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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Guiné 61/74 - P17778: Notas de leitura (996): “a sorte de ter medo”, por Gustavo Pimenta, Palimage, 2017 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Setembro de 2017:

Queridos amigos,
Nestas coisas da escrita entre guerreiros, não vale a pena ter ilusões sobre a densidade autobiográfica. Gustavo Pimenta volta à Guiné e desvela o que foi a vida da sua companhia naquele período em que ali viveram entre 1968 e 1969.
Admito que haja outros relatos tão circunstanciados, só conheço este, e impressiona-me muito. Dirá talvez coisas que serão alvo de polémica, quanto às razões pelas quais aquela jangada tremeu, e quem deu ordens. Não quero estar na pele de quem perdeu 16 homens.
Recomendo sem qualquer hesitação a leitura urgente desta narrativa que ressuscita os fantasmas de Béli e Madina de Boé.

Um abraço do
Mário


Um impressionante relato sobre a retirada de Béli e Madina de Boé (3)

Beja Santos

Em “a sorte de ter medo”, uma poderosa narrativa que Gustavo Pimenta transmuta em romance, Palimage, 2017, temos uma descrição dos acontecimentos trágicos que ocorreram em 6 de Fevereiro, frente a Ché-Ché. Na véspera, o grosso das tropas, das viaturas, equipamentos e armamento, já atravessou o Corubal. São nove horas da manhã, entram na jangada de uma só vez as viaturas e os militares, quase todos de Madina de Boé e de uma das companhias que fazia segurança à alteração. Segue-se a descrição:

“O peso é enorme, há algumas horas que as barcaças não são esvaziadas, a jangada move-se lentamente.

O pessoal faz manguitos na direção da margem abandonada e grita impropérios dirigidos a inimigos imaginários.

Percorrido cerca do primeiro terço da travessia, o tenente-coronel comandante da operação ordena, sem qualquer prévio aviso ao pessoal, que os morteiros façam fogo para as imediações do local de embarque acabado de abandonar.

Na jangada é o sobressalto: nela vêm militares que, de há longos meses, estão habituados a correr para os abrigos ou fugir para a vala mais próxima quando se escuta o som de uma granada a sair à boca do morteiro.

A jangada oscila perigosamente, não se volta, mas fica meio submersa. Alguns militares atiram-se ao caudaloso rio, muitos outros caem à água.

O pessoal está subalimentado, sem dormir há longuíssimas horas, estafado, na água as armas e cartucheiras repletas de munições pesam insuportavelmente.

Largado tudo que os empece, a começar pela arma e as cartucheiras, uns poucos retrocedem a nado para a margem de origem, que está mais perto. Outros conseguem nadar para a margem do destino. A maioria, até porque há quem não saiba nadar ou nade mal, consegue equilibrar-se e manter-se na jangada com água pelo meio do peito.

Deita-se mão da jangada antiga para onde os militares sobem. A que fazia a travessia é puxada, a muito custo, para a margem. Imenso material cai ao rio, mas as viaturas, milagrosamente, não. Há a sensação de que nem todos os homens conseguiram salvar-se.

Todos já no quartel do Ché-Ché, mandam-se formar as forças envolvidas, confere-se o efetivo: 47 militares não respondem à chamada.

É o espanto, o desalento, o choro convulsivo, a raiva a custo controlado pelos comandantes: ninguém entende a razão de se ter feito o fogo de morteiro que precipitou o desastre”.

O narrador estava de férias quando se desenrola esta tragédia, quer prontamente regressar à Guiné, onde só chega a 15 de Fevereiro. 

“Na pista, o capitão espera-me. Abraça-me e chora. Convulsivamente, sem palavras, choramos”. 

O narrador perdera 16 homens do seu grupo de combate.

Duas semanas depois do desastre, um grupo de fuzileiros foi destacado para recuperar corpos. Dos 47 desaparecidos apenas foram detetados 7. “Em adiantado estado de decomposição, irreconhecíveis e sem quaisquer elementos que os possam identificar, são enterrados numa elevação da margem direita do rio”.

Vai começar a via-sacra dos últimos meses: Nova Lamego, Cabuca, S. Domingos, já levam 19 meses de comissão. Neste último quartel, compete a esta companhia o controlo das povoações ao longo da estrada num raio de 25 quilómetros para Oeste e outros tantos para Leste. Por ali andam a fazer inventário das armas, a ver minas e armadilhas. 

Em Maio, o inimigo tenta bombardear o quartel com fogo de morteiro, não passou de um susto, retalia-se como bombardeamento a povoação senegalesa de MPack, encostada à fronteira. É nessa operação que um furriel fica com o pé direito destroçado por ter pisado uma mina antipessoal, segue-se um confronto com um grupo inimigo.

A exaustão vai tomando conta daquele contingente tão afetado por Madina do Boé. Segue-se uma operação para verificar se a povoação de Barraca Batata, junto à fronteira, está habitada. Desta vez, numa linha de água, é o enfermeiro que pisou uma mina antipessoal, chegará ao hospital já cadáver. Para além do desgaste, chegou a maldita hora da debilidade psicológica. 

Um cabo que tinha no pénis protuberâncias esponjosas entra em depressão, escreve uma carta à mulher e suicida-se, deixara a mala aberta e sobre a roupa meticulosamente dobrada uma carta fechada endereçada à mulher. Tenta-se animar a tropa, desdobram-se as iniciativas para preencher os tempos de repouso dos soldados, há muitas cantorias. No fim de Julho, caía a noite quando meia dúzia de morteiradas desassossegaram o quartel. É nisto que irá processar-se a rendição da companhia, o regresso é no Uíge. E ouve-se, no final deste poderoso relato, a última confissão:

“Havia jurado a mim mesmo que só mataria para não morrer, não disparei um tiro contra qualquer adversário, mas não sei os efeitos das armadilhas que montei e das minas que implantei. Na hora do embarque em Lisboa, prometi à irmã de um dos meus putos que lho devolveria inteiro e a mexer: morreu-me nas águas do Corubal (…).

"Este território não acolhe uma nação, há tantas etnias e tão distintas entre si como entre cada uma delas e os portugueses aqui despejados para fazer a guerra. Com culturas tão diversas e sem, ao menos, uma língua comum, poderá algum dia construir-se aqui um país confortável? Levo comigo África, o que de África me foi dado conhecer e me dizem ser dos piores bocados. Mas não esquecerei a hospitalidade das suas gentes, o sabor das suas comidas, o fascínio das suas inclemências. E o seu cheiro, a sua cor. Que me de mim aqui terei deixado?”.

E curioso, o neto pergunta-lhe:  
“Avô, como sobreviveste à guerra?”.

Gustavo Pimenta fez bem em voltar, é um grande acontecimento nesta literatura de retornos, e cumpre agradecer-lhe o belo título escolhido para este labirinto de memórias a que ele chama romance: “a sorte de ter medo”.
____________

Nota do editor

Postes anteriores de:

11 de setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17756: Notas de leitura (994): “a sorte de ter medo”, por Gustavo Pimenta, Palimage, 2017 (1) (Mário Beja Santos)
e
15 de setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17768: Notas de leitura (995): “a sorte de ter medo”, por Gustavo Pimenta, Palimage, 2017 (2) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27777: Documento (61): A retirada de Madina do Boé (e de Béli), segundo Gustavo Pimenta, autor de "A Sorte de Ter Medo" (2017), e com recensão de Beja Santos


Gustavo Pimenta


Capa do livro "A sorte de Ter Medo", de Gustavo Pimenta (Coimbra, Palimage, 2017, 198 pp., SBN 978-989-703-170-0, preço de capa, 17,00 euros (Indisponível)


Um impressionante relato sobre a retirada de Béli e Madina de Boé: recensão do livro "A sorte de ter medo", de Gustavo Pimenta (2017)

por Beja Santos 

1. Preâmbulo

Há anos atrás, aqui se saudou "sairòmeM - Guerra Colonial", de Gustavo Pimenta (*). É deplorável a ausência do registo desta obra em quem estuda a literatura da guerra, deplorável e injusto. Adiante.

Foi publicado recentemente este livro que impressiona pela singeleza, o discurso próximo e distante, a impressionante capacidade retentiva daquele mais de um ano que ele viveu em Madina do Boé, não conheço outro romance em que se fale com tanto pormenor da retirada dos dois quartéis, Beli e Madina (**), e que foram determinantes para o evoluir da guerra, quando o Boé se transformou em abandono por falta de presença portuguesa, o que deu ocasião para as grandes mudanças que o PAIGC operou no Norte e no Leste. É indispensável ler Gustavo Pimenta

De facto, desconheço que exista descrição tão minuciosa como a que Gustavo Pimenta faz do período de 1968 até à retirada de Madina de Boé, no início de fevereiro do ano seguinte. Quando chegam, ao fim da primeira semana, até duvidavam do que lhes tinham dito sobre aquele tão temível local.

Iremos viver uma escalada de flagelações, haverá compassos de espera, até tudo deflagrar em fogo em qualquer hora, o comandante de companhia ainda irá tentar uma série de expedientes para fazer regressar à normalidade a existência daqueles homens permanentemente acossados. 

Spínola decide ainda em 1968 a retirada de Béli e em fevereiro retira-se de Madina de Boé.

Iremos seguidamente falar de uma tragédia que marcou indelevelmente quem a ela sobreviveu.

Nestas coisas da escrita entre guerreiros, não vale a pena ter ilusões sobre a densidade autobiográfica. Gustavo Pimenta volta à Guiné e desvela o que foi a vida da sua companhia naquele período em que ali viveram entre 1968 e 1969.

