Pesquisar neste blogue

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28420: As nossas geografias emocionais (69): Cameconde, ontem e hoje - Parte I



Foto nº 1A e 1 > Guiné > Região de Tombali > Cameconde > CART 6552/72 (1973/74)  >  Vista aérea parcial do aquartelamento,  com as suas valas e trincheiras. Foto, a sépia, de Manuel Domingos Ribeiro


Foto nº 2 > Guiné > Região de Tombali > Cameconde > CART 6552/72 (1973/74)  >  Vista aérea parcial. Foto, a sépia, de Manuel Domingos Ribeiro. Vê-se que o  espaço foi alargado e melhoradas instalações, em relaçáo à situação em 1968.  No entanto, em em meados de 1973 "não tinha capacidade para albergar uma companhia inteira".

Fotos (e legendas): © Manuel Domingos Ribeiro  (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (Gemini / Google)]


Foto nº 3



Foto nº 4A e 4





 Foto nº  5C, 5B, 5A e 4

Guiné > Região de Tombali > Setor de Cacine (S3) > Cameconde > 1968 > Três aspetos gerais do destacamento > Fotos, a preto e branco, e fraca resolução,  do álbum do nosso camarada António José Pereira da Costa, que era na altura alferes QP da CART 1692/BART 1914 (Cacine, Cameconde, Sangonhá e Cacoca, 1967/69) e mais tarde cap e cmdt das CART 3494/BART 3873, Xime e Mansambo, e CART 3567, Mansabá, 1972/74).  As imagens foram restauradas e colorizadas digitalmente com recurso à IA.

Na Foto nº 5C, assinalado com um círculo a amarelo há um obus 10.5 cm,do 1º Pel Art.  Na  Foto nº 3. no original, a bandeira portuguesa não estava hasteada...

Fotos (e legenda): © António J. Pereira da Costa (2013). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (Gemini / Google)]



Foto nº 6, 6A




Foto nº 7B, 7A. 7

Guiné-Bissau  > Região de Tombali > Cameconde > de março de 1968 >  "Restos arqeuológicos da presença dos tugas, há meio século atrás"

Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2018) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné  + IA (Gemini / Google( (ChatGPT / Opena AI) ].


Guiné > Região de Tombali > Carta de Cacoca (1960) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Cameconde, Cacoca e Sangonhá, nas proximidades da fronteira com a Guiné-Conacri, tendo a norte Gadamael e Ganturé. Cacine ficava a noroeste de Cameconde, a escassa meia dúzia  de quilómetros Cacine (vd. carta de Cacine). Nesta linha de fronteira, Cacine, Cameconde e Gadamael aguentaram até ao fim (25 de Abril de 1974). Cacoca, Sangonhá, Guileje, Mejo,  Gandembel, Balana, foram posições  abandonadas pela NT.

Cameconde era a guarnição militar portuguesa mais a sul, na região de Quitafine, na estrada fronteiriça Quebo-Cacine... Em 1968 era o batalhão que estava em Buba (BART 1896, 1966/68) quem defendia esta importante linha de fronteira...


Guiné > Carta geral da província (1961) > Escala 1/ 500 mil   >  Posição relativa de Cacine, Cameconde, Cacoca, Sangonhá, Gadamael, Ganturé (e mais acima Guileje, Gandembel e Balana)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1.  Sobre Camemonde temos mais de 60 referências no blogue. É uma das muitas estações do nosso calvário na Guiné. Desde o princípio da guerra, foi sempre um osso muito duro de roer. Diversos camaradas nossos (aqui representados na Tabanca Grande) lá estiveram e por lá passaram  (e por lá penaram...).

 Estive a organizar uma lista dos "camedondenses" mas  desapareceu, num daqueles "truques de magia" que, desgraçadamente, acontecem,  de vez em quando, aos pobres dos editores (e também aos leitores, que nos comentam...): basta, às vezes, tocar  na tecla errada... e é a morte do artista (irrecuperável,  irremediável, irreversível).

Um gajo fica "piurso"... Mas não adianta partir o computador... O material tem sempre razão, aprendemos na tropa. Por isso, siga a Marinha... 

O nosso último grão-tabanqueiro, o Fernando Villalôbos Filipe,  (foto acima) foi um deles, um dos "camedondenses". E, por sinal, comandou a CART 6552/72 a quem coube a entrega (pacífica e planeada) das fracas instalações aos novos "senhores da  guerra"... Em 19 de julho de 1974. No mesmo dia que Gadamael.

 

2. O José Vermelho, nosso grã-tabanaqueiro nº 471, ex-fur mil, CCAÇ 3520, Cacine,  e CCAÇ 6,  Bedanda, CIM Bolama (1972/74), descreveu Cameconde nestes termos realistas

(...) Cameconde era um destacamento de Cacine, distando 6/7 Kms entre si. Tinha uma forma mais ou menos rectangular, talvez aí de uns 50 por 70 mts., encravado no meio da mata, completamente isolado, sem qualquer população civil.

Era o destacamento das N/T situado mais a sul da Guiné. Tinha em permanência 1 Pelotão de Artilharia + 1 Grupo de Combate de Cacine, sendo este substituído mensalmente por outro, em regime rotativo.

Era feita uma coluna diária Cacine - Cameconde (com picagem) e volta. Nos primeiros meses de 1972, também fui um dos "turistas voluntários à força", convidado a visitar Cacoca... isto é... o pouco ou nada que restava dela! (...)

Quase meio século depois, o Patrício Ribeiro tirou umas chapas aos "restos arqueológicos" da presença dos tugas:


3. O Juvenal  Candeias (ex-alf mil, CCAÇ 3520,  Estrelas do Sul, Cacine e Cameconde e Guileje, 1971/74] ajudou-nos a melhor fazer o enquadramento de Cameconde na península de Quitáfine: 

(...) A região do Quitáfine, a Sul de Cacine, era considerada o santuário do PAIGC, que aí estava fortemente instalado e provido de dispositivos de segurança, que tornavam os nossos movimentos impossíveis, salvo com utilização de meios excepcionais. 

Trilhos minados e sentinelas avançadas, permitiam-lhes uma tranquilidade apenas quebrada pelos obuses de 14 cm, disparados do nosso destacamento de Cameconde!

Os efectivos de que dispunham com um grupo especial de 20 lança-granadas, responsável pelas constantes flagelações a Cameconde, apoiado por um bigrupo disperso pela zona de Cassacá e Banir (onde se supunha estar o comando), eram reforçados por uma vasta população armada em autodefesa, distribuída, entre outras, pelas tabancas de Ponta Nova, Bijine, Dameol, Cassacá, Banir, Campo, Cassebexe e Caboxanque.

O PAIGC furtava-se sistematicamente ao contacto, optando por uma estratégia defensiva de protecção às populações que controlava, privilegiando as flagelações e a colocação de engenhos explosivos! Quem circulava a Sul de Cambaque (que distava cerca de 3 km de Cameconde) tinha como certo algumas surpresas no trilho! Provavelmente um campo de minas e a seguir (algum humor-negro), munições de Kalash espetadas no chão formando a palavra PAIGC!

O Quitáfine permitia ainda, ao PAIGC, um reabastecimento regular e seguro, processado a partir da República da Guiné, através de vários rios, em especial o Caraxe e o Camexibó! Ao dispositivo militar juntava-se uma mata densa intransponível!

Os paraquedistas, após uma operação no Quitáfine, só à noite conseguiram chegar a Cameconde, com grande dificuldade e orientados pelo clarão da queima de cargas de obus, em cima dos abrigos!  O grupo de Marcelino da Mata, largado de helicóptero, fez um golpe de mão a Cabonepo, a base do PAIGC mais a Norte do Quitáfine, onde estaria instalado um posto transmissor. Quando chegou, após lenta progressão através da mata… não havia lá nada… a base tinha sido abandonada momentos antes!

O Quitáfine era, efectivamente, o santuário do PAIGC, desde o início da guerra! Foi ali que se realizou, na tabanca de Cassacá – a 15 Km de Cacine e a 8 Km de Cameconde -, em meados de fevereiro de 1964, o 1º Congresso do PAIGC, com a presença de Amílcar Cabral, Luís Cabral, Aristides Pereira e outras individualidades do Partido!

A CCaç 3520 tinha chegado ao porto de Cacine, a bordo da LDG Montante, em 24 de Janeiro de 1972, para render a CCaç 2726 – companhia açoriana comandada pelo Capitão Magalhães -, o homem que retorcia as pontas do bigode com cera e a quem o tabaco nunca faltava! Dizia-se mesmo, à boca pequena, que, quando o tabaco acabava em Cacine, o PAIGC deixava, no mato, uns macitos para o Capitão! Rumor ou realidade… ninguém sabe! Ficou por provar!

Decorria ainda o período de sobreposição, que se prolongou até 22 de fevereiro, quando foram recebidas instruções de Bissau, para ser preparada uma operação ao Quitáfine – Cabonepo e… Cassacá! (...)


4. Quase meio século depois, o Patrício Ribeiro  tirou umas chapas aos "restos arqueológicos" da presença dos tugas:

(...) Cameconde > Algumas fotos da fortaleza (quartel) que lá construíram, para os que lá dormiram dentro, recordar 

Ainda hoje são impressionantes, as construções. (...)

A estrada que liga Cameconde, Cassacá, até Campeane, está em bom estado, ainda encontramos muita floresta frondosa, muito verdejante, esta zona é muito bonita. Onde se produz muita fruta; cola, laranja, ananás, banana, etc. Mas a plantação de caju, já está a chegar, para deitar a floresta abaixo.

A estrada passou a ser uma rua, com muitas casas durante alguns quilómetros muita população. Como está perto da fronteira, muitos vieram do outro lado (...)

___________________

Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P28419: Notas de leitura (1969): Nos 100 anos do historiador Padre Henrique Pinto Rema e onde fala dos Lusíadas e a Guiné (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Setembro de 2026:

Queridos amigos,
Tive a felicidade de estar presente, não conhecia pessoalmente este ilustre historiador, dele muito tenho falado no blogue e fiz uma súmula do seu magistral trabalho a "História das Missões Católicas na Guiné" no Tomo I de "Guiné Bilhete de Identidade". Miraculosamente, apareceram à venda alguns exemplares deste livro, de há muito esgotado, parecíamos sete cães a um osso, e havia também um conjunto de brochuras onde encontrei este trabalho de Pinto Rema datado de 1972, faço dele um curto comentário acerca dos cruzamentos entre o rigor histórico e as movimentações propagandísticas, naturalmente distorcedoras da verdade documental. A Academia Portuguesa de História, de que Pinto Rema foi seu Secretário-Geral, esteve presente em força, a historiografia deste Franciscano excede a Guiné e em muitos pontos é constituída por obras de referência.

Um abraço do
Mário



Nos 100 anos do historiador Padre Henrique Pinto Rema e onde fala dos Lusíadas e a Guiné

Mário Beja Santos

O Centro Cultural Franciscano situa-se no Largo da Luz, em Carnide, anexo de uma casa apalaçada que também pertence à Ordem Franciscana, atravessei a Feira da Luz em plena ebulição com olaria, padaria e haveres de muitas espécies, em 23 de setembro, pelas quinze horas, iria ocorrer a sessão de homenagem pelos seus 100 anos do historiador Padre Henrique Pinto Rema, a quem a história da Guiné muito deve, com destaque para uma obra de referência História das Missões Católicas na Guiné. Ali chegado, verifiquei que havia publicações à venda, esta História das Missões Católicas estava completamente esgotada e apareciam ali alguns exemplares, atirei-me como gato a bofe, em minutos desapareceu um stock que tinha ficado estranhamente em depósito, fui um dos felizardos a arrebanhar um exemplar espúrio. E descobri uma pequenina brochura intitulada Os Lusíadas e a Guiné, obra do Padre Rema, publicada nas comemorações do IV Centenário da publicação d’Os Lusíadas, Bissau 1972. Dele falaremos mais adiante, e até se encontrou um documentário da RTP alusivo, vamos ver o Padre Rema em Bissau a apresentar a exposição camoniana a pessoas como o Ministro da Defesa, Sá Viana Rebelo, o Ministro do Ultramar, Baltazar Rebelo de Sousa e o Governador António de Spínola. O leitor pode consultar o respetivo site aqui: https://arquivos.rtp.pt/conteudos/exposicao-camoniana-em-bissau/.

Os académicos cumpriram o seu serviço, seguiu-se uma tocante homenagem ao aniversariante, sempre sorridente deu conta das velas e choveram as palmas após o cântico da praxe. Vim para casa e comecei a ler a brochura, era a melhor homenagem que podia prestar a este homem devotadíssimo à sua missão apostólica e que deixou uma obra cultural assente numa investigação rigorosa e perdurável.

Comecei por ver os comentários da obra ímpar de Camões em cujas estâncias se alude às viagens de Gama pela costa ocidental africana. O navegador está a contar a sua viagem para a Índia. Diz que deixaram Massília, que é a África do Norte, uma costa estéril, porque não produz nada, o deserto do Sara, em baixo vivem os Azenegues na Barbaria, segue-se a “Etiópia” ocidental, este é o tema da Estância VI do Canto V. Fala-nos depois de o “limite aonde chega o sol” é o trópico de Câncer, abaixo vivem os povos de cor negra, a quem os navegadores irão chamar Terra dos Negros. Camões usa linguagem mitológica, fala do pai Apolo (ou Sol). O primeiro rio que se encontra é o Senegal. Na Estância VII fala-se no Cabo Arsinário, nome que foi dado por navegadores para Cabo Verde, perto de onde hoje se levanta a cidade de Dakar. O épico volta atrás para falar das Ilhas Canárias, noutra Estância falará de Santiago, e assim chegamos à Estância X onde ele refere a província Jalofo, a mui grande Mandinga e o rio Gâmbia. Na Estância seguinte falará das Dórcadas, há quem as identifique com o arquipélago dos Bijagós. Nas estâncias seguintes, Camões refere-se à viagem em direção ao sul (“Austro”), deixando para trás a Serra Leoa com o seu Cabo das Palmas, nome dado pelos portugueses.

Importa agora refletir a que propósito foi dado como altamente conveniente publicar sobre os Lusíadas e a Guiné e fazer uma exposição evocativa do IV Centenário d’Os Lusíadas em Bissau. O Padre Rema deixa claro que a Guiné pertence À memória histórica e literária de Portugal, à presença portuguesa em África, à conexão lusíada com África. Recorde-se que o Padre Rema vinha publicando desde a década de 1960 estudos no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, caso de A primeira envangelização da Guiné (1434-1533). Camões é a ponte entre o passado e o presente. Este tipo de análise acabaria por se cruzar com interesses políticos tanto do governador Spínola como da lógica da política ultramarina, mas há uma distinção a fazer: Rema reflete no plano da memória, da história da cultura, o regime e o governador da Guiné tem objetivos políticos e propagandísticos, estamos em 1972, o marcelismo intenta pôr as comemorações ao lado da sua política. Numa intervenção de “conversa em família”, em 1971, Marcello Caetano apontava 1972 como um ano de grandes comemorações, associando a celebração de Camões com a presença de Portugal no mundo e até a defesa do Ultramar.

O trabalho de Pinto Rema era útil para o regime, mas o historiador era muito mais do que um agente necessário para aquela ocasião evocativa. Na sua obra maior, História das Missões Católicas na Guiné, publicada em 1982, a profunda investigação nada tem de propagandístico, espelha fielmente sucessos, fracassos, conflitos e contradições da presença missionária portuguesa.

O evento de Bissau procurava fazer acreditar que a história de Portugal, o poema épico, as referências ao Senegal e Cabo Verde, tal como as referências às Canárias e a presença portuguesa, a menção do Jalofo, da mui grande Mandinga era tudo e a mesma coisa, Os Lusíadas davam chancela à Guiné Portuguesa. Acontece que a História não teve o mesmo curso que o poema épico. A tal Guiné, Senegâmbia, Rios de Guiné de Cabo Verde, Etiópia menor, Terra dos Negros e menções afins, como aparece em textos dos séculos XV e XVI era uma extensão geográfica com outra amplitude que aquela Guiné, que teve uma superfície reconhecida pela Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. Um aspeto muito curioso de um outro texto de Pinto Rema, dedicado às missões católicas na Guiné, é que ele utilizou a estância X do Canto V para definir historicamente a Guiné.

Não podemos iludir que a Guiné pertence à memória histórica portuguesa e à sua presença naquela região africana. A lógica do regime era aproveitar o poema épico para dar um aval à presença portuguesa contemporânea na Guiné. Só que os versos camonianos nada têm a ver com o Estado ou o território definido em 1886. Pinto Rema procedeu a uma leitura histórica retrospetiva, tem o ponto de partida numa geografia africana cabo-verdiana e coloca-a na história daquilo que, no século XX, era a Guiné Portuguesa.

É neste contexto que a brochura é muito interessante como objeto de análise. Se ir saudar este homem de grande envergadura missionária e historiador de alta qualificação da Guiné era o meu propósito, também beneficiei ficar com uma brochura que nos ajuda a pensar como existe uma diferença abissal entre o rigor da história e o manuseio propagandístico.

