grande de Buba. À cautela, mantém-se a dúvida. É também referido o nome do Padre João Pinto, designado por Padre Jalofo, terá sido o primeiro sacerdote nativo da Guiné. Depois de se fazer referência aos franciscanos, capuchinhos franceses e espanhóis, seguem-se comentários à missão dos padres jesuítas e depois dá-se nota dos franciscanos na Guiné nos séculos XVII e XVIII. Com alguma propriedade, pode falar-se das cristandades de Cacheu, Farim e Geba a partir do século XVII e também está documentada, à época, a comunidade de Bissau e dos Bijagós. É neste contexto que ganha destaque a visita pastoral de D. Frei Victoriano Portuense, ainda no século XVII (recorda-se que ele chegou à diocese em 1688) fez duas viagens ao continente.

O século XVII foi o século da expansão missionária mas o mesmo não se poderá dizer do século XVIII, os autores avançam as hipóteses sobre este decréscimo missionário destacando as ideias do iluminismo. Impõe-se agora uma referência ao clero secular, os autores fazem uma apreciação até aos meados do século XX e dão uma especial ênfase àquele que foi o Vigário-Geral da Guiné, dela nativo, o Padre Marcelino Marques de Barros, iremos de seguida falar desse período.

Encontrou-se num documento um quadro histórico desta fase da missionação e terminamos hoje com este conjunto de datas que podem ajudar o leitor a melhor entender os eventos fundamentais da evangelização:
“Embora desde 1533 esteja criada a Diocese de Cabo Verde, deverá dizer-se, no entanto, que é sobretudo a partir de 1660 (fixação dos Franciscanos portuguese em Cacheu, e posteriormente em Bissau) que a evangelização da Guiné se começa a processar com caráter de suficiente regularidade.
Essa evangelização desenvolveu-se em estilo notoriamente itinerante, ou seja, com alguns poucos pontos de fixação (sobretudo nos hospícios de Cacheu e Bissau), e daí irradiando depois para diferentes pontos do território, com a agravante de que, até meados do século XVIII, a itinerância dos frades se espalhava muito para lá da Guiné-Bissau atual, atingindo a sul as costas da Serra Leoa e a norte as do Senegal. Os inícios da evangelização no Senegal, Guiné-Conacri, Serra Leoa, etc., devem bastante a estes primeiros missionários itinerantes, partindo da atual Guiné-Bissau.
O número dos missionários franciscanos da primeira missão franciscana (1660-1834) foi sempre reduzido, embora permanente, raramente ultrapassando a dezena de frades, espalhados por Cacheu, Farim, Geba, Bissau, Ziguinchor.”

Esta referência foi retirada do blogue Intelectuais Balantas na Diáspora, com a devida vénia.

D. Settimio Ferrazzetta (1924-1999), 1.º Bispo da Guiné-Bissau
Imagem de uma reunião da Associação das Mulheres Católicas Guineenses, em tempos de pandemia
Jovens cristãos e a sua catequista

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 16 de agosto de 2024 > Guiné 61/74 - P25847: Notas de leitura (1718): Factos passados na Costa da Guiné em meados do século XIX (e referidos no Boletim Official do Governo Geral de Cabo Verde, de 1870 a 1872) (16) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Guiné 61/74 - P25121: Notas de leitura (1662): "Os três rostos da Igreja Católica na Guiné" (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Julho de 2022:

Queridos amigos,
O levantamento efetuado por Frei Vicente respeitante à missionação católica na Guiné é uma leitura pessoal que em nada colide com a obra de referência do Padre Henrique Pinto Rema. Este missionário procedeu a uma leitura de três momentos históricos de tal missionação: a que vai da criação da Diocese de Cabo Verde até 1932, um segundo momento que se estende com o regresso dos missionários até 1977; e a partir desta data um período que ele designa por igreja particular contemporânea, igual a todas as outras, pobres e ricas, projetada por bispos de grande prestígio e exemplaridade. Intervindo na educação, saúde e apoio social, tendo um ensino de gabarito, gestão de instituições de saúde com funcionamento impecável, criando escolas de artes e ofícios, um pouco por toda a parte, justifica-se a confiança deste missionário na crescente projeção desta comunidade de fiéis que não conhece qualquer hostilidade por parte da comunidade islâmica com quem dialoga nas diferentes áreas da sua intervenção.

