Pesquisar neste blogue

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28352: Nomadizações de um marginbal-secante (Luís Graça) (19): a "Venda" na literatrura portuguesa dos séc- XIX e XX - Parte I: De Camilo Castelo Branco a Aquilino Ribeiro








Prompt original e orientação editorial: Luís Graça.
Texto: António Carvalho (2026) | Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. A leitura do excerto antológico do António Carvalho sobre a "venda de Medas" (ou "Emendadas"), em 1944 (*), sugere-me algumas notas, esperando com elas motivar os nossos leitores a comprar e a ler o livro, que nos conta uma história fascinante, a qual pode ser lida como um "thriller", mesmo não o sendo.... E nomeadamenmte as últimas 70 páginas.  (António Carvalho - "3x44: Abel e Caim em Contrapé. Porto: Vida Económica, 2026, 287 pp.)

A venda, misto de  merceria,  taberna e até estalagem (tanto na aldeia como à beira de estrada)  funciona na literatura portuguesa dos séculos XIX e XX como um verdadeiro microuniverso sociológico. 

É o espaço de transição onde o aldeão ou viajante ganha folgo, se cruzam notícias do reino (em depois, república a partir de 1910), se acertam contas, se bebe o vinho verde ou maduro, e onde também se namora ou se cruzam olhares cúmplices e bilhetinhos de amor, e se geram contendas e bisbilhotices locais, enfim, também o sítio onde se recebe o correio e até jornais.

Antes de dar o lugar a alguns dos nossos clássicos da literatura portuguesa, recordemos aqui a prata da casa: 

  • o Joaquim Costa também aqui já publicou um texto delicioso sobre a venda da sua aldeia minhota (**);
  • e o nosso saudoso António Eduardo Ferreira (1950-2023) escreveu sobre a taberna da sua aldeia de Moleanos nos anos 50 (na verdade, um "venda", já ali se vendia também quase tudo o que as pessoas necessitavam para o dia a dia, desde o acúcat e o café,  "para fazer na cafeteira",  ao petróleo e ao bacalhau (***).

2. Vamos então, de relance, (re)descobrir o que os nossos escritores, desde o séc. XIX, têm dito sobre a "Venda", um lugar que faz parte do nosso imaginário e das nossas vivências de meninos e moços (não podíamos frequentá-la, era reservada aos "homens feitos", mas íamos  lá fazer "recados"). 

Não queremos nem podemos ser exaustivos, é apenas uma amostra que nem sequer tem a veleidade de ser antológica. (****)

Recorde-se que, embora o comércio se começasse já a especializar quando nascemos, em muitas aldeias e vilas do Portugal profundo, a venda, misto de mercearia, tasca e até pensão ou estalagem, ainda chegou até  pelo menos ao 25 de Abril de 1974, nomeadamente no Norte e Centro do País.  Uma  ou outra ainda chegou aos nossos dias: é caso, por exemplo, da "Venda, Taberna e Mercearia", com sede em Grândola.


Camilo Castelo Branco
(Lisboa, 1825 - São Miguel de Seide, Famalicão, 1890)

Camilo Castelo Branco:  a "Venda" romântica e passional

Em Camilo, a venda é muitas vezes palco de encontros clandestinos, pousada de caminheiros e cenário de confrontos impulsivos entre fidalgos de província e camponeses. Aparece sobretudo como espaço rural, de memórias e costumes tradicionais. Ponto de encontro. Local central para o convívio e o comércio local. Espaço de intriga e retrato social.

  • A Brasileira de Prazins (1883):

(...) "Estava na venda do Manuel da Eira um rancho de rapazes a beber e a tocar violas. O vinho tinto de Amarante espumava nos quartilhos de barro vermelhos. À porta, a estalajadeira tirava da frigideira as fatias de presunto que chiarão no azeite a ferver, espalhando pela estrada um cheiro apetitoso que fazia parar as almocreves." (...)

  • Amor de Perdição (1862): 
Nas passagens onde Simão Botelho viaja clandestinamente, as vendas da Beira e do Douro surgem como pontos de abrigo escuro, onde os segredos de família e as conspirações trocam de mãos ao balcão.


Eça de Queiroz (Póvo do Varzim, 1845 - Neuilly-sur-Seine, França, 1900)


Eça de Queiroz:  o  realismo dialético do campo e da cidade

Em Eça, a venda, a taberna e a merceria ganham o detalhe realista. Mas tendem a ser espaços diferenciados, sobretudo a mercearia, que surge como lugar quotidiano mas urbano, não só de compras e vendas mas como de intrigas e rotinas, enfim símbolo da vida burguesa lisboeta.