O Padre Henrique Pinto Rema vai soprar as velas do bolo do seu aniversário
Mesa da sessão de homenagem aos 100 anos do Padre Rema, ele foi Secretário-Geral da Academia Portuguesa de História, e a Academia esteve presente em cheio, incluindo os académicos franciscanos
_____________

Notas do editor:

Vd. post de 18 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28358: Agenda cultural (931): Convite para a Sessão Comemorativa do Centésimo Aniversário do Pe. Frei Henrique Pinto Rema, a realizar no próximo dia 23 de Setembro, a partir das 15,00 horas, no Centro Cultural Franciscano, Largo da Luz, n.º 11, em Lisboa

Último post da série de 5 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28404: Notas de leitura (1968): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 2 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28418: Parabéns a você (2533): Manuel Barros Castro, ex-Fur Mil Enfermeiro da CCAÇ 414 - Catió e Ganjola (Guiné) e Ilha do Sal (Cabo Verde), 1963/65

_____________

Nota do editor

Último post dasérie de 8 de Outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28414: Parabéns a você (2532): Luís Mourato Oliveira, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 4740 (Bigene, Cadique e Nhacra, 1972/74)

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28417: Tabanca Grande (586): Fernando Manuel Villalôbos Filipe, ex-Cap Mil Inf, CMDT da CART 6552/72 (Cameconde, Cacine, Cabedú e Cufar), que se senta à sombra do nosso poilão, no lugar n.º 919

Cameconde > Cap Mil Inf Fernando Manuel Villalôbos Filipe, CMDT da CART 6552/72
Foto actual de Fernando Manuel Villalôbos Filipe no seu escritório

******************************

1. Mensagem de Fernando Manuel Villalôbos Filipe, enviada ao nosso blogue em 26 de Maio de 2026:

Caro Camarigo,
Aproprio-me da palavra "criada" pelo Mexia Alves, simbiose de duas outras, das mais lindas do léxico português: "Camarada" e "Amigo", pelo significado e pelo conteúdo que encerram, para me dirigir a ti, hoje, quando se perfazem, exatamente, 53 anos da chegada à Guiné da CART 6552.

Ontem, solicitei a minha inscrição na Tabanca Grande, mas não enviei as duas fotografias indispensáveis ao processo de admissão: uma em Cameconde, outra, no meu escritório, em Lisboa.
Por isso, as remeto hoje, em anexo a este e-mail para completar a minha solicitação.

Um abraço reconhecido pela tua iniciativa.
Fernando Manuel Villalôbos Filipe

2. Mensagem do ex-Cap Mil Inf Fernando Manuel Villalôbos Filipe, CMDT da CART 6552/72 (Cameconde, Cacine, Cabedú e Cufar), enviada ao nosso blogue em 6 de Outubro de 2026 através do Formulário de Contactos do Blogger:

Em 25 de Maio passado solicitei a minha inscrição no "blogue". Por e-mail de 26 de Maio, remeti para o Luís Graça as duas fotos que complementariam o meu pedido. Não tive qualqer retorno, mas, hoje, perante os relatos das operações desenvolvidas pelos Páras em Gadamael e Cacine/Cameconde, recordei os momentos amargos de Junho e Julho de 1973 ali passados.

A CART 6552, que comandei, chegou a Cacine na mesma LDG em que seguiu a Companhia 121 do BCP 12. Presto aqui a minha homenagem aos paraquedistas que, integrando o BCP n.º 12, venceram a batalha de Gadamael.

Eu estava lá e posso afirmar que se houve militares que mereciam ser louvados pela ação desenvolvida, foram aqueles. A eles agradeço ainda, sobretudo ao malogrado Capitão Cordeiro, o decisivo contributo para que uma companhia treinada para agir no território de S. Tomé e Principe se transformar em unidade operacional no Sul da Guiné, em pleno Quitafine.


******************************

3. Comentário do editor CV:

Caro camarigo Fernando Filipe, em primeiro lugar as nossas desculpas pela demora na tua apresentação ao Blogue. A(s) caixa(s) de correio do nosso editor Luís Graça é problemática pela quantidade de mensagens que lá caem diariamente. As mais antigas começam a ficar para baixo e fogem ao controle.

Está reposta a legalidade, estás devidamente apresentado à tertúlia, ocupando o lugar (estatístico) 919 da nossa tertúlia.

Falando de trabalho, nós, os mais antigos, temos uma certa curiosidade em saber pela boca dos que nos precederam e viveram o fim da ocupação em África, no nosso caso na Guiné, como se viveram aqueles tempos. Já temos alguns relatos, mas nunca é demais termos o registo dos diversos sectores onde havia tropa em quadrícula, quer ainda no tempo da guerra efectiva, como foi o caso da 6552/72, quer já na fase de "acalmia" e entrega dos aquartelamentos no pós 25 de Abril.

Aqui fica o desafio para partilhares connosco as tuas vivências, caso tenhas tempo e paciência para rebuscar papéis, gavetas da memória e "fotos falantes", como dizia o nosso saudoso Torcato Mendonça.

Em nome da tertúlia, dos editores e colaboradores permanentes deste blogue, aqui fica um abraço de boas-vindas e a nossa disponibilidade para o que entenderes podermos ser úteis.

Carlos Vinhal

_____________

Nota do editor

Último post da série de 3 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28317: Tabanca Grande (585): Rui Osório Oliveira, natural do Porto, a viver em Aveiro, senta-se à sombra do nosso poilão, no lugar nº 918... Foi fur mil trms, CART 2742 / BART 2920 (Fajonquito, 1970/72)

Guiné 61/74 - P28416: Prémio Governador da Guiné e outros prémios (2): Em treze anos, de 1962 a 1974, viajaram à borla na TAP cerca de 1500 soldados e civis, "felizes contemplados" (na prática, e em média, "um herói... por batalhão")





Cópia do ofício do presidente do CA da TAP, o engº Amílcar José de Gouveia Marques (1917-1982, que foi ministro dos Transportes e Comunicações, no III Governo  Constitucional) com data de 30dez1974,  e dirigido ao Ministro da Defesa Nacional,  a anunciar  o fim  dos Prémios instituídos pela empresa para "recompensar os militares e civis que se tivessem distinguido na luta em África" (sic): 

  • Prémio Governador-Geral de Angola (1962), 
  • Prémio Governador da  Guiné (1965),
  • Prémio Governador de Moçambique (1966), 
  • Prémio Governador de S. Tomé e Príncipe (1966),
  • e ainda Prémio 'Heróis de Portugal' (1972) (este para os condecorados, no 10 de Junho, com a Torre e Espada).
"Em face da atual situação política em relação às nossas colónias foi decidido, em Conselho de Administração, acabar com estes Prémios" (sic), lê-se no ofício supracitado.

Documento disponibilizado leo nosso camarada paraquedista Pedro Castanheira no Portal Portal UTW - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar, e qui reproduzido parcialmenet, com a devida vénia.














Comando Chefe das Forças Armadas da Guiné > s/ d > Regulamento para  Concessão do Prémio Governador da Guiné > Cópia do ADN - Arquivo de Defesa Nacional > Disponibilzada pelo Pedro Castanheira no Portal UTW - Dos Veteranos da Guerra do Ultrama Tem capa e 2 folhas, numeradas de 1 a 2, com 11 pontos. Não sabemos se está completo. Não tem data nem outras especificações, 

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



1. Diz o "Senhor TAP" da Tabanca Grande, o Alberto Branquinho (trabalhou muitos anos no departamento jurídico da nossa transportadora aérea), em comentário ao poste P28412 (*):


Gen Arnaldo Schulz
(1910-1993) 

(...) "Quanto ao Prémio Governador Geral não sei se foi criado pela TAP ou se foi ideia de algum Ministério, que a TAP acompanhou" (*).

Alberto, não temos cópia do documento que criou o Prémio Governador-Geral de Angola, em 1962. Temos apenas o regulamento da concessão do Prémio Governador da Guiné, criado posteriormente, em 1965, ao tempo do governador e comandante-chefe gen Arnaldo Schulz  (foto à esquerda).

Pelo documento que acima reproduzimos, o prémiuo era sobretudo uma "borla" na TAP (uma viagem de ida e volta de  Bissau à Metrópole ou Ilhas Adjacentes da Madeira e dos Açores, como então se dizia). 

A tropa encarregava-se do transporte , alojamemto e alimentação durante o trânsito em Bissau do "feliz contemplado"... Uma vez na metrópole, tinha direito a viajar da borla na CP, de Lisboa até à "terra da sua natalidade" (sic) (lapso: naturalidade). 

Era um prémio,  sobretudo para praças que habitualmente não podiam ir  à "terra" para gozo da licença de férias. dado o preço, exorbitante, dos bilhetes cobrados pela TAP, mais de 6 contos (6430$00, ida e volta,em 1971, equivalente hoje a mais de 2 mil euros).

 Em todo o caso, um prémio modesto para quem arriscava o pêlo pela "Pátria"... Não havia subsidio de férias na época. Todas as despesas extras eram suportadas pelo premiado... Com o pré  de uma praça, na época, não se podia ir longe da aldeia ou viloria  da "natalidade"... A mobilidade era reduzida,a rede de transportes públicos rudimentar... Em suma, foi sobretudo um bom negócio para TAP...

O regulamento não foi elaborado, naturalmente, pela TAP ( ou o seu departamente jurídico),  mas por alguém do QG/CTIG.

Os critérios para a concessão do Prémio Goovernador da Guiné eram apertados. Por ordem decrescente de importância, eram os seguintes:  (i) ter cruz de guerra ou medalha de valor militar com palma; (ii)  ter outras medalhas por "serviços distintos ou relevantes no Ultramar por feitos em campanha"; (iii) ter sido "ferido gravemente em combate com ação relevante", etc,

Por outro lado, não nos parece que, além da viagem, o premiado recebesse "patacão" (a não ser talvez algum "dinheiro de bolso", no caso dos "naturais da Província", contrariamente  à interpretação abusiva da IA (*).

Como já aqui comentámos (*), uma coisa era o espírito e a letra o regulamento da concessão do Prémio Governador da Guiné, e outra a sua aplicação prática, ..Diz logo no ponto 1 que tem por finalidade galardosar: (i) " cabos e marinheiros, soldados e grumetes, seus equiparados das forças militares e militarizadas": e ainda (ii) "civis". num caso e noutro,  "que se tenham distinguido por actos de heroísmo ou abnegação na luta contra o terrorismo"...

Ou seja: o prémio era visto sobretudo como uma oportunidade para as "praças" (e não propriamemte os sargentos e oficiais subalternos, milicianos ou do QP) de gozarem um mês de licença na metrópole (continente e ilhas adjacentes). De resto, dera condição necessária, para beneficiar da concessão do prémio, "não ter gozado licença disciplinar no ano em causa" (sic)...

E, no caso dos "naturais da Província", como o João Bacar Jaló (*), era uma oportunidade de conhecer a "mãe-pátria"... (Não sabemos quantos guineenses  beneficiaram do Prémio, de 1965 a 1974; mas deviam vir, de preferência, por razões climáticas, entre abril e outubro.)

Pelos vistos, o entendimento da "tropa" (leia-se: do QG/CTIG em Bissau) terá sido outro, e diferente do regulamento; e os sargentos e oficiais também passaram a ser "elegíveis", conforme   vídeos que selecionámos,  da RTP Arquivos (*).