Admito que haja outros relatos tão circunstanciados, só conheço este, e impressiona-me muito. Dirá talvez coisas que serão alvo de polémica, quanto às razões pelas quais aquela jangada tremeu, e quem deu ordens. Não quero estar na pele de quem perdeu 16 homens.

Recomendo sem qualquer hesitação a leitura urgente desta narrativa que ressuscita os fantasmas de Béli e Madina de Boé.


2. Nota de leitura (**):

Em 1999 Gustavo Pimenta publicou na Palimage “sairòmeM – Guerra Colonial”, aqui foi saudado com entusiasmo a obra, injustamente pouco referenciada (*).

Gustavo Pimenta está de volta com “A sorte de ter medo”, romance, Palimage, 2017. A urdidura não anda muito longe da sua anterior incursão pelas terras guineenses. No caso presente, há um avô que é interpelado do seguinte modo: “Avô, como sobreviveste à guerra?” e começa uma longa viagem de um limiano magricela que recebeu guia de marcha para as Caldas da Rainha, completou a recruta com elevada média e aceitou ir para o curso de oficiais  [COM], como atirador.

 Ainda passou uns dias pela Escola Prática de Administração Militar [EPAM],  depois mandaram-no para Mafra, aplicou-se, já aspirante foi colocado em Penafiel, seguiu depois para Tancos, onde tirou o curso de minas e armadilhas, segue para Tomar, irá combater na Guiné. 

Em 3 de outubro de 1967 o navio Timor acostou em Bissau.

Uma pausa para refletir com o leitor sobre a diferença abissal entre o escrever fácil e o escrever simples. Gustavo Pimenta discorre, é como se aquelas memórias que lhe apetecessem romancear, fossem contadas para que houvesse um entendimento absoluto, nunca desce ao facilitismo, à fluência deixada à toa, é uma simplicidade com calibração, em dois tempos, o que se exprime na conversa e uma súmula que volteia em pensamento. 

É esta construção que torna a leitura credível, sincera, memória que fica para as próximas gerações. Sem fugir aos diálogos brutais, ao enfrentamento, como nos conta de uma ida aos correios, estavam em Fá, foi com o capitão  [inf José Aparício], a Bambadinca, e é interpelado pelo comandante do batalhão :

- Que merda é essa que tens na cara? 

Ele passou a mão pela cara, olhou-a, e disse: 

- Não vejo merda nenhuma. Onde a tenho? 

O capitão interveio de imediato: 

- Meu coronel, o nosso alferes está devidamente autorizado a usar barba. 

- Autorizado? Isso são manias dos marinheiros, que no Exército dispensamos bem. 

Antes que a coisa azedasse, o capitão mandou o alferes para junto do jipe em que tinham vindo e ficou a conversar com o  coronel. Quando se lhe juntou, disse: 

- Assunto resolvido, mas veja lá se responde noutros termos a um oficial superior.


Estão a adaptar-se ao terreno, colaboram em operações, vão ao Xitole, depois Sinchã Jobel, tudo sem contacto mas com muita canseira. Em novembro seguem para o Poindom, é o batismo de fogo, morre um cabo atingido no pescoço, no regresso ao Xime são várias vezes flagelados por disparos de inimigo, voltam à base, Fá Mandinga. 

Há, em toda esta singela narrativa, alguém que é permanentemente considerado e respeitado: o comandante de companhia, homem prudente, sempre empenhado em manter a tropa em atividade, ninguém estava autorizado a andar de chanatas, firme e dotado de autoridade natural. 

Nova operação, desta feita na região de Caresse, o objetivo era uma total ruína, não havia um menor sinal de por ali alguém ter estado nos tempos mais recentes. 

De Fajonquito regressaram a Fá. Ainda estão nos previstos três meses em regime de intervenção, são levados até Bolama e sem razões a operação é cancelada e mandados regressar. 

Em 8 de dezembro chega a notícia: a companhia irá entrar em quadrícula em Madina de Boé. Entrementes, saem de Bissau para uma nova investida ao refúgio na mata de Poindom, referência de má memória. Tudo volta a correr mal, são emboscados, as munições escasseiam, voltam ao Xime para se remuniciar, nem novas nem mandados, não se avistou nenhum inimigo. 

Na véspera de Natal, estão em Porto Gole, em plena confraternização, o PAIGC flagela com armas ligeiras. Saem nesse mesmo dia para uma operação cujo objetivo é Sarauol e Sara, não encontram resistência, regressam a Porto Gole e depois andam a fazer patrulhamentos no rio Mansoa.

 Até que em 8 de janeiro voltam a Bambadinca, seguem para Nova Lamego, aqui começam os preparativos para se deslocarem para Madina. 

Saem manhã cedo, até Canjadude as viaturas seguem a boa velocidade, a partir daí a viagem é a pé, tudo picado; pela mesma hora uma outra equipa de picadores sai do Ché-Ché em sentido contrário ao da coluna. O desconcerto da guerra vai mesmo agora começar:  

“Estabelece-se o contacto: quatro nativos, com Mauser a tiracolo e uma pica na mão, aguardam a coluna sentados na berma à sombra de uma árvore. Escassa e débil força para tão delicada missão. A tropa retoma o seu lugar nas viaturas, a coluna avança pela estrada esburacada de terra batida.

Escassos quilómetros percorridos a viatura que segue na frente – uma GMC, sem capota para evitar traumatismos ao condutor em caso de rebentar alguma mina e com os guarda-lamas cobertos de sacos de areia para amortecer o impacto – é violentamente sacudida pelo rebentamento de uma anticarro.

O major de engenharia, que exigira ir ao lado do condutor na viatura da frente para não apanhar a nuvem de pó que a coluna levanta, fica gravemente ferido.

Parada a coluna, procura-se socorrer o major. O furriel que, a dias do fim da comissão o quis acompanhar, ao precipitar-se para ele pisa uma antipessoal e morre minutos depois.

O enfermeiro fica ferido pelos dois rebentamentos.


Monta-se segurança em volta do local. Picam-se os arredores à procura de mais minas, rebentam duas, uma delas fere mortalmente um soldado do grupo de nativos”.

O contacto rádio falha, surgem dois helicópteros, consegue-se contacto com um deles e pede-se-lhe apoio para a evacuação. Responde que estão a evacuar feridos graves da tropa de Ché-Ché, o melhor é ir até lá.

Já com o Ché-Ché à vista, outra mina anticarro que os picadores não detectaram.  é ativada pela viatura que segue na frente, o condutor sai inexplicavelmente ileso. 

Atinge-se o aquartelamento ao fim do dia. Estão junto ao rio Corubal, avista-se a jangada que permite a travessia até Madina. Aqui vai começar a operação para chegar ao mais temido aquartelamento de toda a Guiné.


3. Em “A sorte de ter medo”, romance de Gustavo Pimenta, Palimage, 2017, temos a rara oportunidade de conhecer o sofrimento de quem combateu no Boé, o autor lá viveu no ano 1968, estará de férias em fevereiro de 1969, quando ocorrerá o desastre da jangada em direção a Ché-Ché, no rio Corubal, que vitimou 47 militares.

Acompanhámos os antecedentes de um percurso que começa no alto Minho até imprevistamente chegar ao mais temível dos locais, Madina do Boé.

Três grupos de combate vão para Madina, um outro seguirá para Béli. De Ché-Ché faz-se a cambança para a outra margem, sobrevoam os bombardeiros T6, a transferência de toda a coluna demora o dia inteiro, pica-se pormenorizadamente o terreno, a proteção aérea é constante, nas bermas há carcaças de viaturas destroçadas em operações anteriores, ao fim da tarde, sem incidentes, chega-se ao local, no dia seguinte a coluna volta para Nova Lamego, começa a adaptação de Gustavo Pimenta e seus camaradas. 

Apresenta-nos Madina:

  “Está num vale, entre pequenas elevações montanhosas, únicas na Guiné. A população é maioritariamente Fula, distribui-se por uma meia centena de habitações tradicionais. 

"No início da atividade de guerrilha fora para lá deslocada uma secção de tropa. Com o evoluir da guerra, passa a ser defendida por um grupo de combate e por um grupo de milícia local. 

"À medida que a situação piora, o efetivo passa para uma companhia, que vem a ficar instalada em abrigos semi-subterrâneos, construído ao redor de todo o perímetro da aldeia. No interior são construídos abrigos idênticos para refúgio da população durante os ataques, população que cultiva pequenas porções de terreno em volta das suas habitações. 

"Com o decorrer do tempo, acaba por se formar um aquartelamento fortificado no vale, em forma de tosco quadrado com cerca de 400 metros de largo, sem nenhuma defesa nas elevações em volta”.

É cuidadoso no detalhe, na apresentação do quartel. Nos primeiros dias, tudo decorre com serenidade, fazem patrulhamentos, não há a menor novidade nem sinais do inimigo. Passada uma semana, ao anoitecer há três disparos de armas pesadas, o PAIGC apresenta-se, mas tudo parece que irá decorrer normalmente, chega-se mesmo a pôr em dúvida a apregoada perigosidade do local. 

Os sonhos esmorecem rapidamente, começam os ataques a qualquer hora do dia, os guerrilheiros estão nos montes, gozam de muita impunidade. A tensão vai crescendo, durante 12 dias o inimigo não dá sinal de si, o pessoal já joga à malha e sai descontraído dos abrigos. Depois recomeçam os ataques.

