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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Guiné 63/74 - P7597: Parabéns a você (201): Adilan, o menino que Manuel Joaquim trouxe da Guiné (Miguel Pessoa)

1. Mensagem de Miguel Pessoa, ex-Ten Pilav, BA 12, Bissalanca, 1972/74, hoje Coronel Pilav Reformado:

Caros editores
Já não sei como ou porquê, encontrei em qualquer lado referência ao aniversário do Adilan, o "miúdo" guineense que o nosso camarada Manuel Joaquim adoptou e trouxe no seu regresso. Foi uma história que me interessou e, embora o Adilan não seja um tertuliano nem conste da lista de aniversariantes, pareceu-me justo fazer esta singela homenagem ao Manuel Joaquim, publicando este postal do Adilan na data do seu aniversário (12JAN) - até porque do Manuel Joaquim não tenho nenhuma indicação de quando faz anos...
Ficaria assim lembrada a efeméride por interposta pessoa...

À vossa consideração.

Abraço.
Miguel




2. A Tabanca, associando-se à original ideia do nosso design Miguel Pessoa, vem junto do nosso camarada Manuel Joaquim, apresentar felicitações por mais este aniversário de Adilan, o seu menino guineense.

Estão ambos de parabéns e merecem o melhor da vida.
__________

Notas de CV:

Vd. postes de:

10 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7261: História de vida (32): Adilan, nha minino. Ou como se fica com um menino nos braços - 1ª Parte (Manuel Joaquim)
e
12 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7267: História de vida (33): Adilan, nha minino. Ou como se fica com um menino nos braços - 2ª parte (Manuel Joaquim)

Vd. último poste da série de 10 de Janeiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7582: Parabéns a você (200): Bernardino Rodrigues Parreira, ex-Fur Mil da CCAV 3365/BCAV 3846 e CCAÇ 16 (Guiné, 1971/73) (Tertúlia / Editores)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Guiné 63/74 - P8305: Parabéns a você (262): José Manuel (...), ou Adilan, o meu menino da Guiné, fez 50 anos em Janeiro deste ano (Manuel Joaquim)

1. Mensagem de Manuel Joaquim, ex-Fur Mil de Armas Pesadas da CCAÇ 1419, Bissau, Bissorã e Mansabá, 1965/67, com data de 18 de Maio de 2011:

Meus excelsos e esforçados "camarigos" editores:
Tinha prometido noticiar uma possível festa de aniversário do Zé Manel* mas a promessa "varreu-se-me" e só agora, ao revisitar certos Posts deste blogue, me dei conta do facto.
Bom, aqui vai agora a crónica ilustrada. Vai atrasada mas julgo que ainda a tempo, tempo que se menoriza em relação à essência do ato, permito-me assim pensar.
Se a vossa opinião for pela não publicação, tudo bem, aceito-a pacificamente.

Um grande abraço do
Manuel Joaquim


ANIVERSÁRIO DE ADILAN

Meus caros “camarigos”:
José Manuel (...), ou Adilan, o meu menino da Guiné, fez 50 anos em Janeiro deste ano. Sua esposa e filha(o)s resolveram preparar-lhe (sem o seu conhecimento) uma festa de homenagem para comemorar a data. Para tal alugaram, por um dia, o salão do Grupo de Instrução Popular de Amoreira (Cascais).
Foi nesta simpática coletividade que se desenrolou uma bela manifestação de amor, carinho, amizade, companheirismo e consideração pelo aniversariante. A surpresa que lhe fizeram foi grande. Compareceram umas boas dezenas de amigo(a)s e familiares. Foi um dia lindo: apetitosa comida (a africana sobressaiu), música, dança, um sketch divertido e alusivo ao homenageado no palco do salão, canções com letra adaptada ao ato, etc.

Também eu, que não conhecia uma boa parte dos convivas, me senti muito envolvido naquela festa, tanto pelo alvo da mesma como pela estima e consideração de que fui alvo. Eu, o “culpado” primordial de todas estas vivências por ter trazido da Guiné este “menino”, já lá vão 44 anos! Olhem, senti-me bem, MUITO BEM!

Foto 1 - O nosso “Zé Manel” entre os padrinhos Deonilde e Manuel (minha esposa e eu).

Foto 2 - Com as suas duas manas de coração, minhas filhas.

Foto 3 - “Primos”, é assim que se tratam mutuamente: o filho e as filhas do aniversariante com a minha neta e os meus netos.

Foto 4 - O meu neto mais novo com o seu tio Zé Manel

Foto 5 – Reunidos em semi-círculo à volta do aniversariante, os convivas (vê-se uma terça parte) preparam-se para lhe entoar homenagens e cantar os “parabéns”.

A festa foi linda!

Olho, com ternura desmedida, para este menino de quatro anos, raptado no mato para ficar a conviver com gente estranha nos quartéis da Guiné (ele que nunca, antes, tinha visto um branco!).

Olho para este menino de seis anos subindo o Atlântico a caminho de uma aldeia de Portugal, onde se tornou no menino de uma camponesa, na casa dos 50 anos, que nunca antes teria visto um preto à sua volta. Camponesa madrinha que assumiu profundamente a sua proteção e educação, como se seu filho fosse.

Olho para este menino com dez anos, nos arredores de Lisboa, afrontando um ambiente urbano totalmente desconhecido, sem medos.

Olho para este rapaz de 17 anos a voar para a Guiné, sozinho, sem referências locais, sem família a recebê-lo, mas com o entusiasmo juvenil de quem sente que tem um mundo a construir e acredita que é capaz de fazer algo de útil, por si e pelo seu país natal.

Olho para este jovem de 25 anos, ainda acreditando nos “amanhãs que cantam”, a melhorar a sua formação académica em Berlim-Leste na mira de se tornar num quadro político e técnico capaz de ajudar a desenvolver a sua Guiné.

Olho para este homem aos trinta anos, um pouco desconsolado com o caminho que o seu país lhe parece percorrer, a vir visitar-me e a passar umas férias por cá para matar saudades dos seus tempos portugueses. Vem decidido a voltar mas as dúvidas sobre o caminho seguido na vida política guineense aumentam. Assim, decide só voltar quando for portador de identidade portuguesa. O BI de cidadão português demorou dois anos a ser-lhe entregue, a vida política e económica na Guiné degradava-se a um ritmo veloz, a caminho do desastre (que pouco tempo demorou a verificar-se). Nestas condições, e na sua situação, concordo que só um “maluco” regressaria. E o meu menino da Guiné por cá ficou.

Olho para este meu “menino” e penso como teria sido diferente a sua vida se eu tivesse impedido o seu regresso à Guiné, aos 17 anos. Seria melhor? Teoricamente, sim. Mas o meu Zé Manel também seria outro, forçosamente. E eu gosto deste. Um cidadão de corpo inteiro, íntegro, trabalhador, solidário, pobre mas “limpo” e de “espinha” direita, um grande pai de família, um grande amigo. E é ainda mais uma coisa, também é uma figura sempre querida da CCaç 1419, a cujos convívios não falta. Como costumo dizer, ele não é meu filho, nem sequer adotivo, mas é irmão das minhas filhas e tio dos meus netos.

Esperamos, eu o Zé Manel, estar em Monte Real no próximo dia 4 de Junho. Foi com prazer, e de imediato, que aceitou o meu convite.

