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terça-feira, 13 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28434: Convívios (1077): Estão abertas as inscrições para o 115.º Encontro da Tabanca do Centro, a levar a efeito no próximo dia 30 de Outubro de 2026, na Quinta do Paul - Ortigosa. As inscrições encerram no dia 27

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Nota do editor

Último post da série de 12 de Outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28428:">Convívios (1076): hoje é o dia da caldeirada anual da amizade, na festa de Ribamar, Lourinhã, em homenagegm ao nosso Eduardo Jorge Ferreira (1952-2019)

Guiné 61/74 - P28433: Retalhos da vida militar (13): O último quartel da minha Comissão (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 4 de Outubro de 2026:


O último quartel da minha Comissão

Cinco tostões eram metade de um escudo. Cinco tostões também conhecidos por uma quinhenta davam para comprar uma dose tremoços, ou uma malga de camarinhas ou uma malga de cabras.

Os CTT tinham dois tipos de correspondência, a carta que tinha de ser selada e também o chamado bilhete postal.

O bilhete postal custava exactamente cinco tostões.
Como herdei da minha mãe o vicio pela leitura, quando tinha por volta dos 13/14 anos sempre que tinha cinco tostões disponíveis escrevia um postal para uma qualquer embaixada de um qualquer país dizendo que gostava de visitar esse país e queria que me mandassem alguns mapas.

Recebia, via correio muitos envelopes com mapas e literatura sobre muitos temas de ordem geográfica. A partir dessa leitura fui adquirindo muitos conhecimentos em termos de Geografia Física de muitos países. O Canadá, a Itália e a França iam mandando sempre, mesmo sem um segundo pedido.

A conversa era sempre a mesma, e a morada das embaixadas era em Lisboa. Eu tinha apenas a quarta classe e os conhecimentos em termos de relações diplomáticas entre países não abundavam. Eu sabia que existia um país chamado Hungria cuja capital era Budapeste, mas não sabia que não tinha relações diplomáticas com Portugal, após ter sido invadido pela então URSS em 1956.

Eu estava a trabalhar em Arrancada do Vouga onde já existiam algumas fábricas que davam trabalho a muitas pessoas. Um dia mandei também um postal para a Embaixada da Hungria. Recebi o postal de volta com a indicação de que a Hungria não tinha relações diplomáticas com Portugal.

Passados alguns dias vieram dizer-me que andavam dois homens à minha procura para me levarem. Não dei qualquer importância e entendi que era mais uma daquelas coisas que se diziam aos meninos e meninas para os assustar. Não te portas bem, vem aí um cigano e leva-te. Só bastante mais tarde quase na fase de adulto percebi o que tinha acontecido em Arrancada do Vouga e quem eram os dois homens que me queriam levar. Queriam lebre apareceu-lhes um ratito do mato.

Já depois de estar em Lisboa e durante algum tempo a trabalhar na Zona de Alcântara comecei a tomar conhecimento de realidades que eu tinha dificuldade em entender. Por uma distância de aproximadamente 30 metros não fui testemunha presencial da morte de José Dias Coelho. Durante toda a minha infância e juventude sempre estive ligado à Igreja. Com 6 anos já me davam 2 tostões para eu dizer a confissão em latim. Saber a confissão em latim era uma condição necessária para se poder ajudar à missa.

Fui catequista e convivi com muitos Sacerdotes entre eles, os padres Aleixo Cordeiro, Felicidade Alves e bastante mais com o senhor Padre Brotero. Sabia que o senhor Padre Brotero havia sido obrigado a fugir para Marrocos por causa de uma queixa apresentada ao Patriarcado. Era comentado de que as relações entre o senhor padre Felicidade Alves e o mais alto magistrado da Nação não eram famosas. Do mesmo modo também se sabia na comunidade que as relações entre o senhor Professor André Navarro e o senhor Padre Brotero não eram propriamente as melhores. O senhor padre Brotero dava tudo o que podia aos pobres das barracas da Avenida de Ceuta ao ponto de nem lençóis ter na cama para receber a visita de um médico. O Senhor Professor André Navarro era pai de 10 filhos, mas tinha uma criada para tomar conta de cada um dos filhos.

O largo de Alcântara e também o largo do Calvário eram lugares bastante complicados em função da existência de muitas centenas de operários. Era também o local por onde entravam todos os trabalhadores pertencentes à classe dos Estivadores.

Vim a saber, só durante o ano de 1966 em Bissau, que um popular engraxador com a alcunha de bolinhas era um perigoso informador da PIDE.

No largo de Alcântara trabalhavam de forma pacífica muitos vendedores ambulantes. Aqui também trabalhavam mulas e cavalos trajados com o seu avental do Atlético Clube de Portugal.

Um dia, a Rita peixeira travou-se de razões com um polícia de serviço. Puxou de um peixe espada e contra uma pistola, não deixou seus créditos em mãos alheios. O senhor polícia teve de ir para o Hospital para tratar dos ferimentos no rosto.

Naqueles tempos os mercados, também conhecidos por praças estavam abertos aos domingos de manhã. A Praça de Campo de Ourique, bairro rico de Lisboa era famosa pela quantidade de raparigas que vinham do Alto Minho e das Beiras servir para Lisboa. Eram empregadas domésticas vulgarmente conhecidas por “Sopeiras”. No domingo depois da missa era quase obrigatório fazer uma visita ao Mercado de Campo de Ourique. Ia eu acompanhado do meu compadre Alcides a quem ia a contar a estória da Rita e do polícia que tinha ocorrido na véspera.

Como bom militar, terei usado algumas expressões muito militarizadas às quais dois indivíduos que iam ao nosso lado não terão achado graça. Fui agarrado por um braço e levado para um gabinete existente no próprio Mercado. Identificaram-me como militar em Caçadores 5 e mandaram-me ir de imediato para o Quartel. Como era meu entendimento de que militar não recebe ordens civil, decidi não cumprir a ordem de regresso à Unidade Militar. Passados poucos minutos já vinham de novo atrás de mim, pelo que a alternativa foi mesmo a de abandonar o local.

Durante a Primavera do ano de 1963 teve lugar em Lisboa o grande encontro da Juventude. A maioria dos participantes vieram das aldeias do interior pelo que na sua maioria eram membros da JAC (Juventude Agrária Católica). No ano seguinte (1964) Lisboa recebeu a visita de Monsenhor Joseph Cardijn, um Belga fundador da JOC. Da recepção fazia parte uma Missa Campal junto ao Monumento a Cristo Rei em Almada seguida de um desfile até ao Campo do Almadense onde teriam lugar outras Cerimónias relacionadas com a visita. Eu era membro da JOC, mas apenas na sua componente religiosa e nem me passava pela cabeça que em simultâneo também existisse uma componente política.

Terminada a Missa Campal e quando tudo estava pronto para ser dado início ao desfile surge-nos pela frente uma manada de cavalos e respectivas montadas, militares da GNR que não nos deixaram avançar. Do meio da uma enorme assistência surge o Senhor Primeiro Sargento da minha Companhia em Caçadores 5. Ao conhecer-me e ao ver-me de braçadeira vermelha tal qual a usada pelo senhor Oficial Dia exclamou: - Em que é que tu andas metido? Após algumas explicações quem tinha mandado a GNR terá percebido que as coisas não eram tão graves quanto eles imaginavam. O desfile correu normalmente e só voltou a haver alguma agitação quando foi evocada e aplaudida uma representação da JOC da Hungria com quem Portugal não tinha relações. Os Húngaros não entraram em Portugal vindos directamente da Hungria, entraram em Portugal integrados na Delegação de Espanha. A partir deste episódio as minhas relações com o senhor Primeiro Sargento da Companhia passaram a ser relações bastante amistosas e que ajudaram muito na minha ida para Setúbal, depois de terminadas as especialidades.

Entre Mansoa e Mansabá fica uma localidade chamada Cutia onde durante a guerra aconteceu um desastre. Nas referências sobre Cutia não há nada anterior a 1967, mas recordo muito bem que se tratou de uma situação bastante complicada. Durante esse ataque as comunicações militares não funcionaram. Desconheço se por falta de capacidade ou problemas de acesso.

Estas foram as causas próximas que levaram à criação de um protocolo de apoio junto da PIDE.

