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domingo, 21 de junho de 2009

Guiné 63/74 - P4558: IV Encontro Nacional do Nosso Blogue (4): Até nem faltou o Lion Brand, o repelente antimosquito... (Luís Graça)

Quinta do Paul, Ortigosa, Monte Real, Leiria > IV Encontro Nacional do nosso blogue > 20 de Junho de 2009 > Da esquerda para a direita, três camaradas do Norte: o Ribeiro Agostinho (Matosinhos) (*), o José Carlos Neves (Leça da Palmeira / Matosinhos) (**) e, por fim, o Fernando Oliveira (Porto) (***)


Quinta do Paul, Ortigosa, Monte Real, Leiria > IV Encontro Nacional do nosso blogue > 20 de Junho de 2009 > Nada nos faltou, neste dia, nem o calor da Guiné (em sentido físico e figurado) nem o cheiro (inesquecível) do repelente anti-mosquito Lion Brand... Não sei quem trouxe a amostra, mas vi várias nas mãos do António Graça de Abreu e do José Casimiro Carvalho... Neste pequeno vídeo ouve-se várias vozes (Luís Graça, J.Mexia Alves e sobretudo Álvaro Basto que conta aqui uma pequena história com um Lion Brand que pegou fogo aos lençóis da cama...).

E a propósito do Lion Brand, reproduzo aqui um excerto de um poste (****) do Fernando Oliveira, ex-Fur Mil Rec Inf, Guidage e Mansoa, 1968/70, e que esteve presente no nosso encontro com a sua Maria Manuela:

(...) Após a aterragem no campo de aviação de Farim e feitas as habituais diligências de apresentação ao respectivo comando, foi-me dito que a coluna militar para Guidage sairia apenas na manhã do dia seguinte.

Nessa noite, se me recordo bem, fiquei instalado num barracão ou num hangar junto do aeródromo. E pela primeira vez tomei contacto com a realidade dos mosquitos na Guiné, que atacam em força e de qualquer jeito. Como no sítio não havia mosquiteiros, a alternativa foi a utilização do Lion (1) durante toda a noite (...).

(...) (1) Aquele nome era a marca de um produto, de cor verde, formatado em tiras finas e em espiral, que se colocava em cima de uma pequena base metálica. Queimando-se a ponta exterior da espiral, então, o produto ardia lentamente e deixava o ar impregnado de um odor que afugentava os mosquitos (...).


Vídeo (1' 02''), foto e legendas: Luís Graça (2009). Direitos reservados

__________

Notas de L.G.:

(*) Vd. poste de 29 de Março de 2009 > Guiné 63/74 - P4098: Tabanca Grande (129): Manuel José Ribeiro Agostinho, ex-Sold Radiotelefonista, Condutor Auto e Escriturário, QG/Bissau, 1968/70

(**) Vd. poste de 11 de Maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4322: Tabanca Grande (138): José Carlos Neves, ex-Soldado Radiotelegrafista do STM, Cufar, 1974

(***) Vd. poste de 19 de Abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4214: Tabanca Grande (135): Fernando Oliveira, ex-Fur Mil Rec Inf (Guiné, 1968/70)

(****) Vd. poste de 29 de Abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4265: Estórias avulsas (32): De que me lembro é dos mosquitos e do Lion-Brand (Fernando Oliveira)

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Guiné 63/74 - P13775: Inquérito online: Resultados preliminares (n=133): um em cada dois teve o paludismo... Mas só um um terço tomava sempre ou quase sempre a Pirimetamina, comprimido oral, de 25 mg, do Laboratório Militar (LM), como profilaxia... 40% tomava o medicamento e mesmo assim teve o paludismo

Foto; Cortesia de António Tavares (2014)
A.  Resultados preliminares da nossa "sondagem", em linha (n=133),  quando faltam dois dias para encerrar a votação (*):

SONDAGEM:  NO TO DA GUINÉ TIVE O PALUDISMO E TOMAVA O MEDICAMENTO... (Resposta múltipla. Vd. blogue, no canto superior esquerdo)


1. Não me lembro se tive paludismo  > 3 (2%)


2. Não me lembro do medicamento para o paludismo  > 7 (5%) (**)


3. Sim, tive paludismo  > 64 (48%)


4. Não, nunca tive paludismo  > 26 (19%)


5. Não,  nunca tomava o medicamento    > 2 (1%)


6. Sim, tomava sempre (ou quase sempre)  > 45 (33%)


7. Sim, tomava, mas só às vezes  > 26 (19%)


8. Tomava o medicamento e tive o paludismo  > 53 (39%)


9. Tomava o medicamento e nunca tive o paludismo  > 19 (14%)


10. Nunca tomei o medicamento nem nunca tive paludismo  > 9 (6%)


Votos apurados: 133 (até às 6h00 de hoje). Dias que restam para votar: 2




Leiria > Monte Real > Ortigosa > Quinta do Paul > IV Encontro Nacional da Tabanca Grande  > 20 de Junho de 2009 >

Nada nos faltou, neste dia, nem o calor da Guiné (em sentido físico e figurado) nem o cheiro (inesquecível) do repelente anti-mosquito, da marca Lion Brand... Não sei quem trouxe a amostra, mas vi várias nas mãos do António Graça de Abreu e do José Casimiro Carvalho... Neste pequeno vídeo ouve-se várias vozes (Luís Graça, Joaquim Mexia Alves e sobretudo Álvaro Basto que conta aqui uma pequena história com um Lion Brand que pegou fogo aos lençóis da cama...).

Vídeo (1' 02''): © Luís Graça (2009). Todos os direitos reservados

Mosquito Anopheles gambiae.
Foto: cortesia da Wikipedia

Como prevenção e proteção contra o temível Plasmodium Falciparum (o mais perigoso dos quatro parasitas da malária, e que era  e é endémico na Guiné-Bissau, transmitido pelo mosquito anopheles, foto à direita), usávamos várias medidas quer individuais quer coletivas, como o uso correto de vestuário (sobretudo à noite: roupas largas, calça  e camisa compridas, "à boa maneira colonial"), protetores e repelentes (ainda não havia ou não estavam vulgarizados os aerossois, pelo que usávamos pomadas LM, no mato, horrorosas, mal cheirosas...), rede mosquiteira na cama, portas e janelas fechadas ou protegidas com rede (não havia ar condicionado fora de Bissau!), fumigações, desinfeções, remoção e tratamento do lixo, etc., para além da quimioprofilaxia...

Como se sabe,  apenas as fémeas dos mosquitos se alimentam de sangue... E picam (picavam)  essencialmente durante a noite, e logo nas zonas do corpo mais frequentemente  expostas (face, orelhas, pescoço, braços e pés)... Alguns de nós, não sei porquê, atraíam mais mosquitos (fêmeas) do que outros... Havia  a crença que o álcool (gin tónico, uísque, etc.) era um "bom repelente"... Pobre fígado!... (LG)

________________

Notas do editor.

(*) Vd. poste anterior: 18 de outubro de  2014 > Guiné 63/74 - P13753: Sondagem: Quem não apanhou o paludismo, que ponha o dedo no ar ?!...

(**) Sobre a Pirimetamina (substância ativa), ver aqui a informação do INFARMED [, folheto aprovado em 13/1/2104]. Segundo alguns camaradas (e nomeadamente o dr Rui Vieira Coelho,  médico), o comprimido, do Laboratório Militar (LM), era tomado duas vezes por semana (às 5ªs e domingos, em Galomaro, em 1972/74), em doses de 25 mg, como quimioprofilaxia do paludismo. (***). Não sabemos durante quantas semanas, mas presume-se que era durante a toda comissão. O medicamento (preventivo) não era (nem é) 100% eficaz.

Sobre a doença, sintomas e tratamento, vd aqui o Manual Merck [Biblioteca médica "on line". Edição de saúde para a família]

(***) Vd,. poste de 16 de outubro de  2014 > Guiné 63/74 - P13743: Os nossos médicos (80): Memórias do Dr. Rui Vieira Coelho, ex-Alf Mil Médico dos BCAÇ 3872 e 4518 (12): Até a Maria Turra dizia que o antipalúdico Pirimetamina, do Laboratório Militar, fazia mal à tusa...


(...) Na Guiné pedia aos operacionais para não se esquecerem de tomar um anti-palúdico do Laboratório Militar, de nome Pirimetamina, ás quintas e domingo, para evitar as crises palúdicas, que por vezes tomavam características graves como o Paludismo Cerebral.

Por vezes sentia-me a pregar aos peixes como Santo António, pois o pessoal achava que se tomassem os comprimidos teriam alterações negativas no seu desempenho sexual. (...)

Nas crises palúdicas o tratamento era feito com Resochina em soro polielectrolítico e aplicação endovenosa e dava sempre uma incapacidade de alguns dias, sobrecarregando os colegas e diminuindo a capacidade operacional do grupo de combate a que pertenciam ou levando á substituição por outro pessoal o que moral e eticamente era reprovável no caso de serem feridos em combate. (...) 

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Guiné 63/74 - P4862: Páginas Negras com Salpicos Cor-de-Rosa (Rui Silva) (5): Como se vivia no abrigo da ponte de Uaque



1. Mais um episódio da série do Rui Silva, ex-Fur Mil da CCAÇ 816, Bissorã, Olossato, Mansoa, 1965/67, enviado em mensagem com data de 21 de Agosto de 2009:





Novembro de 1966.
O abrigo de Uaque.
Reviver o homem das cavernas trocando a moca pela G3.


Ali pelo menos aumentei os meus dotes de cultura geral, pois fiquei a saber que:

- Os porcos nadam e de que maneira;

- que com 20 anos pode-se comer tudo e de tudo que tudo engorda (portanto não mata) e que atirando uma granada ofensiva para um rio (passe a selvajaria) os peixes numa fracção de segundo e num raio de 10 metros aparecem todos a boiar de barriga para o ar acabando ali o seu reinado.



