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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27972: Efemérides (388): Memórias de Abril (1970/71/72) (José Câmara, ex-Fur Mil Inf)

José Câmara, um dos nossos camaradas da diáspora americana, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 3327 e Pel Caç Nat 56 (Brá, Bachile e Teixeira Pinto, 1971/73)


1. Mensagem de José Câmara com data de 29 de Abril de 2026:


Memórias do mês de Abril

Recentemente, numa passagem que fiz pela página pessoal do meu mano e editor Carlos Vinhal, deparei com o artigo que refere a sua chegada à Guiné e o cantar dos miúdos aos novos periquitos. Para ele, para todos nós, a chegada àquela província ultramarina era o princípio de uma nova e longa jornada de esperança de vida e retorno ao seio familiar. Li e reli.

Mergulhei nas fontes de saudades, de fé, de esperança. As minhas memórias dos meses de Abril de 1970/71/72, lições físicas e mentais, marcaram a minha vida militar e pessoal até aos dias de hoje.

No ano de 1970, acabada a recruta no fim do mês de Março, vi partir os meus companheiros ao encontro dos seus familiares. A Páscoa de Abril era deles. Eu e a maioria dos açorianos estacionados no CISMI, em Tavira, não tivemos esse direito. Mais que a vida militar era esse tipo de tratamento diferente que me magoava.

No ano seguinte, no dia 6 de Abril, ainda estou a ouvir o 1.° Cabo Isolino Picanço gritar “Malas às costas”. Naquele dia a CCaç 3327/BII17, ainda periquita, partia para a Mata dos Madeiros. Pessoalmente, para trás ficava a Guarda ao Palácio, as luvas brancas e os atacadores da mesma cor. O Bachile seria testemunha noturna do maior combate à bofetada que alguma vez tive a oportunidade de viver. Os mosquitos da zona concentraram-se nos alpendres dos edifícios onde pernoitamos.

No dia seguinte fomos acampar no meio do nada na Mata dos Madeiros. No Sábado de Aleluia o 4.° Grupo de Combate, ao qual pertencia a minha Secção, acompanhado pelo 3.° grupo, fez a sua primeira saída de vinte e quatro horas de segurança. O regresso na manhã do dia de Páscoa, sem dúvida o dia da maior festa religiosa dos açorianos, seria marcado com a saída dos 1.° e 2.° Grupos de Combate. Inserido no 2.° Grupo ia o Furriel Miliciano Fernando Silva, que nesse dia casaria por procuração.

O comandante da companhia, Sr. Capitão Rogério Rebocho Alves, um homem de grande coração, mandou regressar aqueles dois grupos ao acampamento. Havia que celebrar o casamento do Fernando Silva. Entre os vivas, as pingas e alguns olhos marejados pelo ambiente, chegou o momento de botar palavra. A mais esperada era a do Fernando Silva. O seu discurso simples e assertivo, “Porra, eu aqui a ração de combate e ela em Lisboa a comer bolo”, foi aplaudido de pé. Mas o Fernando e aqueles dois grupos de combate tinham que continuar a cumprir a sua missão. As formigas, os mosquitos e as aves noturnas acompanhariam o Fernando na noite de núpcias. A lua sorridente seria testemunha privilegiada dos orgasmos daquela noite.
O Fernando Silva bebendo água do cantil no dia do seu casamento por procuração (Domingo de Páscoa, 11 de Abril de 1971) na Mata dos Madeiros. Ao seu lado direito o Fur Mil Operações Especiais Carlos Pereira da Costa, do 1.° GComb. A seguir o FurMil Minas e Armadilhas Joaquim Fermento, do 2.° GComb. Na frente o Fur Mil At Inf João Cruz, do 2.° GComb, que cedeu esta fotografia.

Na Segunda-Feira de Páscoa fomos chocados com o acidente sofrido pelo Soldado Manuel Veríssimo de Oliveira, que viria a falecer no dia 23 daquele mês de Abril. Seria a nossa única baixa mortal. Fui designado para assistir aos familiares. A troca de correspondência com a mãe do Manuel continua gravada no coração. Não cheguei a tempo de lhe dar um abraço, de apaziguar um pouco a sua dor.

Em Abril de 1972, fazendo parte do Pelotão de Caçadores Nativos 56, sediado no Destacamento de São João, em hora de folga fui até ao porto daquela zona que distava duas centenas de metros da porta-de-armas. Adorava ver os raios solares avermelhados do pôr do sol. Porém, naquela tarde do dia 12, seria bafejado com a visão de raios de fumo sobre o canal de Bolama. O IN entendeu fazer festa com o lançamento de “foguetes 122”, nada que eu não estivesse habituado nas minhas terrinhas dos Açores, com a diferença que os nossos eram acompanhados com música. Por sorte um dos foguetões não apanhou uma fragata que estava estacionada em frente a Bolama.

Mês de Abril, lições de vida que o tempo se encarregou de suavizar. Saudades sinto daqueles que ao meu lado viveram fizeram e fazem parte das minhas recordações.

Abraço transatlântico.
José Câmara

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Nota do editor

Último post da série de 25 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27951: Efemérides (387): "O POEMA", alusivo à efeméride de hoje, 52 anos do 25 de Abril de 1974, da autoria do nosso camarada Juvenal Amado, ex-1.º Cabo CAR do BCAÇ 3872

Guiné 61/74 - P27971: Caderno de notas de um mais velho (António Rosinha) (60): Os refratários na "retraite"

1. Mensagem de 27 de Abril de 2026 do nosso mais velho António Rosinha, que foi Fur Mil em Angola, 1961/1962; topógrafo em Angola; emigrante no Brasil, e mais tarde na Guiné-Bissau, onde trabalhou, de 1978 a 1993, na empresa TECNIL:


Foram muitos milhares ao longo do interior beirão e transmontano que despovoaram grandes aldeias a caminho da França, para evitar o recrutamento para a tropa durante a guerra do Ultramar.

Já havia antes dessa guerra, iniciada em 1961, nessas regiões, mais junto da fronteira espanhola, a tradição de ir para a França "a salto" através de passadores, mas nunca sem antes cumprir o seu serviço militar obrigatório, o que seria um dia vantajoso, pois abriam-se portas para o seu futuro, como seguir a carreira militar, ir para polícia, guarda republicana, guarda fiscal e outros, até ser pide, por exemplo.