Quis o destino que ao fim de 18 meses de Guiné, o Artur estivesse a cumprir as suas funções militares nas instalações da PIDE.

Foram mais 6 meses de Guiné, mas que foram muito bem passados, em contraste com os outros 18. Trabalhei bastante, de forma voluntária, mas nunca fiz nenhum serviço militar. Tudo o que era dito na Rádio Moscovo e na Rádio Argel era gravado e passado a limpo em máquina de escrever no dia seguinte. As relações de trabalho e amizade com os senhores da PIDE eram brilhantes e eu não me importava nada de fazer muita coisa para os ajudar ajudando-me a mim também. Vinham ostras de São Domingos, vinham frangos e cabritos de Nhacra, vinham camarões de Quinhamel, mas vinham também muitas outras coisas de muitos outros lados. Quando o turno tinha início às 16 horas havia taina pela certa.

Fui convidado para ficar na PIDE, mas isso não estava nos meus objectivos e como tal declinei o convite.

No ano de 1967 entrei para os quadros da Função Pública, fiz juramento de activo repúdio pelo Comunismo e todas as ideias subversivas, tal como a tomada de posse o exigia, e fiquei definitivamente vacinado.

Artur Conceição
STICA 2712/63
SPM 2578
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Nota do editor

Último post da série de 6 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28409: Retalhos da vida militar (12): Os que ficaram e viveram as partidas (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

Guiné 61/74 - P28432: Humor de caserna (297) : O anedotário da Spinolândia - Parte XL: Retrato satírico do brigadeiro António Spínola: oito sextilhas em redondilha maior, recolhidas pelo ex-alf mil médico Alberto Lema Santos (BCAÇ 1933, 1967/69)




Foto nº 1


Foto nº 2

Foto nº 1 > Foto histórica de Spínola (e do seu ajudante de campo) > Guiné > Região de Cacheu > Bula > Pecuré > Op Ostra Amarga > 18 de outubro de 1969 > Depois da emboscada do IN, o general Spínola (1910-1996) (acabado de ser promovido em julho desse ano de 1969, já com um ano no TO da Guiné), com o seu ajudante de campo, o cap cav cmd João Almeida Bruno (1935-2022), mais tarde general (e que deu origem a uma das diversas alcunhas do governador e comandante-chefe, "Aponta, Bruno").

Na foto, o então cap Almeida Bruno está de luvas e óculos Ray-Ban, empunhando a sua G3. O com-chefe, por sua vez, está também de luvas, e com o seu aristocrático monóculo. Estavam ambos em pleno local, onde se deu a emboscada, de que resultaram 2 mortos entre as NT (CCAV 2487 / BCAV 2868). Estão camuflado e quico na cabeça.

A foto original, a preto e branco, é do "Paris-Match" nº 1071, de 15 de novembro de 1969 (Com a devida vénia...). Resconstituição, melhoria técnica e colorização: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI).  O rosto dos dois oficiais foi reconstituído pela geração de imagem (foto nº1), pelo que não podemos garantir uma reprodução facial fiel à fotografia documental original. Para efeitos do nosso arquivo histórico, convém sempre preservar essa distinção entre "restauro" e "reconstituição".




"Retrato satírico do brigadeiro António Spínola"
(recolha de Alberto Lema Santos / Manuel Lema Santos)


1. Por um feliz acaso, deparei-me com estes versos, no blogue Reserva Naval, do nosso saudoso Manuel Lema Santos (1943- 2025). Mas já antes tinham sido publicados por ele  no blogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 65/74 > 13 de novembro de 2011 > Voo 2574: Uma Visão Satírica do Brigadeiro António de Spínola. 


São oito estrofes, em sextilha (seis versos) e em redondilha maior (=sete sílabas poéticas),  muito usada pela poesia popular mas também pelos nossos maiores poetas do séc. XVI, como Camões.
Nas tradicionais cantigas à desgarrada, ao som da concertina, tão típicas do nosso Minho, a sextilha em redondilha é muio utilizada. O esquema métrico usado é geralmente este: AAB CCB (o 1º verso rima com o 2º, o 4º com o 5º, e o 3º com o 6º).
Estas 8 sextilhas em redondilha maior, que passamos a reproduzir, são de autor desconhecido, mas feitos por alguém que "sabia da poda"... Seria provavelmente algum oficial miliciano, eventualmente oriundo de Coimbra.  E devem datar de 1968/69~.

Lembra o nosso camarada da Marinha que o BCaç 1933 embarcou para a Guiné em 27Set67 e regressou em 20Ago69. Esteve em Nova Lamego em São Domingos.

(...) "Integrado neste batalhão, seguiu também para aquele território o alf mil médico Alberto Lema Santos". 

Desempenhou funções de clínico em quase todos os subsectores  do setor de Nova Lamego, "vindo a ser destacado mais tarde, em final de abril de 1968, para a CCaç 1801 (Cap Inf José Daniel Barros Adão/Cap Inf António Manuel Pacheco Rosa) responsável pelo subsector do Ingoré, com um pelotão no Sedengal e outras forças igualmente destacadas nos reordenamentos de Antotinha e Apilho, ainda que mantendo-se integrada no BCaç 1933". /...) 

E ainda sobre o seu irmão, mais velho (de que ele me chegou a falar: em 2003  era chefe do serviço de cardiologia do Hospital de São Francisco Xavier), diz o Manel:

(...) Num percurso de muitas localidades, consultas, tratamentos, conselhos e confidências, ficou também o insubstituível humor militar de caserna na forma de missivas, descrições, relatos e poesias.

 Neste caso particular, estes versos satíricos, policopiados no papel da época, já envelhecido pelo tempo, visando o “Homem Grande de Bissau” ou “Caco Baldé”, como ficou conhecido o então Brigadeiro António de Spínola." (...)

Faremos proximamente uma análise literária deste documento que pode ser descrito como um retrato satírico do brigadeiro António Spínola, acabado de chegar ao CTIG em meados de 1968.  São uma obra-prima de "humor de caserna" (*)  que vai enriquecer também o "Cancioneiro da Nossa Guerra". Quem os quiser cantarolar, pode encaixá-los no conhecido fado "Canoas do Tejo", imortalizado pelo Carlos do Carmo, com música de Frederico Brito.

A letra foi revista e fixada por nós. Tinha pequeno erros  (de datilografia) que corrigi. Tal como melhorei a pontuação. O maior é "arreiro": deve ler-se "arrieiro". 

 Aproveito para saudar o dr. Alberto Lema Santos, e agradecer-lhe a preservação desta relíquia, de grande valor documental para a historiografia da guerra da Guiné e para a socioantropologia do nosso quotidiano.  Faço votos para que se encontre bem e de boa saúde, e convido-o simultanemante a sentar-se aqui, connosco,  à sombra do nosso poilão.  (LG)


1
Caco de olho vidrado,
Perfil de gato assanhado
Com ferraduras no pé,
Mais do que bom cavaleiro,
Eu sou o maior arrieiro
Cá das terras da Guiné.

2

Trago tudo apavorado,
Dou barraca em todo o lado,
Volto tudo do avesso,
Mal ou bem há que mudar!
O que eu pretendo é roncar
Por qualquer que seja o preço.

3

Digo mal do que está feito,
Condeno todos a eito,
Com fúria de paranóico.
Mesmo quando faço asneiras,
Nunca perco as peneiras
Nem quebro o meu ar heróico.


4

Entre os chefes mundiais,
Como eu, há poucos mais,
Capazes de fazer obra,
Meto galgas colossais,
Faço charlas passionais
Com muita banha da cobra.


5

Irmãos d'armas, meus rapazes,
Vós de tudo sois capazes,
Vós dais lições aos que mandam!
Se a missão não é cumprida,
A falta só é devida
Àqueles que vos comandam

6

Vós não procurais favores,
Nem medalhas, nem louvores,
Por nada vos dais por quites.
É o porte valoroso
Do bom povo generoso
Qu' afronta as falsas elites.

7

Eu conheço-vos a todos;
Convosco lutei a rodos,
Lá p'lo Norte de Angola;
Andei convosco no mato,
Continuo o mesmo chato
Quando meto o pé n'argola,

8

Sou, como vós, um soldado;
Estou sempre do vosso lado
P'ra punir oficiais.
Faço heróis dos cavaleiros,
Fabrico chefes guerreiros,
Só eu mando, ninguém mais!






