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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28236: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (45): O último candando

Portugal > s/ l > s/ d>  Tasca do Jacinto, retornado. Início da primavera, tempo de favas. Dois homens na casa dos setenta e muitos anos conversam à mesa, um copo de vinho tinto, um cesto de pão e um prato fumegante de favas suadas com chouriço e coentros. A luz entra pela janela, criando um ambiente quente e nostálgico. Ao fundo, uma parede caiada com fotografias antigas e um relógio parado. Estilo de aguarela realista, cores suaves, atmosfera de memória, amizade e passagem do tempo.

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: O último candando (conto de Luís Graça, 2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


O último candando

por Luís Graça


− Eu era capaz de oferecer o meu lugar no reino dos céus por um prato de favas suadas!... Antes que se faça tarde…

− Tarde ?!... Estás com maus pressentimentos, ou quê  ? O que queres dizer com isso, Arsénio?... E, por favor, não blasfemes…

− Calma, senhor provedor, não invoquei o nome de Deus em vão… Também andei na catequese como tu, embora em África…

− Mas o teu catecismo não era o mesmo que o meu, aposto… 

− Olha, a mim quem me dera saber se tenho um lugar reservado no céu…

− É com essa que Deus nos trama… Mantém o suspense até ao fim… 

− Ah!, ah!, para ti, António, está mais do que reservado!... Vais lá estar  de pedra e cal,  à direita de Deus Pai!...  

− Obrigado, Arsénio, mas não gosto falar dessas coisas... Que história é essa, afinal,  das favas ?!

− É o que me estava mesmo a apetecer agora, um prato de favas suadas…

− Abriste-me o apetite. Também já ia… E estamos em março, é a altura delas. Vamos almoçar ao Jacinto... 

− Boa ideia, alinho nessa... Pode ser que a santa da Bia nos arranje favas.

  Nem que seja um pires de favinhas, como entradinha, com coentros e chouriço de porco preto alentejano…

− Sabes, tenho medo de me esquecer como se chamava o prato de favas suadas feitas pela minha mãezinha, com tanto amor e carinho…

− Ah! , a nha Bertinha, de saudosa memória…

− … E sobretudo medo de esquecer a delícia do seu sabor, os cheiros do almofariz da nossa cozinha, enfim, as memória que me vêm dos tempos da meninice em Angola.

− Ó engenheiro!..., estás com a doença do Alemão, ou quê ?!...

−  Só Deus e os médicos é que sabem… A tal doença que nenhum de nós ousa nomear. Mas acho que ainda não a tenho, meu caro António…  Os neurónios  por enquanto estão no sítio...

− Mas quem te pode garantir que a não vais apanhar, a dita cuja?...

− Cruzes, canhoto!... A única coisa que me aterroriza, mais do que a morte, é perder a memória, a identidade... e alguns dos cinco sentidos, como o gosto, o olfato, o tato... E, já agora, a tusa...

− Terror por antecipação, Arsénio… Mas essas reminiscências da infância, quando recorrentes, dizem os entendidos, podem muito bem ser o primeiro sintoma precoce da doença do Alemão…

− Achas ?!...

− Disse-me há tempos a neurologista do Santa Maria, que me acompanha...  Lembras-te das favas suadas da senhora tua mãe que Deus já lá tem, mas não do que comeste ontem…

− Tens razão… E não me lembro mesmo!... Fora de brincadeira, dizem que para lá caminhamos todos…

− As demências ?!... A menos que apareça, um dia destes, a tal droga milagrosa que nos há de salvar da amnésia total…

− Já não será para os dias que me restam…

− Não sejas tolo, Arsénio... E depois, não vês o cancro ?!... Todos os anos saem novos medicamentos inovadores.  Confia em Deus e na Ciência.

− Ah!, a indústria da doença: quem entra num hospital, já de lá não sai… Há um cerco médico, vê o meu irmão: já não lhe bastava ter que fazer hemodiálise três vezes por semana… E quando estava para fazer o transplante, zás!, tocou o gongo dos setenta anos!.. Tiraram-no logo  da lista.... 

− ... e ele desistiu de viver. Uma crueldade...  

− Porra, António, morreu aos setenta, à espera de um rim!... Velho, com bilhete de identidade vitalício!... 

− É agora o que nós somos, meu amigo. Duplos VV,  velhos vitalícios...A mim também me puseram o carimbo, quando arrumei as botas aos setenta!

Mas a ti ainda te fizeram uma festinha…com direito a uma salva de prata e uns versinhos recitados pelas criancinhas…  

− Até houve balões, coisa que eu sempre detestei.

− E o que é que tu querias mais, meu velho e caro amigo, dr. António Queiroz, agora dedicado e piedoso provedor da Santa Casa da Misericórdia da nossa parvónia ?!

− Gratidão, verdadeira gratidão… E não reverência cínica!...  No último dia de trabalho, dão-te um chuto no rabo.

− Mas ergueram-te um busto, em bronze, ah!, ah!..

− …um mamarracho, piroso, que está lá no átrio… Por mim, bem o mandava para o ferro-velho!

− Não sejas tonto, António, custou uma nota preta!… A mim, nem isso, nem salva de prata, nem versinhos, nem balões…  

− Oh!, pá, mas ainda não morreste, que eu me tenha dado conta!... Ou sou eu que já estou com a doença do Alemão ?!

− Não, ainda não morremos, nem tu nem eu!...Felizmente!... Ou melhor, eu já morri, da minha primeira vida. Morte social, que não é menos cruel que a morte física que me espera, um dia destes…

− Morte social ?!... Dizes bem. Foi por isso que eu também nunca mais lá voltei, à  IPSS que ambos ajudámos a criar, a acarinhar,  a crescer. E tu ainda mais, Arsénio, que andavas na política, tinhas bons contactos em Lisboa e puxavas os cordelinhos, quando era preciso mais umas c'roas...

− Sempre a pensar no interesse da terra do meu querido pai... Mas poucos já se lembram desses tempos!… E, sem memória, não há gratidão!

− Dizes bem:  sem memória, não há gratidão!... Essa é outra forma de doença do Alemão, a que dá no povo…

− … ingrato,  abusador,  cobarde, 
o Zé Povinho. Ao vilão dá-lhe o pé, toma-te a mão... É incapaz de um candando, um abraço de gratidão! Só sabe fazer um manguito... nas tuas costas.

− Mas tu também não tens lá ido, à nossa IPSS, nem na festa de Natal ?!...

− Nunca mais lá pus os pés. A minha vida social acabou há muito, desde que larguei a política.  

− Lembro-me sempre do tipo que eu fui substituir, o dr. Veloso, o professor do Colégio… No dia seguinte, depois de deixar o cargo, deu-lhe a veneta, quis ir matar saudades e foi lá cumprimentar a criançada, a velhada, a gajada… Ele era a delicadeza em pessoa. 

− Quem, esse palerma ?!... Desculpa lá, já estava xexé...

− Sabes o que é que eu ouvi, sem querer (a porta do gabinete estava entreaberta), da parte de um grupinho de senhoras (educadoras, auxiliares e até a nossa antiga secretária e assistente social) ?

− Não, mas imagino…

− Estavam na galhofa, e a cochichar entre elas, deu para ouvir: “O que é que o filho da puta do velho está aqui a fazer?!”…

− Assim, sem mais nem ontem ?! Filho da puta ?!

− Isso mesmo, e ainda dizem que nós, os homens, é que somos ordinários… E toda a gente a saber que tinha sido ele, o meu antecessor, quem estabeleceu (ou melhor, propôs, em Assembleia Geral) o limite dos setenta anos para o exercício de cargos diretivos. 