Já tinham sido dessas regiões, a que juntamos o Minho, que mais tinham partido para a "colonização" à portuguesa, de tamancos, das colónias africanas e de todas as esquinas de Rio de Janeiro e São Paulo, com botecos, tabernas, padarias e comes e bebes.

Mas partir para "a França e em força" foi apenas a partir de 1961, com a idade de 16, 17, 18, e 19 anos, e que hoje septuagenários estão todos aposentados com "reformas à francesa" e que,  com as remessas durante todos os anos, salvaram aquelas regiões muito pobres por esquecimento eterno desde Dom Afonso Henriques.

E que hoje, graças a muitos desses refratários, e graças ao SNS, que veio depois do 25 de Abril, aquelas regiões são um paraíso.

E que sem os filhos já franceses que não permanecem nas férias nessas benditas terras, preferem o apartamento nas praias do Oeste e Agarve, que os velhos lhe põem à disposição, aqueles paraísos aguentar-se-ão, pelo menos se de septuagenários chegarem a centenários, esses refratários com suas "reformas à francesa".

E prefiram os lares de idosos das suas "terrinhas" e quando morrerem poupam dinheiro que não precisam de vir com os pés para a frente, o que é uma maçada.

Nesta altura do ano já se começa a ver a circulação mais assídua de matrículas francesas com 100 cavalos de potência, pelos caminhos das antigas carroças com apenas um cavalo.

Os filhos dos velhos refratários nem se apercebem, nem querem saber o que se passou naqueles cus de judas, terras dos seus pais e avós.

De lamentar, mas pouco, que os netos dos velhos refratários "esqueceram" o idioma do avô e da avó.

Também a avó, relembremos, muitas também foram "a salto" e não eram refratárias.

Alguns desses refratários, passaram tanto ao lado da história da guerra do Ultramar, que perguntam "o que tem a ver o 25 de Abril com as colónias"?

Tudo passou!

Cumprimentos
Antº Rosinha

Porto de Leixões > Cais do Marégrafo ou do "Relógio", onde embarcaram milhares de portugeses em pequenos botes que os levariam aos "vapores" fundeados ao largo, cujo destino era, principalmente, o Brasil.

A devida vénia a Imagens Antigas do Concelho de Matosinhos

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Nota do editor

Último post da série de 16 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27827: Caderno de notas de um mais velho (António Rosinha) (59): A terapia dos almoços da tropa

Guiné 61/74 - P27970: Fotos à procura... de uma legenda (203): Um "mininu" chamado Adão Doutor


Guiné >  > Zona do Cacheu > Bigene > c. 1966/67  > O alf mil médico Adáo Cruz ( CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68), com uma jovem mãe, e o seu filho a quem pôs o nome de "Adão Doutor", em gestor de gratidão para com o  médico, "tuga",  que a assistiu no porto. A mulher parece ser do grupo étnico diola, djola ou jola / felupe

Foto (e legenda): © Adão Cruz (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A foto é do nosso camarada 
Adão Cruz, médico cardiologista, reformado,  ex-al mil médico,  CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68); nasceu em Vale Cambra, em 1937; poeta, escritor, pintor, com diversos livros publicados e exposições em Portugal e no estrangeiro; membro da nossa Tabanca Grande desde 27 de junho de 2016; tem mais de 240 referências no blogue; é autor das séries "Contos ser e náo ser" e "Memórias de um médico em campanha".

A CCaç 1547 / BCAÇ 1887 desembracou em Bissau, com o resto do pessoal do seu batalhão em 13 de maio de 1966, seguindo de imediato para  Fá Mandinga, a fim de efectuar a IAO (instrução de aperfeiçoamento operacional) sob orientação do BCaç 1888, substituindo a CCav 702 na função de intervenção e reserva daquele sector, e tendo tomado parte em operações na região de Xitole e no baixo Corubal.

 De 27 de maio de 1966  a 7 de junho de 1866, foi entretanto deslocada, temporariamente, para Nova Lamego, em reforço do BCaç 1856, em virtude de um previsível agravamento da pressão inimiga neste sector, tendo efectuado acções na região de Pataque e outras.

Em 13 de setembro de 1966, recolheu a Bissau, a fim de seguir para Bula, para realização de uma operação na região de Jol, sob dependência do BCav 790.

Em 27Set66 foi colocada em Bigene, tendo assumido a responsabilidade do respectivo subsector, com um pelotão destacado em Barro, em substituição da CCaç 762 e ficando então integrada no dispositivo e manobra do seu batalhão.

Em 29 de 0utubro de 1967, foi rendida no subsector de Bigene pela CArt 1745 e seguiu para Bissau, a fim de substituir a CCaç 1497 a partir de 2 de novembro de 1967 no dispositivo de segurança e protecção das instalações e das populações daquela área, sob ependência do BArt 1904 e depois do BCaç 2834. 

Manteve-se em Bissau até ao embarque de regresso, em 25 de janeiro de 1968,  tendo, entretanto, destacado um pelotão para Nhacra, em reforço da guarnição local.


Comentário do editor LG:

A fotografia e o testemunho do nosso camarada Adão Cruz dizem muito mais do que aparentam à primeira vista. Parece haver ali uma tensão silenciosa entre dois mundos: um médico miliciano, jovem, deslocado pela força de uma guerra que ele próprio rejeita, segurando nas mãos um recém-nascido (terá uns escassas semanas, talvez um mês e pouco de vida), símbolo absoluto de vida, no meio de um cenário que, no fundo, era (ou poderia viver a ser em qualquer momento) um palco de guerra, um cenário de morte organizada. 

Ali está um criança, vitoriosa, que sobrevive ao parto e ao primeiro mês de vida... O gesto de levantar o bebé é quase ritual. Não é só clínico, é um gesto humano, de triunfo da vida sobre a morte. É como se a imagem nos dissesse: “apesar de tudo, a vida continua”. 

E depois há o nome, esta maravilha: "Adão Doutor"!...  Nome, espontáneo, que lhe deu a jovem mãe,  fula, ao seu menino. É uma forma de reconhecimento profundo por parte dela: não é apenas gratidão, é também uma espécie de inscrição simbólica daquele nosso camarada na origem daquela vida. Como se ele tivesse participado não só no parto físico, mas no próprio destino da criança, há 70 anos atrás.