Um abraço
Manuel Joaquim
____________

Notas de CV:

(*) Vd. postes de:

12 de Janeiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7597: Parabéns a você (201): Adilan, o menino que Manuel Joaquim trouxe da Guiné (Miguel Pessoa)

10 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7261: História de vida (32): Adilan, nha minino. Ou como se fica com um menino nos braços - 1ª Parte (Manuel Joaquim)

12 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7267: História de vida (33): Adilan, nha minino. Ou como se fica com um menino nos braços - 2ª parte (Manuel Joaquim)

Vd. último poste da série de 20 de Maio de 2011 > Guiné 63/74 - P8301: Parabéns a você (261): Mário Gualter Rodrigues Pinto, ex-Fur Mil da CART 2519 (Tertúlia / Editores)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Guiné 63/74 - P7267: História de vida (33): Adilan, nha minino. Ou como se fica com um menino nos braços - 2ª parte (Manuel Joaquim)


1. O nosso Camarada Manuel Joaquim, ex-Fur Mil de Armas Pesadas da CCAÇ 1419/BCAÇ 1857, Bissau, Bissorã e Mansabá, 1965/67, enviou-nos, com data de 5 de Novembro de 2010, uma mensagem cuja primeira parte foi publicada ontem no poste P7261 e vinha acompanhada da seguinte introdução:


Camaradas,

Envio-vos um texto e fotos, sobre um menino balanta-mané, o JM meu "familiar" desde 1967, quando o trouxe da Guiné e que hoje ronda os 50 anos de idade (estou mesmo velhote!).

Tentei que o relato não fosse tão extenso mas não consegui. Aliás, o tema tem bem por onde se pegar e se desenvolver.

Mas este relato limita-se a dar uma ideia do porquê da vinda do menino para Portugal e suas peripécias, do ambiente familiar que encontrou, do seu regresso à Guiné em 1978, do encontro com seus pais e do seu regresso a Portugal, onde reside atualmente.

As fotos são minhas. Não sei se acham interessante a formatização do texto do Apêndice com selos da Guiné-Bissau. Fi-lo porque este texto é quase todo composto por excertos de correspondência por mim recebida, vinda do meu JM. [O texto segue as normas do acordo ortográfico em vigor].

2. ADILAN, nha minino.  Ou como se fica com um menino nos braços (2ª Parte)

APÊNDICE

Texto e imagens: © Manuel Joaquim (2010). Todos os direitos reservados.

Oito meses após a sua chegada à Guiné,  JM escreve aos padrinhos para os informar que tinha encontrado os seus pais. Seguem-se excertos de correspondência:
Bissau, 1/9/1978
(...) Agora tenho-lhes a dar uma excelente notícia que não irão acreditar! A descoberta da minha família, não acreditam? Então aí vão os nomes: pai, Adjula (...); mãe, Fati (...); irmã, Fulô (...) e eu, ADILAN (…).
Através do (...) de Bissorã, um dia eu e uns tipos do Partido resolvemos fazer umas buscas pela zona de (...), antes de lá chegarmos já lá tinham ido (...) interrogar as pessoas (...), acerca de um jovem que tinha sido levado pequenino para Portugal, não conhecia as suas famílias, (...) morava naquela região, enfim manga de coisas (...).
(...) uma pessoa da tabanca sobressaiu-se dizendo que tinha um filho muito pequenino (4 anos) que estava a guardar o milho com um outro miúdo qualquer e que os tugas (desculpem-me a expressão) tinham-no prendido e levado para Bissorã e mais tarde para Portugal. (...) lhe perguntou se o filho tinha qualquer sinal (...) ela respondeu:
- Sim, tem uma cicatriz no lado direito (na cara). Tem uma orelha furada no lado esquerdo. Um pouco atrapalhado a falar.
( ... ) estas respostas levaram-nos no dia 26/8/78 a ir certificar-nos. ( ... ) eu + 3 pessoas, incluindo um intérprete especial do balanta ( ... ). Chegámos a um lugar totalmente diferente daquele ( ... ) que eu tinha em mente, terreno plano ( ... ) arroz por todos os lados ( a minha cabeça começou em funcionamento como se estivesse a jogar xadrez com o padrinho e tivesse perdido a raínha, as torres e os bispos todos sem que o adversário sofresse nada e chegou o momento da pergunta, «Como será possível que estas pessoas passem tanta fome com tanto arroz semeado?» Veio logo o xeque-mate. «Não vês que esse arroz depois de cortado vai para Bissau e aí é consumido ( ... ) o que chega aqui é um tudo de nada que mal chega para a cova de um dente?» ( ... ) e calei-me, pois com o xeque- mate não há nada a fazer).
A tabanca estava quase vazia, só duas criancinhas mal sabiam o que era a vida é que estavam cá fora a brincar (o resto estava tudo na bolanha) mal tentamos aproximar-nos destas, sumiram-se logo ( ... ) Não havia nada a fazer senão esperar ( ... ).
( ... ) começam a chegar pessoas da bolanha (o meu coração aumentava cada vez mais enquanto o seu batimento era triplicado), esqueci-me de referir que as pessoas de ( ... ) se tinham refugiado no Senegal, a maioria delas, lá ao fundo uma velhinha ( ... ) vem calmamente andando com o seu cesto de encomendas à cabeça, chega junto de nós, pára e calmamente põe o cesto no chão e a primeira coisa em que ela põe o sentido é em mim, olha-me dos pés à cabeça, de trás e de frente enquanto eu me limitava a seguir os seus gestos até que chega um momento e o intérprete lhe pergunta em balanta:
- A senhora (mulher-grande) foi quem perdeu um filho?
- Fui.
- E como o perdeu, em que lugar, como era ele, em que altura foi?
Respondeu ( ... ) igual ao que está escrito atrás.
- Acredita que ele está vivo? ( ... )
A mulher grande baixou a cabeça chorando que nem uma perdida e respondeu não, um não de raiva, ele está morto e mesmo se ele estiver vivo nunca voltará aqui ( ... ) o pessoal da tabanca juntou-se todo à nossa roda, escutando com atenção o que se estava a passar, chorando também. No meio ( ... ) estava uma jovem, olhos castanhos, orelha furada do lado esquerdo, a mesma cicatriz e do mesmo lado, cor igual à minha ( ... ) de nome FULÔ ( ... ), e que a mulher-grande dizia ( ... ) era a minha única irmã, era autenticamente o meu retrato ( ... ).
Para acalmar os choros todos o intérprete disse que o tal rapaz era eu, euforia por parte da Fulô que se lança aos meus braços, beijando-me e abraçando-me com toda a sua força ( ... ) a mulher grande dançava, pulava, gritava, enfim foi uma tarde triste-alegre.
As pessoas juntaram-se todas à minha volta e levaram-me ( ... ). ( ... ) diziam que é o meu pai, que estava de cama (doente), este saltou da cama abraçou-me beijou-me até nunca mais parar. Queriam matar galinhas, porcos, ( ... ), enfim manga de coisas, falavam sempre comigo em balanta mas eu limitava-me a abanar a cabeça, eu disse-lhes que não podia ser, ( ... ). ( ... ) era muito tarde e a visita era curta e que ficaria para outro dia, comprenderam e guardaram tudo para Dezembro ( ... ) para eu não faltar em Dezembro.
Regressamos ( ... ), queriam que levasse um porco para Bissau mas era grande de mais ( ... ).