− Das catraias era de esperar tudo, mas logo da nossa querida assistente social! … Afinal, António, quem vê caras, não vê corações…

Neste cenário faltava aqui eu, o terceiro pé da tripeça. Costumava encontrá-los, a estes "dois velhos marretas"  nos sítios habituais da pacata cidade de província onde então vivia: o barbeiro que falava mal de todos os governos, a tasca do Jacinto, o Café Central, o Museu Municipal, a Universidade Sénior, o Clube Náutico  e, claro, a IPSS, a associação privada de solidariedade social que era o orgulho da terra, e a que eles, os dois,  estiveram ligados desde a sua fundação.

Eu sabia da história de vida de ambos, mesmo sendo um estranho, para não dizer um “outsider”, chegado entretanto  do estrangeiro, mais exatamente do Luxemburgo, a minha segunda pátria.

O homem, o engº. Arsénio Marques, que temia a "doença do Alemão", o Alzheimer (sem nunca o nomear), morreu há pouco tempo. Não teve "funeral de Estado" mas o município  acabou por fazer-lhe uma discreta e cínica homenagem,  a título póstumo: numa sessão da assembleia municipal, foi aprovado por unanimidade  um voto de pesar pelo seu falecimento e foi-lhe atribuída  a medalha de ouro de mérito municipal.

  Tarde e a más horas, como se costuma dizer. Mas em Portugal é assim: a besta, na hora da morte, passa a bestial...

O outro, o dr. António Queiroz, que fora diretor da IPSS que geria várias creches, jardins de infância e lares de idosos em todo o concelho, e depois provedor da misericórdia local (o último cargo que exerceu, numa instituição mais virada para a saúde), está agora doente.  Sabia que sofria da doença de Parkinson, mas deixei-o de o ver, depois que passou a  residir  em Lisboa,  num lar da Misericórdia.

Ambos, o Arsénio e o António, eram do mesmo partido, mas com sensibilidades e experiências de vida muito diferentes.  O António era um típico advogado de província. E o Arsénio, bom...  É dele, de resto,  que eu quero falar: retornado, engenheiro técnico, empresário, autarca, dirigente partidário, figura grada da terra. 

Os seus mandatos como autarca a seguir ao 25 de Aril não terão sido pacíficos ou consensuais. A avaliação dependia muito das simpatias ou antipatias pessoais e partidárias. Diabolizado por uns, santificado por outros, não deixava ninguém indiferente.

A seu favor tinha a construção de todas as infraestruturas e equipamentos sociais que fizeram a terra dar "um salto para o século XX"… 

Abriu estradas e vias pedonais, pôs rotundas em todos os cruzamentos, construiu em altura na orla costeira, fez  a rede de saneamento básico, criou o parque industrial, ofereceu terrenos aos investidores de fora,  etc.  Ah!, e deu emprego a muita gente, na câmara e nos serviços municipalizados,  desenvolveu o turismo, etc. Em suma, "pôs a terra no mapa"... 
 
Os insultos grafitados nas paredes da câmara municipal irritavam-no solenemente… Chegou a contratar uma empresa de segurança para apanhar em flagrante delito os autores dos grafitos… 

Até tinha uma família, decadente mas ainda com brasão, de alcunha os "Távoras", que concitava os seus ódios de estimação por causa de um polémico processo de expropriação de terrenos.

 E com o padre da terra as suas relações também também eram de cortar à faca.  Um dia, o padre, que era dos tesos,    ostensivamente recusou  dar-lhe a comunhão quando soube que ele mantinha uma amante, mãe solteira, no concelho vizinho.

Só o conheci no ocaso da sua vida política. Era ainda um cacique à moda antiga... e perdia-se por um rabo-de-saia ou uma carinha laroca, diziam as más línguas.  Personalidade truculenta,  tinha uma frase lapidar, reveladora da sua repugnância quase atávica para o compromisso, a negociação e o consenso:

− Não se pode agradar a gregos e troianos, e quem os seus inimigos poupa, às mãos lhe morre.

Os pais do eng.º Arsénio Marques haviam-se conhecido em Cabo Verde. O pai fora expedicionário em São Vicente, durante a II Guerra Mundial. Cavador de enxada, tocador de concertina e poeta popular. A mãe era de Santo Antão, filha de pequenos comerciantes, neta de padre excomungado, e bisneta de um desterrado. 

Depois de cumprido o serviço militar, o pai do Arsénio fixou-se em Angola, empregando-se nos caminhos de ferro de Benguela. A mãe, depois de uns tempos no Continente,  aguardando a "carta de chamada", seguiu-lhe os passos. Ele nasceu em 1944. Foi a avó paterna, estremenha, que transmitiu à mãe, crioula, os segredos gastronómicos da família do continente, incluindo as famosas favas suadas.

Não sei muito da sua vida em África. Mas, perguntará o leitor: onde e como nos conhecemos, eu e o Arsénio Marques ?

Eu explico… mas primeiro tenho que falar um pouco de mim… Sou ribatejano da beira rio. Emigrei, "a salto", para o Luxemburgo, em meados dos anos 60, como outros jovens da minha geração, para fugir à tropa e à guerra colonial.  

Confesso que ainda hoje não sei por que razão é que escolhi uma  terra que não era minha, para voltar ao meu país natal e viver o meu último terço ou quarto de século de vida. Tinha sessenta e tal anos em 2009, uma razoável reforma (por comparação com os padrões portugueses da época) e umas boas economias (para quem tinha começado como eu a ganhar a vida como ardina…). Com isso comprei um apartamento à beira-mar, um T3  para receber filhos, netos e amigos e sobretudo poder contemplar o pôr-do-sol à beira do Atlântico com as Berlengas e o cabo Carvoeiro no horizonte.   

Fiquei viúvo relativamente cedo, aos 50 e tal anos. A mulher da minha vida morreu de cancro da mama. Era italiana, ou melhor napolitana.  

Tudo isto para explicar por que é que eu sou mais espetador do que ator, na terra que me acolheu, depois de regressar do Luxemburgo. Aqui estive ligado à animação sociocultural. E exerci, nos primeiros tempos, os mais diversos ofícios, tópicos do "imigra'  até chegar ... a autarca! 

Fixei-me nesta cidadezinha do Oeste Estremenho... Um dia, há muitos anos, vim cá com uma representação municipal e uma banda filarmónica.  Do meu município luxemburguês (que não  identifico, porque o país é uma aldeia). Na altura era aqui presidente da Câmara, o engº. Arsénio Marques. Estava no auge da fama, da glória e do proveito. 

Ele tratou-me muito  bem (a mim e aos meus munícipes). Ficámos amigos. Ou melhor, simpatizámos logo um com o outro. Desafiou-me a ficar ou a voltar, quando me reformasse. Ou sempre que me apetecesse.

No Luxemburgo sempre o tratei também muito bem,  fazendo jus à  tradição de hospitalidade do grão-ducado. Uma terra que ele também aprendeu a amar.  Sempre pusemos de lado as nossas diferenças políticas, ele situava-se mais à direita, eu mais à esquerda. Mas era um "charmoso", como dizia a minha mulher que ainda o chegou a conhecer.

Depois ele perdeu as eleições (ou já não podia legalmente concorrer a novo mandato, não sei ao certo). Ainda tentou uma carreira política a nível nacional, mas puseram-no na prateleira. 