Das minhas memórias “Páginas Negras com Salpicos cor-de-rosa”

Foi então aqui no abrigo de Uaque a 5-6 quilómetros de Mansoa e na estrada que ligava aquela a Bissau, um pouco depois do carreiro para Jugudul, que eu vivi das páginas mais interessantes e palpitantes de toda a minha vida na Guiné. Não por ser um sítio maravilhoso, pacífico ou acomodativo, antes pelo contrário, no que diz respeito principalmente aos dois últimos predicados, mas sobretudo pelo insólito da situação.

O abrigo, construído recentemente, em pedra ligada por uma massa espécie de barro escuro, o tal barro que os indígenas usavam na construção das suas moranças, de planta quadrada, tinha seteiras em todos os seus 4 lados o que nos dava a possibilidade de defesa em todos os ângulos. Interiormente, outro quadrado em parede, paralelo ao exterior, formando assim um corredor em quadrado de circuito fechado. Era então aqui no corredor em forma de galeria que tomávamos posições em caso de ataque inimigo. Este corredor servia de tudo: arrecadação de munições, víveres, dormitório, etc. Era a nossa casa.

As paredes do abrigo ficavam metade abaixo do nível do solo (portanto enterrado) cerca de 1,5 m. Visto do lado de fora o abrigo tinha sensivelmente aí uma altura de 1,5m também. Logo as seteiras estavam um pouco acima do nível do solo visto do exterior e à altura adequada do lado de dentro. Estávamos assim protegidos quer pela frente quer pelas costas, quer ainda por cima, pois o dito corredor estava coberto de espessa camada do mesmo material usado nas paredes ou parecido e tal como de um túnel se tratasse. Cada cama estava colocada junto a uma seteira para que a nossa reacção, em caso de ataque inimigo à noite (o mais provável), fosse a mais rápida possível. O número de camas estava dividido pelos quatro lados do abrigo.

No vão deixado pelo quadrado interior em parede, e aqui já a descoberto, ficava a cozinha ou espécie disso: 4 caibros ao alto sustinham uma cobertura em chapa de bidão (esta dava para tudo) por causa da chuva e que cobria então os tachos e as panelas que cozinhavam ao sabor das chamas da lenha, o comer da malta. Mais ao lado, uma mesa comprida de madeira e de construção rudimentar e com bancos corridos um de cada lado e em todo o comprimento da mesa, também em madeira e feitos também de forma tosca à boa maneira da tropa nos seus vinte anos.

Tudo isto dava um ar de guerra e ao jeito do far-west a que o tipicismo e a fisionomia natural da terra africana completava num enquadramento de belo significado.

A lenha que se ia apanhando um pouco por todo lado era empilhada no dito vão interior e devido à sua grande quantidade, ocupava, em alta pilha, mais de metade da área. De lenha para cozinhar estávamos bem fornecidos só que da outra lenha, era só aguardar…

Num do vértices do abrigo e do lado da ponte, portanto da estrada também, e para o lado de Mansoa, destacava-se, numa posição acima aí 1-1,5 metros do tecto do abrigo, uma guarita em jeito de pequena torre mas também de espessas paredes onde permanentemente ficava um homem, o homem que zelava pela vida dos camaradas, mantendo uma atenta vigilância e um ouvido muito apurado principalmente durante a noite: o sentinela. Este posto de sentinela era feito durante a noite normalmente por um milícia indígena.

Uma vez ao meio da noite subi para ver se ele estava tranquilo a dormir, mas não, de olho bem vivo varria com este todo o terreno circundante. Good, pensei eu.
Uma tosca mas segura escada também de madeira fazia o acesso a tal poleiro.
Ali estávamos e ali passávamos dias e dias naquele local um tanto inóspito, vivendo como ciganos acampados algures no mato.

O ambiente era de guerra pura, só guerra e sempre a guerra, pois dentro do abrigo respirava-se pólvora e só pólvora para além de um ar saturado de uma mistura de tudo. O volume do ar no abrigo não era grande e aquele também não corria. Só das seteiras é que se sentia algum ar fresco a entrar. Junte-se a isto o cheiro dos cozinhados(?), das drogas usadas para afugentar os malfadados dos mosquitos, também de alguns cheiros orgânicos, naturalmente, e assim vivíamos em ar interior muito adverso principalmente quando dormíamos. Por todo o lado, no dito túnel, só se viam cunhetes e mais cunhetes, - tropeçávamos neles - espingardas aqui e acolá, granadas de mão, de bazooka e de morteiro nem sempre bem acomodadas, um pouco de ao Deus dará.

Estávamos atolados em munições ou seja armados até aos dentes, e por aqui… O radiotelagrafista também tinha lugar ao seu posto privado. Parecia um escritório, só que depois de um terramoto.

Assim, em tais condições, julgávamos também que muito dificilmente o inimigo levaria a melhor pois estávamos numa autêntica fortaleza e o armamento que nos equipava dava-nos a maior garantia para além de contarmos com um rádio que periodicamente comunicava com Mansoa, e portanto seria fácil pedirmos reforços também. Estes podiam era demorar, estávamos conscientes disso.

A guarnição, (uma Secção reforçada) compunha-se de 10 homens: eu que era o comandante daquele destacamento, de um radiotelegrafista, de um bazookeiro na circunstância o destemido e voluntarioso Chaves que me avisou logo: - Furriel, se eles aparecerem eu vou lá para fora com a bazooka, aqui dentro não estou a fazer nada - , um homem do morteiro, respectivos municiadores e os restantes atiradores. Tínhamos lá medicamentos para as primeiras impressões: pensos, tinturas (a inevitável presença do 1214!), garrotes, ligaduras, etc. O Vizela pôs anti-alérgico na cabeça rachada de uma velha indígena! Dizendo-lhe que ia ficar boa!… e a pobre confiante e a agradecer com sorriso largo a mostrar uma cremalheira já muito desfalcada. O anti-alérgico dava para tudo, dizia ele. Os indígenas passavam por lá a socorrerem-se de qualquer ferimento mas a partir do episódio da velha, o Vizela ficou impedido de fazer curativos (conhecimentos clínicos a mais). A nossa iluminação era feita através de garrafas vazias de cerveja cheias de petróleo e uma tira de gaze a funcionar como pavio. Este era o mesmo tipo de iluminação que era usado exteriormente. Fora do abrigo havia uma cerca em arame farpado e a toda a volta daquele. Esta cerca ficava a uns 30-40 metros do abrigo. Nos dois pontos que atravessava a estrada Mansoa-Bissau, a cerca era substituída por cavalos de frisa que eram desviados sempre ao alvorecer para dar passagem à passagem eventual de viaturas e também ao pessoal indígena que fazia a sua vida necessitando de passar naquele ponto da estrada.

À noite e aquando da altura de se acenderem os exóticos candeeiros pendurados a espaços regulares na cerca, colocavam-se novamente os cavalo de frisa impedindo a passagem de pessoas ou viaturas pela estrada e garantindo assim uma protecção em todo o redor do abrigo. O arame farpado ficava assim em circuito fechado (mais ou menos).

Entre os soldados havia um que cozinhava muito bem, fazendo, e dentro dos condicionalismos existentes, uns pratos bem saborosos.

De manhã tomávamos café com leite com casqueiro, este preparado em torradas(?), principalmente quando ele ficava duro (o que era sempre). Por vezes calhava às outras refeições, frango e até leitão(!), pois os soldados metiam-se pelo mato dentro um tanto ou quanto arriscadamente, diga-se de passagem, e compravam (?) aos nativos aqui e ali a habitarem, os referidos animais.

Ainda me recordo de um belo dia em que o Barrumas saca de cada bolso do camuflado, qual ilusionista, um assustado frango. Diz-me ele orgulhoso e atirando os frangos ao ar. - Sabe quanto custou cada um, meu Furriel? Cinco coroas! - O Barrumas quando contava as façanhas dele até nem gaguejava.

Duma outra vez eis que aparece um porco (?) de focinho bastante comprido, à frente de um pequeno grupo de soldados e amarrado por uma corda e a dar bastante trabalho ao seu condutor. - Custou 30 paus, Furriel. Eles queriam um bocado mais mas fizemos-lhes ver que era 30 paus ou… de graça. Eles optaram pela primeira oferta.

Foi uma risota com o porco, pois este a dada altura soltou-se e tão cedo não deu descanso à malta, pois fugia e deambulava em todas as direcções. Foi um jogo do gato e do rato. A certa altura ele mete-se numa profunda e extensa poça de água e alguém grita: - Lá vai o nosso porco - mas qual não é o nosso espanto, que o porco nada com surpreendente destreza, atravessa o charco e volta à desenfreada correria. - Alto, temos porco outra vez - disse mais que um, de imediato. Após alguns segundos de expectativa e surpresa por o porco nadar, volta a perseguição. A nossa vingança não se fez esperar muito, pois volvidas algumas horas o porco assava numa comprida travessa de engelhado e oxidado alumínio, num improvisado mas eficiente(?) forno. O forno propriamente dito era nem mais nem menos que um bidão de chapa, outrora de óleo ou de qualquer combustível, aqui e ali meio enferrujado, embutido num pequeno combro mesmo junto ao abrigo. Este forno haveria de assar(?) muita coisa dali em diante e que nos iria saber às mil maravilhas. Talvez o cheiro ainda do óleo…

O habilidoso cozinheiro temperava aquilo cá com um jeito! Bem, também se não fosse os temperos esconderem muita coisa, muita coisa por certo ficaria por comer, apesar da fome.

De dia matávamos o tempo indo para o rio ali perto - um afluente do rio Mansoa -, cuja ponte feita com tábuas de madeira grossas e largas dispostas ao través justificava a presença do abrigo e militares ali perto. Nadávamos ou simplesmente saboreávamos da frescura proporcionada pela presença da água do rio. De vez em quando e para quebrar a rotina, levava uma granada e atirava-a à água. Breves segundos após a granada explodir apareciam à superfície diversos peixes a boiar de barriga para o ar. Coitados dos peixes, como se eles tivessem alguma coisa a ver com a guerra…

Agora me recordo de como por vezes nos arriscávamos a sermos cercados sem possibilidades de defesa, pois, se ao princípio nos preveníamos levando as G3 connosco, a partir de certa altura a malta e à boa maneira do Zé português prescindiu de tal empecilho, a ponto de estarmos ali uns poucos sem qualquer arma a acompanhar-nos. Era a tal predisposição para o comodismo e descontracção!... Coisas do diabo, e que só atentávamos nelas depois de acontecer alguma coisa. O que vale é que o inimigo não sonhava com tanto à-vontade da nossa parte e… fez o favor de nunca aparecer.

