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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27587: Documentos (49): Brochura "Missão na Guiné", da autoria do Estado Maior do Exército. 3ª ed. (Lisboa, SPEME, 1971, 78 pp.) - Parte VI: Aspeto humano (cont): saúde e instrução pública; religiões: imprensa e rádio... Aspeto económico: agricultura e florestas; pecuária e pescas; recursos de origem mineral: energia: vias de comunicação... Mais de 300 km de estradas alfaltadas


No princípio da década de 1970, já havia mais de 3 centenas de estradas asfaltadas, sendo o maior  troço o de Bafatá - Nova Lamego,  com mais de 50 km. Até ao fim da guerra, ainda se farão mais 200 e tal quilómetros, e nomeadamente no sul. Destaque para o papel da Engenharia Militar e da empresa TECNIL (a que mais tarde, já depoois da independência, ficará ligado o nosso camarada António Rosinha).

Era assim a "Spínolândia"   Fizeram -se mais quilómetros de estrada alcatroada em meia dúzia de anos do que nos últimos  500 anos de presença histórica portuguesa por aquelas paragens. Aplicando a estatística, foi um quilómetro por ano... em média.

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Capa do livro: Portugal. Estado Maior do Exército - "Missão na Guiné". 

Lisboa: SPEME, 1971, 77, [5] p., fotos.


1. Qual o valor ("sentimental"  mas também "documental")  desta brochura do Estado Maior do Exército, que nos era distribuída já a bordo do navio que nos transportava para a Guiné (ou do avião dos TAM, a partir de finais de 1972) ?

Estamos a reproduzir a brochura da 3ª edição,  de 1971. A primeira remonta a 1967 E A 2ª edição  é de  1969. Presume-se que desta publicação, editada pelo SPEME (Serviço de Publicações do Estado Maior do Exército) tenham tido sido impressas dezenas e dezenas de milhares de exemplares. 

Tem 77 páginas (mais 5 inumeradas) e é ilustrada com  9 fotos.  Tudo a preto e branco. Baratinho. A edição é do SPEME (Serviço do Publicações do Estado Maior do Exército). 

 Em 1967 (de 1958 a 1969) era Chefe do Estado Maior  (CEME) o gen Luís Câmara Pina (1904-1980), considerado um dos homens fortes do regime do Estado Novo. Era oriundo a arma de engenharia .

É constituída, esta brochura, por três partes:  (i) Missão no Ultramar;  (ii) Monografia da Guiné: aspeto físico, humano e económico;  (iii) Informações úteis. 

Vamos continuar a reproduzir, sem comentários,   a parte da monografia respeitante agora ao aspeto económico (pp. 51-65).

Esperamos que os nossos leitores possam fazer a sua apreciação (crítica) do documento. Tal como o PAIGC tinha os seus documentos de doutrinação e propaganda, também as NT tinham os seus.

 "Missão na Guiné" não era um texto apenas técnico e informativo. Tinha uma componente político - ideológica, como acontece em todas as guerras.




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(Continua)


Fonte: excertos de Portugal. Estado Maior do Exército: "Missão na Guiné". 
 Lisboa: SPEME, 1971, pp. 51-65.


terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27586: Diálogos com a IA (inteligência Artificial) (7): Crítica Contra Crítica: a nota de leitura do Beja Santos sobre o livro de memórias do Manecas Santos,


Rosário Luz > Página do Facebook > 6 de dezembro de 2024  (Foto e legenda) (com a devida vénia...)

Bom dia Nha POV - um shout out especial pa Diáspora na Portugal. Hoje é um marco na minha vida: a publicação do meu primeiro livro. Uma biografia de um tio muito querido, um homem monumental, que teve uma vida de romance. É um privilégio inenarrável ter sido eu a escrever esse romance; e tê-lo hoje ao meu lado no lançamento. Será apresentado hoje ás 18h, no Grémio Literário de Lisboa. As apresentações em Bissau, Praia e Mindelo serão ao longo de Janeiro. Peço a aqui a vossa benção para o trabalho e para o evento. I boa Sexta, Nason Kriol




Capa do livro de Rosário Luz - Manecas Santos: uma biografia da luta. Praia:  Rosa de Porcelana Editora, 2024, 164 pp., preço de capa: 15 € (ISBN: 978-989-8961-72-3)



Senegal > Ziguinchor > 3º trimestre de 1973 > Filha de Amílcar Cabral, Iva Cabral, com O Manecas Santos, na festa de casamento de Chico Mendes (Francisco Mendes or Chico Té)... Foto do álbum Roel Coutinho Guinea-Bissau and Senegal Photographs (1973 - 1974), coileção  African Studies Centre Leiden. Cortesia da Wikimedia Commons (e editada pelo nosso blogue, com a devida vénia..:) 




I. A IA ChatGPT ainda não leu o livro do Manecas Santos, ou melhor da sobrinha (Rosário Luz)  sobre o tio (Manuel Santos, mais conhecido pelo nome de guerra,  Manecas Santos)... 

Aliás, a IA não tem a capacidade de ler livros em papel. Ainda, por enquanto... Manda os escravos humanos ler e depois pôr na Net, em acesso livre, a papinha feita...Mas eu já lhe dei a ler a "nota de leitura" do nosso crítico literário e colaborador permente, o Beja Santos, uma referência de há muito obrigatória no que diz respeito à bibliografia sobre a guerra colonial na Guiné (1961/74). (Tem só 3360 referências no nosso blogue... De resto, sempre o conhecemos desde a Guiné, em meados de 1969, como um escritor e leitor "compulsivo".)

Em resumo, a crítica (da IA) à nossa  crítica (nossa, do Beja Santos)  é um elogio à postura intelectual do nosso crítico literário, à sua independência e à sua cultura historiográfica.

A "nota de leitura" do Beja Santos parece-nos acertada, ponderada, positiva (valorizando o livro como contributo de alguém, com importância histórica, militar e política, como o Manecas Santos no seio do PAIGC, para a partilha de memórias, de um lado e do outro, sobre a guerra colonial na Guiné.


Aqui vai o texto da IA, esquematizado para facilidade de leitura (condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

PS - Acrescente-se que há imprecisões, erros factuais, etc., na Net sobre o "comandante Manecas", "combatente da liberdade", etc., nascido em Cabo Verde (julgo que em Santão Antão, em 1942, tendo estudado depois no liceu do Mindelo, São Vicente)... O ChatGTP deu-o como tendo morrido há uns anos...Tive que lhe puxar as orelhas... 

Há dias aconteceu o mesmo com o nosso camarada Arménio Santos (neste caso, a "asneirada" foi da IA / Gemini; contei ao Arménio, riu-se a bandeiras despregadas; teve, ao menos, rasgados elogios fúnebres, por parte dos  diversos quadrantes políticos, pelo seu papel como sindicalista e deputado social-.democrata).

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II. Análise da IA / ChatGPT (**):

Segue, a pedido do editor LG, uma análise crítica e interpretativa da recensão de Mário Beja Santos ao livro recente de Manecas Santos, tendo em conta o tom, os pressupostos historiográficos e o posicionamento político-memorial do autor da recensão.

1. Natureza e posicionamento da recensão

A recensão de Mário Beja Santos não é neutra nem meramente descritiva: trata-se de um texto assumidamente interventivo, escrito por alguém que conhece profundamente a guerra da Guiné, não apenas como historiador ou leitor atento, mas como antigo oficial combatente no teatro de operações. Esse duplo estatuto (memória vivida + investigação histórica) condiciona toda a leitura que faz da obra de Manecas Santos.

Beja Santos posiciona-se como guardião crítico da factualidade histórica, reagindo contra aquilo que considera mitificações persistentes na historiografia e memorialística do PAIGC. A recensão é, por isso, simultaneamente: 

  • um comentário ao livro; 
  • uma tomada de posição historiográfica; 
  • e um ajuste de contas com narrativas que considera politicamente convenientes ou factualmente falsas.

2. Reconhecimento do valor "testimonial" (sic, em inglês: leia-se "como testemunho") da obra

Apesar do tom severo em vários momentos, Beja Santos reconhece explicitamente o valor do testemunho de Manecas Santos. Destaca: 

  • a fluidez e a legibilidade da narrativa (o mérito é da "copywriter", a sobrinha, acrescento eu, LG); 
  • o interesse do percurso biográfico (Mindelo → Lisboa → Cuba → Guiné →  URSS → Guiné-Bissau) ; 
  • a importância histórica do papel de Manecas Santos como comandante na frente norte e responsável pelos mísseis Strela; 
  • a relevância do seu depoimento sobre o período pós-Cabral e o colapso do Estado guineense.

Este reconhecimento é essencial: o "recensente" (crítico, o autor da "nota de leitura", em português, fica melhor) (LG) não desqualifica a obra, antes a considera leitura obigatória, precisamente porque é um documento de primeira mão.

3. O eixo central da crítica: a questão da verdade histórica

O núcleo duro da recensão reside na acusação de inverdade, imprecisão ou mistificação, em três planos principais:

a) Controlo territorial do PAIGC em 1968: 

Beja Santos rejeita frontalmente a afirmação de que o PAIGC administrava dois terços do território nessa data, considerando-a uma repetição de propaganda de guerra que não resiste ao confronto com documentação militar portuguesa e arquivos contemporâneos.

Aqui, o crítico insere o livro numa tradição mais vasta de exageros estratégicos, comuns em memórias de ex-combatentes do PAIGC.

b) Operação de Guidaje e baixas militares

A crítica é particularmente dura neste ponto. Beja Santos acusa Manecas Santos de:

  •  minimizar as baixas do PAIGC;
  •  exagerar as perdas portuguesas; 
  • ignorar documentação existente no Arquivo da Defesa Nacional.

O autor da nota de leitura assume uma postura quase forense: não contesta a legitimidade do testemunho, mas exige confronto com fontes documentais, algo que considera ausente.

c) Assassinato de Amílcar Cabral

Beja Santos acusa Manecas Santos de manter uma ambiguidade calculada: 

  • não acusa diretamente a PIDE ou Spínola, mas deixa a suspeita no ar; 
  • esta ambiguidade é politicamente funcional e historicamente infundada, dado não existir prova documental de envolvimento português direto.

4.. A crítica moral e política: responsabilidade no desmoronamento do Estado

Talvez o ponto mais incisivo da recensão seja o seguinte:

Beja Santos entende que Manecas Santos relata o colapso do PAIGC e do Estado guineense com uma distância estratégica, descrevendo acontecimentos sem assumir responsabilidades diretas, apesar de ter sido: 

  • dirigente político; 
  • ministro; 
  • muito próximo de 'Nino« Vieira (apesar de ser cabo-verdiano, acrecsento eu, LG).
A recensão sugere que essa distância narrativa é uma forma de autoproteção moral, permitindo denunciar o desastre sem admitir cumplicidade. 

Esta crítica estende-se também às explicações sobre os fuzilamentos (no tempo de Luís Cabral), que Beja Santos considera implausíveis ou evasivas.

