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sábado, 4 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28157: Os nossos seres, saberes e lazeres (739): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (260): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 5 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
Amanhã a partida é em direção a Gjirokastër, embora as expectativas sejam enormes quanto ao que esta cidade museu oferece, não deixamos Përmet absolutamente nada desapontados, logo a viagem de furgão a partir de Korçë pelos meandros montanhosos, por vezes os desfiladeiros, vistos da estrada, parecem ser fendas de abismo até que, inopinadamente, surge aquele rio de caudal instável, o Vjosa, quem vai dentro do furgão faz comentários sobre o que vai fazer, há ali gente que veio para fazer rafting, há escaladores, ciclistas, gente mais madura que veio a sonhar com bacias de água quente, perto de Përmet. Deu-me para fazer passeios a pé a saborear o Vjosa e quando me meti para o interior atinei com uma igreja ortodoxa, cheia de espiritualidade, rodeada de um belo jardim. Por ali andei tempo suficiente até fazer horas para jantar, depois de dar o último passeio a pé e procurar adormecer acreditando que Gjirokastër é única no mundo... e afinal é.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (260):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 5


Mário Beja Santos


Mostrar-vos a miniatura do mapa da Albânia não é um puro acaso, nasce da preocupação de vos dar conhecimento quanto ao itinerário seguido; houve partida em furgão de Tirana até Pogradec, para admirar o Lago Ohrid, seguiu-se depois para Korçë, há quem lhe chame uma pequena Paris, é, no mínimo, bonita e cosmopolita; mais adiante, nova viagem em furgão até Përmet, esperava uma maravilhosa igreja ortodoxa, vão ver; e daqui rumou-se para a espantosa Gjirokastër, um justificado Património da Humanidade, temos depois a última viagem até ao sul, já no mar Jónico, em Sarandë, visita ao Lago Butrint e o sítio arqueológico respetivo, também e justificadamente Património da Humanidade. Saiu-se de Korçë, num furgão cheio de gente com ar desportivo, só quando começarmos a flanquear o rio Vjosa, que nos acompanhará até Përmet, é um rio associado a um parque natural entre a Grécia e a Albânia, e então vemos a que se destinam as tais atividades desportivas, desde rafting a passeios pedestres, procura de águas termais, ciclismo, etc. De Korçë a Përmet são escassas dezenas de quilómetros, vamos sempre com os olhos em cima das majestades montanhas, dos desfiladeiros, do estranhíssimo caudal do Vjosa, umas vezes tumultuoso, outras vezes quase reduzido a um fio de água.
Importa recordar que 70% da Albânia são montanhas e florestas, o espetáculo cénico preenche a nossa atenção, com estes desencontros cumeadas com neve, zonas umas vezes densamente arborizadas, outras vezes calvadas, superfícies que devem tentar escaladores, com os abismos ao fundo.
Os famosos banhos termais de Përmet, estou um pouco fora da cidade, é uma das suas atrações turísticas, lembra as caldeiras das ilhas açorianas, imagem retirada do site Adventure Albania
A lindíssima ponte Kadiut nos arredores de Përmet
Rafting no rio Vjosa, um rio que acompanhou quase toda a viagem de Korçë até Përmet
Chega-se a Përmet, ainda não se perguntou onde fica o nosso alojamento e somos confrontados com o libertador de Përmet, fala-se em 24 de maio de 1944. Como nunca se conseguem obter informações no turismo, procura-se meter conversa com os passantes, alguém cheio de orgulho disse que esta escultura é original, há réplicas espalhadas por outras cidades, mas sim, esta é única.
Confesso que a grande atração que senti em Përmet foi uma igreja ortodoxa onde encontrei duas legendas, igreja do Santo Parashqevi, é uma basílica coberta de arcos e cúpulas esféricas, data de 1776 está classificada como monumento cultural de primeira categoria. 22 metros de comprimento, 16 de largura e 8 de altura, três naves com cúpulas, estão ligados o santuário, o nártex e o altar; igreja construída com pedra pomes e argamassa de cal. O telhado está coberto com pedras brancas e o interior decorado com frescos. O iconóstase (parede coberta de ícones que separa o santuário da igreja propriamente dita) é esculpido em madeira, os frescos são cenas das escrituras, o autor é um pintor vindo de Korçë.
Encontrei esta imagem antiga, data do tempo em que não estava cercada por belos jardins, como agora. Curiosamente, encontrei uma transcrição que descreve exatamente a igreja, mas que lhe chama igreja da Sexta-Feira Santa.
Frescos antigos, a aguardar limpeza, conservação e restauro
Púlpito de requintada beleza
Outra perspetiva da área de culto
Um aspeto da cúpula, também a pedir intervenção
Iconóstase
Sala com ícones
Porventura a imagem da Virgem Maria, mas não excluo a possibilidade de ser uma santa da igreja ortodoxa albanesa
Imagem tirada da entrada tendo por fundo o iconóstase
Mesmo com iluminação deficiente é possível verificar que por cima das colunas temos pintura à volta da cúpula, com frescos ao fundo.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 27 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28136: Os nossos seres, saberes e lazeres (738): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (259): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 4 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28156: Agenda cultural (895): Na 2ª feira, dia 6 de julho, lá estaremos na tradicional batatada de peixe seco, na Festa da Marquiteira, Lourinhã... Ontem, comida dos pobres, hoje produto "gourmet"


Cartaz (pormenor) da festa da Marquiteira, Lourinhã, em honra do Sr. Jesus do Carvalhal.

2ª feira, dia 6, é a tradicional batatada de peixe seco que congrega os amantes do petisco, 
 que dantes era dos pobres e agora é produto "gourmet".

A  iniciativa é da Associação Cultural, Recreativa e Desportiva da Marquiteira, a quem tiramos o quico, por manter esta tradição, provavelmente única em todo o mundo... Em anos anteriores, foram já  centenas os comensais da batatada de peixe seco. Só a terra vizinha da Ventosa do Mar lhe faz frente...
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 17 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28109: Agenda Cultural (894): Lançamento do livro "Um percurso pela história e pelos sabores da Guiné-Bissau", de M. Margarida Pereira-Müller, dia 23 de Junho de 2026, pelas 18h00, na Galeria ArteGraça, Rua da Graça, 27-29, Lisboa

Guiné 61/74 - P28155: Humor de caserna (278): Na Spinolândia, namorar não era proibido... o preço da chamada telefónica para a metrópole é que era proibitivo!... Que o diga o Humberto Reis, o nosso "cartógrafo" e "ranger" (que está agora no "estaleiro", e a quem desejamos rápida recuperação)









 



















Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Imagem:  Humberto Reis  (2011)

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.




1. Maria Teresa Macedo Coelho dos Reis nasceu no Porto, 11 de julho de 1947. Faleceu em Alfragide, em 14 de de 2011, portanto à beira de completar os 64 anos.

 Segundo o Humberto, conheceram-se no Bairro da Encarnação, Lisboa, onde as famílias viviam  e eram vizinhas. Os pais do Humberto tinham também casa em Albergaria dos Doze, Pombal.

A Teresa era jogadora de basquetebol e trabalhava na RTP. Casou com o Humberto em maio de 1972. Em meados de 1970 o Humberto veio de férias da Guiné (ei-lo aqui, na foto à esquerda, com a Teresa) (*).

Pessoalmente, conhecia-a na Lourinhã, num memorável convívio com o Humberto, o Tony Levezinho e a sua querida Isabel, também já infelizmente falecida (1952-2020),  e  mais um casal de amigos da Amadora, após o nosso regresso da Guiné, em março de 1971. Esse convívio na Lourinhã deve ter sido em meados de 1971.

A Teresa era então uma mulher esplendorosa, jovial, e brincalhona... Éramos todos jovens e tínhamos a vida à nossa frente.   Foi a primeira das "nossas mulheres" a entrar para a Tabanca Grande, a título póstumo, em 22/6/2011.

Este poste, bem humorado (**), é uma pequena homenagem que lhe fazemos. A ela e ao seu (e nosso) Humberto, que está no "estaleiro", na cama 24,  da enfermaria do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica, piso 8, no Hospital de Santa Maria, Lisboa, a recuperar da "Operação Coração Aberto"...... Fazemos votos para que ele regresse a casa, pelo seu pé. E agora 10 anos mais novo que todos nós...

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 3 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28153: A nossa guerra em números (50): o custo de uma chamada telefónica, de 3 minutos, em 1969, para a Metrópole, podia ir de 100 a 130 escudos (37 a 48 euros, a preços de hoje)

Guiné 61/74 - P28154: Parabéns a você (2501): Jorge Ferreira, ex-Alf Mil Inf da 3.ª CCAÇ (Nova Lamego, Buruntuma e Bolama, 1961/63)

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Nota do editor

Último post da série de 29 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28142: Parabéns a você (2500): José Firmino, ex-Soldado At Inf da CCAÇ 2585/BCAÇ 2884 (Jolmete, 1969/71) e Santos Oliveira, ex-2.º Sarg Mil API do Pel Mort 912 (Como, Cufar e Tite, 1964/66)

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28153: A nossa guerra em números (50): o custo de uma chamada telefónica, de 3 minutos, em 1969, para a Metrópole, podia ir de 100 a 130 escudos (37 a 48 euros, a preços de hoje)

Teresa Reis
em 1972
1. Nunca soube quanto custava, em escudos, uma chamada telefónica, feita no posto dos CTT (Correios, Telégrafos e Telefones) de Bambadinca, zona leste, região de Bafatá, em 1969, para a minha terra Lourinhã, a 70 km, a norte de Lisb
oa... 

Nunca fiz nenhuma chamada em quase 2 anos que estive na Guiné. Falando com o Humberto Reis, há dois dias atrás (no Hospital de Santa Maria, onde está internado em recuperação de uma cirurgia cardiotorácica) disse-me que chegou a telefonar, mais do que uma vez, para Lisboa, para os pais e para então namorada, e depois sua mulher, a nossa querida Teresa Reis (1947-2011).  Em Lisboa, já se costumava  ter telefone fixo em casa. Mas na província ainda era um luxo, por exemplo, para Albergaria dos Doze, concelho de Pombal, onde os pais tinham casa de fim-de-semana, não havia telefone fixo. Usava-se o do café ao lado...

O Humberto não se lembra do tarifário. Nas pesquisas na NET, também não é fácil encontrar tabelas tarifárias completas dos CTT para o serviço telefónico ultramarino nessa altura (em que estávamos os em Bambadinca, 1969/71). Mas podemos fazer uma estimativa bastante credível (*).

Naquela época, uma chamada entre a Guiné e Portugal fazia-se pela rede de radiotelefonia de alta frequência (HF), através da estação de Bissau, sendo depois encaminhada  para a rede telefónica nacional. 

Não existia marcação automática; a chamada era pedida à telefonista, muitas vezes com um dia de antecedência, sobretudo em postos do interior como Bambadinca. E mesmo em Bissau.

O custo era elevado. Namorar pelo telefone, nem pensar. As tarifas dos CTT da segunda metade dos anos 60 apontam para valores da ordem de cerca de 80 a 120 escudos por 3 minutos, conforme a hora e o circuito disponível,   cada período adicional de 3 minutos sendo cobrado separadamente. 

Para termos uma ideia do que isso representava, basta lembrar que uma praça ganhava em média entre 900 escudos (soldado) e 1300 escudos (1º cabo).

Assim, uma única chamada de três minutos podia representar entre um décimo e um sétimo do vencimento mensal de uma praça. 100 escudos em 1969 representariam, a preços de hoje, a 37 euros.

Era um verdadeiro luxo. Na melhor das hipóteses, só um em cada très de nós terá telefonado pelo menos uma vez para casa (**).

Além do preço, havia outro problema: a morosidade e a incerteza. A chamada podia ser marcada para determinada hora e só ser estabelecida muito mais tarde ou nem chegar a completar-se por falta de circuitos ou más condições de propagação rádio.  Muitas vezes, quando finalmente a telefonista chamava, era preciso correr para o posto dos CTT porque a ligação não esperava (***). Em Bissau chegava-se a dormir nas instalações (!).

No caso específico de Bambadinca, em 1969, o procedimento seria igual ao de outros postos dos CTT no interior da província: (i) o Humberto dirigia-se ao posto dos CTT;  (ii) preenchia um impresso pedindo a ligação para o número dos pais ou da namorada, no bairro da  Encarnacão, Lisboa, ou para o café  vizinho dos pais, em Albergaria dos Dozea;  (iii) a telefonista de Bambadinca (a dona Leontina)  transmitia o pedido para Bissau; (iv) Bissau tentava obter um circuito para Lisboa; (v) Lisboa estabelecia a ligação com o posto dos correios de Pombal (e depois Albergaria dos Doze); e (vii) finalmente, chamava o assinante (!)... 

Tudo isto podia demorar horas ou, frequentemente, até ao dia seguinte.

Tal como eu, muitos militares na Guiné nunca telefonaram para casa. As cartas e os aerogramas eram muito mais baratos. Eram o principal elo com a família (e amigos). O SPM funcionava bem. A chamada telefónica ficava reservada para casos muito especiais: uma doença grave, um nascimento, um aniversário, uma morte ou outra urgência familiar (de resto, havia, em alternativa, o telegrama, para um SOS como um pedido de dinheiro).

2. Tudo indica que era absolutamente proibitivo para a maior parte dos militares no CTIG (e em especial para as praças  (soldados e cabos ) fazer uma chamada telefónica para a Metrópole, via CTT...

Escreveu o Arménio Estorninho em comentário ao poste P14937:...

(...) "No Posto Administrativo de Empada, havia um Balcão dos CTT no qual por várias vezes telefonei para os meus familiares e pela módica quantia de 100$00 (pesos) por período de 3 minutos.

A chamada tinha que ser marcada (dia e hora) com aviso ao receptor e confirmada a quem solicitava.

Obs: Por intermédio do balcão do Posto Administrativo de Empada (via telefone), foi solicitado à Rádio PFA - Programa das Forças Armadas  para a passagem de um 'disco pedido'  e como foi dito que era do interior passaram-no de imediato (coisa rara).(...)"
 

27 de julho de 2015 às 16:16:00 WEST


3. Pode perguntar-se  qual era então a utilidade (social, económica, administrativa, política...) dos postos dos CTT na Guiné ? ... Qual era a tabela tarifária em vigor ? Qual o seu movimento diário ? Quais seriam as suas receitas e despesas ? Quem tutelava os CTT ?  

É no tempo do ministro das colónias e depois do Ultramar, Sarmento Rodrigues (nomeado em 1950, depois de servir na Guiné como governador e "deixar saudades", entre 1945 e 1949) que se começa a modernizar a rede de telecomunicações. 

Pelo Arménio Estorninho (ex-1.º Cabo Mec Auto Rodas, CCAÇ 2381, Ingoré, Aldeia Formosa, Buba e Empada, 1968/70), ficamos a saber que Empada, que era posto administrativo (, sendo a sede da circunscrição em Tite, região de Quínara)  e tinha balcão dos CTT... E que se pagava 100 pesos por uma chamada de 3 minutos para a metrópole... 

"Módica" quantia é que não era... Era o preço de uma garrafa de uísque velho, ou o equivalente a 4 refeições em Bafatá, no restaurante A Transmontona (bebidas incluídas).

Tite passou a sede de circunscusncrião, em lugar de Fulacunda que perdeu importância com a guerra, e ficou isolada. Hoje é Buba a capital da região de Quínara. Buba também devia ter balão dos CTT tal como Tite.
 
O cor art ref António J. Pereira da Costa também confirma que o serviço era caro:

(...) Usei os serviços dos CTT a partir do telefone do chefe de posto (administrador(?) de Mansabá.

Era caro, mas consegui falar para casa e perguntar à minha mulher se queria lá ir ter comigo. Ela foi e esteve lá durante cinco meses. Apareceram também as mulheres de dois furriéis milicianos até o cor pqdt  Durão me ter ordenado que fizesse uma proposta para que fosse autorizada a presença de mulheres metropolitanas em Mansabá. Obviamente a proposta foi chumbada e elas foram regressando a casa, excepto a Júlia que ficou em Bissau com resultados trágicos.

O telefone ouvia-se pessimamente mal devido ao "aquecimento" das antenas, mas falava-se e isso já era bom. (...)
 
segunda-feira, 20 de julho de 2015 às 21:52:00 WEST 

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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(***) Vd. poste de 8 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14938: (Ex)citações (287): Certa vez fui a Teixeira Pinto, e na estação dos CTT marquei dia e hora para telefonar para casa... A família reuniu-se em peso, reunida, ansiosa, à espera do telefonema... Mas eu não consegui lá voltar nesse dia e hora...A família ficou em pânico, como seria de imaginar (Leão Varela, ex-alf mil, CCAÇ 1566, Jabadá, Pelundo,Fulacunda e S. João, 1966/68)

Guiné 61/74 - P28152: Notas de leitura (1933): "Retratos de Guerra", desenhos de Cristina Sampaio a partir da obra de Neves e Sousa, uma exposição a não perder na Livraria Municipal Verney, Oeiras, patente ao público até 14 de Novembro (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
É assim que este evento é apresentado em termos de comunicação pela Livraria Verney, creio que diz o essencial sobre a exposição ‘Retratos de Guerra: Desenhos de Cristina Sampaio’ que vai estar patente na Livraria Municipal Verney, em Oeiras, até ao dia 14 de novembro.
⁠ ⁠‘Retratos de Guerra: Desenhos de Cristina Sampaio’ nasce do diálogo entre a obra documental do pintor Neves e Sousa e o universo gráfico satírico e geométrico de Cristina Sampaio.
⁠ ⁠Partindo dos desenhos do livro Angola a Branco e Preto, Cristina Sampaio confronta-se com a memória da Guerra Colonial, imaginando a realidade paralela às paisagens e figuras retratadas por Neves e Sousa. Em vez de recriar os desenhos originais, utiliza-os como cenários simbólicos para compor retratos de personagens marcadas pela guerra.
⁠ ⁠A exposição estabelece uma ponte entre passado e presente, memória e interpretação, revelando o contraste entre a serenidade aparente das imagens e a violência da guerra colonial. O resultado é um conjunto de obras onde o desenho se transforma em reflexão visual sobre identidade, conflito e memória coletiva.⁠

Um abraço do
Mário


Uma exposição a não perder:
Retratos de Guerra, desenhos de Cristina Sampaio a partir da obra de Neves e Sousa


Mário Beja Santos

Tendo sido confiada uma grande parte da obra de Neves e Sousa ao município de Oeiras, tem a havido a preocupação desta autarquia em tratar este património através de um ciclo de reinterpretações. O artista agora convidado é a Cristina Sampaio. Como observa o presidente da autarquia: “A artista parte de uma constatação simples, mas decisiva: enquanto aquelas imagens de aparente serenidade eram produzidas, decorria em simultâneo a guerra colonial. As paisagens os corpos e os quotidianos retratados por Neves e Sousa coexistiam historicamente com um conflito prolongado. O gesto de Cristina Sampaio é simultaneamente contido e incisivo. Os desenhos originais de Neves e Sousa permanecem, mas recuam. Tornam-se fundo, cenário, memória suspensa. Esbatidos, deixam de ocupar o primeiro plano para passarem a funcionar como espécie de arquivo visual sobre o qual surgem figuras apuradas, imóveis, quase frontais – personagens que parecem pousar diante da História, como nos antigos estúdios fotográficos.”

Esta exposição está patente ao público até 14 de novembro na Livraria Municipal Verney, no centro histórico de Oeiras.

Cristina Sampaio dá explicações do seu trabalho pelo catálogo da exposição:
“Nas pinturas identifiquei pontos com o meu estilo, pois, curiosamente, o traço orgânico dos desenhos de Neves e Sousa, ao passar à tela, transformam-se em geometria. Ao continuar a refletir sobre o que fazer, apercebi-me de que os desenhos eram contemporâneos da Guerra Colonial. Provavelmente, algumas daquelas paisagens ou pessoas, terão sido tocadas pela guerra, que decorreu entre 1961 e 1974. Foi assim que me decidi por esta abordagem da reinterpretação dos desenhos do Neves e Sousa. Iria retratar a realidade paralelamente à realidade por ele retratada. Do ponto de vista formal, eu não via sentido nenhum em redesenhar os desenhos de Neves e Sousa. Eles funcionam, nas minhas imagens, como as paisagens pintadas que existiam nos antigos estúdios de fotografia, à frente das quais as pessoas eram retratadas. A maioria dos meus desenhos são, portanto, pessoas a posar para a câmara. Retratos de Guerra.”