Novo período de calma, durante mais de um mês e meio não há flagelações com armas pesadas, passam-se 15 dias sem se estabelecer com qualquer contacto. A 13 de março, recomeçam as flagelações com canhão sem recuo, não há baixas nem ferimentos. 

Béli parece viver em amena tranquilidade mas subitamente a situação muda, os ataques sucedem-se às horas mais desencontradas e inesperadas.

 O mês de abril de 1968 introduz uma novidade: um ataque a Béli ao nascer do dia e a Madina ao anoitecer, será um mês de enlouquecer, qualquer coluna de reabastecimento é uma terrível operação. 

A alimentação é diretamente proporcional ao isolamento: massa, arroz e conservas, quando chega Spínola à Guiné, Madina irá receber de vez em quando frutas e legumes. 

“Seguindo a determinação do capitão, quando acontece a vinda de frescos, é feito o rateio: primeiro para os soldados, depois para os sargentos e só no fim, se der, para os oficiais. Assim se come meia maçã ou um pouco de grelos cozidos”.

Deixou de haver equívocos: Madina, tal como Béli em menor escala, está transformada numa carreira de tiro, as flagelações com armas pesadas passam a ser diárias, menos quando se sai nas proximidades para recolher lenha, o inimigo não dá tréguas. 

Em junho, Spínola começa a tomar decisões para o abandono de Béli, que decorre sob a proteção de dois T6 que acompanham um longo comboio de viaturas, um dos aviões acidenta-se, estala o pandemónio, depois de uma áspera discussão a coluna retoma a sua missão e chega a Béli ao cair da noite, sendo recebida pelo fogo inimigo de armas ligeiras. 

O regresso faz-se sem novidades, com a chegada do grupo de combate e da milícia acantonados em Béli, reorganiza-se a distribuição do efetivo.

Não há descanso em Madina, o pessoal que circula pelo aquartelamento é alvo de tiros isolados e de roquetadas. 

Chega um grupo de paraquedistas sob o comando de um tenente e com a missão específica de tentar neutralizar os atiradores de armas ligeiras que tornam infernal o quotidiano no quartel. Os Páras travam combate, o tenente é ferido com uma rajada nas coxas. As flagelações com armas pesadas não abrandam, os Páras vão-se embora. 

Tudo vai perdendo normalidade, o comandante de companhia procura animar as suas tropas, fazem fotografias de todo o pessoal, executam postais de boas festas, a energia elétrica é levada a todos os cantos do quartel, o correio não falta, o aniversário de cada militar é sempre ensejo para festejo. 

O ano de 1969 anuncia-se com a retirada de Madina de Boé, a retirada acontecerá num só dia, até lá é necessário manter as condições de defesa e a operacionalidade da companhia, o narrador está de férias, tudo quanto irá descrever é contado por outros. 

Quem comanda a operação é o comandante de agrupamento de Bafatá [cor inf Hélio Felgas],   a 4 de fevereiro, uma enorme coluna sai de Nova Lamego enquadrada por duas companhias e assim se chega ao Ché-Ché, faz-se a travessia, há uma nova jangada sustentada em barcaças da engenharia militar.

Em 5 de fevereiro os militares abandonam Madina, a estrada é cuidadosamente picada, chega-se à margem do rio Corubal a meio da tarde. Em cada viagem é levada uma ou duas viaturas, começou-se pela população civil. 

Na margem do destino, em Ché-Ché, são montados os morteiros 81 retirados de Madina, ficam apontados para as imediações da concentração das tropas e viaturas na outra margem. 

Com morosidade, a travessia concretiza-se, de vez em quando é necessário despejar a água que com o peso do movimento da jangada se vai acumulando nas barcaças de suporte. Cai a noite, a operação continua. Ao amanhecer são poucas as viaturas e tropa que ainda falta transportar.


4. Em “a sorte de ter medo”, uma poderosa narrativa que Gustavo Pimenta transmuta em romance (Palimage, 2017), temos uma descrição dos acontecimentos trágicos que ocorreram em 6 de fevereiro, frente a Ché-Ché. 

Na véspera, o grosso das tropas, das viaturas, equipamentos e armamento, já atravessou o Corubal. São nove horas da manhã, entram na jangada de uma só vez as viaturas e os militares, quase todos de Madina de Boé  [CCAÇ 1790], e de uma das companhias que fazia segurança à alteração [CCAÇ 2405].

Segue-se a descrição:

“O peso é enorme, há algumas horas que as barcaças não são esvaziadas, a jangada move-se lentamente.

O pessoal faz manguitos na direção da margem abandonada e grita impropérios dirigidos a inimigos imaginários.

Percorrido cerca do primeiro terço da travessia, o tenente-coronel
 [?],   comandante da operação,  ordena, sem qualquer prévio aviso ao pessoal, que os morteiros façam fogo para as imediações do local de embarque acabado de abandonar.

Na jangada é o sobressalto: nela vêm militares que, de há longos meses, estão habituados a correr para os abrigos ou fugir para a vala mais próxima quando se escuta o som de uma granada a sair à boca do morteiro.

A jangada oscila perigosamente, não se volta, mas fica meio submersa. Alguns militares atiram-se ao caudaloso rio, muitos outros caem à água.

O pessoal está subalimentado, sem dormir há longuíssimas horas, estafado, na água as armas e cartucheiras repletas de munições pesam insuportavelmente.

Largado tudo que os empece, a começar pela arma e as cartucheiras, uns poucos retrocedem a nado para a margem de origem, que está mais perto. Outros conseguem nadar para a margem do destino. A maioria, até porque há quem não saiba nadar ou nade mal, consegue equilibrar-se e manter-se na jangada com água pelo meio do peito.

Deita-se mão da jangada antiga para onde os militares sobem. A que fazia a travessia é puxada, a muito custo, para a margem. Imenso material cai ao rio, mas as viaturas, milagrosamente, não. Há a sensação de que nem todos os homens conseguiram salvar-se.

Todos já no quartel do Ché-Ché, mandam-se formar as forças envolvidas, confere-se o efetivo: 47 militares não respondem à chamada.

É o espanto, o desalento, o choro convulsivo, a raiva a custo controlado pelos comandantes: ninguém entende a razão de se ter feito o fogo de morteiro que precipitou o desastre”.

O narrador estava de férias quando se desenrola esta tragédia, quer prontamente regressar à Guiné, onde só chega a 15 de fevereiro. 

“Na pista, o capitão espera-me. Abraça-me e chora. Convulsivamente, sem palavras, choramos”. 

O narrador perdera 16 homens do seu grupo de combate.

Duas semanas depois do desastre, um grupo de fuzileiros foi destacado para recuperar corpos. Dos 47 desaparecidos apenas foram detetados 7. 

“Em adiantado estado de decomposição, irreconhecíveis e sem quaisquer elementos que os possam identificar, são enterrados numa elevação da margem direita do rio”.

Vai começar a via-sacra dos últimos meses: Nova Lamego, Cabuca, S. Domingos, já levam 19 meses de comissão. Neste último quartel, compete a esta companhia o controlo das povoações ao longo da estrada num raio de 25 quilómetros para Oeste e outros tantos para Leste. Por ali andam a fazer inventário das armas, a ver minas e armadilhas. 

Em maio [de 1969], o inimigo tenta bombardear o quartel com fogo de morteiro, não passou de um susto, retalia-se como bombardeamento a povoação senegalesa de MPack, encostada à fronteira. 

É nessa operação que um furriel fica com o pé direito destroçado por ter pisado uma mina antipessoal, segue-se um confronto com um grupo inimigo.

A exaustão vai tomando conta daquele contingente tão afetado por Madina do Boé. Segue-se uma operação para verificar se a povoação de Barraca Batata, junto à fronteira, está habitada. Desta vez, numa linha de água, é o enfermeiro que pisou uma mina antipessoal, chegará ao hospital já cadáver. Para além do desgaste, chegou a maldita hora da debilidade psicológica. 

Um cabo que tinha no pénis protuberâncias esponjosas entra em depressão, escreve uma carta à mulher e suicida-se, deixara a mala aberta e sobre a roupa meticulosamente dobrada uma carta fechada endereçada à mulher. 

Tenta-se animar a tropa, desdobram-se as iniciativas para preencher os tempos de repouso dos soldados, há muitas cantorias. No fim de Julho, caía a noite quando meia dúzia de morteiros desassossegaram o quartel.

 É nisto que irá processar-se a rendição da companhia, o regresso é no Uíge. E ouve-se, no final deste poderoso relato, a última confissão:

“Havia jurado a mim mesmo que só mataria para não morrer, não disparei um tiro contra qualquer adversário, mas não sei os efeitos das armadilhas que montei e das minas que implantei. 

"Na hora do embarque em Lisboa, prometi à irmã de um dos meus putos que lho devolveria inteiro e a mexer: morreu-me nas águas do Corubal (…).

"Este território não acolhe uma nação, há tantas etnias e tão distintas entre si como entre cada uma delas e os portugueses aqui despejados para fazer a guerra. Com culturas tão diversas e sem, ao menos, uma língua comum, poderá algum dia construir-se aqui um país confortável? 

"Levo comigo África, o que de África me foi dado conhecer e me dizem ser dos piores bocados. Mas não esquecerei a hospitalidade das suas gentes, o sabor das suas comidas, o fascínio das suas inclemências. E o seu cheiro, a sua cor. Que me de mim aqui terei deixado?”.

