Pesquisar neste blogue

terça-feira, 23 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28124: Humor de caserna (277): Quem são os "ocupas" do histórico edifício dos CTT de Gabu ? Com o telemóvel, este "marco da civilização colonial" tornou-se obsoleto...



Guiné.Bissau  > Zona Leste >  Região de Gabú > Gabu >1998 > Edifício dos CTT do Gabu > Visita realizada por um grupo de ex-combatentes da CART 3494 à Guiné-Bissau. Em primeiro plano,  o Acácio Correia (ex-alf mil, CART 3494, Xime, 1972/74)...No letreiro que encima a imagem, pode ler-se: "Estação de Gabu. Telefone. Posto Público. Em qualquer momento"... 

Ainda não havia telemóveis. Os CTT ainda eram muito úteis. Perderam a sua função social. Hoje tornaram-se obsoletos. Toda a gente tem o mágico "telemóvel" que permite fazer "videochamadas" (coisa completamente impensável) há 30 anos.    Na inscrição ao alto do edifício pode ainda ler-se: "Estação dos C. T."... Já tinha caído o segundo T dos CTT (Correios, Telégrafos e Telefones).
 

Foto (e legenda): © Acácio Correia / Jorge Araújo (2015). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Edifício dos CTT... Ficava na tabanca de Bambadinca, nas imediações do quartel, já fora do arame farpado. 

Segundo recorda o Beja Santos, o nome da empregada dos CTT era a Dona Leontina ("uma gentil senhora com quem se apalavrava o dia e a hora para telefonar para Lisboa"). 

Sou dos que, a maioria, nunca lá foi telefonar, pelo que não me lembro da senhora. Presumo que  fosse cabo-verdiana, tal como a professora da escola primária local, a Dona Violante, e o chefe de posto (de quem também não me lembro o nome), nem o responsável da Casa Gouveia.

Lamentavelmente não convivivíamos, os civis e os militares. em Bambadinca, nomeadamente com a pequena comunidade cabo-verdiana, cristã. Havia racismo, não tenhamos medo das palavras. Havia preconceitos de parte a parte. As NT punham  em dúvida a lealdade dos cabo-verdianos em relação às autoridades portuguesas... Por outro lado, os comandos de batalhão tinham pouca ou nenhuma sensibilidade "sociocultural"... nem promovendo sequer a interação com a população civil.  Os comandos do batalhão eram uns burocratas que diziam mal da hora em que lhe calhou na rifa a "cova do lagarto" (crocodilo) (signifciado do topónimo Bambadinca, em mandinga). 

 Foto do álbum do José Carlos Lopes, ex-fur mil amanuense, com a especialidade de contabilidade e pagadoria, especialidade essa que ele nunca exerceu (na prática, foi o homem dos reabastecimentos do batalhão, o BCAÇ 2852).

Foto: © José Carlos Lopes (2013). Todos os direitos reservados. (Edição  e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)



Guiné-Bissau > Zona Leste > Região de Gabu > Gabu > Junho de 2026 >  Antigo edifício dos CTT, agora transformado em balcão de uma casa de apostas mútuas desportivas, jogis de azar, etc, ("Bissau Games", com sede em Bissau).

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]



1. Mensagem de LG:

Querido "embaixador" da Tabanca Grande em Bissau (*), o editor não pode ter "estados de espírito"... Mas o gajo que escreve este comentário, sim, pode rir-se, chorar, indignar-se, inquietar-se, emocionar-se, ou simplesmente sorrir perante estas fotos que nos mandaste no último domingo para o blogue... com legendas lacónicas. As fotos falam por si, ou talvez não: se calhar, falta o contexto ao texto...



Edifício dos CTT de Mansoa, foto de César Dias (c. 1969/71)
Nunca cheguei a ir a Nova Lamego (a 30 km da nordeste de Bafatá), com pena minha, mas ia a Bafatá, a "princesa do Geba", onde também havia "marcos da civilização", com uma estação dos CTT. E,claro, a Casa Gouveia. E até restaurantes como "A Transmontana" que servia o melhor bife com ovo a cavalo e batatas fritas. Tudo por 20 pesos. 

Tal como edifícios dos CTT  noutras terras minimamente importantes, assinaladas nas cartas militares como sedes de circunscrição / concelho... da nossa "Guinezinha", como diria a Cilinha... Havia estação dos CTT em Bissau, a capital, Mansoa, Teixeira Pinto, Farim, Bafatá, Nova Lamego, Catió, etc. Mas também em postos administratrivos como Bambadinca, Contuboel...

Eram terrinhas que podiam ter, algumas, apenas meia dúzia de brancos e "assimilados", mas tinham gente que escrevia e recebia cartas e encomendas postais, e até havia quem utilizasse o telégrafo e o telefone... Um ou outro comerciante, as missões católicas, os chefes de posto, etc., tinham endereço telegráfico e, antes da guerra, até telefone fixo, em casa ou no estabelecimento ou na missão. Coisas inúteis com a guerra.



Guiné-Bissau, Gabu, 2005. Antigo edifício, colonial,
dos CTT, agora recuperado.  Imagem: Tino Neves (1969/71)
..
O primeiro ato revolucionário do Amílcar Cabral foi mandar deitar abaixos os postes telefónicos. Não deitou abaixo os postes de eletricidade, porque ainda não existiam... Era um iconoclasta, o fudmador da Pátria. Queria construir um mundo novo, uma Guiné nova, um homem novo...

