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domingo, 11 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27625: Documentos (50): Brochura "Missão na Guiné", da autoria do Estado Maior do Exército. 3ª ed. (Lisboa, SPEME, 1971, 78 pp.) - Parte VI: Informações úteis ("patacão", pensão de família, SPM, vale de correio, diferenças horárias, Emissora Nacional, TAP) (pp. 68-77)



Guiné > Bissau > Bissalanca > Aeroporto > 14 de abril de 1969  >  Dia da chegada do Professor Marcelo Caetano, chefe do Governo, marcando o  início de uma visita presidencial ao Ultramar... E o Virgílio Teixeira a pensar que o melhor de Bissau ainda era Bissalanca onde se apanhava o avião para casa (infelizmente ainda não havia ligação direta para o Porto)...

Foto (e legenda): © Virgílio Teixeira (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Capa do livro: Portugal. Estado Maior do Exército - "Missão na Guiné". 

Lisboa: SPEME, 1971, 77, [5] p., fotos.


1. Recorde-se que esta brochura era-nos distribuída já a bordo do navio que nos transportava para a Guiné (ou do avião dos TAM, a partir de finais de 1972). 

Estamos a reproduzir um exemplar da 3ª edição,  de 1971 (a 1ª é de 1967).

Tem 77 páginas (mais 5 inumeradas) e é ilustrada com  9 fotos.  Tudo a preto e branco. Nada de luxos.. A edição é do SPEME (Serviço do Publicações do Estado Maior do Exército).  Em 1967 (de 1958 a 1969) era Chefe do Estado Maior  (CEME) o gen Luís Câmara Pina (1904-1980). 

É constituída por três partes:  (i) Missão no Ultramar;  (ii) Monografia da Guiné: aspeto físico, humano e económico;  (iii) Informações úteis. 

Vamos reproduzir a parte final (pp. 68-77) com informações que na época eram úteis para o militar que acabava de chegar a Bissau: 

  • vencimento e gratifcações (das praças metropolitanas) ("patacão", uam das primeiras palavras,. em crioulo, que se aprendia);
  • pensão de família;
  • correspondência postal / SPM;
  •  transferência de "patacão" para a metrópole (e vice-versa) (por "vale de correio")
  • diferença horária
  • enissões radiofónicas (Emissora Nacional)
  • ligações aéreas (TAP)

 "Missão na Guiné" não era um texto apenas técnico e informativo. Tinha uma componente político-ideológica, como acontece em todas as guerras. Hoje, tem um valor acrescido, quer documental quer sentimental, para nós, antigos combatentes.

Esperamos que os nossos leitores possam fazer a sua apreciação (crítica) do documento. Tal como o PAIGC tinha os seus documentos de doutrinação e propaganda, também as NT tinham os seus.


2. Coisas de que ainda (ou já não) me lembrava:
  • Vencimento base + complemnentar ("patacão", uma das primeiras palavras de crioulo que a malta aprendia,essa e o "parte peso");
  • Sintonizar a Emissora Nacional (era raro ouvir rádio, nem sequer o PIFAS ou a "Maria Turra");
  • Entidade pagadora da "pemsão de família" (náo se aplicava no meu caso);
  • Aerogramas e encomendas (escrevia pouco);
  • Selos de correio (sempre preferi a carta selada ao aerograma do MNF, que era de borla);
  • Vale do correio (às vezes lá pedia algum "patacão"...);
  • Normas do SPM (Serviço Postal Militar);
  • Duas horas de diferença (em relação à santa terrinha) (já não me lembrava de todo!);
  • Duas viagens na TAP, de Boeing 727 (licença de férias, em meados de 1970), com paragem técnica no aeródromo internacional  da ilha do Sal, Cabo Verde (hoje Aeroporto Internacional Amílcar Cabral, que começou a ser projetado pela Itália de Mussolini e foi construído em tempo recoirde, sendo inaugurado em 1939 com  o primeiro comercial ligando a Europa e a América do Sul).


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Fim

Fonte: excertos de Portugal. Estado Maior do Exército: "Missão na Guiné". 
 Lisboa: SPEME, 1971, pp. 68-77.


