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sábado, 5 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28324: Os nossos seres, saberes e lazeres (748): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (269): Ainda em Frankfurt, depois Wiesbaden, mas volto atrás, a Mainz - 4 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 14 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
A memória já não é o que era, descurei umas imagens que guardei na câmara quanto ao passeio em Mainz, por mero acaso entrei num museu que tem uma certa grandiosidade e um património da presença romana nesta porção de território alemão que é invejável. Fica o registo do que vi e sonho voltar a ver a preceito. Concluo a viagem a Frankfurt, graças à minha maleita sou forçado a andar com conta peso e medida e sem dores graças ao paracetamol. Não é a primeira vez que mostro imagens desta catedral, ela dispõe de um património histórico-cultural incomum, era aqui que era eleito o imperador do Sacro Império Romano-Germânico, enquanto fiz os meus estudos de História, jamais associei porque se chamava ao imperador Carlos V e Carlos I de Espanha, isto para dizer que só bem tarde me apercebi da História deste Império que se extinguiu em tempos napoleónicos. À cautela, ao fim daquela tarde sobreaquecida meti-me no comboio e regressei a Idstein. O dia seguinte será igualmente precioso, reservado a Wiesbaden, estive cá o ano passado na ópera local vi uma inesquecível récita de A Flauta Mágica, de Mozart, mas não deu para ver a cidade e os seus encantos.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (269):
Ainda em Frankfurt, depois Wiesbaden, mas volto atrás, a Mainz - 4


Mário Beja Santos

Devido a uma certa desordem de imagens na câmara do meu telemóvel, permite-me voltar atrás, estou novamente na cidade de Mainz, escuso de dizer que o calor é sufocante, ninguém dá uma explicação clara do transporte até à igreja de Santo Estevão, vou palmilhando as ruas da cidade, dou com a fachada de um museu que não concorre em popularidade com o de Gutenberg, mas que é verdadeiramente opulento, entrei, uma amável rececionista brasileira bem me despertou o apetite para a visita neste edifício que foi uma caserna militar e que desde 1803 é o ex-libris de um património glorioso sobretudo da presença romana, há uma boa secção da pré-história, arte tumular medieval, pintura alemã dos séculos XVI em diante, não falta uma aguarela de Turner, outra de Signac e um belo Picasso de 1908. O suficiente para ter dito com sinceridade à estimável senhora que hei de voltar logo que puder. Voltemos então a Frankfurt.
Fachada do Landesmuseum, Mainz
Pablo Picasso, Cabeça de Mulher, 1908, Landesmuseum, Mainz
Detalhe do magnífico mosaico romano tendo no centro Orpheu a dedilhar a sua cítara, Lendesmuseum, Mainz
O altar-mor da Catedral de São Bartolomeu, Frankfurt
Sempre que visito esta catedral venho aqui deslumbrar-me com aquela que é para mim a mais emocionante escultura medieval, representa a morte de Maria, são inultrapassáveis as expressões de consternação e há aquele delicado, único, pormenor do anjinho a fechar um olho à mãe de Cristo, aqui me detenho também para concelebrar com os meus mortos.
Última ceia, parte do Altar de Santa Ana na Catedral de Frankfurt, obra dos inícios do século XVI
Era um ruidoso dia de festa no centro histórico de Frankfurt, bem procurei um ângulo que desse relevo à monumentalidade da catedral, julgo ser impossível, a 22 de março de 1944, uma vaga de bombardeamentos anglo-americanos destruiu o centro histórico e a mais velha estrutura medieval que existia na Europa, fez-se a reconstrução, focou-se na área vizinha da catedral, Frankfurt foi reconstruída, mas fora desta reconstrução é uma cidade insípida, só veio a ganhar carácter com os arranha-céus com que ficamos a saber que aqui é a sede do Euro, uma gigantesca praça financeira e estamos perto de um outro não menos gigantesco conglomerado, a Hoechst, da indústria química e farmacêutica. Suscitou-me a curiosidade de procurar um ângulo da agulha da torre com um desses edifícios magnificamente reconstruídos.
Digamos que se está no centro histórico de Frankfurt, chama-se Die Rõmer, na imagem da esquerda ao centro, o novo imperador do Sacro Império Romano-Germânico, conjuntamente com os sete príncipes eleitores, recebia em audiência as notabilidades; obviamente que estamos a ver duas imagens da praça com edifícios totalmente reconstruídos.
Outra imagem de Die Rõmer, vê-se a torre da igreja de São Nicolau
Outro pormenor da praça Die Rõmer
Como a minha memória já não é o que era, mesmo tendo num bolso um bloco de notas, aquele calor estonteante bulia-me com os nervos, só queria andar à sombra e beberricar da garrafa de água. Esta imagem é uma mera curiosidade de alguém que à cautela procura fixar os sítios por onde anda, no caso vertente a igreja de São Nicolau, sóbria, mas cheia de espiritualidade.
Altar-mor da igreja de São Nicolau
Ontem, andei por Frankfurt, hoje o passeio é a Wiesbaden, quem aqui me trouxe chamou-lhe igreja russa na verdade é uma igreja ortodoxa grega e tem por detrás uma história de amor, eu depois vou contar.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 29 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28305: Os nossos seres, saberes e lazeres (747): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (268): Ainda a visitar Mainz, no dia seguinte em Frankfurt - 3 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28323: Parabéns a você (2524): José Marcelino Martins, ex-Fur Mil TRMS da CCAÇ 5 (Canjadude, 1968/70)

