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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Guiné 63/74 - P8868: Notas de leitura (284): Orlando Ribeiro, Guiné, 1947, Cadernos de Campo (Mário Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Setembro de 2011:

Queridos amigos,
Este livro é muito mais do que uma agradável surpresa, é um manifesto de uma certa maneira de investigar com perspicácia, respeito pelo outro, esbraseado pela curiosidade e pela vontade de perceber. Era um tempo do conhecimento multimodo, a geografia abarcava o ser humano, a natureza, os valores, a espiritualidade, as comunicações e a economia.
A edição é primorosa, os cadernos de apontamentos de Orlando Ribeiro são uma jóia. Poderá parecer pesporrente, mas quem ama a Guiné não pode desconhecer este livrinho com quase 65 anos, estávamos a nascer e o maior geógrafo português do século XX a olhar a Guiné com encanto.
Não percam esta leitura.

Um abraço do
Mário


Orlando Ribeiro na Guiné, em 1947:
Uma jóia editorial, uma leitura imperdível

Beja Santos

“Orlando Ribeiro, Guiné, 1947, Cadernos de Campo”, Organização e estudos por Philip Havik e Suzanne Daveau, coordenação do Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, Edições Húmus, Lda., 2010, é um documento soberbo, de importância relevantíssima para a cultura luso-guineense. O seu conteúdo é constituído pelos cadernos de campo onde o reputado geógrafo anotou as suas impressões durante a viagem que efectuou à Guiné, em 1947. Mais propriamente, o que ora se publica é o primeiro dos quatro cadernos, seguir-se-ão os apontamentos das suas viagens de estudo a Cabo Verde, Angola e Moçambique.

Como escreve Diogo de Abreu, director científico do Centro de Estudos Geográficos de Lisboa, este primeiro caderno é testemunho eloquente de como então se fazia a ciência, com limitados recursos tecnológicos mas com ilimitada capacidade intelectual de observar, comparar e perceber. Um caderno que evidencia, na sua simplicidade, a sede de saber, a visão do erudito e o trabalho esforçado do explorador. O que efectivamente assombra nestes apontamentos tomados por vezes à pressa, por um investigador que quando chega às colinas do Boé já sente os efeitos do clima molesto, mas que vai registando, deliciado, os primores da osprindade (hospitalidade em crioulo) e que se faz especialmente fotografar com o seu guia-intérprete, irmão do régulo Gabu, é modernidade do nosso maior geógrafo do século XX. Com efeito, todas estas notas de viagem destilam a sua matriz intelectual: o sentir a interdependência que existe entre o homem, a natureza e a sociedade, a inesgotável curiosidade em procurar conhecer os traços comuns entre povoamento, a cultura e a agricultura num contexto de grande diversidade e complexidade étnicas.

Mas vejamos o pano de fundo em que tudo isto ocorreu. A Missão de Geografia na Guiné inseriu-se nas actividades promovida pela Junta das Missões Geográficas e de Investigação Coloniais, fundada em 1936, e que a partir de 1951 se passará a chamar Junta de Investigações do Ultramar. A sua curta missão irá realizar-se num período excepcional para o desenvolvimento científico do território, onde se sucedem missões de geólogos, pedólogos, zoólogos, a missão geo-hidrogáfica, os inquéritos etnográficos, Teixeira da Mota criara o Centro de Estudos da Guiné Portuguesa e o Boletim Cultural da Guiné Portuguesa graças ao estímulo do comandante Sarmento Rodrigues, governador da Província.

Orlando Ribeiro chegou a Bissau em 10 de Março de 1947, irá viajar centenas de quilómetros pela rede de estradas de terra batida, alojando-se, regra-geral nas residências dos administradores ou chefes de posto. Como escrevem os coordenadores da obra, numa tentativa de avaliação dos impactos desta missão, “A experiência guineense enriqueceu muito o ensino longamente dispensado por Orlando Ribeiro e pelos seus colaboradores e alunos, evitando o prolongamento do tradicional amadorismo apenas baseado em bibliografia e informação indirecta”. O trabalho de campo de Orlando Ribeiro decorreu em quatro áreas geomorfológicas distintas (litoral, região de transição, planalto de Bafatá e Gabu, colinas do Boé). O leitor vai deliciar-se com as notas desbravadas pelos organizadores, o geógrafo está atento à natureza dos solos, descreve a zona de mangue, faz comentários tais que logo se fica a perceber que também fotografou, como é o caso da fotografia da capa deste livro onde está um rapaz papel a levantar o muro de uma casa na região do Biombo; interessa-se pela alimentação, pelos recursos, não esconde a admiração pelos cabedais de cultura, pelos artefactos, etc.

O livro é pois constituído pelas páginas dos seus cadernos de notas, seguem-se dois estudos, um sobre a missão de geografia à Guiné em 1947 e outro acerca do mapa topográfico da Guiné. O álbum fotográfico do autor espelha a perspicácia e o humanismo do mestre, pela riqueza dos temas abordados, desde a construção de taludes em arrozais, passando pela diversidade de habitações até imagens da integração do ser humano na paisagem.

É uma leitura imperdível, e se o leitor está remitente, aqui se deixam alguns parágrafos para demover as últimas reticências:

“Um acampamento com vários brancos, se por um lado torna a vida mais agradável, empata muito também. Creio que para missões de pouca duração, o material muito completo traz menos vantagens do que inconvenientes. Uma cama portátil e o indispensável para cozinhar, um ou dois criados e numa palhota ou na casa de um posto, o abrigo para a noite, dão maior mobilidade e fazem perder menos tempo. Isto o que a experiência me ensinou, pena foi que não tivesse sabido antes”.
“O branco vem para se demorar uns anos que os azares da vida podem alongar mas nunca com o espírito de fixar-se; a família fica muitas vezes longe ou passa largas temporadas noutro clima. Lentamente o homem isolado, roído pela melancolia abandona-se à sedução das belezas locais e às vezes uma prole matizada acaba por fixá-lo a este solo hostil”.

