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Gondomar > Medas > Fundação Hermínia Rei Vilar > 11 de julho de 2026 > 15h00 > Sessão de apresentação do livro "3x44: Abel e Caim em Contrapé", editado pela eVida, chancela do jornal Vida Económica. O romance tem 287 pp.
1. Com a devida vénia, reproduzimos estas fotos (sem legenda, numeradas por nós, na nº 1 o autor e a esposa Maria de Fátima) e este apontamento da sessão de lançamento do livro do António Carvalho. Fonte: Página do Facebook da Vida Económica (11 de julho de 2026, 15h00):
Uma tarde de encontros, partilha e celebração da literatura.
A apresentação de “3x44 – Abel e Caim em Contrapé”, a mais recente obra de António Carvalho, reuniu familiares, amigos, leitores e convidados num momento marcado pela emoção, pelas memórias e pelo prazer de partilhar histórias.
O nosso agradecimento a todos os que estiveram presentes e contribuíram para o sucesso desta sessão, bem como ao Grupo Vida Económica, através da sua chancela eVida, pelo apoio e pela aposta na divulgação da literatura portuguesa.
Que este livro siga agora o seu percurso, encontrando novos leitores e inspirando novas reflexões.
Obrigado por fazerem parte deste momento especial.
António, começo por saudar-te, a ti, que és o artista principal desta sessão literária, o motivo afinal por que estamos aqui.
E saudar todos os demais presentes, a começar pelos donos da casa, a Fundação Hermínia Vilar Ribeiro, a par da coapresentadora, a doutora Angélica Lima, e do Jorge Castro Guedes, encenador, mestre em Artes Cénicas pela Universidade, a NOVA de Lisboa, que se voluntariou
para me emprestar a sua voz (e a quem fico, desde já, muito
reconhecido, não podendo eu estar, aqui, fisicamente presente por razões imperiosas).
António (e amável audiência): eu, por mim, dava uma.. "aula de hora e meia" para falar deste teu segundo livro... Que li de fio a pavio, em formato digital, na esplanada da praia, tentando fugir da canícula que nos castiga por estes dias.
Li o teu livro, deliciado, e suspenso do final, empolgante e genial. E, todavia, não é um "thriller".
Não, não quero nem posso abusar da paciência dos teus convidados e teus futuros leitores. Tenho sempre presente a tripla obrigação do apresentador de um livro:
(i) dar a conhecer o autor/produtor e o livro/produto;
(ii) suscitar curiosidade, interesse, empatia no leitor, através de uma sinopse do livro;
(iii) levá-lo, por fim a comprar o livro, a lê-lo, a discuti-lo, a promovê-lo, a partilhá-lo com outros...
Como mandam as boas regras do marketing (nas áreas do social e do cultural), tenho de ser claro, conciso, preciso e... entusiástico.
Vou-te apresentar o livro, não como "académico", mas como amigo, ex-camarada de armas e até confidente (tive o privilégio de acompanhar um pouco, à distância, o "making of" do teu livro...). E, não preciso de to lembrar, fiz-te a apresentação do teu primeiro livro, "Um caminho de quatro passos", em 2021, em Fânzeres, na Tabanca dos Melros...
Deixem-me então desenvolver três ou quatro ideias sobre o autor e o seu livro, que cruza dois continentes e dois destinos. Há um primeiro leitor, português, que sou eu, e uma segunda leitora, brasileira, que é a Angélica Lima. Julgo que fomos os primeiros a ter o privilégio de ler o manuscrito do livro em primeira mão.
Trata-se, pois, de um exercício a quatro mãos, que todavia não foi ensaiado, nem sequer à distância.
O romance "3 x 44 – Abel e Caim em Contrapé" conta a história de um homem comum, transformado pelas grandes migrações e pelas circunstâncias do seu tempo.
Abel, natural de Emendadas, é enviado ainda criança, em 1909, para uma fazenda de café no interior do Estado de São Paulo, onde cresce, trabalha, apaixona-se pela primeira vez por uma mulher, ao mesmo tempo que se deixa tocar e marcar profundamente pelo Brasil.
É aí que surge Chiquinha, uma jovem afro-descendente, determinada, inteligente e independente. O amor entre ambos nasce naturalmente, mas a vida (e as opções de vida de cada um) acaba por separá-los.