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Nota do editor

Último post da série de 4 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28318: Parabéns a você (2523): Armor Pires Mota, ex-Alf Mil Cav da CCAV 488/BCAV 490 (Mansoa, Bafatá e Jumbembem, 1963/65) e José Câmara, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 3327 e Pel Caç Nat 56 (Brá, Mata dos Madeiros, Bassarel e Tite, 1971/73)

Guiné 61/74 - P28322: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XXXVIII: Quartel de Mansoa, porta de armas e vista aérea

 



Foto nº 1, 1A e 1B >  Guiné > Região Oeste > Sector O4 > Mansoa > BCAÇ 2885 (1969/71) > Porta de armas



Foto nº 2, 2A e 2B >  Guiné > Região Oeste > Sector O4 > Mansoa > BCAÇ 2885 (1969/71) > Porta de armas





Foto nº 3, 3A, 3B e 3A >  Guiné > Região Oeste > Sector O4 > Mansoa > BCAÇ 2885 (1969/71) >  Vista aérea


Fotos do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.

Fotos (e legendas): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Continuação ão da publicação  do álbum fotográfico
 do alferes graduado capelão José Torres Neves, nosso grão-tabanqueiro, que pretenceu à CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71). O espóçio está à guarda do nosso amigo e camarada Ernestino Caniço.

 
O aquartelamenmto de Mansoa foi construído de raiz pelo BENG 447, como se vê pela tipologia das edificações (casernas), que eram iguais em toda a parte...

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Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P28321: Fichas de unidade (42): BCaç 2885 (Mansoa, 1969/71), e suas unidades de quadrícula, CCAÇ 2587, CCAÇ 2588 e CCAÇ 2589


Presumivelmente, o ten cor inf João Pedro do Carmo Chaves de Carvalho,
 cmdt do BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71)



Guiné > Região do Oio > BCAÇ 2885 (1969/71 >  s/d >  Comandante, capitão e 1º sargento (presume-se que seja o cmdt do BCAÇ 2885, o cmdt da CCS, cap SGE Abílio do Nascimento Castro,  e o 1º srgt, cujo nome se desconhece.

Foto do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar, CCS/BCAC 2885 (1969/71).

Foto (e legenda): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Fichas de unidade > Batalhão de Caçadores nº 2885

Identificação:  BCaç 2885

Unidade Mob: RI 15 - Tomar

Cmdt: TCor Inf João Pedro do Carmo Chaves de Carvalho | 2.° Cmdt: Maj Inf Valentino Diniz Tavares Galhardo | OInfOp/Adj: Maj Inf Alfredo José

Cmdts Comp:

CCS: Cap SGE Abílio do Nascimento Castro

CCaç 2587: Cap Mil Art Lourenço Gomes de Campos

CCaç 2588: Cap Inf Fernando do Amaral Campos Sarmento | Cap Inf Luís da Piedade Faria | Cap Mil Art Armando Vieira dos Santos Caeiro

CCaç 2589: Cap Inf Francisco António Mendonça Martins Vicente | Cap Mil Art Jorge Manuel Simões Picado

Divisa: "Nós Somos Capazes"

Partida: Embarque em 07Mai69; desembarque em 13Mai69 | Regresso: Embarque em 25Fev71

Síntese da Actividade Operacional

Em 14Mai69, rendendo o BCaç 1912, assumiu a responsabilidade do Sector 04, com sede em Mansoa e abrangendo os subsectores de Porto Gole e Mansoa. 

Em 230ut69, por extinção do Sector 03, a zona de acção foi aumentada do subsector de Mansabá, o qual lhe foi novamente retirado em 11Nov70, após reactivação do COP 6. 

Em 290ut69, o subsector de Porto Gole, foi reduzido da área de Enxa1é, que passou a ser integrada no sector do BCaç 2852. 

Em 15Nov69, por ajustamento do dispositivo, foi criado o subsector de JuguduI. As suas subunidades mantiveram-se sempre integradas no dispositivo e manobra do batalhão.

Desenvolveu intensa actividade operacional, efectuando numerosas operações e acções, golpes de mão, emboscadas, escoltas e patrulhamentos. 

Colaborou ainda na protecção e segurança dos movimentos das colunas de transporte dos meios de pavimentação e asfaltagem da estrada Mansabá-Farim e na segurança e protecção dos aldeamentos e organização dos sistemas de autodefesa e promoção sócioeconómica das populações.

Dentre o armamento capturado mais significativo, salienta-se: 

3 metralhadoras pesadas, 1 pistola-metralhadora, 8 espingardas e 28 granadas de armas pesadas e 50 minas detectadas e levantadas.

