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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Guiné 61/74 . P28352: Nomadizações de um marginbal-secante (Luís Graça) (19): a "Venda" na literatrura portuguesa dos séc- XIX e XX - Parte I: De Camilo Castelo Branco a Aquilino Ribeiro








Prompt original e orientação editorial: Luís Graça.
Texto: António Carvalho (2026) | Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. A leitura do excerto antológico do António Carvalho sobre a "venda de Medas" (ou "Emendadas"), em 1944 (*), sugere-me algumas notas, esperando com elas motivar os nossos leitores a comprar e a ler o livro, que nos conta uma história fascinante, a qual pode ser lida como um "thriller", mesmo não o sendo.... E nomeadamenmte as últimas 70 páginas.  (António Carvalho - "3x44: Abel e Caim em Contrapé. Porto: Vida Económica, 2026, 287 pp.)

A venda, misto de  merceria,  taberna e até estalagem (tanto na aldeia como à beira de estrada)  funciona na literatura portuguesa dos séculos XIX e XX como um verdadeiro microuniverso sociológico. 

É o espaço de transição onde o aldeão ou viajante ganha folgo, se cruzam notícias do reino (em depois, república a partir de 1910), se acertam contas, se bebe o vinho verde ou maduro, e onde também se namora ou se cruzam olhares cúmplices e bilhetinhos de amor, e se geram contendas e bisbilhotices locais, enfim, também o sítio onde se recebe o correio e até jornais.

Antes de dar o lugar a alguns dos nossos clássicos da literatura portuguesa, recordemos aqui a prata da casa: 

  • o Joaquim Costa também aqui já publicou um texto delicioso sobre a venda da sua aldeia minhota (**);
  • e o nosso saudoso António Eduardo Ferreira (1950-2023) escreveu sobre a taberna da sua aldeia de Moleanos nos anos 50 (na verdade, um "venda", já ali se vendia também quase tudo o que as pessoas necessitavam para o dia a dia, desde o acúcat e o café,  "para fazer na cafeteira",  ao petróleo e ao bacalhau (***).

2. Vamos então, de relance, (re)descobrir o que os nossos escritores, desde o séc. XIX, têm dito sobre a "Venda", um lugar que faz parte do nosso imaginário e das nossas vivências de meninos e moços (não podíamos frequentá-la, era reservada aos "homens feitos", mas íamos lá fazer "recados"). 

Não queremos nem podemos ser exaustivos, é apenas uma amostra que nem sequer tem a veleidade de ser antológica. (****)

Recorde-se que, embora o comércio se começasse já a especializar quando nascemos, em muitas aldeias e vilas do Portugal profundo, a venda, misto de mercearia, tasca e até pensão ou estalagem, ainda chegou até aos nossos dias, pelo menos até ao 25 de Abril de 1974, nomeadamente no Norte e Centro do País.


Camilo Castelo Branco
(Lisboa, 1825 - São Miguel de Seide, Famalicão, 1890)

Camilo Castelo Branco:  a "Venda" romântica e passional

Em Camilo, a venda é muitas vezes palco de encontros clandestinos, pousada de caminheiros e cenário de confrontos impulsivos entre fidalgos de província e camponeses. Aparece sobretudo como espaço rural, de memórias e costumes tradicionais. Ponto de encontro. Local central para o convívio e o comércio local. Espaço de intriga e retrato social.

  • A Brasileira de Prazins (1883):

(...) "Estava na venda do Manuel da Eira um rancho de rapazes a beber e a tocar violas. O vinho tinto de Amarante espumava nos quartilhos de barro vermelhos. À porta, a estalajadeira tirava da frigideira as fatias de presunto que chiarão no azeite a ferver, espalhando pela estrada um cheiro apetitoso que fazia parar as almocreves." (...)

  • Amor de Perdição (1862): 
Nas passagens onde Simão Botelho viaja clandestinamente, as vendas da Beira e do Douro surgem como pontos de abrigo escuro, onde os segredos de família e as conspirações trocam de mãos ao balcão.


Eça de Queiroz (Póvo do Varzim, 1845 - Neuilly-sur-Seine, França, 1900)


Eça de Queiroz:  o  realismo dialético do campo e da cidade

Em Eça, a venda, a taberna e a merceria ganham o detalhe realista. Mas tendem a ser espaços diferenciados, sobretudo a mercearia, que surge como lugar quotidiano mas urbano, não só de compras e vendas mas como de intrigas e rotinas, enfim símbolo da vida burguesa lisboeta.

  • Alves & Cia (1885, 1925)

A mercearia é um elemento recorrente, associado à vida urbana e aos costumes burgueses, onde se misturam o lado pessoal e o lado profissional.
  • O Crime do Padre Amaro (1875):
 Eça também descreve tabernas e lojas como espaços de convívio e crítica social. 

De qualquer, estas três instituições (venda, taberna,  mercearia) servem para ilustrar o contraste entre a rusticidade das gentes do interior e a sofisticação (ou afetação) da capital.

  • A Ilustre Casa de Ramires (1900): 

(...) "Ao fundo da calçada, na Venda do Pintor, sob a parreira fresca, dous almocreves descansavam, com os alforges no chão, bebendo em tigelas de louça branca. Gonçalo deteve a égua para lhes perguntar pelas novas de Oliveira e se vira passar o regedor..." 

Gonçalo Mendes Ramires, ao percorrer as terras de Santa Ireneia e os caminhos de Vila Clara, cruza-se constantemente com estes estabelecimentos rurais,
  • A Cidade e as Serras (1901): 

Na chegada de Jacinto a Tormes, a rusticidade da loja rural e da estalagem da serra sobressai pelo contraste com a opulência parisiense que o protagonista deixara para trás. 


