1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Agosto de 2026:Queridos amigos,
É melhor tarde do que nunca. Não vale a pena andar a verrumar a consciência por ter esquecido este livro monumental (na dimensão e no sopro) em que intervêm ex-combatentes, gente que terá andado para os lados de Mueda, regressam nos inícios de 1970 e começam nova vida, um tenente-coronel que entretanto enviuvara e se vai meter de amores com a mulher a dias, isto muito antes de aparecer uma das figuras mais notáveis da galeria romanesca de Lobo Antunes, dá pelo nome de A nuvem de perfume; o soldado Abílio que trabalha na empresa de mudanças do tio, o oficial de transmissões que é militante de uma organização maoísta, o alferes que casa com uma menina muito bem e que nem sonha com o que lhe vai ser reservado com o 25 de abril, estão todos em jantar de convívio, há para ali um narrador que passa por capitão ou tenente, já há uns capitães em movimento, este jantar mete os desabafos mais íntimos, contam-se os desmandos que cada um vive ou está a viver... e o leitor que se prepare que o 25 de abril só vem mais adiante.
Um abraço do
Mário
Chegámos da guerra, apanhámos o fim do Estado Novo, vivemos o 25 de abril e o depois: como e porquê "Fado Alexandrino", de Lobo Antunes, é um notável romance ancorado no fado de ex-combatentes – 1
Mário Beja Santos
Esta obra-prima de António Lobo Antunes teve a sua primeira edição em 1983, vem na sequência de um ciclo de obras que versam a experiência dele como tenente-médico em Angola, a sua vida profissional como psiquiatra, os desabafos sobre a sua vida íntima. Fado Alexandrino, considerado pela crítica como um dos seus textos fundamentais, justamente premiado, prende-se com a história de um conjunto de militares no período final do Estado Novo, segue-se o 25 de abril e o PREC e o culminar de um tempo de rescaldo.
Romance a várias vozes, por vezes interferindo quase em vertigem o que eles vão dizendo uns aos outros ou o que guardam para si no discurso da consciência, falando desabridamente da vida amorosa onde não faltam desastres e desencontros, no seu trabalho, da atmosfera do país, temos aqui um retrato da década de 1970 e o início da próxima.
Abre as hostilidades o soldado Abílio, veio de Moçambique, aliás como todos aqueles que vão entrar nesta monumental sala de espelhos, é desmobilizado num quartel na Encarnação, sente-se lá e cá, sabemos que os pais, entretanto, faleceram, vai bater à porta da casa onde os pais viveram e onde agora vive a irmã Maria Otília. Vai conversando com os camaradas ao longo do jantar, conta-lhes que a irmã se juntou com o primo da porteira, um mulato que trabalhava no restaurante do aeroporto, e que a vai derreando de filhos, de porrada, não há lugar para ele naquela casa, irá procurar o tio Ilídio, no serviço de mudanças teremos muitos pormenores mais adiante.
Intervém agora o alferes, dizendo que era casado e com uma filha pequena nessa altura, chegado de Moçambique apresentou-se no banco, tal como o soldado anda por lá e cá:
“Sentei-me no gabinete, fechei a porta e pensei Não houve guerra nenhuma, não andei vinte e tal meses em Moçambique de espingarda às costas, inventei coisas parvas esta noite: a disenteria, a água choca, os mortos, os feridos, o oficial de sapadores que ficou sem o braço ao desarmar uma mina. Pensei Não houve guerra não houve guerra não houve guerra não houve guerra, e comecei devagarinho a esquecer-me. Quando me trouxeram o café, às onze da manhã, nunca saíra de Lisboa e África era os nomes dos rios que se decoravam na escola e a gente esquecia logo a seguir, para os substituir por serras, gramática e o ramal da Beira Baixa. Olhava as pessoas, meu capitão, as secretárias, os colegas, os empregados, os contínuos, despachava requerimentos, folheava propostas, assinava relatórios, e pensava É claro que ontem estive cá, que merda devia eu para ter chupado tantos sonhos esta noite?”
A obra tem um narrador, um tanto misterioso, pensamos que por vezes é um tenente ou um capitão. Temos agora o oficial mais graduado a apresentar-se, tenente-coronel, foi comandante de batalhão desta gente, a mulher morreu-lhe de cancro, vai conversando com um oficial de transmissões, este queixa-se da vida cara, o tenente-coronel encontra a casa vazia, vazio anda ele, não deixa de meditar no futuro:
“Que vou fazer agora um ano inteiro, atrás de uma secretária, a dar ordens a sargentos bolorentos, e depois de novo Angola ou Guiné ou Moçambique e vinte e tantos meses de guerra, armas, caixões, rostos cansados de sobreviverem todos os dias ao próprio medo, à própria inquietação, ao próprio pequenino desespero tenaz a evaporar-se…”
Outra figura em cena neste jantar de largas centenas de páginas:
“O oficial de transmissões morava com a madrinha surda e uma cadela gorda, às manchas brancas e pretas, sem raça, num andar muito velho, de salas enormes, na rua por detrás da feira popular (…) A minha madrinha morreu em setenta e cinco, gasta da PIDE ir lá a casa de madrugada, buscar-me para os interrogatórios.”
Interrompe o tenente-coronel para se queixar da então vida sem rumo, atropela o oficial de transmissões, vai descrever a sua vida de esquerdista-maoísta, iremos até às profundezas de uma organização ultraminoritária sonha em revoluções, assaltos e atentados com esquemas de completa risota.
É a vez do alferes contar a sua história, os seus amores pela Inês, uma menina oriunda de um meio muito bem a viver numa quinta em Carcavelos, houvera casamento apressado, a Inês já ia de esperanças, o nosso alferes, que se chama Jorge, recorda que lá em Moçambique um catequista lhe vendeu uma menina, houve que pagar dote pela criança, perpassa na narrativa um dos fantasmas mais dolorosos do colonialismo.
O tal capitão, que às vezes se assume como narrador pergunta ao soldado Abílio como é que ele se adaptou ao trabalho, ele responde-lhe e bem divertido:
É a vez do alferes contar a sua história, os seus amores pela Inês, uma menina oriunda de um meio muito bem a viver numa quinta em Carcavelos, houvera casamento apressado, a Inês já ia de esperanças, o nosso alferes, que se chama Jorge, recorda que lá em Moçambique um catequista lhe vendeu uma menina, houve que pagar dote pela criança, perpassa na narrativa um dos fantasmas mais dolorosos do colonialismo.
O tal capitão, que às vezes se assume como narrador pergunta ao soldado Abílio como é que ele se adaptou ao trabalho, ele responde-lhe e bem divertido:
“Chegava às oito da manhã ao armazém, com os vidros das janelas lá no alto, junto ao teto de zinco, todos partidos, paredes fuliginosas, as palavras NÃO FUMAR, a encarnado, pálidas como batom numa camisa velha, móveis e caixotes e armários coxos que uma claridade difícil, a vara, vinda não se sabia de onde, iluminava, revelando superfícies poeirentas, estofos devorados pelos ratos, armações de bidés, a gaiola do escritório do tio à entrada. Era aí, meu capitão, do lado de fora, claro, que se aguardava o serviço do dia (Mudar o recheio do número Tal da rua Tal para a avenida Tal, trazer a tralha mais pesada de uma vivenda em Caneças, ir a este endereço de Caxias rebocar dois pianos para a Amadora), batendo as solas no chão com frio, fumando cigarrecos baratos, observando o céu descolorido pelas fendas no telhado. Havia uma espécie de galeria precária no primeiro andar, onde se deixavam as lancheiras do almoço, se mudava de roupa e se comia, com um postigo para a cerca do asilo dos malucos, na qual miseráveis homenzitos de farda castanha gesticulavam no meio de árvores polémicas. O senhor Ilídio entrava às oito e meia sem cumprimentar ninguém, soprando a sua asma feroz de pacaça num susto de roncos e de silvos, de barba crescida e olhos inflamados por insónias tormentosas, palpava o casaco à procura da chave e encerrava-se no cubículo entulhado, carimbando faturas, protestando contra a anarquia de papéis que ele próprio segregava.”
O soldado Abílio descreve os outros empregados, um velho a quem faltavam três dedos e um tipo magro que não falava nunca.
Como já se preveniu, esta escrita prima por excessos, cenas delirantes, a paixão de Abílio pela Odete, que se saberá mais adiante que é a Dália da organização maoísta, nesta altura do andamento do jantar o nosso tenente-coronel já tem informação que os capitães andam muito agitados com a possibilidade dos milicianos virem a concorrer na escala, o tenente-coronel medita na sua infância e na sua juventude e temos mais uma história de caixão à cova, o tenente-coronel mete-se de amores com a mulher a dias, a filha entra de surpresa lá em casa, cobre a boca aberta com a mão numa infinita surpresa de criança.
Vamos seguidamente conhecer a história do oficial de transmissões lá no Terreiro do Paço, a fazer vigilância em nome da sua organização maoísta, que só sonha com revoluções, atentados e raptos e irá planear um assalto a um banco, dada a sua exiguidade de fundos.
António Lobo Antunes (1942-2026)
(continua)
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Nota do editor
Último post da série de 9 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28419: Notas de leitura (1969): Nos 100 anos do historiador Padre Henrique Pinto Rema e onde fala dos Lusíadas e a Guiné (Mário Beja Santos)


5 comentários:
A SPA, fez propostas (várias) de Lobo Antunes a Nobel de literatura, muitos prémios, mas este fugiu.
De facto era difícil, pois Lobo Antunes raramente saíu de "Gago Coutinho", e foi dificil sair dali, e os suecos conheciam mais Madina do Boé.
Pois é, António Rosinha
… it is a long way to.., Madina (mesmo com uma G-3 emprestsds para a foto)
Como quase sempre, ó António, o teu comentário é um pequeno diamante não lapidado de ironia...
Lobo Antunes fez a tropa e esteve no leste de Angola. Como médico militar, alferes miliciano médico. Os seus primeiros livros testemunham essa experiência humana e militar. A SPA (Sociedade Portuguesa de Autores) pode propor nomes dos seus "associados" como candidatos a prémios de grande pesrtígio como o Nobel... Mas o Nobel é decidido pela Academia Sueca ( que , em princípio, não liga a propostas a candidatos nem é pressuposto deixar-se influenciar por critérios que não sejam o meramente estéticos, literários...
Rosinha, tu brincas, no fundo, com a nossa vã esperança de arrecadar, para a literatura portuguesa, de um segundo Nobel, neste acaso para o nosso "peso pesado" Lobo Antunes... Até ao fim da vida, foi durante anos e anos um "Nobelitável"...
A frase "os suecos conheciam mais Madina do Boé" é o teu remate satírico: Madina do Boé, na Guiné-Bissau, foi onde, alegadamente, o PAIGC declarou unilateralmente a independência em 24 de setembro de 1973... Hoje põe-se em dúvida a data e o sobretudo o local... Em Madina do Boé sabemos hoje que não foi.... Ou seja: para os suecos, o que era "(re)conhecível" do Portugal "colonial-fascista" era a epopeia da luta de libertação que o sedutor do Amílcar Cabral "vendia" à Suécia de entráo...Não era a obra de um médico psiquiatra que escrevia sobre a guerra apartir do relativo conforto de Lisboa. Da guerra de Angola. Não da guerra da Guiné.
Sendo tu, Rosinha, um "ex-colon", um "retornado de Angola", o teu comentário pode um duplo significado: nostalgia (irónica) e ressentimento (terno). Gozas, por um lado, com o papel "provinciano" da nossa burocracia cultural (a SPA a "desbarretar-se perante os suecos, substituindo-se a um verdadeira diplomacia cultural deste país, que não existe, ou é tão discreta que ninguém a vè em ação). Por outro lado, a nossa lamechice misturada com a megalomania lusitana ("muitos prémios, mas este fugiu")...
Em resumo: o teu comentário, Rosinha, parece oscilar entre o sarcasmo e a homenagem. Reduzes a falácia "Nobel que nunca veio" a uma piada geográfica e política, ou geopolítica: o escritor perdido nas "Terras do Fim do Mundo", no "Cu de Judas", dentro do arame farpado de Vila Gago Coutinho (hoje Lumbala Nguimbo); e os suecos da social-democracia mais focados na famigerada Madina do Boé, por fim "libertada".
O Lobos Antubnes foi colocado a centenas de quilómetros de Luanda, encostado à fronteira com a Zâmbia, naquele planalto de savana cortado pelos rios Cassai/Lungué-Bungo, onde o Exército Português tentava fechar a fronteira à passagem da FPLA/FNLA e dos apoios vindos do Zaire. O fim das linhas de comunicação, o fim do mapa, daí também o fascínio exótico do título do seu romance "Os Cus de Judas"... (que foi um sucesso editorial, no Portugal que acabava de perder o seu império).
"Raramente saiu de Gago Coutinho", dizes tu. É uma piada, é sarcasmo. Dizes tu, com troça (que eu adjetivaria como "carinhosa"), que o nosso grande candidato português ao Nobel, depois do Saramago, passou a guerra no sítio mais remoto do império, onde ninguém sabia que ele existia — muito menos os suecos.
"E foi difícil sair dali": em si mesma era uma epopeia... Era um buraco, e pior ainda no tempo das chuvas. (...)
(Continua)
(Continuação)
Há quem diga que Lobo Antunes nunca mais saiu, literariamente, da guerra. Eu não conheçoa obra toda, e muito menos os romances da "maturidade"... Bolas, o hom escreveu mais de 30 títulos...
O contraste com "Madina do Boé" é perfeito, mesmo que Madina seja um não-lugar: dois sítios igualmente remotos, dois "fins do mundo" coloniais — mas o fim do mundo da Guiné entrou na História (declaração unilateral da independência pelo PAIGC em 1973, Amílcar Cabral, a guerra que a Suécia e o mundo conheciam, acarinhavam, apoiavam...), enquanto o fim do mundo de Gago Coutinho Lumbala Nguimbo só entrou para a ficção.
Para os construtores de "imortais" da Academia Sueca, o Moxico era invisível; a Guiné-Bissau era notícia. E aí está a ironia final que tum Rosinha, deixas no ar: a Suécia premiou o escritor que falava do fim do mundo em abstrato, com o metáfora (Saramago, 1998); e desgraçadamente nunca chegou a premiar o que esteve mesmo no fim do mundo — em Lumbala Nguimbo, Vila Gago Coutinho, leste de Angola, com a bipolaridade das chuvas e a solidão a trezentos quilómetros de estrada de terra do mais próximo cabimento do império.
De qualquer modo, vai levar década a cair no prato da literatura portuguesa um segundo Nobel... Deviam ter feito uma vaquinha, metade para o Saramago, metade para o Lobo Antunes. E ainda sobravam os trocos para nós, seus leitores (e admiradores).
Ei man!
Amen!
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