Acontece que uma vez até tremi dos pés à cabeça pois, ao chegar ao abrigo vindo do rio, verifiquei que não havia lá viv’alma pois uns fiados nos outros, deu em o abrigo ficar completamente abandonado. O abrigo até podia mudar de dono. Toda a malta estava portanto a banhos e longe do abrigo. Os que estavam mais perto era os que estavam na ponte e mesmo assim esta ficava a uma centena de metros do abrigo.

Uma imprevidência - no meio de tantas outras - que nos podia custar bem caro.

À noite, depois de jantarmos, jogávamos às cartas na grande mesa do tacho até o cansaço tomar conta de nós.

Tomávamos banho(?) com um dispositivo de chuveiro soldado a um latão e este pendurado num pau apoiado transversalmente em dois prumos também de madeira.

Enchíamos o latão numa poça de água estagnada ali ao pé - a mesma água que já tinha feito num sei quantos banhos! - pendurávamos então o latão outra vez e abríamos o dispositivo de chuveiro para a água jorrar. A água portanto era sempre a mesma (circuito fechado) e só se chovesse é que se alterava alguma coisa, e interrogava-me eu como é que nós estamos a tomar banho se a água até era cada vez mais suja. Valia pelo efeito psicológico e sabia bem a água a cair no corpo, este sempre muito acalorado. Acresce dizer que este exótico (e o que não era ali exótico?) chuveiro ficava na retaguarda do abrigo e aí a uns vinte metros afastado deste.

Bom, falta falar verdadeiramente da nossa missão ali e o porquê dum abrigo - eu diria fortaleza ou forte ou mina ou até bunker - ali instalado.

Corria o boato e ainda mais a avaliar pelos precedentes, pois já tinham sido vários os pontões por aquela zona a irem pelos ares pelas mãos dos turras neutralizando assim o trânsito de pessoas e carros e que a ponte de Uaque estava também ameaçada de destruição. Esta ponte, de grande importância na ligação Bissau-Mansoa, uma das principais artérias no norte da Guiné, com um razoável movimento de viaturas sobretudo e já se vê, militares. Este tráfego ia-se tornando cada vez mais arriscado pois a actividade terrorista na zona vinha gradualmente acentuando-se. E lembrar que eu, o Baião e o Martins aquando da nossa ida para férias na metrópole, alugamos um Volkswagen (o vulgo carocha) em Bissau a um Sargento e fizemos os três o trajecto Bissau-Mansoa e depois Mansoa-Bissau por causa de um documento qualquer que faltava - o Comandante Operacional em Mansoa até mudou de cor quando soube que tínhamos feito isto e não nos queria deixar sair de Mansoa. E eu que tinha acabado de tirar a carta militar e peguei num carro pela primeira vez…. O que vale a estrada Bissau-Mansoa era praticamente uma enorme recta. A ponte ficava e como já disse, a cerca de 5-6 quilómetros da concorridíssima Mansoa. Mansoa era muito populacional e com muito efectivo militar. Era sede de Batalhão, tinha uma Companhia operacional para além de por vezes também estarem por ali Companhias ou militares isolados em trânsito ou colunas para reabastecimento de quase todas as unidades militares no Oio: Bissorã, Cutia, Mansabá, Olossato e os diversos destacamentos: Encheia, Braia, Maqué.

Mansoa situava-se também num ponto estratégico quer geograficamente quer por estar servida de uma boa estrada para a capital Bissau e ser marginada por um dos maiores e importantes rios da Guiné: o rio Mansoa. Era também, ao que me pareceu, a porta de entrada para todo o norte da Guiné. Por aqui já se pode ver qual o interesse do inimigo em fazer ir pelos ares a ponte em Uaque. Sendo assim, havia a imperiosa necessidade de preservar a existência daquela e assim só com um efectivo militar de presença e vigilância permanente isso poderia ser garantido. A cerca de 100 metros da ponte e para o lado de Bissau e do lado esquerdo da estrada naquela direcção também, construiu-se então um seguro abrigo com um efectivo de 10-12 homens armados de Bazooka, morteiro 60 e todos com a sua G3. Como atrás disse, além de fazerem segurança à ponte, os militares ali presentes - parte deles - patrulhavam de vez em quando os terrenos limítrofes que até dava para trazer (ou pilhar?) frangos e outros animais de criação.

Para além do isolamento, pois estávamos ali como sós no mundo, nada se divisava que denunciasse a existência humana, e as privações, já se vê, eram muitas.

Tínhamos à noite a habitual rotineira e impiedosa visita de milhares de mosquitos. Uma vez o rio ali perto cuja água praticamente sem corrente - esta existia em função das marés (lembra-se que a maior parte dos rios na Guiné são extensões do mar) - e a existência de bolanhas mais ou menos alagadas a toda a volta do abrigo, tudo isto originava a proliferação de mosquitos que com a sua sede sanguinária viam ali em nós pasto a considerar. A vingança dos peixes se calhar…

À noite dava-se uma autêntica invasão e por mais que nos cuidássemos eles faziam-se sempre sentir através das suas desesperantes picadas. Ali o grande problema a seguir à guerra era a praga dos mosquitos. Uma das soluções para dormirmos sem esta indesejável companhia, era de ao deitarmo-nos agitar fortemente uma peça de roupa que estivéssemos a despir na ocasião e sem deixar de agitá-la ao mesmo tempo abríamos uma nesga do mosquiteiro até então hermeticamente fechado, e entrarmos em habilidade qual contorcionista e na máxima rapidez para dentro da cama, e logo sem demora fechar a nesga aberta. Apesar de tudo de todo o esforço e cautela, e para nossa grande arrelia não é que entravam sempre connosco 2 ou 3 daqueles clientes! Estes faziam-se ouvir logo após a nossa quietude para prepararmo-nos para dormir. Que raiva! Filhos da puta! era o que mais se ouvia aqui e ali naquelas alturas.
Havia então quem não se importasse com a presença de 2 ou 3 mosquitos no seu habitat, mas os mais impacientes não desarmavam enquanto o ambiente debaixo do mosquiteiro não ficasse limpo, e então davam-se ao trabalho de tentar liquidá-los espalmando-os entre as mãos. Quem não soubesse do que se tratava julgava que aquilo seria de malucos ou de então de algum intróito para uma peça de ópera. Bate aqui, bate acolá, era uma sinfonia de palmas quase ritmada e um pouco por todo o abrigo. Entretanto num, chegou a entrar um pirilampo que fez com que o hospedeiro dissesse: - Este filho da p… como não me via bem foi buscar uma lanterna.

Tínhamos connosco o Lion Brand, que era um produto de cor verde e em forma de espiral e que ia queimando como o morrão de um cigarro e cujo fumo era fortemente insecticida, mas isto ali pouco funcionava, a não ser deixar um cheiro pestilento naquele corredor quadrado do abrigo. Havia quem dissesse que ali o Lion Brand se calhar até os alimentava.

Colocávamos uns poucos a espaços regulares (2 metros) pendurados nas paredes interiores do abrigo mesmo junto às camas. Portanto ficavam a arder uma boa quantidade deles ao mesmo tempo. Uma unidade de Lion Brand dava em princípio para um quarto de dimensões normais e ali, colocados aos montes, parecia nada adiantar. Portanto a protecção única e válida ali, era ter o mosquiteiro muito bem fechadinho e preso por baixo do colchão e não encostar qualquer parte do corpo ao mosquiteiro pois se havia o azar de durante o sono deixar um braço ou um pé encostado ao mosquiteiro o desgraçado tinha muito que contar e coçar depois. O inimigo, na circunstância, atacava mesmo do lado de fora do mosquiteiro.

Esta guarnição esteve cerca de 3 semanas em Uaque. Acresce dizer que durante a minha estada no abrigo de Uaque nunca fomos atacados ou sequer vítimas de qualquer flagelação ou até dado por qualquer presença inimiga nas imediações. Os mosquitos é que nos davam cabo do toutiço e nos punha a tocar harpa (coça, coça) durante muito tempo.

P.S. - Hoje Uaque, ver fotos seguintes (reproduzidas com a devida vénia do site do Hotel Rural de Uaque”, tem um empreendimento turístico com base em bonitos bungalows com boa piscina e tudo. Como os tempos mudam! Neste caso para muito melhor, penso eu, e ainda bem.



__________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 8 de Julho de 2009 > Guiné 63/74 - P4656: Páginas Negras com Salpicos Cor-de-Rosa (Rui Silva) (4): CCAÇ 816, Operação faísca em Cansambo

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Guiné 63/74 - P4265: Estórias avulsas (10): De que me lembro é dos mosquitos e do Lion-Brand (Fernando Oliveira)

1. Mensagem de Fernando Oliveira, ex-Fur Mil Rec Inf, Guidage e Mansoa, 1968/70, com data de 22 de Abril de 2009:

Amigo Carlos,

Já vi a minha apresentação na Tabanca e o texto que te enviei na altura. Obrigado pela tua disponibidade.

Hoje envio-te outro texto [já foi publicado no meu
blogue
no dia 14 deste mês], que fica ao teu dispôr, se considerares que é de publicar e, em caso afirmativo, quando achares coveniente, ok?

Este texto, como o outro que te referi no mail do pedido de admissão, também têm como objectivo a procura dos meus camaradas da especialidade. Vamos lá ver se consigo algum contacto.

Um abraço e saúde, sempre!
Fernando Oliveira


A minha tropa [2]

Guiné -> Guidage -> Nov.68 a Fev.69 [1]

Corria o mês de Setembro/68, na altura dava formação a recrutas em Vila Real, quando tive conhecimento da minha mobilização para a Guiné em rendição individual. E foi também deste modo que a mobilização saiu em sorte à maior parte dos meus camaradas de especialidade, todos eles colocados de norte a sul do país em diversas unidades militares. Com mais cinco ou seis, que, entretanto, foram deslocados para outros destinos ou funções, tínhamos feito parte do pelotão de RecInfo, em Tavira, durante o último trimestre do ano anterior.