Em 14Fev71, foi rendido no Sector 04 pelo BCaç 3832 e recolheu a Bissau para embarque.

***

A CCaç 2587 seguiu em 14Mai69 para Mansoa, a fim de render a CCaç 1686 e assumir a responsabilidade do mesmo subsector, com destacamentos em Uaque, Rossum, Bindoro e Jugudul

Em 15Nov69, por criação do subsector respectivo, a sede da subunidade foi transferida para Jugudul, mantendo os destacamentos de Uaque, Rossum e Bindoro e sendo substituída em Mansoapela CCaç 2588. 

Em 15Jan70, por troca com a CCaç 2588, regressou a Mansoa, com a missão de intervenção e reserva do sector, onde se manteve até 04Mai70, sendo substituída pela CCaç 15, tendo actuado em diversas operações realizadas nas regiões de Locher, Bindoro e Polibaque, entre outras, e escoltas a colunas.

Em 05Mar70, rendendo a CArt 2411, assumiu a responsabilidade do subsector de Porto Gole, com um destacamento em Bissá.

Em 17Fev71, rendida pela CCaç 3303, recolheu a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.

***

A CCaç 2588 seguiu em 14Mai69 para Mansoa, a fim de render a CCaç 1685, ficando em missão de intervenção e reserva do sector, tendo actuado em diversas operações realizadas nas regiões de Locher, Changalana, Benifo, Ponta Bará e Namedão, entre outras, e escoltas a colunas. 

Em 15Jan70, por troca com a CCaç 2587, assumiu a responsabilidade do subsector de Jugudul e seus destacamentos de Uaque, Rossum e Bindoro.

Em 15Fev71, rendida pela CCaç 2304, recolheu a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.

***

A CCaç 2589 seguiu em 14Mai69 para Mansoa, a fim de render a CCaç 1684, destacando efectivos para Braia e Cutia. 

Em 27Nov70, a sede da companhia foi transferida para Cutia, para protecção e segurança dos movimentos na estrada Mansoa-Mansabá.

Em 15Fev71, rendida pela CCaç 3305, recolheu a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.

Observações -  Tem História da Unidade (Caixa n.º 110 - 2ª Div/4ª  Sec, do AHM\

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pp. 133/134

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 11 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28173: Fichas de unidades (41): CART 2384, "Leões do Norte" (Contuboel, Saliquinhedim / K3, Jumbembém, Farim, 1968/1970)

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28320: Notas de leitura (1957): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Não é por especial deferência que Howard French destaca o papel dos portugueses na descoberta de África e no comércio negreiro, como temos vindo a apreciar. A historiografia do Estado Novo, quanto a esta matéria, dava ressonância a uma alegada missão civilizadora, exportação da fé e cristianização de gente que ou trilhava os ideais de Mafoma ou adorava ídolos, e, por simpatia, faziam-se trocas que tornavam a economia portuguesa um tanto respeitável na cena europeia. O primeiro verdadeiro contraponto foi dado pelos importantíssimos trabalhos de Vitorino Magalhães Godinho, ele pôs o foco no que os Descobrimentos portugueses e de outros tinham introduzido na economia mundial. Ora este autor dá mesmo conta de que por razões estratégicas, pelo pesado constrangimento imposto pela União Ibérica e pelo esforço exigido pelas guerras da Restauração e recuperação colonial, o comércio de escravos pesou na pouca defesa que se fez do que restava do império português no oriente. Brasil e Angola eram as jóias da Coroa que urgia fazer luzir, como aconteceu com o ouro, os diamantes, o comércio negreiro e a agricultura de plantação.

Um abraço do
Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 4

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro Origem: África, o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu. Prosseguindo a sua narrativa, dissecará a evolução do comércio negreiro, destacando o papel da fortaleza de São Jorge da Mina, a criação de uma agricultura de plantação onde o escravo teve desempenho fundamental, a riqueza daí adveniente foi contributo decisivo para seis séculos de desenvolvimento mundial.

Estamos agora na corrida a África ou na partilha de África, entraram em cena velhos atores como Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Holanda e novos como a Bélgica e a Alemanha. Os velhos andaram em guerras entre si, caso da Grã-Bretanha e da França pelo vale do rio Ohio fazia parte da competição deles nas Caraíbas e no Canadá, tentavam o controlo da América do Norte, a França queria consolidar as Índias Ocidentais francesas, a mesma França que tinha centros de escravatura no Senegal; no século XVIII, os britânicos disputam a primazia francesa, passaram a ser o primeiro comprador de escravos e em 1761 o império britânico seguia atrás da França nas exportações de açúcar, algodão, rum e café.