  • Alves & Cia (1885, 1925)

A mercearia é um elemento recorrente, associado à vida urbana e aos costumes burgueses, onde se misturam o lado pessoal e o lado profissional.
  • O Crime do Padre Amaro (1875):
 Eça também descreve tabernas e lojas como espaços de convívio e crítica social. 

De qualquer, estas três instituições (venda, taberna,  mercearia) servem para ilustrar o contraste entre a rusticidade das gentes do interior e a sofisticação (ou afetação) da capital.

  • A Ilustre Casa de Ramires (1900): 

(...) "Ao fundo da calçada, na Venda do Pintor, sob a parreira fresca, dous almocreves descansavam, com os alforges no chão, bebendo em tigelas de louça branca. Gonçalo deteve a égua para lhes perguntar pelas novas de Oliveira e se vira passar o regedor..." 

Gonçalo Mendes Ramires, ao percorrer as terras de Santa Ireneia e os caminhos de Vila Clara, cruza-se constantemente com estes estabelecimentos rurais,
  • A Cidade e as Serras (1901): 

Na chegada de Jacinto a Tormes, a rusticidade da loja rural e da estalagem da serra sobressai pelo contraste com a opulência parisiense que o protagonista deixara para trás. 


Aquilino Ribeiro
(Sernancelhe, 1885 - Lisboa, 1963)


Aquilino Ribeiro: o vigor telúrico das Terras do Demo

Ninguém retratou a venda com tanta materialidade e riqueza lexical como Aquilino Ribeiro. Na Beira Alta aquiliniana, nas Terras do Demo,  a venda é o coração pulsante da aldeia: misto de comércio de víveres, tribunal popular e centro de intriga política, social  e comunitária. O escritor explora o interior de Portugal, onde a venda é um espaço de transição entre o rural e o urbano.

  • Terras do Demo (1919):

 (...) "A venda do Ti Gregório cheirava a uma mescla azeda de bacalhau seco, sabão macaco, fumo de cera e vinho derramado sobre o balcão de carvalho. Ao canto, junto à arca do sal, os homens da aldeia, de croça aos ombros, discutiam as partilhas dos montes enquanto o quartilho de tinto passava de mão em mão, grosso e escuro como sangue." (...)

  • O Malhadinhas (1922): 

A vida dos almocreves e recoveiros é contada ao ritmo das paragens de venda em venda, onde se come a broa, o queijo da serra e se contam histórias extraordinárias ao serão.

A venda (a taberna, a "baiuca") é um despaço de encontro e conflitos, onde se misturam o tradicional e o moderno. Um local onde se desdobram intrigas familiares e conflitos de classe.

(...) "A venda do Sr. João era o ponto de encontro dos homens da terra: ali se falava de política, de amor, e até de revolução." (...)

(...) Um entrudo, quinta-feira mesmo das comadres, à boca da noite, o Bisagra desafiou-me na venda do Zé Pinto para jogar uma partida de chincalhão. Vossorias sabem: o Bisagra era senhor duma destas galhaduras, mais formosas, compridas e retorcidas como não há memória que andasse armada a testa dum serrano. Mais abundante nem paliteiro com palitos, e assim falada nem a porca de Murça. Tão coitadinho, que seria caridade dizer-lhe ao passar um portal: baixa que marras!

A mulher era fêmea de alto lá com ela, sempre mais frescal que alface, requestada de fidalgo e de padre cura. (..)

(...) – Sou homem conho!... Sou homem!...

Desapareceu e estávamos nós deitando contas à pachouchada, quando se ouviu grande banzé: o Bisagra fora encontrar a mulher com o Padre Antunes de Lousadela e zupava nos dois como em amassadoira de linho. Foi preciso arrancar das mãos o coroado, senão, matava-o. Mesmo assim, ficou com uma sobrancelha deitada abaixo e mais pingou e lastimável que um dos palhaços que, por folgança de carnaval, se tinham esfaldegado no largo naquela quinta-feira das comadres. (...)






Trindade Coelho
(Mogadouro, 1861 - Lisboa, 1908)


Trindade Coelho: a vida aldeã em Os Meus Amores

Nas narrativas rústicas de Trindade Coelho (finais do séc. XIX), a venda é o local da infância e da tradição comunitária. Retrato da vida rural e dos costumes tradicionais.