Texto e arranjo gráfico do autor do blogue Reserva Naval, o Manuel Lema Santos (. O documento original foi cedido por Alberto Lema Santos, ex-alf mil médico, BCaç 1933, 1967/69, e irmão do autor do blogue).


Font: Adapt de blogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 65/74 > 13 de novembro de 2011 > Voo 2574: Uma Visão Satírica do Brigadeiro António de Spínola, por Manuel Lema Santos, oficial da Reserva Naval, Algueirão, Sintra.

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Guiné 61/74 - P28431: Humor de caserna (296) : O anedotário da Spinolândia - Parte XXXIX: "O Grande Spínola" (Vitor Oliveira, ex-1º cabo melec, BA 12, Bissalanca, 1967/69)


Mensagem do Vitor Oliveira, ex-1º cabo melec
(BA 12, Bissalanca, 1967/69); membro da nossa Tabanca Grande desde 13/5/2009; vive em Caneças:



Data -terça, 29/10/2013, 09:58 (*)

Assunto: O grande Spínola

Estávamos em Nova Lamego, e eis que um dia, perto da hora de almoço, aparecem dois helis em que vinha o general Spínola e o piloto era o falecido cap Rodrigues, que nos pediu para abastecermos os helis enquanto eles almoçavam porque o iam voar novamente e que ligássemos para a messe de sargentos do exército para nos trazerem o almoço.

Assim foi, tínhamos um telefone no posto de rádio em que o radiotelegrafista da Força Aérea era o Pires. Resposta:

─ Os doutores, se quiserem, venham cá abaixo comer!

Eu disse logo:

─ Não vamos lá, isto vai dar caldeirada.

Isto porque a maioria dos sargentos do exército não aceitava que fossemos os primeiros a ser servidos e, mais, ao jantar nós íamos comer à civil e eles não.

Assim foi, não fomos almoçar. Eis que chega o cap Rodrigues, juntamente com cap Almeida Bruno, ajudante de campo do general Spínola e atrás vinha este com um major e o tenente coronel. Um era o 2º comandante e o outro o 1º do quartel.

Fui logo falar com o cap Rodrigues e disse-lhe que não tínhamos almoçado. Eis que o Spinola apercebeu-se que havia merda, como se costuma dizer, e vai daí chama o Almeida Bruno e ele diz-lhe o que se passou. Ele vira-se então para o major e o tenente-coronel e diz-lhes para mandar o oficial e o sargento da messe para São Domingos, que era onde havia mais combates.

O major e o tenente coronel só diziam:

─ Ó Sr. Governador, pedimos desculpa!..

E o Spínola dizia:

─ Isto não pode acontecer, os rapazes estão fartos de trabalhar!

O abastecimento era feito com bombas manuais, a tirar de bidões de 200 litros. Depois mandaram buscar sandes e cervejas, e assim foi o nosso almoço.

A partir desta cena, quando entrávamos na messe, o sargento punha logo os faxinas a servir-nos-

Vitor Oliveira ("Pichas")

1º Cabo Melec
(BA 12, Bissalanca.1967/69)

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)


2. Comentário do editor LG:

Não pomos em causa a veracidade do relato do Vitor. De qualquer modo, não há "contraditório", como na maior das vezes...  Nem  sabemos em que data se passou esta "cena" que também tem o seu lado pícaro (**)... E que por isso merece ser de novo aqui reproduzida, mas agora na série "Humor de caserna"... 

Anedota não é necessaraimente "piada". Vem do grego anekdoton, que significa "não publicado", "inédito". É o relato de situações situações curiosas que aconteceram com alguém, e que são não necessariamente engraçadas. Por exemplo, um comandante de batalhão tratar o general Spínola por "senhor governador"... É credível ?... Ou os sargentos do exército tratarem os "camaradas da FAP", os "mecânicos" como "senhores doutores"...

Não sabemos em que mês e ano o Vitor esteve destacado em Nova Lamego, que era, então, o maior aeródromo do CTIG, fora de Bissalanca.  Os 1ºs cabos especialistas (bem com os pilotos) da BA 12, Bissalanca, podiam ser destacados para Nova Lamego por períodos relativamente curtos.

No ano de 1968 o Vitor Oliveira voava muito com o sargento Honório, em missões de proteção de colunas de Lamego para Beli (destacamento cuja guarnição é mandada retirar por Spínola, em 15/7/1968), e para Madina do Boé (retirado em 6/2/1969). 

Nem sabemos exatamente em que data o Vitor terminou a sua comissão; só sabemos que foi em 1969. Em meados desse ano (julho) Spínola é promovido a general.

Que batalhão é que estava em Nova Lamego nessa altura ? Sabemos que o BCAÇ 2825 em 21Fev68 assumiu a responsabilidade do Sector L3, com sede em Nova Lamego e abrangendo os subsectores de
Canquelifá, Piche, Pirada, Buruntuma, Bajocunda, Madina do Boé e Nova Lamego, onde rendeu o BCaç 1933. 

Em 14Ju168, com a atribuição de novas subunidades, foram criados os subsectores de Canjadude e Cabuca. 

Em 24Nov68, por criação do Sector L4, a sua zona de acção foi reduzida dos subsectores de Piche, Canquelifá, Buruntuma e Bajocunda. 

Em 04Fev69, o sector foi ainda reduzido do subsector de Madina do Boé, após evacuação da área pelas NT, sendo em 250ut69 criado o subsector de Madina Mandinga.

De 15Mar69 a 110ut69, integrou, com as suas forças, o dispositivo do COP 5, então criado.

Em 29Nov69, foi rendido no sector L3 pelo BCaç 2893, recolhendo a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.

Comando do BCAÇ 2825: 

Cmdt: TCor Inf Joaquim Esteves Correia | Maj Inf Cristiano Henrique da Silveira e Lorena | TCor Inf Manuel Maria Pimentel Bastos;
2.° Cmdt: Maj Inf Cristiano Henrique da Silveira e Lorena | Maj Inf Fernando Luís Guimarães da Costa | Maj Inf Cristiano Henrique da Silveira e Lorena;
OInfOp/Adj: Maj Inf Fernando Luís Guimarães da Costa.
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Notas do editor LG:

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28430: Notas de leitura (1970): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
É melhor tarde do que nunca. Não vale a pena andar a verrumar a consciência por ter esquecido este livro monumental (na dimensão e no sopro) em que intervêm ex-combatentes, gente que terá andado para os lados de Mueda, regressam nos inícios de 1970 e começam nova vida, um tenente-coronel que entretanto enviuvara e se vai meter de amores com a mulher a dias, isto muito antes de aparecer uma das figuras mais notáveis da galeria romanesca de Lobo Antunes, dá pelo nome de A nuvem de perfume; o soldado Abílio que trabalha na empresa de mudanças do tio, o oficial de transmissões que é militante de uma organização maoísta, o alferes que casa com uma menina muito bem e que nem sonha com o que lhe vai ser reservado com o 25 de abril, estão todos em jantar de convívio, há para ali um narrador que passa por capitão ou tenente, já há uns capitães em movimento, este jantar mete os desabafos mais íntimos, contam-se os desmandos que cada um vive ou está a viver... e o leitor que se prepare que o 25 de abril só vem mais adiante.

Um abraço do
Mário



Chegámos da guerra, apanhámos o fim do Estado Novo, vivemos o 25 de abril e o depois: como e porquê "Fado Alexandrino", de Lobo Antunes, é um notável romance ancorado no fado de ex-combatentes – 1

Mário Beja Santos

Esta obra-prima de António Lobo Antunes teve a sua primeira edição em 1983, vem na sequência de um ciclo de obras que versam a experiência dele como tenente-médico em Angola, a sua vida profissional como psiquiatra, os desabafos sobre a sua vida íntima. Fado Alexandrino, considerado pela crítica como um dos seus textos fundamentais, justamente premiado, prende-se com a história de um conjunto de militares no período final do Estado Novo, segue-se o 25 de abril e o PREC e o culminar de um tempo de rescaldo.