Eu fui sempre, como "expedicionário" naquela terra, "malgré-moi" (isto é, não-voluntário), um mau utilizador dos CTT. Nunca entrei lá dentro. Aliás, não utilizei, de todo, os CTT da Guiné. Nunca telefonei, nunca recebi ou mandei um telegrama... Como na maior parte das casas dos portuguesas, a casa dos meus pais náo tinham telefone...

E as poucas cartas que escrevi (e as que recebi), eram encaminhadas pelo Serviço Postal Militar (o famoso SPM), a única coisa de jeito que a tropa fez pelo bem-estar dos seus militares mobilizados para aquelas terras palúdicas...

Hoje sorrio, ao ver a outrora bela estação dos CTT de Nova Lamego, votada ao abandono, como mais uma das velharias da nossa presença histórica em África... No seu túmulo, o Amílcar Cabral também deve estar a dar umas voltas... Mesmo no eterno descanso, também há gente com insónias... e não devem ser pouca. 

Ele e os seus "cabra-matchu", sem esquecer o Aristides Pereira que era funcionário colonial dos  CTT de Bissau... Sem esquecer o Sarmento Rodrigues, o modernizador, o Teixeira Pinto, o "capitão-diabo", o Salazar, o "bota-de-elástico", o Spínola, o "Caco Baldé" e o Marcello (com dois "ll") Caetano, o "empata-f*das", e tantos outros...

Enfim, sem esquecer o homem que "descobriu" esta terra maravilhosa (que dava mancarra, coconote, madeiras exóticas, etc.)  e que foi o primeiro a "lerpar", o Nuno Tristão em 1446 (se bem me lembro do meu tempo de escolinha, não é preciso ir à Wikipedia espreitar  ou perguntar à IA; devia constar da lista dos mortos das guerras coloniais, ,mas esquceram-se dele).

Tal como na natureza, nas sociedadee humanas nada se perde, tudo se transforma... Já vi uma igreja (em Almada) transformada em taberna, outra que agora é livraria (em Óbidos)... Já vi um lazareto transformar-se em asilo de órfãos (em Porto Brandão) e depois bairro clandestino de cabo-verdianos e retornados...

Por que é que os fulas do Gabu não se lembraria também de fazer daquele belo recanto da "cidade" , a antiga estação dos CTT, um muito mais útil "balcão" para as apostas mútuas desportivas ?

Não sei se eles (a "Bissau Games", que deve ser uma manhosa empresa privada de "caça-níqueis" digital, jogos de azar, etc.) têm a "raspadinha"; se não têm, tem que copiar a ideia (genial) da "Santa" Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML).

 Portugal, país de baixa literacia financeira, é viciado em jogos comnpulsivos, como a "raspadinha" ... Porque é a Guiné-Bissau não imita as "coisas boas" (isto é, "lucrativas") que ainda tem o seu antigo país colonizador ?

Portugal regista níveis recorde de consumo em jogos de fortuna ou azar. A "raspadinha" da SCML é, há já largos anos, o jogo social do Estado mais lucrativo. 

Há quem se preocupe com este fenómeno que tem implicações ma saúde pública e económica devido à sua forte componente aditiva. Eis alguns números: (i) a "raspadinha" movimenta anualmente cerca de 1,9 mil milhões de euros, representando perto de 60% do total das receitas dos Jogos Santa Casa;  (ii) a média de gastos "per capita" atinge valores expressivos, com os portugueses a dedicarem uma parte considerável do seu rendimento a este e outros jogos como o Euromilhões; (iii) a adesão é transversal, mas regista uma prevalência muito significativa nas classes sociais mais baixas e faixas etárias seniores, muitas vezes alimentada pela falsa esperança de colmatar dificuldades financeiras imediaats: joga-se à "raspadinha" hoje para comprar o pão amanhã...

E no Gabu, como é ? 

O vício da raspadinha acarreta graves consequências, desde o isolamento social e  crises financeiras familiares, até situações extremas de criminalidade e violência doméstica.

Enfim,  que Deus, Alá e os bons irãs lhes perdoem, aos "ocupas" do Gabu (**)...Com tanta casa de alvenaria abandonada, depois da independência, sem dono nem usufruto, seria uma pena não se aproveitar estes "marcos da civilização", primorosamente desenhados e tirados a papel químico pelos senhores arquitetos do GAC - Gabinete de Arquitetura Colonial, que nunca puseram os pés no Gabu...

Um deles até era meu conterrâneo, o arquiteto Lucínio Guia da Cruz (1914-1999), do GAC: foi ele que desenhou o edifício dos CTT em Bissau, em 1953... Queria fazer um edifício para a CM de Bissau, saiu-lhe um mastodôntico edifício dos CTT. Feio, mas funcional. Tecnicamente bom, dizem os especialistas.


 ____________________

Notas do editor LG:

(**) Último poste 22 de junho de 2026  > Guiné 61/74 - P28123: Humor de Caserna (276): No dia em que faz 82 anos, o luso-americano (e nosso camarada, régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona) João Crisóstomo recebe das mãos de Aristides Sousa Mendes a Comenda da Ordem da Liberdade...

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28123: Humor de Caserna (276): No dia em que faz 82 anos, o luso-americano (e nosso camarada, régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona) João Crisóstomo recebe das mãos de Aristides Sousa Mendes a Comenda da Ordem da Liberdade...


  • Tradução (PT): (No interior do acolhedor apartamento de João e Vilma em Queens, Nova Iorque) / JOÃO: 82 anos! Muitas memórias fantásticas... mas alguns assuntos pendentes...