  • Os Meus Amores: contos e baladas (1891):  

(...) "Na loja da Rosa da Venda arrumavam-se as prateleiras de chita impressa, os lenços de chita vermelha, as garrafas de aguardente e os cartuchos de confeitos. Era um corrupio de raparigas a comprar fitas e de rapazes a pagar a rodada de encharcados." (...)
  • No conto "O Idílio Rústico", a venda surge associada aos dias de mercado e romaria:

(...) "Na loja da Rosa da Venda arrumavam-se as prateleiras de chita impressa, os lenços de chita vermelha, as garrafas de aguardente e os cartuchos de confeitos. Era um corrupio de raparigas a comprar fitas e de rapazes a pagar a rodada de encharcados." (...)

Outros escritores:

Fialho de Almeida: A Cidade do Vício (1881)

A taberna como despaço de degradação moral e crítica à sociedade lisboeta.

Raúl Brandão: Húmus (1917)

A taberna: local de encontros noturnos e reflexões sobre a condição humana.
_______

(Continua)

(Pesquisa: LG + Wikipedia + IA (ChatGPT, Mistral, Gemini)
(Condensação, revisáo //fixação de tecto, negritos, italicos: LG)
____________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 14 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28345: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (40): A Venda de Medas, aliás, de "Emendadas" (segundo o António Carvalho, autor do romance "3 x 44: Abel e Caim em Co
ntrapé", Porto, ed. Vida Económica, 2026, pp. 33/37)

(**) Vd poste de 12 de fevereiro de 2024 > Guiné 61/74 - P25164: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (25): A mercearia e a taberna da aldeia (Joaquim Costa, Vila Nova de Famalicão)

(...) Eram as duas instituições mais importantes da aldeia: uma alimentava a alma e a outra o corpo (A César o que é de César a Deus o que é de Deus!). Razão pela qual o padre e o dono da mercearia eram as pessoas mais respeitadas na terra. Mais do que a do próprio regedor! (...)


(***) Vd. poste de 5 de novembro de 2023 > Guiné 61/74 - P24824: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (18): a taberna em meio rural (António Eduardo Ferreira, 1950-2023, Moleanos, Alcobaça)

(...) Por vezes, apareciam por lá poetas populares com jeito para cantar ao desafio o que era sempre do agrado de todos.

Quando o álcool já era quem mais ordenava, por dá cá aquela palha, algumas vezes, aconteciam cenas de pancadaria, nada que passado alguns dias os contendores, por iniciativa própria ou com a ajuda de alguém, não resolvessem fazendo as pazes. Chegava a acontecer a alguns ficarem mesmo amigos. (...)

Guiné 61/74 - P28351: Historiografia da presença portuguesa em África (544): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (12): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Quando um dia os investigadores e até mesmo autores de teses de doutoramento queiram dedicar a sua atenção sobre os graves conflitos que ocorreram na região do Forreá e que levaram à ruína uma economia agrícola que parecia bastante próspera, fará todo o sentido em acompanhar o olhar do Capitão Brosselard. Como se pode ler neste texto, a missão, prestes a encaminhar-se para Buba, percorre Dandum e os grandes rios do sul, das colónias portuguesa e francesa. Fica-se com a opinião sobre Mahmadou-Paté, a importância de Kadé, à ação política de Mody-Yaya. Vai seguir-se a viagem para Buba, prende a nossa atenção a narrativa onde se descreve a vida dos rios, o cuidado em relevar a importância dos povoados e não se esconde a dimensão brutal dos conflitos étnicos que atravessam a região. Brosselard refere várias vezes a ruína do Forreá, proprietários agrícolas e comerciantes abandonaram a sua atividade no Cumbijã, em Cacine no rio Grande de Bolola, ele também descreverá este povoados da agora colónia portuguesa

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 12
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Recapitulando, os dois comissários, Brosselard e Costa Oliveira, percorrem as margens do Corubal e Brosselard cede ao fascínio, rende-se pela escrita ao que vai contemplando:
“As árvores, ávidas de luz, inclinam-se para a clareira que se abre para o rio e os seus ramos alongam-se desmesuradamente, acima das águas. Sobre o rio Corubal está-se ainda em plena floresta, pode perceber-se a margem oposta, mas para reconhecer a direção do rio é preciso caminhar sobre os ramos e avançar até a alguns metros do rio, correndo-se o risco de ser apanhado por um crocodilo. A montante distinguimos alguns pontos de rochedos; este afloramento de rochas permite que na maré-baixa se possa atravessar o rio a vau. Acima desta barragem o rio Koliba chama-se Kokoli, a jusante o curso do rio é livre até à altura de Contabane; a largura do Koliba é de trezentos a quatrocentos metros, é um grande rio.”