A industrialização da Grã-Bretanha e a sua ascensão a potência mundial ficaram indissociavelmente ligadas às colónias de plantação de açúcar, ao trabalho escravo. “A ascensão de Liverpool, a prosperidade do Império Britânico, o triunfo da Marinha inglesa, a riqueza das famílias bancárias britânicas e o sucesso dos engenhos de algodão ingleses, tudo dependia do comércio de escravos e das mercadorias produzidas pelos escravos.” É neste contexto que se pode analisar o conflito entre países por causa das pessoas transportadas acorrentadas através do Atlântico como ouro negro, estes escravos farão parte da competição global e a Conferência de Berlim será também o sinal de que os lugares tropicais ganhavam realce como agricultura de plantação e oportunidades comerciais, aqui, os povos cativos, dentro desta lógica, podiam ser utilizados com maior produtividade. Portugal foi um perdedor, sobretudo por estar ligado ao império espanhol durante a União Ibérica. A Holanda derrotou Portugal em 1637, tomou o controlo da Costa do Ouro, já tinham atingido São Jorge da Mina, irão tomar São Paulo de Luanda, lançarão um ataque contra o Brasil português, também tomaram São Tomé, o império português parecia totalmente perdido, irá parcialmente ressuscitar com a Restauração.

O autor irá focar-se na revolução introduzida pelos engenhos de açúcar no Brasil. Tornou-se imperioso trazer escravos, os índios e toda a classe de indígenas começaram a morrer em massa; sabemos hoje que os culpados foram os agentes patogénicos, uma longa lista que incluía varíola, sarampo, tosse convulsa, varicela, peste bubónica, tifo, febre tifoide, difteria, corola, escarlatina e gripe, tudo trazido do Velho Mundo. Sem os africanos o Novo Mundo não teria sido viabilizado nem de perto nem de longe na extensão em que o foi. Sem os africanos jamais os europeus teriam conseguido ocupar e colonizar os vastos territórios do Novo Mundo com a velocidade com que acabaram por conseguir fazer. O enfoque do autor sobre a indústria açucareira no Brasil irá ser um polo de atração para todas as outras potências competidoras. Entretanto Portugal abriu uma nova frente no comércio negreiro, o Congo, estabelecer-se-ão relações cordiais entre as respetivas coroas. Observa o autor que Portugal calculou que o Brasil laborado por escravos valia substancialmente mais para o reino do que as suas explorações no Oriente. Com a Restauração, Portugal atirou-se à reconquista das duas joias gémeas do império: Brasil e Angola.

Howard French disseca ao pormenor a instalação de plantações francesas e britânicas no Novo Mundo, dá o exemplo de Barbados e também da Jamaica; descobriu-se que as exportações para África não podiam incluir lanifícios pesados, a indústria do algodão ganhou velocidade; deslocou-se o açúcar para as Américas, dá-se a explosão da prata espanhola. Atenda-se aa uma nova observação do autor: “Os mercados africanos desempenhariam um papel vital no crescimento da produção inglesa em geral. Isto incluía de tudo, desde armas a navios, e desde cordas a velas. Porém, à medida que o seu recém-criado império nas Caraíbas crescia alimentado por mão de obra africana, os ingleses descobriram novos mercados especialmente importantes para a próxima grande indústria do futuro, os têxteis, sob a forma de vestuário para escravos.”

Deram-se grandes mudanças na Europa com a chegada do açúcar do café e do chá, produtos que irão ter um valor civilizacional e até contributivo para a história das ideias, produtos que se servirão em novos estabelecimentos que oferecem sociabilidade, os cafés, produtos presentes nas reuniões tanto da corte e do salão onde se discute a política, lá longe, onde se produzem e exportam esses produtos está a mão de obra africana.

Mas voltemos a um sonho antigo, o ouro, que nunca deixou de ser um grande negócio em paragens africanas. Só que teve de estar eclipsado por outra mercadoria, o comércio transatlântico de escravos. E o autor recorda o papel desempenhado por Portugal:
“Quando o comércio de escravos começou a aumentar na primeira metade do século XVI, o seu volume inicial era maioritariamente proveniente de uma área a que os europeus chamavam Cabo Verde, uma área continental que se estende desde os matagais do Senegal e Gâmbia até À Guiné-Bissau e as florestas tropicais e pântanos da Serra Leoa. Em grande medida, esta escolha refletia conveniência por estar mais próxima das Europas e das Américas e por isso começou a integrar-se no emergente mundo atlântico. (…) À medida que outras nações europeias se lançavam no comércio de escravos africanos, o endurecimento da concorrência levou os portugueses cada vez mais longe na costa africana.”

Vamos agora ver os itinerários destes escravos até chegar ao Novo Mundo.
Professor Howard W. French

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 28 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28303: Notas de leitura (1955): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 31 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28309: Notas de leitura (1956): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28319: Foi há... (11): Sessenta anos que Artur Augusto Silva (Ilha da Brava, 1912 - Bissau, 1983) escreveu, na prisão política de Caxias, essa pequena obra-prima do conto guineense, que é "O Cativeiro dos Bichos"



"Os animais mais fortes podem ser vencidos
pela audácia, coragem, inteligência e cooperação dos mais fracos" (Sabedoria da literatura oral africana)


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Artur Augusto Silva (2006)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


1. Trata-se uma "fabulosa fábula" (se nos é permitido o pleonasmo) do tempo em que os animais falavam. E é uma homenagem à literatura oral africana. E mais: é uma pequena obra-prima do conto guineense.