E, curioso, o neto pergunta-lhe:  

“Avô, como sobreviveste à guerra?”
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Gustavo Pimenta fez bem em voltar, é um grande acontecimento nesta literatura de retornos, e cumpre agradecer-lhe o belo título escolhido para este labirinto de memórias a que ele chama romance: “a sorte de ter medo”.
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(Conjunto de três notas de leitura, do Mário Beja Santos, publicadas separadamente no nosso blogue em 11, 15 e 18 de setembro de 2017. Na altura comentámos: 

"Obrigado, Mário, pela tua extensa nota de leitura... O Gustavo Pimenta tem de ser conhecido e lido por nós!... Madina do Boé é um dossiê que nunca estará 'encerrado'... Como as nossas memórias doridas"...

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Notas do editor LG:

(*) Vd poste de 17 de março de 2010 > Guiné 63/74 - P6009: Notas de leitura (79): sairòmeM Guerra Colonial, de Gustavo Pimenta (Beja Santos)

(**) Último poste da série > 26 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27772: Documentos (60): A retirada de Madina do Boé (Gustavo Pimenta, ex-alf mil, CCAÇ 1790, 1967/69), autor do livro saieòmeM (Palimage, Coimbra, 1999, 120 pp.), apresentação do jornalista e escritor José Manuel Saraiva (Porto, 1999)

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Guiné 61/74 - P17768: Notas de leitura (995): “a sorte de ter medo”, por Gustavo Pimenta, Palimage, 2017 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Setembro de 2017:

Queridos amigos,
Desconheço que exista descrição tão minuciosa como a que Gustavo Pimenta faz do período de 1968 até à retirada de Madina de Boé, no início de Fevereiro do ano seguinte. Quando chegam, ao fim da primeira semana, até duvidavam do que lhes tinham dito sobre aquele tão temível local.

Iremos viver uma escalada de flagelações, haverá compassos de espera, até tudo deflagrar em fogo em qualquer hora, o comandante de companhia ainda irá tentar uma série de expedientes para fazer regressar à normalidade a existência daqueles homens permanentemente acossados. Spínola decide ainda em 1968 a retirada de Béli e em Fevereiro retira-se de Madina de Boé.

Iremos seguidamente falar de uma tragédia que marcou indelevelmente quem a ela sobreviveu.

Um abraço do
Mário


Um impressionante relato sobre a retirada de Béli e Madina de Boé (2)

Beja Santos

Em “a sorte de ter medo”, romance de Gustavo Pimenta, Palimage, 2017, temos a rara oportunidade de conhecer o sofrimento de quem combateu no Boé, o autor lá viveu no ano 1968, estará de férias em Fevereiro de 1969, quando ocorrerá o desastre da jangada em direção a Ché-Ché, no rio Corubal, que vitimou 47 militares.

Acompanhámos os antecedentes de um percurso que começa no alto Minho até imprevistamente chegar ao mais temível dos locais, Madina do Boé.

Três grupos de combate vão para Madina, um outro seguirá para Béli. De Ché-Ché faz-se a cambança para a outra margem, sobrevoam os bombardeiros T6, a transferência de toda a coluna demora o dia inteiro, pica-se pormenorizadamente o terreno, a proteção aérea é constante, nas bermas há carcaças de viaturas destroçadas em operações anteriores, ao fim da tarde, sem incidentes, chega-se ao local, no dia seguinte a coluna volta para Nova Lamego, começa a adaptação de Gustavo Pimenta e seus camaradas. Apresenta-nos Madina:

  “Está num vale, entre pequenas elevações montanhosas, únicas na Guiné. A população é maioritariamente Fula, distribui-se por uma meia centena de habitações tradicionais. No início da atividade de guerrilha fora para lá deslocada uma secção de tropa. Com o evoluir da guerra, passa a ser defendida por um grupo de combate e por um grupo de milícia local. À medida que a situação piora, o efetivo passa para uma companhia, que vem a ficar instalada em abrigos semi-subterrâneos, construído ao redor de todo o perímetro da aldeia. No interior são construídos abrigos idênticos para refúgio da população durante os ataques, população que cultiva pequenas porções de terreno em volta das suas habitações. Com o decorrer do tempo, acaba por se formar um aquartelamento fortificado no vale, em forma de tosco quadrado com cerca de 400 metros de largo, sem nenhuma defensa nas elevações em volta”.

É cuidadoso no detalhe, na apresentação do quartel. Nos primeiros dias, tudo decorre com serenidade, fazem patrulhamentos, não há a menor novidade nem sinais do inimigo. Passada uma semana, ao anoitecer há três disparos de armas pesadas, o PAIGC apresenta-se, mas tudo parece que irá decorrer normalmente, chega-se mesmo a pôr em dúvida a apregoada perigosidade do local. 

Os sonhos esmorecem rapidamente, começam os ataques a qualquer hora do dia, os guerrilheiros estão nos montes, gozam de muita impunidade. A tensão vai crescendo, durante 12 dias o inimigo não dá sinal de si, o pessoal já joga à malha e sai descontraído dos abrigos. Depois recomeçam os ataques. Novo período de calma, durante mais de um mês e meio não há flagelações com armas pesadas, passam-se 15 dias sem se estabelecer com qualquer contacto. A 13 de Março, recomeçam as flagelações com canhão sem recuo, não há baixas nem ferimentos. 

Béli parece viver em amena tranquilidade mas subitamente a situação muda, os ataques sucedem-se às horas mais desencontradas e inesperadas. O mês de Abril de 1968 introduz uma novidade: um ataque a Béli ao nascer do dia e a Madina ao anoitecer, será um mês de enlouquecer, qualquer coluna de reabastecimento é uma terrível operação. A alimentação é diretamente proporcional ao isolamento: massa, arroz e conservas, quando chega Spínola à Guiné, Madina irá receber de vez em quando frutas e legumes. 

“Seguindo a determinação do capitão, quando acontece a vinda de frescos, é feito o rateio: primeiro para os soldados, depois para os sargentos e só no fim, se der, para os oficiais. Assim se come meia maçã ou um pouco de grelos cozidos”.

Deixou de haver equívocos: Madina, tal como Béli em menor escala, está transformada numa carreia de tiro, as flagelações com armas pesadas passam a ser diárias, menos quando se sai nas proximidades para recolher lenha, o inimigo não dá tréguas. 

Em Junho, Spínola começa a tomar decisões para o abandono de Béli, que decorre sob a proteção de dois T6 que acompanham um longo comboio de viaturas, um dos aviões acidenta-se, estala o pandemónio, depois de uma áspera discussão a coluna retoma a sua missão e chega a Béli ao cair da noite, sendo recebida pelo fogo inimigo de armas ligeiras. O regresso faz-se sem novidades, com a chegada do grupo de combate e da milícia acantonados em Béli, reorganiza-se a distribuição do efetivo.

Não há descanso em Madina, o pessoal que circula pelo aquartelamento é alvo de tiros isolados e de roquetadas. Chega um grupo de paraquedistas sob o comando de um tenente e com a missão específica de tentar neutralizar os atiradores de armas ligeiras que tornam infernal o quotidiano no quartel. Os Páras travam combate, o tenente é ferido com uma rajada nas coxas. As flagelações com armas pesadas não abrandam, os Páras vão-se embora. 

Tudo vai perdendo normalidade, o comandante de companhia procura animar as suas tropas, fazem fotografias de todo o pessoal, executam postais de boas festas, a energia elétrica é levada a todos os cantos do quartel, o correio não falta, o aniversário de cada militar é sempre ensejo para festejo. 

O ano de 1969 anuncia-se com a retirada de Madina de Boé, a retirada acontecerá num só dia, até lá é necessário manter as condições de defesa e a operacionalidade da companhia, o narrador está de férias, tudo quanto irá descrever é contado por outros. 

Quem comanda a operação é o comandante de agrupamento de Bafatá, a 4 de Fevereiro, uma enorme coluna sai de Nova Lamego enquadrada por duas companhias e assim se chega ao Ché-Ché, faz-se a travessia, há uma nova jangada sustentada em barcaças de engenharia militar.

 Em 5 de Fevereiro os militares abandonam Madina, a estrada é cuidadosamente picada, chega-se à margem do rio Corubal a meio da tarde. Em cada viagem é levada uma ou duas viaturas, começou-se pela população civil. Na margem do destino, em Ché-Ché, são montados os morteiros 81 retirados de Madina, ficam apontados para as imediações da concentração das tropas e viaturas na outra margem. 

Com morosidade, a travessia concretiza-se, de vez em quando é necessário despejar a água que com o peso do movimento da jangada se vai acumulando nas barcaças de suporte. Cai a noite, a operação continua. Ao amanhecer são poucas as viaturas e tropa que ainda falta transportar.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 11 de setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17756: Notas de leitura (994): “a sorte de ter medo”, por Gustavo Pimenta, Palimage, 2017 (1) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Guiné 63/74 - P10105: Memórias de Manuel Joaquim (7): Miserere

1. Mensagem de Manuel Joaquim (ex-Fur Mil de Armas Pesadas da CCAÇ 1419, Bissau, Bissorã e Mansabá, 1965/67), com data de 28 de Junho de 2012:

Meus queridos editores:
Aqui vai mais um trecho das minhas memórias, "Miserere", sobre um momento operacional da CCaç 1419.

É a minha maneira de homenagear e recordar as vítimas da guerra. É, talvez, de cariz muito pessoal mas não poderia ser de outra maneira já que é a "minha" maneira, com toda a subjetividade que possa comportar pois cada um de nós terá o seu olhar (único) sobre a guerra e o modo como nela participámos.
Um grande abraço.
Manuel Joaquim


MISERERE

Do capim saem aromas a fazer recordar noites de verão nos campos da minha aldeia natal. Estamos deitados há largo tempo, até já sinto frio e viro de vez em quando o corpo de modo a procurar o calor que ainda brota do solo. Aguardamos o momento de voltar ao caminho a tempo de se poder atacar, ao alvorecer, uma “casa de mato” do IN na zona de Matar (“rico” nome para um combatente supersticioso).