Após uma viagem de cinco dias a bordo do Uíge, eu e os outros vinte e poucos daqueles camaradas, promovidos a furriéis milicianos por antecipação, por força da mobilização para o Ultramar, desembarcámos em Bissau na tarde de 28-10-1968.

Foi-nos dada formação militar específica durante duas semanas no SIM/CTIG em Bissau, com vista à criação de uma rede do serviço de informações por toda a Guiné. Findo esse período, tomámos, então, conhecimento dos sítios para onde cada um de nós seria deslocado, sendo notório para todos que a separação operacional do grupo começava naquela altura.

A mim, calhou-me ser enquadrado no destacamento de Guidage, situado no norte, junto da fronteira com o Senegal. Aos meus camaradas saiu-lhes a colocação individual em vinte e tal aquartelamentos ou destacamentos das nossas tropas na Guiné.

Um ou dois dias depois daquela comunicação, fui transportado, de manhã cedo, ao aeroporto militar de Bissalanca, perto de Bissau. E passado pouco tempo estava instalado dentro de um Dakota para um voo até Farim. Fiz a viagem sentado num dos bancos de cordas, existentes de cada lado do interior do avião.

Após a aterragem no campo de aviação de Farim e feitas as habituais diligências de apresentação ao respectivo comando, foi-me dito que a coluna militar para Guidage sairia apenas na manhã do dia seguinte. Nessa noite, se me recordo bem, fiquei instalado num barracão ou num hangar junto do aeródromo. E pela primeira vez tomei contacto com a realidade dos mosquitos na Guiné, que atacam em força e de qualquer jeito. Como no sítio não havia mosquiteiros, a alternativa foi a utilização do Lion (1) durante toda a noite.

Com uma noite mal dormida, na manhã seguinte apresentei-me junto do militar responsável pela coluna que ia sair de Farim. E não refiro que ia sair para fazer o trajecto de Farim até Guidage, pois recordo vagamente que o destino final do grosso desta coluna foi outro e que, pelo caminho, num cruzamento de picadas (2) estava à nossa espera uma coluna vinda de Guidage. Mas, como digo, a esta distância de 40 anos, a lembrança não é firme (3). Recordo ainda que a coluna saída de Farim era composta por um comboio extenso de viaturas, com vista ao transporte de militares, civis e abastecimentos diversos. Na cabeça da coluna e um pouco distanciada das restantes, creio que seguia uma viatura anti-minas, precedida de soldados a picar o caminho para detectar minas enterradas no chão. Não me lembro quantas horas demorou esta deslocação terrestre, nem sei se avistei Guidage ainda naquela manhã ou se a tarde já tinha avançado.

O certo é que cheguei ao destacamento de Guidage. Em que dia?... Não me recordo, sei apenas que estávamos em Nov/68.

Notas:

(1) Aquele nome era a marca de um produto, de cor verde, formatado em tiras finas e em espiral, que se colocava em cima de uma pequena base metálica. Queimando-se a ponta exterior da espiral, então, o produto ardia lentamente e deixava o ar impregnado de um odor que afugentava os mosquitos.

(2) Designação dada aos caminhos ou trilhos de terra, que serviam de acesso entre povoações e/ou instalações das nossas tropas ou do inimigo. Uns mais largos, outros mais estreitos, todos de difícil trânsito, quer pela possibilidade de colocação de minas por parte do inimigo, quer pelos efeitos alagadores da época das chuvas.

(3) Neste texto, como em outros que tenciono escrever a respeito da minha tropa na Guiné, há certas imprecisões acerca de alguns factos ou de datas. E agora não os posso confirmar, porque, devido às voltas e reviravoltas da minha vida pessoal, já não existem as centenas de cartas, aerogramas e fotos que enviei de lá durante dois anos.

__________

Notas de CV:

(*) Vd. postes de:

19 de Abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4214: Tabanca Grande (135): Fernando Oliveira, ex-Fur Mil Rec Inf (Guiné, 1968/70)
e
21 de Abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4225: Estórias avulsas (30): Periquitos empoleirados numa GMC (Fernando Oliveira)

Vd. último poste da série de 22 de Abril de 2009 : Guiné 63/74 - P4235: Estórias avulsas (31): Recordar aos poucos ou circuncisão espectacular (Hélder Sousa)

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Guiné 63/74 - P1978: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (55): Mataste uma mulher, branco assassino!

Guiné > c. 1968 > Bilhete postal > No verso lê-se: " Guiné Portuguesa > Bilhete postal > 103 - Folclore. Edição exclusiva das Galerias Jota Éme para a Casa Gouvêa. Reprodução Proibida". (Cortesia de Cristina Allen: faz parte de uma colecção de postais ilustrados da Guiné, enviados pelo seu então noivo e futuro marido, Mário Beja Santos).

Foto: © Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007). Direitos reservados


Mensagem do Beja Santos (ex-alf mil, comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70):

Caro Luis, aqui vai o episódio da semana passada. Tudo farei para recuperar o atraso e manter o stock de segurança em três episódios. Pelas minhas contas, o próximo será provisoriamente o último do primeiro volume. Conto que tu faças o milagre de encontar ilustrações, não tenho propostas. O Queta vem cá em breve para tirar as fotografias que tu reclamas, muito justamente. Recebe um abraço do Mário.


56º episódio da série Operação Macaréu à Vista, da autoria de Beja Santos (ex-alf mil, comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) (1). Texto enviado a 11 de Julho de 2007 (1). Substítulos do autor e do editor.

Mataste uma mulher, branco assassino!

por Beja Santos


(i) Trabalhos e aflições em Finete

Em 1 de Agosto [de 1969], parto para Finete acompanhado de uma dúzia de colaboradores. Assentara com o Casanova e com o Pires o que havia a fazer em Missirá nesta primeira semana do mês, sendo que as idas a Mato de Cão nos seriam sempre comunicadas em Finete, para onde se deslocaria um contigente de 15 homens, respectivamente com morteiro 60, dilagramas e bazuca, e que aqui seria reforçado com milícias, e eu assumiria, sempre que possivel, o comando.

Continuávamos a ter muitos doentes, militares e civis, quase todos os dias o David Payne [, o médico do BCAÇ 2852, em Bambadinca,] atendia sofredores de malária e múltiplos vírus. Levei rações de combate, colchões, mosquiteiros, o indispensável Lion Brand para afugentar a bicharada, algum material de engenharia para apoiar as obras em curso, e, a despeito dos vendavais e novas enxurradas de água, sempre dentro do ciclo "chove agora copiosamente, daqui a um bocado faz sol, troveja depois", recordo um tempo magnífico, patrulhamentos à volta de Boa Esperança, travessia até Canturé e descida até à bolanha de Gambana. Ao fim da tarde do primeiro dia, encontrámos marcas de sandálias de plástico em trilhos que ligavam Gambana até Malandim. Que desaforo! As gentes de Madina passeava-se mesmo junto a Finete.

A 2 [de Agosto], conferi carga de material enquanto os cabos Benjamim Costa, Dominigos Silva, Alcino Barbosa e António Queirós ajudaram nas obras do novo balneário e de um abrigo reforçado, no alto do morro, com uma posição estratégica para os acessos de Malandim. É nessa tarde que escrevo à Cristina:

"Faz agora exactamente um ano que recebi uma guia de marcha para seguir para Bambadinca. Cheguei a 3 de manhã ao cais de Bissau, foi uma longa viagem que acabou ao anoitecer no cais de Bambadica. Eu era o periquito de Missirá. Na tarde do dia seguinte, há-de aparecer o Saiegh acompanhado de Mamadu Camará e Campino, todos me olham como curiosa novidade. Nunca mais esqueci o olhar do Saiegh, dois carvões iluminados, azeitonas brilhantes que não iludiam um grande ressentimento, como vim a comprovar. Nesse dia, em Missirá, a gente da Madina deixou na fonte panfletos a convidarem os colonialistas a desertar; nessa mesma manhã, Uam Sambu, também não muito longe da fonte de Cancumba, viu o seu peito estilhaçado por uma granada mal armadilhada.

"Será uma noite muito difícil, esta primeira noite em Missirá: oiço uma língua que mal percebo, parece um português arcaico entremeado com diferentes linguajares, o que não estava longe da verdade. Choro mansinho dentro do meu mosquiteiro, num abrigo onde se ouve o tossir áspero do rádio de transmissões para onde o Teixeira de vez em quando se dirige. Estou a dimensionar uma pavorosa solidão, depois de ter visto alguns despojos macabros que o Saiegh guardava em frascos. Desculpa as longas descrições, os pormenores entediantes, os sustos que te dei. Sei que sofreste muito com as minhas cartas, com os meus mortos e feridos, as flagelações. Desculpa tudo, estou certo que Deus assim andou connosco, e nos deu força".


(ii) A emboscada em Malandim


E portanto a 3 de Agosto vamos emboscar em Malandim, vamos mostrar a quem se abastece em Mero e Santa Helena que não estamos impassíveis ao descaro. Trabalhou-se até cerca das 5 da tarde, escolhi um grupo de quinze homens, cuidadosamente, com o auxílio do Benjamim Costa e do Domingos Silva expliquei como íamos actuar: ficaríamos em linha numa clareira, muito perto do mato denso que vem da destilaria de aguardente abandonada da fazenda de Malandim; ficaria no meio rodeado do Tcherno e de Mamadu Djau; ninguém dispararia a não ser à minha ordem, e a haver uma retirada viríamos pelo trilho até Finete, deixando os sentinelas de sobreaviso quanto a essa emergência.

Levara para Finete alguns livros, tais como A vida de Charlot, por Georges Sadoul, um volume com as aventuras Sherlock Holmes, um belo livro polícial de Ellery Queen, um romance que mal iniciei de Truman Capote e estava a meio de um policial de Erle Stanley Gardner, O caso do pato afogado. Este último, envolto num plástico, acompanha-me até à enboscada de Malandim.