A presença da mulher,  ao lado,  digna, firme, composta, com o seu extenso e lindo colar (e por baixo dos panos que lhe cobrem o corpo, os amuletos protetores), deve merecer especial atenção.

Não está submissa nem apagada,  está ali como sujeito, pro direito próprio, como mulher, como mãe, como pessoa inteira. O olhar dela parece mais difícil de ler do que o do médico (embora ambos estejam viarados para o sol). Carrega  em todo o caso uma experiência que não está escrita, mas onde se adivinha dureza e sofrimento, mas também orgulho e dignidade.

E depois, quando lemos o texto do nosso Adão Cruz, tudo encaixa. Ele recusa a narrativa heroica clássica: não há medalhas, não há pátria exaltada, não há glorificação dos senhores da guerra. Há sofrimento, há dúvida, há humanidade. 

Isso dá ainda mais peso à imagem. Porque percebemos que aquele gesto não era exceção: era coerente com quem ele era, com o que ele pensava e sentia.  A sua guerra era outra: cuidar, salvar, ensinar, reconhecer o outro como igual, uma forma de resistência ética.

E aquela frase final dele (de que aqueles dois anos “valeram vinte”) é muito típica de quem passou por experiências-limite. Não é glorificação da guerra; é reconhecimento de que ali se viveu tudo em estado bruto, sem filtros.

(...) Sempre disse que os dois anos que passei na Guiné, anos de sofrimento e saudade, de tristeza e alegria, de coragem e desânimo, mas sobretudo de inigualável fraternidade e vivência humana, valeram vinte anos da minha vida. Não sei dizer porquê, mas sinto-o até ao mais fundo do meu ser. Sei apenas que me levaram a um futuro do qual nunca saberei o valor que o define, mas que sempre construí em consonância comigo mesmo. Sei apenas que sem esses dois anos, seja eu quem for, nunca seria quem sou. (...)

 Ficamos na dúvida se a mãe é fula ou felupe (**).   As populações da Guiné, muitas vezes apanhadas entre duas forças anatgónicas, tiveram uma experiência particularmente complexa — ora vistas como colaborantes, ora suspeitas, ora simplesmente vítimas. E aqui temos  uma mulher, guineense,  que entrega o seu corpo e o seu filho aos cuidados de um médico militar português. Isso não era banal e algumas, por interditos culturais, de origem religiosa ou não, recusavam-se a ser vistas pior um médico "tuga". 

É um gesto de confiança num contexto onde a confiança era um bem raríssimo (**).

A fotografia, assim, ganha outra densidade:  n
ão é só mais uma criança que nasceu, é um momento de suspensão da guerra; não é só um médico militar, no exercício das suas funções de prestador de cuidados à população; não é só uma mãe, é uma mulher que atravessa o medo e decide confiar.

E o nome "Adão Doutor" torna-se ainda mais forte. Em muitas culturas da África Ocidental, dar o nome exótico (ou uma "alcunha")  ( Adão Doutor, Alfero Cabral, Capitão Fula, Tchombé,  José Manuel Sarrico Cunté,  José Carlos Suleimane Baldé, Nuninho,  Alicinha...)  é um acto profundamente simbólico, não é um capricho, é uma forma de inscrever relações, acontecimentos, memórias. Aquele nome fixa para sempre o encontro entre dois mundos naquele instante concreto.

É um  detalhe cultural (o nome “tuga” dado, em geral,  por agradecimento ou veneração) que bate certo com muitos testemunhos da época na Guiné: o nome funcionava quase como marca de relação, proteção simbólica ou memória do acontecimento.

A foto é de meados da década de 60, em pleno "consulado" de Arnaldo Schulz,o governador que não era propriamente uma figura carismática, popular e empática... Pelo menos, se comparada com António Spínola, o "Caco Baldé".

E há algo que nos fica a martelar: o alferes miliiciano médico, que não recusou a guerra,  não foi desertor, diz que não se considerava combatente... Mas nesta imagem há uma forma de combate, talvez a mais difícil: combater a desumanização.

Esta foto  tem, portanto, “lastro humano”, como dizem os especialistas de fotografia. E, sendo do Adão Cruz, ganha ainda outra espessura.


2. Perguntarão os leitores: que idade terá esta criança, ao certo ? Quantos dias, semanas ou até meses? E esta "cena" deve passar-se em Bigene, takvez no início de 1967...

Esta criança não é um "recém-nascido"... Terá já algumas semanas, até um mês e picos...Já usa adornos e amuletos. É um rapaz. A mãe vem agradecer ao médico, militar, português, Adão Cruz, a ajuda no parto. Não sabemos se é fula, muçulmana, ou de outra etnia: a zona era já de miscigenação (e hoje há balantas, balantas manés, mandinga, fulas, djolas/felupes...).  Em agradecimento pôs o nome do "Adão Doutor" ao filho. Era frequente dar nomes "tugas" às crianças que nasciam em zonas com quartéis. 

Analisando a foto com a ajuda de um ferramenta de IA, pode concluir-se que, de facto,  não se trata propriamente de um "recém-nascido":
  • já tem bom controlo da cabeça (não totalmente firme, mas não é aquele tombar típico de recém-nascido);
  • apresenta membros mais “cheios”, já com alguma gordura subcutânea;
  • a pele não tem aquele aspeto enrugado ou descamativo dos primeiros dias;
  • parece alerta e reativo, não em postura fetal;
  • já usa amuletos/adornos, o que muitas vezes só acontece depois dos primeiros dias (às vezes após o nome ou rituais iniciais).

Tudo isto sugere claramente que não é um recém-nascido (0–2 semanas). Estimativa mais plausível: (i) entre 4 e 8 semanas de vida; ou seja, cerca de 1 a 2 meses. Se tivessemos de afinar mais, diríamos: por volta de 5–7 semanas.

Menos do que isso (2–3 semanas), seria provável ver menos firmeza corporal. Mais do que isso (3 meses), o bebé tenderia a parecer ainda mais robusto e com outra expressão muscular.

Estivemos a reler o primeiro poste que o Adão Cruz publicou no nosso blogue, e não há dúvida, o seu "primeiro parto" no CTIG aconteceu em Bigene, mais provavelemente no 1º semestre de 1966  (**):

(...) Foi  rápida a aceitação e compreensão dos esclarecimentos que fiz na tabanca acerca de infec­ções e higiene, acerca do papel da mãe, da dignidade do parto e das vantagens de este ser efectuado na nossa enfermaria, ainda que pequena e modesta.