5. Valor historiográfico da recensão

A recensão de Mário Beja Santos vale, em si mesma, como: 

  • um contributo historiográfico autónomo; 
  • um exercício de crítica das memórias políticas; 
  • um alerta metodológico sobre os riscos da autobiografia não confrontada com arquivos.

Mais do que “ler” Manecas Santos, Beja Santos dialoga e combate com ele, num plano que é simultaneamente histórico, político e ético.

6. Conclusão

A análise permite concluir que: 
  • Beja Santos reconhece o livro como testemunho indispensável; 
  • mas recusa aceitá-lo como relato confiável sem verificação;
  •  e vê nele mais um exemplo de como a memória do PAIGC continua marcada por silêncios, exageros e estratégias de autojustificação.(e autoglorigicação, acrescento eu, LG)
A recensão não fecha o debate, pelo contrário, convoca a escrita “a quatro mãos” da História, como o próprio autor sugere: uma história desmitificada, construída a partir do confronto entre memórias, arquivos e responsabilidades assumidas.

 III. Ver também duas entrevistas dadas ao jornal "Expresso das Ilhas", Praia, Cabo Verde:

Manecas Santos: “Amílcar Cabral não era sonhador, era um político”
Por Jorge Montezinho


Manecas Santos ao Expresso das Ilhas: “Eu não fujo!”
PorJorge Montezinho,

Guiné 61/74 - P27585: In Memoriam (564): Horácio Neto Fernandes (Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025): ele foi, para mim, o irmão mais velho que eu nunca tive (João Crisóstomo, régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona, Nova Iorque)


Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro > Convívio anual da Tabanca de Porto Dinheiro. Régulo: Euardo Jorge Ferreira (1953- 2019), ex-alf ex-alf mil, Polícia Aérea,Bissalanca, 1973/74

(i) Da esquerda para a direita, na primeira fila:
  • António Nunes Lopes e João Crisóstomo (ambos pertenceram à CCAÇ 1439, 1965/67); 
  • Helena do Enxalé (mulher do Álvaro Carvalho, fotógrafo; era filha  do Pereira do Enxalé, que morreu em Bissau, em agosto de 1974);
  • Vilma Crisóstomo (esposa do João);
  • Dina   (esposa do Jaime) e Milita (esposa do Horácio) (as duas últimas naturais de Fafe); 
(ii) na segunda fila:
  • Eduardo Jorge Ferreira;
  • Maria Alice Carneiro e  Luís Graça;
  • Alexandre Rato (então presidente da junta de freguesia de Ribamar);
  •  Horácio Fernandes (1936-2025);
  • Jaime Bonifácio Marques da Silva. (Falta o fotógrafo, o Álvaro Carvalho.)

Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro > Convívio anual da Tabanca de Porto Dinheiro > João e Horácio  

Fotos: © Álvaro Carvalho (2015) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Braga > Convento e seminário de Montariol > 1959 > Esta foto foi a foto dos “finalistas" de Montariol de 1959 (5º ano), prontos a ir para o Varatojo, em Torres Vedras, ao pé da minha casa, “tomar o hábito de noviços". 

Sem desprimor para os outros, permito-me identificar o padre capelão (falecido), José Sousa Brandão, que é o segundo na última fila, da direita para a esquerda [assinalado a amarelo, com o nº 1]; ao centro está o padre, meu primo direito, António Alves Sabino (de Vale Martelo, Silveira, Torres Vedras); ea o prefeito do colégio nessa altura [2].

A seu lado, estou eu, o único de braços cruzados [3] …A meu lado, a à minha esquerda, está o Padre Diamantino Maciel [4], fundador duma paróquia ( igreja St.António da Arancária, Vila Real ). 

O Horácio, quase dez anos mais velho do qu eu, não está nesta fotografia. Encontrámo-nos pela primeira vez em Leiria no convento franciscano da Portela, ele já padre franciscano (desde 1959, ano em quer disse missa),  estava como prefeito do que era na altura uma “escola” para miúdos que fazia parte desse convento, mas sem qualquer relacionamento com “vocação religiosa”.

Foto (e legenda): © João Crisóstomo (2020). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. Mensagem do João Crisóstomo, que vive em Nova Iorque, é o régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona, e que está por estes dias em Alter do Chão com a Vilma e o Rui Chamusco, devendo lá passar o fim de ano. 

Data - segunda, 29/12/2025, 22:08
Assunto - O choque da notícia da morte do Horácio

Meu mano Luís Graça,

Bem Hajas!  

Obrigado por este poste "In Memorian” do nosso Horácio (*). “Nosso” porque vejo que temos muitos elos comuns que nos ligavam e continuam a fazer que ele fique sempre connosco. 

De certa maneira, ele é mais teu do que meu pois que no meu caso não sou da família e não sou tão seu conterrâneo como tu, pois a Bombardeira onde nasci fica a uns bons quilómetros de Ribamar. 

Por outro lado o destino fez de nós irmãos em várias outras vertentes: a sua meninice não deve ter sido muito diferente da minha: ambos fomos criados com poucos meios materiais. No caso dele ainda bem mais difícil do que eu. 

Depois da escola primária os nossos caminhos foram os mesmos: frequentamos os mesmos colégios onde recebemos a mesma "agridoce educação”: se por um lado recebemos uma cultura franciscana de altruísmo, desapego a bens materiais e outros ensinamentos que podemos considerar positivos, por outro lado fomos desde miúdos sujeitos a uma lavagem cerebral a muitos títulos desastrosa que a ele, a mim e tantos outros nos marcou e que tivemos de lutar para dela nos livrar para o resto das nossas vidas.