Recorde-se que na cultura dos mais diversos povos as fábulas (e demais contos populares) são também uma forma, indireta, de denunciar e criticar os abusos do poder dos mais fortes, incluindo as várias  formas de violência sobre os mais fracos.

Muitas destas narrativas incluindo as fábulas guineenses, encerram também lições segundo as quais os animais mais fortes, como o leão ou o "lobo" (hiena), podem ser vencidos pela "audácia", "coragem", "inteligência" e "cooperação" dos mais fracos.

Este conto foi escrito pelo advogado, defensor de presos políticos em Bissau, no início da década de 1960, Artur Augusto Silva (Ilha da Brava, Cabo Verde, 1912- Bissau, 1983), pai do nosso querido e saudoso amigo luso-guineense Pepito (Carlos Schwarz da Silva, Bissau, 1949- Lisboa, 2012) e marido da não menos querida e saudosa Clara Schwarz (Lisboa, 1915 - Oeiras, 2016), de origem judaica (pai polaco, e mãe russa, de Odessa) que consta de um livro de contos, escrito em 1966, na Prisão de Caxias, e editado a título póstumo pelos seus três filhos ("O Cativeiro dos Bichos", edição de autor, Bissau, 2006).

Era também uma contundente crítica, implícita, ao sistema colonial, à sua política, à sua justiça e à guerra. Mas quiçá, também, ao princípio da "luta armada de libertação", iniciada pelo PAIGC em 23 de janeiro de 1963. Artur Augusto Silva, tal como a esposa,  era um intelectual, anticolonialista, amigo do Amílcar Cabral. Podia ser um simpatizante do PAIGG, mas não um militante, nem necessariamente um defensor da "guerra justa", um partidário da "violência revolucionária" que degenerou em tragédia para aquela terra e aquele povo que ele tanto amava.

Recorde-se que na época era governador (e comandante-chefe) da Guiné o General Arnaldo Schulz, o mesmo que expulsou o autor da sua tão amada terra de adopção (onde vivia desde 1949), e que o mandou prender, à chegada ao aeroporto de  Lisboa,  em 26/8/1966,  através do longo braço armado da PIDE, "por  exercer atividade contra a segurança do Estado" (sic). (De resto, já era vigiado pela polícia política desde 1938.)  


O autor quando jovem,
em Lisboa...
Arnaldo Schulz  opôr-se-ia, depois,  ao seu regresso à Guiné: em ofício da subdelegação da PIDE de Bissau, de 19/12/1966, é transmitida ao Diretor-Geral da PIDE, em Lisboa,  a opinião do Governador de que "aquele Senhor não deve voltar à Guiné, pelo menos enquanto se mantiver o terrorismo" (sic).

Cidadão empenhado, africano nacionalista, jurista corajoso, jornalista e escritor de talento, cofundador do colégio-liceu de Bissau (em 1949),  membro do Centro de Estudos da Guiné, vogal do Conselho do Governo da Guiné (em 1964, já com o brigadeiro Arnaldo Schulz, como governador), amigo pessoal de Amílcar Cabral,  fez questão de defender presos políticos guineenses, muitos deles seus amigos "ou que passaram a sê-lo, acusados de sedição pela potência colonial"; mais concretamente, "foi defensor em 61 julgamentos, um deles com 23 réus, tendo tido apenas duas condenações".

Esteve preso 4 meses, em Caxia, às ordens da PIDE,  sem culpa formada. Em 23/12/1966, "por intervenção de Marcelo Caetano e de outros responsáveis políticos, que embora discordassem das suas ideias políticas,  o admiravam como homem de carácter, foi libertado". 

Proibido de regressar à Guiné, foi-lhe  fixada residência em Lisboa. (Pena que entretanto he será levantada, por decisão do Conselho de Ministros, em janeiro de 1970.)

Em 1967, Marcelo Caetano, seu professor, convidou-o para ir trabalhar "como advogado na Companhia de Seguros Bonança". 

Também Adriano Moreira o convidou para leccionar no Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (ISCSPU) (herdeiro da Escola Colonial, criada em 1906), "o que ele recusou, fazendo ver ao portador do convite a incoerência de o terem prendido pelas suas ideias sobre o colonialismo português e depois o convidarem para leccionar matérias relacionadas com Africa".

Em 1977, de visita à nova República da Guiné-Bissau, foi convidado pelo então Presidente Luís Cabral para trabalhar como juiz no Supremo Tribunal de Justiça. Foi professor de Direito Consuetudinário na Escola de Direito de Bissau. Faleceu em Bissau em 1983, com 70 anos. (Para saber mais, clicar aqui...)

2. Sessenta anos depois, é mais do que justo republicar (*), no nosso blogue,  este conto,“O Cativeiro dos Bichos” que não é apenas   uma sábia fábula africana tradicional, é também uma finíssima sátira política, uma deliciosa paródia judicial e uma subtil alegoria do colonialismo... Podemos ainda ver nele, subliminarmente,  uma espécie de autobiografia cifrada do próprio autor.  