Chegado esse momento, a coluna retoma a marcha e avança iluminada por um ténue luar de minguante, saído de uma lua em forma de C que nos permite “ver” algumas árvores dispersas. Parecem vigiar-nos, quais entes misteriosos, imóveis e ameaçadores. Sente-se o silêncio, só quebrado pelo ruído suave e descompassado dos passos a caminho da mata, uma massa negra de recorte pouco definido e que domina todo o curto horizonte. 

Ao entrarmos na mata desaparece a luz fraca da lua. Vamos agora em marcha muito lenta numa escuridão total. Apoio-me no ombro do camarada da frente, outro atrás de mim faz o mesmo comigo, olhos abertos não servem para nada, ali vamos numa marcha de cegos encostados uns aos outros, imersos na tal massa negra, como que viajando no ventre de um monstro que nos tivesse engolido.

Inesperadamente, três tiros e “Boum!” … um clarão / explosão fere violentamente a noite e o seu silêncio! Já quase deitado em reação imediata aos tiros, sou atingido por uma saraivada de pequenos projéteis, seguida de pequenas coisas que começam a cair-me em cima como se fosse uma chuva sólida! A um silêncio aterrador de alguns segundos sucedem-se alguns ais abafados e vozes ciciadas, sinais de vida na escuridão, sons que se misturam ao forte zunir dos meus ouvidos.

Levanto-me às apalpadelas, o solo que piso já não é o mesmo de antes, está irregular. Dou um ou dois passos e resvalo para um buraco, caindo em cima de alguém que solta pequenos ais. Diz-me que pensa estar bem, só se queixa de dores numa perna mas que a está a mexer sem dificuldade. Procuro-lhe a perna e ao apalpar noto que há um rasgão nas calças e uma humidade que deve ser sangue mas a ferida parece superficial.

Tateando no escuro, ajudamo-nos mutuamente a sair daquela cova. Percebo que há feridos e reconheço a voz do capitão:
- Acho que só temos um morto, o Tu” - referia-se ao guia auxiliar Tu Pongue que, naquele dia, carregava granadas de morteiro 60.

Sinto a respiração difícil, talvez devido ao pó levantado do chão, tento limpar o rosto e como que sinto um afago da Sorte na minha nuca! “Escapaste, Manel!”

Começam a ouvir-se ais de dor, contidos mas indiciadores de virem de alguém aflito, talvez com ferimentos graves. Dizem-me que são do Zé Maria…

Continuamos a funcionar às apalpadelas, tentando situar-nos naquela confusão. Entretanto surge ordem de retirada. Predomina o silêncio, poucas vozes se ouvem para além das necessárias para o “passa palavra” do Comando. Sabe-se já que, para além do Zé Maria, há mais dois feridos com gravidade, cada um deles alvejado no tronco com um tiro. Ainda na escuridão carrega-se o corpo do Tu e apoiam-se os três feridos graves; dois deslocam-se pelo próprio pé mas o Zé Maria é transportado pelos camaradas. A explosão abriu-lhe um buraco no baixo-ventre. É ele que o diz, angustiado e consciente da gravidade dos seus ferimentos.

A saída da mata coincide com o início da luz do dia. De olhos tristes e encovados olhamo-nos em silêncio, camaradas e solidários, alguns com rasgões na roupa e salpicos de sangue na face suja de pó. A visibilidade aumenta rapidamente. O Zé Maria recebe cuidados de enfermagem, tenta-se a sua estabilização e é carregado às costas de alguém mais possante. O dólman do camarada que o transporta está totalmente empapado de sangue nas costas, o seu tecido brilha com a luz matinal a incidir no sangue coalhado. Seguimos um trilho numa clareira com alguma extensão, talvez a mesma onde estivemos antes “acampados”. Afastamo-nos da orla da mata até uma distância que oferece alguma segurança. Aparece o DO-27, já temos comunicações.

Pede-se a evacuação das vítimas.

Organizada a segurança, aguarda-se a chegada do helicóptero. Procura-se acarinhar e confortar os feridos, principalmente sustentar a vida do Zé Maria já que os feridos a tiro parecem estar a aguentar bem. É assim esta guerra: três tiros na escuridão fazem três vítimas, um morto (o Tu) e dois feridos!

Entretanto, ouve-se perguntar pelo “Chaves” do 1.º Grupo de Combate. Ninguém sabe dele mas surge uma pista: o “Chaves”, só pode ter ficado no local da explosão! Era ele que levava o morteiro 60. E o morto que temos é precisamente o carregador das granadas do morteiro que, logicamente, estaria perto dele no momento da explosão. Aumenta a nossa consternação perante a verosímil suposição do que pode ter acontecido.

Perante isto, há necessidade de o procurar de imediato! Esta missão calha ao 2.º pelotão, o meu. Vinte e tal homens, agora à luz franca do dia e facilmente localizáveis pelo inimigo, voltam à mata à procura do desaparecido! Em linha, a uma distância de uns dois metros entre si, avançam pelo único caminho possível, o mesmo trilho que tinha sido usado há pouco, na retirada. Pensa-se no pior: o IN, que estranhamente não tinha dado ainda sinal de si, estaria à espera que fôssemos recuperar o nosso camarada! Seria o mais provável!

Tenho medo, estou cheio dele. Sigo com um aperto na garganta e uma pressão no peito que me provocam uma espécie de agonia prenunciando vómitos. Sinto-me prisioneiro em marcha para o suplício, a caminho da “boca do lobo”, a caminho do sacrifício. Ninguém fala. O silêncio, abafante e ameaçador, aumenta a sensação de sufoco num abraço de chumbo. Mas não há alternativa, temos de seguir até ao fim.

- Meu furriel olhe ali uma cabeça! É a cabeça do Chaves! É mesmo!

À beira do caminho, aí a um metro, percebe-se uma cabeça meio encoberta pela vegetação rasteira.

- Pois é! Tem calma, vai lá ver!

Chamo o alferes que está perto. Uns momentos depois fixamos o olhar numa cabeça inteira dependurada pelos cabelos nas mãos daquele soldado, enxuta de sangue, face lívida, olhos baços e muito abertos, só com um golpe nos lábios. O choque desta visão deixa-me abstraído de tudo por que estava a passar. Aquela cabeça ocupa-me violentamente os sentidos, ali está ela, a Morte, no seu gelado e terrível esplendor! Sou assaltado pela imagem bíblica de Salomé com a cabeça de S. João Batista e vejo momentaneamente em mim o rapazito assustado com tão atemorizante imagem dos seus tempos de catequese.

Caravaggio (1573–1610): “Salomé recebendo a cabeça de S. João Batista”

Mas a situação não dá para devaneios. Volto rapidamente à realidade bruta e crua. Reunimo-nos, o alferes e furriéis, para uma análise rápida da missão, afinal já tínhamos a certeza da morte do “Chaves” e a prova dessa certeza! Interrogamo-nos sobre o que fazer:

- E o resto do corpo? Estará por aqui aos pedaços? Não se vê qualquer indício! Que fazer, sair do trilho e procurar? Mas somos tão poucos! Valerá a pena corrermos mais riscos só por tal motivo? O mais certo é o resto do seu corpo ter sido pulverizado, não seria melhor regressarmos o mais depressa possível?

Saiu rápida a decisão de seguir até ao “olho do furacão” que forçosamente estaria próximo e de enfrentar o perigo de termos o IN à nossa espera. Temos de ir, temos de voltar ao local onde tudo aconteceu, temos de tentar encontrar mais partes do corpo do “Chaves”

Medo. Medo não, terror! Cérebro fechado para os ruídos ambientais que me parecem chegar compactados num zunido persistente, os sentidos apuram-se dirigidos para qualquer ruído estranho, um ramo a partir-se, um clique metálico…

Lentamente atingimos o objectivo que não estava longe do local onde se recolheu a cabeça. Após uma curva do caminho, a uns 10 a 15 metros, notamos um monte de terra fresca e uma árvore quase sem folhas. A explosão, ao desfolhar a árvore, abriu uma estreita clareira na vertical que deixa agora entrar a luz do dia, luz que parece afagar aquele pequeno monte de terra mexida, debaixo daquela árvore desfolhada.

Um pequeno grupo avança agachado para o monte de terra e percebe que a árvore está cheia de penduricalhos nos seus ramos. Horror, só podem ser pedaços de roupa e de tecido humano, despojos do nosso “Chaves”! Há um silêncio estranho, algo sagrado, tudo parece ter adormecido à volta do local. E o IN não dá sinal! Aproximamo-nos. - Eh!... Está aqui mais alguém! - Parece o Abel do 1.º pelotão! - É ele mesmo, o Abel! – sussurra, espantada, uma outra voz.

Por esta é que ninguém esperava! Surpresa total, era mesmo o corpo do Soldado Abel! Quase todo coberto por terra, o corpo parece intacto mas não está, falta-lhe um pedaço no lado direito do peito. Junto dele está a sua G3 semienterrada e veem-se diversas granadas de morteiro 60 a alguma distância do buraco provocado pela explosão do fornilho. Percebemos agora que o Tu deve ter caído para fora da fila, fulminado (e “empurrado”) com o tiro na cabeça, tendo as granadas de morteiro que levava ficado a uns dois metros do centro da explosão, o que impediu que pudessem rebentar por “simpatia”. Todos sentimos, naquele momento, quanto mais grave poderia ter sido o resultado daquela explosão!