  • Tradução (PT/EN): (Exterior, com vista para a Sede da ONU em Nova Iorque) / ARISTIDES (visão): Hoje não, senhores! A minha consciência tem um encontro marcado... / Career Diplomats



  • Tradução (EN): ARISTIDES: Happy Birthday, João! For Foz Côa, for East Timor, for me... this should have arrived a long time ago! / Commendation of the Order of Liberty


    Tradução (EN): JOÃO (limpando uma lágrima): Aristides?! The best gift of all. But the greatest reward was being able to fight.

      

    Fonte:
    Prompting e orientação editorial: Luís Graça
    Textos e imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
    Geração gráfica assistida por IA:
    Google (2026). Gemini (versão de 22 de junho de 2026) [Grande modelo de linguagem].



    1. O nosso amigo e camarada João Crisóstomo é membro da nossa Tabanca Grande desde 26 de julho de 2010, sentando-se à sombra do nosso poilão sob o nº 432 (somos já 915, entre vivos e mortos); é régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona (Queen, NY) e membro também da Magnífica Tabanca da Linha (Algés, Oeiras)...  Tem cerca de 3 centenas de referências no nosso blogue.

    Foi combatente na Guiné, em 1965/67, ex-alferes miliciano atirador de infantaria, CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67).

    Nasceu em Torres Vedras, A-dos-Cunhados, em 22 de junho de 1944. Está na terra do Tio Sam desde 1975, primeiro como emigrante, e depois naturalizado norte-americano. Vive em Queens, Nova Iorque,  é casado em segundas núpcias em 2013 com a esloveno-americana Vilma.  É pai de 1 filha e de 1 filho, e avô de 3 netos. Vem a Portugal mais do que uma vez por ano. Está "retired" mas não "inativo"...

    Já fez de tudo, desde mordomo a empresário da restauração... João Crisóstomo foi mordomo da antiga primeira-dama Jacqueline Kennedy Onassis, que o inspirou e a ser um ativista de grandes causas, culturais e sociais, que iriam marcar e mudar o mundo, como:
    • "Save the Coa Site Movement, USA” (Defesa das Gravuras Rupestres de Foz Coa, EUA) (1995);
    • Aristides de Sousa Mendes (1996);
    • LAMETA (Luso-American Movement for East- Timorese Autodetermination) (1998)
    • Dia da Consciência  (2004, 17 de junho);
    • Encerramento de Consulados Portugueses (2006);
    • Luso-Americano refém das FARC na Colômbia (2008);
    • Colaboração com a ASTIL:  Construção da Escola São Francisco de Assis, Timor-Leste,. Liquiçá, Manatti, Boebau, (2017-2018).
    Em suma, é uma vida com muitas causas. 

    João Crisóstomo, também conhecido como o "senhor Timor", é católico praticante, de espírito ecuménico, com uma relação privilegiada com o Vaticano e representantes das três grandes religiões monoteístas, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo,

    Nos últimos 30/40  anos,  esteve presente  em todas as grandes causas que atrairam o interesse geral das comunidades luso-americanas da costa leste dos Estados Unidos e que, de um modo ou de outro, também se situavam dentro do círculo alargado dos direitos humanos ou dos interesses,  declarados ou não, do país onde nasceu, Portugal.

    Foi o vencedor do Prémio Tágides 2023 na Iniciativa “Portugal no Mundo”, por todas as iniciativas que desenvolveu em prol da Ética e da Integridade.

    Em resultado da elevada dedicação a causas justas recebeu já as seguintes distinções (além do Prémio Tágides, 2023):
    • 1998 - International Rock Art Congress Award (USA)
    • 2001 - Angelo Roncalli Medal, International Raoul Wallenberg Foundation;
    • 2001 - Outstanding Service to Society Award, Edison State College;
    • 2002 - Visas for Life Award;
    • 2004 - “Aristides Sousa Mendes Medal” da International Raoul Wallenberg Foundation (IRWF);
    • 2005 - Luis Martins de Sousa Dantas Medal, IRWF;
    • 2005 - Recognition Certificate, Government of Canada.

    Se pudéssemos atribuir-lhe uma condecoração em nome do seu (e nosso) país de origem, Portugal, ele seria há muito Comendador da Ordem da Liberdade. Faz hoje 82 anos (*).

    Numa BD bem humorada (**), a nosso pedido, a IA do Gemini / Google pô-lo a receber das mãos do Aristides de Sousa Menses (Cabanas de Viriato, Carregal do Sal, 1885 - Lisboa, 1954) a Comenda da Ordem da Liberdade que  já deveria ter recebido há uns anos atrás. Ele já fez mais por Portugal e a Lusofonia do que muitos diplomatas de carreira... 


    (**) Último postde da série > 18 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28110: Humor de caserna (275): E se os portugueses nunca tivessem chegado ao Brasil?

    Guiné 61/74 - P28122: Notas de leitura (1930): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (1) (Mário Beja Santos)


    1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Janeiro de 2026:

    Queridos amigos,
    "Furriel não é Nome de Pai", de Catarina Gomes, é de leitura obrigatória, é uma longa viagem sobre tema sobre o qual se manteve discrição ao longo de décadas, os filhos dos militares portugueses deixados na Guiné, Angola e Moçambique, crianças sovadas, discriminadas, continuam a buscar uma identidade perdida, as autoridades dos países independentes e as de Portugal nem tentam reconhecer a dimensão do problema, parecem ser coisas do destino, ainda por cima os ex-combatentes é uma categoria em vias de extinção, e as crianças deixadas nas antigas colónias, hoje homens e mulheres com mais de 50 anos nem são tema para conversas nos almoços anuais que eles fazem. É uma bela edição revista e aumentada, a narrativa é primorosa, e momentos há, caso do encontro entre Óscar Albuquerque e a sua tia Filomena que temos a convicção do poder radial e luminescente desta moderna literatura portuguesa.