Não tendo  sido publicado em vida (segundo julgamos), mas já a título póstumo (em 2006),  este (e outros  contos) tem  a singularidade de ter sido escrito há sessenta anos, na prisão política de Caxias, entre  setembro e dezembro de 1966, por um homem que conhecia muito bem a Guiné, a advocacia, a repressão política e o aparelho colonial.

É essa circunstância histórica, além do mérito literário, que dá a esta  fábula uma dimensão documental e política extraordinária. É um conto que descreve, ao fim e ao cabo, uma dupla prisão: a dos bichos presos pelo “bicho homem” e a do próprio autor que é "desterrado" para a metrópole pelo governador da Guiné, como "personna non grata"... (**)

Julgamos que esta dimensão escapou a muitos leitores, numa primeira leitura, há 20 anos... O poste P775 (publicado ainda no velho "Blogue-Fora-Nada") teve menos de 200 visualizações e nem um único comentário (*).

A IA fez, a nossa pedido, a sua leitura própria deste conto, ilustrando-o com um bela banda desenhada.



Portugal > Alcobaça > São Martinho do Porto > Estrada do Facho > Casa do Cruzeiro > c. 1957 > O pai, Artur Augusto Silva (1912-1983), com os filhos, da esquerda para a direita, João, Iko (Henrique, já falecido) e Pepito (Carlos) (1949-2012). Cortesia de João Schwarz da Silva, que nos diz que a data deve ser "provavelmente 1957"... Teria então o Pepito (nascido em Bissau, em 1949) os seus oito anos... Esta casa será durante alguns anos, até à morte do Pepito, a sede da saudosa Tabanca de São Martinho do Porto...

Foto (e legenda): © João Schwarz da Silva (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Guiné-Bissau > Bissau > Capa  do livro de contos, de Artur Augusto Silva, "O Cativeiro dos Bichos"  (edição de autor, Bissau, 2006 ). Na realidade, tratou-se de uma edição dos três filhos do autor, Henrique, João e Carlos Schwarz, em homenagem à memória, ao talento e ao exemplo cívico do seu pai, Artur Augusto Silva (1912-1983), que viveu na Guiné-Bissau, de 1949 a 1966, e depois, de 1976 até à data da sua morte. Trata-se de uma antologia. Um dos contos que estáo livros é justamente este, "O cativeiro dos bichos" (pp, 


Conto "O Cativeiro dos Bichos"

por Artur Augusto Silva 

(Ilha da Brava, Cabo Verde, 
1912- Bissau, 1983)



A história que ides ler foi-me contada na tabanca de Quebo, no sertão da terra dos fulas, por um homem chamado Umarú Só, velho para além de toda a idade e que por ser velho e sábio conhecia os segredos do mundo e as suas maravilhas.

Vou narrá-la por palavras minhas, porque sei que não me perdoariam o uso daquele estilo floreado, exuberante, por vezes difuso mas sempre poético, que os fulas usam para contar uma história.

Houve um tempo em que todos os seres viviam na mais foi perfeita harmonia e a paz reinava por toda a parte. Isto passou-se antes de ter nascido uma garça chamada Macute e que ficará para sempre como o anjo mau que perverteu o mundo.

Foi o caso que numa manhã de sol, quando as manadas de búfalos pastavam nas lalas verdejantes de Bambadinca, uma garça ainda nova e inexperiente, ao esburgar com o bico as carraças de um búfalo, picou-o profundamente, o que o levou a dar um sacão com a cauda, sacão que apanhou a garça e a fez cair !

As coisas teriam ficado por aqui se não fora a garça Macute que, de longe, presenciou o caso e,  porque queria tornar-se raínha das aves, logo engendrou um plano que a conduzisse à satisfação dos seus desejos.

Andou de terra em terra convocando uma grande reunião de todos os bichos que voam,  para tomarem conhecimento da maior afronta que jamais fora praticada sobre um ser vivente.

Chegado o dia da reunião, ali se encontrou toda a bicharada que povoa os ares, desde a águia-real, de peito branco e palavra e bico adunco, até ao colibri que é mais pequeno que a pequena flor.

Vieram os papagaios vestidos de cinzento e peitilho vermelho, vieram todos os patos, desde o marreco ao ferrão, vieram as galinhas, incluindo as perdizes e as galinhas da Guiné,  todas louçãs na sua vestimenta preta de bolas brancas, vieram os mergulhões de longo bico,  plumagem verde, azul, preta e branca, veio toda a casta de pardalada que enxameia os céus, vieram as abetardas no seu voo lento e majestoso e, por fim, chegaram as borboletas no seu voo saltitante e colorido.

Reunidos todos, a garça Macute declarou que era necessário escolher um presidente que dirigisse os trabalhos mas, quando esperava ser investida no cargo, teve a desilusão de ver que optavam pela águia-real.