Não demorou muito tempo a aparecer a primeira parturiente. Era uma linda mulher grávida de termo que não falava nada que se percebesse. Não sou capaz de precisar nesta altura a etnia, mas lembro-me que nem os outros negros entendiam o seu dialecto.

Mas o seu sorriso, apesar das dores, era tão aberto e confiante que não precisávamos de melhor forma de comunicação e entendimento. Até os olhos do meu enfermeiro Pimentinha brilharam de entusiasmo, entusiasmo que o levou a ler de ponta a ponta a minha sebenta de obstetrícia e a transformar-se em pouco tempo num habilidoso parteiro e carinhoso puericultor.

Nas minhas mãos um pouco trémulas eu segurava o fruto do primeiro parto que assisti na Guiné. Era um belo rapazinho que, apesar da pobreza alimentar daquela gente, nasceu bem nutrido e de uma cor rosa-marfim.

Os negros nascem brancos, como se sabe. Uma deliciosa ironia anti-racista da natureza.

Embora as nossas dificuldades logísticas e económicas fossem grandes, lá consegui oferecer-lhe o alimento, sob a forma de leite condensado, indispensável aos primeiros meses de aleitamento, pois a mãe parecia ter esgotado todas as reservas das suas entranhas ao gerá-lo de ma­neira tão eutrófica e tão perfeita.

Umas semanas após o nascimento vem ter comigo o Chefe de Posto e diz-me sorridente:

- Doutor, vou dar-lhe uma linda notícia que a mim, pes­soalmente, me enterneceu. A mãe daquele catraio... aquele primeiro parto que o doutor fez, lembra-se?... A mãe veio registá-lo há dias, oficialmente, com o nome de Adão Doutor. (...)



 3. Gostaríamos que os nossos leitores acrescentassem, na caixa de comentários, a sua própria legenda, sucinta, espontânea... Não há legendas certas nem erradas. Deixemo-nos levar pela memória, pela emoção.

Pode ser qualquer coisa como "Bigene, c. 1966/67: 'Adão Doutor entre a guerra e a vida, um instante suspenso". Mas eu espero que o nosso Cherno Baldé nos dê uma ajude... Nesta época ele já era um djubi com cinco ou seis anos feitos, o "Chico de Fajonquito"...

Um jovem médico militar português segura um recém-nascido, nu, que terá   chegado ao mundo há pouco tempo. Já ostenta adornos e seguramente amuletos. Ao lado, a mãe mantém-se de pé, firme, inteira, com a dignidade de quem acaba de atravessar uma fronteira invisível entre a vida e a morte.

O cenário é Bigene no norte da Guiné, junto à fronteira com o Senegal. Zona de tensão, de passagem, de incerteza. Zona de guerra.
 
E, no entanto, nesta imagem não há guerra. Há um gesto: o de levantar a criança, quase como uma apresentação ao mundo, há um olhar: o do médico, onde se cruzam cansaço e cuidado; e há um nome que ficou: “Adão Doutor”.

 O autor da fotografia e protagonista da cena, hoje quase nonagenário, recusou sempre a ideia de ter sido “combatente”. Disse de si próprio que apenas combateu a doença e a injustiça. E talvez esta imagem seja a melhor prova disso.

Num tempo em que a linguagem da guerra tende a apagar os pequenos gestos (mais ternos e mais íntimos), esta fotografia devolve-nos uma evidência simples e desarmante: mesmo nos lugares mais improváveis, a vida existe, insiste, persiste. (***)

(Pesquisa: LG + IA (ChatGPT, Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 27 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27960: (In)citações (286): Guerra colonial (Adão Cruz, Cardiologista, ex-Alf Mil Médico)

(**) 25 de junho de 2016 > Guiné 63/74 - P16235: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (1): O Parto - ou o nascimento do Adão Doutor em Bigene
 
(***) Último poste da série > 29 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27869: Fotos à procura de...uma legenda (202): No Dia Mundial da Poesia e da Árvore (Joaquim Pinto de Carvalho, régulo da Tabanca do Atira-te ao Mar)

Guiné 61/74 - P27969: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XXXIV: O melhor do mundo ainda são as crianças




Foto nº 1



Foto nº 2


Foto nº 3

Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) >  Crianças vendedoras de mancarra... O que será feito destes meninos e meninas?  

Fotos do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.

Fotos (e legendas): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Alferes graduado capelão José Torres Neves,  CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71).
É natural de Meimoa, Penamacor, terra também do nosso major general reformado João Afonso Bento Soares


1. Mais um conjunto de fotos sobre Mansoa, enviadas no passado dia 21 de janeiro pelo nosso camarada e amigo Ernestino Caniço, o fiel  guardião do álbum fotográfico da Guiné, do padre missionário da Consolata, José Torres Neves, natural de Meimoa, Penamacor.

O Padre José Torres Neves, antigo capelão do BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) reformou-se recentemente de uma vida inteiramente dedicada  às missões católicas, nomeadamente em África.Deve estar a fazer a bonita idade de 90 anos. Temos de festejatr.

Entrou para a Tabanca Grande, em 22/2/2022, pela mão do Ernestino Caniço, que é médico e seu a,igo deste os tempos de Mansoa. É o nosso grão-tabanqueiro nº 859. Tem cerca de meia centena de referências no nosso blogue. 

 Ele fotografou obsessivamente Mansoa e outras povoações do sector O4 onde havia destacamentos das NT, Braia, , Infandre, Cutia, Jugudul, Bindoro, 
etc. Pssaou também por Mansabá.

Em geral as fotos trazem sumárias legendas (ou títulos). Sem data. E não vêm numeradas.

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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quarta-feira, 29 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27968: Historiografia da presença portuguesa em África (527): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1969 (85) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
O Governo central revela-se generoso, abre mão ao dinheiro e até a alguns meios militares, será assim até 1971, nessa data o Ministro das Finanças anuncia que os encargos militares chegaram ao rubro enquanto o Ministro da Defesa irá referir que se atingiu o máximo dos efetivos o que levará o Comandante-Chefe a intensificar a africanização da guerra.