    Abraço do
    Mário



    Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 1

    Mário Beja Santos

    A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

    Na introdução, a autora dá-nos conta de outras histórias de filhos de militares, não deixa de impressionar a lista de filhos de guerra, noutras paragens. A momentosa questão dos “filhos de tuga” parece não sensibilizar a sociedade portuguesa, quando os meios de comunicação social afloram esta dolorosa realidade, é o discreto silêncio que prevalece, parece ser praga ou vicissitude dos tempos de guerra sem remédio.

    Esta investigação foi iniciada em 2013, na Guiné-Bissau, a própria autora ficou surpreendida pelo dilúvio da procura, partira com quatro contactos de supostos filhos de ex-militares portugueses, a receção foi turbilhonante: “Um passa-palavra descontrolado colocou ao nosso dispor uma torrente de vidas que era impossível recolher no tempo que tínhamos. Alguns filhos tinham de esperar horas para os ouvirmos, as suas histórias eram as mensagens que nunca tinham conseguido enviar aos pais. Os primeiros dias emocionaram-me, mas houve momentos em que me senti como se estivesse num guichê de repartição pública, a preencher folhas e folhas de relatos que, a certa altura, se repetiam no essencial – eu fazia ali as vezes de Portugal.”
    Haverá um testemunho, o de Fernando Hedgar da Silva, que a empurrará a escrever este livro, a história da associação que ele criou é qualquer coisa de sublime nos seus percursos de dramatismo que a autora traz ao leitor. Mais adiante, ouviremos falar de Óscar Albuquerque e da sua tia Filomena, creio que são espantosas páginas antológicas que ultrapassam a linha da investigação, é um dos mais luminescentes encontros que a literatura portuguesa nos proporciona.

    Ninguém conhece ao certo a dimensão do universo dos “filhos de tuga”, se são centenas ou milhares, na Guiné, Angola ou Moçambique e, francamente, é difícil fazer comparações com estimativas do Vietname ou outros locais de outras presenças coloniais, onde houve belicismos. Atenda-se ao que Catarina Gomes escreve na introdução: “Todos os dias morrem metades desta história. Os pais portugueses estão nas fases finais das suas vidas, e estes filhos, na casa dos 40-50 anos, também podem estrar perto do fim das suas. A esperança de vida dos três países africanos ronda os 30 anos. Se continua a haver todos os anos almoços-convívios de ex-combatentes é porque a guerra ainda vive nestes homens.”

    Fernando Hedgar da Silva, como se disse, é um dos fios condutores desta trama. Lembra na sua meninice os fuzilamentos havidos em Canchungo de quem tinha colaborado com as tropas portuguesas, o PAIGC apodava-os de serem “traidores da Guiné”, a população fora obrigada a assistir aos fuzilamentos e do mesmo modo teve de comparecer a um baile noturno, era obrigatório celebrar – mesmo quem acabava de perder familiares. A vida de Fernando mudou no dia em que o vizinho o admoestou dizendo que ele não tinha direito à opinião, era um resto de tuga. Pôs-se nu diante do espelho, ali estava no seu tom de pele a razão pela qual a mãe o chamava em casa “branco” e “tuga”. Assim se iniciou a sua saga à procura de identidade, Fernando pensava que o pai se chamava Furriel, bateu a portas, mesmo à da Embaixada de Portugal, não encontrou saída, um dia tomou a decisão de criar uma associação “os filhos de tuga”.

    Como era camionista, ia percorrendo o país à procura de “filhos de tuga”, passados os inúmeros encontros, ganhou corpo a Associação de Solidariedade dos Filhos e Amigos dos Ex-Combatentes Portugueses na Guiné-Bissau – Fidju di Tuga. As primeiras reuniões acabavam em longos convívios. E Catarina Gomes faz entrar em cena outros personagens, retornamos à vida nos quartéis, aos restos de comida dados a mulheres, e de repelão surge-nos a história de Nenedjo Djaló, ela não procurou, foi encontrada. “Foi por acaso: dois ex-combatentes portugueses, em romagem nostálgica à Guiné, cruzaram-se com um primo de Nenedjo, que aproveitou para chamar a atenção para a filha que o capitão Lopes tinha deixado. Conheciam-no e aceitaram levar-lhe a novidade. A primeira vez que Nenedjo e o pai falaram ao telefone choraram, e ele deu-lhe a escolher: ‘Queres vir cá ou vou eu aí?’. Ela não teve dúvidas, era a oportunidade de se vingar: ‘Preciso que você venha cá, as pessoas que me discriminaram, quero que elas o vejam’.” O pai veio, Nenedjo foi até Portugal, mas a relação não teve sequência, o pai gosta, mas não a reconhece.

    Acompanharemos outras viagens de Fernando, iremos mesmo ao cemitério de Bissau. “Alguns filhos da Associação já choraram ao ler os nomes que se deixam ler. Os que não sabem bem como se chama o pai, como Fernando, também já se perguntaram se nalgumas daquelas sepulturas estará o pai. E se ele for um dos homens apagados? Nesse sentir há uma tristeza, mas, simultaneamente, uma esperança porque assim o abandono dos filhos não o seria. Os pais não vieram ter com eles porque nunca saíram dali, morreram na Guiné, coitados, tão jovens, pouco depois de os terem feito.”