Os membros da comissão portuguesa, o Sr. Cabral e o Capitão Bacelar juntaram-se a nós durante a estadia que fizemos em Mahmadou-Guini. As duas missões encontram-se completas e o seu efetivo era o seguinte: a missão portuguesa composta por 4 membros, 50 soldados, 100 carregadores, portanto cerca de 150 a 160 pessoas; a missão francesa composta por 3 membros, 20 soldados e 50 carregadores, portanto 73 pessoas.

A 13 de março, os oficiais continuam as suas operações de reconhecimento para Dandum, o curso do rio Cogon e o do rio Grande (Kokoli, nesta região) divergem, o primeiro para sul e o segundo para norte-noroeste. O rio Grande é um rio majestoso, correndo no meio de uma imensa floresta que se estende a perder de vista. Ligeiras neblinas espalham-se por lugares da floresta da margem direita, e dá para perceber o carácter pantanoso desta região.

Tendo convidado o chefe de Dandum para encontrar um homem de boa vontade para levar a Geba a carta destinada ao Sr. Galibert, este Fula escusou-se a satisfazer o meu pedido; a região entre o Kokoli e Geba, diz ele, está às ordens de um chefe de nome Mahmadou-Paté. É o irmão de Bacar-Guidali, o ex-rei do Forreá destronado e assassinado por Mody-Yaya; ele corta a cabeça a todos os Fulas que apanha, e nenhum homem de Kadé ou Dandum se irá aventurar para lá do Kokoli.

Nós sabíamos, com efeito, que este Mahmadou Paté não deve ser confundido com o seu homónimo do Forreá, fizera-se chefe de todos os descontentes e oprimidos e intersetava todas as comunicações diretas entre Kadé e Geba.

De criação recente, Dandum é uma povoação de escravos do rei de Kadé, a sua população situação entre 800 e 1000 habitantes. Os indígenas fazem grandes esforços para desbravar nas proximidades os terrenos favoráveis ao cultivo. São industriosos e podemos utilizar o concurso dos seus ferreiros para repara certas peças do nosso material. Os seus tecelões fazem com algodão colhido na floresta tecidos talvez grosseiros, mas de uma solidez a toda a prova.

O intérprete Ibrahima regressou de Kadé com dois delegados de Mody-Yaya, mas sem carregadores nem cavalos, mas trouxe cumprimentos calorosos e protestos de amizade. Kadé forma um distrito que depende diretamente da autoridade dos almamis; Mody-Yaya, que usa o título do rei de Kadé, rei do Gabu e rei do Forreá, tem uma autoridade contestada sobre o Gabu, um território essencialmente Mandinga que conseguiu até agora manter uma barreira intransponível ao fluxo Fula. Ele é mais feliz no Forreá, onde fez assassinar em 1886 o rei Bacar-Guidali. Ele deixa de tempos a tempos esta região e só vai a Kadé depois de ter comido o que há nos celeiros, e então rouba tudo o que lhe é conveniente, porque os Fula-Cundas são considerados pela gente de Kadé proprietários sujeitos a impostos discricionários.

Atualmente a povoação de Kadé tem cerca de 400 casas e a sua população é de 3 a 4 mil habitantes. Num raio de 3Km à volta da população estabeleceram-se sucessivamente doze povoados mais pequenos que têm uma população que é o dobro de Kadé, e no seu conjunto pode contar com mil homens livres armados.

A importância que dá a Kadé é devido à ação política de Mody-Yaya. Este chefe, para lá da influência considerável que deve ao seu nascimento, porque ele vem da família dos Alpha que detém com a dos Sory o poder no Futa-Djalon; goza também da devoção absoluta dos seus partidários, que usufruem de benefícios que Mody tem no Forreá. Kadé está situada numa região muito fértil, beneficia de estar próxima das escalas de mercadores, a povoação recebe mercadores europeus e serve de entreposto para as regiões mais longínquas, protegida a norte pelo fosso do Koli e a sul e sudoeste por montanhas inacessíveis, está ao abrigo de investidas dos inimigos da raça Fula e pode ser considerada como uma excelente base de operações para as empresas que se estabeleçam a oeste. Estamos em crer que se não parar o desenvolvimento de Kadé a povoação tornar-se-á a capital do Futa-Djalon.

Chegámos ao fim do primeiro texto publicado em Le Tour du Monde pelo Capitão Henri Brosselard, páginas 97 a 144, primeiro semestre, 1889.

Segue-se também na publicação do primeiro semestre, o segundo e último texto, começa por se dizer que a fronteira sul estava reconhecida e os comissários decidiram regressar a Buba, damos novamente a palavra ao Capitão Brosselard e à primeira pessoa do singular.