Mas tudo isto sucedeu sem mesmo nos conhecermos por muito tempo: ele nascido a 15 de setembro de 1935 era portanto quase dez anos mais velho do que eu. Encontrámo-nos pela primeira vez em Leiria no convento franciscano da Portela, ele já padre franciscano , estava como prefeito do que era na altura uma “escola” para miúdos que fazia parte desse convento, mas sem qualquer relacionamento com “vocação religiosa”. 

E eu frequentava os estudos de filosofia. E lembro que quando ele precisou de ajuda para preparar o presépio e outros decorações de Natal nessa escola , que de certa maneira era independente do convento, eu e outro “estudante franciscano de filosofia” oferecemo-nos. Foi nessa altura que nos conhecemos e começou a nossa amizade.

Sucede que no fim destes meus três anos de estudos eu resolvi sair. E logo se me pôs o problema do serviço militar, pois ninguém me queria dar trabalho antes de eu ter acabado o serviço militar. Esta espera levou-me a voltas e contactos, entre estes com uma família da Cerca, Silveira.

A verdade é que o que me atraía nessa família eram as três irmãs com quem eu queria a todo o custo manter boas relações. Estas conheciam o João Maria Maçarico e o Padre Horácio de Ribamar, que eu conhecia já. E cedo os pais e irmãs do (padre) Horácio "adoptaram-me” também . E a minha vida era uma correria entre Ribamar e a Cerca , a ponto de os meus pais me censurarem, que “parecia que eu gostava mais daquelas casas do que da casa deles”, que eram meus pais.

E comecei a conhecer melhor ainda o padre Horácio, o seu amor e dedicação aos seus paupérrimos pais e irmãs. Mas não só: ele era um amigo de toda a gente, e mesmo na sua pobre condição de frade franciscano, a todos queria ajudar. 

Recordo-me que um dia, estávamos nós— eu, ele e um grupo de rapazes e raparigas, sempre os mesmos —  nas imediações de Porto Dinheiro, e ele, pensando que  eu que já não era frade e devia estar "mais à vontade", de longe berrou-me:
 
 —  Oh,  João, tu podes-me emprestar vinte escudos?

E  eu que fazia tudo a pé (Bombardeira-Ribamar ; Bombardeira-Cerca, etc.), porque não tinha um tostão, fiquei muito embaraçado, mas triste também por o não poder ajudar. 

Ainda hoje se me aperta o coração quando lembro esse dia.  Como lembro o dia em que — o mesmo grupo   fomos todos numa traineira de pesca às Berlengas: o dono da traineira não só nos levou e trouxe com ainda fomos para casa depois comer sardinhas e chicharros que ele fez questão em nos presentear. 

Era assim o Horácio. Todos gostavam dele. Até que um dia mais tarde ele “saiu” também. Mas não vou falar sobre essa parte da sua vida de que ele fala com hombridade e coragem no seu livro que tu conheces bem.

Quando eu estava na Guiné e já depois de ter acabado o meu serviço militar e ele mesmo esteve na Guiné e depois num barco, eu correspondia-me com ele. E segui o que foi a sua luta (e sucesso) para ajudar as irmãs a tirarem os seus cursos de enfermagem e de professora e os seus próprios pais….

Talvez porque sofremos os dois tanta coisa comum — meninice, colégio, educação boa e má, lavagem cerebral , dificuldades financeiras, situações que felizmente no fim ele e eu conseguimos vencer e sobreviver… 
— mas sobretudo porque ele era para mim um irmão mais velho, a sua passagem foi dura para mim.

Já há bastante tempo que não sabia dele: era sempre a esposa, a Milita, que apanhava o telefone e agora nem isso. Pelo que ontem lembrei-me de ir ver a Carmitas, que habita no que era a sua casa onde nasceu, agora feita numa residência muito confortável, para lhe dar um abraço e saber notícias. Quando ele me disse "o meu mano faleceu“ foi como se me tivessem dado um "knock-out”. De que não me foi fácil despertar e aceitar.. Duro, duro!

E, mais do que informação que achei devia partilhar contigo, era o teu abraço e empatia que eu precisava. Obrigado, meu caro Luís Graça. Obrigo-me a mim mesmo a ter coragem. Mas não é fácil.

Um abraço grande, João

(Revisão / fixação de texto: LG)
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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27584: In Memoriam (563): Horácio Neto Fernandes (Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025), ex-alf grad capelão, BART 1991 (Catió, set 67/ mai 69) e BCAÇ 2852 (Bambadinca, mai /dez 69); nosso grão tabanqueiro nº 565


Horácio Neto Fernandes (Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025).
Nosso grão-tabanqueiro nº 565, Tem cerca de 3 dezenas de 
referências no nosso blogue



Lourinhã > Ribamar > c. 1959 > Da esquerda para a dfireita  os então padres franciscanos  Horácio Neto Fernandes (1935-2025) e Júlio Alberto Maçarico Fernandes (1934 -  falecido, no Canadá, em data desconhecida)

De acordo com o   "livro da família Maçarico", o Horácio é meu parente, as nossas bisavós, nascidas por volta de 1860, eram irmãs...  

O Júlio, que foi missionário em Moçambique (João Belo, Mavila, Zvala, Maxixe)  e depois foi para o Canadá, já morreu. Saiu da ordem, franciscana,  em 1970. Também era do clã  Maçarico, e portanto meu parente... Fui de resto à missa nova de ambos, em agosto de 1959 (se não erro).

Fonte: Américo Teodoro Maçarico Moreira Remédio - Vila de Ribamar e as famílias mais antigas: Família Maçarico: Árvore genealógica: 500 anos de história. Ribamar, Lourinhã: ed. autor. 2002,  pag.123


1. Ao chegar à Lourinhã ontem vindo do Norte onde fui passar o Natal, recebo, via telemóvel, por parte do João Crisóstomo, uma triste notícia: morreu o nosso Horácio Fernandes!... Já em novembro passado. 