Convém não perder tempo, o livro é mesmo uma jóia editorial, há que saudar os admiradores da obra de Orlando Ribeiro e esta primeira edição de uma viagem que arriscava a ficar no sono dos arquivos.
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 3 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8850: Notas de leitura (282): Do Cacine ao Cumbijã, 67 Guiné 69, de Guilherme da Costa Ganança (Mário Beja Santos)

Vd. último poste da série de 5 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8859: Notas de leitura (283): Tarrafo, de Armor Pires Mota: censura e autocensura, em tempo de guerra. Cotejando as edições de 1965 e 1970 (Parte II) (Luís Graça)

Guiné 63/74 - P8867: Inquérito online: Com que frequência tens visitado ultimamente o nosso blogue ?: Resultados e comentários preliminares

Guiné-Bissau > Região do Oio  > Mansoa > Jugudul > Abril de 2006 > Uma miúda  da região chupando uma guloseima que veio do Porto com açúcra e com afeto...

Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Estrada Bambadinca-Saltinho > 18 Abril de 2006, 14º dia  da viagem Porto-Bissau > Alguém perdeu um chinelo, algures perto de Mansambo...

Guiné-Bissau > Região de  Quínara > Estrada Buba-Empada > 19 Abril de 2006, 15º dia da viagem Porto-Bissau > Um insólita seta indicando a direção e a distância até à desértica  Madina do Boé: 67 km...

Guiné-Bissau > Região do Oio > Farim > Jumbembém > 17 Abril de 2006, 13º dia da viagem Porto-Bissau > O brinquedo mais precioso, de "linha branca"...


Guiné-Bissau > Região do Óio  > Estrada Mansoa- Mansabá > 16 de Abril de 2006, 12ª  dia da viagem Porto-Bissau > Uma insólita "sementeira" de bagabaga preto (termiteiras em cogumelo)


Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Estrada Bambadinca-Saltinho > 18 Abril de 2006, 14º dia da viagem Porto-Bissau > Ruínas do aquartelamento de Mansambo (monumento da CART 2339, 1968/69)...


Guiné-Bissau > Região de Óio  > Farim > 17 Abril de 2006, 13º dia da viagem Porto-Bissau > Cais de embarque no Rio Cacheu...


Imagens, sempre belíssimas, do álbum do nosso amigo Hugo Costa, filho do nosso camarada Albano Costa, documentando a viagem por terra, do Porto a Bissau, organizada pelo Xico Allen, em Abril de 2006, bem como a viagem emocionante pelo interior da Guiné-Bissau, a partir de Bissau e do Saltinho  (que os levou a vários sítios, de norte a sul e de leste a oeste: Bissau, Quinhamel, Mansoa, Mansambá, Barro, Bigene, Farim, Jumbembem, Canjambari, Xime, Fá Mandinga, Mansambo, Saltinho, Buba, Empada, Judugul, Bissau). A caravana era constituída por um único... jipe, que levou sete pessoas (!): além do Xico e da Inês Allen, o Hugo Costa, o A. Marques Lopes, o Zé Teixeira, o Casimiro e o Manuel Costa.

Recorde-se que essa viagem ficou registada numa série de crónicas assinadas pelo A. Marques Lopes, na I série do nosso bogue (pelo menos, uns 26 postes: Do Porto a Bissau), bem como em alguns apontamentos do Albano Costa (que, dessa vez, ficou na terra, em Guifões, Matosinhos,  onde é fotógrafo profissional)... O Hugo já tinha à Guiné, com o pai, em Novembro de 2000. Fica a nossa homenagem a ambos, pai e filho. (LG)

Fotos: © Hugo Costa (2006). Todos os direitos reservados


1. Mensagem, enviada ontem pelo correio interno da Tabanca Grande:

Assunto: Sondagem: Com que frequência tens visitado ultimamente o nosso ? Faltam 3 dias para terminar o prazo de votação

Amigo/a, camarada:

Faltam 3 dias para terminar a votação na nossa sondagem 'on line' (*).  Houve já mais de 150 votantes. A tua opinião, como membro registado da nossa Tabanca Grande (somos 520), é importante para quem está no "back office"...

Participa. Ajuda-nos a fazer mais e melhor. Estamos num período de reflexão e de reorganização interna da nossa "casa"...

Para participares, basta ires ao blogue e,  no canto superior esquerdo, escolheres uma das 8 possíveis respostas à pergunta da sondagem. A resposta é anónima.


Também podes mandar, por "mail", dando a cara, críticas, sugestões ou comentários  que nos ajudem a tomar medidas com vista à melhoria da organização e funcionamento do nosso blogue (que deve ser feito "por todos e para todos" os camaradas da Guiné...) e, por extensão, da nossa comunidade virtual que é a Tabanca Grande (por ex., regras de adesão, organização dos encontros, iniciativas).
Luís Graça

2. Comentário de L.G.:

À meia noite e meia de hoje, tínhamos 205 respostas, assim distribuídas:

(i) 75% dos respondentes visitam o blogue "diariamente" (39%) ou "quase todos os dias" (36%)

(ii) Os menos assíudos  vão lá "uma ou mais vezes por semana" (16%); ou "uma ou mais vezes por mês" (5%)

(iii) E os restantes 4%, "nunca ou raramente" visitam o blogue.


De acordo com a estatística produzida pelo nosso contador (Bravenet), desde 9 de Maio de 2010, o total de páginas visitadas foi de 2,918 milhões. Cerca de 85% dos visitantes costuma visitar a página mais de uma vez, no mesmo dia. Um em quatro visitantes vem de fora de Portugal (Brasil, Estados, França, etc.).

3. Alguns comentários de camaradas que tem andado ultimamente mais arredios das nossas páginas, mas que  responderam à nossa chamada, merecendo por isso um pequeno destaque:

Manuel Amante (, até agora em Macau):


Meu Caro Luís,


Estou de regresso a Cabo Verde e ao Ministério das Relações Exteriores.
Já votei e na primeira rúbrica porque vou ao nosso blog todos os dias.
Haja energia eléctrica ou não.
Haja insónia ou sono.
Haja ansiedade ou apatia geral.


Recebe um fraternal abraço. (...)