    Discutem-se nomes hipotéticos para os pais desconhecidos, fazem-se aditamentos nas certidões de nascimento, e assim se criou a ilusão de se ganhar uma vida própria. Fernando não para de investigar. Consultou os registos paroquiais na igreja de Canchungo. Encontrou-se a ser batizado na folha 59, certidão n.º 106. Existia há mais tempo do que pensava. Em vez de ter nascido a 24 de dezembro de 1971, como vinha no seu bilhete de identidade, ele era, afinal, de 5 de janeiro de 1968. Na certidão nada da identidade do pai nem dos avós paternos. Mas vinha lá o nome dos padrinhos de batismo, um português que então vivia em Teixeira Pinto, um comerciante que já tinha morrido. A madrinha era parteira, viera para Portugal há muitos anos. O seu nome era Ermelinda Félix Tavares. A autora, depois de longos meses de pesquisa, encontrou-a. Mostrou-lhe a fotografia de Fernando adulto, não se lembrava dele nem da mãe, Sabadozinha Mendes. Houve conversa de mulheres: “São coisas que aconteceram durante a guerra. Se elas precisavam de alguma coisa davam-se aos militares. Não era amor, não, coitadas.”

    Vamos ver seguidamente um dos episódios espantosos (senão o mais espantoso, pelo nível de ternura e meandros de encontros e desencontros) desta pesquisa, Óscar Albuquerque e a sua tia Filomena, prestem atenção.

    (continua)

    _____________

    Nota do editor

    Último post da série de 19 de Junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28115: Notas de leitura (1929): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (4): VII - A Viagem do Tangomau e VIII - As investigações sobre a Senegâmbia e algo mais (Mário Beja Santos)

    Guiné 61/74 - P28121: S(C)em Comentários: O casamento, hoje, já não é o que era (Cherno Baldé, Bissau)







    Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

    Texto:  Cherno Baldé (2026)

    Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


    1. Comentário do nosso colaborador permanente Cherno Baldé (que "firma" em Bissau), ao poste P28089 (*), que passa a ser inserido na série "S(C)em Comentários" (**)

    (...) Eu não posso concordar com o humilhante termo “compra” quando se trata de termos de acordo matrimonial entre duas pessoas, um contrato social selado entre as duas famílias, como acontece na tradição fula, que conheço melhor. 

    Os termos do contrato, mesmo não sendo escritos, preveem um acordo aceite e garantido entre as duas partes interessadas e mais ou menos equilibrado, na presença de mediadores e testemunhas, no sentido de garantir socialmente os direitos do casal dentro da família do noivo e acautelar as situações em caso de separação/divórcio futura.

    Durante a minha infância, talvez por influência externa (convivência com a tropa no quartel e frequência da escola portuguesa), tinha repudiado por completo a prática tradicional e tinha jurado a mim mesmo que não seguiria esta via quando chegasse a altura de o fazer e cumpri o juramento, mas hoje colocado diante da problemática dos meus filhos, acho que nem tudo é a preto e branco.

    Os meus filhos nasceram e sempre viveram na cidade, alguns já terminaram (dois) e outros ainda estudam e todos estão no exterior,  entre Portugal, Brasil e Marrocos. O mais velho tem 30 anos e o mais novo 19 anos. Não querem saber de casamento nem de ter filhos, não os posso obrigar e nem eles se decidem a tal, de modo que a probabilidade de não virem a se casar é muito elevada. 

    Também tenho sobrinhas que cresceram em minha casa, algumas (duas) já estão acima dos 30 anos e ainda não estão casadas, não porque não querem, mas porque sozinhas não conseguem arrumar um marido e, quanto aos rapazes, cada vez é mais improvável o interesse em contrair matrimónios diante do desemprego e das crises cíclicas que o país e o mundo atravessam.

    Nas zonas rurais, embora a vida e as regras costumeiras continuem a ser as mesmas diante da lei, a realidade está a mudar a olhos vistos e cada vez mais as relações sociais e matrimoniais estão a ser condicionadas pelo que se passa no país e no mundo.

    Um fenómeno, mais ou menos novo,  que apareceu entretanto, é a preferência por noivos emigrantes “europeus”, que estejam dispostos a levar a sua noiva para o país de emigração ou para as cidades em residências separadas. 

    Nesses casos há descontos importantes, as noivas são quase sempre favoráveis e os pais podem dar muitas facilidades, na expetativa de que as filhas tenham a chance de viajar para o “paraíso” europeu. (...)

    Cherno AB

    2.Comentário do editor LG:
    O comentário acima surge como resposta a um pedido nosso, ao Cherno Badlé, para nos falar um pouco de comno vai hoje a instituição "casamento", na sua terra, entre o seu povo,,,

    (...) O casamennto (e todos os rituais à volta dele, incluindo o "dote") é um fenómeno que transcende culturas, embora se manifeste de formas muito diferentes, às vezes radicalmente, conforme o contexto social, económico e até histórico.

    Os meus camaradas (e eu próprio) pecavam por "eurocentrismo" ou "etnocentrismo", ao ver estas práticas como "exóticas" ou até "atrasadas", quando na realidade eram/são sistemas de trocas sociais profundamente enraizados, com lógicas próprias que nada têm a ver com a nossa visão ocidental de casamento, da mulher e do homem, da família, da sexualidade, da reprodução...