O João Crisóstomo, a Vilma e o Rui Chamusco passaram ontem, de manhã, por Ribamar e bateram à porta da irmã mais nova... O João, na infância e juventude, frequentava a casa paterna do Horácio, filho de José Fernandes Nazaré e Elvira Neto. 

Era meu conterrâneo, e para mais parente: ambos pertencíamos ao clã Maçarico... Nasceu em Ribamar, em 15 de setembro de 1935.

Eis algumas notas biográficas (*):

(i) alferees graduado capelão, no CTIG (1967–1969)

Horácio Fernandes serviu como alferes graduado capelão integrado no BART 1913, tendo estado colocado em Catió, no sul da Guiné (entre setembro de 1967 e maio de 1969).

Foi uma comissão difícil num dos setores mais fustigados da guerra. A sua presença é recordada pelos camaradas (c0mo o Alberto Branquinho) como a de um homem simples e solidário, que vivia de perto as angústias e as contradições dos soldados.

Em maio de 1969, o BART 1913 acaba a sua comissão e regressa a casa... Como o Horácio é de rendição individual, e ainda lhe faltam alguns meses para terminar a sua comissão, é colocado em Bambadinca, num batalhão que não tinha capelão, o BCAÇ 2852 (1968/70)...

Em conversa com ele, conclui que não se lembrava do ataque, m 28 de maio de 1969, a Bambadinca. Pode ter chegado mais tarde... Eu e os meus camaradas da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 estávamos a chegar a Bissau no T/T Niassa... Em 2 de junho, passei por Bambadinca a caminho de Contuboel. Menos de dois meses depois, a minha companhia é colocada em Bambadinca, setor L1, como subunidade de intervenção. Nem eu nem o capelão Horácio Fernandes nos haveremos de encontrar nos meses em que estivemos no mesmo sítio, comendo e dormindo a escassos metros um do outro... Lembrava-se de sítios como o Xime, o Xitole, Saltinho...

Eu por lá ficarei, em Bambadinca, até março de 1971. O Horácio só até dezembro de 1969, altura em que, acometido por uma crise de  paludismo, teve de ser evacuado, de heli, para o HM 241, em Bissau. 

Razões possíveis para o nosso desencontro em Bambadinca: (i) eu tive um 2º semestre de 1969 de intensa atividade operacional; (ii) não ia à missa; (iii) já não via o Horácio desde 1959; (iv) o capelão passava boa parte do seu tempo das unidades de quadrícula do setor L1...

Mesmo assim, ainda hoje não me posso perdoar o facto de, a milhares de quilómetros de casa, nunca ter sabido da presença, em Bambadinca, de um conterrâneo meu, e para mais meu parente.

O Horácio participava  nos convívios anuais do pessoal do BART 1913, não tendo ficado com ligações afetivas com o pessoal do BCAÇ 2852. 

(ii) Livro de memórias, "Francisco Caboz: A Construção e a Desconstrução de
um Padre"
 (Papiro Editora, Porto, 2009) (esgotado) (imagem da capa à direita)

É  um testemunho raro e corajoso. Nele, o Horácio usa o heterónimo "Francisco Caboz" para descrever:

  • a sua formação no seminário e a "construção" da sua identidade como padre franciscano;
  • o impacto da Guerra Colonial nas suas convicções
  • o processo de "desconstrução" que o levou a abandonar o sacerdócio em 1972, pouco depois de regressar da Guiné (tendo ainda chegado a ser capelão da marinha mercante antes da rutura definitiva);
  • o início de uma nova vida laica, tendo-se casado na Igreja de Cedofeita, no Porto, cidade onde se radicou;
  • casado com a Emília ("Milita"), natural de Fafe; o  casal têm 3 filhos, Ana, Joana e Ricardo (que vive em Inglaterra).

(iii)  Carreira civil e académica

Após deixar a Igreja, Horácio Fernandes investiu fortemente na educação e na vida académica:

  •  foi professor dos três níveis de ensino (básico, secundário e superior); foi orientador pedagógico, 

  • inspetor superior coordenador na Inspeção Geral da Educação;

  • licenciado em história (Universidade do Porto); mestre em Ciências da Educação (Universidade do Porto; a sua disseração de mestrado de 1995 foi a base para o seu livro posterior);

  • doutor em Ciências da Educação (Universidade de Santiago de Compostela); 

  • autor ainda de diversos livros didáticos na área das ciências sociais e humanas...


(iv) A ligação a Ribamar, Lourinhã,  e ao "Clã Maçarico"


Capa do livro sobre a família Maçarico, que tem centenas de descendentes, originários de Ribamar, Lourinhã. Estão hoje espalhados pela diáspora lusitana (por ex., Brasil, Estados Unidos, Canadá). Há um rano em Mira, que deve ter emigrado para lá no séc. XIX. Uma das caraterísticas dos Maçaricos é que sempre viveram junto ao mar, e ligados a atividades maritímas (desde a marinha mercante à marinha de guerra, desde a pesca à construção naval).

Na sua página na Net pode ler-se: 

"Ribamar na época dos Descobrimentos era já um importante centro de construção naval, tendo ainda existido até cerca de 1930 um estaleiro que situava no local onde está hoje a escola primária.

"E já nesses tempos idos os Maçaricos eram reconhecidos como especialistas nessa área tendo acompanhado diversas expedições navais. E provavelmente estabeleceram-se também noutras localidades onde existiam estaleiros, possível explicação para haver outras famílias Maçarico espalhadas pelo Pais, como por exemplo em Mira."