Estamos devidamente posicionados quando a repentina noite tropical caíu sobre nós. Aqui e ali ainda se ouve um cantil que vai à boca, um mastigar de comida, um pedaço de cola que ajuda a passar o tempo e quebra a secura. Penso mais no dia de amanhã que no de hoje, amanhã quero levar as folhas dos vencimentos a Bambadica, procurar trazer arroz, encomendar comida para a nossa messe em Missirá, ver se já chegaram alguns cunhetes para suprir as munições desaparecidas na noite de 15 de Julho.


(iii) A histérica reacção do Cabo Costa


A 5 de Agosto vou escrever à Cristina:

"Não podes imaginar a dor com que te escrevo, estou chocado e não sei conter a amargura que me trespassa a alma. Tens que me ouvir. Montei uma emboscada na noite de 3 perto de Finete, onde estive até ontem. Aguardávamos com ânimo elevado a borrasca dos céus e o desfiar das horas, até alta madrugada. Eu estava estirado na pequena picada que conduz às ruínas da fazenda de Malandim. Silêncio sem o piar das aves até que, passava das 7, não estávamos ali há mais de uma hora, oiço o brado do Mamadu Camará que passa como um chicote pelas minhas costas: alto, alto já! rodopio, há um vulto que avança para mim, é um manto que me parece esverdeado que vacila diante de mim, não sei se vem armado, crivo-o de balas, oiço um suspiro breve, é como se uma massa mole que me cai nos braços.

"Estala o pânico, ouvem-se passos em fuga, é naturalmente o grupo que se reabastecera em Mero que parte em fuga. Acometido por uma violenta histeria, o cabo Costa pragueja e insulta-me: matou uma mulher, és um branco assassino. Uns procuram dominar o dementado, outros querem caçar os fugitivos, é uma desordem geral com a berraria do cabo Costa que continuava a vociferar e a insultar-me.

"Coisa curiosa, estou sereno, ordeno a retirada para Finete, aqui peço ao Bacari para ir buscar o corpo e os despojos, informo que vamos todos seguir para Bambadinca, sei e sinto que é necessário cortar pela raiz este sinal de insubordinação. Os quilómetros enlameados que levo até Bambadinca dão para pensar no que devo ao Benjamim Lopes da Costa, seguramente o mais culto dos meus cabos, sempre prestável, militar aprumado a quem reconheço a qualidade da solicitude e o valor da lealdade. Mas não se pode passar uma esponja sobre o que aconteceu".


(iv) Uma conversa surreal com o meu comandante, na presença dos meus homens

Atravessado o Geba, parece que corremos até à rampa de Bambadinca, em segundos alcanço a messe de oficiais onde Jovelino Pamplona Corte Real joga bridge. Cá fora fica o grupo acompanhante, tudo gente que presenciou os acontecimentos de Malandim.

Uma conversa quase extraordinária com o Comandante do BCAÇ 2852:

- O que o traz aqui a estas horas?

- Meu Comandante, fizemos uma emboscada perto de Finete, surpreendemos um grupo que ia para Madina, matei um dos elementos, um dos meus cabos perdeu a cabeça e insultou-me, chamando-me "branco assassino". É indispensável que se reponha a ordem. Tem que ficar aqui preso. É a si que compete dar voz de prisão.

- Homem, nem pensar. Na guerra, não se prende toda a gente só porque se perde a cabeça. Fale-lhe a bem, obrigue-o a pedir desculpa, vai ver que não houve insubordinação nenhuma.

- Meu comandante, mantenho com todos os militares em Missirá e Finete uma relação de autoridade e estima que não posso nem quero perder. Não vou agora fazer um relatório com este episódio aldrabado. Não pudemos capturar o inimigo por este desrespeito, este acto insensato que estragou o patrulhameto ofensivo. Os meus soldados nunca entenderiam ter-se feito silêncio sobre este acontecimento. Aliás, não aceito desculpas aos soldados que adormecem no posto, nunca deixo passar em branco as tentativas àqueles que querem pagar reforços para fugir ao serviço. O cabo Costa ou é punido ou eu não volto para Missirá.

- Acalme-se, vamos para o meu gabinete.
E fomos, eu fiz sinal para que todos viessem atrás de nós. Entrei a seguir ao comandante no seu gabinete, a luz acendeu-se, ele sentou-se e voltou a propor-me um exercício de cortesia.

- Veja se serena. Quando se é implacável em excesso, corre-se o risco de perder o verdadeiro respeito que a tropa nos deve ter. O melhor é o cabo ficar aqui, eu converso com ele, eu trago-o à razão.

- Não, meu comandante. O cabo Costa chamou-me branco assassino na presença de todos os camaradas. Sei que é um excesso, conheço as suas qualidades, mas vida militar faz-se de exemplos. Ou ele entra na prisão à sua ordem, ou eu informo os meus soldados que a partir de hoje não os comando. E juro-lhe que não voltarei ao Cuor se não se fizer justiça pelas suas mãos. Asseguro-lhe que não volto atrás.

O comandante olha-me intensamente, o tempo suficiente para perceber que era escusado tentar demover-me. Não estou em pânico nem exaltado, a dor que me atravessa não é reparável por qualquer voz de prisão.

- Bom, vou mandá-lo prender, ele fica à minha custódia. Depois vejo o número de dias de prisão que lhe vou dar.

- Desculpe, o meu comandante vai mandá-lo conduzir para a prisão na nossa presença. Os meus soldados precisam de ver com os seus olhos quem faz justiça, quem castiga a insubordinação.


(v) Oito dias de prisão disciplinar para o Cabo Costa


Levantando-se a custo, como se deslocasse todo o peso do seu corpo e da sua decisão, Jovelino Pamplona Corte Real chama o oficial de dia. Quando este chega, ordena-lhe que conduza o cabo Costa para a prisão, que era qualquer coisa como um galinheiro ali em frente. Apercebendo-se do que estava a acontecer, o Benjamim procurou justificar-se. Insensível a qualquer pedido de reparação, perfilei-me e informei que ia partir imediatamente para Finete.




Guiné > Zona leste > Sector L1 > Bambadinca > Teor da punição dada ao 1º Cabo Benjamim da Costa Lopes, do Pel Caç Nat 52, pelo Cmdt do BCAÇ 2852, Ten Cor Pamplona Corte Real:


"Puno com a pena de 8 (oito) dias de prisão disciplinar, o 1º Cabo nº 82535864 - BENJAMIM LOPES DA COSTA, do Pel Caç Nat 52, por no passado dia 03 de Agosto cerca das 19H00, no decurso de emboscada na estrada FINETE-MALANDIN, perante uma atitude legítima do seu Comandante de Pelotão, dirigiu-se-lhe em tom e termos denotando falta de respeito, seguindo-se-lhe uma crise de nervos e de choro, facto este que inibiu ser adoptada uma medida de perseguição imediata a um grupo IN que se revelara, sobre o qual momentos antes o Comandante do Pelotão tinha aberto fogo e abatido um dos seus elementos.


"Não é mais rigorosamente punido atendendo-se ao seu bom nível operacionmal bem c0mo uma razoável capacidade de colaboração já demonstrada em outras ocasiões, além das desculpas que pouco depois apresentou, alegando o seu temperamento nervoso e emotiona

"Infringiu o dever nº 2 do artº 4º do R.D.M."

Foto: © Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007).


Não falo com ninguém, nem durante a viagem nem depois. Mais tarde, frente a toda a tropa formada na parada de Missirá, leu-se a ordem de serviço com a punição: 8 dias de prisão disciplinar por se ter dirigido ao seu comandante em tom e termos denotando falta de respeito, atitude que impediu a perseguição imediata de um grupo inimigo, porque o seu comandante tinha aberto fogo e abatido um dos seus elementos. E não era mais rigorosamente punido devido às suas qualidades e capacidades de coloboração.

Aquela noite mudara a minha vida. Continuo a adoecer no corpo e na alma. Tenho farfalhada e expectoração, líquen no dorso, sinto tonturas, perdi o apetite, isolo-me. O major de operações continua a exigir-nos emboscadas todos os dias, até de madrugada, nos arredores de Missirá e Finete. Já não consigo inventar efectivos para tanto patrulhamento e emboscada.

E a 4 de Agosto recebo a nota de punição em que os meus 2 dias de prisão simples, após recurso, são mantidos por "tendo-lhe sido chamado à atenção para as deficientes condições de defesa e limpeza existentes no seu aquartelamento, não ter dedicado o máximo do seu interesse à resolução de tais problemas". Acabou-se o sonho de ir a férias, tenho que repensar o que fazer sobre os propósitos do casamento, estou abrasado pelo sofrimento, não sei o que hei-de pensar daquela acusação de "branco assassino".

Vou reagir da nota de punição e peço licença para me dirigir ao Concelho Superior de Justiça e Disciplina do Exército. Sinto-me ofendido por ter dedicado muito interesse ao meu aquartelamento e não aceitar à acusação de que não dediquei o máximo do meu interesse. Pretendo saber o que significa o máximo do interesse, não sei se de uma perspectiva filosófica, religiosa, moral ou militar...


(vi) As minhas leituras, os sinais de futuro


Os mosquitos atenazam, estão mais furiosos nestas noites da época das chuvas, não há Lion Brand que os fulmine. Só verei perseguição idêntica quando formos para aquele buraco infecto que eram as instalações na ponte do rio Udunduma. Ler é um refúgio, depois de escrever nada mais, naquele tempo, me embevece tanto e fortifica a alma. Leio descomprometidamente as histórias do Sherlock Holmes com títulos que nunca mais esquecerei: a Liga dos Cabeças Vermelhas, o Mistério do Vale de Boscombe, a Tiara de Berilos... a dedução, a sagacidade desse senhor de Baker Street 220 empolga-me, revitaliza-me a curiosidada.