Zangado com o seu partido, bateu com a porta e continuou a dedicar-se aos seus negócios.  E a comenda de Belém, que lhe haviam prometido,  nunca chegou em tempo útil, ter-lhe ia feito muito bem ao ego (e à saúde mental)...

No bom tempo, e graças aos amigos de Benguela, do Huambo e de Luanda, matou o galo da UNITA e engoliu o sapo do MPLA (quer dizer, a estrela,  que é bem  mais  indigesta)... Tinha amigos de um lado e do outro, gabava-se ele.

Fez alguns bons negócios, na área da engenharia, planeamento urbano e arquitetura, com um conhecido general que era do seu tempo de liceu, e considerado  um dos heróis da batalha do Cuito Canavale.

Também chegou a ter, a meias, com esse general, uma empresa de construção civil e obras públicas. Nunca falei muito com ele sobre esses tempos. Mas sei que o sócio passou-lhe a perna. E o capítulo de Angola acabou também por fechar-se na vida dele. 

Para mais, e para seu grande desgosto,  ele nunca chegara a conseguir obter a nacionalidade angolana,  apesar de lá ter nascido e vivido. Falava da sua terra com grande paixão e saudade.  

Sei que fez a tropa (e a guerra) na Guiné.  Não posso dar muitos pormenores, porque sou um zero à esquerda nessas matérias.  Julgo que  fora alferes miliciano e pertencera à arma da engenharia militar. 

Tanto quanto me lembro das nossas conversas, ele não deixava de simpatizar com o Amílcar Cabral, filho de pai cabo-verdiano. Mas achava um disparate a ideia de unidade entre a Guiné-Bissau e Cabo-Verde. 

 O Arsénio tinha uma costela cabo-verdiana, pelo lado da mãe que, garantia ele, era bisneta de uma escrava e de um desterrado... 

− E eu trisneto, com muita muita honra, sem qualquer complexo... Tive pena que Cabo Verde tivesse entrado, em 1975, na  paranoia da dipanda (#), a reboque  da demagogia do PAIGC. Arrepiaram caminho, anos mais tarde, que a euforia revolucionária  não enche barriga...
 
Eu aqui não quis comentar, nem nunca disse que tinha tido amigos cabo-verdianos que apoiavam o PAIGC no Luxemburgo... Depois meteram a viola no saco, quando se deu o golpe de Estado do 'Nino' Vieira, em 1989, se bem recordo... Foi o fim de muitas ilusões... "A segunda morte do pai das nossas nacionalidades", chorava um dos meus amigos que era cantor, com discos editados  na Holanda... 

Nos últimos anos, senti o meu amigo Arsénio Marques mais alquebrado, para não dizer deprimido:  o fogo do seu vulcão havia-se extinguido, e "a terra do seu pai" já não era mais a mesma para ele...  

Queixava-se que, no fundo, havia uma velha e surda discriminação contra os retornados e os mestiços, como ele. O seu antigo partido nunca mais recuperara o poder local, nem o antigo autarca era chamado para nada... O sonho de voltar a Angola estava cada vez mais distante, e em Cabo Verde também já não se sentia em casa, embora um dos seus filhos explorasse lá um pequeno hotel de charme.    Tinha outro filho, esse com uma prole numerosa, a viver em Roterdão, nos Países Baixos. 

O nosso convívio, por outro lado,  também se foi espaçando,  com o tempo, e com as viagens, a visitar filhos e netos... Mas a amizade ficou.  Pertencíamos a mundos muito diferentes, mas respeitávamo-nos.  Incentivei-o a escrever as suas memórias. Mas a escrita não era o seu forte. 

− Escrever, o quê ? Para quem ?... Sempre fui um homem de ação, não de  pensamento... Tu é que és um homem de letras... Sei fazer contas, de somar, subtrair e pouco mais...

Vi-o, pela última vez, na festa dos seus 80 anos. Moeu o juizo do Jacinto, e obrigou a Bia a fazer-lhe um muamba de galinha e um calulu. Tiveram que ir a Lisboa, ao Martim Moniz, abastecer-se dos produtos angolanos, que não havia na terra. Éramos uns vinte e tal à mesa. A tasca ficou por nossa conta.  E nada de gente graúda. Houve música de Cabo Verde, de Angola e até da Guiné-Bissau. Discursos, no fim, muito contidos. Nada de política. Fiquei com pele de galinha. E dei-lhe um caloroso candando, à despedida. Um "quebra-costelas", como dizem os alentejanos.

Divorciado, não tinha muitas amizades no fim da sua vida. O irmão caçula, antigo professor primário, esse, também já tinha partido. Para minha grande surpresa e desgosto, o Arsénio  suicidou-se com um tiro nas têmporas, na casa da amante.  Uma coisa premeditada. Na véspera, ainda me mandara uma mensagem, premonitória, por telemóvel: "Gostei de te conhecer. Um último candando" (##). 

Devia ter desconfiado. E ter-lhe telefonado. Não quis incomodá-lo. Nunca imaginei que ele pudesse fazer uma coisa dessas. Afinal, não foi a doença do Alemão que o matou. Prefiro, em todo o caso, pensar que  ele partiu para a sua última viagem, desencantado mas lúcido... Foi cremado, nos arredores de Lisboa. Eu e mais uns tantos amigos e conhecidos (um dúzia, se tanto) fomos-lhe retribuir o candando. O último.

Luís Graça
Agosto de 2026

Nota do autor: Qualquer semelhança com a realidade, é mera coincidência

(#) Dipanda, corruptela de indepência (de Angola).

(##) Candando, do quimbundo = abraço.
______________

Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 11 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28171: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (44): O país que via passar os comboios

Guiné 61/74 - P28235: Fauna e flora (30): O decreto nº 40040, de 20 de janeiro de 1955, do Ministério do Ultramar, não é apenas um regulamento "colonialista" da caça, mas sim um diploma pioneiro (e premonitório) sem o qual os guineenses não teriam hoje Parques Nacionais como os do Cantanhez, João Vieira e Poilão (marinho), Ilhas de Orango, ou os parques naturais como os dos Tarrafes do Rio Cacheu ou das Lagoas de Cufada , ou o Complexo Dulombi-Boé-Tchetche (corredor transfronteiriço)

 

Angola > c. anos 30 > "A Exma. Esposa  do Coronel Félix montada num búfalo-pacaça, que, minutos antes, ela própria abatera a tiro de rifle"  (Joaquim António da Silva Félix era ofcial do exército, coronel, industrial, agricultor e publicista, dono da fazenda Glória, colaborador do Boletim da Sociedade Luso-Africana do Rio de Janeiro, que congregava parte da "intelligentsia" do colonialismo republicano, radicada no Brasil)

Fonte: Boletim da Sociedade Luso-Africana do Rio de Janeiro, nº 8, janeiro e março de 1934, pág. 35.

 


Guiné-Bissau > Região de Tombali > Iemberém> Simpósio Internacional de Guileje > 1 de Março de 2008 > Primatas do Cantanhez: o "fatango" (macaco-fidalgo)... Desenhado nas paredes das instalações da AD - Acção para o Desenvolvimento, em Iemberém. (Para saber mais, ver  Guia_Mamiferos_Cantanhez_web-res_2017.pdf .)

No Cantanhez, há  o macaco fidalgo vermelho (Piliocolobus badius).  e o  macaco fidalgo preto (Colobus polykomos). Em crioulo, ambos são fatango.

Nomes locais, para o macaco fidalgo vermelho: Mane (nalu) | Nhandjo (fula) |  Tugdu-hanz (balanta).