Quase um mês após este encontro, JM volta a falar dele e a relatar algumas cenas com mais pormenores, aflorando algo que o está a incomodar e que é o grau de emoção sentida, que sente muito abaixo do nível que tinha imaginado:
Bissau, 28/9/78
( ... ) Não tenho a certeza se a carta que lhes escrevi ( 1/9/78) irá aí parar ( ... ) mas vou-lhes relembrar ( ... ) passagens de interesse que nela iam.
Desde o primeiro dia que cheguei à Guiné-Bissau, perguntavam-me sempre pela minha família! a resposta era sempre estão mortos. Eles estão vivos e tu é que não os conheces (diziam-me).
( ... ) há uns dias atrás um ( ... ) de Bissorã ( ... ) descobriu uma família reduzida a três pessoas ( pai, mãe e filha ), faltando um filho que essa família dizia que tinha ido para Portugal levado por um soldado ( ... ) se ele estivesse vivo nunca mais voltaria ( ... ) por várias razões, condições melhores, com 4 anos já não se lembra nada da família ( ... ).
Então num fim de semana do mês passado fomos certificar-nos ( ... ) eu poderia pertencer a essa tal família ( ... ).( ... ) A mulher-grande da família foi interrogada em balanta por um intérprete ( ... )
- Qual o nome do seu filho que perdeu? R: - ADILAN ( ... )
- Em que ano o perdeu? R: – Em 1966.
- Idade que tinha quando o perdeu? R: – 4 anos.
- Que sinais tinha? R: – Um corte nas costas, quando lhe estava a cortar o cabelo caiu-me a faca, ( ... ) lado esquerdo orelha furada, olhos castanhos, um pouco gago ( ... ) sinal do lado direito marca dos meus filhos.
E baixou a cabeça chorando e dizendo: Ele nunca mais voltará... nunca mais voltará... um filho é uma fortuna que uma mãe nunca poderá perder mas eu perdi o meu... (...).
( ...) apresentado a essa família que sem perder um mínimo de tempo se lançou aos meus braços dizendo que eu era o seu filho . Será verdade pelas interrogações feitas e pelas respostas dadas, mas o meu coração não se inclina a aceitar por enquanto esta nova família, porque será? Esta é para vocês me darem a resposta o mais urgente possível. S.F.F. não se esqueçam.
Mas dentro desta família houve uma pessoa que me confundiu muito a cabeça, a tal filhinha de cor mulata, olhos castanhos, lábios finos, sinal do lado direito da cara, uma só orelha furada do lado esquerdo ( ... ) diziam que ela era realmente o meu retrato e devia sem dúvida ser a minha própria irmã, eu acredito que seja , não só pelas suas características serem idênticas às minhas mas também pela reacção quando me abraçou: ADILAN, ÉS TU PRÓPRIO O MEU IRMÃO! ADILAN, FALA! ( ... ). Eu não podia fazer nada senão limitar-me a fechar a boca porque não só o meu coração não se inclinava para o sim mas também residia e ainda reside a incerteza em mim.
Depois de um grande choro e lágrimas por todos os cantos veio ( ... ), canções de alegria, palavras de carinho, ( ... ) uma farra que não foi grande farra pelo meu coração não o querer e não sentir ainda aquele amor que devia sentir pela família ( ... ).

Fiquei preocupado com os problemas de índole afetiva que surgiram ao JM, ao encontrar seus pais e irmã, e não demorei a responder-lhe. Se bem me lembro, a minha resposta é um derramar de afetividade mas também leva como que um pedido de desculpas da minha parte, por me ver o causador de tais problemas. A contra-resposta aparece já um pouco fora de tempo (mais de três meses depois) e, surpresa, é muito agradável para mim, um alívio, um “docinho”.
Bissau, 6/2/79

( ... ) Na frase seguinte, o padrinho diz: “ se achas que eu teria feito melhor deixando-te pelo Oio, não me recrimines. Perdoa lá. Não foi com más intenções ( ... )”. Esta frase, apesar de ser optativa, deixou-me um pouco aborrecido, o que seria agora de mim se eu tivesse ficado no Oio? Estava agora vivo? Seria um Adilan vestido com calças e camisa? Seria um rapaz sentado numa secretária? ( ... ) a melhor coisa que fez, e agradeço-lhe por isso, foi levar-me como menino e trazer-me como homem, muito obrigado padrinho (as boas intenções nunca se recriminam). ( ... )

Mas o problema continua por resolver, mais de um ano depois:
Bissau, 1/5/80

( ... ) pois o problema trata-se da família. Família essa que dentro de mim não a sinto ainda (não sei porquê ) como verdadeira minha família e que neste momento me está trazendo várias complicações ( ... ) quer que eu siga todos os seus costumes, religião, que faça juntamente com eles os seus festejos (comprando vacas e porcos) e tradições ( fanado, chôro e demais coisas existentes nestas tradições ) e que finalmente case com a mulher que eles entenderem que devo casar, ( ... ) até a este momento não chegamos a um entendimento, o que pensarão vocês acerca deste assunto? (queria que me dessem uma opinião, se possível na próxima carta). ( ... )

O padrinho, eu, bem tenta entrar nestes problemas, dá os conselhos comuns e começa a vislumbrar o caso como difícil. Confia no tempo e aposta na desdramatização. Mas, perante o tipo de incompatibilidades surgidas, o que se prenuncia é o afastamento emocional da família pois a distância cultural é muito grande para haver hipóteses de aproximação funcional e afetiva entre estes dois mundos.
E o tempo foi passando, assim.
Bissau, 13/1/81
( ... ) Quanto à minha família tudo continua como dantes, as dúvidas persistem, até quando? Eu propriamente não sei explicar-vos porquê mas não consigo, mesmo que queira, considerá-los como um verdadeiro filho considera os seus pais e os estima verdadeiramente, eu não consigo adaptar-me e como farei, padrinho?

Bissau,17/3/81

( ... ) O amor de um filho pelos pais não existe ainda em mim ( na Guiné ). ( ... ) para mim esse amor existe e existirá sempre em Lisboa. Não quer isto dizer que eu nego os meus parentes, nada disso ( ... ). ( ... )

De vez em quando aparecem as saudades de Portugal (um contra-peso ?).
Bissau, 19/10/81
( ... ) Quando falam no nome de Casal Novo sinto uma coisa dentro do meu coração, recordar esta bela aldeia, as suas gentes, a amabilidade desta pequena povoação, enfim um paraíso para não esquecer nunca mais - ali nasceu e cresceu a infância de um pretinho de nome ( ... ) - obrigado CASAL NOVO, obrigado madrinha PIEDADE, padrinho ZÉ BISPO, ti JQUINA e ti MANEL, ti SANTIEIRA e ti RAINHO, mas não perdi a esperança de um dia poder voltar a essa belíssima aldeia... não perdi a esperança ( ... ).
Uma das últimas vezes em que se refere ao tema, que o tempo parece estar a resolver, aborda mais uma vez a aldeia da sua infância:

Bissau, 25/1/82
( ... ) A família continua a ser um caso cheio de casos ( ... ), continuo com aquele pensar que sempre tive desde a infância, que não tenho família e que ela morreu na guerra ( ... ) e, como não poderia deixar de ser, continuo a pensar cada vez mais em vocês, e no Casal Novo, ninguém me tira ou tirará esta ideia ( ... ).( ... )
E o tempo, em vez de consolidar os vínculos com a família natural e com a tabanca natal, vai os desvanecendo e, em contrapartida, vai fortalecendo a ligação afetiva com a família portuguesa e com a aldeia da sua meninice. Nota-se alguma emoção no relembrar o Casal Novo e seus habitantes.

Bissau, 29 de Setembro de 1983
( ... ) Essas belíssimas férias como foram passadas? Foram até ao Casal Novo? Falando daquela terra, as saudades são imensas, lembro-me ( ... ) a ajudar a madrinha no corte do milho, na apanha da azeitona por aqueles cerrados abaixo, encostas e ladeiras, aquele amor que os vizinhos tinham por mim, enfim lembro-me sempre do Casal Novo e da sua gente, daqui um abraço para eles todos, dêem-lho por minha conta e digam-lhes que ainda estou vivo e não perdi a esperança de ir visitá-los, era este ano mas gorou-se, penso que será para o ano. ( ... )
Não foi “para o ano”, como ele pensava. O ansiado encontro só se concretizou sete anos depois.
FIM
Sintra, Outubro de 2010
Um abraço,
Manuel Joaquim
Fur Mil de Armas Pesadas da CCAÇ 1419 do BCAÇ 1857
Emblema de colecção: © Carlos Coutinho (2010). Direitos reservados.
Fotos: © Manuel Joaquim (2010). Direitos reservados.
___________
Nota de M.R.:
Vd. último poste desta série em:

10 de Novembro de 2010 >
Guiné 63/74 - P7261: História de vida (32): Adilan, nha minino. Ou como se fica com um menino nos braços - 1ª Parte (Manuel Joaquim)


Guiné 63/74 - P7270: O mundo é pequeno e a nossa Tabanca... é Grande (31): Achado e perdido, o meu amigo Mulai Baldé (Amílcar Ventura)


Guiné > Zona leste > Bajocunda > 1.ª CCAV/BCAV 8323, 1973/74 > Álbum fotográfico do Amílcar Ventura > "Foto 10 - Crianças amigas [ , em primeiro plano o Mulai Baldé, que mais tarde viria para Portugal]

Foto: © Amílcar Ventura (2010) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados


1. Na sequência da história do Adilan, na minino, aqui apresentada pelo nosso camarada Manuel Joaquim (*), viemos a descobrir mais um djubi que, em tempos, conviveu com a malta da tropa... E muitos outros haverá, como foi o caso o Cherno Baldé, por exemplo, que conviveu connosco em Fajonquito e agora é um membro muito querido da nossa Tabanca Grande.

Eis o filme dos acontecimentos (com referência ao Mulai Baldé) aqui narrados pelo Amílcar Ventura e pelo Cherno Baldé... A confirmarem-se as pistas, é caso para mais uma vez dizermos aqui, alto e bom som, que o Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande!


(i) Comentário de Amílcar Ventura (que vive em Silves; foto à esquerda, Bajocunda, 1973/74):

Manel, eu tive uma história parecida com a tua, só que o menino é o meu amigo Mulai Baldé. Na altura não tive a coragem de o trazer. Era um puto que nos servia na messe de sargentos.

Quando regressei,  em 9 de Setembro de 1974,  nunca perdi o contacto com ele, escrevia-lhe todos os meses três cartas, até que, passados oito anos, ele conseguiu vir para cá. Ajudei-o a formar uma empresa de construção civil. Depois trouxe a família para cá. Esteve muito tempo comigo no Algarve.

Mas depois foi para Lisboa e há dois anos que ando à procura dele. Deixou-me de telefonar, perdi-lhe o rasto, até já contactei a embaixada e até agora nada. Tenho estado muito preocupado.

Um grande bem haja para ti. Uma abraço do tamanho da Guiné para ti e tua família

Amílcar Ventura, ex-Fur Mil Mec Auto,
1ª CCAV / BCAV 8323
(Pirada, Bajocunda, Copá, 1973/74)


(ii)  Mensagem do Cherno Baldé (, foto à esquerda, quando estudante, em Kiev, Ucrânia, 1989,) para o Amílcar Ventura:

(...) Ao Amílcar Ventura aproveito informar que o Mulai, natural do Sector de Pirada (Bajocunda?), foi meu colega no Liceu de Bafatá, dormimos na mesma esteira e degustámos, comemos juntos, em Bafatá, de 1975 a 1979, o pão que o diabo amassou.

Actualmente ele vive e trabalha em Gabú, sua região natal. Aparentemente, é um Empreiteiro (ou Empresário) de sucesso e um homem de peso na região. Quero aqui felicitar-te pelo empurrão que lhe deste e que, certamente, contribuiu para o seu sucesso hoje.

Um abraço para todos,

Cherno Baldé (Chico de Fajonquito)

(iii) Comentário do Manuel Joaquim (, foto actual, à direita):

Oh Amílcar Ventura, que grande "bomba", hem?! O teu amigo Mulai Baldé apareceu! ( embora só nas palavras do Cherno).

A minha "estória" já fez abrir uma garrafa!

E viva a Tabanca Grande!

Um abraço
 
(iv) Comentário de Luís Graça (, foto à esquerda, em Nhabijões, Bambadinca, 1970):
 
Amigos:

Tantos e tantos djubis que não tiveram a sorte grande de encontrar um homem, de coração grande, como o nosso Manuel Joaquim!... Lembro-me, por exemplo, do Tchombé, a mascote (sic) da messe de sargentos de Bambadinca do meu tempo (BCAÇ 2852, BART 2917, CCAÇ 12, 1969/71)...

O que será feito desse minino, que não teria mais do que cinco anos quando o conheci, e que ninguém pôde ou quis trazer para a metrópole ?... Julgo que era "órfão de guerra" (ou talvez fosse apenas mais um "rafeiro", como diz o Cherno Baldé, que vivia na órbita da tropa de Bambadinca...).

Eh!, malta de Bambadinca, alguém de lembra do puto Tchombé ?

(v) Comentário, de novo, do Amílcar Ventura:

 Manel, que grande história de vida que nos contas nesta segunda parte. Também é maravilhosa, o Adilan encontrar a sua família, etc. Manel, quero dar-te um grande e forte abraço.

Por tua causa descobri o meu amigo Mulai Baldé. Já envie um e-mail ao Cherno e outro ao Pepito para verem se descobrem o contacto.

Obrigado do fundo do coração. Um grande bem haja para ti. Uma abraço do tamanho da Guiné para ti e tua família (...)

_____________

Nota de L.G.:

(*) Vd. postes de:

10 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7261: História de vida (32): Adilan, nha minino. Ou como se fica com um menino nos braços - 1ª Parte (Manuel Joaquim)

 12 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7267: História de vida (33): Adilan, nha minino. Ou como se fica com um menino nos braços - 2ª parte (Manuel Joaquim)

Úlçtimo poste desta série que se passa a chamar-se O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande >

30 de Outubro de 2010 > Guiné 63/74 - P7192: O Mundo é Pequeno e o Nosso Blogue... é Grande (30): Forgotten African Soldier / O Soldado Africano Esquecido (Jochen Steffen Arndt, Universidade de Illinois em Chicago)

sábado, 13 de novembro de 2010

Guiné 63/74 - P7273: Parabéns a você (170): Amadu Djaló, o nosso querido camarada septuagenário, que continua a escrever as suas memórias

A história do "minino", feito prisioneiro no mato, com 4 anos,  e depois adoptado pelo nosso camarada Manuel Joaquim (*), e que só agora, muitos anos depois, é divulgada por um dos protagonistas,  tem algum paralelismo com a de Malan Nanque, mais velho (8/9 anos), já aqui contada pelo nosso camarada Amadú Djaló, ou melhor, contada no seu livro Guineense, comando, português (Lisboa: Associação de Comandos. 2010), cuja 1ª edição se esgotou em escassos meses (**). 


O Amadu fez há dias 70 anos (nasceu em 10 de Novembro de 1940). A efeméride escapou-nos completamente. Com três dias de atraso, mas ainda a tempo, aqui vão  as felicitações da toda a nossa Tabanca Grande. 

Saúde, muita saúde, carinho, solidariedade, paz interior e algum dinheiro, é o que o Amadú agora mais precisa. Sei, através do Virgínio Briote, que vive neste momento sozinho, na Amadora, com a partida, para Inglaterra,  da filha e do neto que viviam com ele. Teve há dias a companhia do seu filho  [Idrissa ?,],  que está a acabar o curso de direito em Londres, se não me engano.  

O Virgínio também me confidenciou que o Amadú continua a escrever, o que muito nos alegra a todos. E,  se Deus lhe der vida e saúde (e um novo editor...), talvez possamos ainda ver, no próximo ano,  nos escaparates,  o prometido 2º volume das suas memórias, relativas ao período do pós-independência, incluindo o desenvolvimento da história do "minino" Malan Nanque, beafada, que ele baptizou como Malan Djaló, e a quem chamava sobrinho, tendo ficado ao cuidado de uma sua irmã, em Bafatá. 