Recupera-se o corpo do Abel e procuram-se no local mais restos mortais do “Chaves” mas não se encontra nada que se possa recolher. Levanta-se todo o material encontrado (não me lembro de termos recuperado o tubo do morteiro, talvez tenha acontecido mas admito que a força da explosão o tenha atirado para longe dali e ter-se decidido, naquelas circunstâncias, não corrermos riscos com a sua busca). E o IN continua sem dar sinal! Vemos agora que nem sequer veio ao local da explosão! Não deve ter gente disponível, a que tem deve estar em posição de defesa da sua “casa de mato”. Ainda deve estar com mais medo que nós e o mais provável é não sermos atacados.

Sinto que o clímax da acção já foi atingido. Talvez por isso estou inesperadamente sereno, quase funciono como um autómato no olho do furacão. Tudo pode estar a rodar à volta mas ali, naquele momento, não dou por isso. Estou, sim, é aliviado por a nossa pequena força ter cumprido a missão e ter tido a sorte de não ter sido atacada.

Regressamos ao sítio onde nos espera o grosso da Companhia, carregando os restos mortais do Abel e do “Chaves”. A marcha agora é mais acelerada. À medida que nos vamos aproximando fixo-me no carreiro à minha frente, alheio à paisagem envolvente como que dissolvida num grande borrão cinzento. Somos aguardados com dolorosa espectativa. Também já tinham dado pela falta do Abel. Sou envolvido por um misto de emoções: satisfação pelos resultados obtidos, alívio do medo e da angústia anteriormente sentidos, dor pela morte dos camaradas e uma grande, grande tristeza.

Chove-me na alma!

Os meios aéreos para as necessárias evacuações estão prestes a chegar, ouço dizer. Entretanto, o IN “acordou”! Já não era sem tempo! Da mata, do lado contrário ao local de onde há pouco tínhamos regressado, vem fogo disperso de RPG (?). Má pontaria. Tem a devida resposta da nossa parte mas tudo dura pouco e nenhuma granada do IN atinge a nossa área de estacionamento.

Chegam os helicópteros. Os feridos têm “aguentado”, menos o Zé Maria que tememos não chegar vivo a Bissau. Feitas as evacuações, regressamos a Bissorã. São uns “bons” quilómetros de caminho que nos esperam.

O calor abrasa mas a alma vai gelada! Olho para os camaradas e vejo, para lá de sofrimento, muito desalento nas suas almas que agora carregam o “peso” dos nossos primeiros mortos e feridos, cinco meses depois da nossa chegada a este “campo de jogos de morte”. Não há deuses que nos valham, ao contrário do que alguns já diziam. Quebrou-se hoje o “bom feitiço” e com resultados cruéis. Penso nos mortos e na dor que irá atingir os seus entes queridos. Penso nos riscos de morte e no sofrimento a que estamos sujeitos. Tantos sacrifícios, tantas ilusões! Que triste e inglório é ficar por aqui e por esta causa!

Como de costume, em momentos como este, “aparece-me” Beethoven com os acordes da sua 5.ª Sinfonia, a chamada “Sinfonia do Destino”: tantantantan!… tantantantan!... Sei a sinfonia de cor, de tantas vezes a ter ouvido antes de adormecer. Já sei que me vem ajudar a caminhar, a esquecer a sede e a relativizar esta merda toda. Já sei que me vem preencher os vazios do cérebro de modo a poder voltar a mim e à lembrança dos meus amigos e entes queridos. A minha mãe, tão frágil, acreditará nas “balelas” que lhe conto quanto ao que se passa aqui? O meu pai acreditará quando lhe digo que o perigo é diminuto, que tudo isto é muito lindo e ainda por cima me pagam um bocado mais do que o meu ordenado de professor primário?

- Pois é, paizinhos, o que eu quero dizer-vos mas não posso é que isto aqui é difícil e perigoso, que quero voltar hoje mesmo mas não me deixam, que não sei o que ando aqui a fazer, que odeio esta guerra. 
Eu sei, eu sei que me não entenderiam, pois o que me apetecia dizer-vos seria incompreensível para vós perante o que ouvem aos nossos governantes.
Sei que não entendem como pode este vosso filho discordar do Salazar, “um senhor ungido por Deus para salvar Portugal “, assim o ouvem dizer aos importantes da nossa terra, não é? E eu sei que é-vos mais fácil acreditar neles do que em mim, eu sei.
Eu sei que vocês sofrem, que se têm sacrificado muito pelos vossos três rapazes, o mano Hilário também “anda a batê-las” em Moçambique, ele está no pior sítio, em Mueda, mas vocês não sabem, ainda bem, pensam que ainda está em Boane, um sítio que o pai conhece bem, o que vos vale é que conseguiram pôr o mano Arnaldo em França! Oh pai, desculpa, então a Pátria? Pois, eu percebo, já era demais tanta carne para canhão, ao menos que se safe o mais novo! Mas por que raio continuam vocês a acreditar no “Botas”?

Empurraram-me para dentro do campo, tenho de jogar neste campo, nem há perguntas a fazer pois já sei as respostas. Estou num jogo, há sorte e azar, mas tenho de tentar a sorte, a sobrevivência, mesmo tendo a certeza que a minha equipa sairá derrotada no fim. Como vencer o adversário se ele tem os ventos da história a seu favor, se pode usar tantas artimanhas para compensar a sua eventual fraqueza, se pode estar em qualquer lado desta terra sem se dar por isso, se pode ser até alguém que nos aperta a mão, nos dá de comer e nos mata a sede?!

- Pois é, Manel, os teus lamentos não valem nem te valem de nada! Aqui não há caridade nem compaixão, estás preso, não te deixam sair. Só o tempo, meu menino, só o tempo e a sorte te soltarão. A sorte! Está tanto calor e arrepias-te com frio?! Estás no limite quanto a sonhos de futuro, todo o futuro perde significado nesta situação, aqui nada mais interessa do que chegar ao fim. Tens os sonhos adiados para quando daqui saíres, se saíres!

Já “cheira” a Bissorã. Coisa estranha, ao atingir zonas mais seguras, o corpo parece querer desistir de andar! Como está difícil este último lanço do percurso! É Janeiro, para lá do meio-dia, um calor abrasador, dei o resto da minha água a dois “desgraçados” exauridos, deixei umas gotas no cantil para molhar os lábios e assim enganar a sede.

Chego ao aquartelamento com as ideias em farrapos, náufrago daquela “tempestade”, já não sou o mesmo de ontem, já não somos os mesmos de ontem e já somos menos que antes, faltam-nos cinco camaradas. Saio, moro fora do quartel. As pernas arrastam-se a caminho de casa. Nem entro, estiro-me ao comprido no quintal, à sombra duma laranjeira … …

Já toda a gente sabia dos mortos e feridos. É dada a notícia de que o nosso “enfermeiro” Zé Maria chegou morto ao hospital. Há lamentos, lágrimas, imprecações, conversas cruzadas a contar o sucedido a quem tinha ficado no quartel. O 1.º Sargento da Companhia chora ao contar como se tinha revoltado com a atitude de “Bissau” que o tinha admoestado pelo facto de terem recebido um morto não identificado e pedindo-lhe que enviasse a respetivos elementos identificadores, ameaçando-o se o não fizesse de imediato. (Referia-se ao caso do “Chaves”. É óbvio que a sua placa identificadora não foi enviada porque tinha desaparecido. Mas que dizer de quem “exigia!” o que alguém traria ao pescoço quando o corpo foi “pulverizado”, só se encontrando a cabeça?!)

Procuro desanuviar, deitado debaixo da laranjeira. Tento encontrar, entre as folhas duma goiabeira próxima, um camaleão que por ali costuma andar à caça. É um jogo que costumo fazer, conseguir descobri-lo “desmascarando” a sua camuflagem. Mas desta vez desisto porque, inesperadamente, me dissolvo no Agnus Dei (o do “Requiem” de Verdi) que me atinge o cérebro num espasmo de angústia e de desamparo resultante do ambiente de pesar que invadiu aquela casa. Momento tão violento que nunca mais foi esquecido, até hoje. Sempre que oiço este trecho musical me lembro da madrugada e da manhã daquele dia cinco de janeiro de 1966. E é em memória desses meus camaradas e em memória de todos os outros mártires daquela guerra que, mesmo sendo agnóstico, aqui recordo o “Agnus Dei”:

- Agnus Dei qui tollis peccata mundi, miserere nobis!
 -Agnus Dei qui tollis peccata mundi, dona nobis pacem!
(Cordeiro de Deus que tiras os pecados do mundo, tem piedade de nós!
Cordeiro de Deus que tiras os pecados do mundo, dá-nos a paz!).

E nós, os sobreviventes, por aqui andaremos durante mais algum tempo. Com sorte algumas das nossas memórias sobreviverão por tempos mais ou menos longos. Seremos “eternos” enquanto alguém se lembrar de nós.

A vida continuará, os meninos continuarão a rir, a cantar e a chorar, continuará a haver amor e morte, lágrimas e sorrisos, outros “soldadinhos” continuarão a ser joguetes de forças que não entendem, a natureza continuará a renovar-se ao sabor dos tempos, os nossos rostos continuarão a ser esculpidos pelo tempo até se dissolverem, com as suas memórias, no Tempo eterno e no Espaço infinito.