Albano Costa, de Guifões, Matosinhos, o nosso fotógrafo, e pai de Hugo Costa, que também seguiu as peugadas do pai no seu grande amor à fotografia e à Guiné:



Caros amigos: Embora esteja afastado há bastante tempo de participar no blogue, não tenciono deixar de fazer a minha visita diária.

Um bem haja para todos que, com o seu esforço, mantêm este "monstro" sempre actualizado. (...)


António Sampaio[, ex-Alf Mil na CCAÇ 15 e Cap Mil na CCAÇ 4942/72, Barro, 1973/74]

(...) Apesar de ainda ser "meio maçarico" aqui vai a minha resposta: "Sempre que abro o correio" (ou seja, quase diariamente).


Quando puder enviarei outra folha da minha passagem por aquelas terras. (...)


J. Eduardo Alves [, ex-Sold Condutor Auto da CART 6250, Mampatá , 1972/74]


Para responder à questão...  Eu visito o blogue de manhã e ao fim do dia (...)

Guilherme Sousa:

Um transmontano em França, Sens (...). Eu, desde que descobri este blogue, quase todos os dias dou uma vista de olhos. Infelizmente encontro poucos camaradas que passaram comigo quase dois anos na Guiné, ou seja, em Mansambo.  Fui condutor da CART 2714. Vivo em França desde que vim da Guiné, ou seja, desde 1972... Um abraço amigo e que o blogue continue (...)

Hilário Peixeiro [ ex-Cap Mil, CCAÇ 2403/BCAÇ 2851, Nova Lamego, Piche, Fá Mandinga, Olossato e Mansabá, 1968/70]:

Os primeiros e-mails que abro são os do Luis Graça mas há já uns dias que não visito o nosso blogue.  (...)

Jaime Machado

Todos os dias visito o nosso blogue (...)

Zé Carioca

As minhas visitas ao blogue passaram a ser esporádicas pela indigação com que fiquei sobre a aldrabice que ali foi escrita sobre o tema [Guileje] (...)



António Pimentel:

Parabéns pelo vosso  trabalho! Não desistam, apesar das dificuldades (...)

Valentim Oliveira:

Estou em falta e tenho sido um verdadeiro desmazelado de não fazer um pouco de escrita com algumas histórias das nossas passagens pelas terras da Guiné. Tudo isto se explica  devido à minha ocupação profissional.

Resumindo: O blogue para mim é sagrado, e todos os dias faço uma visita a este maravilhoso componente. (...)

J. Casimiro Carvalho:

Tive o meu momento Zen, quando fui um dos pioneiros a falar da guerra, não tive, não tenho e não terei intenção de ser, nem de perto nem de longe, centro de atenções, tenho uma forma muito naif de contar estórias, fui muito colaborador, e visitante assíduo, embora hoje vá "espreitar" para ver se encontro novos camarigos, novas estórias da nossa estadia no então ultramar, e desligo, pois acho que o blog está subvertido, [transformado]em montra de eruditos e escritores, ou mostra de livros e outros assuntos, não relacionados com a [essência] do blog (...).
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Nota do editor:

(*) Vd. poste de 3 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8851: O blogue em números (10): Três milhões de visitas em Novembro de 2011... Período de reflexão e de reorganização

Guiné 63/74 - P8866: Parabéns a você (322): Jorge Rosales, ex-Alf Mil da 1.ª CCAÇ (Porto Gole, 1964/66)

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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 4 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8853: Parabéns a você (321): Artur Conceição, ex-Soldado TRMS da CART 630 (Guiné, 1965/67) e Inácio Silva, ex-1.º Cabo da CART 2732 (Guiné, 1970/72)

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Guiné 63/74 - P8865: Agenda Cultural (161): Apresentação do livro "À Defesa de Vila Real", de autoria do Coronel António José Pereira da Costa, a ter lugar no dia 13 de Outubro de 2011, pelas 18 horas, na Biblioteca Municipal Vicente Campinas - Vila Real de Santo António


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Notas de CV:

- António José Pereira da Costa é Coronel de Art.ª na reserva, na efectividade de serviço, ex-Alferes de Art.ª na CART 1692/BART 1914, Cacine, 1968/69, ex-Capitão de Art.ª e CMDT da CART 3494/BART 3873, Mansabá, Xime e Mansambo, 1972/74 e membro activo da nossa Tabanca Grande.

Vd. último poste da série de 5 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8858: Agenda Cultural (160): Ciclo de Conferências-debate Os Açores e a Guerra do Ultramar - 1961-1974: história e memória(s) (Carlos Cordeiro) (7): Rescaldo do dia 30 de Setembro de 2011

Guiné 63/74 - P8864: VII Encontro da Tabanca Grande - 2012 (2): Inquérito para escolha da data e recolha de opiniões (2) (A Organização)

1. Decorre até ao próximo dia 15 de Outubro um inquérito para escolha da data do nosso próximo Encontro e outras opiniões que hajam por bem emitir. Como nas diversas eleições e referendos havidos, os portugueses são pouco participativos, não estranhamos que aqui também se note um número de respostas de longe inferior ao dos participantes nos Encontros da Tabanca Grande.

De realçar entre as 38 respostas recebidas, os camaradas que se propõem a organizar futuros Convívios (Carlos Pinheiro, Valentim Oliveira e Manuel Traquina) e algumas críticas, das quais apenas duas negativas (João Lourenço e Luís Rainha).

Quanto à data do Encontro, neste momento temos 21 de Abril de 2012 como a mais provável, já que é a mais votada (30,3%) entre as propostas. Para 45,5% dos votantes qualquer das datas é válida.

Achamos que o próximo Encontro se deva realizar ainda em Monte Real, e que lá, com calma, ouçamos as propostas dos camaradas que se propõem a organizar os próximos, quanto ao local, acesso, restaurante, hipótese de pernoita, ocupação de espaço até ao fim da tarde, ementa e preço (aproximados) de almoço com lanche incluído, etc.

Pode-se submeter a escolha definitiva dos presentes, agindo assim democrática e transparentemente. Se mais camaradas quiserem levar e apresentar propostas, estamos receptivos, como é óbvio.

Entretanto pedimos às pessoas que colaborem com as suas opiniões que não são vinculativas, até ao dia 15 de Outubro.




