Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Imagens: Arquibvo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.
1. Já aqui em tempos fizemos um pequeno inquérito "on line" sobre a "ida a Fátima", ou melhor, ao santuário de N. Sra. de Fátima, um dos maiores santuários marianos do mundo (Vd. poste de 1/5/2017, P17375.)
A pergunta ("Fui combatente, nunca fui a Fátima"), era de resposta múltipla. O nº de respostas foi pequeno (n=84). Os resultados não deixam, contudo , de ser interessantes, toda a gente já tinha ido pelo menos uma vez a Fátima na vida:
(i) uns ainda antes da tropa ou da mobilização para o CTIG (n=44) (52%);
(ii) outros depois de virem do ultramar, logo a seguir (n=15) ou passados uns anos (n=17) (38%);
(iii) um em cada cinco como verdadeiros peregrinos ou crentes (n=20) (17%);
(iv) mais de metade apenas como simples turistas (n=47) (55%).
2. Sobre o pagamento de promessas (... por conta de outrém), temos um pequeno depoimento, delicioso e didático, do Jaime Bonifácio Marques da Silva, que foi alferes miliciano paraquedista, 1ª CCP / BCP 21 (Angola, 1970/72).
É uma "short story", um microconto, que tem muito que se lhe diga sobre as nossas mentalidades e práticas religiosas de há mais de meio século atrás:
Quando chego de Angola, em março de 1974 (vivi lá dois anos, depois de acabar a minha comissão como paraquedista, de fevereiro de 1970 a julho de 1972), a minha mãe diz-me, de uma forma convicta:
– Tens de ir comigo a pé à Senhora dos Remédios pagar a promessa que eu fiz.
Eu, ainda meio cacimbado da cabeça (e, tolo, claro!), disparei:
– Então vá a mãe. Eu não prometi nada!
Devo ter lançado pela boca fora, ainda, mais alguns disparates alusivos à circunstância, a tal ponto que a minha irmã, mais nova, Esmeralda, perante a minha blasfémia, de pronto diz:
– Não faz mal, mãe, eu pago a promessa por ele e vou a pé consigo!
Mas, eu, perante a generosidade de minha irmã, Esmeralda, disponibilizei-me logo para as acompanhar e disse:
– Eu também vou..., de carro e atrás de vocês, e levo o farnel para a viagem.
E assim foi!
Mas, duas décadas depois, a minha irmã diz-me:
– Jaime, lembras-te da promessa que eu paguei por ti à Senhora dos Remédios? Eu tenho um problema: fiz uma promessa e tenho que ir a pé ao Senhor Jesus do Carvalhal. Não encontro ninguém para ir comigo e, para não ir sozinha, podias, agora, ir comigo?!
– Claro, mana, já estou no ir!
3. Porque é que considero este episódio delicioso e didático ? Tem humor, verdade e, ao mesmo tempo, diz muito sobre toda uma geração, que foi a nossa.
O que mais sobressai neste "microconto", não é a "piada" final (nem a lição moral que eventualmenmte se possa tirar); é, sim a evolução da personagem, o narrador, que acabava de chegar a casa, vindo da guerra de Angola, "são e salvo" (mas "cacimbado")...
Há aqui um pequeno arco narrativo, feito de quatro momentos:
(i) Num primeiro momento, em março de 1974, vemos o Jaime, antigo alferes paraquedista, que acaba de regressar de Angola (onde, já na vida civil, era professor de educação física.
(No seu CV militar, entre fevereiro de 1970 e julho de 1972, colecionava uma série de "roncos": o seu grupo de combate fora o que, dentro da companhia, mais armas apanhara ao IN); ainda está "meio cacimbado da cabeça", ou "apanhado do clima", como nós dizíamos na Guiné; reage com irreflexão, com irreverência e até com alguma grosseria e agressividade ao convite da sua mãe para ir pagar uma promessa ao santuário de N. Sra. dos Remédios, no Cabo Carvoeiro, Peniche, a menos de 15 quilómetros de casa, pela EN 247; recusa, "compreensivelmente", pagar uma promessa que não fora feita por ele.)
(ii) Num segundo momento, surge a Esmeralda, a sua mana mais nova, com os seus 19 aninhos
(ii) Num segundo momento, surge a Esmeralda, a sua mana mais nova, com os seus 19 aninhos
(Não censura o irmão; resolve o conflito com um gesto de amor fraterno: "Eu pago a promessa por ele"; acaba por ser ela a verdadeira heroína, discreta, "low profile", desta história.)
(iii) No terceiro momento, o coração do Jaime amolece, ao ver a mãe e a irmã, solidárias, a aprontarem-se para irem à santa dos Remédios, a pé, para pagar uma promessa de que ele era, afinal, o principal beneficiário.