 O que se irá ver ao longo deste ano no Boletim Oficial é a injeção de dinheiro com queda nas receitas, não deixa de surpreender a remissão para o Boletim Oficial de louvores militares e perto do final do ano abrem-se concursos para um conjunto de estradas, caso de Bambadinca-Xime, Jugudul-Bambadinca, Nova Lamego-Piche-Buruntuma, Cacheu-Teixeira Pinto e Buba-Aldeia Formosa. 

Falando por mim, apanhei por tabela os trabalhos do alcatroamento de Bambadinca-Xime, isto em junho/julho de 1970, pouco antes de findar a minha comissão, já o porto do Xime estava em pleno funcionamento. Em 2010, visitei o Xime, aquela consistente construção estava reduzida a meia dúzia de estacas, o alcatroado todo esburacado. E pouco mais há a dizer.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1969 (85)


Mário Beja Santos

Ainda em 1968, em reunião do Conselho Legislativo, António de Spínola dirige uma mensagem à Província, informando que apresentara ao Governo Central, com todo o realismo, a situação que se vivia na Guiné, com base no que apresentara em Lisboa, ia ser estabelecido um Plano de Acção, haveria um significativo apoio financeiro que se iria concretizar num conjunto de medidas: investimentos no campo do económico, do social e do cultural no valor de 650 mil contos, ao abrigo do III Plano do Fomento; dispensa de juros relativos às dívidas diferidas dos diferentes Planos de Fomento; ampla dilatação dos prazos de pagamento das anuidades dos Planos de Fomento e dispensa de contribuição para os encargos com a Defesa Nacional. 

Considerava o Governador que se podia assim ampliar a obra em matéria de infraestruturas (rede rodoviária e de comunicações, reconstrução dos portos no interior, promoção social, melhoria da assistência sanitária, etc.).

O que se vai plasmar no Boletim Oficial n.º 8, de 28 de fevereiro de 1969, pela Portaria n.º 2067, põe-se em execução para esse ano, as tabelas adicionais que constituem os recursos para financiamento do Programa do III Plano de Fomento (agricultura, silvicultura e pecuária, pescas, indústrias extrativas, indústrias de construção e obras públicas, energia, transportes, comunicações e meteorologia, educação e investigação, saúde). 

Falava-se no empréstimo da Metrópole de 95 mil contos e 15 mil contos do rendimento das concessões petrolíferas. A ESSO Exploration Guiné Inc  parece funcionar, pois no Boletim Oficial n.º 9, de 4 de março, fala-se numa Assembleia Geral a realizar-se em 31 de março, na Rua Filipe Folque, n.º 2, 3.º, em Lisboa. Na ordem de trabalhos, entre outros pontos, tratar-se-ia da fixação da caução a prestar por cada membro do Conselho Fiscal para o fiel cumprimento das obrigações do seu cargo.

Inusitadamente, e fora daquela rotina de créditos e débitos, fundos de investimento, nomeações e transferências, inscreve-se no Boletim Oficial n.º 16, de 22 de abril, notícias sobre a guerra em Moçambique, trata-se do Decreto n.º 48766 do Ministério da Marinha:


“Considerando que o Destacamento n.º 5 de Fuzileiros Especiais actuou nas frentes de combate em Moçambique com excepcional brilho, demonstrando destacada coragem, muita decisão, energia debaixo de fogo e um arreigado espírito de unidade, qualidades estas que se manifestaram em acções que comprovadamente contribuíram para os êxitos militares alcançados naquelas frentes;
Atendendo a que em várias operações e por força da situação operacional existente fez incursões de dezenas de quilómetros, sem comunicações, apoio aéreo e meios de evacuação diferidos para enfrentar um inimigo forte e moralizado, no que mostrou extraordinária agressividade;
Tendo em atenção a sua atividade no Niassa, nomeadamente nas regiões de Lipoche, Chitege, Chitope, Tchia, Juza Gombe e Meluluca, onde infligiu dezenas de baixas ao inimigo, capturando-lhe armamento, documentos, muitas populações e destruindo mais de 17 dos seus principais acampamentos, o que conseguiu em dezenas de operações, algumas de bastante violência, outras com desigualdade de forças desfavorável às fracções empenhadas do Destacamento;
Tendo presente os louvores colectivos conferidos e a proposta do Comandante-Chefe das Forças Armadas de Moçambique, em que consta ter a unidade conquistado lustre e prestígio para as instituições militares portuguesas, é concedida a medalha militar de Cruz de Guerra de 1.ª Classe ao Destacamento n.º 5 de Fuzileiros Especiais.”


No Boletim Oficial n.º 20, de 20 de maio, uma Portaria concede meios à ação missionária. Refere-se que os Missionário Franciscanos de Veneza que vieram para a Província para se ocuparem do tratamento da lepra no Hospital Colónia de Cumura, adaptaram-se às exigências do tratamento dos leprosos, revelando muita dedicação, espírito humanitário e de sacrifício, atendendo que a Missão de Combate às tripanossomíase tinha proposto alargamento de espaço para as suas atividades, o Governo da Província aprovava que os terrenos que faziam parte da Reserva do Estado a cargo desta Missão, situados na região de Cumura, passavam a constituir uma reserva parcial para o tratamento da lepra, a cargo da Missão Católica da Cumura.

Mais um dado estranho na vida do Boletim Oficial, no seu n.º 29, de 22 de julho, o Ministério do Ultramar condecora com a medalha de cobre de assiduidade do serviço o Primeiro-Sargento do Serviço Geral Francisco João Pinheiro Marrafa.

Ficamos a saber que os Serviços de Centralização e Coordenação de Informações, em funcionamento desde 1961, irão funcionar a título transitório no Gabinete Militar do Comandante-Chefe, presidido pelo Governador, tendo como vogais o Comandante da Defesa Marítima da Guiné, o Comandante Territorial Independente da Guiné, o Comandante da Zona Aérea de Cabo Verde e da Guiné, o Comandante da PSP, Chefe da Subdelegação da PIDE e Chefe da Repartição Provincial dos Serviços de Administração Civil.

Abriram-se créditos especiais de milhões de escudos, tem a ver com programas de meteorologia, fomento dos recursos agro-silvo-pastoris, transportes rodoviários, telecomunicações, etc. A dívida pública da Guiné atingiu verbas astronómicas.