Leio de trás para a frente e de frente para trás a vida Charlot. Georges Sadoul escreveu uma biografia brilhante desse génio a quem o cinema deve alguma das suas páginas mais gloriosas: a infância díficil num bairro pobre de Londres; a sua entrada no music-hall e depois na pantomina; depois o teatro e a comédia; os primeiros êxitos nos Estados Unidos e a chegada ao cinema; os grandes filmes a começar por "O garoto de Charlot", "Dia de pagamento", "A quimera do ouro", "O Circo", "Tempos Modernos", "O Ditador", "Monsieur Verdoux", "Luzes da ribalta"; as suas lutas e os seus anseios, a força do desengonçado Charlot e a sua mensagem de paz. Eu lia e relembrava as obras primas que me delíciaram, em vários ciclos que vi dedicados a Chaplin em cineclubes.

Capa do livro de G. Sadoul, A vida de Charlot. Lisboa: Portugália Editora. s/d. (Colecção Livro de Bolso, 26/27).

Foto: © Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007).


O mistério da laranja chinesa de Ellery Queen é um policial histórico, inesquecível. Data de 1934, marca claramente uma ruptura com o policial de aventuras, introduz o enigma e a sua decifração. Neste caso, alguem um milionário coleccionador, aparece assassinado num gabinete fechado, tudo remexido, virado do avesso. Ellery, no grande final, convoca todos os possíveis suspeitos e desmonta a charada com a sua dedução brilhante. Não menos importante que o conteúdo é a magistral capa do Cândido da Costa Pinto para este nº 32 da Colecção Vampiro.




Cópia da capa do romance policila de Ellery Queen, O Mistério da Laranja Chinbesa. Lisboa: Livros do Brasil. s/d. (Colecxção Vampiro, 32). Capa de Cândido da Costa Pinto


Foto: © Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007).



Este Agosto vai ser um mês duríssimo: o meu esgotamento não se pode resolver, a penúria de meios não pára de aumentar. Como um castigo, à cada vez mais patrulhamentos em Mato de Cão, parece que a guerra se intensifica, de manhã ou à tarde aceno a barcos carregados de jovens fardados de fresco. Lá para o final do mês iremos à primeira versão da "Pato Rufia", que se repetirá em Setembro.

Chega uma boa notícia: Enxalé vai finalmente ser incorporada no nosso sector. Ainda em sigilo, volto lá e almoço com o alferes Taveira. Recebo belas cartas, tento reorganizar a minha vida, como se eu pudesse administrar o meu futuro, Missirá voltará a ser flagelada, a guerra agrava-se para os lados de Mansambo e Xitole. Em Lisboa, tenho afectos inconsoláveis. A minha resposta é de que sou preciso no Cuor. Aqui, a despeito desta guerra, sinto-me útil a quem me quer bem.

________


Nota de L.G.:

(1) Vd. os últimos cinco posts:

6 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1927: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (54): Ponta Varela e Mato Cão: Terror no Geba

29 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1898: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (53): O ataque a Missirá de 15 de Julho de 1969, visto pelo bravo mas modesto Queta Bald

13 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1948: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (52): Em Bissau, no julgamento do Ieró Djaló

22 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1870: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (51): Cartas de um militar de além-mar em África para aquém em Portugal (5)

15 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1851: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (50): Do tiroteiro em Bambadinca na noite de 14 de Junho de 1969 à emboscada da bruxa

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Guiné 63/74 - P3280: O meu baptismo de fogo (4): Como fui praxado e bem praxado na BA12, em Bissalanca, em Setembro de 1968 (Jorge Félix)

Jorge Félix
Ex-Alf Pilav Helis,

BA 12, Bissalanca,
1968/70,
hoje residente em Braga

(Cortesia do blogue
Especialistas da BA12, Guiné 1965/74)


1. Mensagem de Jorge Félix, com data 1 de Outubro de 2008:



Assunto - O meu baptismo de guerra (*)

Caro Carlos, este foi o meu primeiro, contado "40 anos depois"...


Em 23 de Setembro de 1968 "encerra-se a presente caderneta, em virtude do seu titular marchar para a BA12, conforme O.S. da D.S.P de 26 de Julho de 68".

Em 28 de Setembro já voava para Catió, pelo que a minha viagem para Bissalanca deve ter sido no dia 25.

Para fazer uma rendição individual, eu mais o Alf Pinto - já falecido - tínhamos o Ten Ruana e Ten Arada ao fundo das escadas do avião que nos transportou, montados no jipe que nos transportava na placa de Bissalanca.

O comportamento, um tanto ou quanto estranho, só o percebi alguns meses depois, quando soube o que significava a palavra "apanhado pelo clima". Apeados no Biafra, assim se chamava o Bar dos pilotos em Bissalanca, foi ter que beber, até que todos os pilotos residentes nos tivessem cumprimentado e desejado boa estadia, num local que com certeza nós "iríamos gostar muito" (sic).

Depois de devidamente apresentados, zarpámos para Bissau. A praxe continha uma visita guiada à noite da "enigmática cidade". Ao longe escutavam-se uns sons parecidos com os foguetes amorteirados das nossas aldeias. Aquilo visto de perto é que tem piada.

Eu e o Pinto, já etilicamente tratados, a tudo dizíamos sim, a tudo com respeito olhávamos. A todos éramos apresentados, com a devida bebida a acompanhar, para selar a amizade.

Regressados à Base, até à cama fomos transportados. Bem, tinha que ser. Da maneira em que nos encontrávamos não seria fácil descobrir o local onde as camas estavam quanto mais as camas.
- Durmam bem, até amanhã ! - e ali ficámos.

Eu, num quarto sozinho, sentia um fortíssimo cheiro a Lion Brand , um antirrepelente para mosquitos, O silêncio era negro, o calor doentio, a casa de banho ficava muito,muito longe. O melhor era contar carneiros e tentar adormecer.

Foi o que aconteceu. Passados algum tempo de eu ter adormecido já sonhava com a guerra. Rebentamentos por cima da minha cabeça, ruídos fortíssimos esventravam as paredes e porta do quarto, tiros e luzes fortes queimavam o meu quarto, até que. Fui acordado por gritos aflitos de um companheiro que tentava apagar o incêndio que já ia avançado do tapete, ateado por verylights que tinham sido mandados para dentro do quarto.

Acordado, reconheci o som de latas e garrafas rolando por cima do telhado zincado. Vi na cara do Arada, Ruano, Pavão, enquanto tentavam apagar o incêndio, o medo que estava destinado a mim. Rapidamente tivemos que fugir daquele ambiente de fumo e fogo, até os bombeiros chegarem. Eu, arrastado até à rua, reclamava as minhas bolachas , o IN , todos os restantes Pilotos que praxavam os periquitos, respiravam fundo por se terem safo de um assalto que podia ter acabado mal.

Eu, sendo baptizado, nem baptizado fui.

No dia seguinte comentavam, ainda praxando:
- Se não morreste ontem, tão cedo não vais morrer!!

Jorge Félix

2. Comentário de L.G.:

Meu caro Jorge: O VB, nosso querido co-editor, deu o mote, e eu lancei o desafio. Como foi isso, pá, a "primeira vez" do guerreiro ?... Uns pensavam que se borravam todos, outros que ficariam impávidos e serenos, metidos na vala ou abrigados atrás do bagabaga... Julgo que a situação da "primeira vez", o nosso baptismo de fogo, dá pano para mangas, dá histórias e estórias... E todos os registos são possíveis, dos mais dramáticos aos mais hilariantes, como o teu... Obrigado, Jorge. Vê-se mesmo que também bebeste a água da bolanha... E como o teu humor nos faz taão bem, nestes dias depressivos de outono e de maus presságios para todos nós, portugueses, guineenses, homens e mulheres de todo o mundo que apenas querem viver e trabalhar com dignidade, com decência... Imagina que hoje é o Dia Internacional do Trabalho Decente!... Um Alfa Bravo. Luís
__________

Nota de L.G.:

(*) Vd. postes anteriores desta série:

5 de Outubro de 2008 > Guiné 63/74 - P3270: O meu baptismo de fogo (3): O meu baptismo de fogo em Catió (Jorge Teixeira)

2 de Outubro de 2008 > Guiné 63/74 - P3265: O meu baptismo de fogo (2): Primeiro ataque ao quartel de Có (Raúl Albino)

25 de Setembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3241: O meu baptismo de fogo (1): E depois, nunca mais houve paz em Cuntima... (Virgínio Briote)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Guiné 63/74 - P4559: IV Encontro Nacional do Nosso Blogue (5): Esse nobre sentimento..., na voz do fadista J. Mexia Alves... (Luís Graça)

Quinta do Paul, Ortigosa, Monte Real, Leiria > IV Encontro Nacional do nosso blogue > 20 de Junho de 2009 > O J. Mexia Alves (de pé), o Álvaro Basto (viola) e o David Guimarães (viola) - estes dois, artistas privativos da Tabanca de Matosinhos, a quem agradecemos a borla -ensaiam o momento musical da tarde...

Desta vez falharam outros artistas que podiam ter abrilhantado ainda mais o memorável encontro que foi o deste ano (dizem os participantes...). Refiro-me a Abílio Machado, J. L. Vacas de Carvalho, Jorge Félix, entre outros, artistas de reconhecidos méritos que este ano não puderam comparecer.

A acústica da sala é péssima, o ruído ambiente impróprio para se ouvir o fado mas mesmo assim o fadista (*) vai tudo o que pode para agradar às damas presentes...



Quinta do Paul, Ortigosa, Monte Real, Leiria > IV Encontro Nacional do nosso blogue > 20 de Junho de 2009 > Joaquim Mexia Alves, cantando o Fado da Guiné (letra do próprio; música do Fado Primavera, de Pedro Rodrigues) . Acompanhamento à viola: Álvaro Basto e David Guimarães, artistas da Tabanca de Matosinhos. A na mesa ao lado, à direita, uma espectadora muito atenta, a bajuda mais nova do nosso convívio, a neta e secretária, de 16 anos, do Valentim Oliveira (Viseu) (**)...

Foto e vídeo (3' 42''): © Luís Graça (2009). Direitos reservados


Fado da Guiné

Letra (original): © Joaquim Mexia Alves (2007)
Música: Pedro Rodrigues (Fado Primavera)


Lembras-te bem daquele dia
Enquanto o barco partia
E tu morrias no cais.

Braço dado com a morte,
Enfrentavas tua sorte,
Abafando os teus ais.
(bis)

Dobrado o Bojador,
Ficou para trás o amor
Que então em ti vivia.