Para os não crentes na Divindade, a sua “imortalidade” está nos seus descendentes, na certeza de que a morte é condição para se manter a Vida.
Para os crentes haverá sempre a esperança num “Agnus Dei”, num “Miserere” para enfrentarem o “Dies Irae”, o Juízo Final.

Entretanto… procuremos, TODOS, ser felizes!
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 5 de Junho de 2012 > Guiné 63/74 - P10001: Memórias de Manuel Joaquim (6): Um acidente epistolar: "Furriel Mil Paulo Gabriel Péri Éluard"

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Guiné 61/74 - P17756: Notas de leitura (994): “a sorte de ter medo”, por Gustavo Pimenta, Palimage, 2017 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Setembro de 2017:

Queridos amigos,
Há anos atrás, aqui se saldou "sairòmeM - Guerra Colonial"[1], de Gustavo Pimenta. É deplorável a ausência do registo desta obra em quem estuda a literatura da guerra, deplorável e injusto. Adiante.

Foi publicado recentemente este livro que impressiona pela singeleza, o discurso próximo e distante, a impressionante capacidade retentiva daquele mais de um ano que ele viveu em Madina do Boé, não conheço outro romance em que se fale com tanto pormenor da retirada dos dois quartéis, Beli e Madina, e que foram determinantes para o evoluir da guerra, quando o Boé se transformou em abandono por falta de presença portuguesa, o que deu ocasião para as grandes mudanças que o PAIGC operou no Norte e no Leste. É indispensável ler Gustavo Pimenta

Um abraço do
Mário


Um impressionante relato sobre a retirada de Béli e Madina de Boé (1)

Beja Santos

Em 1999 Gustavo Pimenta publicou na Palimage “sairòmeM – Guerra Colonial”, aqui foi saudado com entusiasmo a obra, injustamente pouco referenciada. 

Gustavo Pimenta está de volta com “a sorte de ter medo”, romance, Palimage, 2017. A urdidura não anda muito longe da sua anterior incursão pelas terras guineenses. No caso presente, há um avô que é interpelado do seguinte modo: “Avô, como sobreviveste à guerra?” e começa uma longa viagem de um limiano magricela que recebeu guia de marcha para as Caldas da Rainha, completou a recruta com elevada média e aceitou ir para o curso de oficiais, como atirador.

 Ainda passou uns dias pela Escola Prática de Administração Militar, depois mandaram-no para Mafra, aplicou-se, já aspirante foi colocado em Penafiel, seguiu depois para Tancos, onde tirou o curso de minas e armadilhas, segue para Tomar, irá combater na Guiné. Em 3 de Outubro de 1967 o navio Timor acostou em Bissau.

Uma pausa para refletir com o leitor sobre a diferença abissal entre o escrever fácil e o escrever simples. Gustavo Pimenta discorre, é como se aquelas memórias que lhe apetecessem romancear, fossem contadas para que houvesse um entendimento absoluto, nunca desce ao facilitismo, à fluência deixada à toa, é uma simplicidade com calibração, em dois tempos, o que se exprime na conversa e uma súmula que volteia em pensamento. 

É esta construção que torna a leitura credível, sincera, memória que fica para as próximas gerações. Sem fugir aos diálogos brutais, ao enfrentamento, como nos conta de uma ida aos correios, estavam em Fá, foi com o capitão a Bambadinca, e é interpelado pelo comandante do batalhão:

“- Que merda é essa que tens na cara? 
Ele passou a mão pela cara, olhou-a, e disse: 
- Não vejo merda nenhuma. Onde a tenho? 
O capitão interveio de imediato: 
- Meu coronel, o nosso alferes está devidamente autorizado a usar barba. 
- Autorizado? Isso são manias dos marinheiros, que no Exército dispensamos bem. 
Antes que a coisa azedasse, o capitão mandou o alferes para junto do jipe em que tinham vindo e ficou a conversar com o coronel. Quando se lhe juntou, disse: 
- Assunto resolvido, mas veja lá se responde noutros termos a um oficial superior”.

Estão a adaptar-se ao terreno, colaboram em operações, vão ao Xitole, depois Sinchã Jobel, tudo sem contacto mas com muita canseira. Em Novembro seguem para o Poindon, é o batismo de fogo, morre um cabo atingido no pescoço, no regresso ao Xime são várias vezes flagelados por disparos de inimigo, voltam à base, Fá Mandinga. 

Há, em toda esta singela narrativa, alguém que é permanentemente considerado e respeitado: o comandante de companhia, homem prudente, sempre empenhado em manter a tropa em atividade, ninguém estava autorizado a andar de chanatos, firme e dotado de autoridade natural. 

Nova operação, desta feita na região de Caresse, o objetivo era uma total ruína, não havia um menor sinal de por ali alguém ter estado nos tempos mais recentes. De Fajonquito regressaram a Fá. Ainda estão nos previstos três meses em regime de intervenção, são levados até Bolama e sem razões a operação é cancelada e mandados regressar. 

Em 8 de Dezembro chega a notícia: a companhia irá entrar em quadrícula em Madina de Boé. Entrementes, saem de Bissau para uma nova investida ao refúgio na mata de Poidon, referência de má memória. Tudo volta a correr mal, são emboscados, as munições escasseiam, voltam ao Xime para se remuniciar, nem novas nem mandados, não se avistou nenhum inimigo. 

Na véspera de Natal, estão em Porto Gole, em plena confraternização, o PAIGC flagela com armas ligeiras. Saem nesse mesmo dia para uma operação cujo objetivo é Sarauol e Sara, não encontram resistência, regressam a Porto Gole e depois andam a fazer patrulhamentos no rio Mansoa.

 Até que em 8 de Janeiro voltam a Bambadinca, seguem para Nova Lamego, aqui começam os preparativos para se deslocarem para Madina. Saem manhã cedo, até Canjadude as viaturas seguem a boa velocidade, a partir daí a viagem é a pé, tudo picado; pela mesma hora uma outra equipa de picadores sai do Ché-Ché em sentido contrário ao da coluna. O desconcerto da guerra vai mesmo agora começar:  

“Estabelece-se o contacto: quatro nativos, com Mauser a tiracolo e uma pica na mão, aguardam a coluna sentados na berma à sombra de uma árvore. Escassa e débil força para tão delicada missão. A tropa retoma o seu lugar nas viaturas, a coluna avança pela estrada esburacada de terra batida.
Escassos quilómetros percorridos a viatura que segue na frente – uma GMC, sem capota para evitar traumatismos ao condutor em caso de rebentar alguma mina e com os guarda-lamas cobertos de sacos de areia para amortecer o impacto – é violentamente sacudida pelo rebentamento de uma anticarro.

O major de engenharia, que exigira ir ao lado do condutor na viatura da frente para não apanhar a nuvem de pó que a coluna levanta, fica gravemente ferido.

Parada a coluna, procura-se socorrer o major. O furriel que, a dias do fim da comissão o quis acompanhar, ao precipitar-se para ele pisa uma antipessoal e morre minutos depois.
O enfermeiro fica ferido pelos dois rebentamentos.

Monta-se segurança em volta do local. Picam-se os arredores à procura de mais minas, rebentam duas, uma delas fere mortalmente um soldado do grupo de nativos”.

O contacto rádio falha, surgem dois helicópteros, consegue-se contacto com um deles e pede-se-lhe apoio para a evacuação. Responde que estão a evacuar feridos graves da tropa de Ché-Ché, o melhor é ir até lá.

Já com o Ché-Ché à vista, outra mina anticarro que os picadores não detetaram.  é ativada pela viatura que segue na frente, o condutor sai inexplicavelmente ileso. Atinge-se o aquartelamento ao fim do dia. Estão junto ao rio Corubal, avista-se a jangada que permite a travessia até Madina. Aqui vai começar a operação para chegar ao mais temido aquartelamento de toda a Guiné.

(Continua)
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Notas do editor

[1] - Vd poste de 17 de março de 2010 > Guiné 63/74 - P6009: Notas de leitura (79): sairòmeM Guerra Colonial, de Gustavo Pimenta (Beja Santos)

Último poste da série de 8 de setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17743: Notas de leitura (993): “A verdadeira morte de Amílcar Cabral”, por Tomás Medeiros, althum.com, segunda edição revista, 2014 (2) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Guiné 61/74 - P20183: Notas de leitura (1221): Missão cumprida… e a que vamos cumprindo, história do BCAV 490 em verso, por Santos Andrade (25) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 6 de Maio de 2019:

Queridos amigos,
O bardo despede-se do Como, não com uma litania ou uma epifania mas com um epitáfio. São versos de mágoa e quem o acompanha foi acidentalmente levado para uma outra experiência duríssima, não uma batalha mas uma vivência de anos num local inconfundível, Madina do Boé.
É de supor que vários autores tenham descrito esta via-sacra, a que conheço está em duas obras de Gustavo Pimenta que experimentou Madina do Boé em carne viva, estava de férias quando em fevereiro de 1969 ocorreu o brutal desastre da travessia do Ché-Ché. E dá-nos uma dimensão do que era uma coluna entre Canjadude e Ché-Ché, as primícias do Inferno, tudo contado com a serenidade e um saber de experiência feito.
E agora o BCAV 490 vai regressar a Bissau, segue para outras paragens, entre elas Farim, Jumbembem e Cuntima. Temos ainda muito rio para navegar.

Um abraço do
Mário


Missão cumprida… e a que vamos cumprindo (25)

Beja Santos

“Nesta grande operação
muitos rapazes sofreram:
30 feridos gravemente,
dez colegas morreram.