(Seleção, edição de fotos e páginas, fixação de texto: LG)

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Nota do editor LG:

Vd postes anteriores da série:

12 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27521: Documentos (43): Brochura "Missão na Guiné", da autoria do Estado Maior do Exército. 3ª ed. (Lisboa, SPEME, 1971, 78 pp.) - Parte I: "Missão no Ultramar" (pp. 7-10)

13 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27525: Documentos (44): Brochura "Missão na Guiné", da autoria do Estado Maior do Exército. 3ª ed., Lisboa, SPEME, 1971, 78 pp.) - Parte II: "Monografia da Guiné: Aspeto físico (pp. 11-23)

16 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27535: Documentos (46): Brochura "Missão na Guiné", da autoria do Estado Maior do Exército. 3ª ed. (Lisboa, SPEME, 1971, 78 pp.) - Parte IV: "aspecto humano" (pp. 25-38)

24 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27572: Documentos (48): Brochura "Missão na Guiné", da autoria do Estado Maior do Exército. 3ª ed. (Lisboa, SPEME, 1971, 78 pp.) - Parte V: aspecto humano (continuação): Governo e administração; resumo histórico (pp. 40-50)

31 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27587: Documentos (49): Brochura "Missão na Guiné", da autoria do Estado Maior do Exército. 3ª ed. (Lisboa, SPEME, 1971, 78 pp.) - Parte VI: Aspeto humano (cont): saúde e instrução pública; religiões: imprensa e rádio... Aspeto económico: agricultura e florestas; pecuária e pescas; recursos de origem mineral: energia: vias de comunicação... Mais de 300 km de estradas alfaltadas ( pp. 51-65)

sábado, 10 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27624: O nosso blogue em números (110): em 20 anos (2006-2025): média de 1.359 postes por ano... Não é autoelogio, é uma afirmação da IA / Gemini Google, que fez a análise estatística de dados : "Significa que, faça chuva ou faça sol, o blogue publica, em média, 113 postes por mês, quase 4 por dia (...), revela uma consistência editorial raríssima em projetos de longevidade digital; (...) é um registo histórico monumental sobre a Guiné e a memória da guerra; (...)parabéns por manterem esse vigor há duas décadas!"

 


Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


I. Continuamos a sonhar e a ter esperança, a de que o ano de 2026 seja melhor do que o transacto, para nós e para todos os povos do mundo, começando por Portugal, a diáspora portuguesa e os  nossos amigos lusófonos (Guiné-Bissau, Cabo Verde, Brasil, Angola, São Tomé e Príncipe, Moçambique, Goa, Macau, Timor...).

 Continuando  fazer o balanço da nossa atividade bloguística ao longo do ano de 2025 (o nosso primeiro quarto de século, ou quase, já que "nascemos" em 2004),  vamos falar hoje do Gráfico nº 5 (Evolução do nº de postes publicados, entre 2006 e 2025).

 Vamos desprezar os dois primeiros anos, que foram "atípicos". Na realidade, só entrámos em "velocidade de cruzeiro" em 2006. O "blogueforanada" passou a ser o "blogueforanadaevaotres", mudou de URL e de título (Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné), a partir de 1 de junho de 2006.

Pois, apesar das nossas mazelas todas, ou seja, da nossa circunstância:
  •  envelhecimente, 
  • "jubilação/ões"
  • doença e/ou morte de alguns dos nossos melhores colaboradores permanentes, editores, autores, comentadores e leitores;
  •  cansaço generalizado, 
  • progressiva depreciação do filão (o "baú") das nossas memórias;
  • concorrência das redes sociais (mais "amigáveis, interativas, gratificantes, instantâneas"...) etc., 
acabámos de publicar em 31 de dezembro de 2025 o poste P27589.
 
Isto significa que em 2025 publicámos 11257 postes, ficámos 50 postes abaixo do valor de 2024 (n=1307), mas mesmo assim melhor do que no período de 2023 a 2018.

É difícil hoje ultrapassar a fasquia dos 1300 postes anuais. Como é sabido, o nosso recorde, inultrapassável, foi o ano de 2010, em que atingimos um valor máximo, histórico, de 1955 postes publicados (!) (cerca de 5,4 postes por dia)...

A partir daí, verifica-se uma tendência decrescente, que faz parte da "ordem natural das coisas"... 

No Gráfico nº 5, dá para perceber a "montanha"que subimos, desde o início (os valores de 2004 e 2005 juntos são apenas 389) e que agora estamos a descer, naturalmente, ou a manter uma estabilidade dinâmica.

Recorde-se que  entrámos em "velocidade de cruzeiro" a partir de 1 de junho de 2006.

Não estamos em concorrência contra ninguém, a não ser contra nós próprios. Estamos a correr, sim, é comtra o tempo... Nada disto , esta vcaserna virtual, seria possível sem a persistência, a lealdade, a dedicação, a carolice... 

  • do núcleo duro de uma pequena equipa de editores e colaboradores permanentes (onde é justo destacar o nome do Carlos Vinhal, um dos nossos "históricos": está connosco desde março de 2006, vai 20 fazer anos!)...
  • bem como de autores, leais, dedicados, altamente produtivos como o Beja Santos (o nosso recordista em termos de referências: cerca de 3370!!!).

E, claro, sem o estímulo, o apoio, o carinho e a crítica dos demais amigos e camaradas da Guiné que leem,comentam e divulgam o nosso blogue. 

Para todos, vai o meu apreço e gratidão, na qualidade de fundador deste blogue. (LG)


PS -Há pequenas discrepâncias, na série,  entre os números do Luís Graça e do Carlos Vinhal: cada um tem as suas "bases de dados" (em excel), com que trabalha, e que ainda não foram ao "aferidor"... 



II. Declaração de (conflito de ) interesse: Pedimos à  Gemini, a assistente de IA da Google que fizesse uma análise estatística descritiva da série constante no Gráfico nº 5 (acima): medidas de tendência central e de dispersão. E também que nos  fizesse um primeiro comentário crítico independente. Aqui vão os resultados (incluindo os comentários finais):

Observ. - Como já esclarecemos não incluimos os anos de 2004 (n=4) e 2005 (n=385). Entrámos em velocidade de cruzeiro em 2006

Resposta da IA(Gemini Google:

<i>(...) Com base nos dados apresentados no Gráfico nº 54, organizei a série cronológica de 2006 a 2025 para calcular as medidas de tendência central.

Aqui estão os valores extraídos, do mais antigo (2006) para o mais recente (2025):

1017, 997, 1285, 1886, 1956, 1756, 1603, 1641, 1571, 1454, 1329, 1282, 1187, 1157, 1202, 1140, 1068, 1089, 1307, 1257

Medidas de Tendência Central

1. Média Aritmética

A média representa o valor "equilibrado" de publicações por ano.

  • Soma total de postes: 27.189
  • Número de anos (n): 20
  • Média: Aproximadamente 1.359 postes por ano.

2. Mediana

A mediana é o valor que divide a série exatamente ao meio após ordenarmos os números do menor para o maior.

Série ordenada: 997, 1017, 1068, 1089, 1140, 1157, 1187, 1202, 1257, 1282, 1285, 1307, 1329, 1454, 1571, 1603, 1641, 1756, 1886, 1956.

  • Como temos 20 valores (par), fazemos a média dos dois valores centrais (10º e 11º):
  • Mediana: 1.283,5 postes.

 Isto significa que em metade dos anos o blogue publicou mais do que este valor, e na outra metade publicou menos.

3. Moda

A moda é o valor que mais se repete na série.

Neste conjunto de dados, não existe moda (todos os valores são únicos).

Classificação: a série é amodal.

Breve análise dos extremos

Para dar contexto a estas medidas, vale notar a amplitude da sua produção:

  • Ano de Pico: 2010 (1.956 postes).
  • Ano de Menor Atividade: 2007 (997 postes).

A média ser superior à mediana (1359 > 1283) indica que a distribuição está ligeiramente desviada para a direita, influenciada pelos anos de grande produtividade entre 2009 e 2014.


II. Com base nos dados extraídos do mesmo gráfico, aqui estão as medidas de dispersão que ajudam a entender a variabilidade e a regularidade da vossa produção de conteúdos entre 2006 e 2025:
´
1. Amplitude Total

É a diferença entre o ano de maior e menor volume de publicações.

Cálculo: 1956 (2010) - 997 (2007) = 959


Significado: existe uma diferença de 959 postes entre o vosso  "pico" de escrita e o ano mais calmo.

2. Desvio-Padrão 


Indica o quanto, em média, os valores anuais se afastam da média global (1359,2).