Da vida tens outra margem
Onde o medo é coragem
E a noite se quer dia.
(bis)

Aqui estás mais uma vez,
Forte, leal, português,
Sempre de cabeça erguida.

Não te deixas esquecer,
Nem aos que viste morrer
Nessa guerra em tempos ida.
(bis)

Que o suor do teu valor
Que vai abafando a dor
Que te faz manter de pé,

Seja massa e fermento
Desse nobre sentimento
Que nutres pela Guiné.
(bis)

Joaquim Mexia Alves
Monte Real,
18 de Agosto de 2007

____________

Notas de L.G.:

(*) Vd. poste de 6 de Maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4288: Espelho meu, diz-me quem sou eu (1): Joaquim Mexia Alves

(**)Vd. postes anteriores desta série :

21 de Junho de 2009 > Guiné 63/74 - P4558: IV Encontro Nacional do Nosso Blogue (4): Até nem faltou o Lion Brand, o repelente antimosquito... (Luís Graça)

21 de Junho de 2009 > Guiné 63/74 - P4557: IV Encontro Nacional do Nosso Blogue (3): Um dia caloroso, em que fizemos novos amigos (Joaquim e Margarida Peixoto)

21 de Junho de 2009 > Guiné 63/74 - P4556: IV Encontro Nacional do Nosso Blogue (2): Os meus agradecimentos (José Pedro Neves, CCAÇ 4745, Águias de Binta )

21 de Junho de 2009 >Guiné 63/74 - P4555: IV Encontro Nacional do Nosso Blogue (1): Muito calor físico e humano... (Luís Graça)

domingo, 23 de agosto de 2009

Guiné 63/74 - P4854: Estórias do Juvenal Amado (21): O dia de Alcobaça e a Feira de S. Bernardo, dia 20 de Agosto

1. Mensagem de Juvenal Amado, ex-1.º Cabo Condutor da CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1972/74, com data de 22 de Agosto de 2009:

Caros Carlos, Luís, Virgínio, Magalhães e restante Tabanca Grande.

A coisas têm o valor que lhes damos em certa altura das nossas vidas.
A feira de S. Bernardo era aguardada por mim ansiosamente todos os anos. Numa vila pequena sem grandes divertimentos, era esse evento aproveitado para nos divertirmos e gozarmos de alguma liberdade junto do sexo oposto. Os pais fechavam os olhos às voltinhas de carrossel, ou mesmo nos carrinhos de choque a dois.

Enfim coisas que fariam rir às gargalhadas os miúdos e miúdas de hoje, que até nesse ponto não fazem ideia o que a sua liberdade custou a conquistar.

A feira começa a 20 de Agosto e dura uma semana.

Quem estiver interessado, é naturalmente bem-vindo.

Um abraço
Juvenal Amado


O dia de Alcobaça e a Feira de S. Bernardo, 20 Agosto

No posto acabei de render o Pinto, que se deitou de imediato na cama improvisada do mesmo, adormecendo de seguida. Não sei se ele já não estava meio adormecido quando o rendi.

São 2 horas e 15 minutos, olho a mata sombria para além do campo de futebol. O gerador envia aquela luz que dá para ver pouco mais de meio do campo.

O Lourenço é o outro camarada de serviço, render-me-á às 4, somos obrigados a permanecer todos no posto. O lion-brand arde junto a eles para afugentar os mosquitos.

Levantei-me todo encharcado de suor, mas agora tenho frio, saio do posto para desentorpecer as pernas.
Penso na notícia dada pela a rádio e a saudação do locutor de seviço (PIFAS) a todos os combatentes de Alcobaça, espalhados pela Guiné. As suas palavras sobre a alegria a rodos na abertura da feira anual de S. Bernardo, tiveram o efeito de acirrar as saudades.
A guerra era tão longe, só quem lá tinha os seus, se distanciava dos festejos.

“Mais uma corriiiiiiiiiida mais uma viaaaaagem”

“ Esta é para a menina do casaco amaaareelo”

“Tomem os seus lugares e não descer nem subir do carrossel em movimento”

Gritavam os feirantes pelo som distorcido dos altifalantes de corneta.

Os garotos faziam birra para andar em tudo.

O barulho de ensurdecer dos geradores dos carrosséis, pistas de carros, das motas no poço da morte.

As barracas de tiro. “ Oh simpático não vai um tirinho?” As espingardas de pressão de ar com as miras completamente desalinhadas, não se acertava no alvos a dois metros. Mas o que a malta lá ia fazer, era meter-se com as funcionárias de ar duvidoso das ditas, queríamos lá saber dos “tirinhos”

As farturas e os namoricos.

Com os olhos em brasa procurava o olhar de uma em especial não importava que tivesse a família toda a acompanhá-la. Se ela retribuisse o olhar, eu não dormiria nessa noite.

Faço concha com a mão e tapando com o casaco camuflado, acendo um cigarro. Tento espantar o sono.

Por volta das 10 horas tinha sido atacado Cancolim ou outro destacamento na mesma direcção.

Há uns meses Cancolim foi atacado perto da hora de jantar. A Maria Turra tinha dito na rádio do PAIGC que os seus combatentes tinham esperado que a malta acabasse de jogar à bola para depois atacar. Era a acção psicológica deles a actuar.

Os pensamentos baralham-se, não vejo hora de ser rendido pelo Lourenço pira.

Finalmente chamo:

- Lourenço, oh Lourenço está na tua hora. Acorda lá porra.

Deito-me e parece que nem adormeci o Lourenço chama-me, já é dia ainda fosco.

- Oh Amado, não queres ver uma puta de uma perdiz, que está poisada no arame farpado mesmo à minha frente. Só pode estar a gozar comigo -acrescenta.

Caçador inveterado, agarra numa pedra e sem qualquer convicção, atira-a na direcção do pássaro.

Para surpresa dele e minha, acerta no papo da ave que cai para trás. Ficámos incrédulos, não acreditando no que tinha acontecido, a ave aproveitou para meio cambaleante fugir dali para fora.

O Lourenço só dizia:

- E deixei-a fugir e deixei-a fugir f………..

Foi a rir que acabámos a noite de reforço.

Voltando à feira, já lá não vou há mais de dez anos.
Em memória daquela noite, tenho que lá fazer uma visita.

Juvenal Amado

Vinho de palma bem fresco de manhã. O pior era umas horas depois.

A ferrugem antes da partida para o Xime

Juvenal Amado na Parada de Galomaro

Fotos: Juvenal Amado (2009). Direitos reservados.

__________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 7 de Agosto de 2009 > Guiné 63/74 - P4794: Estórias do Juvenal Amado (20): Um tiro na Parada de Galomaro

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Guiné 63/74 - P4809: Estórias de Mansambo II (Torcato Mendonça, CART 2339) (12): Fá Mandinga, o único sítio onde tive direito ao luxo de um quarto

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Fá Mandinga > CART 2339 (1968/69) > Do álbum fotográfico do Torcato Mendonça, Fotos Falantes II, nº 1: em cima, o quarto do Alf Mil Torcato Mendonça; a meio, o artista, junto à janela; em terceiro lugar, a contar de cima, a ceriomónia do hastear da bandeira... Muitas subunidades passaram por Fá Mandinga, para se ambientarem ao terreno e ao clima da Guiné, antes de seguirem para o seu destino: no caso da CART 2339, foi Monsambo, entre Bambadinca e Xitole, um estratégico aquartelamento construído de raíz pelo Alf Mil Mendonça e seus camaradas da CART 2339. Fotos: © Torcato Mendonça (2009). Direitos reservados. Estórias de Mansambo II > Fá Mandinga por Torcato Mendonça (*) Finalmente chegaram. Já a tarde ia alta e Fá Mandinga aí estava. Não parecia um aquartelamento. A entrada tinha a cancela com arame farpado, uma leve protecção para o militar da porta de armas e, enquanto rolavam aquartelamento dentro, iam aparecendo os edifícios adaptados à tropa. Coluna parada e ordem para desembarcarem. Deu-se então o reencontro com um alferes e um sargento que, umas semanas antes, por via aérea os tinham precedido a fim de tratarem das burocracias e instalação da Companhia Independente. Tiveram recepção calorosa e a vida, de burocracias e instalação facilitada. Breve formatura, material diverso arrumado e está a tratar da instalação. A ele e ao outro alferes indicaram-lhe uma “vivenda”. Já lá estava o outro alferes instalado. A dita vivenda, certamente de algum antigo colaborador de Amílcar Cabral, tinha quartos para os alferes, messe de oficiais e sargentos, cozinha e arrumos e duas ou três casas de banho. Não sabia que aquele quarto, que agora ocupava e onde ia arrumando as suas roupas, livros e demais haveres, seria o primeiro e único quarto onde viveu na Guiné. Nunca mais teve tal luxo. No futuro seria o abrigo, a morança das tabancas ou, se pernoitasse em Bambadinca ou noutra cidade, lá teria o quarto de empréstimo. Houve outros poisos mas são outras vidas… Bateram à porta e disse: - Entre. Abre-se a porta e aparece um africano com um sorriso alvar e franco. - Sou o Lali e trabalho aqui para os oficiais. Venho acender o Lion Brand. - Vem acender o quê? - disse. O Lali ria, mostrava uma caixa e disse: - É para os mosquitos fugirem. Foi a vez de ele rir. Depois de acender, perguntou se ele precisava de alguma “coisa”. - Sente-se aí, que quero fazer umas perguntas. De pronto o Lali respondeu: - Não posso sentar… Olhou-o e compreendeu. - Logo falamos então. Saiu e dirigiu-se às instalações do Grupo, apanhando o ar, ainda quente, do final da tarde, sentindo aqueles cheiros e sons tão diferentes. Estava tudo a correr bem, conversaram um pouco, viram escalas e serviços e sentia-se, os outros também certamente, deslocado naquele ambiente. Depois do jantar veio até cá fora um pouco e não tardou a regressar ao quarto. Agora é que era e “a dança ia começar”… ____________ Nota de L.G.: (*) Vd. postes anteriores desta série que, por diversas razões, não seguido uma ordem lógica e cronológica: 29 de Maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4435: Estórias de Mansambo II (Torcato Mendonça, CART 2339) (7): Bissau, a caminho de Fá 4 de Junho de 2009 Guiné 63/74 - P4459: Estórias de Mansambo II (Torcato Mendonça, CART 2339) (8): Mussá Ieró, tabanca fula em autodefesa, destruída em 24/11/68 1 de Julho de 2009 > Guiné 63/74 - P4618: Estórias de Mansambo II (Torcato Mendonça, CART 2339) (9): Cansamba, subsector de Galomaro, 1 de Agosto de 1969 3 de Julho de 2009 > Guiné 63/74 - P4633: Estórias de Mansambo II (Torcato Mendonça, CART 2339) (10): Bafatá, Amor e Ódio 14 de Julho de 2009 > Guiné 63/74 - P4683: Estórias de Mansambo II (Torcato Mendonça, CART 2339) (11): Cansamba II, o Serra e o Burro

domingo, 16 de junho de 2013

Guiné 63/74 - P11711: FAP (72): Eu, periquito, me confesso... (António Martins de Matos, ex- ten pilav, BA12, Bissalanca, 1972/74)