A 18 de março, deixo Dandum com a retaguarda da coluna e junto depois a coluna no riacho de Tiancoun-Kapé. A 20, chegámos a Saala, é impossível ver o chefe, partiu à procura do filho. Este andava há seis dias à caça com um escravo, os dois caçadores não regressaram, admite-se na povoação que foram mortos por elefantes. No dia seguinte, mantivemo-nos no local à espera das bagagens deixadas ao cuidado de Mahmadou-Guini. Os oficiais fazem reconhecimentos nos arredores. N’Garanké que tinha trazido uma carta do tenente a Dandum, voltou com um intérprete. Parte de Saala com os carregadores e regressa no dia seguinte, trazendo um grande carregamento, cerca de 40Kg. Em 32 horas percorreram 105Km, dos quais 70 com 40Kg à cabeça. Para encorajar os carregadores faço um presente pecuniário a N’Garanké e dou-lhe uma grande espingarda de caça.

A 22, a coluna francesa deixa Saala, tendo aqui ficado parte das bagagens à guarda de dois atiradores; a coluna atravessa um território abundante em caça e atingimos o riacho de Kevel. O seu leito é rochoso, tem água corrente muito fresca. Faz-se o reconhecimento desta admirável estação que bordeja por toda a parte este curso de água, da foz à sua confluência com o Cogon. Entrámos logo depois em Kevel, povoado e habitado pelos Fulas. Há à sua volta belas savanas onde pastam bois e vacas enormes. A floresta vizinha tem árvores centenárias. As perdizes são aqui abundantes, elas aproximam-se até aos nossos pés e na povoação vêm comer o milho espalhado no chão.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Alameda de poilões, Selho, Casamansa, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia
Uma rua de Ziguinchor, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Cais de Conacri, bilhete postal antigo
Entrada de Conacri, bilhete postal antigo

(continua)
_____________

Nota do editor

Último post da série de 9 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28333: Historiografia da presença portuguesa em África (543): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (11): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28350: Verso & reverso (5): (i) PIB do território na época da guerra colonial; (ii) "armazéns do povo"; (iii) peso da economia informal; (iv) realidade e propaganda



Fonte: PAIGC - História da Guiné e Ilhas de Cabo Verde. Porto: Edições Afrontamento. 1974

O PAIGC promovou a criação dos Armazéns do Povo por decisão tomada no 1º Congresso de 1964. O objectivo  era garantir o fornecimento de artigos de primeira necessidade à população sob o seu controlo ("áreas libertadas"), por meio de troca, receber produtos agrícolas que deveriam em seguida escoar-se para o exterior, criando-se e desenvolvendo-se assim, progressivamente, a base de um comércio externo. O número de Depósitos dos Armazéns do Povo terá passado  de 6, em 1964, para 16, em 1969.








O elogio dos "Armazéns do Povo"... Fonte: Excerto do relatório da Missão Especial da ONU na Guiné, Abril de 1972, pág. 8 (*)



1. Perguntámos à IA (ChatGP / Open AI) : (i) qual era o PIB (Produto Interno Bruto) da Guiné (hoje Bissau), no tempo da guerra colonial e da luta pela independência; e (ii) qual o peso da economia informal ?


Transmitimos a nossa impressão de que nas "áreas libertadas" do PAIGG havia os "Armazéns do Povo", mas era um mito, mais propaganda do que realidade económica...

No nosso tempo, e no decurso de operações militares, as NT podiam destruir algumas dezenas de toneladas de arroz, além de gado bovino e criação doméstica (estimativas, nalguns casos exageradas, mas que ficavama bem nos relatórios militares, como durante a Op Lança Afiada, Sector Leste, L1, 8-19 de março de 1969).

A verdade é que os famosos "Armazéns do Povo" colapsaram no tempo da economia planificada imposta pelo regime de Luís Cabral... Podiam ter funcionado pontualmente fora das fronteiras, no Senegal e na Guiné-Conacri, nas "bases recuadas" do PAIGC (com o Boké, Kandiafara, Conacri...) mas dificilmente nas "áreas libertadas" (cuja superfície, de resto, nunca foi sequer estimada, a não ser grosseiramente, e para efeitos de propaganda).

Na realidade, o PAIGC desde cedo, e ainda com o Amílcar Cabral vivo, reivindicou o controlo político-militar de 2/3 do território...Criou-se até o mito de que a Guiné, no fim do mandato do gen Arnaldo Schulz, estaria à beira do colapso militar...