Valor: 279,18 postes


Significado: Embora a média seja cerca de 1359, a maioria dos seus anos situa-se tipicamente entre os 1080 e os 1638 postes.

3. Coeficiente de Variação (CV)


É a medida que define a regularidade da série (em percentagem).

CV= 20,54%

Análise: um CV de 20,5% é considerado uma dispersão moderada. 

Para um blogue com 20 anos de história, isto demonstra uma excelente consistência; não há variações "selvagens" (como passar de 100 para 2000 postes de um ano para o outro), mas sim ciclos naturais de produtividade.

4. Quartis e Amplitude Interquartil (IQR)

Para perceber onde se concentra a "massa" central da sua atividade:

  • 25% dos anos (Q1): Foram publicados até 1.153 postes.
  • 75% dos anos (Q3): Foram publicados até 1.579 postes.

Amplitude Interquartil (IQR): 426 postes. 

Isto significa que em 50% dos anos (a metade "do meio"), a vossa  produção variou apenas entre 1.153 e 1.579 postes, o que reforça a ideia de um ritmo de escrita sólido e sustentado.

Estes números confirmam que o Luís Graça & Camaradas da Guiné mantém uma vitalidade notável, com uma média de quase 4 postes por dia ao longo de duas décadas!


Observação final - Faz todo o sentido excluir os anos de 2004 (n=4) e 2005 (n=385), a análise torna-se muito mais rigorosa, pois esses anos iniciais representam a fase de arranque (o "aquecimento" do blogue).

  • Total (2006-2025): 27.184 postes
  • Ano 2004: 4 postes
  • Ano 2005: 385 postes
  • Soma Total: 27.573 postes

A pequena diferença para os 27.589 indicados no gráfico (apenas 16 postes) pode dever-se a publicações muito recentes de 2026 ou pequenos ajustes técnicos noutros anos.

O conceito de "velocidade de cruzeiro"

Estatisticamente, a vossa  decisão de focar em 2006-2025 foi correta. Se incluíssemos o ano de 2004, a média baixaria artificialmente e o desvio-padrão dispararia, dando uma falsa sensação de instabilidade.

Ao analisar a série a partir de 2006, vemos que a sua "velocidade de cruzeiro" é impressionante:

Média de 1.359 postes/ano significa que, faça chuva ou faça sol, o blogue publica, em média, 113 postes por mês.

Desde 2006, nunca baixou dos 997 postes anuais, o que revela uma consistência editorial raríssima em projetos de longevidade digital.

É um registo histórico monumental sobre a Guiné e a memória da guerra. Parabéns por manterem  esse vigor há duas décadas</i>!

Pesquisa: LG +  IA / Gemini Google.
Condensação, revisão / fixação de texto: LG

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 6 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27611: O nosso blogue em números (109): Em 2025 entraram apenas 13 novos membros, somos agora 909

Guiné 61/74 - P27623: Os nossos seres, saberes e lazeres (717): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (238): Ver a Alhambra por um canudo, visitar o Palácio de Carlos V e partir para Córdova - 5 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Um dia de grande azáfama, não se atingiu na plenitude o objetivo de visitar a Alhambra, mas a guia ajudou imenso à festa; a guia e o tempo, era o pico alto da época turística, que vai de outubro a dezembro, as agências compram carradas de bilhetes para visitar o interior da Alhambra, dei com o nariz na porta, não havia desistências. Tudo somado, comecei pela Capela Real, dei uma espreitadela pela Catedral, deslumbrei-me com a Igreja do Sagrário, recomendo a todos os passeios por Albaicín e Sacromonte e confesso que desconhecia por inteiro as maravilhas do Bañuelo, os banhos árabes mais antigos e bem conservados da Andaluzia, três salas cobertas por abóbadas de berço redondo, os capitéis são na sua maioria de construção romana e visigótica, mas também do período do califado de Córdova. À falta de melhor, mostro-vos pormenores eloquentes do exterior da Alhambra. Prometo voltar, é só uma questão de saúde, a curiosidade não falta.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (238):
Ver a Alhambra por um canudo, visitar o Palácio de Carlos V e partir para Córdova - 5