Romance a várias vozes, por vezes interferindo quase em vertigem o que eles vão dizendo uns aos outros ou o que guardam para si no discurso da consciência, falando desabridamente da vida amorosa onde não faltam desastres e desencontros, no seu trabalho, da atmosfera do país, temos aqui um retrato da década de 1970 e o início da próxima.

Abre as hostilidades o soldado Abílio, veio de Moçambique, aliás como todos aqueles que vão entrar nesta monumental sala de espelhos, é desmobilizado num quartel na Encarnação, sente-se lá e cá, sabemos que os pais, entretanto, faleceram, vai bater à porta da casa onde os pais viveram e onde agora vive a irmã Maria Otília. Vai conversando com os camaradas ao longo do jantar, conta-lhes que a irmã se juntou com o primo da porteira, um mulato que trabalhava no restaurante do aeroporto, e que a vai derreando de filhos,  de porrada, não há lugar para ele naquela casa, irá procurar o tio Ilídio, no serviço de mudanças teremos muitos pormenores mais adiante.

Intervém agora o alferes, dizendo que era casado e com uma filha pequena nessa altura, chegado de Moçambique apresentou-se no banco, tal como o soldado anda por lá e cá:
“Sentei-me no gabinete, fechei a porta e pensei Não houve guerra nenhuma, não andei vinte e tal meses em Moçambique de espingarda às costas, inventei coisas parvas esta noite: a disenteria, a água choca, os mortos, os feridos, o oficial de sapadores que ficou sem o braço ao desarmar uma mina. Pensei Não houve guerra não houve guerra não houve guerra não houve guerra, e comecei devagarinho a esquecer-me. Quando me trouxeram o café, às onze da manhã, nunca saíra de Lisboa e África era os nomes dos rios que se decoravam na escola e a gente esquecia logo a seguir, para os substituir por serras, gramática e o ramal da Beira Baixa. Olhava as pessoas, meu capitão, as secretárias, os colegas, os empregados, os contínuos, despachava requerimentos, folheava propostas, assinava relatórios, e pensava É claro que ontem estive cá, que merda devia eu para ter chupado tantos sonhos esta noite?”

A obra tem um narrador, um tanto misterioso, pensamos que por vezes é um tenente ou um capitão. Temos agora o oficial mais graduado a apresentar-se, tenente-coronel, foi comandante de batalhão desta gente, a mulher morreu-lhe de cancro, vai conversando com um oficial de transmissões, este queixa-se da vida cara, o tenente-coronel encontra a casa vazia, vazio anda ele, não deixa de meditar no futuro:

“Que vou fazer agora um ano inteiro, atrás de uma secretária, a dar ordens a sargentos bolorentos, e depois de novo Angola ou Guiné ou Moçambique e vinte e tantos meses de guerra, armas, caixões, rostos cansados de sobreviverem todos os dias ao próprio medo, à própria inquietação, ao próprio pequenino desespero tenaz a evaporar-se…”

Outra figura em cena neste jantar de largas centenas de páginas: 

“O oficial de transmissões morava com a madrinha surda e uma cadela gorda, às manchas brancas e pretas, sem raça, num andar muito velho, de salas enormes, na rua por detrás da feira popular (…) A minha madrinha morreu em setenta e cinco, gasta da PIDE ir lá a casa de madrugada, buscar-me para os interrogatórios.” 

Interrompe o tenente-coronel para se queixar da então vida sem rumo, atropela o oficial de transmissões, vai descrever a sua vida de esquerdista-maoísta, iremos até às profundezas de uma organização ultraminoritária sonha em revoluções, assaltos e atentados com esquemas de completa risota.

É a vez do alferes contar a sua história, os seus amores pela Inês, uma menina oriunda de um meio muito bem a viver numa quinta em Carcavelos, houvera casamento apressado, a Inês já ia de esperanças, o nosso alferes, que se chama Jorge, recorda que lá em Moçambique um catequista lhe vendeu uma menina, houve que pagar dote pela criança, perpassa na narrativa um dos fantasmas mais dolorosos do colonialismo.

O tal capitão, que às vezes se assume como narrador pergunta ao soldado Abílio como é que ele se adaptou ao trabalho, ele responde-lhe e bem divertido:

“Chegava às oito da manhã ao armazém, com os vidros das janelas lá no alto, junto ao teto de zinco, todos partidos, paredes fuliginosas, as palavras NÃO FUMAR, a encarnado, pálidas como batom numa camisa velha, móveis e caixotes e armários coxos que uma claridade difícil, a vara, vinda não se sabia de onde, iluminava, revelando superfícies poeirentas, estofos devorados pelos ratos, armações de bidés, a gaiola do escritório do tio à entrada. Era aí, meu capitão, do lado de fora, claro, que se aguardava o serviço do dia (Mudar o recheio do número Tal da rua Tal para a avenida Tal, trazer a tralha mais pesada de uma vivenda em Caneças, ir a este endereço de Caxias rebocar dois pianos para a Amadora), batendo as solas no chão com frio, fumando cigarrecos baratos, observando o céu descolorido pelas fendas no telhado. Havia uma espécie de galeria precária no primeiro andar, onde se deixavam as lancheiras do almoço, se mudava de roupa e se comia, com um postigo para a cerca do asilo dos malucos, na qual miseráveis homenzitos de farda castanha gesticulavam no meio de árvores polémicas. O senhor Ilídio entrava às oito e meia sem cumprimentar ninguém, soprando a sua asma feroz de pacaça num susto de roncos e de silvos, de barba crescida e olhos inflamados por insónias tormentosas, palpava o casaco à procura da chave e encerrava-se no cubículo entulhado, carimbando faturas, protestando contra a anarquia de papéis que ele próprio segregava.”

O soldado Abílio descreve os outros empregados, um velho a quem faltavam três dedos e um tipo magro que não falava nunca.

Como já se preveniu, esta escrita prima por excessos, cenas delirantes, a paixão de Abílio pela Odete, que se saberá mais adiante que é a Dália da organização maoísta, nesta altura do andamento do jantar o nosso tenente-coronel já tem informação que os capitães andam muito agitados com a possibilidade dos milicianos virem a concorrer na escala, o tenente-coronel medita na sua infância e na sua juventude e temos mais uma história de caixão à cova, o tenente-coronel mete-se de amores com a mulher a dias, a filha entra de surpresa lá em casa, cobre a boca aberta com a mão numa infinita surpresa de criança.

Vamos seguidamente conhecer a história do oficial de transmissões lá no Terreiro do Paço, a fazer vigilância em nome da sua organização maoísta, que só sonha com revoluções, atentados e raptos e irá planear um assalto a um banco, dada a sua exiguidade de fundos.


António Lobo Antunes (1942-2026)

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 9 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28419: Notas de leitura (1969): Nos 100 anos do historiador Padre Henrique Pinto Rema e onde fala dos Lusíadas e a Guiné (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28429: Monografia de Fajonquito-Sancorla - Uma pequena contribuição (3): Património Material e Cultural, Economia e Figuras de destaque (Cherno Baldé)




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Fajonquito > Junho de 1972  > De esquerda para a direita, soldados condutores da CCAÇ 3549, "Deixós-Poisar" (1972/74): (i) José Maria, João Vasconcelos, Carvalho, Fernando Silva, o Mandinga;  e (ii) os seus jovens amigos, Jorge Suleimane Baldé, Mamadu Saido Candé (Barbosa), Braima Baldé (Banda6) e Cherno Abdulai Baldé (Francisco ou Chico), junto da caserna da Ferrugem.

Foto original, a preto e branco, e baixa resolução, do álbum do Cherno Baldé.  Restauro, melhoria técnica e colorização: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI).