No 3.º Suplemento do Boletim Oficial n.º 39, de 6 de outubro, dá-se notícia do concurso para a execução de empreitadas de construção de terraplanagens das estradas de: Bambadinca-Xime; Jugudul-Bambadinca; Nova Lamego-Piche-Buruntuma; Cacheu-Teixeira Pinto; Buba- Aldeia Formosa (alguns destes trabalhos prolongaram-se até ao ano de 1974).

O Boletim Oficial n.º 47, de 25 de novembro, pela Portaria n.º 2162, publica o terceiro orçamento suplementar referente à Administração do Porto de Bissau, e nesse mesmo Boletim, o Governador louva o Marinheiro n.º 67, Januário Abibe Tchame, em serviço na Repartição Provincial dos Serviços de Marinha, pelo seu exemplar comportamento durante a reação a uma flagelação inimiga dirigida a um quartel do Interior e ao porto fluvial vizinho:

“Encontrando-se a prestar serviço no referido porto, sob as ordens de um cabo fuzileiro, a este se apresentou voluntariamente, apesar de não ser militar, logo que teve conhecimento do início do ataque. Com uma arma recebida do mencionado cabo fuzileiro, que comandara a defesa da zona portuária, ocupou uma posição isolada de onde contribuiu para a reacção que obrigou o inimigo a debandar da área do porto. Revelou assim, qualidades de patriotismo, coragem, decisão e exemplar lealdade que considero de inteira justiça destacar.”
Marcello Caetano em Bissau
Dança compó
Rapaz Papel
Dançarino Balanta
Batuque Felupe
Rapaz Papel
O Chefe Religioso da Mauritânia recebendo uma lembrança do Governador da Província

Estas imagens foram retiradas de números do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa de 1969

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 22 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27940: Historiografia da presença portuguesa em África (526): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1968 (84) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27967: Álbum fotográfico de Ernestino Caniço, ex-alf mil cav, Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa, e Rep ACAP/QG/CCFAG, Amura, Bissau, 1970/72 - Parte I: "Conquistar mentes e corações"




Foto nº 1 > População (homens e mulheres do "mato") junto ao Palácio do Governador


Foto nº 3 > População (homens do "mato") visitandio um posto sanitário


Foto 8 >  Entrevista de um elemento da população no Pifas


Foto nº 2 > Construção de tabanca pelas NT (reordenamentos)



Foto nº  4 > Vista aérea de uma tabanca (reordenamento)


Foto nº 5 > Trabalhos na estrada (asfaltagem, a cargo do BENG 447)



Foto nº 6  > Cerimónia de imposição dos galões do ten cor Lemos Pires



Foto  nº 7  > Bandeja com os galões do ten cor Lemos Pires da qual sou portador e permuta pelo major Luz Almeida

Foto (e legenda): © Ernestino Caniço (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] 



O médico Ernestino
 Caniço (Tomar, 2014)
1. Mensagem, mais abaixo. de Ernestino Caniço (ex-Alf Mil Cav, Comandante do Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa; Rep ACAP - Repartição de Assuntos Civis e Acção Psicológica, Bissau, jan 1970/ dez 1971, hoje médico, vive em Tomar, estando reformado do SNS (em 1971, era chefe da Rep ACAP o major inf Mário Lemos Pires, que será entretanto promovido a tenente-coronel); trabalhou com o então cap Otelo Saraiva de Carvalho sobre quem escreveu, em 26/7/2021:

 " (...) Faleceu Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho, o principal pilar do 25 de Abril de 1974. Durante o ano de 1971 fomos camaradas, em funções na ACAP (Repartição de Assuntos Civis e Ação Psicológica), no quartel da Amura, na Guiné Bissau. Partilhámos a mesma sala com as secretárias lado a lado. Como é natural dialogámos muito. Face à sua morte, não posso deixar de manifestar o apreço e a amizade que nos uniu, pelo que lamento a sua perda. Foi fácil. A sua empatia, generosidade e humanismo assim o permitiram. O diálogo fluía naturalmente,
 não descortinando qualquer atitude lapuz. Que descanse em paz." (...)

Foi pela mão do Ernestino Caniço que o Otelo foi simbolicamente inumado à sombra do nosso poilão, no lugar nº 846.

Date: sexta, 30/07/2021 à(s) 17:59

Data - terça, 28/04, 22:01 (há 7 horas)

Assunto - Rep ACAP /QG / CCFAG

Olá,  Luís.

Que saúde não falte.

Face à tua solicitação (*) , vou tentar repescar algo, salvaguardando alguma imprecisão a esta distância temporal.

Na dependência da AP - Ação Psicológica, havia as secções Informações Psicológicas, Operações Psicológicas e Rádio Difusão e Imprensa. 

Quando fui colocado na Rep ACAP estava orientado para a Secção de Assuntos Civis. No entanto, após alguns contactos com o ainda major Lemos Pires (Lamego, 1931 - Lisboa, 2009) , este colocou-me na Secção de Operações Psicológicas (que visava, entre outros, credibilizar a presença portuguesa e manter o moral das forças portuguesas), pela minha putativa desenvoltura (sem pesporrência).

Além de contactos frequentes com as populações, fui colaborador do cap Otelo com enfoque nos contactos internacionais e corresponsável pela biblioteca com o major Eanes. 

Os impactes dos contactos com as populações eram processados na rádio pelo alf Arlindo Carvalho. Mais pormenores estão descritos no Post 22426 de 2021.08.02 (**), que deu origem a alguns comentários suscetíveis de serem considerados perspetivas olhizainas e interpretados como chifralgias (termo meu – basta decompor a palavra).

Anexo algumas fotos sobre esta temática

Foto 1 – população junto ao palácio do governo

Foto 2 – construção de tabanca pelas NT

Foto 3 – população visitando um posto sanitário

Foto 4 – vista aérea de uma tabanca

Foto 5 – trabalhos na estrada

Foto 6 – cerimónia de imposição dos galões do ten cor Lemos Pires

Foto 7 – bandeja com os galões do ten cor Lemos Pires da qual sou portador e permuta pelo major Luz Almeida

Foto 8 – entrevista de um elemento da população no Pifas

Abraço,

Ernestino Caniço

2. Comentário do editor LG:

Ernestino, obrigado pela tua generosidade e perceção da importància que tem esta documentação para a memória e a história  da nossa geração de antigos combatentes na Guiné.  Alguns destes distintos militares com quem tiveste o privilégio de trabalhar na Rep ACAP,  QG/CCFAG, na Amura, em Bissau em 1971, já morreram e fazem parte da nossa história contemporânea (maj gen Lemos Pires, cor art Otelo Saraiva de Carvalho, marechal António Spínola, etc.). O gen Ramalho Eanes ainda está felizmente entre nós. 