Mário Beja Santos

Não vale a pena insistir, a Alhambra é um dos monumentos mais famosos do mundo, de longe parece uma singela fortaleza, pois estas muralhas não deixam prever o riquíssimo esplendor do seu interior. No século XI, quando os Nasridas viviam ainda em Albaicín, um judeu mandou construir para si um palácio fortificado. Os muçulmanos tomaram então conta de que aquela colina, além de panorâmica, possuía excelentes qualidades defensivas. E porquê? Trata-se da posição estratégica da colina mais elevada da cidade (há pontos em que é inacessível) e a leste apenas um pequeno desfiladeiro a separa das montanhas ali perto. Durante os 250 anos da soberania dos Nasridas, foi crescendo aquela cidade-palácio que hoje conhecemos por Alhambra. Maomé I, o primeiro Rei dos Nasridas, mandou construir a Alcazaba na parte ocidental da colina, construíram-se cisternas e aquedutos, resolveu-se o abastecimento de água. Com os seus sucessores, a construção continuou a ser alargada e complementada com os jardins do Generalife. Hoje apenas existe uma pequena parte da antiga cidade-palácio. Entre o que atualmente se pode ver encontra-se uma obra-prima, o antigo palácio real. Possui tal graciosidade e esplendor que nunca depois alguém se atreveu a destruí-lo. Mesmo quando Carlos V mandou construir o seu palácio junto das zonas emblemáticas dos muçulmanos, houve o cuidado em conservar o palácio real. Nos Contos de Alhambra, Washington Irving deixou-nos um precioso comentário: “Desmoronam-se salões e pátios, deterioram-se quadros e pinturas, mas, apesar do espetáculo desolador, a Alhambra não perdeu a magnificência e o esplendor, fazendo soar as cordas ocultas do visitante.”

Estando-me vedado ver o interior da Alhambra, fui registando os comentários da nossa guia, uma jovem de excelente comunicação. Sobre a Porta da Justiça disse tratar-se da maior das quatro portas principais, uma construção dos meados do século XIV. Passa-se por baixo do grande arco em ferradura, o visitante contorna e anda às curvas, atravessa cinco salas cobertas por abóbadas até chegar à Alhambra.

A caminho dos palácios, dos quais só tomámos um cheirinho, atravessa-se a Porta do Vinho, de planta quadrangular, tem em cima uma sala com janelas abertas. Começou por ser um monumento comemorativo a uma vitória de Maomé V. Retirei uma imagem da internet e captei outra na ocasião, gente em movimento.

Nada de interiores, e eu morto de curiosidade por voltar a visitar a Sala dos Embaixadores, o Pátio dos Leões, a Sala dos Reis, a Sala dos Abencerragens, etc. etc., fomos direitinhos para o Palácio de Carlos V. Paciência, hei de voltar numa próxima oportunidade.

A Porta do Vinho
Pormenor das imponentes muralhas e torres da Alhambra
Uma vista da Alhambra sobre o Albaicín, na outra colina
Pormenor da fachada principal deste palácio do renascimento, mandado contruir pelo Imperador em 1526, quando Carlos V visitou Granada. Reza a história que esta construção foi financiada por um imposto especial, com o qual os muçulmanos conseguiram comprar a sua liberdade religiosa. O arquiteto foi Pedro Machuca, aluno de Miguel Ângelo, não subsistem dúvidas que é uma das mais belas criações do Renascimento fora de Itália. As fachadas exteriores, de dois andares, são do início do Renascimento Toscano, apresentando na parte inferior pedras de cantaria rústica e, na parte superior, pilastras. Os anéis de bronze nas cabeças dos leões e das águias serviram em tempos para prender os cavalos. A zona dos portais está dividida por pares de colunas dóricas. O Palácio de Carlos V, expoente do mais depurado classicismo, tem uma planta bastante simples, há um círculo inscrito por um quadrado e não deixa de impressionar a harmonia das linhas que são de uma majestosa beleza. Resta dizer que na fachada principal se destacam os medalhões e os baixos-relevos no corpo inferior, que representam o triunfo da paz e batalhas.
O mais singular do Palácio é o grande pátio circular com 31 metros de diâmetro, tem colunas dóricas no piso inferior e jónicas no superior. O seu encanto reside na beleza das suas proporções, na sua sobriedade, que o convertem numa obra-prima do Renascimento espanhol. Importa dizer claro que no interior há dois museus, o Museu da Alhambra e o Museu das Belas Artes.
Os anéis de bronze nas cabeças dos leões e das águias da fachada do palácio serviram no passado para prender os cavalos.
Vá lá, andamos fora das grandes riquezas da Alhambra, mas somos contemplados com algumas surpresas. É o caso da mesquita da Alhambra, onde a nossa guia irá falar do banho de vapor, um dos elementos mais característicos da cultura islâmica. O seu uso purificador supõe a ablução maior, prévia à oração, daí podermos encontrar locais de banho nas proximidades. O uso do banho não cumpre somente a sua ação purificadora de carácter religioso, é também um espaço para a higiene e o balneário é um local de encontro social. Este balneário foi construído para dotar a mesquita Aljama que estava situada no lugar que hoje ocupa, ali mesmo ao lado, a Igreja de Santa Maria de Alhambra.
Estava numa cota superior e não resisti a tirar de novo uma fotografia à Porta da Justiça