A águia-real soltou três assobios e declarou aberta a assembleia. Logo a garça Macute levantou uma questão prévia:

– Vejo aqui as nossas boas amigas, as avestruzes, mas afigura-se-me que elas não são aves. Com efeito, desde que que o mundo é mundo, não há notícia de que uma avestruz tenha voado. Elas fazem parte dos bichos que andam e, por isso, não devem tomar parte da nossa reunião.

Todas as garças grasnaram em sinal de assentimento e estabeleceu-se um certo burburinho, prontamente reprimido pelo presidente que declarou ir pôr po caso à votação. 
A coruja, sábia reconhecida por todos, pediu a palavra e disse:

– O problema posto pela nossa companheira, a garça, não é novo e muitas têm sido as opiniões ventiladas sem que se chegue a qualquer conclusão. Se é verdade que a avestruz tem asas, não é menos certo que nunca se serve delas para voar. Em minha opinião, devem ser classificadas entre os bichos que andam e não entre os que voam.

Como, após tão sábio resumo, ninguém quisesse usar da palavra, a águia pôs o caso à votação, e por maioria esmagadora foi decidido que as avestruzes não eram aves, mas sim bichos que andam.

Então a águia convidou a garça a dizer do motivo da reunião, e Macute começou:

– As aves são neste mundo em que vivemos, os animais mais nobres e mais valentes. Nunca uma de nós sofreu qualquer vexame ou insulto sem que imediatamente respondesse. Ora, devo dizer-vos que é com o coração oprimido de indignação e raiva que vos vou contar que há dias, na bolanha de Bambadinca, uma de nós, precisamente uma garça, foi vítima de agressão por parte de um búfalo. Devo acrescentar que o caso não pode ficar assim e por isso proponho que se declare guerra sem quartel a todos os bichos que andam.

Uma vozearia infernal atroou os ares e os abutres eram, de entre todas as aves, quem mais grita fazia, apoiando tão dignos sentimentos.

Um pardalito que estava presente, voltou-se para um jagudi que deu mostras de grande contentamento e ainda disse:

– O que vocês querem é que haja guerra para poderem comer a carne dos que morrem.

Logo o jagudi, gritando traidor, deu-lhe uma sapatada em três tempos o engoliu.

– Calma! Calma! – gritava a águia-real, receosa de não ter mão na assembleia.

Serenados um pouco os espíritos, a águia deu a palavra ao primeiro orador inscrito, o periquito. Este começou por dizer que a afronta fora grave mas, em seu entender, deveria averiguar-se primeiro se as coisas se tinham passado conforme o relato da garça, porque não via razão para que um búfalo magoasse uma garça, sem qualquer razão. Propunha, pois, uma comissão de inquérito.

O papagaio, segundo orador, citou alguns precedentes em que o comportamento dos bichos que andavam, para com os bichos que voam, demonstrava crueldade e propôs que o caso fosse levado ao conhecimento do bicho homem que possui discernimento mais do que suficiente para resolver o conflito.

As corujas apoiaram e depois de muitos oradores terem falado, foi resolvido levar o caso ao bicho homem. Formada a comissão que se avistaria com o bicho homem, dissolveu-se a assembleia, no meio de grande excitação.

O papagaio, como falador de grandes conhecimentos, presidia à comissão de queixa, a qual se dirigiu ao bicho homem para fazer as suas lamúrias.

Ouviu o bicho homem as mágoas da passarada e ali jurou que iria investigar, para que se fizesse inteira e completa justiça. Voltassem daí a sete dias, para ouvir a sua resolução.

A passarada retirou-se em boa ordem e o bicho homem ficou a esfregar as mãos de contente porque em sua cabeça surgira um plano. Mandou o bicho homem chamar o rei dos bichos que andam e que é, contra o que se pensa, o elefante.

Veio este acompanhado de numeroso séquito do qual fazia parte o seu melhor conselheiro, o macaco. 
Exposto o motivo da convocação, logo ali declarou o elefante que as intenções da bicharada que anda,  eram pacíficas e que nunca, até aquele momento, qualquer dos seus súbditos fizera mal a outrem, facto que devia ser do conhecimento do bicho homem que tudo sabe.

– Na verdade, na verdade – retorquiu o homem. – Mas há uma queixa e é necessário saber quem tem razão. Parece-me que seria melhor que os bichos que andam, nomeassem um delegado e os que voam, outro, para trazerem a minha presença, as alegações de cada parte e as provas a produzir...

Todos concordaram e ficou estabelecido que daí a sete dias e se realizaria o julgamento do caso.

Sete dias passados e à hora marcada, reuniu-se a grande assembleia e o bicho homem, dizendo que ambas as partes lhe mereciam o maior respeito e consideração e que, assim, não podia dar a direita a um e a esquerda a outro, propôs que o representantre de cada parte ocupasse a direita durante meia hora e que a primeira posição fosse tirada à sorte.

Constituído o Tribunal, entraram o macaco como advogado, dos bichos que andam e mais vinte e sete testemunhas, logo seguido pelo papagaio, representante dos bichos que voam, com vinte e cinco testemunhas.

