1. O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do
BART 6523 (Nova Lamego, Gabu) - 1973/74, enviou-nos a seguinte mensagem.
Camaradas,
Na linha do tempo
Beja, antiga Pax Júlia, é uma cidade por
onde passaram muitos dos camaradas militares que tiveram como destino o
território da Guiné
Na linha do tempo
Na linha do tempo, sempre finita para um
ser vivo, recorro a ímpetos históricos e revejo-me absorvido pelas origens de
uma cidade, onde habito, que foi fundada 400 anos a.C. pelo povo celta.
Descreve a história que os Cónios, denominados, como os Cornistorgis, foram uma
população que, nesses recuados tempos, coabitaram no burgo. No século III,
também a.C., foram os cartagineses que terão restabelecido o maior tempo de
permanência no lugar, sendo, contudo, a civilização romana aquela que romanizou
as populações por ali existentes.
O nome de Pax Júlia surge intrinsecamente
ligado ao período do Império Romano. Pax Júlia teve honras de metrópole e de
uma enorme grandiosidade na Península Ibérica, albergando então uma das três
jurisdições romanas da Lusitana. O Imperador Augusto terá sido o homem que deu
origem ao nome de Pax Júlia. No ano de 1162 os cristãos reconquistaram o burgo
e em 1524, a cidade recebeu o foral, mas antes, 1517, já tinha sido elevada a
cidade.
Poder-se-á afirmar, com elevada segurança,
que Beja foi berço de notáveis famílias. J de pedagogos e de humanistas na era
do Renascimento. Diogo Gouveia, Francisco Xavier, conselheiro dos reis, D.
Manuel I e de D. João III de Portugal, André Gouveia e António Gouveia,
sintetizam algumas das figuras que brilharam no palco do humanismo em Portugal.
Conta a história que a primeira
restauração dos muros de Beja, teve lugar no reinado de D. João III com
recursos oriundos, por 10 anos, de dois terços dos dízimos das igrejas
existentes, à época, na velhinha urbe. Diz ainda a lenda Beja, que esta foi uma
pequena localidade rodeada por matagais onde uma cobra assassina se apresentava
como um dos maiores problemas, e dúvidas. para a população em geral, sendo que
solução do dilema passou por assassinar a serpente. O efeito gerado terá
originado a morte de um touro que envenenado pela serpente, sucumbi-o. Neste
contexto, eis-nos perante o brasão da cidade que exibe a presença de uma cabeça
de touro.
1ª página do jornal “República”, 2 de
fevereiro de 1962, Recorte recolhido, com a devida vénia, por via da Internet
A história do Regimento de Infantaria
(RI3), em Beja, é longa e a sua origem remonta ao ano 1648. É óbvio que não
entramos pelo fastidioso texto em atravessar o campo da pormenorização. Mas, há
um feito aventureiro que marcou o Estado Novo: o assalto ao quartel na noite de
31 de dezembro de 1961 para o de 1 de janeiro de 1962.
Tinha então11 anos e lembro-me desse
acontecimento. Morava com a minha tia Maria, o marido, tio António, e filhas,
Isabel e Ana, na Rua Ramalho Ortigão nº1, uma rua que nos conduz a outros
pontos do Sul do país.
A missão teve como um dos principais
protagonistas o capitão Varela Gomes (1924-2018). O assalto tinha incumbência
uma ação contra o Regime. Na aventureira intentona participaram Manuel Serra,
que antes tinha chefiado os civis no Golpe da Sé, o major Francisco Vasconcelos
Pestana, o capitão Pedroso Marques, o tenente Brissos de Carvalho e Fernando
Piteira Santos. No golpe estiveram envolvidos alguns civis, só que o objetivo
não correu de acordo com os planos previamente delineados. Houve “negas” de
última hora, resultando da negação dos militares, que viraram o bico ao prego,
dois mortos ao que se soube. O major Galapez, segundo comandante do quartel,
fez resistência, o golpe falhou e Varela Gomes foi gravemente ferido.
Com o rebentamento da guerrilha
Ultramarina, primeiro em Angola, seguindo-se Moçambique e depois Guiné,
constata-se que o RI3, de Beja, terá sido um antro onde foram depositados ao
longo dos anos milhares de jovens camaradas com destino às três frentes de
guerra. Ao largo da década de 1960 e princípios dos anos de 1970, tive a
oportunidade de ver magotes de jovens rapazes que chegavam à velha Pax Júlia
para se iniciarem no serviço militar obrigatório.
Envergando uma farda verde, uma boina que
por vezes pouco ou nada se enquadrava com o perímetro da cabeça, de cabelo
rapado e calçando umas botas militares de delgada memória, o jovem, feito
militar à força, passeava-se pelas ruas da cidade e regozija-se pelo estatuto
de homem valente. Enchia o peito e sentia-se já um defensor da Pátria. Por
outro lado, a plebe, mais humilde que o fosse, via-os com alguma tristeza
perante o futuro próximo do rapazito recém-chegado às fileiras do exército,
sabendo o povo que o seu porvir passava consequentemente pela fatídica guerra
além-fronteiras.
Ficava, porém, a certeza de que parte
deles arranjava namoricos, alguns com criadas de servir em lares abastados, ou
seja, de senhores endinheirados, outros ficavam-se pelo pedido de madrinhas de
guerra, sabendo eles que ida para a guerrilha estava tão próxima, outros
passeavam-se vaidosos pela cidade, outros dispersavam-se pelos cafés e
cervejarias. Seguia-se a especialidade e o adeus deste cantinho à beira-mar
plantado. E terão sido muitos dos camaradas que no RI3 iniciaram o facto de se
tornarem militares.
Quartel de Gabu envolvido numa selva que
nunca “dorme"
Tocadores improvisados acertavam as mãos nos
instrumentos e os camaradas… gostavam!
Guiné
esperou-nos
Dando continuidade à linha do tempo, nós
antigos combatentes no território da Guiné, concretamente, somos pessoas que
nos deparámos com uma selva que nunca “dorme”, que vimos as estrelas a brilhar
num breu de uma noite repleta de mistérios, ou uma trovoada noturna onde
proliferava o recurso aos nossos “ponchos”. que ouvimos os barulhos estridentes
das armas de guerra, que contemplámos situações que jamais esqueceremos, ou de
momentos, quiçá únicos, onde os divertimentos vinham à baila, principalmente em
tardes de calor intenso onde dar uns toques numa bola se assumia como um prazer
enorme, ou das noites passadas na messe de sargentos, onde o toque dos
tocadores “deliciaram” a malta, momentos de laser que nos preenchia uma alma
que se esvazia num tempo que, entretanto, se esgotava em tácitos objetivos que
todos ambicionávamos.
Hoje, resta-nos perspetivar um amanhã
melhor, já que as curvas das nossas vidas se limitam à esperança de continuámos
a viver.
José Saúde,
Abraços camaradas,
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523
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Nota de M.R.:
Vd. último poste desta série em: