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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28265: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (16): "o nosso querido mês de agosto" de há 50, 40, 30, 20 anos... no Portugal sacroprofano



O nosso querido mês de Agosto

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Imagens e texto: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné | Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. O "nosso querido mês de agosto" , em Portugal,  era o tempo das "vacanças" (sobretudo dos luso-franceses). Mas também, "voilá"!,  o mês por excelência das festas e romarias... 

Era (e ainda é?!)...

Há ainda santuários (na sua grande maioria marianos), por toda a parte, no Portugal profundo, "sacroprofano", de Norte a Sul do país, onde se pagavam promessas (sobretudo no tempo da guerra colonial, 1961/74). 

Mas ainda hoje, dizem... (Fátima, à parte, que é sobretudo um fenómeno turísticorreligioso.)

O Portugal do "nosso querido mês de agosto"  era muito interessante,  sociologicamente falando. Pelo menos, mais colorido, mais saboroso, mais "pimba", mais autêntico, quer  dizer, mais nosso, do que é  hoje, vendido a retalho aos multimilionários,  gentrificado, globalizado, igual ao resto da m*rda mundial... 

Para já,  era muito mais do  que a imagem convencional do “mês das férias”, das férias grandes escolares, das praias superlotadas,  do Algarve dos políticos e dos  famosos, das invasões turísticas, e depois também dos desvastadores incêndios à medida que o  interior do  país se despovoava e o eucalipto impunha a sua ditadura económica e ecológica... em nome da indústria do papel-de-limpar-o-cu!

O mês de agosto era, por excelência, a afirmação e a consagração do "Portugal sacroprofano". 

As  romaria portuguesas não eram apenas religião, pura e dura.  Era uma espécie de contrato anual entre a comunidade, o santo ou a santa que a protegia, os vivos do lado de cá e os mortos do lado de lá, Deus e os seus embaixadores na terra, os santos, as santinhas.

Havia fatiotas novas, missa, procissão, andores, anjinhos,  velas, ex-votos e promessas. Muitas notas, sobretudo de escudos e francos (antes do euro, ainda no tempo do escudo) e depois euros,  pregadas com molas ou alfinetes ao manto da santa.

Havia também vinho (muito, e o verdasco  bebia-se em canecas de litro, de porcelana). 

Havia bifanas, farturas,  pão com chouriço, sardinhas assadas, coiratos, frango no espeto,  algodão doce, tremoços e pevides (no Oeste),  concertinas, bailaricos, foguetes, namoros, juras eternas de amor,  reencontros familiares, emigrantes regressados, negócios, noivados, casamentos, beijos roubados.   comércio ambulante, carroséis e carrinhos de choque... E também porrada, de varapau, de criar bicho (como antigamente...). 

Havia, claro, a indispensável fotografia de família (antigamente, quando ninguém ainda tinha máquina fotográfica, muito menos telemóvel). No tempo do fotógrafo ambulante, em que as festas e romarias eram o seu "São Miguel" (isto é, a época em que faturava).

A meteorologia e a agricultura davam uma ajudinha, à festa, à romaria, à santa, ao santo...  As vindimas eram só em setembro, os cereais já estavam colhidos... O corpinho podia folgar. O "emigras" regressavam, a família dispersa reencontrava-se, a aldeia voltava a ter gente (sobretudo nova), antes de desaparecer no futuro próximo que já é presente.

A festa religiosa funcionava, portanto, também como uma espécie de assembleia geral, anual, da aldeia. O Portugal rural disperso recompunha-se por alguns dias, no nosso querido mês de agosto.

E pagavam-se promessas, camaradas!... Algumas antigas, camaradas!... Agora que a família tem carro, em segunda mão, comprado às prestações...

Se há coisa nossa, bem portuguesa, era  a promessa!... A "cunha" metida aos santos e às santas. Que a gente tinha pejo ou vergonha em ir diretamente a Deus, sem intermediários, desbarretados... (Mas, atenção, "quando Deus não quer, os santos não rogam", ou seja, não adianta meter cunhas ao céu...)

Durante a guerra colonial, a promessa ganhou uma dimensão extraordinária. Um mancebo ia às sortes, ficava apurado, "graças a Deus" (sinal de que não era nenhum aleijadinho),  para todo o serviço militar (mesmo que tivesse os pés chatos e fosse lingruinhas, meia-f*da, meia-leca!...), era chamado pela Pátria, para defender o Ultramar, embarcava para Angola, Guiné ou Moçambique... 

E  logo o mulherio (a mãe, a mulher, a namorada, a noiva, as irmãs, até as madrinhas de guerra!.) que ficavam a rezar por ele,  faziam uma promessa: 

"Se o mê Zé vier inteirinho, são e salvo, hei de ir à Senhora...do Castelinho, dos Remédios, da Agonia, do Sameiro, da Nazaré, da Graça, do Cabo Espichel, da Lapa, do Almortão..."

E depois havia que pagar a dívida. Podia ser ir descalço, de joelhos, carregar uma vela, oferecer dinheiro, levar um ex-voto (um braço ou uma perna em cera), mandar celebrar missas, etc.. 

A promessa estabelecia uma relação quase pessoal e de cumplicidade com a santa:  “Eu peço-te isto, senhora; se me concederes a graça, eu faço-te aquilo.” Era senhora e não "priga" (rapariga), que entre o céu e a terra vai alguma distância e o respeitinho é(era, antigamente) muito bonito.

Era uma religião pouco ou nada sofisticada  profundamente popular, corporal e contratual, interesseira,  descarada, franca, comercial,  baseada na contabilidade simples, de merceeiro, do "deve-e-haver" e da lista dos fiados.

E isso ajuda-nos a compreender melhor a mentalidade dos "tugas" de 1961-74 que alombaram com a guerra de África.  A guerra não se travava longe de casa, a 4 mil, 8 mil, 12 mil quilómetros de distância.  

Qual quê?!... A guerra entrava na capela da aldeia, no adro da igreja, na escola, na casa de família, na casa dos vizinhos, na taberna, na vinha, no campo, nos montes,   no terço, na promessa, na lareira, no altar de Nossa Senhora de Fátima, erguido lá em casa, alumiado dia e noite por uma lata de azeite!

O soldado estava em África; a guerra estava também em Portugal ( que era a metrópole). E a Nossa Senhora,  mais do que Deus,  estava em toda a parte, de Gadamael a Buruntuma, de Madina do Boé a Varela, do Minho a Timor...

2. O culto mariano tem raízes muito profundas em Portugal, e são inúmeros os santuários e festas dedicados a Nossa Senhora.  Por isso há que distinguir Fátima e  os demais santuários do Portugal "sacroprofano".

Fátima é uma coisa... do "outro mundo", uma coisa de outra escala: fenómeno nacional e internacional, peregrinação organizada, turismo religioso, "máquina caça-níqueis", infraestrutura, hotelaria, comércio, negócio, comunicação social, calendário e liturgia próprias...

Fátima é  uma “indústria da fé”,  sem ofensa para os crentes, e sem que isso implique negar a fé genuína de quem lá vai.

A santa  da aldeia é outra coisa, a outra escala, liliputiana. É a santinha da terrinha. 

Aquela imagem concreta que está no alto do monte , ou no cima da falésia, á  entrada do porto de abrigo, ou na capelinha; que pertence à memória da freguesia; que guia os pescadores como um farol; que viu partir os rapazes para a guerra; que recebeu as promessas das mães; que todos os anos desce ou sai em procissão (por terra ou por mar); que conhece, por assim dizer, a biografia sentimental da comunidade... Essa é que é a santa de verdade.

É aqui que o sacro e o profano se juntam, misturam, fundem...  

A primeira vez que fui à Senhora do Castelinho, em 1975, no Marco de Canaveses, é que tive esse vivência (e evidência)  das festas e romarias nortenhas (coisa que não havia verdadeiramente nas terras estremenhas, ou pelo menos, na minha vilória da Lourinhã).   

O mesmo homem que eu cumprimentei e que o meu futuro sogro me apresentou, "ramadeiro", e que fazia parte da sua equipa de construção de "ramadas",  podia: 

  • companhar a procissão de vela na mão;
  •  ajoelhar-se diante do andor; 
  • cumprir uma promessa; 
  • emborcar três canecas de verdasco  depois da missa; 
  • dançar até às três da manhã; 
  • discutir futebol (ou até política, já se discutia política acaloradamente em 1975, no verão quente de 1975, e que "a Senhora do Castelinho" nos livrasse dos homens com barba e gadelha comprida); 
  • catrapiscar uma solteira ou mandar um piropo a uma casada; 
  • comprar uma fartura; 
  • e no dia seguinte, depois de dar uma "trancada na velhota",   
  • estar fresco para pegar no trabalho, no suplício de Sísifo de todos os dias...

Não havia necessariamente contradição. Era assim que funcionava a cultura popular. O sagrado não estava num compartimento estanque. Ruy  Belo, que não era antropologo  mas poeta compreendeu isso melhor do que nongyem ...

A cultura popular misturava-se com o quotidiano. O ano era regido pelos solstícios do inverno e do verão. A vida era simples, a preto e branco. 

De resto, havia romarias em que elementos aparentemente profanos eram  tão antigos e estruturantes como os religiosos. 
 
3. E eu aí é que percebi que o Portugal tradicional era muito mais do que um simples país estatisticamente  de “católicos apostólicos romanos", praticantes. 

Qual quê!.. Era anticlerical, se fosse preciso andava á porrada com o padre da freguesia, para logo a seguir fazer o compasso no Páscoa e angariar umas coroas valentes spara o sustenho do passal, da casa e da horta do padre... 

Era tudo muito mais complexo (e fascinante) do que eu imaginacva ou tinha apreendido ingenuamente nos livros. 

Havia fé, superstição, ritual, tradição familiar, medo, Deus e o Diabo, esperança, sociabilidade, festa,  foguetes, bombos, cabeçudos  .., tudo misturado como num "cocktail". 

E os "emigrantes" (externos e internos)  trouxeram outros ingredientes (da França, da Alemanha, do Luxemburgo, da Suiça..., mas também,  do Porto e de Lisboa, sem esquecer a tropa que regressava do ultramar...). 

Mas, antes destes todos, tinha havido os brasileiros de torna-viagem.
 
Agosto era, nos anos 70, 80, 90, o  mês do regresso à terra. 

O emigrante chegava de Renault, Peugeot ou Mercedes; trazia presentes, bebidas, charutos, cigarrilhas, chocolates, dinheiro e novas maneiras de vestir, de viver, de falar, de consumir, de comprar e ate  de pensar.. E encontrava a aldeia engalanada para a festa do padroeiro ou padroeira 

Havia ali uma pequena ironia histórica,  deliciosa: o emigrante que partira pobre, pobretana ou até  miserável (cabaneiro, rendeiro, camponês sem terras, jornaleiro, ganhão, pescador, operário, marçano, sapateiro, moleiro, alfaiate, ferrador, trolha da construção civil, criada de servir, doméstica, etc.)  voltava à aldeia precisamente para participar na festa que os seus pais e avós celebravam quando ele ainda era pobre, pobretana ou até miserável.

E muitas vezes era  ele quem agora pagava a banda, o foguetório, o andor, a ornamentação ou a comissão de festas, o padre de fora que vinha fazer o sermao... Ou seja: a emigração, que despovoara o interior, também financiava uns anos depois (e mantinha viva) uma parte importante da sua cultura festiva.

O  “querido mês de agosto” português  era então, há 50, 40, 30, 20 ano atrás, dificil de definir: 

mês das férias + mês dos emigrantes + mês das festas e romarias + mês dos reencontros e casamentos + mês das promessas + mês da memória... 

Uma frase talvez pudesse resumir tudo isso:  em agosto, no nosso querido  mês de agosto, Portugal regressava temporariamente às suas aldeias, e as aldeias regressavam temporariamente a si próprias. Isso era mais evidente no Norte e Centro do país. 

Eu ainda apanhei esse Portugal "sacroprofano" (ou sacro-profano, como escrevia o Ruy Belo)... Em terras de Entre-Douro-e-Minho. Casei-me lá em agosto de 1976.

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 15 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28261: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (15): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte IV: Ainda o "Amor com amor se paga". E o ódio, camaradas?!

8 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

PORTUGAL SACRO-PROFANO – VILA DO CONDE

O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é vila do conde

Ruy Belo, "Todos os poemas", Lisboa, Assírio & Alvim, 2000, pp. 197/198 (Com a devida vénia...)

Antº Rosinha disse...

No norte e centro do país no Agosto, são em maioria os filhos e netos da geração dos "nossos" refratários que visitam a aldeia onde têm a sua grande casa e onde permanecem parte do mês de Agosto.

Mas os mais novos também já dividem as férias da aldeia com as praias do oeste e Algarve.

Não falam português mas não se perdem no caminho têm o GPS em francês.

Um antigo vizinho meu no Gabu há 40 anos, um casal francês cooperante de algodão, que me contava que o pai dele visitou a convite a casa no norte de Portugal da portuguesa a dias que fazia a faxina do prédio onde morava em Paris,.

E esse pai ficou maravilhado com a casa e o ambiente, e que na França só gente importante poderia ter aquilo.

Penso que seria casa do Minho com latadas do verde.

Consta-me que agora já franceses vêm para Portugal como fazem os ingleses, coisa que desde o Napoleão não o faziam.






Tabanca Grande Luís Graça disse...

Na Lourinha ha já franceses, belgas e holandeses residentes todo o ano (?)...

Eduardo Estrela disse...

Como não hão-de residir cá todo o ano!! Vieram porque o governo português lhes deu 10 anos de isenção de pagamento de IRS. Gostaram e ficaram, mesmo tendo perdido há pouco tempo esse privilégio.
A nós, que aqui sempre trabalhámos nada nos dão. E há uns economistas iluminados que têm explicação para isto.
Eduardo Estrela

Alberto Branquinho disse...

Gostei da descrição dos Verões (que tive oportunidade de apreciar durante os anos que vivi na Beira Baixa) e da referência às "promessas-cunhas" aos santos para fazerem a "intermediação" com um deus talhado ao jeito das populações e das "lembranças" que lhes colocavam nos andores antes ou durante as procissões na via pública (muitas vezes com bastante atraso em relação à data do compromisso assumido e... sem pagarem juros).

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Alberto, na nossa religião popular, os pagadores de promessas não pagavam juros. Deus e os santos eram pacientes, sabiam esperar e não cobravam juros. Já no caso dos ricos, a coisa piava mais fino. O reverso da caridade está espantosamente contido na máxima que diz: "Dar aos pobres, é emprestar a Deus" (que, aqui, sim, Deus pagava, aos ricos. com juros e dividendos; duvido que ainda hoje pague, mas cada um tem a sua fé...).

A caridade, nos tempos medievos, no nosso "ethos" cristão, sempre foi uma espécie de certificado de alforro espiritual: Dar aos pobres era emprestar a Deus, ou seja, quantas mais "boas obras" se amealhassem na terra, mais garantias tinha um cristão de alcançar o céu e, com ele, a salvação eterna.

Alberto Branquinho disse...

PÓIS, Luís!
DAR, portanto, não é um acto de simples caridade, é (AINDA para muitos) um... INVESTIMENTO com um retorno (da parte daquele deus que criaram para o efeito) que nenhum banco ou outra empresa (mesmo "endeusada") lhes atribuiria.

Manuel Oliveira Pereira disse...

. Luís, as minhas saudações!...

Como sempre, gostei da tua belíssima crónica. Um retrato fiel, das gentes do meu Minho, nesses anos 50 e final dos anos 70 do século passado. Embora caindo em desuso, ainda se vai vendo pelo interior minhoto, muito destas festividades profano religiosas. As nossas aldeias, quase despovoadas durante onze meses, enchem-se neste mês de Agosto, de carros novos, gente com sotaque de “R, Z ou S”, ou mesmo falando francês (mal) junto dos residentes habituais. Os dias são passados entre pequenos trabalhos de “retoque” na “belle maison”, intervalado aqui e acolá em jantaradas, casamentos e batizados num “profitez de la vie et partagez-la avec les amis”.
Com o “fin du mois, c’est le retour au travail. Les vacances sont terminnés”.
As aldeias voltam ao silêncio, apenas cortado pelo som do sino, anunciando as horas, a missa ou o toque às almas.
Abraço.
Manuel Oliveira Pereira (C.Caç.3547 Guiné 72-74).
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