Nomes locais para o macaco fidalgo preto: Madisom/Dossé (nalu) | Bando (fula) | Tugdu-mon (balanta).



Guiné-Bissau > Região de Tombali > Parque Nacional do Cantanhez > Iemberém > 2 de março de 2008 > A "onça" [leopardo-africano], um animais desenhados nas paredes exteriores das instalações da AD -Acção para o Desenvolvimento

Era abundante em tempos, foi sobrecaçada, por causa da beleza da sua pele (e não só:  metia-se onde não devia, por exemplo no perímetro armadilhado dos nossos aquartelamentos)... E hoje o seu habitat vai-se degradando... 

Fotografia de Luís Graça, por ocasião de visita ao sul, no âmbito do Simpósio Internacional de Guiledje (Bissau, 1-7 de março de 2008).


Foto (e legenda): © Luís Graça (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Decreto nº 40 040, de 20 de janeiro de 1955, do Ministério do Ultramar. Anexo I:  Animais cuja caça é proibida.


1. Julgamos que é a primeira lista, aprovada por diploma legal, proibindo a caça de certas espécies animais protegidas nos territórios ultramarinos, de Cabo Verde a Timor... Na Guiné,  contemplam -se, pelo menos, 16 espécies de mamíferos e 11 de aves (incluindo os abutres ou jagudis):

Este diploma merece ser visto como um marco histórico . O Decreto n.º 40 040, de 20 de janeiro de 1955, da autoria do Ministério do Ultramar, sob tutela de Manuel Sarmento Rodrigues (1899-1979), é provavelmente o primeiro grande diploma português que estabelece uma política sistemática de proteção da natureza e regulamentação da caça em todas as províncias ultramarinas.

O contexto é importante. Estamos em 1955, numa época em que a palavra "ecologia" praticamente não fazia parte do discurso político. A preocupação dominante era a gestão cinegética, mas o diploma vai muito além disso: cria reservas, coutadas, fiscalização, serviços veterinários especializados e comissões de caça, prevendo inclusivamente investigação científica e medidas de conservação da fauna. 

Para a época, é um documento bastante avançado. Pioneiro. E premonitório.

No preâmbulo e no articulado, a fauna é apresentada como um património que importa conservar, fomentar e aproveitar racionalmente, evitando a sua destruição indiscriminada. A proteção das espécies aparece ligada tanto ao interesse científico como ao interesse económico e ao equilíbrio dos ecossistemas.

Importa, todavia, sublinhar que, na década de 1950, o regime do Estado Novo enfrentava já crescentes pressões internacionais em relação aos seus territórios ultramarinos. 

Ao mesmo tempo, no plano da conservação, consolidava-se a diplomacia ambiental europeia em África.

 O preâmbulo do diploma refere explicitamente a Convenção de Londres de 1933 (focada na preservação da fauna e flora no continente africano) e a Conferência de Bukavu de 1953.

Com este decreto, o Estado português procurava modernizar a sua legislação ambiental nas colónias (que passaram a "províncias ultramarinas" em 1951) para se alinhar com as recomendações das potências coloniais vizinhas  (Grã-Bretanha, França e Bélgica) e demonstrar uma gestão "científica" e "civilizada" do território.


No caso da Guiné, a lista das espécies totalmente protegidas revela bem o conhecimento zoológico existente na época.
 
Mamíferos protegidos na Guiné

Entre as 16 espécies de mamíferos figuram espécies emblemáticas:
  • pangolim;
  • urso-formigueiro (aardvark);
  • chimpanzé;
  • lémure;
  • macaco-de-nariz-branco (macaco bijagó);
  • macaco-fidalgo;
  • gato-almiscarado;
  • leopardo ("onça");
  • elefante-da-floresta;
  • manatim (ou peixe-bice);
  • cabra-grande (bongo);
  • elande-gigante;
  • oribi;
  • palanca-vermelha;
  • sitatonga;
  • ancon (alcélafo-maior).
O anexo identifica estas espécies pelo respetivo nome científico e pelo nome local ( crioulo), e indica também a sua distribuição por províncias ultramarinas: Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, Índia, Macau  e Timor.

É interessante notar que muitas destas espécies continuam hoje classificadas como vulneráveis ou ameaçadas (ou até extintas, no território).

Também a lista das 11 aves é reveladora:
  • abutres (jagudis);
  • andorinhas;
  • calaus;
  • cegonhas;
  • estorninhos;
  • galinha-azul;
  • garças-brancas;
  • marabus;
  • papagaio-cinzento;
  • pavão-gigante;
  • pratíncolas.

Há aqui algumas escolhas curiosas:

(i) os abutres, por exemplo, eram protegidos numa época em que, para muitas populações rurais, eram vistos apenas como aves necrófagas, desprezíveis, sem valor;  já sabíamos, nós, os militares,  que desempenhavam um papel sanitário fundamental na eliminação de carcaças e no controlo da disseminação de doenças;

(ii) o papagaio-cinzento africano é hoje uma das aves mais ameaçadas pelo comércio ilegal;

(iii) o pavão-gigante africano continua a ser uma espécie rara das florestas húmidas da Alta Guiné;

(iv) quanto à galinha-azul (Guttera edouardi pallasi), trata-se de uma ave florestal de grande interesse biogeográfico.

2. Um diploma pioneiro... 

Visto à distância de setenta anos, impressiona encontrar disposições que hoje associaríamos à biologia da conservação, denotando uma visão "integrada e sistémica" do problema.

De facto, uma das grandes inovações deste diploma para a época foi integrar, num único corpo legal, a proteção do solo, da flora e da fauna. 

O preâmbulo justifica abertamente essa opção: «pretendeu-se traduzir na lei a unidade que no campo da natureza existe entre o solo, o seu revestimento vegetal e os animais selvagens».

 Criou-se também em cada província um Conselho de Protecção da Natureza (gerido sob a alçada dos governadores) e dividiram-se as zonas protegidas em parques nacionais, reservas naturais integrais, reservas parciais e reservas especiais, a par de:
  • fiscalização especializada;
  • estudos científicos sobre a fauna;
  • controlo das migrações;
  • combate às doenças da fauna selvagem;
  • repovoamento cinegético;
  • estações experimentais de domesticação;
  • limitação do abate de espécies protegidas.

Naturalmente, havia também uma lógica utilitária e colonial: conservar para permitir um aproveitamento futuro dos recursos naturais. Não era ainda uma conservação baseada na biodiversidade enquanto valor intrínseco. Também não sabemos como, na prática, no terreno, o diploma foi implementado...

Todavia, para quem, como nós, viveu na Guiné ( e alguns, em Cabo Verde, Angola ou Moçambique)  dois anos (ou mais),   esta lista desperta inevitavelmente memórias.

É curioso verificar que os jagudis, tantas vezes lembrados nas histórias de humor de caserna (quase sempre associados às lixeiras das tabancas e dos nossos aquartelamentos) figuravam afinal entre as aves legalmente protegidas desde 1955. 

A imagem popular do jagudi como simples "almeida" (=varredor do lixo) escondia a sua enorme importância ecológica como necrófago.

Também impressiona pensar que espécies como o elefante-da-floresta, o chimpanzé, o manatim ou o pangolim, relativamente bem conhecidas na Guiné dos anos 1950, sofreram depois uma forte regressão devido à caça, à destruição do habitat e ao crescimento demográfico. 

Em suma, o Decreto n.º 40 040 representa um documento pioneiro na história da conservação da natureza nos territórios portugueses de África. Embora concebido numa perspetiva colonial e cinegética, antecipou em vários aspetos princípios que só décadas mais tarde se tornariam correntes na política internacional de conservação da biodiversidade. 

A lista de espécies protegidas da Guiné constitui, além disso, um valioso retrato da riqueza faunística do território em meados do século XX.

3. Um diploma também premonitório...

Com a guerra (1961/74), o elefante-da-floresta deixou de aparecer. Mas pode não ter desaparecido completamente da Guiné-Bissau, como aconteceu com o leão.

Durante muitos anos pensou-se que sim, que o elefante-da-.floresta tinha desaparecido mas trabalhos de campo realizados entre 2020 e 2022 confirmaram a sobrevivência de um núcleo minúsculo, provavelmente de apenas alguns indivíduos, na região fronteiriça do sul, entre o Cantanhez, o Corubal e a Guiné-Conacri. É uma das populações mais pequenas e isoladas de toda a África Ocidental, sendo vital a criação e/ou a manutenção de um corredor transfronteiriço ( como é o caso do Complexo Dulombi-Boé - Cheche).

De qualquer modo, há muito que o elefante deixou de fazer parte da paisagem guineense. Um caçador profissional dos anos 1950 ainda podia sonhar encontrar um elefante; hoje seria um acontecimento absolutamente excecional. Os miúdos das escolas do poderão conhecê-lo, mas só para nos livros.

Quanto às outras espécies, a evolução destes 70 anos é dramática.

(i) Praticamente desaparecidas ou funcionalmente extintas
  • Elande-gigante (Taurotragus derbianus): muito provavelmente desapareceu da Guiné-Bissau ainda no século XX; os últimos registos credíveis são antigos e admite-se que apenas aparecessem animais errantes vindos do Senegal ou da Guiné-Conacri;
  • Bongo ("cabra grande"): era uma espécie típica das florestas húmidas; hoje é considerado extinto na Guiné-Bissau;
  • Leopardo ("onça"): sobrevive apenas através de relatos ocasionais; não existe confirmação recente de uma população viável;
  • Palanca-vermelha e sitatonga: sofreram um colapso muito acentuado; sobrevivem, se sobreviverem, apenas em bolsas muito localizadas.

(ii) Espécies muito reduzidas:

  • Chimpanzé: o contrário do que se receava nos anos 1980, não desapareceu; os estudos mais recentes apontam para várias centenas de indivíduos, concentrados sobretudo no Cantanhez e no Boé; o Boé poderá albergar cerca de 700 chimpanzés, e o total nacional ronda aproximadamente 600–1.000 indivíduos, embora as estimativas variem; 
  • Manatim: continua presente nos estuários do Cacheu, Geba, Corubal e Cacine, mas é hoje muito raro devido às capturas acidentais em redes, caça e degradação dos mangais;
  • Pangolim: continua a existir, mas tornou-se muito mais raro por causa da caça para consumo e do comércio ilegal.

(iii) Espécies relativamente resistentes:

  • Macacos (fidalgo, bijagó, patas, babuínos): ainda persistem em várias regiões, embora com densidades muito inferiores às de há meio século;
  • Calaus, garças, marabus e muitos abutres ainda existem, mas algumas populações diminuíram significativamente.

(iv) Porquê esta diminuição drástica da fauna da Guiné-Bissau, em 70 anos ?

Haverá pelo menos umas cinco causas principais, de resto já sobejamente conhecidas: 
  • Caça, primeiro para subsistência e depois para abastecer os mercados urbanos (onde espécies com o macaco-cão, por exenplo, são produto gourmet);.
  • Armas de fogo cada vez mais acessíveis (durante da guerra de independência);
  • Explosão demográfica: a população da Guiné-Bissau passou de cerca de meio milhão de habitantes nos anos 1950 para mais de dois milhões atualmente;
  • Destruição do habitat, especialmente pela expansão dos cajueiros, agricultura itinerante, produção de carvão, abertura de estradas e mineração;
  • Fragmentação das florestas, isolando pequenas populações incapazes de manter diversidade genética.

Em 1955, o legislador protegeu espécies como o elefante, o chimpanzé, o bongo, o manatim ou o pangolim porque já reconhecia que eram raras ou vulneráveis. Setenta anos depois, percebe-se que essa lista tinha um valor quase premonitório: muitas das espécies então protegidas são precisamente aquelas que mais sofreram ou desapareceram da fauna guineense, como se pode ver na comparação a seguir:

Espécie protegida em 1955 | Situação aproximada em 2026
  • Elefante-da-floresta > Restam apenas alguns indivíduos, se a população sobreviver
  • Chimpanzé  > Algumas centenas, sobretudo Boé e Cantanhez
  • Bongo (cabra-grande) > Extinto no país
  • Elande-gigante  > Extinto no país
  • Leopardo  > Eventualmente residual, sem população confirmada
  • Manatim > Muito raro
  • Pangolim > Em forte declínio
  • Papagaio-cinzento  > Em declínio devido à captura e perda de habitat

Essa comparação tem ajuda-nos a valorizar, a nós, portugueses e guineenses, a importância histórica, legal e ecológica deste diploma do "colonialista" Sarmento Rodrigues e a a sua equipa: c
omo é que  como um documento colonial de 1955, pensado para regular a caça, acabou por se transformar involuntariamente num testemunho da extraordinária riqueza faunística que a Guiné-Bissau possuía antes da grande transformação ecológica da segunda metade do século XX.

E mais: o Decreto n.º 40040 preparou o terreno técnico para a delimitação posterior de coutadas e áreas de proteção na Guiné,  cujos ecossistemas viriam mais tarde a sofrer forte impacto com o eclosão da guerra colonial / guerra de libertação (1961/74), mas cujas bases de inventariação serviram de referência para a rede de Parques Nacionais e Naturais da Guiné-Bissau pós-independência, geridos pelo IBAP - Instituto de Biodiversidade e Áreas Protegidas.

(Continua)

Pesquisa: LG + Blogue + IBAP + IA (ChatGPT / Open AI | Gemini Google)
Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, links: LG.
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 1 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28065: Fauna e flora (29): as cegonhas-brancas do Cabo Sardão, no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (Luís Graça)

domingo, 2 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28234: Bom dia desde Bissau (Patrício Ribeiro) (73): a baloba de Bijante, Bubaque, Bijagós, e a força securitária do sagrado



Foto nº 1, 1A e 1B



Foto nº 2, 2A e 2B

Guiné-Bissau > Arquipélago dos Bijagós > Ilha de Bubaque > Bijante > Sábado > 1 de agosto de 2026  > A  baloba local, o sítio mais seguro da tabanca.

Fotos (e legenda): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]


1. Patrício Ribeiro, o nosso "embaixador em Bissau", empresário (Impar Lda), que chegou a Bubaque, em trabalho,  no dia 10 do mês passado, mandou-nos mais fotos de Bijante, incluindo a baloba local...

Data - sábado, 1/08/2026, 20:31

Assunto - Baloba de Bijante, Bubaque, Bijagós

As pinturas na baloba de Bijante, local sagrado, onde guardámos os nossos equipamentos, onde ninguém vai mexer.


Mantenhas

Patrício Ribeiro
Impar Lda


 Guiné > Zona leste >  Região de Bafatá >Setor L1 > Bambadinca > Destacamento de Nhabijões > 1970 > O furriel miliciano Henriques, da CCAÇ 12 (Luís Graça, fundador e editor deste blogue) junto a uma baloba,   um dos locais de culto dos irãs (espíritos da floresta).