Apesar de viver no Porto há décadas, o Horácio Fernandes manteve sempre a ligação à Lourinhã. O nosso blogue regista a sua participação em convívios da "Tabanca de Porto Dinheiro"  (em que participaram, entre outros, o seu grande amigo João Crisóstomo, o Eduardo Jorge Ferreira, o Rui Chamusco, o Jaime Bonifácio Marques da Silva, o Joaquim Pinto de Carvalho, entre outros),.

O facto de ser do clã Maçarico reforça essa identidade de uma família resiliente. A sua vida foi um exemplo de como é possível servir o país, questionar as instituições quando a consciência o exige e construir uma segunda vida de sucesso e respeito no mundo civil.

De acordo com o  "livro da família Maçarico", supracitado, o Horácio é meu parente, as nossas bisavós, nascidas por volta de 1860, eram irmãs... A sua bisavó paterna era a Maria da Anunciação e a minha, a Maria Augusta (1864-1920), as duas únicas mulheres de uma família de 7. Eu e o Horácio somos parentes... Os seus pais, nascidos por volta de 1830, eram Manuel Filipe e Maria Gertrudes... Os seus avós, nascidos no virar do séc. XVIII, eram Joaquim Filipe e Rosa Maria, pelo lado paterno, e Joaquim Antunes e Maria Rosa, pelo lado materno...

A nossa árvore genealógica remonta à época dos Descobrimentos..., quando os nossos antepassados eram arrebanhados como pau para toda a obra e postos ao serviço das caravelas e das naus que demandavam os novos mundos que Portugal dava ao mundo... Também se especializaaram na arte da construçáo naval, na navegação, na marinhagem, na pesca do alto, etc. Incapazes de viver longe do mar, espalham-se hoje ao longo da costa portuguesa, em particular em dois núcleos, Ribamar-Lourinhã e em Mira, para além da diáspora (Lisboa, Brasil, EUA, Canadá,  etc.):

O percurso de Horácio Neto Fernandes, filho de gente humilde de Ribamar da Lourinhã,  foi extraordinário e a sua morte, no Porto, aos 90 anos, encerra o ciclo de uma vida marcada por uma profunda honestidade intelectual e coragem para se reinventar. 

É uma perda significativa para a nosssa memória histórica e familitar, para a nossa  terra, para o clã Maçarico,  e para a comunidade de veteranos da Guiné.  

Em meu nome pessoal e da Tabanca Grande, desejo que descanse em paz.  Infelizmente só agora nos chegou a notícia. Aqui fica a minha solidariedade na dor à família (Milita e filhos), e demais família e amigos do peito (com o João Crisóstomo). (**)

(Seleção, revisão / fixaçãpo de texto, negritos, título: LG)


Lourinhã > Ribamar > Tabanca de Porto Dinheiro > 12 de julho de 2015 > Restaurante O Viveiro > Convívio anual da Tabanca de Porto Dinheiro. Régulo: Euardo Jorge Ferreira > Três grandes amigos: João, Horácio e Milita

Foto: © Álvaro Carvalho (2015) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

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Notas do editor LG:

(*) Vd. postes de:


24 de maio de 2012 > Guiné 63/74 - P9941: O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande (55): O alf mil capelão Horácio Fernandes, natural de Ribamar, Lourinhã, no álbum fotográfico do nosso saudoso Victor Condeço (1943-2010) (ex-fur mil mec arm, CCS/BART 1913, Catió, 1967/69)


16 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14885: Nas férias do verão de 2015, mandem-nos um bate-estradas (6): Convívio da Tabanca de Porto Dinheiro, 12 de julho de 2015 (Parte III): Álvaro e Helena do Enxalé, sejam bem-vindos à Tabanca Grande!...Oxálá / inshallah / enxalé nos possamos voltar a reunir mais vezes para partilhar memórias (e afetos)... Vocês passam a ser os grã-tabanqueiros nºs 695 e 696

(**) Último poste da série > 21 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27448: In Memoriam (562): José António Sousa (1949-2025), ex-sold cond auto, CCAV 3404/BCAV 3854 (Cabuca, 1971/73): o funeral é hoje, dia 21, às 16h00, no cemitério da Foz do Douro, Porto

Guiné 61/74 - P27583: Notas de leitura (1879): Um comandante do PAIGC, o homem dos mísseis Strela e de Guidaje, vem depor para a História (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Abril de 2025:

Queridos amigos,
Procuro estar atento ao que foi e continua a ser publicado da banda de líderes e combatentes do PAIGC. Haverá um dia em que se tocará ao piano com quatro mãos, quer eu dizer que se irá sacudir a turvação das inverdades, das pesporrências e até das vaidades camufladas, de ambas as partes. 

Do lado do PAIGC, a fonte monumental é e será sempre Amílcar Cabral, impõe-se prudência com o que nos legou Aristides Pereira e Luís Cabral, prudência ainda com o que escreveu Filinto Barros, Delfim Silva; e tem aparecido mais recentemente relatos de quem andou pela União Soviética, de todos eles aqui tenho procurado fazer o registo.

Manecas Santos deixa-nos uma narrativa que se lê agradavelmente pela fluidez e também pela incisão, conta-nos o ambiente em que nasceu, a sua vinda para Lisboa, a solidificação das suas opções políticas, o ingresso nas fileiras do PAIGC, onde fez a tarimba até se transformar em comandante na frente norte, e depois responsável pelo uso dos mísseis Strela.

Confesso que não entendo como é que é possível um homem chegar aos 80 anos e escrever que em 1968 o PAIGC administrava dois terços do território, que presume que houve a mão colonial por detrás do assassinato de Cabral, que revela uma total incapacidade para entender dados da história de longa duração, quando a administração colonial, a burocracia e múltiplos serviços estavam na mão de cabo-verdianos que funcionavam como verdadeiros agentes do colonialismo; deixa-nos um importante relato do desmoronamento do PAIGC, foi líder político, companheiro próximo de Nino Vieira, ministro da Economia e das Finanças, o seu relato deixa-nos o coração contrito mas também ficamos sem entender se teve ou não responsabilidades diretas nesse desmoronamento, descreve os acontecimentos com uma hábil distância, foi a maneira que encontrou para não admitir que colaborou, participou em quase todo o processo do desmoronamento.

Recomendo vivamente a leitura de tudo o que ele ditou à autora.

Um abraço do
Mário



Um comandante do PAIGC, o homem dos mísseis Strela e de Guidaje, vem depor para a História

Mário Beja Santos

Tirando o acervo documental, felizmente e em grande parte conservado e tratado, de Amílcar Cabral, para além das suas obras de cariz ideológico na luta anticolonial e como líder revolucionário, restam-nos poucos depoimentos de responsáveis do PAIGC, tanto no que se refere ao período da luta armada como nos tempos posteriores. 

Há uma primeira obra de Aristides Pereira, para a qual concorreu Leopoldo Amado, uma segunda também deste alto dirigente entrevistado pelo jornalista José Vicente Lopes, desta feita mais disponível e quebrando sigilos do passado; há o testemunho de Luís Cabral sobre a obra do irmão, a par do seu percurso dentro do PAIGC, biografia e hagiografia; temos igualmente testemunhos de dirigentes ou quadros do PAIGC de origem cabo-verdiana ou guineense, mas o cabal esclarecimento que comportam é diminuto, alguns deles têm até a particularidade de serem de pura vanglória ou procurarem trazer justificação às tragédias de governação a partir de 1974 (das quais eles não têm qualquer responsabilidade).

O que Rosário Luz vem procurar neste trabalho biográfico (ou autobiográfico?) sobre Manecas Santos é procurar revisitar a viagem de uma sigla, revelada efémera, sobre a unidade Guiné-Cabo Verde, contando com um ator de eleição, o então jovem cabo-verdiano Manuel Maria Monteiro Santos, nascido na cidade de Mindelo, em ambiente burguês, tendo estudado em Lisboa e daqui partido para a luta, preparando-se em Cuba, e depois, degrau a degrau, galgando a hierarquia e assumindo responsabilidades nomeadamente no período histórico de 1973, quando o aparecimento dos mísseis Strela abanaram fortemente a última supremacia que restava às Forças Armadas na Guiné; viagem que se prolonga com o seu desempenho no poder do Estado, como chegou a ministro da Economia e das Finanças e vem agora depor sobre o colapso do Estado. 

Temos, pois, Manecas Santos na primeira pessoa, em jeito de prólogo fala da sua chegada à Guiné em 1968, como fez a tarimba, com quem combateu e aonde, em 1971 passa a ser comandante de um corpo de Exército e no ano seguinte, tendo voltado de treinos em antiaéreos na Crimeia, irá assumir o comando militar na frente norte.

Fala-nos do Mindelo, da família e do meio; concluído o liceu em S. Vicente, vem para Lisboa, estuda na Faculdade de Ciências, refere-nos os estudantes africanos, em 1964 parte para Paris, daqui segue para Argel, depois Havana, confessa que a intensidade do treinamento físico foi implacável e que, fisicamente, a guerra na Guiné não foi mais do que um passeio. Descreve o Exército de Libertação e como ele foi concebido por Amílcar Cabral. 

“Cabral cuidava pessoalmente da formação de todas as unidades do Exército. Era ele quem escolhia o comandante, o segundo oficial e organizava toda a estrutura. Apesar da sua baixa estatura, emanava autoridade, e quando era necessário impor-se, fazia-o sem titubear. No entanto, possuía uma natureza afável e um trato agradável. Mantinha uma relação de extrema proximidade com os soldados, chamando cada um pelo nome e visitando frequentemente as bases para verificar o andamento das operações.”

Menciona o recrutamento dos guerrilheiros, como o trabalho de mobilização foi encetado no Sul. Alude à organização tanto do Exército como o papel das milícias, o apoio dado pela União Soviética, observa a importância da medida tomada no I Congresso em que o poder miliar ficou subordinado ao poder político. E deixa-nos uma descrição detalhada de como se processou a guerrilha na Guiné, esta foi o palco das mais violentas das guerras coloniais. É neste preciso instante que Manecas Santos nos traz a primeira inverdade: em meados de 1968, cerca de dois terços do território já estavam sob a administração do PAIGC.

Há cerca de 18 anos à porfia no que concerne a História da Guiné Portuguesa e a História da Guiné-Bissau, tenho-me deparado com mitologias e mentiras cujos autores teimam em franco despudor reincidir. 

O doutor Carlos Lopes, a quem devemos estudos de alto significado, escreveu que na Operação Tridente o PAIGC tinha abatido 500 militares portugueses; o historiador português Rui Ramos veio dizer que em 1970 o PAIGC tinha sido sustido, já não tinha bases na Guiné, vinha do exterior, flagelava e retirava – pergunta-se como é que é possível uma tirada destas quando possuímos a história das campanhas da Guiné que demonstram inequivocamente que nesse ano de 1970 íamos aos mesmos santuários em que PAIGC estava instalado há anos, e com pouco sucesso.