Não temos a estatística dos "felizes contemplados" por ano, teatro de operações e posto, pelo que temos de ser prudentes em relação a conclusões e generalizações.

Ficamos a saber, isso sim,  que desta iniciativa da TAP beneficiaram cerca de 1500 soldados e civis, o que  em 13 anos, desde 1962 até 1974, dá uma média de 115 beneficiários, "grosso modo", por ano, 2,2 por semana.

 Estamos a falar de 0,1875 % do total de tropas  mobilizados para os 3 teatros de operações (c. 800 mil, entre metropolitanos e africanos) (e não contando com os civis, que foram contemplados, já que se desconhece o seu número). Em termos mais simples, são menos de 2 em cada mil. Em termos práticos, e bem humorados, tivemos um herói... por batalhão (!).

Importa salientar que o prémio era também, uma forma de,  mostrando à Nação os nossos "bravos": 

(i) apresentar a "guerra do ultramar" aos militares e à populaçáo civil, metropolitana e guineeense; 

(ii) ,banalizá-la" (mesmo à distância de casa,  de 4 mil, 8 mil, 12 mil quilómetros, fazia desde 1961 parte da rotina e do "fado" dos portugueses);  

e  (iii) " legitimá-la" institucionalmente.   

Na sua visita à metrópole. os premiados tinham direito ao "minuto de fama" no telejornal da RTP, a par  das obrigações protocolares (serem recebidos l, em Lisboa, nos gabinetes dos Ministros do Ultramar, da Marinha, do Exército...). A  partida e no regresso tinham que ir também ao " beija-mão" no palácio do Governador...
_________________

Guiné 61/74 - P28415: In memoriam (592): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte VII: Recordações amargas de Gadamael (4)



Foto nº 1 > Guiné > Região de Tombali > Gadamael > BCP 12 > Fim da Op Dinossauro Preto (2jun73 - 17jul73 > "No rio à espera dos Zebros/sintex para embarcar na LDG Bombarda, rumo a Bissau. Andei a ver as ostras no tarrafo mas eram muito pequenas".
 


Foto nº 2 > Guiné > Região de Tombali > Gadamael > BCP 12 > "Foi neste Patrulha, a LFG "Orion" e noutro  igual, a LFG “Hidra” que me mataram a fome em Cacine, em  junho/julho de 1973" (António Dâmaso).

Foto: A "Oríon" a navegar no rio Cacheu, em janeiro de 1967.  Cortesia de Manuel Lema Santps (1942-2025)
 
 




Foto nº 3B, 3A. 3

Guiné > Região de Tombali > Gadamael > BCP 12 > "Aspeto do aquartelamento à chegada da CCP 122, a 2jun73. Os bombardeamentis seguintes  iriam destruir muito do que aqui ainda se vè de pé (José Moura Calheiros - "A Última Missão". Lisboa: Caminhos Romanos, 2010, pág. 526)
A foto original, a preto e branco, foi restaurada e colorizada com recurso a uma ferramenta de IA (Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + ChatGPT Open AI).



Foto nº 4A, 4

Guiné > Região de Tombali > Gadamael > BCP 12 > Junho de 1973 > "Transporte de urnas para o cais, para serem enviadas para Cacine. Nos primeiros dias do assédio a Gadamael, os paraquedistas  usaram capacetes" (José Moura Calheiros - "A Última Missão". Lisboa: Caminhos Romanos, 2010, pág. 528)

A foto original, a preto e branco, foi restaurada e colorizada com recurso a uma ferramenta de IA (Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + ChatGPT Open AI).


1. Em 12 de junho de 1973, o 1º srgt paraquedista António Dâmaso, natural de Odemira, a exercer a função de 2º cmdt do seu 3º Gr Comb / CCAÇ 121 / BCP 12, depois de ter perdido 3 dos seus homens no Cufeu, a caminho de Guidaje (Op Mamute Doido, 23 de maio de 1973) , é enviado para reforçar a defesa de Gadamael, no sul da Guiné, região de Tombali, junto à fronteira (Op Dinossauro Preto, Gadamael, 2 jun - 17 jul 1973). 

Juntava-se assim às CCP 122 e CCP 123, chegadas a 2 e 5 de junho, respetivamente.  As CCP 121 e 122 regressarão a Bissau a 7 de julho, e a CCP 123 a 17, dez dias depois. Terminava a Op Dinossauro Preto com uma brilhante vitória do BCP 12 sobre o PAIGC ( que deixou de poder ter postos de observação avançados para regulação da artilharia, e teve abandonar as suas  bases de fogos junto á  fronteira).

Quebrado o assédio e a ofensiva IN, os páras podiam regressar a casa...Ficou ainda o cap pqdt João Costa  Cordeiro  (1952-1974) que se voluntariou, com a sua CCP 123, para continuar a dar instrução aos recém-chegados da 3ª C/BCAÇ 4612,   CCAV 8452 e CART 6252  (informação dada pelo nosso camarada João Seabra).

Citando José Moura Calheiros (op. cit. 2010, pág. 541) a "batalha de Gadamael" saltou-se em:

  • 16 mortos e 41 feridos nas tropas da guarnição; 
  • o BCP sofreu 2 mortos (intérpretes) e 35 feridos,  sendo vários graves; 
  • "ao todo,  18 mortos e 76 feridos" (dos quais "cerca um terço graves, alguns dos quais terão mesmo vindo posteriormente a falecer ou ficado estropiados").

O nosso Dàmaso escreveu , na primeira pessoa, como viveu e sobreviveu à batalha de Gadamael, sempre operacional, e mesmo debilitado.

 Este texto, que se segue (o último dedicado a Gadamae), foi inicialmente publicado no  Blogue dos  Especialistas da Base Aérea 12. Guiné 65/74 > segunda-feira, 16 de maio de 2011 > Voo 2333: Gadamael Porto (4).