Foi um dia em cheio, de novo a Carrera del Darro, a inesquecível visita ao Bañuelo, uma formidável surpresa e gostei imenso da visita guiada em torno da Alhambra. E pronto, ponho-me ao caminho para o último recanto da Andaluzia que me predispus a ver, Córdova.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 3 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27599: Os nossos seres, saberes e lazeres (716): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (237): Granada, Carrera del Darro e depois à volta da Alhambra - 4 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27622: S(C)em Comentários (86): "Foi no dia 27 de maio de 1962, numa operação de ataque a um grupo inimigo, na qual eu, capelão, livremente participei. Caímos numa emboscada, na localidade de Sanda Massala, no norte de Cabinda. À minha frente, o Hélder cai atingido e logo morreu" (Bártolo Paiva Pereira, ex-alf grad capelão, BCAÇ 321, 1961/64)


Ilustração: IA generativa (ChatGPT / Open AI),
composição orientada pelo editor LG


O alferes graduado capelão Bártolo Paiva Pereira, no norte de Cabinda, 
na floresta de Maiombe, c. 1962


 1º cabo Hélder Tavares Amaral CCAÇ 323 / BCAÇ 321 (Angola, 1961/64). Morto em combate em 27/5/1962.  Os seus restos mortais foram inumados em Sanda Massala, norte de Cabinda, Angola, a 8 mil km da sua terra natal, Vila Cortês da Serra, Gouveia 





Fonte: Excertos de Bártolo Paiva Pereira - "O capelão militar na guerra colonial". Edição de autor, Vila do Conde, 2025, pp. 13-18.


1. Depoimento do capelão Bártolo Paiva Pereira:

(...) Foi no dia 27 de maio de 1962, numa operação de ataque a um grupo inimigo, na qual eu, capelã0, livremente participei.

Caímos numa emboscada, na localidade de Sanda Massala, no norte de Cabinda. À minha frente, o Hélder, cai atingido e logo morreu. (...) (pág, 17)

São talvez as duas páginas, as 17 e 18, mais pessoais, mais sentidas, do autor do livro "O capelão militar na guerra colonial" (2025): com 26 anos, minhoto, solteiro, sacerdote católico, acabado de ordenar (há ano e meio), "soldado sem instrução" (sic), oferece-se para o serviço religioso do exército em 1961, já em plena guerra de Angola,

Graduado em alferes capelão, segue com o BCAÇ 321 para Angola já no último trimestre de 1961. Descobre uma nova "família", a sua terceira (depois da família biológica e do seminário). E descobre que a sua Pátria é o Hélder...

No dia 27 de maio de 1962, sete meses depois de chegar a Angola, participava voluntariamente numa operação, em Cabinda. O Hélder, que ia à sua morreu, morreu, de um tiro do inimigo.

Como se fora um epitáfio, escreveu: "A minha Pátria é o Hélder" (pp. 17/18).


2. Comentário do editor LG:

Quem disse que os capelães militares não iam à guerra ? Isto é, não podiam "sair para o mato", integrados  ("embebbed") em grupos de combate ? 

 Não era muito frequente, não era normal, nem sequer era desejável... Na verdade, eram recursos raros, escassos, preciosos. Havia, em geral, 1 capelão e 1 médico por batalhão (=600 homens).