MONOGRAFIA DE FAJONQUITO-SANCORLA

“UMA PEQUENA CONTRIBUIÇÃO”


Natural de Fajonquito (Farimbali), nascido em meados de 1960 e baptizado em Sintchã Samagaia ou Luanda na margem direita de Berecolom.
Frequentou o Curso Geral dos Liceus em Bafata (1975/79) e o Complementar no Liceu Nacional Kuame N’krumah em Bissau.
De 1985 a 1990 fez estudos superiores de licenciatura e mestrado no Instituto Superior de Economia de Kiev que ostentava o nome do lider Soviético de origem ucraniana Demyan Serhiyovich Korotchenko (ex-URSS).
De 1993 a 1995 fez um Curso de Pós-graduação no Centro de Estudos Africanos do ISCTE-IUL de Lisboa e de 2001/2003 frequentou um curso de mestrado sobre a Cooperação Internacional e Desenvolvimento no ISEG/UT, Lisboa, Portugal.
Trabalhou sempre em Bissau com varias deslocações aos países da sub-região, primeiro como funcionário Publico do Ministério das Obras Públicas, Construções e Urbanismo, depois como Director Executivo da Associação Profissional das Instituições de Microfinanças (AP-SFD-GBissau) tendo, de seguida, trabalhado como Consultor/Gestor e Analista Financeiro em vários projetos de Desenvolvimento ligados a organizações internacionais, nomeadamente Banco Mundial, BAD, UE (FED-Célula de apoio ao MEF em Bissau) e no Sistema das NU/PNUD, de 2013 a 2026.



7. PATRIMÓNIO MATERIAL E CULTURAL

Suncudjuma – Bolanha situada a ocidente de Fajonquito e continuação da bacia hidrográfica do rio de Canjambari e que, por sua vez, é o prolongamento natural dos rios Farim ou Cacheu. O ponto principal de atracção da juventude e actividades recreativas era a ribeira (Mahel) de Saré-Tchumo, onde as jovens iam lavar roupa nos fins de semana e onde a juventude se concentrava para as suas diversões de fim de semana.

Berécolom ou Bercolon – Sítio importante pelo seu significado histórico, constituído pelas ruínas da antiga localidade mandinga de Bercolon, um dos sítios mais importantes do antigo império mandinga de Gabu (Farim-B’rassu) e pela bolanha de mesmo nome que, juntamente com a bolanha de Suncudjuma, fornece os principais cereais como arroz e milho, produtos base de alimentação da população das redondezas. À volta de Bercolon existiam vários matagais (Suru Marebaghé, Suru Sintchã, Suru Farimbali) com nascentes onde as mulheres iam buscar água fresca e potável para suas casas e também existia a lagoa de Bantaghel, o paraíso das aves pernaltas (Cunhgas-Guelodhé) e dos jovens pastores.

Djuncoré – Bolanha a Sudeste da Fajonquito, fronteira natural entre os Regulados de Sancorla e de Mansonna, perto de St. Adjango. Neste local existia uma grande lagoa que, sobretudo na época era o local, onde as mulheres vinham fazer a lixívia e onde os animais vinham matar a sede. Local mítico que, segundo a crença local, era a residência do chefe dos Irãs que viviam na zona. Durante o período nocturno, era visível a claridade que irradiava do seu grande Poilão situado mesmo ao lado da Lagoa, na sua margem esquerda (Mansonna). Muitas pessoas traziam para aqui as suas oferendas destinadas a satisfazer os pedidos ligados à sua vida económica, social e espiritual, manifestações de crenças e rituais de culturas pré-islâmicas que continuavam a animar e regular o ritmo da vida do dia a dia.

Na margem esquerda do lago Djunkoré encontrava-se um poilão bem alto e que, durante o período nocturno, irradiava uma luz florescente provocando o efeito bômina (claridade), que era visível a uma grande distância. Djunkoré funcionava como o refúgio dos homens e das aves, onde se praticavam as cerimónias e rituais masculinos. Todas as gerações passadas fizeram-se homens neste espaço mítico e verdejante. Deste ângulo subia uma linha de força de retorno à aldeia de Canhamina, sede do Regulado de Sancorla, completando assim, com as outras duas linhas de força invisíveis, uma espécie de triângulo místico, o famoso triângulo de vida de Canhámina. O conjunto formava assim um ambiente natural propício para a vida animal, em particular das aves selvagens. Mas, também constituía o centro da vida económica, social e cultural das aldeias e suas redondezas que incluia também a localidade de Fajonquito.

A escola pública de Fajonquito – Oficialmente, começou a funcionar no início dos anos 60 e teria beneficiado do seu primeiro pavilhão em 1962, cujo o primeiro Professor teria sido Inocêncio Kani, futuro quadro e combatente do PAIGC que, com o Mamadu Turé (Momo), Aristides Barbosa, Mamadu Indjai, entre outros, fizeram parte do grupo dos conspiradores que assassinaram Amílcar Cabral, fundador e Secretario-Geral do PAIGC em 20 de Janeiro de 1973, em Conacri. Mas os Professores e também Directores mais carismáticos que trabalharam nesta escola foram, sem sombra de dúvida, o Mambucar Sanhá (1966-1972) e Luis Abulai Mané (1970-1978?).

A Capela de Fajonquito – Construída em 1967, pela Companhia 1501, funcionou até 1974 e com a partida dos soldados portugueses em 1974, foi abandonada e mais tarde demolida para cosntruir em seu lugar a casa da associação das mulheres horticultoras de Fajonquito no centro da vila.

A Cooperativa Agricola de Fajonquito (CAF) – Uma inicitaiva do Governador Spínola (1968/73) no quadro da sua politica “Por uma Guiné melhor”, foi construída em 1970 para melhor organizar a produção e venda da fileira do amendoim e garantir a conservação e distribuição de sementes de qualidade logo no início das chuvas. No local ainda se podem observar as paredes e algumas poucas estruturas sobreviventes.

Mesquita de Fajonquito – Fundada em 1972, foi construída no espaço que servia inicialmente de campo de futebol, mesmo no centro da vila. Foi demolida em 2017 e no mesmo ano se iniciou a sua reconstrução num perímetro maior e com fundações, alvenaria e tecto em betão armado. A família de Aladje Coli-Waga Baldé (1915?-1993?) foi impulsionadora e garante da primeira mesquita e os seus filhos na pessoa de Tcherno Corca que o substituiu na direcção da mesma ao seu irmão mais novo, Aladje Amadu Baba, são os seus actuais continuadores.

Centro de Saúde de Fajonquito – Construído em meados de 1973/74, começou a funcionar após a independência em finais de 1974, com a partida dos soldados portugueses que se iniciou em Agosto de 1974, na sequência do golpe militar de 25Abril74 em Portugal, e culminou no dia 1 do mês de Setembro do mesmo ano com a cerimónia de hastear da bandeira nacional na parada do quartel. O seu primeiro Enfermeiro foi o Dr. Mamadu Candé, actualmente quadro superior do Ministério da Saúde e Técnico do Centro Piloto de Tratamento de Noma em Safim a seguir seria dirigida, durante muitos anos, pelo Enf. António Mendes Tavares, ja falecido.


8. ECONOMIA (COMÉRCIO E ARTESANATO)

Durante muito tempo a economia da zona baseou-se na produção do milho, do arroz de bolanha e do amendoim (mancarra) que sucederam paulatinamente a Borracha e o Coconote, para consumo das famílias e para comercialização. Ultimamente, com a baixa da procura e dos preços do amendoim no mercado internacional, o cajú transformou-se no principal e único produto comercial para obtenção de rendimentos na economia familiar segundado pelo Gergelim cuja procura tem aumentado nos últimos tempos.

Na época colonial, as principais casas comerciais da vila e da zona eram: A Casa Gouveia (Depois Armazéns do Povo), Casa Ultramarina (depois SOCOMIN), Casa Cardoso, Casa Mario Lima, Casa Esteves, Casa Luciano (Carvalho de Alvarenga), Casa Campos, Irmãos Casimiro e Costa Pinheiro, (mais tarde Denane Sissé).

Actualmente em Fajonquito funciona uma Feira semanal (Lumo), ao ar livre no espaço do antigo aquartelamento militar, todas as quartas feiras onde comerciantes de várias origens, incluindo da vizinha República do Senegal vêm vender as suas mercadorias e artefactos, evento que concentra toda a população das redondezas e constitui um acontecimento importante de troca de produtos, de abastecimento as famílias em produtos de primeira necessidade, principalmente arroz que, paulatinamente vem substituindo os outros produtos agrícolas como o milho, o fundo e o feijão que antes constituiam a base alimentar das populações da secção. A ocasião, também, serve para troca de informações e de encontros de natureza diversa.