Um abraço do
Mário



Os três rostos da Igreja Católica na Guiné (2)

Mário Beja Santos

Na mesma revista Itinerarium n.º 227, referente ao primeiro semestre de 2022, dos franciscanos missionários, donde, aliás, já fizemos referência ao Diário do Padre Macedo que testemunhou os primeiros anos da independência da Guiné-Bissau, vem um artigo assinado por Frei João Dias Vicente intitulado “Os três rostos da Igreja Católica na Guiné”, cujo teor merece ser referenciado por alguns aspetos inovadores da leitura historiográfica e religiosa que ele faz. Recorde-se sumariamente o que se escreveu no texto anterior. Sem detrimento da visão global enunciada na obra de referência do Padre Henrique Pinto Rema, "História das Missões Católicas da Guiné", Frei Vicente divide todo o período histórico da missionação em três momentos maiores: a partir de 1533, data da criação da Diocese de Cabo Verde, que inclui os Rios de Guiné, até 1932, data do regresso aos Rios de Guiné dos franciscanos; o segundo momento compreende o período de 1932 a 1977, data da criação da Diocese de Bissau e escolha do primeiro bispo; e o terceiro momento estende-se de 1977 aos nossos dias.

Quanto ao primeiro momento, o autor detalha diferentes fases de missionação, não esquece os padres jesuítas, dois deles, Padres Baltazar Barreira e Manuel Álvares, deixaram informações escritas de grande importância. Assim chegamos ao virar do século XVIII, permanecem na região da Guiné os Franciscanos da Soledade, prestando assistência nas principais praças existentes. Entrara-se num período de decadência das missões, a presença portuguesa estreitara-se e pode dizer-se que a situação política nos Rios de Guiné, na segunda metade do século XVIII, era altamente problemática. Em 1778, as Praças da Guiné sob o domínio português eram: Bissau, Cacheu, Geba, Farim e Ziguinchor. As intrigas e o divisionismo entre autoridades civis e eclesiásticas eram constantes. E escreve dizendo que se os frades deram frequentemente escândalo na sua vida moral e religiosa e no desrespeito, as autoridades civis, por sua vez, não eram melhores.

São tempos de crise de vocações, tempos de crise na atividade missionária franciscana na Guiné. Não admira que em 1802 só houvesse 3 frades na Guiné, em 1806 eram apenas 4 (2 em Bissau e 2 em Cacheu); os últimos frades na Guiné terão existido provavelmente até 1823, como certifica o Procurador-Geral da Província da Soledade. A partir de 1824, os relatórios do mesmo Procurador-Geral já só falam das suas missões de Cabo Verde, sinal de que na Guiné já não estaria nenhum frade. A extinção das Ordens Religiosas em Portugal veio confirmar oficialmente o fim da presença franciscana da Soledade na Guiné.

Foram os sacerdotes do clero regular que aguentaram sozinhos os esforços por manter na Guiné a assistência religiosa possível nas principais praças sob domínio português. O Colégio das Missões Ultramarinas de Cernache do Bonjardim forneceu uns 19 sacerdotes entre 1855 até 1910 que trabalharam na Guiné e 3 deles eram mesmo naturais da região. Do Seminário-Liceu de Cabo Verde, desde 1866 até 1910 saíram 7 sacerdotes que trabalharam na Guiné. Em 1932 haveria em toda a Guiné apenas 3 sacerdotes do clero secular. Frei Vicente caracteriza esta primeira etapa da envangelização nos Rios de Guiné como predominantemente sacramental e sobretudo batismal. Os missionários não conseguiram ter recurso a catequistas leigos que pudessem ajudar a manter a fé dos cristãos e a garantir melhor a preparação dos futuros batizandos.