Selecionei um conjunto de desenhos e trabalhos da artista que nos levam claramente a Angola, caso dos diamantes e do petróleo, encheu-me as medidas o trabalho dela intitulado A Chegada é um esquiço seguro e sóbrio de uma situação temível para qualquer entrada na guerra, a chegada um teatro de operações; também encontrei universalidade nas duas imagens seguintes intituladas Travessia do Rio e Emboscada, deixando para último um grafismo que nos toca a todos, mas que foi inegavelmente mais associado a Angola e a todo o seu inferno de guerra civil. São estas, em suma, as razões principais que me levam a convidar-vos a visitar a exposição patente na Galeria Municipal Verney.

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Nota do editor

Último post da série de 29 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28144: Notas de leitura (1932): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28151: Tabanca da Diáspora Lusófona (42): Voltando ao Mato Cão do meu tempo... (João Crisóstomo, ex-alf mil at inf, CCAÇ 1439, Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67)

Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Janeiro de 2008 > Estrada Bissau-Bafatá > Passagem do Xico Allen pelas proximidades de Mato Cão (ou "Matu de Cáo"), onde foi criado, no tempo do ten cor inf Polidoro Monteiro, comandante do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72), um destacamento, guarnecido pelo Pel Caç Nat 52.

Foto: Xico Allen (1950-2022)  / Albano Costa (2008) / Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradasda Guiné



Madeira > Funchal > BII 19 > CCAÇ 1439 > 1965 > "Os quatro alferes (ainda aspirantes...): Sousa e Zagalo (sempre independente, apareceu de roupão); à direita, o Freitas; a minha cabeça aparece por detrás do Zagalo."

Depois de seis meses fomos dados por “preparados” e a 2 de Agosto de 1965 embarcamos no “Niassa” para a Guiné. O mesmo navio nos traria de volta quase dois anos depois.

Foto do álbum do João Crisóstomo.  

Foto (e legenda)s: © João Crisóstomo (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Comentário do João Crisóstomo ao poste P28143 (*)

João Crisóstomo: tem 300 referências
no nosso blogue

Data - segunda, 29/06/2026 22:40~
Assunto - Comentário ao poste P28143 (*)


"Mas voltando ao Mato Cão (**)”…

Nos meus tempos (1965/67),   Mato Cão era conhecido pelos problemas que aí e à sua volta já tínhamos de enfrentar: especialmente a estrada de Porto-Gole- Enxalé- Bambadinca, com as suas emboscadas, minas e foram várias as que lembro, incluindo duas no mesmo dia, uma que vitimou o furriel Mano e logo a seguir outra quando eu próprio comandei uma coluna de socorro a essa coluna do Zagalo que tinha sofrido uma mina e e acabámos por cair noutra que vitimou o “Manel Açoreano” que era o único soldado dos Açores integrado na nossa companhia de madeirenses.

Mas quanto a protecção aos barcos nessa parte do Geba, ainda não se falava muito. Sei, especialmente pelos relatos do Beja Santos 
no seu primeiro livro ( "Diário da Guiné, 1968-1969: Na Terras dos Soncó”) que ir diariamente a Mato Cão para proteger as embarcações nessa zona era parte do seu mister.

Mas parece que isso só começou a sério depois de nós termos voltado a Portugal.

Durante a minha estadia na Guiné estive estacionado em Missirá várias vezes, por um mês, o que na prática por vezes se prolongavam por dois meses e mais. Mas não tínhamos obrigação de ir até Mato Cão ou fazer aí patrulhas com a finalidade de proteger embarcações.

Enquanto o Beja Santos foi para aí enviado com esse fim em vista (penso eu) e Missirá era já mais ou menos independente de Enxalé, nos meus tempos Missirá era apenas um simples destacamento de Enxalé.