A população era maioritariamente balanta, animista. Mas também havia um núcleo Mandinga. Era conhecida a sua colaboração com o PAIGG, sobretudo com as populações e os guerrilheiros de Madina/Belel, no limite do Cuor, a noroeste de Missirá, mas também com os do subsetor do Xime. "Tinham parentes no mato", dizia-ser então.

 O reordenamento desta população, considerada até então sob duplo controlo e pouco colaborante com  as NT (e senão mesmo hostil), iniciou-se em 1969, sob a iniciativa do BCAÇ 2852 (1970/72), tendo sido continuada pelo BART 2852 (1970/72). Foi criado um destacamento para apoio a (e defesa de) o reordenamento.

No seu diário de então, o furriel Henriques usava um termo demasiado forte (e manifestamente desajustado...), "etnocídio", para qualificar a construção deste reordenamento, a que chamava "aldeia estratégica". 

Era então um dos maiores, se não o maior, em construção  no CTIG, com cerca de  300 fogos, pelo exército em colaboração (franca e leal) com a população local. 

Porquê "etnocídio" ?  Na altura, ele referia-se à  destruição do habitat socioecológico destas populações ribeirinhas, dispersas pela margem esquerda do rio Geba Estreito (do outrro lado, era o "mato do Cão") que passavam a ser "reordenadas"  e "militarizadas" (o reordenamento passava a ter umqa guarnição militar, constituída por um Grupo de Combate do batalhão de Bambadinca e por milícias balantas...).

Há uma diferença entre etnocídio e genocício: ele falava, em 1970,   da  destruição da cultura, da perda da identidade e do fim dos costumes da comunidade de Nhabijões, o que era manifestamente exagerado... A baloda construída no reordenamento, embora "liliputiana" (quando comparada com as dos Bijagós)  era a prova de que os "reordenadores" tinham a preocupação de preservar "usos & costumes" da população"... Estávamos em plena "Spinolândia!... 

O PAIGC,  mais tarde, "ressaibiado" com a colaboração da comunidade de Nhabijões com a tropa,  iria flagelar o reordenamento. Sem consequências.

Foto (e legenda): © Luís Graça (2007). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


2. Comentário do editor LG:

Patrício, a tua sensibilidade sociocultural vale ouro. Não és turista, nem antropológo, és empresário, andas no teu trabalho, a "cirandar" por toda a Guiné-Bissau, embora "reformado... a meio tempo"... E vai-nos, sem querer, e sem a gente te pedir nada (a não ser "partir mantenhas" ), mandando de vez em quando estas preciosas fotos, em geral acompanhadas de lacónicas legendas, da terra que tu amas e nós amamos, mesmo não conhecendo, como tu, todos os cantinhos.

É o caso destas, tiradas na tabanca de Bijante, Bubaque,  Bijagós. Estas fotografias da balofa local são, para mim, um pequeno achado etnográfico. Não sou especialista em etnografia guineense. Sou sociólogo, e tive uma cadeira de antropologia, de um ano, com um grande professor e antropólogo, o Joaquim Pais de Brito. O "bichinho" da antropologia / etnologia ficou cá para sempre...

Lembro-me das balofas de Nhabijões (vd. foto acima, de 1970), nos arredores de Bambadinca, bem como das boas e más memórias desse reordenamenyo (apanhei lá com uma mina anticarro que bem poderia ter-me mandado para os anjinhos). 

Mas, confesso, sei pouco do "animismo" que sobrevive na Guiné-Bissau, "entalado", cada vez, entre duas poderosas religiões monoteístas e proselitistas, como são o cristianismo e o islamismo.  Coitados dos irãs da Guiné-Bissau, até as últimas florestas sagradas  já perderam. (Felizmente, não parece terem-se repetido os ataques a duas balofas e uma igreja cristã, em Bissau, em março de 2024.)

Patrício, recorrendo à menina da IA (e a outras fontes da Net),  eis aqui algumas dicas que me parecem pertinentes, e que nos podem ajudar  a "ler" as tuas fotos da baloba de Bijante. 

(i) o interesse documental, "etnográfico",  destas tuas imagens:

Não tem tanto a ver com a qualidade das pinturas (que já estão muito gastas), mas com o facto de mostrarem uma baloba viva, ainda em uso e respeitada pela comunidade.   

(ii) o que é uma baloba

A palavra "baloba" (ou " baloba di irã") entrou no crioulo da Guiné (ainda no nosso tempo) a partir das línguas locais e designa, de forma geral, um santuário comunitário, a casa dos espíritos (os Irãs entre os Bijagós). 

Já está grafada em português. Segundo a Infopedia, o termo crioulo "baloba" vem do do felupe bu-loba, «feitiço falante»

Baloba não é simplesmente um "templo animista". É simultaneamente: lugar de culto;
lugar de iniciação; sede do poder espiritual da tabanca; espaço onde se realizam sacrifícios, consultas e cerimónias; depósito de objetos rituais...

Nos Bijagós, a baloba está intimamente ligada ao culto dos antepassados e dos irãs, que podem assumir formas humanas,  ou  elementos da fauna e flora.

(iii) O que podemos ver fotografias do Patrício (fotos nºs 1 e 2):

Para já é curioso que a morança dos irãs esteja identificada pela palavra "baloba", escrita en português, em letras do alfabeto latino, a par de pinturas murais

Tudo indica, entretanto , que a decoração da parede exterior, que tem uma  porta de entrada principal (e provavelmente única), seja relativamente recente (seguramente do período pós-independência,  ou  últimas décadas).

O edifício passa, pois, a ser mais facilmente identificado quer pelos turistas (que visitam Bubaque), quer pelos membros mais jovens, alfabetizados, da comunidade, que estão em rápida perda da sua identidade cultural (bijagó e guineense), com a "globalização".

Outro símbolo, as setas:  convergem para a porta, podendo indicar tanto a entrada ritual como a direção obrigatória da circulação. Não sabemos se há uma porta de saída.

Acima da porta aparece um peixe enorme (em estilo naturalista).  O que não é estranho. Estamos numa ilha, estamos em Bijagós, um arquipélago onde a população tem uma forte ligação ao mar e vive também do mar. 

O peixe significa  "mafé", abundância, proteção... Pode também representar um irã associado ao mar; ou ser simplesmente um marcador identitário da aldeia. Falta-nos aqui as "explicações" dos moradores locais.

Mais intrigante é a figura do morcego. Não é um elemento decorativo. No animismo, nos sistemas religiosos africanos, o morcego aparece frequentemente associado  à noite, aos espíritos, à passagem entre vivos e mortos.

Já a serpente, à esquerda do morcego, é um símbolo extremamente antigo e constante em quase toda a África Ocidental.
 Pode ser a Píton-africana ou píton-da-rocha-centro-africana ou Píton-norte-africana (Python sebae), também conhecida (e temida) como "irã-cego"... Mas não sei se  este réptil existe no arquipélago dos Bijagós. 

Pode representar fertilidade, continuidade da vida, proteção do recinto, ou pode ser a própria representação de um irã (os irãs tendem a assumir a forma animal).

O grande lagarto, à direita da porta e da palavra "Koreti", pode ser um crocodilo estilizado. Não arrisco o seu significado.

 "Koreti", também não faço ideia do que seja... Nome gentílico ?  Nome, cristianizado (por influência dos missionários cristãos),  de mulher e rainha, guardiã do templo ? Pode ser uma variante ortográfica ou erro de audição para Goreti , da santa italiana  Santa Maria Goretti. 