Historiou o homem o diferendo em poucas palavras e pediu ao papagaio, como advogado da parte acusadora, que dissesse da sua justiça.

Falou o papagaio com perfeita dicção e clareza, citando vários confrades seus e algumas palavras que ouvira aos homens, o que lhe valeu aplausos até dos bichos que andam.

Empertigou-se o macaco, abriu os braços como já vira em comícios do bicho homem e analisou, um por um, os argumentos do papagaio e a sua queixa. Falou no amor, na justiça, na piedade, em todos os sentimentos nobres e a tal ponto comoveu a bicharada que voa, fez chorar um pardal estouvado e brincalhão como todos os pardais.

Exposta a questão, iniciou o bicho homem a audição das testemunhas e quer as de acusação, quer as de defesa, declararam nada saber do assunto.

Concedida novamente a palavra aos advogados, estes excederam-se em citações: foram épicos, heróicos, patéticos, fizeram chorar a assembleia e, logo a seguir fizeram-na rir desabridamente e foi numa das suas tiradas mais sublimes que o macaco, demonstrando rara intuição científica, classificou o homem de seu primo. O chimpanzé que estava seguindo a peroração nos menores detalhes, comentou em à parte: primo, mas degenerado.

Depois desta afirmação solene do macaco, os jornais e revistas que o bicho homem publica, começaram-na citando obstinadamente, pelo que hoje é ponto assente a existência de tal parentesco.

O bicho homem suspendeu a sessão por uma hora, ao cabo da qual reentrou para ler a sentença. Era uma longa peça de considerandos e que começava por afirmar que "em virtude de se não ter provado a queixa dos bichos que voam, mas convindo fazer justiça, profiro a seguinte sentença: 

– Julgo a acusação improcedente mas, tendo em atenção que a paz é um dever indeclinável de todos os espíritos sãos, e para poder reservá-la, determino que me sejam entregues como reféns e para garantia da paz futura, um animal de cada uma das espécies que voam que e andam.

Eliminava magnanimamente custas, dada e manifesta pobreza das partes.

Todos animais, tanto os que voam como os que andam, aplaudiram delirantemente tão sagaz decisão e só o macaco, fiado no parentesco com o bicho homem, quis recorrer da decisão, alegando que "começara a escravatura".

Ninguém o quis ouvir, a decisão ficou sem recurso (recurso para quem? perguntava o papagaio) e o bicho homem começou encaminhando a bicharada para currais e capoeiras previamente instalados por sua indústria.

A verdade é que com o correr dos anos as palavras do macaco tiveram plena comprovação, pois o bicho homem nunca mais soltou nenhum dos reféns e porque estes se reproduziam e o bicho homem não tinha com que alimentá-los, passou a comer deles cada vez com mais apetite.

Se acontecia alguém perguntar ao homem a razão de tão prolongado cativeiro, respondia: 

– Como querem que eu os liberte se ainda ontem vi um milhafre pilhar um rato e comê-lo em três tempos? É com sacrifício, com muito grande sacrifício,  que dou de comer à bicharada, mas mesmo com sacrifício devo manter a minha palavra honrada e a minha justiça proverbial.

E prosseguindo:

– É certo que ensinei os bois a trabalhar para mim; é certo que como a carne dos bichos e uso das suas penas e da sua pele em utensílios que fabrico, mas não é menos verdade que todos devem conhecer a minha isenção. Estou esperando que os bichos consigam uma promoção social que os habilite a entrar no concerto dos seres civilizados para, então, lhes dar a liberdade que eu desejo mais do que eles.

Se a história é verdadeira, não posso assegurá-lo pois que os factos passaram-se há muitos anos e não conheci o bicho homem que fez tal justiça; mas, porque Umarú Só é pessoa séria, incapaz de inventar, estou em crer que eles se verificaram conforme a narrativa.

(Prisão de Caxias, 1966)

(Revisão / fixação de texto, notas: LG)
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Notas do editor LG:


(*) Vd. poste de  20 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - P775: Antologia (38): O cativeiro dos 

bichos de Artur Augusto Silva (Luís Graça)


(**) Último poste da série : 26 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27955: Foi há... (10): 80 anos: teias que o império tecia: em 25 de abril de 1946, o N/M Quanza que "deu a volta ao mundo", regressou a Lisboa, trazendo tropas expedicionárias de Timor... e os dois netos, menores, órfãos, do heróico "liurai" Dom Aleixo Corte-Real (1886-1943), que foram entregues à Casa Pia

Guiné 61/74 - P28318: Parabéns a você (2523): Armor Pires Mota, ex-Alf Mil Cav da CCAV 488/BCAV 490 (Mansoa, Bafatá e Jumbembem, 1963/65) e José Câmara, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 3327 e Pel Caç Nat 56 (Brá, Mata dos Madeiros, Bassarel e Tite, 1971/73)


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Nota do editor

Último post da série de 3 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28316: Parabéns a você (2522): Luís Gonçalves Vaz, Amigo Grã-Tabanqueiro, ex-Fur Mil PE (EPC, 1983/84)