O exército português, pelo menos no tempo do gen Spínola, como governador e comandante-chefe (maio de 1968 - agosto de 1973) entrava em todo o lado, incluindo o Cantanhez, na zona sul, e o Óio, na zona oeste, e em todo o lado na zona leste.

2. Não deixa de ser muito interessante, a resposta de várias ferramentas de IA que consultámos e pusemos em confronto, e de que reproduzimos o essencial neste poste e eventualmente noutros, da série "Verso & reverso" (**). Comecemos pelo ChatGPT.

"Camarada, aqui entramos num terreno muito escorregadio, porque a então Guiné Portuguesa praticamente não tinha estatísticas económicas fiáveis durante a guerra (1963-1974), e muito menos contas nacionais completas comparáveis às de hoje"

O conceito moderno de PIB (Produto Interno Bruto) era ainda rudimentar na colónia, e a esmagadora maioria da atividade económica escapava à contabilidade oficial. Recorde-se que o PIB é a medida monetária do valor de mercado total de todos os bens finais e serviços produzidos e prestados durante um período específico (normalmente um ano) por um país ou região; os principais componentes do PIB são: o consumo, os gastos do governo, as exportações líquidas (exportações menos importações) e o investimento; a alteração de qualquer um desses fatores pode aumentar o tamanho da economia.

Façamos então uma aproximação à realidade histórica.

(i) O que era a economia da Guiné nos anos da guerra ?

Assentava em cinco pilares:
  • agricultura de subsistência (arroz, milho, mandioca, coconte, óleo de palma);
  • exportações primárias: amendoim ("mancarra"), coconote (semente donde se extrai o óleo de palma ou dendê), algum pescado;
  • comércio africano informal (“djilas”, “bideiras”);
  • despesa militar portuguesa;
  • administração colonial.
A guerra acabou por distorcer tudo. A partir de meados dos anos 60, o principal “motor económico” passou a ser, paradoxalmente, a presença militar portuguesa: salários, construção de quartéis e outras infraestruturas, reordenamentos, transportes, abastecimentos, importações, contratos locais, serviços (lavadeiras, caçadores, guias, picadores, etc.). A Guiné deixou de ser autossuficiente em arroz, e passou a importar arroz, por exemplo. Muitas populações estavam dependentes do fornecimento de arroz pela tropa e pela administração do território.

(ii) Um PIB modestíssimo: entre 2,5 a 4 milhões de contos

As estimativas variam muito conforme as fontes (portuguesas, francesas, Banco Mundial retrospetivo e estudos da ONU posteriores à independência).

Em valores correntes da época, o PIB anual da Guiné Portuguesa no final dos anos 60/início dos 70 terá andado grosso modo entre 80 a 150 milhões de dólares da época (ou cerca de 2,5 a 4 mil milhões de escudos portugueses antigos, ou seja 2,5 a 4 milhões de contos). (Durante o sistema de Bretton Woods, ou seja, até 1971/1973, a taxa de câmbio oficial do escudo português manteve-se fixa em aproximadamente 28,75 escudos por 1 dólar USA).

O PIB "per capita" da Guiné Portuguesa na viragem da década de 1960 para 1970 (e ent~´ao com uma população estimada enter 530 e 580 mil habitantes, 
excluindo parte substancial do contingente militar metropolitano ali fixado), situava-se entre os 150 e os 300 dólares por ano (aproximadamente 4,3 a 8,6 contos), dependendo do ano específico e das estimativas populacionais utilizadas"

Per capita", era uma das economias mais pobres do império português, seguramente abaixo de Angola , Moçambique, Cabo Verde, São Tomé. Só Timor talvez estivesse em situação semelhante.

(iii) Comparação do PIB "per capita" no  contexto do Império e da Região (c. 1970)

  • Portugal Metropolitano: ~930 USD per capita (~26,7 contos).

  • Angola e Moçambique: Angola situava-se claramente acima (impulsionada pelo petróleo, café e diamantes, ultrapassando os 300–400 USD per capita), enquanto Moçambique oscilava numa gama intermédia superior devido aos serviços portuários e agricultura de rendimento.

  • Cabo Verde e São Tomé: apresentavam rendimentos médios superiores aos da Guiné, fruto de maiores taxas de urbanização e economias de plantation/serviços.

  • Timor Português: era o único território imperial que rivalizava diretamente com a Guiné nos patamares mais baixos de rendimento per capita (frequentemente abaixo dos 100–150 USD).

 Na Guiné Portuguesa do final dos anos 60, este valor médio dissimulava duas realidades profundamente distintas:

  • economia monetarizada / urbana (Bissau, Bafatá, Bolama): concentrada no comércio colonial, na administração pública e no forte consumo gerado pela presença das Forças Armadas Portuguesas, que sustentava artificialmente o setor de serviços e importações.