O Cherno Baldé, que nos ajude, não é bijagó, mas é guineense, muito mais guineense e melhor etnólogo do que eu.

Quanto às figuras humanas (no lado direito da parede, a seguir à porta): temos uma figyura antropomórfica  (uma mulher ?), sentada o chão, em cima de uma esteira, com uma lança ou bastão, em postura cerimonial. Difícil descodificar este signo.

O músico (?), por sua vez,  tem barrete, usa colares  segura um instrumento (que pode ser uma espécie de cordofone tradicional) (?). Representa o músico ritual, o  cantor cerimonial, a personagem das iniciações.

Os triângulos à volta da porta são, sem dúvida,  o elemento mais claramente decorativo. Esses padrões geométricos são frequentes em várias casas rituais dos Bijagós. Podem simplesmente marcar o caráter sagrado do local,  a transição entre exterior e interior.
 
Estas pinturas murais não contam uma história, como acontece nos nossos murais.  Funcionam antes como  marcadores identitários; proteção simbólica, representação de espíritos, memória ritual. Dizem muito simplesmente:  "isto é uma baloba".

Cada figura poderá provavelmente ter um significado que só é conhecido pelos iniciados da aldeia, e que  não é necessariamente explicado aos não-iniciados.

(iv) O grande especialista dos Bijagós foi o missionário e linguista italiano Luigi Scantamburlo.

Na sua obra sobre Bubaque refere que cada tabanca  tem os seus irãs próprios; estes, por sua vez, tendem a ter formas animais; a baloba guarda objetos onde reside a força espiritual; certas esculturas representam a alma dos antepassados ("orebok").

Ainda em relação às pinturas: parecem ter sido feitas por várias mãos, em épocas diferentes. O traço do morcego, por exemplo,  é muito diferente do do músico (?). Também as cores são diferentes. 

Algumas figuras  podem  ser mais antigas; outras foram acrescentadas ao longo dos anos;  esta morança  foi sendo "renovada" ritualmente, não apenas reparada. Tem agora telhado de zinco, um material de construção mais recente (e caro) na ilha.

 
(v) a força securitária do sagrado

Há uma observação da  IA que merece ser citada, porque é muito personalizada e homenageia simultaneamente o Patrício e a tabanca de Bijante:

(...) "E termino com uma observação que me parece belíssima. O Patrício escreveu apenas: '...guardámos os nossos equipamentos, onde ninguém vai mexer.'

"Essa frase vale quase uma lição de antropologia. Num país onde a autoridade do Estado pode ser frágil em muitas regiões, a autoridade do sagrado continua eficaz. Não é a fechadura da porta que protege os painéis solares ou as ferramentas da Impar; é o respeito coletivo pela baloba. Esse respeito, construído ao longo de gerações, continua a regular comportamentos de forma muito concreta".


 





3. Numa leitura posterior, mais fina, pormenorizada e atenta das duas figuras humanas, volto atrás, e encontro outras pistas:

Patrício: em relação à primeira figura humana, decididamente não pdoe ser um homem, mas uma  figura feminina, numa postura ligada à maternidade ou ao parto ... 
 
Postura: a figura está sentada com as pernas muito abertas, numa posição que lembra uma posição ritual ou de parto, mais do que numa posição de autoridade masculina; é uma  postura que aparece em diversas representações africanas relacionadas com a fecundidade e a maternidade.

Tronco: o peito está desenhado de forma muito esquemática, mas não também não há qualquer indicação evidente de órgãos genitais masculinos. Pelo contrário, o traço central dirige o olhar para a zona pélvica, que parece ser precisamente o foco da composição.

Região inferior: na fotografia, a tinta está muito degradada; mas aquilo que inicialmente podia ser interpretado como um pénis,  pode muito bem representar sangue, ou sangue menstrual,  cordão umbilical; ou simplesmente um símbolo gráfico hoje quase ilegível.

Bastão: o bastão vertical não é necessariamente um atributo masculino; não é uma lança; nas balobas, muitos objectos rituais (bastões, lanças, remos, cajados) são símbolos de autoridade espiritual e não apenas de género (masculino, feminino).

Cabeça:  há uma  "meia cabaça" invertida na cabeça, com motivos geométricos; esse pormenor é muito importante; não se trata de nenhum penteado. Ora, a cabaça é um objecto ritual de enorme importância em praticamente toda a África Ocidental, podendo  simbolizar fecundidade, maternidade, iniciação, ancestralidade,  ou conter substâncias sagradas.

Saia bijagó: a figura enverga a típica saia bijagó...





Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cantanhez > Iemberém > 6 de Dezembro de 2009 > 10h26> "Festa de baptizado muçulmano"... Rapando a cabeça da criança, com uma gilete...A mãe tem um olhar "inexpressivo", indiferente à presença do fotógrafo (**)-.

Fotos: © João Graça (2009). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]


O meu filho João Graça fotografou, em Iemberém, 6 de dezembro de 2009, um ritual (a que ele chamou, talvez indevidamente, "batizado muçulmano") em que uma parturiente usava precisamente uma meia cabaça semelhante (mas lisa); isso pode constituir uma pista iconográfica muito valiosa, mesmo que o ritual fosse fula.

É verdade que Fulas e Bijagós pertencem a universos culturais bastante diferentes, mas certos objectos rituais circulam há séculos entre povos vizinhos. Aliás, a própria cabaça é um objecto transversal a quase toda a Senegâmbia.

Vamos avançar então com uma outra hipótese etnográfica: em muitas sociedades da África Ocidental, incluindo os Bijagós, a fertilidade da mulher, a fecundidade da terra e a prosperidade da comunidade pertencem ao mesmo domínio simbólico.

Não seria surpreendente que uma parturiente fosse considerada uma imagem suficientemente poderosa para figurar na parede de uma baloba. Aliás, a posição das pernas abertas é um motivo conhecido em esculturas de maternidade africanas. Não é uma cena obstétrica realista; é antes um símbolo da capacidade de dar vida.

À cautela, poderíamos descrever a primeira figura nestes termos: figura antropomórfica de interpretação incerta, mas mais do que provavelmente feminina, podendo representar uma parturiente, uma antepassada ligada à fertilidade ou uma entidade protectora da maternidade.

A segunda figura, pelo contrário, é seguramente masculina. usa um chapéu com cocar, um adorno de penas (símbolo de elevado estatuto) (embora o cocar seja de origem indígena ameriucan). Parece segurarum grande animal sacrificado (ou uma pele) (e não um instrumento de música); ao lado vê-se um tridente ou lança ritual; transmite uma imagem de sacerdote, adivinho ou responsável pelos sacrifícios.

As duas pinturas podem representar momentos complementares do mesmo universo ritual: a mulher (ou antepassada) ligada ao nascimento, fertilidade e continuidade da linhagem; o homem, sacerdote ou guardião que assegura a comunicação, a ligação, com os espíritos.