(iii) No terceiro momento, o coração do Jaime amolece, ao ver a mãe e a irmã, solidárias, a aprontarem-se para irem à santa dos Remédios, a pé, para pagar uma promessa de que ele era, afinal, o principal beneficiário.
(Afinal, tinha "chegado são e salvo", graças a Deus e a Nossa Senhora, segundo a crença da mãe; mas ainda não aceita a lógica, para ele perversa, da promessa; mas já aceita acompanhá -las, às duas mullheres, a mãe e a irmã; "vou de carro... atrás de vocês com o farnel": é uma solução muito portuguesa, a das "meias tintas", mas reveladora de que o coração já estava a vencer a razão.)
(iv) Quarto (e último) momento, o "happy end": vinte anos depois...
(iv) Quarto (e último) momento, o "happy end": vinte anos depois...
(A vida dá uma volta completa; a irmã pede-lhe agora um favor semelhante; e ele responde-lhe sem discutir: "Claro, mana, já estou no ir!"... Seguramente, já com outra maturidade. )
É uma belíssima forma de mostrar que a maturidade humana também consiste em perceber que, por vezes, o importante não é o que se prometeu (a promessa), mas quem a fez (o pagador da promessa e o que vai na sua alma).
É uma belíssima forma de mostrar que a maturidade humana também consiste em perceber que, por vezes, o importante não é o que se prometeu (a promessa), mas quem a fez (o pagador da promessa e o que vai na sua alma).
5. Não falamos, aqui, no nosso blogue de religião (nem de política nem de futebol). Este texto também não fala de religião, fala de gratidão, de amor materno e filial.
A mãe acreditava que o filho regressara vivo graças à proteção da Senhora dos Remédios. O Jaime, acabado de sair de Angola, de um cenário de guerra, o corpo dorido e o coração emdurecido, não estava disposto a ouvir sermões nem a cumprir rituais que ele acharia "folclóricos" e que remetiam para uma infância e adolescência obscuras e de há muito ultrapassadas.
A Esmeralda percebeu imediatamente que o essencial não era discutir questões de fé, mas proteger a mãe da desilusão (de uma filho que vem da guerra, vivo mas "descrente", logo "estranho", "mudado").
Vinte anos depois, o Jaime devolve esse gesto. É, digamos, o pagamento de uma espécie de "dívida de afeto", dívida que fica finalmente saldada. E a história acaba com uma expressão muito popular, muito portuguesa, fechando a narrativa com um sorriso bonito.
— Claro, mana... já estou no ir!
4. Este episódio vale como documento, de interesse socioantropológico.
É mais do que um microconto. Não prova nada, muito menos prova que a maioria dos ex-combatentes da guerra do ultramar / guerra colonial foi a Fátima, aos Remédios, ao Senhor Bom Jesus do Caravalhal ou a muitos outros santuários pagar promessas por terem regressado "sãos e salvos".
Mas ilustra um fenómeno muito frequente na época: eram muitas vezes as mulheres que que cá ficaram, que não foram à guerra (as mães, as esposas, as noivas, as irmãs, as namoradas, até as "madrinhas de guerra") que faziam as promessas; os combatentes, regressados da guerra, nem sempre partilhavam a mesma devoção; contudo, por respeito, por amor, por afeto, acabavam muitas vezes por participar no seu cumprimento.
É precisamente este tipo de testemunho que os historiadores valorizam: não fornece estatísticas, dados empíricos, mas revela mentalidades, relações familiares e a cultura religiosa popular do Portugal dos anos 60/70 do século passado.
E há uma frase que nos fica a ecoar, porque resume tudo sem o dizer explicitamente: "Eu tenho um problema... podias, agora, ir comigo?"
Aí percebe-se que a promessa já não era apenas uma questão de fé. Era uma questão de companhia, de fraternidade e de memória. O Jaime teve a inteligência emocional de perceber isso. Já tinha 40 e tal anos. Já era autarca em Fafe, na área da cultura e do desporto. Já era casado e pai. Já era professor... Já tinha feito (ou começado a fazer) o luto da guerra.
E foi, com a mana ao Senhor Bom Jesus do Carvalhal. É um final simples, terno, tocante, profundamente humano.
Em boa verdade, as promessas pertencem ao domínio da fé, são de quem as faz... Mas o seu cumprimento, muitas vezes, pertence mais ao amor de quem acompanha o pagador de promessas...
Peniche > Santuário de Nossa Sra dos Remédios > Terreiro > 13 de julho de 2021 > O Jaime Silva e a mana Esmeralda Silva Costa, dois "pagadores de promessas"...
Fotos (e legenda): © Luís Graça (2021). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
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Nota do editor LG:
Último poste da série > 19 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28195: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (11): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte II: "O peixe e o hóspede ao fim de três dias fedem"









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4 comentários:
Nossa Senhora dos Remédios, perto do Cabo Carvoeiro, em Peniche, e o Senhor Jesus do Carvalhal, no Bombarral, eram (e ainda são) dois lugares de culto, muito populares, na região do Oeste, Estremadura. Nos anos 60/70 (e ainda hoje) ia-se lá coletivamente em círios (as aldeias dos concelhos vizinhos), bem como em grupo ou individualmente, para "pagar promessas". Estiveram em voga ao tempo da guerra colonial em África (1961/74). Os antigos combatentes deixavam lá os seus "ex-votos".
O Santuário de Nossa Senhora dos Remédios (Peniche) tem a sua origem numa lenda...
A devoçã mariana está profundamente enraizada na geografia marítima do Cabo Carvoeiro e numa lenda hagiográfica típica do litoral português: o achado na gruta. Conta a tradição oral que, durante a ocupação muçulmana (a partir de 711), a imagem da Virgem teria sido escondida numa das grutas escavadas nas falésias da costa. No século XII, no tempo de D. Afonso Henriques, um homem refugiado nas cavernas terá descoberto a imagem.
Por diversas vezes, tentou-se transferir a imagem para um local mnais seguro, a igreja de São Vicente, em Peniche de Cima, mas, segundo o mito popular, a figura reaparecia invariavelmente na gruta original. Face à sistemática repetição do prodígio, ergueu-se a primitiva capela em redor da própria rocha onde a imagem fora achada.
A Nossa Senhora dos Remédios tornou-se a advogada contra as epidemias, maleitas e os perigos do mar. Sendo Peniche uma comunidade piscatória e sujeita aos riscos dos naufrágios, muitas vezes entre as Berlengas e o continente, o santuário acabou por funcionar como uma espécie de "porto de abrigo espiritual" para marinheiros, pescadores e demais homens do mar.
O Santuário do Senhor Jesus do Carvalhal (Bombarral) remete-nos para a tradição dos círios. É, por excelência, o maior centro da devoção ao Bom Jesus no Oeste de Portugal, caracterizado pela tradição ancestral das romarias organizadas (os círios).
No local já existia na Idade Média a Ermida de São Pedro de Finisterra. A devoção ao Senhor Jesus intensificou-se substancialmente a partir de meados do século XVIII (por volta de 1762), associada ao achado de uma imagem de Cristo que teria sido recolhida e exposta à veneração pública após intempéries.
O Carvalhal )freguesia que pertencia ao concelho de Óbidos até à I República) converteu-se no ponto de convergência de cerca de duas dezenas de círios provenientes de concelhos vizinhos (Lourinhã, Óbidos, Cadaval, Torres Vedras, Caldas da Rainha, Peniche, entre outros).
Antigamente em galeras e carros de bois enfeitados, e mais tarde em camionetas e tratores, as populações deslocavam-se em grupo, cumprindo votos coletivos feitos em anos de seca, peste ou aflição comunitária.
Durante os 13 anos de conflito no Ultramar (1961/74) , a religiosidade popular adquiriu uma função defensiva e de suporte psicológico urgente. Antes da partida dos contingentes militares, as famílias e os próprios soldados dirigiam-se ao Carvalhal ou aos Remédios para pedir proteção (a "salvação do corpo e da alma"); ao regressarem (ou em cumprimento de promessas feitas à distância pelas mães, esposas, namoradas, etc.), os santuários tornavam-se recintos de agradecimento.
Nas salas das promessas e museus anexo a estes santuários (com destaque expressivo para o acervo do Senhor Jesus do Carvalhal), acumulavam-se testemunhos materiais do conflito: (i) tábua ou ex-voto pintado: telhas ou pranchas de madeira pintadas de forma ingénua/naïf, retratando a cena do perigo: uma emboscada na picada, uma mina que explodiu sem vitimar o soldado, um tiroteio no mato, etc., sob a aparição protetora da Virgem ou de Cristo no canto superior da pintura; (ii) objetos pessoais e militares: fardas de combate, capacetes de aço (por vezes perfurados ou amassados por estilhaços), maquetes de embarcações, pedaços de metralha, crachás de boinas, fitas com o número da companhia ou batalhão,fotografias tipo passe de jovens em uniforme, etc.; (iii) registos de gratidão: fotografias acompanhadas por legendas simples, como: "Oferecido por N.M. em agradecimento ao Senhor Jesus pelo regresso do filho da Guiné em 1971, são e salvo".
Estes dois santuários não eram apenas monumentos que valiam pela sua arquitetura, ou pelo seu culto litúrgico oficial; eram, sobretudo, espaços de memória viva e depósito do sofrimento humano, onde o sahrado e o profano se cruzavam para materializar a sobrevivência a um dos períodos mais traumáticos da história recente da região e do país.
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