No Como já se sabia
que havia muitos bandoleiros.
Os paraquedistas e fuzileiros
lutavam com valentia.
O Batalhão de Cavalaria,
desempenhava a sua missão,
lutando pela Nação.
Todo o pessoal trabalhou
e muito bandido tombou
nesta grande operação.

A Comando e Serviços passou
todo o tempo livre de perigo.
Não atirámos ao inimigo,
mas foi porque não calhou.
Algumas vezes se esperou,
mas nunca lá apareceram.
Talvez fosse porque temeram
a força que lá havia.
E fazendo reforços, noite e dia,
muitos rapazes sofreram.

Dão muito que falar
estes maus tempos passados,
mas diminuímos os malvados
que a ilha queriam tomar.
Têm que se conformar
que não vencem nossa gente.
Atacaram constantemente,
mas a tudo resistimos,
e no fim da operação vimos
30 feridos gravemente.

Vamos então regressar
para a nossa bela cidade,
onde estamos à vontade
para uns dias descansar.
Pior do que tudo foi o azar,
dos que a mocidade perderam.
Pela Pátria combateram,
dando a sua própria vida,
e abalando desta lida
dez colegas morreram.”

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Gustavo Pimenta
O bardo, em jeito de epitáfio, regista o seu olhar quanto aos acontecimentos do Como, eleva o tom para falar da bravura, da coragem, curva-se perante as perdas em combate. É nisto que o acompanhante do bardo se lembra de outras paragens, fora dos azimutes da BCAV 490, lembra-se de um longo penar que deu pelo nome de Béli e Madina do Boé, imagine-se. Guarda memória de dois livros injustamente descurados de Gustavo Pimenta, “sairòmeM Guerra Colonial”, de 1999, e “A sorte de ter medo”, de 2017. Chegou à Guiné em setembro de 1967, em jeito de aperfeiçoamento operacional andou pela Mata do Poindom, acima do Xime, depois Porto Gole, mais tarde viajam para Madina do Boé, irá também falar de Béli. Deixará em ambos os livros impressões daquele horror.
Transcreve-se o que ele vai escrever em “A sorte de ter medo”:

“O percurso até ao rio Corubal, em cuja margem se situa a povoação de Ché-Ché, é perigoso, sobretudo após se passar Canjadude que fica a meio caminho.
É preciso ir ao Ché-Ché verificar as condições de travessia do rio, especialmente as da jangada que permitirá colocar na outra margem a companhia e as viaturas em que se fará transportar com toda a sua bagagem.
O alferes do terceiro grupo de combate vai no DO 27 com o major do batalhão que faz o PCV que controla uma operação do efetivo estacionado em Ché-Ché, e do ar fotografa o local.
No dia seguinte, com o seu grupo de combate, reforçado por outro de nativos, protege uma coluna que vai reabastecer a tropa e as populações de Canjadude e Ché-Ché e onde seguem o major e um furriel de Engenharia que vão observar a jangada.
Saem manhã cedo, até Canjadude as viaturas seguem a boa velocidade, o percurso é considerado seguro.
A partir daí a viagem é a pé, a tropa ladeando a picada em proteção à coluna com uma equipa de nativos à frente a picar o terreno, prevenindo a existência de minas.
Pela mesma hora, outra equipa de picadores sai do Ché-Ché em sentido contrário ao da coluna, devendo encontrar-se a meio do percurso.
Estabelece-se o contato: quatro nativos, com Mauser a tiracolo e uma pica na mão, aguardam a coluna – há mais de duas horas, dizem – sentados na berma à sombra de uma árvore. Escassa e débil força para tão delicada missão. A tropa retoma o seu lugar nas viaturas, a coluna avança com a velocidade possível pela estrada esburacada de terra batida.

Escassos quilómetros percorridos a viatura segue na frente – uma GMC, sem capota para evitar traumatismos ao condutor em caso de rebentar alguma mina e com os guarda-lamas cobertos de sacos de areia para amortecer o impacto – é violentamente sacudida pelo rebentamento de uma anticarro.
O major de Engenharia, que exigia ir ao lado do condutor na viatura da frente para não apanhar a nuvem de pó que a coluna levanta, fica gravemente ferido.
O alferes do terceiro grupo, que ia na caixa da mesma viatura, voa alguns metros juntamente com três soldados que o acompanhavam, um dos quais o enfermeiro.
Parada a coluna, procura-se socorrer o major. O furriel que, a dias do fim da comissão o quis acompanhar, ao precipitar-se para ele pisa uma antipessoal e morre minutos depois.
O enfermeiro fica ferido pelos dois rebentamentos.
Monta-se a segurança em volta do local. Picam-se os arredores à procura de mais minas, rebentam duas, uma delas fere mortalmente um soldado do grupo de nativos.
Tenta-se o contacto rádio com a sede do batalhão para pedir evacuação dos feridos e dos mortos, o ANGRC9 não atinge nenhum recetor, ninguém responde.
De súbito, surgem dois helicópteros, um a seguir ao outro, voando no sentido de Ché-Ché para Nova Lamego. Consegue-se o contacto com um deles e pede-se-lhe apoio para a evacuação. Responde que estão a evacuar feridos graves da tropa de Ché-Ché, que se prossiga até lá e aí se verá o que será possível fazer.

A viatura que despoletou a mina, com a frente desfeita, fica no local. Avança para a frente outra GMC, com capota, sem sacos de areia e apenas com o condutor, os grupos de combate regressam à segurança lateral da coluna, retoma-se a picagem da estrada.
Já com o Ché-Ché à vista, outra mina anticarro que os picadores não detetaram é ativada pela viatura que segue em frente, o condutor sai inexplicavelmente ileso. A iniciar a coluna vai agora um Unimog, que, de tão leve, ficará desfeito se outra rebentar. Atinge-se o aquartelamento já o fim do dia se aproxima. O efetivo local, além de vários feridos, sofreu três mortos nativos na operação que efetuara. Os helis não param de chegar e partir com os feridos, entre os quais o enfermeiro da coluna.
Os mortos ficam, serão levados no dia seguinte, nas viaturas, de regresso a Nova Lamego.”

Dias depois, a companhia ruma a Madina do Boé, faz-se a cambança:
“Os bombardeiros T6 vêm sobrevoar levemente a zona, duas horas depois a primeira viatura desembarca no outro lado.
A transferência de toda a coluna demora o dia inteiro, numa azáfama permanente, cansativa e perigosa: deslocar a jangada agarrando a corda e impulsionando-a é uma manobra que tende a desequilibrá-la dado o enorme peso que suporta com as viaturas carregadas e os homens que nela seguem.
Os jatos Fiat aparecem sobre o local e rapidamente desaparecem.
Monta-se o dispositivo de segurança ao verdadeiro destacamento em que se transforma o local de desembarque onde se vai pernoitar.
Mal o dia nasce, aguarda-se a chegada dos T6, o itinerário até Madina vai ser efetuado picando minuciosamente o terreno e com eles permanentemente, aos círculos, por cima: está-se na zona do Boé onde as colunas só conseguem mover-se com proteção aérea constante.
A coluna avança lentamente, ao ritmo em que se consegue uma picagem conscienciosa, sob um calor asfixiante e com o pessoal estafado.
Pelo caminho, aqui e além na berma da estrada, viaturas destroçadas por minas em operações anteriores adornam a paisagem com um toque inusitado e assustador.
Ao início da tarde atingem o aquartelamento que envolve e protege a isolada povoação local".

Admito que existam outros relatos tão circunstanciados como este, mas Gustavo Pimenta faz parte daquele contingente que em fevereiro de 1969 provará um desastre de imensas proporções na travessia do Ché-Ché, o que ele vai descrevendo nesta sua obra é como que um auto-de-fé, que em ponto algum deste Portugal se invoque ignorância do que ali se passou: que Béli está a cerca de 15 quilómetros da fronteira da República da Guiné e que mais para sudoeste fica Guilege; que Madina se situa para Sul, está num vale, entre pequenas elevações montanhosas, beneficia de uma nascente de água ali a cinquenta metros fora do arame farpado, tem uma população maioritariamente Fula.
Regista os abrigos, as condições do quartel, como se vive, há mesmo para ali uma dobadoira de pormenores:
“Na ponta mais a sul do perímetro há um pequeno edifício, espécie de arrecadação de coisas inúteis, em frente ao qual está o mastro em que, permanentemente, esfarrapada nas extremidades, flutua a bandeira nacional: aqui não há condições para cerimónias de hastear e arriar.
Todos os edifícios evidenciam ter sido duramente atingidos pelo fogo inimigo.
No beiral do edifício do comando um enxame de abelhas montou residência.
Dentro do terreno fortificado, uma vaca, que parece não ser de ninguém, vagueia pachorrentamente”.

Fazem-se patrulhamentos, dentro do aquartelamento os militares mantêm-se junto dos respetivos abrigos, por vezes há tréguas, a seguir vem a tempestade de fogo, os ataques a Béli também são incessantes, o destacamento será abandonado, mais tarde chegará a hora de retirar de Marina do Boé, no início do ano de 1969. O desastre na travessia do Ché-Ché é do conhecimento de todos.

(continua)
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Notas do editor

Poste anterior de 20 de setembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20161: Notas de leitura (1219): Missão cumprida… e a que vamos cumprindo, história do BCAV 490 em verso, por Santos Andrade (24) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 23 de setembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20170: Notas de leitura (1220): “Antologia de textos lusófonos sobre o Senegal”, seleção de textos de António Montenegro, José Horta e Mallé Kassé, sem indicação de editor; Dakar, 2015 (Mário Beja Santos)