2. Comentário de Luís Graça, chegado à caixa de correio já este poste estava para sair:

Por mim, Monte Real, de pedra e cal. Mudar, porquê? Não vejo melhores argumentos. É equidistante, entre o norte e o sul, tem acessos de cinco estrelas. O hotel e restaurante são de quatro estrelas. A relação preço/qualidade imbatível. E a comissão organizadora (onde se inclui o Joaquim) tem, para mim, direito a "todas as estrelas do céu"...

Podemos fazer melhor? Mas, com certeza... O convívio prima sobre tudo, mas também podemos repetir a experiência do ano passado: uma pequena exposição fotográfica, uma sessão de autógrafos, um sessão de "slides" da última viagem à Guiné, um momento musical apropriado, dentro das limitações logísticas que o hotel nos impõe...

É preciso ocupar e mobilizar os nossos camaradas e amigos... A malta tem ideias... O encontro é (mas não só) convívio *a volta da mesa... Mas pode haver mais iniciativas para o fim de semana...

Opto pelo 21 de Abril... A 23, simbolicamente, faz o nosso blogue 8 aninhos de vida, e nessa altura pode já ter atingido os 3,5 milhões de visitas... Parabéns a todos vocês que estão no "back office" desta iniciativa, mantendo a chama viva... O meu aplauso, a minha solidariedade, a minha camarigagem... 
Luis Graça

Pela Organização
Carlos Vinhal
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Nota de CV:

(*) Vd. poste de 21 de Setembro de 2011 > Guiné 63/74 - P8800: VII Encontro da Tabanca Grande - 2012 (1): Inquérito para escolha da data e recolha de opiniões (A Organização)

Guiné 63/74 - P8863: Memórias do Chico, menino e moço (Cherno Baldé) (27): De Bissau a Kiev ou o percurso de um ex-rafeiro (Parte III) (Cherno Baldé)


URSS > Ucrânia > Kiev > 1987 > O Cherno Baldé, à esquerda, com mais dois colegas da Guiné Equatorial

Foto: © Cherno Baldé (2011). Todos os direitos reservados.


 Continuação do relato do Cherno Baldé [, hoje quadro superior da administração pública da Guiné-Bissau,] sobre as aventuras e desventuras do Chiquinho, enquanto estudante,  no país dos sovietes (1986-1989).


(3) A primeira viagem de comboio


A viagem para Kichinev  [, capital da Moldávia,] foi de comboio. Depois da viagem do avião, esta era uma nova descoberta não menos interessante. BLAGAT...BLAGAT...BLAGAT. Este som, provocado pelos veios de um velho e lento comboio, tinha ocupado os seus ouvidos durante toda a noite, povoando o seu sono inquieto.

Viajavam dez a doze pessoas por vagão, divididos em compartimentos, com camas individuais, o que, visto com a lupa de hoje, constituía de facto um grande luxo se comparado com as condições dos outros comboios, que viria a conhecer nas terras mais a oeste, fora do território da URSS.

Tudo decorreu conforme estava previsto. Receção na estação, distribuição de residências, roupas de frio, visita médica, salas de aulas; era simplesmente impressionante a capacidade de organização das estruturas que os recebiam. Tudo estava planeado ao mínimo detalhe, uma máquina a perfeição como só o espírito europeu sabe criar. Quando chegavam num sítio já estava alguém à espera para recebê-los e conduzi-los, a seguir, para o local indicado. Se o comunismo era assim, então, de certeza que podiam contar com ele, dizia para com os seus botões. Viva o Lenine!... Viva a revolução comunista!...

Bem, depois passou por uma pequena afronta durante a inspeção médica que teria diminuído um pouco o seu entusiasmo. Que fosse obrigado a entregar as suas fezes e urina já era um grande sacrifício e quase que um atentado à sua dignidade de homem africano, agora pediam que tirasse toda a roupa que cobria a sua nudez, assim como veio ao mundo, diante de uma mulher.

Ele ficou aterrorizado, outros gracejavam. É bom que conste, também, que só um espírito europeu, talvez comunista, era capaz de exigir uma coisa semelhante a um indígena africano que tinha passado toda a sua vida sob uma dupla educação conservadora, tradicional e muçulmana. Mostrar tudo!?... Subahaanallai!

As enfermeiras que procediam ao exame não queriam saber de tabus, ele tinha que mostrar-lhes tudo. O Chiquinho recusou e, por isso, foi acantonado ao lado, dando lugar aos outros menos envergonhados. Quando finalmente cedeu, pegaram no seu sexo,  ou do que dele restava, virando e revirando-o em todos os sentidos como que para mostrar a insignificância do seu falso sentido de pudor.

Apanhado de surpresa, o desgraçado do sexo, centro nevrálgico de pudor, de timidez mas também de orgulho e da força masculina, ficou tão retraído e minúsculo ao ponto de ser ridículo. Para o Chiquinho tinha sido uma experiência decepcionante e, para aquelas curiosas senhoras de bata branca também, mas por motivos diferentes.

Uma das enfermeiras, pegando numa ferramenta que parecia um martelo, bateu ao de leve nos seus joelhos. De seguida, pegou no seu braço esquerdo, depois o direito à procura de uma veia saliente donde poderia retirar sangue para as análises. Deu trabalho encontrar a veia e no fim, dirigindo-se ao tradutor, aconselharam o Chiquinho a pegar numa enxada e ir trabalhar a terra todos os dias a fim de desenvolver os seus músculos de bebé. Com tais características, certamente que não se enquadrava na classe dos trabalhadores, um conceito caro aos comunistas.

As aulas começaram de imediato. Uma primeira fase de aprendizagem da língua onde, diga-se de passagem, se utilizava um método tão eficiente quanto brutal, em salas especiais de audição linguofónicas durante horas intermináveis. Após quatro meses de aulas intensivas da língua russa, quando o Chiquinho se sentava para escrever uma carta em português já não encontrava as palavras certas nos espaços onde estavam antes.

Ele percebeu então que o método de ensino utilizado provocava este fenómeno de erosão cerebral. Percebeu também que, apesar das graves insuficiências de instrução escolar no seu país, faziam figura de avantajados diante de outros estudantes vindos de países ditos amigos da URSS, confrontados com profundas mudanças políticas, sociais e/ou de orientação ideológica como o Congo, de Marien N’gouabi, a Etiópia,  de M. Hailé Marian, a Nicarágua, Laos, Camboja, entre outros. Alguns, como era o caso do meu amigo Peruano, Aníbal, não teria feito nem o ensino primário e tinha que lidar com o teorema de Pitágoras ou dissecar o capitalismo com as pinças de “O Capital” , de Karl Marx.

Passados alguns meses, o Chiquinho começou a sofrer de um estranho mal-estar físico, com sintomas de uma espécie de nostalgia aguda acompanhada de uma sensação de vazio profundo provocado, provavelmente, pela desoladora visão da natureza morta à sua volta, pela omnipresença do frio e pela escassez da luz solar.

Um dia, recusou-se a ir às aulas, pronto. Só queria que o deixassem dormir aconchegado no calor do quarto e dos cobertores. Impossível. A sua professora de língua russa, a meiga e simpática Victoria Aleksandrovna, veio falar com ele para dissuadi-lo. Juntamente com a professora, tinha vindo também a Vika, uma jovem moldava, sua afilhada, que ela o tinha apresentado. Parecia ter encontrado o remédio certo. A Professora, ao menos, compreendia o mal que o clima provocava nos africanos e estava habituada a resolver estas situações de crise emocional à sua maneira. As suas palavras calmas e serenas mobilizaram o Chiquinho ao ponto de fazê-lo desistir da greve.

Não obstante, a primeira vítima desta sua estranha doençaa seria ela, Victoria Aleksandrovna. Num dia normal de aulas de língua russa, após três dias sucessivos a falarem do mesmo assunto, o Chiquinho não tinha conseguido conter a sua irritação e tinha afirmado, em voz alta, que já estava farto das aulas que só falavam de Lenine. Lenine na Suíça!... Lenine em Petrogrado!...Lenine em Moscovo!... Poça,  vida!

Para a grande surpresa de todos, que esperavam ouvir uma repreensão muito dura da parte da professora, ela simplesmente desatou a chorar,  feita uma criancinha, revelando as linhas da idade que começavam a aparecer na sua linda cara de velha solteirona.
- Teria ele mexido no tabu do espírito sagrado da União Soviética e Empiriocriticista?...

O Chiquinho não sabia e, na verdade, nem queria saber. Não era aquela a manifestação do espírito comunista que esperava encontrar, depois de toda a propaganda sobre o comunismo científico e a dialética marxista que tinha lido durante anos. Era simplesmente incrível como um espírito tão crítico, tão pragmático e oportunista como Lenine teria podido parir (produzir) uma mentalidade tão seguidista e apática, um charco de água parada. Para ele já era o bastante para perder a razão.

Depois das aulas mandaram-no chamar no gabinete do Reitor para interrogatório. O que no lhe surpreendeu, pois já estava prevenido pelos mais velhos de que uma provocação destas podia valer a expulsão.
- Com que então, estava farto de Lenine!?...

Quiseram saber, entre outras coisas, a profissão dos seus pais. Ele disse-lhes a verdade, que a sua mãe era camponesa e seu pai comerciante. De filho de comerciante, certamente, terão deduzido que era da pequena burguesia, logo reacionário, anticomunista. 

“Autant mieux” [, tanto melhor, em francês], pensava ele. Se o mandassem de volta, até agradecia, maldito clima. Desde que o inverno começara, ele não conseguia andar direito, os pés gelavam, escorregava e caía com muita frequência, não raras vezes tivera que andar de gatas para descer ou subir nas encostas, embrulhado num enorme paletó e botas de tropa que mal conseguia arrastar com os seus pequenos pés de criança. Deslizar em cima da neve era um exercício delicado para um homem dos trópicos. Nunca poderia imaginar que pudesse sentir tanta saudade dos raios do sol e do chão firme e vermelho da sua terra natal.

O reitor foi brando com o Chiquinho, quase simpático. Provavelmente, os ventos da mudança (**) já estavam a soprar. Não o mandaram embora e, ao invés, redobraram a atenção para com ele, convidando-o para excursões e visitas culturais. Foi durante esse período que o levaram ao teatro da cidade para assistir ao ballet de Lebedinoye Ozero (O lago dos cisnes),  de Tchaikovsky.

Extraordinário!... Sem o saberem, tinha sido a melhor prenda que lhe poderiam oferecer. Tratava-se de uma interpretação poética e musical de envergadura universal, executada num cenário de sonho, animada com uma cativante variação de estilos e ritmos. A dança dos cisnes, a dança polaca, húngara, russa, espanhola. Tempo de valsa, allegro, allegro moderatto, allegro vivo. 

Ao contrário da maioria dos seus colegas, tinha passado a melhor noite desde a sua chegada à União Soviética. Aconteceu naturalmente. Tchaikovsky constituiria assim o primeiro passo e a porta de entrada para a poesia e a música clássica russa e europeia.

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RASSIA

Eu fui a Rassia
Para ler poesia,
Cheguei no Outono,
O maldito nevoeiro
Que mudou o sentimento;
Acordei no inverno
Quando a terra,
A Ukraina inteira,
Não era beleza para sedução,

O mar de lágrimas, eu vi,
Deste povo que nunca chorou,
As vítimas isoladas
Porque justamente vitimadas,
O regresso doloroso, eu vi,
Desta gente que nunca partiu.

Eu fui a Rassia
Para ler poesia
Adorei ECENIN e TSVETAEVA
PUSHKINE e AKMATOVA
Em toda a m+istica e gratidão,
Em toda a dor e solidão,

Eu fui a Rassia
Onde a beleza de forma radiante
Acompanha a rudeza de gente arrogante
Ha...! POLTAVA!...
Ha...! SMOLENSK!...
Ha...! TCHORNOBYL
E as vossas lavras?
E as vossas lágrimas?
E KANIEV TCHERKASSY?
E TARAS SEVTCHENKO?

“Dumi moi...”
“Dumi moi...”