    O "barlaque" na Guiné (*) e e especialmente entre os Fulas (que eu conheci melhor) não era/é apenas uma "transação económica", mesmo sob a forma de um pagamento simbólico (em vacas, noz de cola, panos, etc.), era/é sobretudo um "contrato social", uma forma de "aliança entre famílias", e até uma garantia de estabilidade para a mulher (em sociedades camponeses onde não havia/há  as modernas formas de proteção social, na doença, no acidente, na velhice, na morte)

    Para os soldados portugueses (e muitos deles vindos de meios rurais onde o "dote" também existia, mas de forma muito menos formalizada) ver os seus camaradas fulas a "comprar mulher", foi de facto um choque cultural enorme.

    O que os militares portugues não percebiam (nem foram preparados culturalmente para isso, não havia "psicólogos" quanto mais "antropólogos", em Mafra, nas Caldas da Rainha, em, Tavira,em Santarém, em Vendas Novas, em Lamego) era que, na Guiné, o "barlaque" (ou o "pidi noiva") não era uma transação comercial, mas sim um rito de passagem e um mecanismo de proteção.

    Para um fula, o pagamento do "barlaque" validava o casamento perante a comunidade, garantia o estatuto social da mulher (e da sua família),  criava laços de solidariedade entre grupos, clãs, "chãos" e (poucos o sabiam) podia ser reembolsável em caso de divórcio, o que dava, teoricamente, à mulher uma certa segurança económica.

    O eurocentrismo e o entrocentrismo faz-nos sempre ou quase sempre julgar (mal) o que não compreendemos ou não conhecemos.

    Não sei como é que as coisas estão hoje, na tua terra, meu mano Cherno...(...) (**)

    Guiné 61/74 - P28120: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (64): O antigo edifício dos CTT de Gabu


    Foto nº 1
    ~

    Foto nº 2


    Foto nº 3


    Foto nº 4


    Foto nº 5


    Foto nº 6


    Foto nº 7

    Guiné-Bissau > Zona Leste > Gabu > O edifício da antiga Estaçáo dos CTT

    Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]




    Patrício Ribeiro: (i)  ex-fuzileiro em Angola (1969/72);  (ii) nosso colaborador permanente para as questões de ambiente, geografia e economia da Guiné-Bissau; (iii)  tem mais de 200 referências no nosso blogue; (iv) vive na Guiné-Bissau desde 1984; (v) é o "embaixador" da Tabanca Grande neste país lusófono; (vi) é o português que melhor conhece a Guiné e os guineenses, e que ainda hoje é conhecido como o "pai dos tugas" (pelos mais novos, que visitam a Guiné-Bissau, ou passam por lá como cooperantes, e que ele apoia, sem nunca lhes perguntar em que partido é que votam, em que clube é que jogam, a que deus é que rezam e onde é que os pais nasceram); (vii) é autor desta série "Bom dia, desde Bissau"; (viii) foi o fundador e o diretor técnico da empresa de energia Impar Lda, com sede em Bissau desde há 35 anos.


    1. Sete mensagens foram enviadas ontem, domingo, pelo Patrício Ribeiro, entre as 13:53 e as 14:14 (em sucessivos envios, cada um com uma foto, documentando o edifício dos antigos CTT, o depósito de água e a central elétrica solar). 

     Devido à lentidão da internet, o Patrício costuma mandar uma foto de cada vez. Hoje publicamos as fotos com a antiga estação dos CTT de Nova Lamego (hoje Gabu). Não é clara qual é a utilização atual do edifício. Ao lado, funciona (ou funcionava ?) o "centro retransmissor" do Gabu (foto nº. 6). 

    Pelo que se depreende das fotos, o antigo edifício dos CTT parece agora funcionar como balcão local das apostas desportivas da Guiné (Bissau Games) (Foto no. 7).

    Fui aos correios em Gabu, para ver se tinha recebido alguma carta, mas afinal já não trabalha há muitos anos. (Pensei que podia ser mais rápido que a Internet existente.)

    Não sei quantos amigos e camaradas passaram por estes balcões....

    Abraço, 
    Patrício

    Guiné > Região de Gabu > Nova Lamego > c. jan / fev 1967 > Uma das artérias  da então vila (e sede de circunscrição / concelho do Gabu), com a estação dos CTT à esquerda, e o Cine-Teatro à direita, do outro lado. 

    Foto do álbum de Manuel Caldeira Coelho (ex- fur mil trms, CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894,
    "Os Tufas") (Bissau, Fá Mandinga, Nova Lamego, Beli e Madina do Boé, 1966-68)

    Foto (e legenda): © Manuel Caldeira Coelho (2011). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]
    ______________

    Nota do editor LG:

    Último poste da série > 10 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27808: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (63): O antigo hospital militar, HM 241 (e depois "complexo hospitalar 3 de agosto"): "E tudo o vento levou"...

    Guiné 61/74 - P28119: Parabéns a você (2498): Cor Art Ref António José Pereira da Costa, ex-Alf Art da CART 1692/BART 1914 (Sangonhá e Cameconde, 1968/69) e ex-Cap Art, CMDT da CART 3494/BART 3873 e da CART 3567 (Xime, Mansambo e Mansabá, 1972/74) e João Crisóstomo, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé e Fá Mandinga, 1965/67)


    _____________

    Nota do editor

    Último post da série de 20 de Junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28116: Parabéns a você (2497): Cherno Baldé, Gestor de Projectos, amigo Grã-Tabanqueiro da Guiné-Bissau

    domingo, 21 de junho de 2026

    Guiné 61/74 - P28118: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (7): duas "retiradas finais": Bissau (15/10/1974) e Saigão (29-30/4/1975): (dis)semelhanças









    Recortes de imprensa, "Diário de Lisboa", 30 de abril de 1975, 2ª ed., pp. 1 e 20.

    Fonte: Instituição: Fundação Mário Soares e Maria Barroso |  Pasta: 06822.172.27196 | Título: Diário de Lisboa | Número: 18752 | Ano: 55 | Data: Quarta, 30 de Abril de 1975 | Directores: Director: António Ruella Ramos; Director Adjunto: José Cardoso Pires | Edição: 2ª edição | Fundo: DRR - Documentos Ruella Ramos | Tipo Documental: Imprensa  




    Vietname > Saigão> 29 de abril de 1975 > Um membro da CIA ajuda um grupo de evacuados civis,  a subir uma escada para um helicóptero da Força Aérea Norte-Amerivcana, no telhado do número 22 da rua Gia Long, pouco antes da queda iminente de  Saigão às  mãos das tropas norte-vietnamitas.  Foto histórica do fotojornalista neerlandês Hubert van Es (1941-2009). Imagem do domínio público. Cortesia de Wikimedia Commons.


    1. Há 51  anos a agência Reuters e o Diário de Lisboa, de 30/4/1975, noticiavam o fim da guerra do Vietname (*).  Uma guerra que se arrastou por  3 décadas, e que foi um pesadelo para todos, como todas as guerras o sao: os vietnamitas e os outros povos da Indochina (Laos e Camboja), os franceses, os americanos e outros aliados... (e demais povos e todo o mundo, já que não foi  uma mera guerra colonial nem regional, desenrolou-se em pleno clima de "guerra fria").

    A guerra do Vietname envolveu diretamente mais de 10 países. O conflito militar abrangeu três palcos principais (Vietname, Laos e Camboja) e foi também um confronto entre dois blocos ("capitalista" e "comunista", oeste e leste). Os EUA começaram a mandar tropas para o Vietname a partir de 1965, atingindo um pico de 543 mil  em abril de 1969.
     
    Foi também uma guerra que esteve no nosso "imaginário"... Mais do que isso: também sobrou para nós... Os mísseis russos terra-ar Strela, por exemplo, já tinham sido testados no Vietname... bem como a passagem da guerrilha à guerra convencional (no caso, por exemplo,  da Guerra dos 3 G: Guidaje, Guileje, Gadamael)...

    E havia até quem, mal ou bem, na nossa geração, comparasse a guerra da Guiné com a do Vietname... É evidente que foram duas realidades incomparáveis: pelos meios bélicos empregues, em homens e armas, pela extensão do território, pela violência, pelo nº de baixas, pelas implicações geopolíticas a nível mundial,  etc.. As nossas guerras (em 3 TO, Angola , Guiné e Moçambique) foram de "baixa intensidade". 

    Estima-se que em 1967 as forças do Vietname, Vietcongues e  seus aliados fossem da ordem dos 860 mil, enquanto que do lado do Vietname do Sul, EUA e demais aliados rondassem os 1,4 milhões (em 1968). 

    O número de mortos (civis e militares), apenas vietnamitas, são difíceis de calcular, estimando-se entre menos de 1 milhão, e 3 milhões. Do lado das forças dos EUA,  as baixas seriam as seguintes: c. 58,2 mil mortos; mais de 150 mil feridos graves (evacuados); 1626 desaparecidos (ainda em 1975) (Fonte: Wikipedia). 



    Luís Gonçalves Vaz 
    2.  
    A retirada portuguesa da Guiné-Bissau em 15 de outubro de 1974 e a evacuação americana de Saigão em 29/30 de abril de abril de 1975 podem ser apresentadas como dois exemplos, diferentes, se não mesmo opostos, do fim de uma guerra prolongada e de uma presença militar "além-mar". 

    Ao analisamos, porém os detalhes, constatamos que s diferenças são tão importantes quanto as semelhanças.

    O texto do Luís Gonçalves Vaz (**) descreve a retirada portuguesa como uma operação cuidadosamente planeada, e melhor executada, baseada na Ordem de Operações n.º 1/74, na sequência do acordo político entre Portugal e o PAIGC. 

    Cerca de 2.500 militares metropolitanos (os últimos de um exército que totalizava dez vezes mais, sem contar com cerca de 15 mil homens em armas, do recrutamento local, incluindo milicias), foram retirados por via marítima, sob coordenação da Marinha (Comodoro Al,meida D'Eça), mantendo-se dispositivos de segurança até ao último momento.

     E tudo aconteceu com dignidade, segurança, ordem, disciplina, com respeito, até essa data, no que foi assinado nos acordos de paz entre as NT e o PAIGG. ( O que se passou depois é outra história, a "caça" aos "cães dos colonialistas"...)

    O que têm em comum as duas retiradas, separadas no tempo apenas por seis meses? E, no espaço: os portugueses estavam a 4 mil km de casa, os norte-americanos a 13 mil (***).

    (i)  O fim de uma guerra sem vitória militar clara

    Em ambos os casos, os exércitos retiravam-se sem terem sido derrotados numa batalha decisiva nos dias finais. Portugal abandonava a Guiné após o 25 de Abril e o reconhecimento da independência da Guiné-Bissau, em 10 de setembro de 1974, aceitando retirar as últimas tropas até 15 de outubro de 1974. Por seu turno, os EUA abandonavam o Vietname do Sul após anos de guerra (1965/73)  e depois dos Acordos de Paris de 1973.

    Em ambos os casos, a decisão foi sobretudo política.

    (ii) Forte componente logística

    Tanto em Bissau como em Saigão, o desafio principal foi retirar pessoal, equipamento e documentação.