Recorde-se que, anos depois da sua captura, em 1964,  na região do Xime, seguido da sua adopção por parte do Amadú [, foto direita, Lisboa, Belém, 2009], este levou-o a conhecer a mãe, em Bissau, em 1973. Continou, porém, a viver na casa de Bafatá. Depois da independência, deu aulas de português em quartéis do PAIGC. 

Entretanto, o desfecho deste caso não foi tão feliz como o do Adilan. O Malan Nanque (aliás, Malan Djaló), "casou, teve um filho, adoeceu e morreu pouco tempos depois no hospital de Batafá. O único filho que teve, uma menina, também sobreviveu pouco tempo. Morreu, ainda não tinha dois anos". 

São de facto, duas histórias, dois destinos.  Em todo o caso, são histórias felizes, com lágrimas, usando uma metáfora do escritor e antigo combatente em Angola, o açoriano João Melo. Neste último caso, do menino beafada, é de realçar mais uma vez a grandeza moral e humana do  bom muçulmano que foi (e continua a ser) o nosso camarada Amadú Djaló, agora septuagenário.
_________

Notas de L.G.:

(*) Vd. postes de:


 12 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7267: História de vida (33): Adilan,nha minino. Ou como se fica com um menino nos braços - 2ª parte (Manuel Joaquim)


(**) Vd. poste de 27 de Abril de 2010 > Guiné 63/74 - P6257: O segredo de... (12): O meu sobrinho Malan Djaló, aliás, Malan Nanque, o rapazito de 8 ou 9 anos anos, apanhado pelo Grupo Fantasmas, do Alf Mil Comando Saraiva, em 11 de Novembro de 1964, em Gundagué Beafada, Xime... (Amadú Djaló)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Guiné 63/74 - P14275: (Ex)citações (261): Uma coisa posso dizer com clareza: o povo guineense é um povo digno de admiração (Manuel Joaquim, membro da ONGD Ajuda Amiga)









Fonte: Solidariedade - Para Amizade Sovieto-Africana, boletim de informação, agência Novosti, 8, 1969, p.4. (Material apreendido ao PAIGC em Nhacobá,. Região de Tombali, Guiné, em maio de 1973 (*).. Coleção de António Murta [ex-alf mil inf , Minas e Armadilhas, 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513. Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74]

Foto: © António Murta (2015). Todos os direitos reservados [Edição de CV]



Sintra > Azenhas do Mar > Setembro de 1977 > Adilan, o menino balanta-mané que o Manuel Joaquim trouxe da Guiné em 1967 e que criou como se fosse seu filho... Aqui,com as suas "manas"... Hoje, o José Manuel S. C., com 54 anos, casado, pai de filhos, é cidadão português e está plenamente integrada da sua segunda pátria.

Foto: © Manuel Joaquim  (2010). Todos os direitos reservados.



Cascais > Janeiro de 2011 > Quando fez 50 anos, em 12 de janeiro,  o Adilan [, José Manuel S.C....] com as suas "manas", não de sangue mas de afeto... Uma belíssima história, já aqui contada e recontada, e que na começa num operação militar ao Morés (**)...

Foto: © Manuel Joaquim  (2011). Todos os direitos reservados.



1. Comentário de Manuel Joaquim (***) [, membro da ONG Ajuda Amiga,  ex-fur mil  armas pesadas, CCAÇ 1419, Bissau, Bissorã e Mansabá, 1965/67; padrinho do "Adilan, nha minino";  professor do ensino básico, reformado; por todas as razões, talvez o camarada da Tabanca Grande que menos de lições precisa de dar e receber  em matéria de afetos lusoguineenses...]

Vamos aos afectos, queridos camaradas da Guiné! (Veem como estou afectuoso?) Falo por mim que de afectos é o que mais preciso agora, neste momento de opinar.

Isto de levar a dianteira em matéria de afectos será complicado de gerir pelos sujeitos da afeição:"Quero lá eu saber se aquele chegou em 1º ou em último lugar; agrada-me é que gostem de mim, o resto é lá com eles".

Bem, não dirão nada pois não terão conhecimento desta tão agradável notícia, digo eu.

O objectivo é saber se há uma relação afectuosa entre alguns (muitos, poucos?) portugueses e os guineenses. Porque entre os dois conjuntos, "povo português" e "povo guineense", duvido que alguém consiga avaliar essa relação. E penso que, a ser avaliada, não obteria uma posição de relevo se comparada com a de outros povos ditos amigos da Guiné-Bissau.

É verdade que tenho afeição ao povo guineense mas este inquérito não é sobre afectos individuais.
Começo já por dizer que concordo totalmente que "em matéria de afectos e em relação aos guineenses, levamos a dianteira ....". 

Mas agora me pergunto: Qual a posição nessa dianteira? Encostados, mais ou menos perto ou muito à frente do segundo lugar?

Não sei responder. Russos, chineses, cubanos, suecos, etc.etc., actuaram na guerra colonial em favor do povo guineense?

Aceitando a linguagem política da questão, digo que sim, que actuaram na retaguarda, na formação militar e ideológica e na logística da guerra do PAIGC, alguns a participarem directamente nos combates (quase só cubanos).

Ajudaram sob o signo da amizade? Ajudaram, sim. Mas não o fizeram só pela amizade (ficava-lhes caro demais). 

As «Associação de Amizade X - Guiné-Bissau», (sendo, por exemplo, X o nome de um dos países ajudantes) parecem querer dizer que sim mas a Amizade" talvez seja o último dos objectivos a atingir pelos parceiros da Guiné-Bissau. Há outros, económicos e estratégicos, mais importantes e prioritários. De resto a chamada "amizade entre os povos", notariada em cerimónias diplomáticas, é quase sempre fantasia para uso político-económico, onde os afectos não contam.

Na dianteira dos afectos vão os portugueses. Acredito, mas até quando?

Afinal o que é que nos liga à população guineense, qual foi o "cimento" e o adubo desses afectos?
Penso que o "cimento" foi a guerra colonial e o adubo tem vindo a ser distribuído desde o início da guerra. Mas não podemos equiparar à realidade actual o grau afectivo das relações entre muitos dos antigos combatentes portugueses e a população guineense com quem conviveram. E é o que pode acontecer quando se escrutinarem os resultados desta consulta, pois quer-me parecer que haverá gente a responder pensando "particular" (em si) e não "global".

Esta afectividade ainda existente, não sei em que grau, deve muito aos afectos nascidos durante a guerra e presentes na memória de muitos dos participantes nessa guerra ainda vivos, combatentes ou não, militares ou civis.

Mas o tempo não perdoa. Muitos dos usuários dessa memória, a maior parte deles guineenses, já morreram. Por isso não acredito que os laços afectivos se tenham vindo a fortalecer apesar de não ser difícil encontrar notícias de afectividades recentes resultantes dos contactos de cidadãos portugueses que têm visitado a Guiné nos últimos anos. Tenha-se em atenção que muitas destas afeições são interesseiras, só existem no discurso: "a necessidade aguça o engenho!".

Creio que esta relação afectiva não é igual de parte a parte. Será mais forte do lado guineense do que do lado português. O desenrolar da vida política, social e económica da Guiné tem sido um desastre desde a sua independência. Como não admitir que o povo sabe fazer comparações sobre a sua situação entre os tempos de antes e o pós-independência?

 Afinal o que é que liga à Guiné, afectuosamente, muitos dos antigos combatentes portugueses?
Será a recordação dos tempos difíceis e das situações aflitivas por que passaram, dos momentos de camaradagem, de alegria e de sofrimento, das marcas deixadas pela guerra e que, para o bem e para o mal, não se apagaram?

Serão as memórias da sua juventude passada na Guiné, para muitos deles tempos de muitas dificuldades mas também tempos de revelação de si próprios,  das suas capacidades e do comportamento humano perante o bem e o mal, tempos de descoberta de outros "mundos", de outros lugares, de outro(s) povo(s) com seus usos e costumes?