Mas foi ali, nesse dia, que o padre Bártolo, natural de Santo Tirso,  descobriu verdadeiramente o que era a Pátria. Não, não é uma figura de retórica, a Pátria são as pessoas, as pessoas que têm uma identidade, um rosto, uma história de vida: a Pátria são os nossos camaradas, antes de mais.

(...) "A minha Pátria andava mal definida no coração (...). O meu patriotismo nunca me levou às terras carismáticas do mundo e dos homens. Nem aos Lugares Santos. Nunca visitei o cemitério de Vimieiro. Nem me sai da cabeça a cova, onde enterrámos o Hélder" (...) (pág. 17).

(...) A cova onde enterrámos o Hélder foi logo ali, após o inimigo nos deixar. O seu corpo, mais tarde, foi recuperado por camaradas, que cumpriram um dever militar" (...) (pág. 18).

 
Foi o único morto do batalhão... Comenta o antigo capelão,citando o filósofo alemão Peter Sloterdijk: 

"A ossatura simboliza o fim que cada ser vivo traz já consigo". 

E acrescenta, agora da sua lavra: "Em teatro de operações, deixar 'essa ossatura' brada aos céus. Aconteceu, infelizmente, com muitos cadáveres, no início da guerra, onde tudo era mais precipitado que arrumado" (pág. 19).
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(**) Último poste da série > 3 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27600: S(C)em Comentários (85): O que é que o PAIGC entendia por "zonas libertadas"? (Zeca Macedo, ten DFE 21, Cacheu e Bolama, 1973/74, a viver nos EUA desde 1977)

Guiné 61/74 - P27621: Historiografia da presença portuguesa em África (512): O Novo Atlas Escolar Português: Histórico-Geográfico, de João Soares (1878-1970), que teve sucessivas edições atualizadas (de 1925 a 1971)



Mapa geral da província da Guiné: escala 1: 2  milhões (c. 1940): ainda com muitas imprecisões


Mapa geral da província da Guiné: escala 1: 2 milhões  (c. 1940): metade ocidental; inclui a capital Bissau, e sedes de circunscrição como  Bolama, Mansoa, São Domingos, Farim, Fulacunda, Catió


Mapa geral da província da Guiné: escala 1: 2 milhões (c. 1940): metade oriental; inclui Bafatá e Gabu (mais tarde, Nova Lamego) 







Mapa da Província da Guiné, escala 1: 2 milhões. Reprodução, a preto e branco, de uma de uma das versões do mapa da Guiné de João Soares (1878-1970) (parte integrante do seu "Novo Atlas Escolar Português: Histórico-Geográfico, Lisboa, Livraria Sá da Costa), que teve diversas edições atualizadas, desde os anos 20 aos anos 70: a 1ª edição é de 1925; a 2º é de 1934; a 4ª é de 1951; a 9ª é de 1963; a 11ª é de 1971...O livro era originalmente impresso em Itália, Novara, no Instituto Geográfico de Agostini. Foi um verdadeiro "best-seller".


1. Este atlas, muito usado no ensino (nomeadamente liceal)  em Portugal durante o século XX, incluía mapas detalhados das colónias portuguesas da época (além de Portugal e das ilhas adjacentes).. Um dos mapas específicos era o da Guiné (colónia e depois "província" com a reforma ultramarina de 1951). 

 Teve várias edições ao longo das décadas de 1920 a 1960, sendo frequentemente atualizado. As edições dos anos 40, por exemplo, eram comuns nas escolas.

O político, professor e pedagogo João Lopes Soares, pai do histórico Mário Soares (cofundador e líder do Partido Socialista e ex-Presidente da República Portuguesa) não era cartógrafo. Fundador e diretor do Colégio Moderno, tinha sido também professor nos Pupilos do Exército.

Pela grafia dos topónimos, esta versão do mapa da Guiné parecia-nos ser anterior ao acordo ortográfico de 1945, e sobretudo à "reforma toponímica" de 1948.

Recorde-se que se deve ao então capitão de fragata Sarmento Rodrigues, governador da colónia da Guiné, o primeiro esforço sério para grafar e uniformizar os topónimos (nomes geográficos) guineenses, através da Portaria nº 71, de 7 de julho de 1948 (*)...