    No caso português, o texto do Luís Gonçalves Vaz destaca o papel dos navios T/T  Uíge e Niassa e da fragata NRP Comandante Roberto Ivens como núcleo da operação, além das LFG  Lira e Orion.

    Em Saigão, os americanos recorreram a uma gigantesca ponte aérea por helicópteros a partir da embaixada e de navios da 7.ª Frota. Foram evacuados 6500 militares e civis, incluindo diplomatas.

    (iii) O simbolismo das imagens

    As imagens do arriar da bandeira portuguesa em Bissau e das multidões junto à embaixada americana em Saigão tornaram-se símbolos do fim de uma época. 

    As diferenças fundamentais;

    • A retirada portuguesa foi negociada; a de Saigão foi uma evacuação de emergência

    Esta é provavelmente a maior diferença. Na Guiné, existia o Acordo de Argel (26 de agosto de 1974). O PAIGC cooperou na transição. E a retirada foi planeada com datas, meios e responsabilidades relativamente bem definidas. 

    Em Saigão, o exército norte-vietnamita e o Vietcongue avançavam rapidamente. A capital estava prestes a cair. A  evacuação dos últimos soldados e funcionários diplomáticos bem como de milhares civis (sobretudo sul-vietnamitas)  foi feita sob enorme pressão temporal, para não dizer pânico.

    • Não houve colapso militar português

    O texto da autoria do Luís Gonçalves Vaz (que tinha 14 anos em 1974, quando deixou Bissau, antes do pai, que foi dos últimos militares a sair, por avião),  insiste numa ideia importante: o sucesso consistiu precisamente em não haver violência armada porque as forças portuguesas mantiveram capacidade de combate até ao último momento. Ou seja, as NT não depuseram as armas. Embarcaram de armas na mão.

    Em Saigão aconteceu o contrário: o exército sul-vietnamita desintegrou-se em muitas zonas.  Houve pânico entre civis e militares, e a  evacuação tornou-se caótica. Enfim, foi uma retirada humilhante e traumatizante para quem a viveu.

    • O ambiente psicológico foi diferente

    Em Bissau, foi mantida a disciplina militar (de um lado e do outro). A  cadeia de comando manteve-se intacta.  A  transferência formal de soberania foi feiota como o prevista. E, por outro lado, não houve praticamente civis a evacuar.

    Em Saigão, pelo contrário, houve pânico generalizado, milhares de pessoas (mais próximas no núcleo duro do regime do Vietname do Sul e dos seus aliados) tentavam desesperadamente embarcar nos helicópteros, ao mesmo tempo que se verificava o colapso administrativo do Estado sul-vietnamita.

    As famosas imagens dos helicópteros sobre os telhados  (vd,. foto acima) refletem isso.

    Onde é que a comparação é válida?   Historicamente, pode dizer-se que ambos os acontecimentos representam o  fim de projetos coloniais ou de influência geopolítica. Reconhecia-se (e aceitava-se) que a solução militar para o conflito deixara de ser sustentável.  Houve, num caso e noutro,  impactos de natureza societal e psicológica.

    Para muitos militares portugueses que serviram na Guiné, Angola ou Moçambique, o 15 outubro de 1974, em Bissau,  terá  tido um peso emocional semelhante ao que  o 29/30 de abril de 1975 teve para muitos veteranos  americanos do Vietname. (Salvaguardadas as devidas distâncias...).  Em todo o caso, não se pode falar da Guiné como o "Vietname Português"...

    Onde é que as duas retiradas não são comparáveis ? Se estivermos a falar da execução militar da retirada, a comparação torna-se mais fraca.

    Segundo os elementos do documento que partilhámos no blogue (**), a retirada da Guiné aproxima-se mais de uma extração militar organizada e negociada enfim, uma retirada planeada sob paz armada; enquanto que,  no caso de Saigão  (29/30 de abril de 1975),  foi uma evacuação de emergência perante o colapso de um regime aliado dos EUA  (o Vietname do Sul).

    ~
    Manuel Beleza Ferraz 
    É precisamente essa diferença que torna a operação portuguesa relativamente pouco conhecida a nível tanto interno como externo: não teve visibilidade mediática, nem no nosso "Diário de Lisboa", que eu lia todos os dias, era o meu jornal... 

    E até terá passado despercebida da maior parte dos antigos combatentes portugueses..... De facto, não houve imagens de pânico, não houve combates finais (nem sequer escaramuças), nem multidões a tentar fugir. 

    De resto, os portugueses em Portugal (mas também em Angola e Moçambique, as duas verdadeiras "joias da Coroa"),   seis meses depois do 25 de Abril, tinham mais do que se preocupar  do que com o fim da "guerra da Guiné"... 

    De qualquer modo, do ponto de vista militar, o que fica para a história é que o planeamento logístico cumpriu o seu objetivo, como diz o nosso Luís Gonçalves Vaz (**). Os 2500 militares, os últimos soldados do império no território da Guiné (a partir de então Guiné -Bissau), 
    puderam finalmente chegar a casa. Incluindo o primo  marinheiro radiotelegrafista Manuel Beleza Ferraz,   da guarnição da LFG Lira, felizmente ainda vivo, e autor de algumas das fotos que o Luís Gonçalves Vaz aqui publicou. 
    ___________________

    Notas         do editor LG:

    (*) Vd. poste de 5 de maio de 2025 Guiné 61/74: P26766: Efemérides (454): O fim da guerra do Vietname foi há 50 anos ("Diário de Lisboa", 30 de abril de 1975)