Será para alguns a lembrança da ternura e da afabilidade sentidas nos momentos de convívio com a população que os rodeava, contrapondo esses consolos aos momentos de tristeza e medo, provocados pela guerra para onde foram obrigados a ir e de onde regressaram (os que regressaram) muito diferentes do que eram quando lá chegaram?

Procurar conviver com a população foi para muitos um objectivo facilmente cumprido pois o povo que os "recebeu" tinha, em geral, um comportamento não conflituoso com os militares. Era mais frequente mostrar afabilidade que indiferença. Sinais visíveis de desprezo seriam raros, o que não quer dizer que não pudessem existir em número mais elevado. Mas também havia sinais de dedicação e de sacrifício no apoio a muitos militares portugueses.

A afectividade ainda hoje existente nasceu de tudo isto?

Os afectos que muitos dos ex-combatentes têm por muitos guineenses poderão assentar nestas recordações de uma terra estranha para onde foram lançados e onde se viram obrigados a situarem-se de modo a lhes ser mais fácil alimentar a esperança de regressarem, vivos e inteiros.

Procurando um ponto de equilíbrio, conscientemente ou não, criaram laços, criaram amigos, "forçaram" relações pessoais e/ou aceitaram de bom grado outras delas, entraram de cabeça, uns, de mansinho e receosos outros. E assim conviveram sem sobressaltos de maior com o povo que lhes rodeava os aquartelamentos.Quem perde a memória feliz daqueles momentos?

 Durante algumas centenas de anos não houve naquela terra qualquer tipo de convívio social de portugueses com a generalidade da população da Guiné. Não me admira nada, os tempos eram outros, a visão centralista europeia olhava os povos africanos não como seus semelhantes mas como seus servidores. Portanto não acuso ninguém.

Não houve convívio mas houve muitos conflitos violentos, guerras mesmo.

Algumas relações sociais existiram mas para permitir acordos de negócios entre as partes, entre o poder colonial, oficial ou particular, e o dos chefes tradicionais locais. Acordos estes que variavam "conforme os ventos".

Outras relações, entre patrões e serviçais, entre dominadores e dominados, "colonos" e "colonizados", estavam assentes em posições de domínio absoluto do mais forte.

O poderem ter acontecido relações afectivas, pontuais e muito limitadas no tempo, no espaço e na sua abrangência, não me leva a dizer que as relações do poder com a população criaram afectos que se foram cimentando no decorrer do tempo. Não se acusa ninguém, há que ter em conta a relatividade histórica na análise do comportamento das sociedades.

Para que serve, então, bater na tecla das relações de amizade com os povos da Guiné, de há 500 anos para cá? Não serve nada, deixemos esta balela para gestão política.

Relações de amizade? Não estou a falar de relações sociais, amigas ou não, entre reduzidos números de portugueses residentes e algumas entidades gentílicas. 

Falo dos afectos resultantes da convivência diária, da partilha de vivências, da aculturação mútua surgida de contactos mais duradouros que foi o que se verificou em muitos lugares durante a guerra colonial de 1963/74.

A ida para a Guiné de tantos militares transportando a diversidade cultural existente na sociedade portuguesa, proporcionou ao povo guineense o ter alguma noção do que é "ser português" (o povo não é burro). Apesar de andarem de armas na mão, estes militares, não se pareciam com os antigos que, há séculos, se vinham sucedendo muitas vezes lançados ao deus-dará e a assumirem o poder colonial sem que para isso estivessem preparados nem mandatados, decididos a serem obedecidos a qualquer preço, na satisfação dos seus caprichos e ambições.

E quanto ao futuro?

Vai havendo bom trabalho, feito por organizações portuguesas e guineenses. Mas é pouco. Sei alguma coisa do que falo. Sabemos, aqui no blogue, de algumas associações e do seu trabalho na manutenção deste ambiente solidário e amigo entre muitas pessoas da Guiné e de Portugal. Convivo regularmente com guineenses, alguns deles antigos militares portugueses.

A base de sustentação dos afectos está, principalmente, nos antigos combatentes na Guiné e em poucos mais. Mas estes poucos mais não são  "pouco", são o sinal de que a solidariedade afectiva não morreu. Na Guiné sucede o mesmo. Há muita gente que gosta dos portugueses mesmo que políticos de serviço tenham algumas vezes afirmado o contrário. A população que conviveu com os militares portugueses não os esqueceu.

Não deixámos más memórias ao povo com quem convivemos. Isto na generalidade pois pode sempre haver "fruta podre nas caixas". Mas o povo não é estúpido em lugar nenhum do mundo, ainda que muita gente o afirme.  E, normalmente, sabe relativizar os acontecimentos, princípio básico necessário à sua sobrevivência com alguma dignidade social.

E uma coisa posso dizer com clareza: O povo guineense é um povo digno de admiração.

Agradecendo a quem se deu ao trabalho de ler todo este meu "discurso" um pouco atabalhoado. (****)

Abraços para todos
Manuel Joaquim
__________________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 6 de fevereiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14226: A guerra vista do outro lado... Documentos apreendidos ao PAIGC em Nhacobá em 17 de maio de 1973 - Parte I (António Murta, ex-alf mil inf, 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513. Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74)

(**) Vd. poste de:

 10 de novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7261: História de vida (32): Adilan, nha minino. Ou como se fica com um menino nos braços - 1ª Parte (Manuel Joaquim)

12 de novembro de 2010 >  Guiné 63/74 - P7267: História de vida (33): Adilan, nha minino. Ou como se fica com um menino nos braços - 2ª parte (Manuel Joaquim)

(***) Vd. poste de 11 de fevereiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14240: Sondagem: somos um povo de afetos ? Resultados preliminares (n=70): 80 % dos respondentes "concordam totalmente", com a proposição segundo a qual "em matéria de afetos, e em relação aos guineenses, levamos hoje a dianteira a russos, chineses, cubanos, suecos e outros que apoiaram o PAIGC no tempo da guerra colonial"...

sábado, 31 de maio de 2025

Guiné 61/74 - P26867: Convívios (1035): Fotorreportagem do 61º almoço-convívio da Magnífica Tabanca da Linha, Algés, 29 de maio de 2025 (Manuel Resende / Luís Graça ) - Parte I

 

Foto nº 1 > Magnífica Tabanca da Linha > 61º almoço-convívio > Algés > Restaurante Caravela De Ouro > 29 de maio de 2025 >  O régulo Manuel Resende visivelmente bem disposto por tudo ter corrido bem: ds 87 inscritos faltaram 4, por razões de força maior... 

E neste convívio tinhamos um "magnífico" que veio de longe: o João Crisóstomo, nosso camarada, que vive em Nova Iorque. 

Na foto, de pé à esquerda, o Luís Graça  (Lourinhã) e à direita,a sentado, o Joaquim Pinto de Carvalho (Cadaval) (fez ntem anos, uma capicua, 77...). Quatro régulos, ao fim e ao cabo: da Tabanca Grande, da Tabanca da Diáspora Lusófona, da Tabanca da Linha e, por último, da Tabanca do Atira-te ao Mar e Não Tenhas... Medo!

Foto nº 2 > Magnífica Tabanca da Linha > 61º almoço-convívio > Algés > Restaurante Caravela De Ouro > 29 de maio de 2025 >  Aspeto parcial do 2º (e último) piso do restaurante que estava cheio (11 meses de 8 convivas)... Já há muito, desde antes da pandemia, que não se atingia praticamente a lotação máxima.


Foto nº 3 > Magnífica Tabanca da Linha > 61º almoço-convívio > Algés > Restaurante Caravela De Ouro > 29 de maio de 2025 > As "nossas mulheres grandes" (sempre "bajudas"!) desta vez responderam à chamada do nosso régulo: a sala estava muito bem composta... 