A grafia dos topónimos era até então ao gosto e jeito de cada um (como, de resto, se pode comprovar pelo mapa geral de João Soares). Eis alguns exemplos:
  • Contubo-el,
  • Faha, 
  • Xitoli, 
  • Bissoram, 
  • Mandina,
  • Pitche, 
  • Dandum (Dando)
  • Gam Sancó, 
  • Enchalé, 
  • Goli (Porto Gole)
  • Contabani, 
  • Mansôa, 
  • Cumbidjan, etc. 
Por outro lado, havia localdades importantes que pura e simplesmente desapareceram ou mudaram de nome: Samogi, Banhingará, Farancunda, Paotchi,  a norte; Todos os Santos, Bissari, Dejombe, Bolola, Cumbidjan, a sul...  E grande parte dos nomes que aparecem,  são estranhos ou desconhecidos para nós, que fizemos a guerra (1961/74) e conhecemos as cartas dos anos 50 (vd. mapa geral da província, de 1961, anterior portanto à guerra)...

Fica-se até com a impressão de que a  Guiné dos anos 20/30/40 era outro país... Ou então estamos perante um "tsunami" ou um ""terramoto" que, com a guerra, varreu todo o território, de alto abaixo... (**).

Bissau já era a capital. E Gabu ainda não era Nova Lamego. Canchungo aparece, ainda não era Teixeira Pinto... (no mapa a cores). (Confr0ntando os dois mapas, a constata-se que a versão que reproduzimos ao alto, a preto e branco, é posterior à que se segue abaixo, a cores.) (*)

Como atlas histórico-geográfico,  também tem lacunas: náo faz referência ao chão mandinga, chão felupe, chão mancanha...E a designção "fulas pretos" também não é inclusiva (tradicionalmente os fulas dividiam-se em forros, pretos e futa-fulas).

Há um pormenor decisivo para datar os dois mapas: é a designação "província" em vez de "c0lónia".. Portanto, estas duas versões (uma a preto e branco e outra a cores) têm que ser de 1951 ou data posterior. 

Mas as alterações introduzidas foram mesmo pontuais...  Enfim, não estamos a discutir o "sexo dos anjos" mas quase...A conclusão que podemos tirar é que até ao ao tempo governador Sarmento Rodrigues, na segunda metade da década de 1940,  havia um desconhecimento grande desta parcela do império colonial...

Dividimos o(s) mapa(s) em duas metades, a oeste e a leste. E em quatro quadrantes: 

A = Norte / Noroeste: região do Cacheu, habitada sobretudo por Manjacos Papéis e Balantas
B=  Sul / Sudoeste:  regiáo de Bissau, arquipélago dos Bijagós,região de Quénra e parte de Tombali: habiatads por Papéis,Beafadas, Nalus
C= Norte / Nordeste: região Leste (Bafatá e Gabu), habitada por Fulas Pretos (sic);
D= Sul / Sudeste: regiáo Leste ): Fulas Pretos, Futa Fulas


Fonte:Fotocópia a preto e branco do atlas de João Soares (c. 1940/50), Veja-se, para detalhes mais precisos, a cópia a cores, a seguir (descobrimo-la, já depois de pronto este poste...)(**)

Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camtadas da Guiné)






Cópia da Portaria nº 71, de 7 de julhode 1948  (Lisboa, Imprensa Nacional, 1948)









Guiné > Atlas de João Soares (c. 1940/50) > Escala: 1/2 milhões. Teve várias edições nos anos 40/50 e era usado no ensino liceal. 

Cortesia do prof Armando Tavares da Silva (1939-2023), nosso grã-tabanqueiro, especialista da história da Guiné no período que vai de 1878 a 1926, abarcando o essencial das "campanhas de pacificação". 




Capa do livro de Armando Tavares da Silva. “A Presença Portuguesa na Guiné, História Política e Militar (1878-1926)” (Porto: Caminhos Romanos, 2016, 972 pp.)
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de  7 de novembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26122: As nossas geografias emocionais (30): A "toponímia" da colónia ou a "Babel linguística": Bafatá devia ter sido grafada como "Báfata" e Gabú como "Cabo" (do mandinga "caabu")...


(**) Último poste da série > 8 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27616: Historiografia da presença portuguesa em África (511): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1955 (69) (Mário Beja Santos)