Quinze anos depois, Abel regressa a Portugal, em 1924, convencido de que um dia voltará ao Brasil. Nunca mais voltará.
Tema exaustivamente glosado na literatura portuguesa dos séc. XIX e XX, é um "brasileiro de torna-viagem" que não já não é inteiramente português nem inteiramente brasileiro, é um homem em contrapé, com duas identidades em conflito.
A Chiquinha, essa, permanecerá na sua terra, fiel ao seu próprio projeto de vida. Contudo, apesar da distância e dos muitos anos de separação, continua a habitar a memória mais íntima de Abel, sobretudo nos momentos decisivos e dramáticos da sua existência.
De regresso à aldeia, Abel torna-se um próspero negociante de madeira, lenha e carvão, recursos então escassos e muito procurados. Estamos em plena II Guerra Mundial e no auge do Estado Novo.
O protagonista desta história casa, enviúva, cria os dois filhos pequenos e procura reconstruir a sua vida conjugal e familiar.
Mas o sucesso desperta invejas. É então que ganha relevo a figura de Caim, vizinho consumido pelo ressentimento, cuja hostilidade cresce sem causa proporcional aos gestos de generosidade que Abel lhe dispensara.
O contraste entre os dois homens vai-se adensando até desembocar numa tragédia anunciada logo desde as primeiras páginas.
O verdadeiro protagonista é, contudo, Abel. O autor afirma- o expressamente na Introdução. Chiquinha não é apenas a figura feminina da história. É o grande amor da juventude, a memória permanente que acompanha Abel até ao fim da vida, embora os dois nunca mais se reencontrem.
Chiquinha simboliza também a resistência, a educação como arma e a libertação dos oprimidos. Depois de aprender a ler, na fazenda, com Abel, torna-se professora e ajuda os outros a libertarem-se das trevas da ignorância e das grilhetas da opressão.
Caim é importante, mas sobretudo como contraponto moral e dramático. Representa a inveja, o ressentimento e a violência que acabarão por conduzir à morte de ambos.
Não conto o desfecho: comprem e leiam o livro.
Mais do que um romance de ação, esta é uma grande narrativa sobre a emigração portuguesa para o Brasil, a vida rural durante o Estado Novo, os efeitos da Segunda Guerra Mundial na economia portuguesa, a figura do brasileiro torna-viagem, os afetos, a memória e a condição humana.
O título remete para o episódio bíblico de Abel e Caim, mas António Carvalho evita a armadilha das simplificações morais: as suas personagens não são arquétipos, são profundamente humanas, moldadas tanto pelas suas escolhas como pelas circunstâncias da História.
O resultado é uma saga familiar e social em que o amor, a ambição, a inveja, a liberdade e o destino caminham constantemente... em contrapé.
Lógica e cronologicamente, podíamos dividir esta saga em três atos:
Ato I - A partida de Abel para o Brasil e a sua formação
(1909–1924);
Ato II - O regresso (contrariado) a Emendadas e a vida em Portugal (1924–1944);
Ato III - Chiquinha, a heroína do Brasil (1924– 1980 +) e o "ajuste de contas no além";.
O(s) diálogo(s) dos mortos no cemitério (Ato III) é(são) momento(s) de realismo mágico que eleva o romance a um patamar filosófico e universal.
"3x44! pode parecer um título cabalístico. Caberá ao autor (ou ao leitor) descodificá-lo. Não vou roubar esse prazer a ninguém. Direi apenas que é o jogo dos números e dos destinos que se cruzam e descruzam.
Abel e Caim são como dois lados da mesma moeda:
- Abel, o sonhador que falha (regressa a Portugal sem fortuna, morre traído);
- Caim o invejoso que se destrói (suicida-se, condenado pela sociedade);
- E há ainda a terceira personagem, forte, poderosa, feminina, a Chiquinha: a sobrevivente que vence (liberta-se das grilhetas, dos preconceitos, das ameaças, ensina, educa, transforma o mundo à sua volta).