A segunda etapa (1932 até 1977) é marcada pelo regresso ou vinda de congregações religiosas já com forte preocupação social, regressaram os franciscanos portugueses, vieram as franciscanas hospitaleiras portuguesas; em 1940, passou a existir uma missão com completa autonomia da Diocese de Cabo Verde. A envangelização processou-se através das escolas. Lançou-se o ensino médio liceal com o Colégio Católico de Bissau, mas durou pouco tempo (1943-1945). Graças ao Acordo Missionário (1940) ficou aberto o caminho a missionários não portugueses e o Papa Pio XII criou a Missão sui juris presidida por um Prefeito Apostólico. Os primeiros missionários não portugueses chegaram em 1947, eram os padres do Instituto Pontifício das Missões Estrangeiras, seguiram-se outras missões italianas. Criou-se em 1969 o Seminário da Guiné (primeiro em Bafatá e depois Bissau), mas só passou a ter sucesso quando se construiu a Escola Interna do Seminário, o primeiro sacerdote que saiu deste Seminário foi o Padre José Câmnate na Bissign, será o primeiro bispo guineense nomeado pelo Papa João Paulo II. Esta segunda etapa assentou predominantemente na educação, na saúde e na promoção social, criaram-se infraestruturas que ainda hoje são referências na Guiné: leprosaria de Cumura, o Hospital-Geral de Cumura, o dispensário-maternidade de Quinhamel, os postos sanitários das missões de Catió, Mansoa, Bambadinca, Suzana, entre outros; foram criadas pequenas escolas práticas de aprendizagem de ofícios, casos das pequenas escolas de carpintaria, apareceu inclusivamente o jornal "O Arauto"; Frei Vicente chama a esta igreja a de tempos de missão que se adaptou às variadas dificuldades do período da luta de libertação, que soube ter uma posição ao mesmo tempo colaborante nas tarefas da reconstrução nacional e simultaneamente de crítica em relação à ideologia oficial do marxismo-leninismo.

O terceiro momento vai de 1977 a 2021, Frei Vicente define-o como o rosto de uma igreja particular contemporânea, porque passou a ser uma igreja igual a todas as outras igrejas do mundo. A Igreja Católica na Guiné-Bissau não é alvo de nenhuma hostilidade por parte do credo maioritário islâmico. O primeiro bispo, Dom Settimio Arturo Ferrazzetta, distinguiu-se pela sua simplicidade e bom relacionamento com toda a gente, já fisicamente prostrado, durante a guerra civil de 1998-1999, pôs-se ao caminho para dialogar com os dois contendores, acompanhado por outras entidades religiosas. Com ele, a Igreja Católica deu um salto. Depois de Dom Settimio, virão mais 3 bispos, Dom José Câmnate na Bissign (que resignou em 2020), o brasileiro Dom Pedro Carlos Zilli, bispo de Bafatá e Dom José Lampra Cà. Esta igreja particular está orientada tendencialmente por pastores locais. O lema de Dom José Câmnate na Bissign era a bem-aventurança evangélica: bem-aventurados os construtores da paz. Dom Pedro Carlos Zilli granjeou com enorme prestígio na sua Diocese de Bafatá. Em 2001, em Bafatá, as paróquias existentes eram 8, os sacerdotes diocesanos eram 6, as irmãs religiosas 24, os seminaristas maiores 3; mas em 2017 os sacerdotes já eram 27, os seminaristas maiores 13, os leigos missionários 16 e as religiosas 25. O seu funeral em Bafatá foi impressionante, tempos depois era comum verem-se pessoas com camisolas com o lema de Dom Pedro Zilli: o amor jamais passará.

E o trabalho de Frei Vicente culmina com a apresentação do que eram em 2021 a organização religiosa e leiga da Guiné-Bissau.

Fachada da capelinha de Nossa Senhora da Natividade em Cacheu, o mais antigo templo católico da Guiné
Missa na Guiné-Bissau, imagem do Arquivo Missionárias da Consolata, com a devida vénia
Fiéis católicos guineenses estiveram reunidos, de 8 a 9 de novembro corrente, na peregrinação Mariana 2017, na cidade de Cacheu. A peregrinação deste ano decorreu sob o lema “Maria ka bu medi pabia bu otcha graça diante di Deus (Maria não tenhais medo porque encontrastes a Graça do Pai, tradução livre)”
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Notas do editor:

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