 
O adeus a Gadamael... e ao BCP 12

por António Dâmaso (1940-2026)


Durante o tempo que estive em Cacine, valeram-me os meus amigos dos Patrulhas Orion e Hidra porque a comidinha a bordo era muito melhor, contribuindo para a minha recuperação. 

Passei tanto tempo nos patrulhas que o meu camarada Jota passou gozar comigo chamando-me "Tóino da maruja".

Sentia-me melhor mas não completamente restabelecido. Quando cheguei a Gadamael,  ainda fui fazer a última saída com a Companhia, tratou-se de um patrulhamento com pernoita no mato. 

Pela manhã quando regressámos, a um quilómetro do quartel, fomos corridos à morteirada até chegar ao aquartelamento. 

É  evidente que fiquei logo em último lugar, o meu camarada Jota sempre a chamar à atenção dos homens para não me deixarem ficar para trás mas eu dizia-lhes para continuarem,  para não perderem o contacto. 

Quando se ouvia vir uma granada a zunir pelo ar, eles atiravam-se ao chão e eu continuava a correr como podia,  tentando não me deixar atrasar. Era uma espécie de ”corrida entre a lebre e o sapo-concho".

Cheguei atrasado mas com ligação à vista. Nas entradas e saídas do aquartelamento eramos quase sempre bombardeados, isto quando não estavam à nossa espera com emboscadas montadas.

No dia que saí de Gadamael tinha no meu chapéu camuflado as insígnias de Mecânico e Cavalaria, do Exército em miniatura, a minha Unidade de Origem era Lanceiros 1. À falta das lanças, as espadas serviam e era como que uma antecipação, pois tinha pensado que,  depois de ter desafiado o Comandante do  BCP 12  com um requerimento a pedir uma junta médica, talvez me brindassem com uma guia de marcha para o Exército. Não estava de todo enganado porque quando cheguei a Bissalanca tive a resposta.

Saímos de Gadamael pelo local por onde tínhamos entrado, havia duas diferenças: (i) a maré mais baixa; e (ii) uma acalmia verificada pela ausência de bombardeamentos, o que nos dava muita satisfação.

Relatório médico a que tive acesso uns anos mais tarde, que transcrevo parcialmente.

“Relatório Médico da Situação das Tropas Estacionadas em Gadamael Porto 

(...) Situação Sanitári  das Tropas Paraquedistas Estacionadas em Gadamael, Elaborada a Pedido do Comando Daquele Aquartelamento

(... / ...) 

Os restantes elementos operacionais referem entre sintomatologia objectiva e subjectiva:

a) Sensações de vertigem, lipotimias, cansaço fácil e sobrecarga psicofísica em número anormalmente elevado na ordem dos mais ou menos 70%.

b) Estilhaços ligeiros que receberam tratamento: 4.

c) Alterações do comportamento: 3; sendo uma tentativa de suicídio e dois delírios agudos que foram evacuados para o Hospital Militar de Bissau.

Face dos dados observados, solicita-se análise da condição física e psicológica do pessoal aquartelado.

Guiné, 10 de Junho de 1973”


Tem a assinatura do médico e por baixo o nome escrito à máquina.

Tenho a certeza que,  se este relatório tivesse sido feito depois do dia 20 de junho, depois do médico ter analisado o pessoal da CCP 121, tendo em conta o que tinham penado em Guidage, e ter assistido os feridos da CCP 122, os números do relatório seriam mais elevados.

Aquela fase da guerra foi terrível. Recentemente, falando com um ex-paraquedista que naquela data estava em Angola, este disse-me que a sua Companhia esteve pronta e equipada de armas e bagagens para rumar à Guiné em reforço, mas depois não o chegou a fazer.

Saudações Aeronáuticas

A. Dâmaso

(Seleção, revisão /vfixação de texto,  negritos, título: LG)
 
 _________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 6  de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28407: In memoriam (591): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte VI: Recordações amargas de Gadamael (3)

Vd. postes anteriores:

5 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28403: In memoriam (590): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte V: Recordações amargas de Gadamael (2)

1 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28393: In memoriam (589): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte IV: Recordações amargas de Gadamael (1)

Guiné 61/74 - P28414: Parabéns a você (2532): Luís Mourato Oliveira, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 4740 (Bigene, Cadique e Nhacra, 1972/74)

_____________

Nota do editor

Último post da série de 4 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28400: Parabéns a você (2531): Artur António da Conceição, ex-Soldado TRMS Inf / Condutor Auto da CART 730 / BART 733 (Bissorã, Jumbembem e Farim, 1964/66)

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28413: Historiografia da presença portuguesa em África (547): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (15): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Era esperável, nesta fase da narrativa, que o capitão Brosselard nos desse mais detalhes sobre o que apreendeu da economia do Geba e nos desse um quadro mais aprofundado de Bissau. O que aconteceu é que nos veio contar as peripécias da viagem do seu colaborador pelo rio Corubal, onde foram apanhados pelo macaréu, acha que este rio, ao entrar no estuário do Geba, devia continuar a chamar-se rio Corubal, e, abruptamente, a narrativa já está em Ziguinchor, fala de Carabane com bastante pormenor e vai depois visitar a ponta Zozor. Iremos ver adiante quais foram as razões políticas e económicas que levaram a França a teimar em ficar com o controlo de Ziguinchor,mesmo sabendo da presença portuguesa ali há séculos.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 15
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Recapitulando, o Capitão Brosselard descreve Bissau e as potencialidades económicas do rio Geba e dá-nos a saber que o senhor Galibert deixou o Kandiafara, viaja com uma lancha desmontável, enviou por via terrestre o seu intérprete e dois volumes de carga, impossíveis de transportar numa embarcação tão frágil, a lancha comporta um piloto, cinco homens e uma bagagem de 200Kg.