Aqui o António Duque Marques, com a esposa... O casal viva na Amadora. ("António, como é que ? És "magnífico" desde  18 de maio de 2017, mas ainda não és membro da Tabanca Grande ? Ainda por cima, meu vizinho!... Temos estado distraídos os dois, tu e eu!... Estás 'convocado' para te sentares à sombra do nosso poilão, no lugar nº 906!")... 


Foto nº 4 > Magnífica Tabanca da Linha > 61º almoço-convívio > Algés > Restaurante Caravela De Ouro > 29 de maio de 2025 > Outro casal amoroso, simpatiquíssimo, fotogénico, apanhado pelo nosso fotógrafo com um sorriso lindo: o José Diniz Souza Faro e a esposa (S. Domingos de Rana, Cascais)... (Foi fur mil art, 7.º Pel Art / BAC , Cameconde, Piche, Pelundo e Binar, 1968/70, tem 14 referências no nosso blogue, e é membro da nossa Tabanca Grande desde 23/05: é "magnífico" desde 15/5/2015).


Foto nº 5 > Magnífica Tabanca da Linha > 61º almoço-convívio > Algés > Restaurante Caravela De Ouro > 29 de maio de 2025 > Outro "menino da Linha", o Mário Fitas, com a sua Helena.

 É um dos "pais-fundadores" da Tabanca da Linha, em 2010 (está no livro de baptismo com a data de 19/2/2015, o que não bate certo). Ofereceu-nos, com uma bela dedicatória, o seu ultimo  livro (Mário Vicente - "Do Alentejo à Guiné: Putos, Gandulos e Guerra", ed. autor, maio de 2025, 162 pp.)



Foto nº 6 > Magnífica Tabanca da Linha > 61º almoço-convívio > Algés > Restaurante Caravela De Ouro > 29 de maio de 2025 > Já não nos víamos há muito tempo, desde os bons tempos antes da pandemia!... Teve um grande susto, quase a patinar, disse-me ele...Refiro-me ao António Alves Alves (Carregado, Alenquer), que é "magnífico"  desde 15/11/2015...(Também não és "grão-tabanqueiro", temos de ver isso, camarada!)


Foto nº 7 > Magnífica Tabanca da Linha > 61º almoço-convívio > Algés > Restaurante Caravela De Ouro > 29 de maio de 2025 > Manuel Gonçalves e Tucha, mais dois meninos (Carcavelos, Cascais)... São transmontanos de Bragança... O Manuel Gonçalves, ex-alf mil Manutenção,  CCS/BCAÇ 3852 (Aldeia Formosa, 1971/73),  é "magnífico há "dois anos"... E "grão.tabanqueiro" desde 2 de agosto de 2018 (nº 776); foi alunos dos Pupilos do Exército...


Foto nº 8 > Magnífica Tabanca da Linha > 61º almoço-convívio > Algés > Restaurante Caravela De Ouro > 29 de maio de 2025 > Foi uma grande alegria para todos nós (e para mim e a Alice, em especial) poder abraçar o Manuel Joaquim e a esposa... Problemas de saúde (do foro oftalmológico) tem-no impedido, há muito, de comparecer aos nossos convívios. Tem 110 referências no nosso blogue.

É autor, como se lembram, de uma das mais belas histórias, com fim feliz, contadas no nosso blogue.  Foi fur mil armas pesadas inf da CCAÇ 1419 (Bissau, Bissorã e Mansabá, 1965/67), hoje professor do ensino básico reformado: trouxe para a sua casa e educou, como padrinho, o "nosso minino Adilan", o Zé Manel, o José Manuel Sarrico Cunté...

Falámos do Adilan, à mesa, com muita emoção (!)... Agora já avô, e feliz por viver em Portugal, o Zé Manel!... Camaradas: é um grande lição de portuguesismo e de humanidade, a do Manuel Joaquim e do Adilan, aliás, Zé Manel, dois membros da Tabanca Grande (onde raça, etnia, cor de pele, religião, partido, clube, classe social, etc., ficam lá fora).. Dois grandes seres humanos que muito nos honram e a quem desejemos o melhor da vida...


Foto nº 9 > Magnífica Tabanca da Linha > 61º almoço-convívio > Algés > Restaurante Caravela De Ouro > 29 de maio de 2025 > Mais dois meninos (e uma menina) da Linha... Não precisam de apresentação... São veteraníssimos nestas andanças!... São "magníficos" da primeira hora e também membros da Tabanca Grande: António Marques e Gina (Cascais) e Armando Pires (Oeiras)...

Fotos: © Manuel Resende (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Escreveu o Manuel Resende na página do Facebook da Magnífica Tabanca da Linha, quinta feira, 29 de maio, às 21:56:


Mais um convívio se realizou hoje no Restaurante Caravela de Ouro, foi o nº 61. As cadeiras ocupadas foram 83. Creio que fizemos uma boa manifestação de gratidão ao nosso camarada João Crisóstomo, que vive em Nova Iorque  e que fizemos coincidir com as suas férias cá. Quem não souber quem é o Crisóstomo vá ao Blog Luis Graça e procure. Está lá tudo.

Como de costume, e para que fique registado, tirei algumas fotos que junto, clicando neste link.

2. Vamos selecionar algumas das mais de 6 dezenas de fotos do Manuel Resende, editá-las e legendá-las. Este é o primeiro poste.  

Fica aqui também a minha / nossa gratidão ao "magnífico-mor". 

Foi mais um almoço-convívio cuja organização esteve impecável e foi do agrado geral. 

Sempre discreto, o Manuel Resende está em "todas" as funções que cabem a um "régulo":  depois de ter convocado as "tropas", sempre com música suave ao ouvido (não precisa de berrar, vai atualizando o Facebook...), e de ter orientado as coisas com o restaurante,  lá esteve ele, de novo,  para nos nos receber,  dar as boas vindas aos "piras" (7 desta vez vez!), receber a "guita", fazer as contas, pagar,  etc. 

Nunca tem tempo, coitado, para provar os aperitivos e come à pressa... Lá pega na máquina fotográfica e percorre as 11 mesas, tirando 61 chapas... em tempo recorde... E ainda por cima posando, com calma e pachorra, para os "telemóveis" que querem ficar com uma "selfie"...

Tudo começa antes das 12h30 para acabar mais ou menos às 15h00... Vamos ter saudades do nosso "régulo" quando ele se reformar (mas, felizmente, ainda falta muito...). Deus lhe dê muita saúde e longa vida,  que ele merece as duas coisas... (LG)

__________________

Nota do editor:

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Guiné 63/74 - P15500: (De)caras (26): Os homens grandes da Tabanca Grande saúdam a entrada do nosso ''mininu' Adilan (nome balanta)... e cuja autorização de embarque para a metrópole foi dada, ao "padrinho" Manuel Joaquim, em Bissau, em 29/4/1967, por certificado emitido pelo administrador de concelho Manuel da Trindade Guerra Ribeiro



Curioso documento, passado pelo administrador do concelho de Bissau, o célebre Guerra Ribeiro (que tinha vindo de Bafatá), de seu nome completo Manuel da Trindade Guerra Ribeiro, com data de 29 de abril de 1967, e que reza assim:

(...) Certifico, em face dos documentos que ficam arquivados nesta Administração, que o menor José Manuel Sarrico Cunté, de seis anos de idade, natural de Cunté, concelho de Bissorã, filho de pais desconhecidos, residente nesta cidade [de Bissau], está em condições e autorizado a embarcar para a Metrópole num dos navios da Companhia Colonial de Navegação, cuja saída deste porto está prevista para o dia 4 do próximo mês de maio, afim de fixar residência [ilegível], onde ficará sob inteira responsabilidade de Manuel Joaquim, de 26 anos de idade, furriel miliciano [ilegível], 1966, conforme termo de compromisso e responsabilidade assinado pelo mesmo e que fica arquivado nesta Administração (...)