Chiquinha, a filha de uma ex-escravizada, Abel ensina-a a ler, é a sua primeira aluna e o seu primeiro grande (e único) amor. A relação entre eles é pura, platónica e transformadora: ele abre-lhe as portas do conhecimento; ela abre-lhe os olhos para a injustiça social (quilombos, escravidão, segregação social e racial).
Recorde-se que a abolição da escravatura no Brasil "de jure" mas não "de facto" é tardia: 1888 (Lei Áurea).
O António não inventa um mundo. Parte de uma velha história que ouviu contar em criança, na sua terra. Quiçá assustado, ou até aterrorizado.
Como acontece tantas vezes na literatura, um "fait-divers" quase esquecido transforma-se em romance. É isso que faz a boa literatura: salva do esquecimento aquilo que parecia perdido no sótão da memória coletiva.
Não é um "thriller"muito menos um romance policial. É verdade que existe um crime. Mas o assassínio de Abel é apenas o motor da narrativa. Caim teria que ser logo o suspeito, como na história bíblica, e onde, de resto, não falta uma Eva, nada e criada nas "ilhas" do Porto.
O verdadeiro protagonista é outro. É coletivo. É uma comunidade. É Medas. É o Douro e sua faina fluvial. É a emigração para o Brasil. É o Estado Novo. É a vida rural. É a dureza do trabalho. São as carquejeiras. É o mundo dos "brasileiros de torna-viagem" É uma civilização inteira que desapareceu.
António Carvalho escreve contra a "vala comum do esquecimento". E esse é um traço comum entre mim e o António. Tenho defendido e reafirmado, há mais de 20 anos a esta parte, no blogue "Luís Graça & Camaradas da Guiné" o nosso direito e dever de memória como antigos
combatentes. Procuramos preservar vidas, pessoas, lugares, geografias emocionais, episódios de tropa e de guerra etc., que a História com H grande quase sempre deixa para trás.
Só que agora a memória, que é matéria-prima do António, já não é apenas autobiográfica. É coletiva. É quase etnográfica. É uma homenagem aos homens e mulheres anónimos que fizeram aquele mundo.
O António é, antes de tudo, um contador de histórias. Não pertence à escola da escrita minimalista. Escreve com gosto. Demora-se. Delonga-se. Descreve. Deixa um parágrafo inteiro ocupar o espaço de uma página. Deixa a ação espraiar como as águas do seu Douro. Ouve-se a oralidade da conversa a fluir junto ao lume, com as panelas de ferro de três pés.
Essa oralidade é uma marca muito própria. Que já vem do primeiro livro, Não deve ser confundida com excesso. Não é defeito, é uma opção estética. É uma forma de preservar a maneira de falar e de contar do mundo rural onde tem ele tem raízes telúricas, genéticas, socioecológicas, culturais.
Há escritores que inventam lugares imaginários. António Carvalho fez o contrário. Pegou numa pequena freguesia do concelho de Gondomar, a sua terra natal, e mostrou que nela cabem todos os grandes temas da literatura de todos os tempos: a infância, a emigração, o amor, a inveja, a ambição, a morte, a memória, o destino. Mas também a
liberdade e a dignidade do ser humano.
Quem ler "3x44 Abel e Caim em Contrapé" não encontrará apenas um crime por deslindar. Encontrará um país que já não existe, mas que continua vivo enquanto houver quem o saiba contar ou recriar.
Nesse aspeto, lembrou-me, guardadas todas as distâncias, alguns dos nomes grandes da literatura portuguesa dos últimos dois séculos, do romantismo de meados do séc. XIX ao neorrealismo de meados do séc. XX: Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis, Eça de Queiroz, Miguel Torga, José Rodrigues Miguéis, Ferreira de Castro, Alves Redol, etc.
Em todos eles, está presente a figura do emigrante, e nomeadamente o "brasileiro de torna-viagem", o drama da emigração, o retorno, a crise de identidade...
Creio que a grande força deste romance não reside apenas na história que conta, mas sobretudo na forma como a conta.
Antes de mais, trata-se de uma verdadeira saga. A vida de Abel atravessa dois continentes, o Velho e o Novo Mundo, Portugal e o Brasil, e quase meio século de História.