Damos novamente a palavra ao oficial francês. Na primeira parte da sua exploração, o senhor Galibert caiu num rápido do rio e correu grande perigo, vencido este foi surpreendido pelo macaréu que varria a foz do Corubal. Graças a um bloco de pedra no qual se puderam refugiar, os exploradores do Corubal escaparam a uma morte certa. Mas as águas não paravam de subir: foi um salve-se quem puder geral; os homens agarraram-se atrás do barco, que flutuava e ameaçava ser arrastado descontroladamente, abandonando no meio das ondas os cinco náufragos. Privados de víveres e de água doce há mais de um dia, os viajantes chegaram a Gã-Matjetja onde vive um rendeiro da Casa Blanchard que tem neste lugar uma casa telhada.

Mal chegados, acorreram de todas as direções ao mesmo tempo crianças, mulheres e velhos. Queriam ver a embarcação, olharam para ela como se fosse um ídolo, sem ousar aproximar-se. Quando se desmontou o barco e cada um dos viajantes guardou as partes desmontadas na roupa, as pessoas do lugar recusaram acreditar no que os outros diziam ter visto. Foi preciso prometer que se iria remontar o Breton para os deixarem sossegados. O batuque ressoava pelos arredores. Acorria gente das povoações Biafadas onde a notícia se espalhara.

No dia seguinte o senhor Galibert entrou no estuário do Geba onde se espraia o Corubal com uma largura de 1500 a 2000 metros. É, portanto, este rio que continua pelo estuário falsamente denominado de Geba (?). Em Bissau, o nosso companheiro organizou a coluna de abastecimento, de acordo com as instruções que recebera, e dispôs-se a cumprir a segunda parte da sua missão.

A 13 de março, ele embarcou acompanhado de todos os franceses bem como das autoridades portuguesas no veleiro Jean-Baptiste. Este afilado veleiro, célebre pelas viagens do senhor Olivier, Visconde de Sonderval, tinha nos seus porões os abastecimentos das comissões que o senhor Galibert devia fazer chegar à povoação de Geba.

Ele pensava ter de percorrer um rio imensamente largo, como vem indicado nas cartas geográficas. Não encontrou no princípio mais do que um leito de 300 metros, bordejado de lamas cobertas por arvoredo próprio do tarrafe, depois curvas e mais curvas, de modo que o Jean-Baptiste, veleiro de 30 toneladas, não podia navegar a não ser rebocado por uma canoa.

Em Fá, o senhor Galibert, ao tomar conhecimento que o barco tinha mais duas marés até chegar a Geba, partiu a pé com um guia da região.

Comentário meu: a narrativa dá surpreendentemente um salto, o Capitão Brosselard vai de imediato falar de Ziguinchor.

Uma curta navegação conduziu a comissão francesa à foz do Casamansa. Percorrendo um território de aluviões, este rio tem larguras bastante diferentes: até à altura de Selho, elas variam de uma a três milhas. As margens, até a uma curta distância da foz, são constituídas por uma série de ilhas sulcadas por bolanhas; elas diminuem à medida que sobe o rio, estão rodeadas de enormes mangueiras e de banhos de lama muito extensos; são muitas vezes cultivadas com arrozais. Ao longe, despontam florestas impenetráveis.

Todos os navios que entram no Casamansa param em Carabane, onde está instalada a alfândega. Estando o barco ancorado, o aspeto é bastante pitoresco: à esquerda, um belo estabelecimento pertencente à Casa Marcel e Prom, e um cais que permite a acostagem de pequenas embarcações; alguns belos poilões bordejam esta parte do rio; temos depois a escola do padre missionário e, contígua, a capela em madeira.

Na proximidade destes edifícios, há habitações contruídas à europeia representando os estabelecimentos das Casas Blanchard, Irmãos Maurel e Cª; as casas dos indígenas perfilam-se atrás; alguns conjuntos de palmeiras dominam todo este ambiente e, mais adiante, perto da direita, o posto de Carabane destaca-se pela brancura luminosa das suas paredes.

Uma alameda plantada de poilões e palmeiras bordeja o caminho que vai do posto à margem do rio. A natureza dos fundos obriga a que os navios fiquem ao largo para fazer as operações de carga e descarga em Carabane; e o estado do mar, raramente calmo, torna muitas vezes difícil o transbordo das embarcações para terra.

Na ponta Zozor, cuja beleza é admirável, os pescadores instalaram o seu aldeamento à sombra de uma maravilhosa floresta de palmeiras. Do rio vê-se um tipo de casa quadrangular contruída em madeira sobre estacas, estas têm cerca de dois metros de altura. Tendo sabido que esta habitação pertence à patroa e proprietária do lugar, chamada pomposamente pela gente da terra a rainha do Zozor, desci a terra para a cumprimentar. Acompanhado do Tenente Clerc, fui bater à porta da casa senhorial. Foi necessário subir por uma escada sobre a plataforma que dá acesso à habitação. Uma negra fez-nos entrar na casa. A princesa de Zozor é uma mulata possante, casada, ao que parece, com um funcionário de quem vive separada. As linhas do seu rosto mantêm-se bonitas, apesar de bem fornecidas de carnes.

Mandou-nos sentar nuns miseráveis escabelos e sentou-se num sofá que estava em cima de um pequeno estrado. É evidentemente ali que esta representante do regime feudal faz justiça.

Após cumprimentos, despedimo-nos desta Alteza e fomos explorar a região vizinha do domínio de Zozor.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Porto de Ziguinchor
Imagens e bilhetes postais antigos de Ziguinchor, retirados do Google França
O Casamansa no contexto da República do Senegal

(continua)
_____________

Nota do editor

Último post da série de 30 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28391: Historiografia da presença portuguesa em África (546): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (14): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)