No domínio do artesanato é de destacar a ourivesaria de Botché Baldé (Botché Bailo), as ferrarias de Djinnôh Sandem, Djammeh Cassama, de Braima Gumbo Baldé, entre outros.



9. FIGURAS DE DESTAQUE

Dadiina Baldé – Um rico ganadeiro é o mítico fundador do regulado de Sancorla, que após a guerra entre a confederação dos muçulmanos (fulas, mandinga-moris e Djacancas do império de Gabu), teria adquirido ou concedido as terras que hoje constituem o espaço do regulado de Sancorla das mãos dos homens de confiança de Alfa Molo. Todavia, existe uma outra versão que aponta o próprio Dadiina como um dos Fula-forros e homens de confiança de Alfa Molo que o apoiaram durante a guerra de libertação conduzida pelos fulas de Firdu, e a quem ele teria confiado a continuação da conquista desta região nas mãos dos Farinados Soninqués ainda muito activos, com os quais teria conseguido negociar para estabelecer uma convivência pacífica e que se mantém até hoje entre as duas étnias que partilhavam muito em comum a começar pela própria cultura e línguas.

Braima Djamé Baldé – Branjame (1856/1948) – Filho de Ellá Samba Baldé, neto de Samba Sáhabu e bisneto de Dadhina Baldé, líder carismático e que marcou a fase da ascenção e autonomia do regulado de Sancorla na sua aliança com a administração Portuguesa entre 1886 (batalha de Fanca entre os homens de Mussa Molo e a coluna do Tenente Marques Geraldes onde se teria distinguido levando à fuga definitiva de Mussa Molo para a Gambia) e 1935/36 (última guerra de pacificação contra os Canhabaques), onde perdeu a vida seu filho Abdu Buram, príncipe herdeiro de Sancorla. Segundo uma versão ainda por confirmar, o Branjame morreu em Canhâmina em 1938, vítima de ganância de uma das suas numerosas mulheres que o teria envenenado, pensando poder conquistar o seu coração, com uma posologia mágica, preparada por mãos inimigas.

Sambel Koiô Baldé (1916-1975/6) – Régulo de Sancorla após a morte do pai e o desaparecimento de Abdu Buran, príncipe herdeiro e seu irmão, na guerra de Canhabaque, foi durante a sua regência que eclodiu a guerra colonial. Juntamente com os seus irmãos e toda a família do regulado, defendeu com valor e muita bravura as terras de Sancorla de Cambaju a Suna, de Panambo a Cansonco, graças ao qual foi possível suster o avanço da guerrilha e proteger o território e as suas populações da fuga iminente para o Senegal. Consta que o PAIGC e seus principais dirigentes tudo fizeram para o mobilizar para a causa da luta que levavam a cabo, sem sucesso. Após a independência, em 1975 ou 76 um dos comandantes da guerrilha sediada em Fajonquito aconselhou-o a fugir, secretamente, pois tinham recebido ordens para a sua detenção. Sambel Koio teria abanado simplesmente a cabeça e respondido que ele nunca fugiu na sua vida e que, se tivesse que morrer, preferia morrer em Sancorla, a terra dos seus pais e avós. Segundo consta, foi preso e fuzilado em Bambadinca em 1975/76?, juntamente com o seu irmão mais novo, Demba Djulde Baldé, pelos homens do PAIGC (Madina Cudjido?). Os seus corpos nunca foram entregues às suas famílias para o luto a que tinham direito como homens, chefes de famílias e da sua comunidade.

Maudê Tôdhju Baldé (1917/1973?) – Alferes de 2.ª linha e Comandante do Pelotão de Milícias, tendo passado por Cambaju, Saré-Uale, Fajonquito e Suná, agraciado com a Medalha de Cruz de Guerra de 3.ª Classe e Prémio Governador da Guiné em 1966 por feitos heróicos como militar, morreu de crise cardíaca no Hospital Principal de Bissau, onde estava hospitalizado, em 1973.

Fanca Djau – Indigitado chefe da Tabanca de Fajonquito de 1964 a 1989..?, pai de Carlos Bubacar Djau, Alferes da 2.ª Companhia de CMD Africanos e do Professor Djibril Djau (Iddé), Director da escola de Fajonquito durante muitos anos, originário da aldeia de Bancô, abandonada com a eclosão da guerra colonial em 1963/64.

Alfa Módi Bailo Djaló – Originário de Futa-Djalon, República da Guiné-Conacri, no início do séc. XX, foi o primeiro Almame e um dos primeiros habitantes Fulas de Fajonquito, faleceu em (1995..?) na localidade de St. Samba (Samansata) a meio caminho entre Canhamina e Fajonquito, para onde se tinha mudado para se juntar ao seu sobrinho e genro, Alfa Umaro Djalo, iminente figura do Isláo e da comunidade local após ter perdido a liderança da mesquita a favor dos filhos de Coli Waga, regressados do Senegal, Futa-Toro após seus estudos coránicos.

Denane Sissé - Comerciante dinâmico e proprietário de uma das mais antigas casas em Fajonquito que teria adquirido nas mãos dos irmãos Pinheiro, aconselhado pelas autoridades locais, era também detentor de uma outra loja na localidade de Cambaju. Denane teria sido um dos primeiros filhos de Fajonquito a serem escolarizados e, mais tarde, a entrar no mundo dos negócios com a compra de uma das casas comerciais, no início da guerra colonial a conselho das autoridades militares e civis em Fajonquito que, segundo consta, temiam pela fuga da família para o Senegal como tinha acontecido com muitas famílias mandingas, logo no início da guerra colonial (1963-1974).

Professor Mambucar Sanha (Bafata) – Foi um dos primeiros e mais antigos professores em Fajonquito, onde trabalhou por mais de 10 anos e ajudou na formaçáo da primeira geração de alunos que saíram desta escola nos anos 60/70.

Carlos Borges Figueiredo (Portugal) – Capitão e comandante da companhia metropolitana do exército português, (CART 2742) que esteve estacionada em Fajonquito durante dois anos (1970/72) onde morreu vitima da explosão de uma granada defensiva accionada por um dos seus soldados, a 2 de Abril de 1972. Durante a sua permanência e, no quadro da política Spinolista “Por uma Guiné melhor” contribuiu para melhor a formação dos alunos da escola de Fajonquito bem como a relação entre os soldados e a população local, através de uma maior abertura e animação cultural da vila com a vinda de artistas e músicos da metrópole (grupo de Eva Maria em 1971).

Dr. Carlos Bubacar Baldé (1958/…) - Nascido na aldeia de Farimbali, arredores de Fajonquito, o primeiro Fajonquitense a concluir o 11.º Ano de escolaridade e depois a Licenciatura (em Farmácia na Universidade Nova de Lisboa em 1989). Foi um aluno e médico brilhante que sob a orientaçao sábia do professor Mambucar Sanhá concluiu o ciclo do ensino primário (4.ª Classe), no tempo recorde de 3 anos lectivos (1968/71), que, normalmente, era feito em 5 anos, tendo seguido para Bissau a fim de frequentar o Ciclo Preparatório na Escola Marechal Carmona (hoje Salvador Allende). Terminou o curso complementar dos Liceus (Honório Barreto, actual Kuame N’krumah) em 1978, com honra e distinção, integrando o melhor grupo de sempre deste liceu nacional, na companhia de destacados filhos da Guiné, em particular do também médico cirurgião e PhD, Joaquim Tavares (vulgo Djoca) actualmente a exercer nos Estados Unidos.

António Mendes Tavares (1937..?/2018) - Enfermeiro colocado em Fajonquito desde (1977...?), depois de passar alguns anos por Contuboel, desempenhou com um grande brio profissional as suas funções e, graças ao seu elevado grau de profissionalismo, humanismo, talento natural e carisma, conseguiu cativar a atenção e a estima da população de Fajonquito e arredores tendo-se reformado em meados de 1995.



GENEALOGIA DA CASA REINANTE DE SANCORLA (CANHAMINA)

DOS FILHOS DE DADINA (Patriarca de Sancorla)

- DADINA gerou SAMBA SAÁBU;

- SAMBA SAÁBU gerou DJOMEL SAMBA, HELLÂ SAMBA e NHIMA;

- DJOMEL SAMBA gerou ALIU FANTA …;

- HÊLLA SAMBA gerou MALAM HELLA, TOMBOM QUEBA, EGUÊ FILY, BRAIMA DJAME (BRANJAME), SAMBA UDÉ, DEMBA UDÉ, MERRA UDÉ, KUMBA UDÉ e N’DUNDE.