1. Mensagem de ontem do nosso camarada António Martins de Matos, ex-Ten Pilav, BA 12, Bissalanca, 1972/74, atualmente ten gen pilav ref

Eu periquito me confesso
por António Martins de Matos

Disse o Luís Graça no seu discurso de boas-vindas do nosso último encontro [, em Monte Real, 8 de junho passado,] que tínhamos no nosso convívio uma série de novos periquitos.

Sinal de vitalidade, alguns dos novos a chegarem, só que não ouvi os habituais PIUs, tão característicos da recepção aos maçaricos por aquelas terras onde andámos. 

Sinal de velhice?

Alzheimer?

Estarei a ficar surdo?

É certo que já somos todos sessentões mas que diabo, um periquito é um periquito e, por mais airoso que seja, … tem de ser devidamente enquadrado. Este pensamento levou-me a recordar os meus tempos de Periquito na Guiné.

Eu, tenente piloto aviador dos jactos, embarquei para a minha comissão num DC-6, no Figo Maduro e na madrugada de 10 de Maio de 1972.

Algo que muitos teimam em não reconhecer mas que vem descrito nos compêndios da especialidade, uma guerra de guerrilha nunca se ganha nem se perde pela via militar, só termina com uma decisão política, (esperem um pouco, esta verdade vai mais uma vez ser confirmada no Afeganistão de 2013), estava absolutamente convencido que faria mais comissões, razão pela qual e podendo ter sido nomeado para Luanda me tinha oferecido para a Guiné, a ideia era começar pelo pior, depois logo se veria…

O voo foi sem história, até já conhecia a África das areias, só que, ao abrirem a porta do DC6..., cum caneco!, o calor e cheiro à África dos trópicos a entrarem-me pelas narinas.

Alguém me tinha ido esperar ao Terminal e logo me conduziu ao meu novo local de trabalho, o Grupo Operacional 12 e Esquadra 121 da Base, à chegada ouvi um ou outro PIU, nem sabia o que isso era.

Apresentações feitas às Entidades competentes e logo me deram um alojamento na Base, uns 9m2, uma cama de ferro, uns caixotes pintados de branco a fazerem de prateleiras tipo Móveis 3K e uma ventoinha que fazia um barulho semelhante a uma batedeira de bolos e que motivou a minha primeira decisão em terras africanas, comprar em Bissau e na “Casa Pintosinho” uma nova e silenciosa ventoinha que me deixasse dormir.

No dia seguinte à chegada lá vesti o meu fato de voo, emblema dos Falcões bem visível “à cause des mouches”, apresentei-me no Grupo 12, só aí é que percebi que aqueles PIUs insistentes que ia ouvindo me eram destinados !!!!

Piloto dos jactos, reacções rápidas, logo tentei cortar o mal pela raiz, apontei a um Furriel que acabara de “Piar”, o homem assustou-se quando viu um Tenente a vir na sua direcção, ao chegar ao pé dele perguntei-lhe algo que nada tinha a ver com a situação... Nunca mais houve PIUs e … fiz um amigo.

Mas sejamos claros e aqui que ninguém nos ouve, todo e qualquer militar que chegasse à Guiné, independentemente dos PIUs e correlativos e até ficar completamente à vontade naquelas terras (e ares), era um completo…Periquito.

A adaptação não era só em relação à guerra mas sim a tudo o que o rodeava, até mesmo o andar por Bissau era também algo de “misterioso e preocupante”, nos primeiros dias até fui armado com uma Walter PPK, sabia lá se havia algum turra à porta do Pelicano ou do Solar do Dez?

E, falando do Pelicano, dizia-me um piloto velho: “ Vamos comer uns Ninhos”?... Ninhos? Que raio de porcaria seria essa?

E uma ida às ostras? Eu até gostava do marisco, estava habituado a comer um prato delas (6) ali para os lados da Solmar ou da Portugália, abertas e com gelo, o susto que apanhei quando me puseram à frente um facalhão e uma travessa a fumegar cheia de pedras, tive que aprender como se comiam aqueles conglomerados.

Muitas outras coisas me foram sendo ensinadas pelos velhos, o uso do Lion Brand, não beber água da torneira, as pastilhas de sal e de quinino, as diferenças entre a bagaceira, o brandy e o whisky...

O ser periquito também tinha algumas vantagens, observava-se o ambiente sem ideias pre-concebidas ou segundas intenções, logo ao segundo dia constatei que o PAIGC podia terminar a guerra de um dia para o outro, bastava dar uma bazokada na carrinha dos pilotos que todos os dias seguia às 19:00 para Bissau e regressava às 21:00, de um só golpe acabavam com a acção da FAP.

Periquito mas não parvo, de imediato e apesar de não ter a respectiva carta de condução, comprei uma moto, uma Yamaha 200, linda de morrer, 16 notas da Metrópole, lá no meio do escuro da estrada Bissau-Bissalanca até podia ser comido por uma jibóia mas bazokada é que não me acertava.

Ao terceiro dia de comissão estreei-me a dormir no mato, em Pirada, algo que a maior parte dos velhos nunca tinham feito, claro que não disse aos FTs locais que era um PIRA acabado de chegar….nem eles me perguntaram, estavam preocupados com a situação do momento já que o comerciante local (Mário Soares de seu nome, nada a ver com o outro) se tinha ausentado, quando ele se ausentava era sinal divino e misterioso que podiam “embrulhar”, felizmente nessa noite nada aconteceu.

Depois foi o aprender a voar DO-27, “só podes levar 350 kg de carga”, logo a pergunta confusa mas pertinente do PIRA: “Há balanças no mato? Como é que peso a carga?”

“Não pesas, como regra e por cada passageiro contabilizas 70kg, podes levar 5, ou então 4 e umas malas, ou...vais fazendo as contas, se forem fusos e como na Marinha comem bem melhor que nos restantes quartéis, fazes 90 kg por cabeça".

"Antes de descolar e já que algum pessoal julga que um avião é parecido com uma Berliet, tens sempre de voltar a contar as cabeças não vá aparecer-te um passageiro clandestino”.

A minha primeira missão operacional de DO-27 foi levar 4 belos Coronéis de Bissau a Tite e Fulacunda, os seus temores ao constatarem que estavam na presença de um PIRA Aviador, apenas descolados de Tite e não fosse o PIRA perder-se, já todos apontavam com o dedo a direcção de Fulacunda, melhor sistema de navegação não podia existir.

A minha aprendizagem durou algum tempo, queixavam-se os do Exército que iam mal preparados para o Ultramar, a primeira vez que larguei uma bomba real foi… na Guiné, até essa data apenas tinha largado bombas de treino (e esta, heim?).

As primeiras impressões de voo na Guiné também foram estranhas, não se enxergava um palmo diante do nariz pelo que me parecia estar a voar num grande território, era o final da época seca, logo vieram as chuvas e fiquei com a ideia que o território tinha encolhido. E depois havia alguns temas que me faziam sentir um autêntico PIRA, em termos de reconhecimento do terreno não conseguia ver nada do que os pilotos mais batidos viam, eles bem se esforçavam por me mostrar o que estava por baixo da floresta mas os meus olhos não conseguiam focar para além da copa das árvores, era tudo verde, o resto ficava difuso.

Só quando passados alguns meses e na área do Morés finalmente consegui enxergar umas palhotas dissimuladas no meio da floresta, então sim, dei o treino por terminado, tinha deixado de ser PIRA e entrado directamente para a categoria de Velho.

Para o final da comissão todo o pessoal mais antigo acabava por ter uma nova tarefa, acolher os novos PIRAS, tentar tirar-lhes as dúvidas e receios, transmitindo-lhes um pouco da experiência acumulada, o circulo a completar-se.

E, como tudo na vida, se a maior parte dos PIRAS lá ia assimilando os conselhos dos mais velhos, também havia aqueles que, por razões desconhecidas, chegavam dizendo já saberem tudo de tudo… nunca seriam PIRAs!

Foram esses que identificaram bases de morteiro onde só havia… eiras de arroz!

Também foram esses que, em grande alvoroço, identificaram marcas de blindados anfíbios a saírem do rio Cacheu.

A observação posterior de um velho concluiu que, a ser um blindado tinha de ser do tipo bicicleta, já que havia apenas um “rodado”.

Mais tarde e depois de grande azáfama concluiu-se que o “rodado” pertencia às marcas que um crocodilo tinha deixado ao sair do rio em direcção à margem.

Passou a ser conhecido como “O Crocodilo”.

Há muitos anos que a guerra terminou…

O tempo foi passando…

Já não há ninguém que me ensine…

Tenho saudades de ser PIRA
______________

Nota do editor:

Último poste da série > 14 de junho de 2013 > Guiné 63/74 - P11703: FAP (71): O AL III faz 50 anos de operação e eu gostaria de saber como se fazia a Instrução da sua pilotagem na época (Fernando Leitão, ten cor pilav, Área de Ensino Específico da Força Aérea, Instituto de Estudos Superiores Militares)