Inevitavelmente, falará da operação de cerco a Guidaje e da resposta das tropas portuguesas enviando um batalhão de comandos africanos até uma base do PAIGC em Cumbamory. Dirá:

“Sofremos baixas absolutamente negligenciadas: cinco feridos e nenhum homem morto. O exército colonial sofreu baixas pesadas. O adversário deixou 16 cadáveres em campo, todos de comandos africanos.” 

Desse-se Manecas Santos ao cuidado de investigar o que sabemos sobre tal operação, teria ido ao Arquivo da Defesa Nacional, onde existe um registo das transmissões portuguesas que interferiram nas transmissões de Cumbamory para Conacri, onde se diz abertamente que as forças do PAIGC tiveram um número de mortos superior a 60… 

Quanto ao assassinato de Cabral, é contido, não fala nem na PIDE nem em Spínola, dirá que foi praticado por ilustres desconhecidos, está certamente esquecido que o embaixador de Cuba em Conacri, Oscar Oramas, chegou pouco depois ao local do crime, e escreveu mais tarde que viu Osvaldo Vieira, entre outros, a esconder-se atrás da vegetação; acontece que esses ilustres desconhecidos ameaçaram todo o grupo cabo-verdiano de morte, deram-lhes ordem de prisão, enquanto se dirigiam para Sékou Turé. 

Acontece que não existe nenhum documento que comprove qualquer propósito de Spínola ou da PIDE para induzir tal assassinato. Mas convém deixar sempre no ar de que o complô tinha o braço longo de Spínola e dos seus infiltrados.

Reconheça-se a importância do seu depoimento na época do pós-Cabral, dá-nos um retrato da multiplicidade de contradições dentro do PAIGC e da sua ocupação do Estado, relata o definhamento ideológico, fala da sua atividade como ministro e quanto aos fuzilamentos praticados pelo PAIGC, dirá algo de surpreendente, que talvez por volta de 1976 Luís Cabral jantou com Ramalho Eanes em Belém, e este ter-lhe-á pedido que fossem devolvidos a Portugal antigos efetivos do exército colonial, Cabral terá concordado, convocou altos responsáveis, entre eles António Alcântara Buscardini, chefe dos Serviços de Segurança do Estado e este, com toda a desfaçatez informou Cabral que os soldados não podiam ser devolvidos porque já tinham sido executados, tinha tomado individualmente tal decisão, Cabral engoliu a afronta. 

A história seguramente estará na desmemória de Manecas, haverá fuzilamentos, que estão devidamente registados até dezembro de 1977, e há que perguntar como é que é possível um chefe de segurança andar a praticar matanças sem o presidente saber. Nino Vieira será uma rábula parecida depois de 14 de novembro de 1980, manda abrir as valas de gente executada, ele que era primeiro-ministro, também não sabia…

Um testemunho para juntar ao de outros líderes do PAIGC, impõe-se como um retrato fiel do desmoronamento do Estado, onde Manecas Santos foi elemento preponderante.


Rosário Luz e Manecas Santos na sessão de lançamento do livro no Grémio Literário, em 6 de dezembro de 2024
Manecas Santos ao lado de Amílcar Cabral, em 1972
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Nota do editor

Último post da série de 26 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27574: Notas de leitura (1878): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (6) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27582: Prova de vida e votos de boas festas 2025/26 (17): O "Bom Natal" já passou e foi, alegadamente, uma época para manifestarmos o melhor de cada um de nós... (Hélder Valério de Sousa, ex-Fur Mil TRMS/TSF)

Créditos: Pinterest.pt


1. Mensagem do nosso camarada Hélder Valério de Sousa, ex-Fur Mil TRMS, TSF  (Piche e Bissau, 1970/72), com data de 28 de Dezembro de 2025:

Caros amigos,
Estamos agora em plena época das "Festas Felizes", balizada pelo "Bom Natal" e pelo "Bom Ano Novo".

O "Bom Natal" já passou e foi, alegadamente, uma época para manifestarmos o melhor de cada um de nós, vivendo em harmonia familiar, em amizade, em são convívio, perdoando as ofensas e retomando o que se teria perdido ao longo do ano. Claro que entre as correrias para compras várias, para os jantares da "Consoada", para as prendas (ou "simples lembranças"), pouco tempo terá sobejado para pensar na razão de ser do Natal. Mas isso, certamente, terá sido assessório....

Estamos prestes a entrar nos grandes desejos, ou formulação deles, para o Novo Ano. Não tem mal algum fazermos essas "declarações de intenções", mas melhor seria se se conseguisse alguma aproximação entre os desejos e as realidades.

Vou-me atrever a "dizer coisas" que, como vocês bem sabem, é apanágio dos que "não falam, apenas dizem coisas".

Então, apesar de ter muita dificuldade em vislumbrar algo de positivo nos tempos que se aproximam, no plano internacional e também no plano nacional, declaro que me vou esforçar para continuar a ser "ingénuo", a querer acreditar que "há pessoas boas", que essas vão conseguir sobreviver à maldade e que isso irá permitir que o "Bem" vença o "mal".
Portanto, em termos de formulações, posso dizer que é meu desejo que a harmonia aumente e se cimente entre nós, que as diferenças existentes (e que assim continuem, pois a diversidade é que pode fazer com que a soma das partes seja maior) não sejam pretexto para divergências, que o conjunto concorra para elevar o nosso comum desempenho.

Claro que também desejo "saúde para todos".

Hélder Sousa

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Nota do editor

Último post da série de 24 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27569: Prova de vida e votos de boas festas 2025/26 (16): João Rodrigues Lobo, ex-Alf Mil, CMDT do Pel Transportes Especiais do BENG 447; João Câmara, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 3327 / Pel Caç Nat 56 e Tabanca do Centro