Só mais refentemente, em 2021, com a morte do Otelo,  foste ao teu álbum fotográfico, à parte dos "reservados", e selecionaste algumas fotos que quiseste partilhar connosco (**). 

O trabalho da "tua" Rep ACAP, onde passaste metade da tua comissão, depois de 4 meses em Mansabá e 6 meses em Mansoa, com os teus bravos do Pel Rec Daimler 2208 e as tuas "velhinhas latas de sardinha com roda"...), foi historicamente muito importante mas é, infelizmente, mal conhecido e está mal documentado. Que este seja o primeiro poste de mais alguns da série que eu acabei de criar para a ti...Um alfabravo, Luís.
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 27 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27961: O PIFAS, de saudosa memória (21): O Programa das Forças Armadas ganha maior visibilidade com Otelo e Ramalho Eanes, na Rep ACAP: recordações dos radialistas Garcês Costa e Silvério Dias (1934-2026)

(**) Vd. poste de 2 de agosto de 2021 > Guiné 61/74 - P22426: Tabanca Grande (523): O cap art Otelo Saraiva de Carvalho, com quem trabalhei na Rep ACAP, QG/CCFAF, em 1971, ao tempo do major inf Ramalho Eanes e do ten cor inf Mário Lemos Pires (Ernestino Caniço)... Em sua memória, é reservado o lugar nº 846, à sombra do nosso poilão

Guiné 61/74 - P27966: Parabéns a você (2479): Giselda Pessoa, ex-Sarg Enfermeira Paraquedista da BA 12 (Bissalanca, 1972/74)

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Nota do editor

Último post da série de 27 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27956: Parabéns a você (2478): Belmiro Tavares, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 675 (Binta, 1964/66); Cor Inf DFA Ref Hugo Guerra, ex-Alf Mil Inf CMDT dos Pel Caç Nat 55 e 50 (Gandembel, Ponte Balana, Chamarra e S. Domingos, 1968/70) e Joaquim Costa, ex-Fur Mil Arm Pes Inf da CCAV 8351/72 (Cumbijã, 1972/74)

terça-feira, 28 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27965: Em busca de ... (333): José Serafim Gonçalves procura camaradas da CCAÇ 417 que esteve em Empada, Bissau e Cabo Verde nos anos de 1963 e 1964

1. Mensagem de José Serafim Gonçalves, da CCAÇ 417, chegada até nós no dia 26 de Abril de 2026 através do Formulário de Contacto do Blogger:

Boa noite
Pertenci à CCAÇ 417. É possível o contacto de colegas meus que tenham pertencido a minha companhia?

Obrigado
Um abraço
Cumprimentos,
José Serafim Gonçalves

2. Já respondemos ao nosso camarada dando-lhe conta da impossibilidade de encontramos algum dos seus camaradas, uma vez que as referências à CCAÇ 417, no nosso Blogue, são poucas ou nenhumas. Por outro lado, já em 14 de maio de 2012, no Post Guiné 63/74 - P9901: Em busca de... (188): Pessoal da CCAÇ 417 (Empada, 1963/65) (Jorge Soares Branco) houve um pedido idêntico sem resultado.

Deixamos aqui, com a devida vénia à Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961/1974), a reprodução da pág.317 - Companhia de Caçadores n.º 417 - da Ficha das Unidades - 7.º Volume - Tomo II - Guiné.
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Nota do editor

Último post da série de 6 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27799: Em busca de ... (332): ex-alf mil médico Luís Tierno Bagulho (Artur Sousa, CCAÇ 2782 / BCAÇ 2927, Encheia e Bissorã, 1970/72)

Guiné 61/74 - P27964: Lembrete (56): 53.º Almoço de confraternização da CCAÇ 12, Pelotões Daimler e Caçadores Africanos, a levar a efeito no próximo dia 23 de Maio de 2026, na Golegã (Jaime Pereira, ex-Alf Mil)

1. Mensagem do nosso camarada Jaime Pereira, ex-Alf Mil da CCAÇ 12 (Bambadinca, 1971/72), com data de 27 de Abril de 2026:

Caros Companheiros
Este ano, o nosso almoço de confraternização é na Golegã no dia 23 de Maio. Os detalhes do programa encontram-se no documento anexo.

Convidamos para este encontro as esposas e filhos dos companheiros já falecidos, os ex-militares da CCaç12, Pelotões Daimler e Caçadores Africanos e ainda os amigos e companheiros dos BART 2917 e BART 3873 que quiserem participar neste nosso convívio.

Contamos convosco... Confirmem a vossa presença até ao dia 17 de Maio para um dos seguintes contactos:

Jaime Pereira - Email: jaimenpereira@gmail.com - Tlm. 917 265 026
José Sobral - Email: mzsobral@sapo.pt - Tlm. 969800826

Contamos com todos…
Um abraço e até breve
Jaime Pereira


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Notas do editor:

Vd. post de 7 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27897: Convívios (1055): 53.º Almoço de confraternização da CCAÇ 12, Pelotões Daimler e Caçadores Africanos, dia 23 de Maio de 2026, na Golegã (Jaime Pereira, ex-Alf Mil da CCAÇ 12, 1971/72)

Último post da série de 21 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27937: Lembrete (55): Cerimónia de apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos,: hoje, 21 de Abril de 2026, pelas 17h30, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Campo Grande

Guiné 61/74 - P27963: Armamento (32): Espingarda de Assalto 7,62mm m/961 AR-10 (também conhecida como AR-10, no modelo português) (Luís Dias)


Espingarda de Assalto 7,62mm m/961 AR-10. Fonte: Fonte: Wikipedia (com a devida vénia...)



Luís Dias
1. Mensagem do Luís Dias, o nosso especialista em armamento (*), agora com o estatuto de colaborador permanente; foi alf mil at inf, CCAÇ 3491 / BCAÇ 3872 (Dulombi e  Galomaro, 1971/74); recorde-se que integrou, desde 1975, a carreira de investigadores 
da Polícia Judiciária, tendo sido nomeado pelo Ministro da Justiça, 25 anos mais tarde, Director do Departamento de Armamento e Segurança (DAS). Hoje está reformado. Vive em Lisboa. 