A narrativa acompanha o percurso de um homem vulgar, sem nunca o transformar num herói que, segundo a mitologia grega, é sempre mais do que um homem, e menos que um deus. É precisamente essa condição de homem comum que o torna tão próximo de nós, leitores.
Um segundo aspeto que merece destaque, é a extraordinária reconstituição histórica e social.
rezar e até de morrer.
Nada disto aparece como simples "décor" ou cenário: faz parte da própria respiração da narrativa. E é aí que ele se sente nas suas sete quintas e mostra o seu talento literário.
Ao mesmo tempo, o romance mostra como a História interfere silenciosamente na vida de todos nós. A Segunda Guerra Mundial, o Estado Novo, o racionamento, as restrições económicas, as viagens transatlânticas, os ciclos económicos, os mecanismos de controlo do regime ( da censura à polícia política), etc., surgem sempre através das consequências concretas que produzem no quotidiano das personagens. Mais: com o autor evitar ou recusar cair no
fácil registo panfletário.
Outro elemento particularmente conseguido é a construção psicológica das personagens.
Abel é um homem empreendedor, trabalhador e generoso, mas também vulnerável, emocionalmente frágil, preso às recordações, às perdas e aos arrependimentos.
Chiquinha representa, por seu turno, muito mais do que um amor de adolescência e juventude: é uma presença permanente na memória de Abel, quase um ideal de vida que o persegue até à morte. E até depois da morte. O diálogo "post mortem" com a Chiquinha é outra página de
antologia.
Já Caim não é apenas o "mau da fita". É uma personagem dominada pela inveja, pela pobreza, pelo ressentimento e pelas frustrações acumuladas, mostrando como sentimentos aparentemente pequenos podem crescer até adquirirem a força devastadora de um vulcão assassino.
Gostei também da utilização discreta, mas muito eficaz, do simbolismo bíblico. Os nomes Abel e Caim remetem inevitavelmente para o primeiro fratricídio da nossa tradição judaico-cristã.
Contudo, António Carvalho não tem a veleidade de reescrever esse episódio da Bíblia (quase fundacional da moral judaico-cristã). Serve-se desses nomes (a que há a acrescentar a Eva) para propor uma reflexão sobre a natureza humana, mostrando que o bem e o mal não
aparecem em estado puro, nem são o verso e o reverso da mesma medalha, mas estão misturados nas circunstâncias, nas escolhas e nos acasos da vida, enquanto jogo de luz e sombra.
Merece igualmente destaque a linguagem e o estilo literário. O autor escreve num português rico, elegante e profundamente expressivo, com uso da metáfora e outros recursos estilísticos, recuperando um património lexical rural que hoje quase desapareceu, ou ainda não foi grafado pelos nossos lexicógrafos.
Muitas páginas têm um evidente sabor etnográfico, sem perderem fluidez narrativa. Sente-se que há um enorme trabalho de investigação, mas nunca se tem a impressão de estar a ler um pachorrento tratado histórico. O conhecimento está completamente integrado na ficção.
E que dizer do ritmo narrativo ? O romance alterna momentos de descrição demorada, quase contemplativa, com episódios de grande intensidade dramática. Essa alternância permite ao leitor respirar, conhecer melhor as personagens e compreender o mundo em que vivem antes de ser confrontado com os acontecimentos decisivos.
Sem querer nem poder ser exaustivo, direi que este livro tem também o mérito de nos deixar uma ideia simples, mas profundamente humana: cada vida resulta de uma mistura de vontade própria, circunstâncias, encontros, desencontros e acaso(s). Ninguém constrói sozinho o seu destino. Todos somos, ao mesmo tempo, atores e personagens da nossa própria história. Nós e a nossa circunstância.
É um romance que eu li, antes de mais, pelo prazer da narrativa. E que vou reler, agora em papel e de lápis na mão. E esse é seguramente um dos melhores elogios que se pode fazer a um jovem autor de 76 anos: o seu segundo livro, afinal o seu primeiro romance, permanece connosco depois da última página, porque nos leva a pensar na memória, no tempo, na emigração, no amor, na inveja e na fragilidade da condição humana e na sempre inacabada luta pela liberdade e felicidade.
Quero terminar com uma breve nota. Este romance começa no Brasil, passa pelo Brasil e regressa ao Brasil através da memória. E do Brasil falará, muito melhor do que eu, a Angélica Lima a quem vou passar a palavra. Mas as suas raízes mergulham profundamente nesta margem do Atlântico, e do rio Douro. O autor não idealiza, nem um, Portugal onde nasceu, nem outro, o Brasil onde o Abel poderia ter sido livre e feliz.
Há um Portugal inteiro dentro destas páginas:
- o Douro dos barcos, das marés e das inundações;
- a aldeia de Emendadas, com os seus lavradores (cuja riqueza se mede pelo número de juntas de bois, carros de milho, sacas de batata e pipas de vinho), com os seus jornaleiros, cabaneiros, mineiros, carquejeiras, barqueiros;
- a cidade do Porto, a cidade grande, e o porto de Leixões, cais de partidas e regressos, ou seja, fábrica de histórias;
- o Estado Novo, sentido não através dos discursos oficiais, mas através da vida concreta das pessoas.
É esse Portugal popular que António Carvalho recria com uma impressionante riqueza de pormenores e grande talento literário. O leitor não encontra apenas personagens: encontra modos de viver, de trabalhar, de falar, de amar e de sofrer que pertencem à memória coletiva de várias gerações.
É sobretudo esse registo que me toca mais, tanto mais que não conheço o Brasil. Ao longo da leitura (penosa, porque quase sempre feita através do pequeno ecrã do telemóvel à beira-mar), tive todavia a sensação de não estar apenas perante um romance, mas perante um vasto fresco humano, onde a ficção e a memória histórica caminham lado a lado.
Gostaria, por isso, de terminar lendo um pequeno excerto situado precisamente neste universo português, onde se percebe bem a qualidade da escrita do autor e a extraordinária capacidade de recriar uma época e um mundo que já desapareceram, mas que continuam vivos graças à literatura. E nada melhor para o ler do que através a voz de um homem do teatro:
(...) Costumavam as mães, nos anos cinquenta do século passado, antes do cumprimento da norma obrigatória da missa do domingo, apressadamente, atamancar alguns padre-nossos e ave-marias, no cemitério de Emendadas, adjacente à Igreja Paroquial.
Quedavam-se frente a cada campa onde morasse familiar benquisto, não se esquecendo nem dos avós nem dos bisavós, muito menos dos pais e irmãos. Detinham-se por mais tempo defronte da sepultura de algum filho pequeno que não tivesse sobrevivido a doença sem médico ou epidemia sem cura. Então, quando acontecia, por mero adrego,
passarem pela campa de Caim, com alguns filhos pela mão, usavam dizer-lhes, depois de se assegurarem que não estava ninguém por perto, de modo ciciado:
- Não olheis prali, meus meninos, que está ali enterrado um home ronhe.
Era assim que, reiteradamente, manifestavam o seu repúdio pela presuntiva crueldade daquele morto, personagem secundária deste livro, inumado no canto amaldiçoado do cemitério, sem merecer o benefício da cruz, nem lhe dispensarem um pingo de água benta sobre a cova.
Mas não foi por Caim, sepultado sem missa nem padre, que me atrevi a contar as peripécias desta aventura decorrida em dois continentes. Fi-lo pela memória de Abel, supostamente sua vítima inocente, cujo corpo ali encontrara morada também, a bem poucos metros do outro. (...)
Lourinhã e Alfragide, 9 de julho de 2026, Luís Graça
___________________
Nota do editor LG:
Último poste da série > 10 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28170: Notas de leitura (1935): "Lenços Negros, Lenços Brancos", memórias na primeira pessoa de um ex-combatente octogenário: Uma breve viagem pela literatura da Guerra Colonial (Intervenção feita na apresentação do livro, na ADFA, em 30/05/2026) (Mário Beja Santos)
Nota do editor LG:
Último poste da série > 10 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28170: Notas de leitura (1935): "Lenços Negros, Lenços Brancos", memórias na primeira pessoa de um ex-combatente octogenário: Uma breve viagem pela literatura da Guerra Colonial (Intervenção feita na apresentação do livro, na ADFA, em 30/05/2026) (Mário Beja Santos)






8 comentários:
Não podendo estar presente, congratulo-me com o "brilho" da festa do nosso António Carvalho, que se realizou na quinta da Fundação HVR... Em Medas, na sua terra natal, que ele tanto ama... (E para mais uma quinmta que já dos seus antepassados!).
Arrisco-me "legendar" algumas fotos, que republicamos, cortesia da página do Facebook da "Vida Económica": na foto nº1, o nosso autor e a esposa, Maria de Fátima, porofessora porimária reformada; na nº2, de novo o autor e o encenador Jorge Castro Guedes (que teve a gentileza de ler o meu texto); de perfil, em primeiro plano, à direita, reconheço o prof Boaventura Sousa Santos que, por informação do António, estará a fazer uma "residência literária" na quinta da Fundação, em Medas; na foto nº 3, arrisco, a dizer que é a brasileira Angélica Lima, a coapresentadora do livro (e encoberto por ela o nosso António Pimentel, junto à parede); na nº 4, reconheço o irmão do autor, o nosso camarada Manuel Carvalho; e na nº 5, de camisola azul, em segundo plano, sentado, parece-me o nosso Zé Teixeira.
Já confirmei, com o Antónmio, o essencial desta informação... Ele vai mandar-me mais fotos (do Bando do Café Progresso, que mandou uma lustrosa representação). E obrigado ao fotógrafo do jornal "Vida Económica"...
A esta hora estou a ler este excelente texto do novo livro do já famoso Carvalho de Mampata.
Vou fazer uns apontamentos aqui no telemóvel e amanhã prometo um texto alargado.
Sobre o livro vou ler o que escreveram, depois os comentários se tiver arcaboiço.
Gondomar o que me chamou a atenção.
Medas um local que conheço, as minas de São Pedro da Cova que visitei em criança, os baldes lá em cima cheios de carvão vindo das minas.
Lugar estranho e sombrio, escuro como um negro, trabalho duro, pessoas que viviam na escuridão profunda, as lutas por melhores condições.
São uns bons quilómetros desde Arca Dagua até aqueles montes primitivos daquelestempos. Ia a pé com a passarada de amigos.
Fazíamos a Circunvalação, não era nada do que agora e por volta do futuro Estádio Do dragão passava para o outro lado
Depois Rio Tinto e chegava se a Gondomar a terra das fábricas ou oficinas que trabalhavam o ouro.
Tenho lá família, os descendentes de uma tia, irmã da minha mãe, casada e com um rancho de filhos. Que nunca mais vi
Os meus clientes industriais dos anos 80 90.
Aqueles montes onde muito mais tarde a família ia fazer piqueniques.
O transporte era difícil, ou autocarro ou camionetas da gondomarense.
Belos sítios paisagens a perder de vista ao longe o Porto e Valongo também.
Não posso deixar de referir uma personagem incontornável, o meu amigo e sócio no nosso projecto da Guiné.
Gondomar tem a narca do Major Valentim Loureiro, que me queria levar para o Boavista para diretor financeiro!
Possivelmente hoje estava em apuros, nunca se sabe
No seu funeral [da minha tia] há uns anos, conheci os meus primos e primas, casados e com muitos filhos
s que nunca mais vi.
A figura incontornável do meu então amigo e sócio num projecto na Guiné.
Está a fugir as palavras no telemóvel.
Amanhã continuo.
Parabéns Carvalho
Virgílio Teixeira
Dada a confusão do texto, derivada de ser dificil, para mim, escrever numa coisa tão pequena, e com a visão já diminuída, deitado na cama, quase a dormir, e muita coisa a apagar-se e outras a repetir, o melhor será, tirar daqui apenas o essencial que se compreenda.
Vou fazer um texto, para não falhar mais, em Word e depois faço a cópia para os comentários do blogue.
Eu chamei aqui ao autor António Carvalho, por ter visto tantos comentários assinados por 'Carvalho de Mampata' mas depois de ter lido os textos de Angélica Lima na apresentação, e Luiz Graça na análise da obra, que pensei tinha sido engano e fui ver outros postes e estava então correcto.
António Carvalho, é então, para o blogue e camaradas da guiné, o Carvalho de Mampata.
As minhas desculpas.
Virgilio Teixeira
As minhas desculpas.
Poste nº. 28176 – Livro de António Carvalho (3x44 Abel e Caim em contrapé) editado por eVida, 2026, 287 pp.
Cenário a terra do autor, Gondomar, dos locais de Medas e Melres, do tempo da segunda metade do século XIX, pós segunda guerra mundial, da 1ª Republica, da pobreza das aldeias e cidades de Portugal, virado para a emigração.
Para o Brasil como consta na história, mas para França às manadas de jovens, fugindo do serviço militar. Sem comentários.
Assim,
Medas, Melres, Baguim do Monte, Fanzeres, São Pedro da Cova, Santa Justa, São Gens, Jovim, Valbom, Serra da Agrela, Alfena, Rio Tinto, Contumil, Valongo e por aí adiante...
Tantos sitios e locais que fazem parte do grande concelho ao lado do Grande Porto, Gondomar.
Para lá chegar, quase que é inevitável passar pela circunvalação e pelo imponente Estádio do Dragão, o mais bonito de todo o País.
Depois de já me exprimr ontem, já de madrugada, no telemóvel, uma ferramenta não interessante para escrever comentários, e ao virar da esquina, já se apagou tudo ou grande parte e volta a reescrever novamente. Para quem vê mal ao perto, não consegue ler ou escrever grande coisa. A paciência tem limites.
Por isso nem eu sei ao certo o que falhou, mais uma vez.
Como já escrevi no comentário de hoje, vamos aproveitar alguma coisa, pois foi uma hora, acabei às 3h da manhã, na cama, e o telemovel já tinha caido algumas vezes e apagado o que escrevi outras tantas.
Assim, fica muito pouco por dizer.
- Depois de ler a apresentação de Angélica Lima, com uma excelente descrição da obra, e da análise profunda de Luiz Graça, quase nem vale a pena ler o livro porque já quase sei o seu enredo e história, embora a obra tem todo o mérito de ser lida, por ser um retrato da nossa história, na qual eu me revejo quase a 100%.
Não sou muito de ler livros, com a diminuição da visão, as letras cada vez mais pequenas, tenho imensas dificuldades em ler muitos livros, estou em mãos com alguns, mas apósuma ou duas páginas já estou a dormir cansado dos olhos. Gosto de escrever porque tenho as letras do tamanho que quero, e não me canso nunca.
- Concluo assim que se trata de uma obra invulgar, vou tentar comprar um exemplar e vou ler com tempo e no banco do jardim ao Sol, pois as letras já as vejo melhor.
Conheço dos tempos de estudante as lendas de Abel e Caim, mas agora retratadas como se fossem reais, sendo outros os personagens.
Por outro lado, não tenho ‘bagagem’ literária para dar seguimento aos comentários já feitos, pelas personalidades já referidas. Até tinha vergonha de acrescentar alguma coisa, a não ser endereçar os parabens ao Antonio Carvalho, pela sua obra que não li mas já percebi, à apresentadora Angelica Lima, presumo que é Brasileira a viver em Portugal! , e à Chica.
Ao analista Luis Graça, que não poderia ser mais explicito, até fico com inveja, como o Caim!
... continua ...
Virgilio Teixeira
I – Porque me interessei por este Poste e conteudo?
- O autor, é quase meu conterrâneo embora uns anitos a menos, é do Norte, é de Medas – Gondomar, terras que conheci tão bem, quando era menino e moço. Talvez o António estivesse a dar os primeiros passos já eu por ali andava aos pardais, aos grilos, e a conhecer a parte rural dos arredores do Porto, terras de trabalho árduo, que nunca soube o que era, felizmente.
Eu vivia na freguesia de Paranhos, também nos anos 50 ainda era quase rural, e para lá chegar a pé era preciso ter muita pedalada, o que não me faltava nessa idade.
Tinha casa , ou casinha terrea, com um pequeno terreno, onde se cultivavam algumas couves, os galinheiros carregados e uma manada de cães e gatos, convivendo com alguns animais répteis, fruto da vizinhança dos campos dos lavradores à nossa volta.
A nossa vida, eu e os 4 irmãos faziamos os nossos acampamentos nos campos dos lavradores, e brincavamos aos indios e cowboys, com armas fabricadas manualmente por mim, que também as vendia.
O meu objectivo era ir ver as minas de S. Pedro da Cova, do carvão negro, lá para os lados de Fanzeres, onde a vida dos mineiros era carrasca.
São nomes que nunca esquecerei, Medas e Melres, a Lomba, Baguim do Monte, as serras de Santa Justa, o Monte São Gens atrás dos grilos, Jovim, Valbom, Serra da Agrela, Alfena, Valongo e Gondomar ali perto. Do alto dos montes, avistava-se ainda Valongo a terra dos móveis, onde mais tarde quando casei,os mandei fazer ali. Depois de Valongo seguia-se para o interior, para os Vales do Cavado, Ave, Sousa, e o Rio Douro. Lousada, Felgueiras , Marco, até Guimarães etc.
- Rio Tinto, um local que julgo fazer parte do concelho do Porto, era um lugar de passagem para seguir em frente, passando nas barbas de Contumil, em direção a Gondomar, a terra onde se fabricam tantos artefactos de ouro e prata, onde conheci muito mais tarde, clientes industriais do ramo, nos seus projectos e eu como Economista e Consultor de Investimentos.
- Para os fins dos anos 50 já não andava por lá, o meu primeiro emprego em 1955, e o inicio da Escola Comercial em 1958, à noite, já não dava para estas aventuras e a idade já era outra e as perspectivas futuras estavam à vista. O meu pai em Goa não trazia boas noticias e em 18 de Dezembro de 1961, perdemos o nosso Estado Português da India, depois dos massacres em Angola de Fevereiro desse ano, eu tinha de pensar a forma de quando fosse chamado poder ir frequentar o curso de Oficiais Milicianos e assim consegui, graças (salvo seja ) à desgraça das guerras.
vT
- Eu tinha familia em Gondomar, uma tia, meia irmã da minha mãe, muito mais nova, era casada com o Zé, e tinha muitos filhos. Um dia morreu, eu e a minha mulher fomos lá ao funeral, e conheci imensa familia transversal -primos e primas, e respectivos conjugues e ranchos de filhos e respectivos namorados ou conjugues, nunca mais lá fui, era gente estranha para mim.
- A minha irmã quando casou em 1968, estava eu na Guiné, foi morar para esses lados, para lá de Rio Tinto. Não sei bem onde. Fui o único da familia que não esteve no casamento.
- Quando regressei, o meu pai, tinha sido mobilizado meses antes e levou os 2 filhos mais novos e a mulher, minha mãe. Estiveram em Lourenço Marques. A casa de familia, tinha sido deixada à minha irmã , casada e com uma filha, minha afilhada, e deixou a outra casa. Quando entrei ali, senti-me um estranho, só ia dormir e tomar banho. O meu irmão mais velho, militar de carreira também, depois de prisioneiro na India, tinha ido para Angola. A familia estava tripartida.
- A minha mãe era de Crespos, Braga, a sua tia que nao me lembro do nome, tinha quinta abastada lá para os lados de Adaufe. O marido, o Tio Bruno, foi também para o Brasil, por lá ficou e casou por lá, mesmo sendo ainda casado aqui. As heranças que deixou depois de bater a bota, foram distribuidas pelos irmãos e irmãs, a minha mãe calhou-lhe 250 contos, que recebeu, mas foi enganada pois o meu pai não queria saber disso, e depois foi o dinheiro estourado todo pelo meu irmão mais novo 12 anos, que era o menino da casa.
Nunca recebi um centimo, naquele tempo, um tostao. Aliás nunca recebi nada de ninguém o que consegui foi com o meu trabalho.
... continua ....
Virgilio Teixeira
Virgílio Teixeira
E para acabar, já escrevi que chegue e estórias sem sentido. Verdades sim.
Acho que percorri este passado, estou perfeitamente sintonizado com tudo o que foi escrito
Gostei imenso de rever este passado que a maioria da nossa população nunca passou por isto.
Não falo sobre políticas, só posso dizer o que fazemos com a tal liberdade, se não temos os meios para usufruir disso.
Caro António Carvalho um dia ainda nos vemos no NShopping.
Virgílio, acho que sim , que se deviam encontrar os dois gondomarenses de gema, tu, adotivo, o Carvalho, nativo.
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