(Viagem pelo Dnepr/Kiev-Kaniev, Abril de 1989)

Notas de C.B.: 

Rassia=Rússia; Ukraina=Ucrània; 
Ecenin+Tsvetaeva+Pushkine+Akmatova=Poetas Russos do virar do sec.XIX/XX; Poltava+Smolensk+Tchornobyl=Regiões e localidades Russas e Ucranianas, teatros de batalhas sangrentas e de tragedias humanas; 
Tcherkassy+Kaniev=Região e localidade histórica e cultural ucraniana ligada ao maior poeta ucraniano de todos os tempos, Taras Sevtchenko [1813-1861]
“Dumi moi...”= Pensamentos meus...= expressao poética de Sevtchenko num poema da sua coletânea Kobazar, o Bardo.
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Estava de novo apaixonado, o Chiquinho, desta vez, por uma mulher do Iémen do Norte (ou era do Sul?), sem hipótese de aproximação. Ela era casada e vivia com o marido num quarto isolado. Tinha tanta inveja do homem que queria matá-lo. Foi, talvez, a mulher mais bonita que os seus olhos alguma vez tinham visto. 

Mas, ou era o sentido universalmente humano que o guiava ou era a tolice de um coração desorientado, pois no meio de tanta diversidade étnica e cultural, tinha que apaixonar-se logo por uma mulher árabe, com a carga de desprezo secular que estes beduínos do deserto nutrem pelos negros. 
 - Acorda,  preto!.. - Apetecia dizê-lo. Era mais um daqueles amores platónicos, impossíveis, destinados a colmatar o vazio do seu coração. O frio agudizava o seu sentimento de solidão. Começou, assim, a criar o hábito de deambular sozinho pelos parques da cidade na secreta esperançaa de encontrar, numa viragem qualquer, a sua europeia de cabeleira reluzente, a promessa de um destino que o empurrava para o desconhecido. 

No entanto, ainda tinha muitas questões sem resposta. Por exemplo, por onde a pegaria?...Pela mão, no braço ou por cima dos seus ombros?... Seria capaz de adivinhar seus sentimentos encarando os seus olhos azul-marinhos ?.. O que lhe diria, e como lhe diria?...Contar a verdade ou mentir descaradamente sobre a sua vida como faziam alguns colegas para melhor seduzir?... Na sua terra natal ouvira dizer que a mulher conquista-se com a mentira e mantem-se com a verdade. E para os europeus, seria o mesmo?... Tinha muitas duvidas e uma certeza, a certeza de que a amaria muito, dentro do seu coração.

Com a chegada da primavera, o Chiquinho começou também a recuperar a boa disposição mental e fez mesmo parte de um grupo de estudantes que, vestidos de trajes multicolores, ensaiavam a dança tradicional moldava para apresentar em palco, para mostrar a integração cultural dos africanos. Não resultou tão bem assim, tecnicamente falando, mas permitiu apertar e acariciar as partes arredondadas das colegiais ainda adolescentes, recuperando assim um pouco da sua jovialidade e amor próprio. 

A sua amiga, a Vika, parecia gostar dele, mas nunca dizia nada, limitava-se a olhar para ele e a sorrir. Também ele sorria, dividido entre o desejo de seduzi-la e o medo de enganá-la. Pode-se mentir a quem se ama?... O Chiquinho ainda vivia no mundo em que um homem era incapaz de transformar o mundo com o enredo das palavras dúbias, enviesadas, entorpecentes como a morfina.

Em finais de Junho de 1986, terminaram os exames e muitos estudantes foram a Moscovo tratar de vistos nas embaixadas para viajar aos países do ocidente. Ele recebeu o convite de um irmão que era estudante em Lisboa, mas ainda não queria afastar-se muito do universo que queria integrar e também da posibilidade de aproximar-se da Vika. Todavia, a menina com os seus cabelos cor de trigo, não correspondia muito à imagem da europeia dos seus sonhos. 

Adiou a visita para o ano seguinte. Entretanto a expetativa da viagem aos paises do ocidente fazia furror entre os estudantes estrangeiros, particularmente nos congoleses que sonhavam com as luzes de Paris e não escondiam o seu entusiasmo. Lisboa era o destino preferido dos guineenses e angolanos.

O Chiquinho, aspirante comunista e de altos valores, não compreendia porque razão os estudantes eram tão atraídos pelo ocidente, atitudes que ele considerava como subproduto da mentalidade neocolonial e servil. Para ele, era mais importante a apropriação da doutrina marxista-leninista, em especial o pilar da economia política que encerrava as premissas para a verdadeira libertação dos povos do terceiro mundo. 

Mais surpreendido ficou ainda quando viu a avidez com que os próprios soviéticos consumiam os mais insignificantes produtos trazidos do ocidente pelos estudantes em contrabando, bugigangas de um regime em decadência. Afinal, as férias dos estudantes escondiam outras realidades que, não sendo  políticas nem filosóficas, contribuíam para minar os alicerces de base sovietica e comunista.

(Continua)

[ Revisão / fixação de texto: L.G.]

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Notas do editor:

(*) Vd. postes anteriores:

 4 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8856: Memórias do Chico, menino e moço (25): De Bissau a Kiev ou o percurso de um ex-rafeiro (Parte I) (Cherno Baldé)

5 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8861: Memórias do Chico, menino e moço (26): De Bissau a Kiev ou o percurso de um ex-rafeiro (Parte II) (Cherno Baldé)

 (**) 'Ventos de mudança' que se traduziam nas célebres expressões russas  Glasnost (гла́сность, transparência) e  Perestroika (Перестройка, reconstrução, reestruturação) introduzidas no vocabulário político dos russos, em 1985, pelo governo de Mikhail Gorbachev, num processo de reforma que conduziria em 1989 ao fim da guerra fria e ao desmantelamento da URSS.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Guiné 63/74 – P8862: Memórias de Gabú (José Saúde) (8): Guiné em tempo de paz: Visita a Madina Mandinga


1.   O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabú) - 1973/74, enviou-nos mais uma mensagem para esta sua série, que, segundo ele me segredou, será parte de futuro um livro com o mesmo título. Também nos enviou mais 3 fotos do seu álbum de memórias, onde facilmente se deduz a sua amizade e empatia com os putos de Madina.