  • economia de subsistência rural: a grande maioria da população autóctone vivia da agricultura de subsistência (arroz, mancarra/amendoim), cujos circuitos escapavam em larga escala à contabilidade nacional oficial; adicionalmente, o estado de guerra a partir de 1963 desarticulou a produção agrícola tradicional em vastas zonas do interior, acentuando a dependência de subsídios e transferências da Metrópole.


Depois da independência (1974/75), a economia formal praticamente entrou em colapso parcial por múltiplas razões: "cofres do Estado vazios"; saída de quadros portugueses e inexistência ou insuficiência de quadros técnicos locais (apesar do esforço de formação de cabo-verdianos e guineenses que foram para a URSS, China, Cuba, Suécia);  rutura logística; queda brutal do comércio externo; nacionalizações (a começar pelo pequeno comércio, substituído pelos Armazéns do Povo); hostilização dos pequenos comerciantes (portugueses, libaneses e cabo-verdiano), dos poucos que ficaram; administração central praticamente inexistente; seca e desorganização produtiva. 

A Guiné-Bissau passou a viver da "caridade internacional" (doações)... Meio século depois o PIB da Guiné-Bissau será da ordem dos  2,5 mil milhões de dólares, o que dá um o PIB "per capita" nominal de cerca de 800 a 1.000 dólares por ano (dados do Banco Mundial e FMI).

Em termos estritamente nominais, o valor atual é cerca de 3 a 5 vezes superior. No entanto, esta comparação direta é enganadora devido ao efeito da inflação do dólar ao longo de mais de meio século (100 dólares de 1970 equivalem a mais de 800 dólares atuais).

(iii) O peso da economia informal e de subsistência

A economia “real” era sobretudo informal, rural e não monetarizada. Os estudos retrospetivos sugerem que:

  • mais de 70% da população vivia quase totalmente da agricultura familiar;
  • grande parte das trocas fazia-se fora do mercado formal;
  • o autoconsumo tinha peso enorme;
  • o comércio fronteiriço “paralelo” com Senegal e Guiné-Conacri era decisivo.

Se usássemos critérios atuais, talvez apenas 20% a 35% da atividade económica passasse pelo “Estado” ou por circuitos contabilizados. O resto pertenceria à economia informal, tradicional ou clandestina.

Ou seja: o “PIB oficial” provavelmente captava menos de metade da riqueza realmente produzida e consumida.

(iv) As “áreas libertadas” e os "armazéns do povo":  realidade e propaganda

Sobre isto, a tua leitura aproxima-se bastante da de muitos historiadores atuais. O PAIGC construiu uma narrativa político-militar muito eficaz: escolas; hospitais; tribunais populares; produção agrícola organizada; "armazéns lojas do povo”; administração paralela; construção do "homem novo"...

Parte disso existiu mesmo. Não foi pura invenção. Mas a escala foi frequentemente exagerada... A estabilidade territorial era muito variável, muitas “zonas libertadas” eram permeáveis. Enfim, o controlo militar português continuava intermitente em vastas áreas.

Tens razão ao lembrar que as tropas portuguesas penetravam regularmente em zonas consideradas “libertadas”: Cantanhez, Óio, Sara, Morés, Choquemone, Cubucaré, Fiofioli, etc., nunca foram espaços estanques. O domínio do PAIGC era mais político e noturno do que administrativo e diurno, permanente, em muitos sítios.

A própria expressão “áreas libertadas” era também um instrumento diplomático, que servia para convencer a ONU e a OUA, legitimar reconhecimento internacional, justificar a generosa ajuda soviética, chinesa e escandinava (e nomeadamente sueca).

 Os “Armazéns do Povo” existiram, mas tiveram, muito provavelmente, mais importância política, ideológica e simbólica do que peso económico estrutural.

Funcionavam sobretudo como pontos de redistribuição; ontrolo político; abastecimento de guerrilheiros e populações sob o seu controlo; tentativa de demonstração de “Estado em construção”.

O problema era estrutural: não havia estradas; o PAIGC só tinham viaturas de transporte, de origem soviética, na Guiné-Conacri e no Senegal; economia não monetirazada; escassez de produção excedentária; dependência externa; guerra constante.

Como tu sugeres, o sistema podia funcionar nas bases recuadas do Senegal e da Guiné-Conacri e junto dos corredores logísticos externos... mas dificilmente no "mato", no interior da Guiné onde o PAIGC não tinha (nem nunca teve) estruturas físicas edificadas (quartéis, armazéns, escolas, hospitais, etc.)