- NHIMA gerou MUSSUNDIM e MAMA.



DA DESCENDENCIA DOS FILHOS DE HELLÂ SAMBA

- MALAM HELLÂ gerou ALACOM e DJABU DANDJO.

- TOMBOM QUEBA gerou TCHERNO TOMBOM, MERA TOMBOM e SAMBA TOMBOM.

- EGUÊ FILY gerou NAÔH (NDÔ), AWA EGUÊ, SAMBA EGUÊ (SAMAGAIA), DEMBARO, PATÉ/PARÉ (PARERO) e TAMBA MAUDÔ.

- BRAIMA DJAME (BRANJAME) gerou ABDU, BONDHÔ, MÉRA, DEMBA, WUDÉ, SAMBEL KOIÔ, DEMBA NUMÔ, DJARI, GUNDÔ, FENDA, KUMBA NHAMA, MÂNSARA, MANUEL (MANELI), GUELA, NHARÔ, MÉRA, SÊGA, MBUNHA, DJOMEL, TÔBHO REDI, BAMBA, FANTA, ANSA, MANA NUIA, KINDI, MAUNDÊ TÔDJHU, MABÔ, DJAMANTI, KÔIO AWA, KUMBA AWA, NHAMA, TCHOMONKOLI, MUSSUNDIM, TUMANE, MAMUDO DJENA, CADI DJENA, SAMBA, KUNDJA, QUENDÔ, SANCULÉ, CADI BUIA, MADIU TATA, NDJUCAW, TAMBADU, MAMADU KUMA BAMBI, BINTA, DJHÔNHA, YOBA SIREM e BHOIDÔ TENEM. (49 filhos).

- SAMBA UDÉ (SAMA-UDÉ) - irmão de Branjame indicado para chefiar a “Diwal” de Kerwane/Panambo a Leste - gerou WALI, MUTARO, SIDI, NHANA, MARIAMA KINDI, MAKI, MARIAMA, DJIBA KULUNDO, NDUNDE KUMBA, DJADJA KOBA, KUMBA LAO, KUMBEL, BINTA BODJEL, BRANJAME, TUMANE, SIRANDIM, RUDDO, TCHEDEBEL, TALARA, KITALI e KUMBA BODJEL.

- DEMBA UDÉ (DEMA-DUORA) - indicado por consenso da familia para chefiar a “Diwal” de Lenkebémbe/Cambaju - gerou ALA BURI, YOBA I, ALFA, BINTA, DJAME, BOTA, GUELA, YOBA II, MAMADU ALIU (MAMA ALIU), HAMADU SHERIFO (HAMA-SHERIFO), MAMARE, NHANHA, TENEM DJUBA, ADULAI DJUBA, SIRAEL DJUBA, BOBOGUEL, USSAINATU (ASSINATU), SAMBA BODEDJO, UBBA, BEDJA e BACARI TCHOMONKOL.



DOS FILHOS DA EGUÊ FILY BALDÉ E MOLO BALDÉ
(seu primo nascido da mesma familia de Dadina, Patriarca de Sancorla):

MOLO (ou MOR-SEIDE) E EGUÊ FILY (ou MARIAMA BALDÉ), nascidos respectivamente em meados da década de 1850/60 em Panambo (?), o primeiro falecido por volta de 1922/23 em Kerewane onde residiam na altura e a segunda em 1967 na localidade de Cambaju, onde estavam refugiados após o inicio da guerra colonial de 1963/74 na entao Guiné Portuguesa hoje Guiné-Bissau.

DO CASAMENTO DE EGUÊ FILY E DO SEU PRIMO MOLO BALDÉ nasceram : NAÔH mais conhecido por N’DÔ (1907/8), AWA EGUÊ (1909/10), SAMBA GAIA (1911/12), DEMBARO (1913/14), PATÉ (1915/16) e TAMBA MAUDHO (1917/18).

- NAÔH, após a morte do pai em Kerewane e a mudança da familia para Canhâmina, casou com a Kumba Nhama, filha do seu tio Branjame com quem gerou BASSIRO, MARIAMA (MARÂ) E YOBA.

- SAMBA GAYE, tendo casado com Mansara, também filha de Branjame e gerou ALIU, ADAMA …

- DEMBARO gerou BOBO SUNCA, AWA SUNCA, ANSARU SUNCA.

- TAMBA MAUDHO (ALIU TAMBA) gerou IBRAIMA, BUBACAR TAMBA (CARLOS), CHERNO TAMBA, RAMATULAI, AISSATU FANTA, CANTABA, UMO ASSY, ROSA ASSY, MAMADU BOBO e ASSANA YOBA.


(Fim)
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Nota do editor

Vd. post de 10 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28424: Monografia de Fajonquito-Sancorla - Uma pequena contribuição (1): Localização geográfica e população; Origem e significado do nome Sancorla e Significado e origem do nome Fajonquito (Cherno Baldé)
e
11 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28426: Monografia de Fajonquito-Sancorla - Uma pequena contribuição (2): Sancorla no contexto das guerras entre fulas e mandingas...; Início da guerra e a deslocação das primeiras Unidades Militares para Fajonquito e Imagens de Fajonquito (1964-1974) (Cherno Baldé)

Guiné 61/74 - P28428: Convívios (1076): hoje é o dia da caldeirada anual da amizade, na festa de Ribamar, Lourinhã, em homenagegm ao nosso Eduardo Jorge Ferreira (1952-2019)



Prompt e orientação editorial: Luís Graça
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)
Geração gráfica assistida por IA (ChatGPT/OpenA)


Eduardo Jorge Pinto Ferreira (Lourinhã, Vimeiro, 1 de outubro de 1952 - Torres Vedras, 23 de novembro de 2019). O querido professor Eduardo, como lhe chamam ainda hoje  as gentes de Ribamar, a sua segunda terra natal. (Foi um dos professores-fundadores da Escola C + S de Ribamar, mais tarde, Escola Básica de Ribamar, no ano letivo de 1992/93… E depois seu diretor, até à reforma.)

Foi também o nosso saudoso régulo da Tabanca de Porto Dinheiro / Lourinhã. Membro da nossa Tabanca Grande desde 31 de agosto de 2011. Apresentou-se nestes termos aos camaradas Guiné: "Estive em Bissalanca, na BA12, de 20 de Janeiro de 1973 (triste data, a do assassínio de Amílcar Cabral, ) a 02 de Setembro de 1974, colocado na EDT (Esquadra de Defesa Terrestre) como Alferes miliciano da Polícia Aérea, onde era conhecido por Ferreira. (...) Depois de vir da Guiné, e como era voluntário na Força Aérea por 6 anos, passei pela Comissão de Extinção da PIDE/DGS (Gabinete de Imprensa) e pelo Estado Maior General das Forças Armadas (1ª Divisão) donde passei à disponibilidade em Junho de 1977."



Ao nosso Eduardo: a amizade 
continua em Ribamar



1. Para o nosso (e)terno Eduardo

Há seis anos, em 23 de novembro de 2020, ainda em plena pandemia, juntámo-nos no cemitério do Vimeiro, onde repousam os teus restos mortais,  para te prestar uma pequena homenagem, com a colocação de uma lápide na tua campa.

 Foi então que te li estas palavras, em meu nome e dos teus muitos amigos, colegas, companheiros e camaradas. Estavam presentes um dos teus filhos e a tua São.


Para o nosso (e)terno Eduardo: notícias dos amigos cá de baixo

Eduardo, p’lo bem, amor e amizade
Qu’em vida connosco quiseste partilhar,
A tua memória prometemos honrar,
Deixando aqui o rasto doce da saudade.

Notícias te damos também da nossa terra,
Onde nasce e se põe o sol todos os dias,
Sabes como é, há tristezas e alegrias,
Mais a pandemia, que lavra como guerra.

Mas faz-nos falta teu sorriso luminoso,
Tua gargalhada fraterna e sonora,
Teu abraço acolhedor e generoso.