Aquilino Ribeiro
(Sernancelhe, 1885 - Lisboa, 1963)


Aquilino Ribeiro: o vigor telúrico das Terras do Demo

Ninguém retratou a venda com tanta materialidade e riqueza lexical como Aquilino Ribeiro. Na Beira Alta aquiliniana, nas Terras do Demo,  a venda é o coração pulsante da aldeia: misto de comércio de víveres, tribunal popular e centro de intriga política, social  e comunitária. O escritor explora o interior de Portugal, onde a venda é um espaço de transição entre o rural e o urbano.

  • Terras do Demo (1919):

 (...) "A venda do Ti Gregório cheirava a uma mescla azeda de bacalhau seco, sabão macaco, fumo de cera e vinho derramado sobre o balcão de carvalho. Ao canto, junto à arca do sal, os homens da aldeia, de croça aos ombros, discutiam as partilhas dos montes enquanto o quartilho de tinto passava de mão em mão, grosso e escuro como sangue." (...)

  • O Malhadinhas (1922): 

A vida dos almocreves e recoveiros é contada ao ritmo das paragens de venda em venda, onde se come a broa, o queijo da serra e se contam histórias extraordinárias ao serão.

A venda (a taberna, a "baiuca") é um despaço de encontro e conflitos, onde se misturam o tradicional e o moderno. Um local onde se desdobram intrigas familiares e conflitos de classe.

(...) "A venda do Sr. João era o ponto de encontro dos homens da terra: ali se falava de política, de amor, e até de revolução." (...)

(...) Um entrudo, quinta-feira mesmo das comadres, à boca da noite, o Bisagra desafiou-me na venda do Zé Pinto para jogar uma partida de chincalhão. Vossorias sabem: o Bisagra era senhor duma destas galhaduras, mais formosas, compridas e retorcidas como não há memória que andasse armada a testa dum serrano. Mais abundante nem paliteiro com palitos, e assim falada nem a porca de Murça. Tão coitadinho, que seria caridade dizer-lhe ao passar um portal: baixa que marras!

A mulher era fêmea de alto lá com ela, sempre mais frescal que alface, requestada de fidalgo e de padre cura. (..)

(...) – Sou homem conho!... Sou homem!...

Desapareceu e estávamos nós deitando contas à pachouchada, quando se ouviu grande banzé: o Bisagra fora encontrar a mulher com o Padre Antunes de Lousadela e zupava nos dois como em amassadoira de linho. Foi preciso arrancar das mãos o coroado, senão, matava-o. Mesmo assim, ficou com uma sobrancelha deitada abaixo e mais pingou e lastimável que um dos palhaços que, por folgança de carnaval, se tinham esfaldegado no largo naquela quinta-feira das comadres. (...)






Trindade Coelho
(Mogadouro, 1861 - Lisboa, 1908)


Trindade Coelho: a vida aldeã em Os Meus Amores

Nas narrativas rústicas de Trindade Coelho (finais do séc. XIX), a venda é o local da infância e da tradição comunitária. Retrato da vida rural e dos costumes tradicionais.

  • Os Meus Amores: contos e baladas (1891):  

(...) "Na loja da Rosa da Venda arrumavam-se as prateleiras de chita impressa, os lenços de chita vermelha, as garrafas de aguardente e os cartuchos de confeitos. Era um corrupio de raparigas a comprar fitas e de rapazes a pagar a rodada de encharcados." (...)
  • No conto "O Idílio Rústico", a venda surge associada aos dias de mercado e romaria:

(...) "Na loja da Rosa da Venda arrumavam-se as prateleiras de chita impressa, os lenços de chita vermelha, as garrafas de aguardente e os cartuchos de confeitos. Era um corrupio de raparigas a comprar fitas e de rapazes a pagar a rodada de encharcados." (...)

Outros escritores:

Fialho de Almeida: A Cidade do Vício (1881)

A taberna como despaço de degradação moral e crítica à sociedade lisboeta.

Raúl Brandão: Húmus (1917)

A taberna: local de encontros noturnos e reflexões sobre a condição humana.
_______

(Continua)

(Pesquisa: LG + Wikipedia + IA (ChatGPT, Mistral, Gemini)
(Condensação, revisáo //fixação de tecto, negritos, italicos: LG)
____________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 14 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28345: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (40): A Venda de Medas, aliás, de "Emendadas" (segundo o António Carvalho, autor do romance "3 x 44: Abel e Caim em Co
ntrapé", Porto, ed. Vida Económica, 2026, pp. 33/37)

(**) Vd poste de 12 de fevereiro de 2024 > Guiné 61/74 - P25164: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (25): A mercearia e a taberna da aldeia (Joaquim Costa, Vila Nova de Famalicão)

(...) Eram as duas instituições mais importantes da aldeia: uma alimentava a alma e a outra o corpo (A César o que é de César a Deus o que é de Deus!). Razão pela qual o padre e o dono da mercearia eram as pessoas mais respeitadas na terra. Mais do que a do próprio regedor! (...)


(***) Vd. poste de 5 de novembro de 2023 > Guiné 61/74 - P24824: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (18): a taberna em meio rural (António Eduardo Ferreira, 1950-2023, Moleanos, Alcobaça)

(...) Por vezes, apareciam por lá poetas populares com jeito para cantar ao desafio o que era sempre do agrado de todos.

Quando o álcool já era quem mais ordenava, por dá cá aquela palha, algumas vezes, aconteciam cenas de pancadaria, nada que passado alguns dias os contendores, por iniciativa própria ou com a ajuda de alguém, não resolvessem fazendo as pazes. Chegava a acontecer a alguns ficarem mesmo amigos. (...)