GUINÉ EM TEMPO DE PAZ: VISITA A MADINA

PASSEIO SEGURO À BEIRA DO ONDULADO CAPIM

Foi um dia memorável! Uma visita amigável à 2ª Companhia do BART 6523 sediada em Madina Mandinga, apresentou-se como uma viagem antes impensável. As estratégias no terreno estavam definidas. O PAIGC e a nossa tropa haviam estabelecido princípios de entendimento e o medo da picada, e a sua imprevisibilidade, antes constatado, oferecia agora uma segurança absoluta.

Foi a um domingo e já em tempo de Paz que um grupo da CCS, em Nova Lamego (Gabú) e a Companhia destacada em Madina, combinaram um jogo de futebol. Dois unimogues com malta que se entregava entretanto a brincadeiras pontuais, e eis-nos perante o grupo disposto a desbravar conteúdos de uma picada onde a ondulação do capim se misturava com árvores de grande porte nascidas na exuberância da densidade do mato.

O resultado final não interessou, tão-pouco ficou registado nas minhas memórias. Não interessa! O único objectivo foi o amplo convívio constatado. O festim decorreu de forma cordial, trocaram-se impressões, comentou-se o último ataque a Madina, apontou-se para o sítio das valas que serviram de protecção aos ilustres soldados e recordou-se os locais onde os foguetões haviam caído. Pelo meio de dois dedos de conversa umas fotos para mais tarde recordar.

Dessa viagem, com o pessoal completamente dispensado das G3, bazuca, ou do morteiro 60, ficaram momentos inolvidáveis passados entre camaradas de armas que contemplavam então a Paz agora sentida em toda a largura do terreno. Recordo, que a dita viagem entre as duas populações distavam cerca de 20 kms. Todavia, os quilómetros de picada assumiam-se como um osso duro de roer. Lembro que o percurso dividia-se entre o asfalto (alcatrão) e terra batida.

Revivendo esse já longínquo convívio em terras da Guiné, recordo agora a forma desinteressada como fomos recebidos pelos ilustres anfitriões. Uma recepção extraordinária, uns chutos numa bola já defeituosa, um almoço bem regado, uma cavaqueira que se arrastou ao longo da tarde, uma mesa cheia de bebidas e, finalmente, as despedidas aos companheiros de Madina que determinou, como foi evidente, o nosso regresso a Gabú.

O Cap José Luís, sempre simpático, congratulou-se com a visita, mas foi com o 1º Sargento Brito que dissequei os momentos mais ávidos sentidos pela Companhia ao longo da comissão em Madina. A “talho de foice”, e com toda a justiça o digo, que o 1º Sargento Brito era, e é certamente, um homem de se lhe tirar o chapéu. Gostei dele!

Soube, recentemente, através do ex Alferes Miliciano António Barbosa, um camarada de armas que integrava o nosso BART 6523 e que pertencia à 3ª Companhia sediada em Cabuca, que o então 1º Sargento Brito está, actualmente, aposentada como Major. Confesso que me congratulo por saber tão feliz notícia. Um abraço, e bem grande, meu Major. A vida, por norma, sorri-nos quando dentro de nós existem factores humanos que suplantam o nosso querer, a nossa vontade e o nosso ego.

Na “minha guerra” – Operações Especiais/Ranger, Lamego – evocava-se, com vaidade absoluta e estilo próprio, um grito (com a devida vénia e respeito) que arrepiava o mais incrédulo efebo da então apelidada tropa “macaca”: “Vossa Excelência, meu Major, dá-me licença que evoque o seu bom nome para o colocar no meu Quadro de Honra?”. Creio, com certeza, que a resposta do meu Major será: SIM!

FOTOS


Um brinde com whisky entre o então 1º Sargento Brito, hoje Major, e claro, eu, José Saúde. As tabancas, ao fundo, retratam realidades num espaço distante onde as fortes e medonhas trovoadas se cruzavam com um cacimbo atroz e um arco ires que se sobrepunha a um horizonte belo mas sempre carregado de incertezas. O calor sufocante hostilizava, também, as nossas vidas.

Três meninas, hoje senhoras, de Madina


Com um “mascote” apadrinhado nessa célebre visita a Madina. Atrás o Cap José Luís (de costas) e o Alferes Miliciano Santos, da minha Companhia.

Um abraço a todos os camaradas,
José Saúde
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523

Fotos: © José Saúde (2011). Direitos reservados.
Mini-guião de colecção particular: © Carlos Coutinho (2011). Direitos reservados.
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Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

1 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 – P8846: Memórias de Gabú (José Saúde) (7): “Piriquitos” exploram o centro “nevrálgico” da urbe guineense

Guiné 63/74 - P8861: Memórias do Chico, menino e moço (Cherno Baldé) (26): De Bissau a Kiev ou o percurso de um ex-rafeiro (Parte II) (Cherno Baldé)

 
 E 
Kichinev, Moldávia, ex-URSS > Dezembro de 1985 > O Cherno Balde (à esquerda)  e um outro bolseiro. peruano,  de nome Aníbal...

Fotos (e legendas): © Cherno Baldé (2011). Todos os direitos reservados.



Continuação do texto do Cherno sobre as suas memórias de estudante na ex-URSS (*)

2.
2.  Moscovo,  escala de boa esperança

Em 1985, debaixo de uma chuva torrencial do mês de Agosto, [o Chiquinho e outros bolseiros] saíram finalmente para o Aeroporto a fim de apanhar o avião da Aeroflot. 

Na despedida a Irmã Beatriz ofereceu-lhe uma pequena bíblia de cor azul para lembrança da sua amizade e disse-lhe que, dentro em breve, iria ter a oportunidade de conhecer um pais do primeiro mundo. 

Chegaram a Moscovo no dia seguinte, com escalas em Nouakchot (Mauritânia), Casablanca (Marrocos) e Budapeste (Hungria). Do Aeroporto levaram-nos para uma residência de estudantes onde já se encontravam centenas de outros bolseiros vindos dos quatro cantos do mundo. 