O administrador Guerra Ribeiro, mais tarde superintendente no tempo de Spínola, era pai do nosso camarada Rui Guerra Ribeira (. Segundo ele me confidenciou,  há tempos, foi levado com escassos meses para Guiné onde o pai, transmontano,  fez a carreira de administrador; estudou na metrópole, da 4ª classe ao 5º ano do liceu, voltou à Guiné, voltou de novo  a Portugal para fazer a academia militar, foi capitão da 15.ª CCmds, em Angola, onde foi ferido num braço; regressou  à Guiné, para se recuperar; foi ajudante de campo do Governador e Comandante-Chefe Bettencourt Rodrigues, e assistiu à sua prisão, em 26 de abril de 1974,  quando o MFA de Bissau tomou de assalto a fortaleza de Amura e o destitui; o Rui foi, há muito convidado para integrar o nosso blogue; amigo do António Estácio tem participado nalguns dos nossos encontros anuais).




Guiné > Região de Cacheu > Mapa de Bigene (1953) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Cunté, entre Barro (a noroeste) e Bissorã (a sudoeste)... É a terra do Zé Manel, que tem o apelido "Sarrico" do 2º sargento Casimiro Sarrico, da CCAÇ 1419 (Bissau, Bissorã e Mansabá, 1965/67),  veterano da guerra de Angola, que o trouxe do mato, na sequência de um operação militar, em janeiro de 1966, e que cuidou dele até ao acidente grave com granada de fumos que o vitimaria um a mês depois; e ainda o apelido da terra onde supostamente nasceu (Cunté). (*)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2015)


1. Seleção de alguns comentários de ao poste P15493 (**)

(i) António Murta:

Querido amigo Manuel Joaquim:

A história da ligação da tua vida à daquele que viria ser o teu "mininu", é das páginas mais tocantes e bonitas de todas as que enriquecem o nosso blogue. Por isso nutro por ti a maior admiração e consideração. E pela grandeza que te conforma, tão bem disfarçada na tua simplicidade desarmante. Emociono-me sempre ao lembrar-me da tua corajosa atitude, sempre que te vejo numa foto ou numa referência. Tanto assim é que em março de 2014 criei uma “pasta” para onde descarreguei os postes completos da tua história com o José Manel, para ter à mão e reler quando quisesse. Mas nunca mais li a história completa devido à emoção. Chama-se a pasta "Adilan – Uma história emocionante". Não teço estes elogios de forma gratuita, mas pelas razões já apontadas e porque sei que poucos teriam a tua coragem e responsabilidade, mesmo atendendo às circunstâncias que descreves. Nessas circunstâncias, eu, que não me considero propriamente um bruto, passe a imodéstia, posto perante tal responsabilidade, (responsabilidade para comigo próprio, para com a criança, para com a minha mãe e para com a minha futura mulher), acho que se me evaporavam os álcoois num ápice e não assumia nada sem muita ponderação. Na verdade, acho que nunca seria capaz...Deixo-te um abraço fraterno e desejo-te as maiores felicidades, bem como às tuas meninas e ao “mano”, a quem também dou as boas vindas à Tabanca Grande, se me é permitido.A. Murta.


(ii) J. Gabriel Sacôto M. Fernandes:


Manuel Joaquim, sabes bem como admiro a história humana, magnífica que envolve a tua pessoa e família e o teu menino, o José Manuel Cunté. Claro, portanto, que pela minha parte, só é tardia a adesão dele à Tabanca Grande, pois que, para além do envolvimento directo e suas circunstâncias entre ti e o José Manuel, ele é na verdade um símbolo de muitas situações porque todos nós passamos na Guiné, num misto estranho de sacrifício e nostalgia, com más, mas também muito boas memórias de vária índole.

Um forte abraço aos dois, JS

PS - Quanto aos meios informáticos de que ele carece para se envolver no Blog, talvez possa resolver com um computador e respectivo monitor que não estou a utilizar.


(iii) Francisco Baptista:

Amigo Manuel Joaquim:

De ti espero sempre o melhor porque tu em generosidade e humanidade superas a maioria de todos nós. Eu, relativamente novo no blogue, desconhecia este teu gesto tão nobre e confesso que fiquei muito emocionado ao ter conhecimento dele. Uns apregoam o amor ao próximo, outros praticam esse amor. Bem-aventurado tu que o praticas,

Um grande abraço para ti e para o José Manuel Cunté. Francisco Baptista


(iv) Luís Graça:

Há histórias (humanas) que nos reconciliam com a humanidade... Esta é uma delas... Uma grande história de solidariedade e de amor, a de um grande "minino", o Zé Manel, e de um grande homem, o Manuel Joaquim, e de uma grande família, de 4 grandes mulheres... Merece ser aqui recordada neste Natal...

Sé bem vindo à Tabanca Grande, Zé Manel!... LG

Sê bem vindo, Zé Manel,
"Hha mininu" da Guiné,
Foste mascote de quartel,
Apanhado em Cunté.

Apanhado em Cunté,
Mas salvo por gente boa,
Tua tabanca agora é
A nossa querida Lisboa.

A nossa Lisboa querida,
Sede da Grande Tabanca,
Onde se brinda à vida
E a amizade é sempre franca. (***)



(v) Manuel Joaquim:
O Zé Manel mais as "manas", filhas do Manuel
Joaquim, a quem ele trata por "padrinho"


Ora cá temos o "nha mininu Adilan" como membro desta Tabanca!

Dei-lhe a notícia ao princípio desta noite, logo que cheguei a casa vindo do armazém da Ajuda Amiga~,  sito no quartel de Lanceiros 2, na Amadora (o antigo quartel dos Comandos), onde estamos a selecionar e a embalar bens para encher dois contentores com destino à Guiné e com embarque marcado para daqui a um mês.

Estou comovido com o teor dos comentários supra. Muito obrigado, meus caros camaradas.

O Zé Manel está bem. Poderia estar melhor se a grande empresa (que já foi) onde trabalha não andasse cheia de problemas económicos e financeiros. Mas ele ainda não foi despedido, resta-lhe de lá esta consolação.

João Sacôto, meu estimado amigo, muito obrigado pela tua intenção de ajuda. A resposta do Zé Manel à tua possível oferta foi de regozijo imediato. Temos de combinar o modo de processarmos a entrega, se for caso disso.

Luís Graça, irei exercer alguma pressão para o Zé colaborar diretamente neste blogue. Também eu gostava que o fizesse. Capacidades tem ele para o fazer, agora querer fazê-lo ... não sei. O "low profile" é marca sua quanto aos seus assuntos da Guiné-Bissau (refiro-me ao tempo que lá viveu e trabalhou, dos 17 aos 30 anos). Tenho esperança em que algo se há-de arranjar.

Um grande abraço global para os membros deste blogue, de que tanto gosto independentemente de concordar ou não com o que nele se publica.

Festas Felizes para todos!

Manuel Joaquim
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de  10 de novembro de  2010 > Guiné 63/74 - P7261: História de vida (32): Adilan, nha minino. Ou como se fica com um menino nos braços - 1ª Parte (Manuel Joaquim)

(...) Bissorã, 11/ 01/ 1966. Ordem operacional para a CCaç 1419: "limpeza” da tabanca de C[unté], trazendo a sua população para Bissorã. Ao meu grupo de combate cabe-lhe ficar em casa, aguardando o dia seguinte com a missão de organizar a recolha de toda a gente na ponte (destruída) sobre o rio Blassar, limite transitável da estrada Bissorã/Barro. (...)

(**) Vd. poste de 15 de dezembro de  2015 > Guiné 63/74 - P15493: Tabanca Grande (477): José Manuel Sarrico Cunté - "mininu" Zé Manel do nosso camarada Manuel Joaquim - 706.º Grã-