Teimamos em falar contigo, cá deste lado,
Também um dia chegará a nossa hora,
Mas até lá serás sempre... por nós lembrado!

Vimeiro, 23 de novembro de 2020

Os teus amigos, colegas, companheiros, camaradas.


Leiria > Monte Real > 25 de maio de 2019 > XIV Encontro Nacional da Tabanca Grande > Da esquerda para a direita, Carlos Camacho Lobo, médico (Maia), Jorge Pinto (Sintra) e Eduardo Jorge Ferreira (Lourinhã) (seis meses antes de morrer)...

Foto (e legenda): © Luís Graça (2019). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].

2. Notícias dos amigos cá de baixo: encontramo-nos hoje em Ribamar!


Se fosses vivo, Eduardo,  terias completado 74 anos no passado dia 1 de outubro. Foste alf mil de Polícia Aérea (PA), na BA 12, em Bissalanca, na Guiné, em 1973/74... Ainda te recordas ?... Foste professor de educação física e, mais tarde, diretor da Escola Básica de Ribamar, no Agrupamento de Escolas de Dom Lourenço Vicente, na Lourinhã... 

Foste tantas coisas, Eduardo, de autarca a dirigente associativo, de caminheiro a "sargento das tropas luso-britânicas durante a Batalha do Vimeiro de 1808"... 

Foste sobretudo um homem de afetos, de encontros, de convívio e de amizades duradouras.

A tua memória continua bem viva entre nós. O teu exemplo permanece inspirador e o nosso blogue tem 75 de referências à tua vida e à tua memória.

Uma das melhores maneiras de continuarmos a lembrar-te  é mantermos a tradição que tu próprio criaste: juntarmo-nos na festa de Nossa Senhora de Monserrate, em Ribamar, à volta de uma boa caldeirada à pescador.

Coube depois a uma comissão "ad hoc",  dos teus  amigos, condiscípulos e camaradas   (João Vinagre, Jaime Silva, Luís Graça, Pinto Carvalho, Rogério Ferreira, etc....) manter este encontro anual, marcado para a segunda-feira da segunda semana de outubro. 

Uma tradição com mais de 30 anos, iniciada em 1994, quando tu eras professor em Ribamar, e que só foi interrompida em 2020 e 2021, por causa da maldita pandemia. Ainda não havia a Tabanca Grande, nem a Tabanca de Porto Dinheiro, nem nenhum  outra... Aliás, só te conheci por volta do início deste milénio,

O encontro de 2019 foi organizado por  ti próprio. Pouco mais de um mês depois, a tua morte inesperada, na sequência de uma intervenção cirúrgica de ambulatório numa clínica privada, deixou-nos a todos em choque. Custa ainda aceitar que  tu tenhas partido tão cedo e de forma tão abrupta.

Hoje, 12 de outubro de 2026, segunda-feira da segunda semana do mês, vamos  imaginar-te de novo de braços abertos, na festa de Ribamar (que era a tua segunda terra), pronto a receber os teus amigos, colegas e camaradas, como tantas vezes o fizeste.

Este ano, somos menos do que noutras ocasiões, mas contamos com 52 inscrições para o nosso convívio anual. Em 2024, fomos 75. Reunimo-nos sobretudo antigos colegas de seminário da região Oeste, com percursos por Santarém, Almada, Penafirme e Olivais, uma boa parte dos quais antigos combatentes. São vidas que seguiram caminhos diferentes, mas que continuam ligadas por uma história comum e por amizades que resistem ao tempo. 

Estará connosco, mais uma vez, a tua querida Conceição Ferreira,  mãe dos teus filhos, que também «bebeu a água do Geba», como tu.

Da Tabanca Grande, também não faltam presenças amigas, eu, Luís Graça, Alice Carneiro, Jaime Silva, Joaquim Pinto Carvalho e Estêvão Henriques, entre outros. 

Desta vez, não poderemos contar com o Carlos Silvério,  o Jorge Pinto e alguns companheiros habituais. Mas teremos, pela primeira vez, o Manuel Resende e a esposa, bem como o João Crisóstomo e Vilma, vindos de Nova Iorque, onde vivem, e de visita a Portugal (. Acaba de me dizer que não pode ir, por ter adoecido de repente; estamos já na época das gripes e viroses...) Fui eu que te apresentei o João Crisóstomo, lembras-te ? E foste tu que depois o apresentaste ao Rui Chamusco... 

Como o Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... Grande!

A logística também está assegurada, graças ao Jaime que faz a ligação à comissão organizadora e à à nossa querida Fátima, que continua a ser  a "alma mater" da festa, como no teu tempo: foram encomendados 26 tachos de caldeirada, cada um para duas pessoas, e as reservas foram feitas com antecedência, logo no início das festas, que decorrem de 8 a 14 de outubro. Quem nos "chama a capítulo", agora é o João Vinagre, da Benedita.

A festa de Ribamar, a tua (e nossa) festa,  continua ser um dos grandes acontecimentos sociais do concelho da Lourinhã. Para nós, os teus amigos cá de baixo. porém, tem um significado ainda mais especial: é a continuação da nossa Tabanca de Porto Dinheiro / Lourinhã, de que tu foste  régulo, o homem que nos juntava e que fazia de cada encontro (apesar de anual) uma celebração da amizade. E a continuação de outras tabancas...

É por isso que voltamos. É por isso que nos sentamos à mesma mesa onde tu te sentaste.

Eduardo, já não estás fisicamente entre nós, mas há tradições que são mais fortes do que a ausência. À volta da mesa, entre a caldeirada, as conversas, as recordações, as gargalhadas, as cantorias... continuamos a dar-te notícias dos amigos cá de baixo.

E, daqui a um bocado, ao meio dia, quando nos começarmos a  juntar em Ribamar, vindos dos quatro cantos do Oeste, o teu sorriso, a tua generosidade e a tua amizade reviverão!

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Nota do editor LG:

Último poste da série 13 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28344: Convívios (1075): 66º Almoço-convívio, dia 24/9/2026, quinta feira, no Resturante Caravela de Ouro, Algés: há já 31 inscritos (Manuel Resende)

Guiné 61/74 - P28427: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XLIV: De Porto Gole a Bissá, de sintex, pelo rio Geba



Foto nº 1, 1A





Fpoto nº 2, 2A, 2B, 2C


Foto nº 3

Guiné > Região do Oio > Sector 04 (Mansoa) > Porto Gole > CART 2411 > c. 1969 : Viagem de "sintex",  do capelão José Torres Neves, em meados de 1969, de Porto Gole a Bissá. Ele foi o fotógrafo, não aparece na foto. Vê-se Porto Gole ao longe, na margem norte do Rio Geba.  Os militares que forma a escolta não estão identificados. Sobre Bissá vd. fotos dele, j'a aqui publicadadas em tempos (Postes P 23838 |  23834 | 23631 | 23488 ).

A foto nº 2 foi melhorada com recurso à IA (ChatGPT / Open AI). Tal como a nº 3 (Gemini / Google IA); estava muito escura.

Fotos (e legendas): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI | Gemini / Google IA)



Guiné > Carta de Fulacunda  (1955) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Porto Gole e Bissá, na margem Norte do Rio Geba. Do outro lado, a península de Gampará onde não havia tropas nossas até 1972, e o Rio Corubal. Com a guerra, todas as povoações  ribeirinhas, balantas,  entre Bissá e Porto Gole desapareceram (Funcor, Séé, Nafo, Colicunda, etc.)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1. Continuação da publicação do álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71).

Organização e seleção (temática e não necessariamentye cronológica)  feitas pelo seu amigo e nosso camarada Ernestino Caniço, ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 2208 (Mansabá e Mansoa) e Rep ACAP - Repartição de Assuntos Civis e Ação Psicológica, (Bissau) (Fev 1970/Dez 1971) (médico, foi diretor do Hospital de Tomar, 6 anos, de 1990 a 1996, e diretor clínico cumulativamente 3 anos, de 1994 a 1996, vivendo então em Abrantes; hoje vive em Tomar).

O José Torres Neves é missionário da Consolata, na situação de refirma. Passou quase toda a sua vida em África. Vai fazer ou já fez 90 anos. Desejamos-lhe  boa saúde e ainda longa vida.
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Nota do editor LG: