“Há-des voltar mê filhe. Deus vai m’ajudar…”
Conto
José Júlio
O sol ainda nem tinha rompido por cima dos montes quando o João, com apenas vinte anos e mãos calejadas de agricultor, se levantou para o que seria o último amanhecer na sua terra antes da mobilização. A casa de colmo, pobre mas arrumada, parecia mais silenciosa do que nunca. Até os animais, como se pressentissem a dor, não fizeram barulho.
Filho único, criado entre a horta, o mar ao longe e o cheiro da terra molhada, João sempre soube que a vida era dura. Mas nunca imaginara que a dureza pudesse tomar a forma de uma guerra tão distante - a Guiné, diziam, era mato fechado, calor sufocante, emboscadas, medo. E ele, que nunca tinha saído da ilha, sentia o coração apertado como se alguém lhe tivesse posto uma pedra no peito.
O pai, homem de poucas falas, estava sentado à mesa, a olhar para as mãos como quem procura respostas nas rugas. A mãe mexia num pano, dobrando-o e desdobrando-o sem necessidade.
- Mê filhe… - começou ela, a voz trémula. - Tu comes qualquer coisinha antes de ires?
- Não nh'a mãe… o estômago tá embrulhado, - respondeu João, tentando sorrir, mas o sorriso saiu torto.
O pai levantou-se, aproximou-se e pousou-lhe a mão no ombro.
- João… tu... quero que sejas forte, ouviste? És um home. Lá é tudo gente como nós, tudo com mede. Mas tu tens cabeça boa. Não te metas em loucuras.
João assentiu, mas a verdade é que não sabia o que significava “não se meter em loucuras” quando o mundo inteiro parecia prestes a enlouquecer. A camioneta militar chegaria dali a pouco. O som do motor já se ouvia ao longe, misturado com o vento da manhã. A mãe aproximou-se dele, ajeitou-lhe a gola da camisa como se ainda fosse um menino.
- Ai João… tu sempre foste tão bonzinhe… - murmurou ela, os olhos já marejados.
Ele abraçou-a com força. Sentiu o cheiro familiar de sabão azul e branco, de casa, de infância. E foi nesse abraço que percebeu o tamanho da distância que o esperava. Quando a camioneta parou, dois soldados chamaram pelos mobilizados. João respirou fundo. O pai apertou-lhe a mão, firme. A mãe segurou-lhe o rosto entre as mãos, como se quisesse gravar cada traço.
E foi então que ela disse, baixinho, quase num sopro, como se fosse uma oração só deles:
- Há-des voltar mê filhe. Deus vai m’ajudar…
João sentiu as pernas tremerem, mas respondeu:
- Eu volto, nh'a mãe… eu volto, se Deus quiser.
Subiu para a camioneta. Enquanto esta arrancava, olhou pela última vez para os pais. A mãe acenava com o pano que tinha dobrado e desdobrado tantas vezes. O pai mantinha-se firme, mas os olhos denunciavam tudo.
O barco afastou-se da Pontinha, ilha ficou para trás. A guerra esperava-o.
E aquelas palavras - simples, frágeis, poderosas - acompanharam-no como um amuleto:
“Há-des voltar mê filhe. Deus vai m’ajudar…”
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Nota do editor:
Conto de José Júlio, transcrito, com a devida autorização, da sua página de facebook.
Sugestão dos nossos confrades Eduardo Costa Dias e Mário Beja Santos
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Nota do editor
Último post da série de 11 de agosto de 2026> Guiné 61/74 - P28256: Facebook...ando (98): O jagudi de Galomaro ... e a gaivota da Foz do Douro (António Tavares, ex-fur mil SAM, CCS/BCAÇ 2912, 1970/72)
3 comentários:
Texto simples, sentido e bem desenhado. O discurso directo tanto pode ser açoriano como algarvio...
Filho único, só se a mãe fosse viúva não seria mobilizado; por cá ficaria para "amparo de mãe" (assim o designavam).
Um milhão de portugueses retratados e como tal protagonistas neste conto onde como algarvio me revejo no ( linguajar ) da terra onde abri os olhos pela primeira vez. Como refere o Alberto Branquinho e bem, há uma grande afinidade cultural entre as gentes do sul do continente e as das ilhas dos Açores. Mas há um pormenor, que afinal ERA um pormaior. Uma viúva, como era o caso da minha mãe, só com um filho e muito doente, ( morreu cinco anos após o meu regresso) , disse-me as mesmas palavras. E agora a cereja no topo do bolo. Eu fui considerado amparo de mãe. Como " prémio" viajei para a Guiné no dia 24 de maio de 1969.
Este era o país das trevas mais escuras do que o sepulcro.
Eduardo Estrela
São as tais "malhas que o Império tece" (ou teceu); e até havia um "menino de sua Mãe", mas este VOLTOU, man !!!
"Ê tamém" sou meio algarvio (por casamento) e, por via disso, "passe" quase metade do "ane"... cá por "baixe". (Em prestações suaves...)
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