A Espingarda automática AR-10 veio para Portugal com a designação de Espingarda de Assalto 7,62mm m/961 AR-10 (também conhecida como AR-10, no modelo português).

 A origem da arma é, como já referiram, de origem norte-americana e é uma invenção de Eugene Stoner, quando trabalhava na firma "Armalite" (uma divisão da "Fairchild Engine and Airplane Corporation"), entre 1954 e 1959. 

A AR-10 surgiu numa altura em que já se falava nos projécteis intermediários, como eram os da então URSS. Mas nenhum grande país opta por a adquirir. 

Então, em 1957, a firma “Artilerie-Inrichtingen Arsenal”, da Holanda, aceita fabricar a arma da Armalite em pequena série (algumas fontes referem 5 000, outras 10 000). 

Portugal decide adquirir armas onde elas estivessem disponíveis para enfrentar a guerra em Angola, em 1961. Umas fontes dizem que vieram para o nosso país um lote de 1 500 armas, outras dizem que foram muitas mais. 

Como foi já referido no blogue (*), a arma foi entregue às forças paraquedistas que operavam em Angola (BCP 21), mas não foi adoptada como a futura arma do exército português, porque era original dos EUA e fabricada na Holanda, que eram dos países que mais estavam contra a nossa política africana.

A arma tinha um configuração em que usava o alumínio forjado, de modo a reduzir o peso e tinha um inovador projecto de cano em linha recta/coronha e operava por meio de gás de impacto direto, com o calibre o 7,62x51mmNATO, conseguindo, segundo os que operaram com ela, um tiro automático muito preciso. Além  disso, podia o atirador, em caso de necessidade, operá-la apenas com uma mão.

O projecto da AR-10 evoluiria para a AR-15, já no calibre 5,56mmNATO, que seria adquirida, em 1962, pela firma “Colt Firearms Company”, vindo a ser adoptada pelos EUA como a Colt M16, entrando em produção em 1964 ( e muito utilizada na Guerra do Vietname). 

Os modelos iriam evoluir para a M16A1, A2, A3, A4. Esta mesma plataforma seria responsável pela “Colt M4 Carbine” (uma arma mais compacta, leve e modular para tropas especiais, tripulações de veículos e paraquedistas, sem perder o poder de fogo de uma espingarda de assalto).

A plataforma da AR-15 veio a dar origem a muitas outras armas quer nos EUA, quer em outros países, aliás como também a plataforma da Kalashnikov deu origem a larga dezena de modelos baseados nela.

(Revisão / fixação de texto, links: LG)
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Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P27962: Casos: a verdade sobre... (73): Kalasnikovomania - Parte VIII: Fui uma vez (e única) para o mato com uma AK 47 (que sabia manejar). Tinha um bornal para os quatro carregadores, o que era incómodo e desequilibrava o andar... O capitão, "periquito", que foi comigo, também levava uma, mas nem sequer conhecia a arma (Paulo Santiago, cmdt, Pel Caç Nat 53, Saltinho, 1970/72)


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L5 (Galomaro) > Subsetor do Saltinho > Março de 1972 >  Nas proximidades da foz do rio Cantoro > O Paulo Santiago, e junto dele duas espingradas automáticas AK 47, e numa delas o respetivo bornal (que levava 4 carregadores)

1. Texto publicado na página do Facebook da Tabanca Grande,  (sábado, 25 de abril de 2026, 00;46) pelo Paulo Santiago, ex-alf mil at inf, cmdt Pel Caç Nat 53 (Saltinho, 1970/72), autor da série "Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos"(*). Tem mais de 210 referências no nosso blogue, para o qual entrou em junho de 2006.


Mais uma história em que entra a AK 47... 

por Paulo Santiago

Naquele dia, fins de março de 1072, facilitei, podia ter sido pior.


1- O capitão, comandante da CCAÇ 3490, que conhecera dias atrás, convenceu-me a ir numa operação com o objectivo de ir armadilhar um local chamado de CeloCelo.

2- Tinha o meu grupo, o meu pelotão disperso, parte em Galomaro,o restante no Saltinho. Por este facto,mostrei reticências em acompanhar os dois pelotões daquela Companhia, e também pelo mau conhecimento dos homens.

3- Em resposta ao choradinho do capitão, "que eu já conhecia a zona",  e também por ele ser miliciano, levou-me a aceitar o "convite".

4- Iria com cinco soldados do meu pelotão, Pel Caç Nat 53.

5- Quando da saída, aparece-me o capitão com duas AK 47, uma para ele e a outra para mim. (Existiam oito AK 47 e dois RPG 2 para serem utilizadas por soldados do Pel Caç Nat 53 quando saíssem com o Grupo  do Marcelino da Mata, e por mais ninguém).

Acabei por levar a arma, sabia trabalhar com ela.

6- Fizemos um alto para comer, por volta das 12.00 horas, junto da foz do rio Cantoro.

Houve militares que se puseram em tronco nu. Um dos meus soldados veio avisar-me da presença de um ninho de abelhas nas proximidades e seria melhor o  afastamento para outro local. O capitão não atendeu ao alerta.

7- Houve o ataque dos insetos, uma enorme confusão, nós os seis retirámos com calma, mas alguns dos que estavam em tronco nu ficaram cravados. Seis evacuados por helis.

8- Acabou a operação. Regressei ao quartel, com os meus cinco soldados,  por um trilho que vinha por Cansamange, não fomos esperar as viaturas ao Quirafo.

9- Nunca mais andei de AK 47. Havia uma bornal para os quatro carregadores, o que era incómodo e desequilibrava o andar.

10- Soube posteriormente que o capitão nunca disparara uma kalash. (**)

(Revisão / fixação de texto, título, links: LG)

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Notas do editor LG:


(**) Último poste da série > 23 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27941: Casos: a verdade sobre... (72): Kalashnikovomania - Parte VII: até o ajudante de campo do gen Bettencourt Rodrigues, um tenente 'cmd', se rendeu aos encantos da AK-47 (segundo o fotógrafo António Murta) ou da SA Vz58 (na opinião do nosso especialista em armamento, Luís Dias)