Havia mais de 24 horas que não dormia, mas mesmo assim não conseguia pregar olho. A alegria e a curiosidade da descoberta de um novo mundo constituíam um lenitivo que suplantava tudo o resto. Sob o efeito contagiante da alegria, tinha saído para o corredor, passado ao jardim, depois à rua. Queria contemplar, queria absorver tudo, queria abraçar Moscovo e seus habitantes metidos nos seus trajes sombrios num dia enublado com brisa suave de fim de verão. 

Foi assim que ele se deixou levar num passeio pela cidade, indo de autocarro até uma estação do Metro de Moscovo donde penetraram por meio de escadas rolantes compridas descendo, descendo, para dentro das entranhas da terra, gritando uns aos outros, sob o olhar atónito de alguns utentes que se içavam para cima no sentido inverso. 

Não foi difícil perceber que os silenciosos moscovitas faziam o possível para evitar o contacto com o grupo dos jovens africanos, inebriados com a sua bem expressiva e barulhenta maneira de falar, gesticulando ora à direita ora à esquerda. E, provavelmente, teriam um cheiro diferente, peculiar, no meio dos brancos em seu habitat natural. 

Eram recordações antigas que afluíam à mente misturando-se na indiferente algazarra a entrada e a saída do Metro que, de resto, era de fácil orientação, pois circulava em forma de anel à volta do centro da cidade e depois se expandia como uma teia de aranha cobrindo as diferentes zonas da grande megalópole: Paveletskaya, Aktyabrskaya, Krasnapresyenskaya, Kamsamolskaya... O Metro de Moscovo não tinha limites de espaço nem de tempo. Acabámos por voltar à nossa residência, já era noite. 

Sílvia, a boliviana, a primeira paixão

O grupo do Chiquinho ficou dois dias em Moscovo, o tempo suficiente para preparar a sua afetação. O único acontecimento relevante nesses dias da sua primeira passagem por Moscovo foi uma breve aproximação com uma boliviana,  de nome Sílvia. Bastaram alguns segundos para tocar o seu coração. Baixinha, cabeleira farta e reluzente, sorriso aberto, parecia uma rapariga lusa da geração mais antiga, daquela que não escondia a cor dos seus cabelos de origem árabe. 

Apaixonou-se pelos seus olhos grandemente abertos debaixo de umas sobrancelhas pretas a condizer. No seu rosto largo vislumbravam-se feições mestiças, amazónicas. Aproximou-se dela, falou em português, ela sorria, mas parecia não perceber. Não sabia nada da Guiné-Bissau, e provavelmente, não sabia mesmo nada de África. Alguém a chamou, ela foi e não voltou. O voo de um pirilampo na escuridão da noite. Nunca mais voltaria a encontrá-la. Sílvia...  

Apaixonar-se por imagens fugidias, amores impossíveis, era um defeito natural que o Chiquinho trazia da sua infância e adolescência, feitas de miséria e de mil privações. Introvertido e tímido, nunca tivera muito sucesso com as meninas, limitando-se a consumir com frugalidade o que via ou ouvia dos colegas. 

A brusca ausência da Sílvia fez reavivar os velhos fantasmas do antigamente que, como um balde de água fria, fizeram descer a pressão interna que embriagava os seus sentidos, fazendo sentir o cansaço e fome. 

Mais tarde saberia que a bonita Sílvia assim como a maioria daquela geração de estudantes latino-americana, amiga da farra e da boa comida,  detestava, no entanto, o ofício de cozinhar. Nessa altura agradeceria a Deus e à sua estrela de sorte, pois era de admitir a possibilidade de ser cozinheiro por um dia sim, mas toda a vida, não. 

 Colocado em Kichinev, Moldávia, para frequência da fase preparatória

Do seu grupo de mais de quarenta jovens, Moscovo só aceitou receber dois, os restantes foram repartidos por diferentes cidades da imensa URSS. Pelas informações dos antigos estudantes, sabiam que as Repúblicas da Ásia Central e do Cáucaso eram de evitar a todo o custo, devido à intolerância racial para com os pretos, numa região fortemente influenciada pela civilização Árabe e Turco-Otomana.  

Ao Chiquinho, calhou a cidade de Kichinev, capital da Moldávia, uma pequena porção de terra situada entre a Ucrânia e a Roménia, integrando um grupo de mais de cinquenta jovens de diferentes origens, para a frequência da fase preparatória. 

Mais uma vez, o Chiquinho estava com a sua estrela de sorte, pois não iria viver no meio dos bárbaros do Cáucaso nem ficaria na Universidade Patrice Lumumba onde a maioria dos estudantes era africana. Nem que fosse por algum tempo, ele queria ficar longe de África e dos africanos. 


(ix) Namorar, sim, mas não casar com uma...tubab

Na verdade, o Chiquinho alimentava um sonho secreto e antigo, nascido não sabia donde, de namorar uma europeia. Sim, só namorar. A sua imaginação, sendo muito ousada a este respeito não se atrevia, todavia, a pensar no casamento. “Casar com uma tubab!?... Hééé Tchernô!!!...” Era o eco da voz discordante da sua avó que lhe perseguia.[ Avó materna, Mariana Baldé, Fajonquito, Sancorlã, 1900-1993; foto à esquerda].

Ela conseguia adivinhar todas as suas intenções e, armada de verdades e razões ocultas da velha sabedoria fula e africana, denunciava os aspectos mais desviantes da sua educação infecta. “A mulher tubab é uma senhora e uma senhora não é uma mulher”, dizia ela. O Chiquinho não comprendia esta relação ilógica do tipo: α=β, β≠α. Talvez não casasse. 

Na verdade, também não conhecia nenhum antecedente de um fim feliz nas relações preto/branco e vice-versa. As histórias eram muitas e antigas num caminho ainda estreito, semeado de armadilhas reais ou imaginárias. 

Ainda assim, ele queria uma europeia. A vida não é um cenário de jogo onde se ganha e se perde!?... Pensava, teimosamente.

(Continua)

[ Revisão / fixação de texto: L.G.]

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Nota do editor:

 (*) Vd. poste anterior da série 4 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8856: Memórias do Chico, menino e moço (25): De Bissau a Kiev ou o percurso de um ex-rafeiro (Parte I) (Cherno Baldé)