Estávamos aí destacados fazendo mesmo muito pouco ou mesmo nada, excepto proteger quem ia buscar água a um poço aí perto, que era a única água fonte que fornecia a Tabanca de Missirá, esperando pacientemente que outro pelotão nos rendesse.

A nossa missão era apenas a de "dar proteção” nessa zona e participar em operações quando fosse preciso. O que era frequente e de facto o meu pelotão foi requisitado várias vezes para fazer parte em operações a nível de companhia ou mesmo de batalhão.

Missirá sofreu um grande ataque ainda no meu tempo, já perto da nosso regresso a Portugal.

O que me parece é que "o meu tempo” da CCAÇ 1439 foi um tempo de transição em que Missirá e Porto Gole, embora ainda integrados na companhia que estava em Enxalé, passavam a ter já mais autonomia.

Depois do nosso regresso a Portugal pelo que compreendo (mas o Beja Santos e o Henrique Matos poderão esclarecer tudo isto melhor que eu), os destacamentos de Missirá e Porto Gole passaram a ser mais independentes: Missirá passou a ser directamente dependente de Bambadinca, com pouca ou nenhuma ligação com Enxalé, e quanto a Porto Gole penso que ainda ficou por algum tempo mais dependente de Enxalé.

Mas já se sentia esse tempo de “transição” (que mais me pareceu um tempo de confusão do que transição) que não foi tão fácil para ninguém: quando destacaram para Porto Gole um "pelotão independente” sob o comando do alferes Maldonado, este destacamento de Porto Gole sofreu logo um tremendo ataque que levou a vida do próprio alferes Maldonado. E eu que de lá tinha saído semanas antes, não tive senão que aceitar as ordens do meu comandante, capitão Pires e tive de voltar para lá até que arranjassem outro alferes para o substituir. Foi o Henrique Matos.

O mesmo viria a acontecer com Missirá, que sofreu um tremendo ataque quando lá puseram um “pelotão independente”, ainda dependente de Enxalé, mas já com maior autonomia, sob o comando do alferes Marchand.

Depois de tremendo ataque a Missirá, quando o alferes Marchand aí se encontrava, a CCAÇ 1439 foi instruída a fornecer outra vez um dos alferes e foi o alferes Freitas que para lá voltou.

E até voltarmos nunca deixou de estar sob a dependência de Enxalé… na altura em que chegou hora de voltar a Portugal era eu que me encontrava em Missirá e de lá partimos para Fá, e daí para Bissau, rumo a Portugal.

( Vide Postes:
 22940).

Isto tudo sobre "voltando ao Mato Cão” para dizer que, no que se refere a proteção das embarcações no Geba, nessa zona perto de Mato Cão, tudo mudou nessa altura, portanto em fins de 1967 e seguintes. 

Nessa altura a companhia de madeirenses CCAÇ  1439 já tínha regressado e eu, contente e aliviado por ter voltado são e salvo da Guiné, depois de ter sido um “oficial” do Exército Português, lavava pratos em Londres para ajudar com as despesas de apendizagem/aperfeiçoamento da língua inglesa que me veio a a valer muito depois.

(Revisão / fixaçãode texto, negritos, título: LG)

2. Comentário do editor LG:


A CCAÇ 1439 teve como unidade mobilizadora o BII 19 (Funchal), partiu para o CTIG em 2/8/1965 e regressou a 18/4/1967, tendo passado por Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole, Missirá, Fá Mandinga. 

O comandante era o cap mil inf Amândio Manuel Pires, já falecido. 

Alferes (milicianos): Freitas (Funchal, Madeira), João Crisóstomo (Torres Vedras, hoje a viver em Nova Iorque), Sousa (Vila Nova de Famalicão), Luís Zagalo (Lisboa, ator de teatro, já falecido).

Síntese da Actividade Operacional

Após o desembarque, seguiu imediatamente para Xime, a fim de efectuar o treino operacional com forças da CCav 678 e assumiu a responsabilidade do subsector de Xime em substituição da CCaç 508, ficando integrada no dispositivo e manobra do BCaç 697, com a missão de intervenção e reserva do sector.