(Pesquisa: LG + IA | Chat GPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos e itálicos: LG)
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Notas do editor LG

(*) Último poste da série > 30 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28228: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (72): A jaca, espécie invasora tropical, que já chegou a Bijante, Bubaque, Bijagós

(**) Vde. poste de 28 de janeiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7686: Notas fotocaligráficas de uma viagem de férias à Guiné-Bissau (João Graça, jovem médico e músico) (2): 6/12/2009, domingo, 1ª consulta, um baptizo muçulmano, um casório católico, uma visita a uma fábrica de caju... 7/12/2009, 2ª feira: 1º dia de consultas. 42 doentes à porta do C.S. Materno-Infantil de Iemberém

sábado, 1 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28233: Os nossos seres, saberes e lazeres (743): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (264): Os jardins cada vez mais admiráveis da Quinta de Recreio dos Marqueses de Pombal, Oeiras (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 26 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
Visitei na década de 1960 nas instalações do palácio dos Marqueses de Pombal, então adquirido, bem como o espaço envolvente, pela Fundação Calouste Gulbenkian, uma mostra do enorme acervo das coleções de arte de Calouste Gulbenkian, era a primeira vez que se mostrava a público o que hoje é patente no museu situado no Parque de Santa Gertrudes. Nada que se comparasse no ajardinamento e mesmo no estado do palácio que se pode ver hoje, ainda só do exterior, o palácio está fechado, seguramente para benfeitorias. A atual proprietária, a autarquia de Oeiras, deu diferentes usos aos jardins, no dia em que os visitei andavam para lá uns senhores a afinar música para um concerto e tenho visto notícias quanto a espetáculos de ópera. São uns bons hectares, posso imaginar o dispêndio para os trabalhos de conservação e restauro. A monografia que me despertara o apetite para esta visita era data de 1987, o autor apresentava queixas sobre aspetos urbanísticos na envolvente, os vários organismos oficiais imiscuídos na resolução dos problemas não tinham travado a desagregação do traçado e geometrismo nas áreas recreativas. Fui ver a diferença, está tudo francamente melhor, deixo aqui o link que mostra os jardins, é o modo de apelar à vossa visita.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (264):
Os jardins cada vez mais admiráveis da Quinta de Recreio dos Marqueses de Pombal, Oeiras


Mário Beja Santos

Tinha encontrado na Feira da Ladra um livro sobre a chamada Quinta de Recreio dos Marqueses de Pombal, em Oeiras. Admirador que sou daquele espaço e dos trabalhos de requalificação que nele se têm operado, aproveitei uma ida à Galeria Municipal Verney para visitar a exposição Retratos de Guerra, um engenhoso trabalho de Cristina Sampaio sobre tintas-da-china do pintor Neves e Sousa, pus-me ao caminho, já sabedor que o Palácio continua fechado, e fui admirar os jardins criados no século XVIII, tendo como envolvente a estrutura palatina a área agrícola, os jardins com elementos recreativos, caso de fontes, mirantes, cascata, noras, aquedutos e casas de fresco; primava a lógica de aproveitar os recantos do jardim e estar a contemplar ruas arborizadas, ou ouvir o som da água em movimento. O que mais me empolgava nesta visita era levar o livro de Rodrigo Dias comigo, ver como era a quinta em meados da década de 1980 e como se tinha vindo a cuidar de um património que conhecera uma franca decadência nos séculos XIX e XX.

O autor desta monografia chama a atenção para o facto da quinta da família Pombal ter conhecido sucessivas incorporações ao primitivo morgadio e ter beneficiado, nesses acrescentos, de uma amplitude espetacular, em que se aproveita a Ribeira das Lages que atravessa o Jardim, o visitante rapidamente ganha a noção, quando desce do patamar do Palácio e atravessa uma ponte sobre a dita ribeira de que há muito para ver. Para trás, fica a casa dos coches, que é hoje o edifício principal da Câmara Municipal de Oeiras. Desce-se o terraço das araucárias tem-se a perceção dos diferentes níveis, lá em cima fica o Palácio, sente-se que há uma propriedade murada, avista-se mesmo o Instituto Gulbenkian de Ciência (a Fundação Gulbenkian foi proprietária de todo este enorme espaço, aqui apresentou pela primeira vez uma amostra do acervo patrimonial do milionário Arménio, depois vendeu à autarquia o Palácio e os Jardins, importa ainda dizer que na área do palácio funcionou um organismo que teve muito prestigio, o Instituto Nacional de Administração, a autarquia não tem descurado a reabilitação de todo este património, no fundo vim bisbilhotar como o espaço está cuidado, beneficia de ocupação para várias modalidades de lazer, caso dos concertos musicais.

Aprecio imenso os painéis azulejares das escadarias, daí mostrá-los com enorme satisfação. Depois atravesso a ponte e caminho para a Cascata dos Poetas, há para lá trabalho escultórico de Machado de Castro. Como observa o autor da monografia, o traçado dos jardins do Palácio tem um eixo principal: a Rua dos Loureiros, um eixo agregador das duas quintas, a quinta de cima e a quinta de baixo, estão separadas pela estrada real; na quinta de baixo funciona a Estação Agronómica Nacional.

Com o mero intuito de estimular o leitor a visitar este portentoso conjunto paisagístico deixo aqui o link do Guia dos Jardins, há muito para ver para além desta Cascata dos Poetas, irei depois visitar a Fonte das Quatro Estações, mas há muito mais para ver, como a Casa da Pesca, a Cascata da Fonte do Ouro, passeando à volta da adega onde há o dragoeiro, faias, freixo, araucárias e palmeiras.

Um ponto da pequena história era a crítica acerada dos opositores do Marquês de Pombal que diziam que ele se tinha locupletado com dinheiros do horário público para se ter abalançado em tal empreendimento, o Marquês respondia que pagara as despesas com os dinheiros do pão, do vinho e das frutas. E está na hora de partir para a visita lembrando que os jardins estão magníficos, que vale aa pena andar pela estrada real e visitar dentro da Estação Agronómica Nacional o aqueduto e aquela esplêndida alameda. Recomenda-se que ande à volta do palácio, obra de Carlos Mardel, arquiteto e engenheiro militar, era profundo conhecedor daa influência do jardim francês na Europa.

Quando Rodrigo Dias escreveu esta monografia fazemos referência, o autor deplorava a evolução urbana envolvente, os projetos de ocupação agressivos para o conjunto dos jardins e quinta e ia mencionando ponto por ponto as matérias que deviam merecer a maior atenção dos então diferentes intervenientes nesta superestrutura, não esquecendo os elementos decorativos e recreativos dos jardins, a revitalização do sistema hidráulico, o combate à poluição das águas da ribeira, concluindo que ao tempo a monumentalidade do conjunto se perdia e diluía nos pavimentos, no estacionamento maciço, nas cores dissonantes. “A sua desagregação por vários organismos sociais, compromete o traçado e o geometrismo das áreas recreativas”, assim era o seu apelo a uma melhor compreensão e recuperação da Quinta do Recreio integrada na arte paisagista do século XVIII. Felizmente que o seu apelo foi correspondido, basta confrontar as imagens de quatro décadas atrás depois de hoje.

Fachada do palácio. Pátio de acesso.
Belíssimos conjuntos azulejares que decoram as escadarias de acesso ao jardim.
Aspeto da intervenção quer no palácio que no ajardinamento e é visível no lado direito as benfeitorias introduzidas no horto.
Pormenor da Cascata dos Poetas.
Fonte das Quatro Estações, há algo de estranho no enferrujamento da pedra.
Contraste entre o ajardinamento atual e o seu estado anterior, os jardins, no verão, estão cheios de cor e os arruamentos parecem cumprir o traçado inicial.
Uma vista geral do Palácio e Jardim dos Marqueses de Pombal, o leitor interessado encontrará aqui um Guia dos Jardins.
Duas araucárias parecem tutelar o palácio e os jardins.
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Nota do editor

Último post da série de 25 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28212: Os nossos seres, saberes e lazeres (742): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (263): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 8 (Mário Beja Santos)