Em 10Set65, por troca com a CCav 678, foi deslocada para Bambadinca, onde continuou com a missão de intervenção e reserva do sector e assumiu cumulativamente, a responsabilidade do respectivo subsector de Bambadinca.

Nestas funções, tomou parte em diversas operações de que se salientam, pelos resultados obtidos, a operação "Bravura", de 14 a 24Ago65, na região de Galo Corubal e a operação "Avante", de 29 a 30Ago65, na região do rio Burontoni.

Em 090ut65, por troca com a CCaç 556, assumiu a responsabilidade do subsector de Enxalé, com destacamentos em Missirá e Porto Gole, mantendose na dependência do BCaç 697 e depois do BCaç 1888. 

No período, efectuou várias operações nas regiões de Madina Belel, Bissá e Porto Gole, em que
capturou bastante armamento e material.

Em 08Abr67, foi rendida no subsector de Enxalé, por troca, pela CArt 1661 e recolheu seguidamente a Fá Mandinga, onde se manteve, temporariamente, como subunidade de reserva do sector.

Em 17Abr67, seguiu para Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

Observações  Tem História da Unidade (Caixa n.º 74 - 2ª Div/4ª Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pág. 349

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28150: Tabanca da Diáspora Lusófona (41): Vamos a Portugal de meados de setembro a meados de outubro: eu e a Vilma queremos ir ao próximo encontro da Tabanca da Linha (24/9/2026) (João Crisóstomo, Nova Iorque)


Prompt original e composição editorial: Luís Graça | Imagem: Arquivo do Blogue Luís Graça $ Ca,aradas da Guiné |  Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI (2026)

1. Mensagem do João Crisóstomo (Nova Iorque):


Data - segunda, 29/06/2026, 22:40

Caro Luís Graça,

Ao visitar o blogue, quando se trata das paragens por onde andei, ou de camaradas que comigo por lá andaram nem que seja de noite quando não consigo dormir, eu arranjo mesmo tempo para ler e reviver… E aqui está um “comentário” que eu ia enviar, mas que se tornou tão longo que não tenho coragem de o enviar.

Podes fazer dele o que quiseres, que tens mais autoridade e sabes se tem algum valor ou não. Ignora-o mesmo,  se achares que é a melhor solução. Não fico desapontado por causa disso.

Mas já que estou no computador, aproveito para algumas notícias: fnalmente consegui organizar a minha agenda e vamos a Portugal em meados de setembro a meados de outubro. Prepara-te para nos aturares.

Não vai ser por muito tempo (só por quatro semanas!) e entre dois dentes a tratar, aniversários da minha filha e do meu neto e outros, visita ao Museu Aristides em Viseu (queres ir connosco?), etc.,  o tempo voa… Mas temos de arranjar tempo para nós: fala com os teus filhos, que são sempre uma satisfação grande para nós. E com os nossos amigos comuns…

Em princípio eu e a Vilma vamos estar no encontro da Tabanca da Linha de 24 de setembro . Já informei o pobre do Rui (Chamusco): como sabes quando vamos a Portugal, para ele é como uma bula papal: ganha sempre muitas “diligências” e outros créditos no Céu… Já informei o Manel Resende (por telefone, claro). 

Quem sabe, podemos-nos encontrar lá… Vou ligar ao Figueiredo, Leitão ("Mafra") etc.,  etc . Talvez mesmo o Valter... Pode ser que possam/queiram aparecer. Para mim, a não ser que sejam mesmo vizinhos, se não for em encontros assim não consigo ver ninguém. (...)

2. Comentário do editor LG:

João e Vilma: é sempre uma alegria receber-vos, mesmo em plena campanha das vindimas. Vamos lá concilitar as agendas. Pode ser que desta vez também consigam visitar.nos no Norte. O convite para ir convosco ao Museu Aristides de Sousa Mendes, é uma tentação. Ainda não conheço. Vamos ver em que data poderá ser. A 24 de setembro já devo estar na Lourinhã. Na última semana de agosto e na 1ª quinzena de setembro, costumo estar  na Quinta de Candoz.  

João, o teu comentário sobre o Mato Cão sairá em próximo poste. Um chicoração fraterno para os dois. Luís.
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