Depois da independência, o modelo de economia centralizada de Luís Cabral colapsou rapidamente por falta de quadros, incompetêncai, incapacidade administrativa, corrupção, nepotismo, contrabando, mercados paralelos, desincentivo à produção, fufa dos campos para Bissau...

Os “Armazéns do Povo” estavam, muitas vezes, de prateleiras vazias... A organização e o funcionamento eram burocráticos, enfim, foram rapidamente ultrapassados pela comércio informal. Até por que a população precisava de comer e sobreviver.

E a ironia ha História: a economia informal que o PAIGC pretendia disciplinar acabou por sobreviver ao próprio modelo estatal revolucionário.

(v) O que sobreviveu realmente ?

Em termos reais (volume de bens e serviços por habitante), o PIB "per capita" atual da Guiné-Bissau é praticamente equivalente ou até inferior ao do período colonial tardio. Ou seja, cinquenta anos depois da "libertação do colonialismo", o nível médio de vida da população (e sobretudo rural) não melhorou.

Vários fatores explicam este estagnação e perda de rendimento real ao longo de cinco décadas:
  • explosão demográfica: a população cresceu de cerca de 550 mil habitantes em 1970 para mais de 2,1 milhões atualmente; o crescimento do produto nacional bruto não conseguiu acompanhar proporcionalmente o ritmo de crescimento populacional;
  • impacto da guerra e instabilidade: a destruição das infraestruturas agrícolas durante a guerra colonial (1961–1974), seguida por sucessivos golpes de Estado, pela guerra civil de 1998/1999 e pela instabilidade política crónica, paralisaram o investimento produtivo a longo prazo;
  • fim do "Efeito de Enclave Militar": no final dos anos 60, o PIB colonial estava fortemente "inchado" de forma artificial pelo enorme consumo e despesa do contingente militar português e da máquina administrativa metropolitana, criando um setor de serviços urbano que colapsou após a independência;
  • monocultura do caju: a economia desindustrializou-se e perdeu diversidade agrária (como a produção de arroz, na qual o país era autossuficiente antes da guerra), tornando-se quase totalmente dependente da exportação da castanha de caju bruta e do setor das pescas.
O que resistiu, antes e depois da independência, foi a importância do "chão", da tabanca, da bolanha, o pequeno comércio africano, as redes familiares e comunitárias, o mercado paralelo, o comércio transfronteiriço, as “bideiras”, os "gilas", etc.

Ou seja: a sociedade guineense profunda mostrou-se, e ainda bem,  muito mais resiliente do que o aparelho colonial português, ou o socialismo de Estado do pós-independência.


Pesquisa: LG + Blogue + IA (ChatGPT / Open AI | Gemini / Google AII)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)

3. Recorde-se, aqui, o oportuno e contundente  comentário de Cherno Baldé, nosso colaborador permanente (vive em Bissau), ao poste P23609 (***):


(...) Como em tudo que diz respeito ao PAIGC e a sua "gloriosa luta de libertação", os Armazéns do Povo não passou de mais um mito para Sueco ver.

A rede que, aparentemente, funcionou durante a luta nas chamadas zonas libertadas, eram postos ou depósitos móveis para a distribuição das ajudas dos países Nórdicos, com especial destaque para a Suécia, que contribuía com ajuda humanitária.

Estou em crer que, embora a propaganda do partido fale do povo e da comercialização através da permuta, a realidade dos factos diz-nos que os principais destinatários seriam os guerrilheiros das barracas do interior que, como se sabe, tinham muitas dificuldades de abastecimento.

Caso os famosos Armazéns tivessem funcionado bem no mato em plena guerra, era suposto o sucesso ser maior nas condições do pós-guerra, mas na verdade, os vícios do consumo gratuito e da gestão danosa e irresponsável não permitiram o florescimento desta rede de comércio nacional que estava destinada para substituir o comércio das lojas das casas Gouveia e Ultramarina em toda a extensão do território.

Quando ocorreu o golpe de 14 de Novembro de 1980, embora os Suecos ainda continuassem a fornecer auxilio "humanitário" já com algumas contrapartidas, na verdade, já não restava nada destes Armazéns para além de prateleiras vazias e, de tal maneira que o regime que surgiu do golpe de 'Nino' Vieira foi obrigado, para além de solicitar a ajuda do FMI, uma instituição do capitalismo outrora abominado, a proclamar a abertura ao comércio privado para que o país não morresse de fome.

De salientar que o Consulado do gen Spinola na Guiné tinha criado alguns hábitos de consumo, mormente, no meio da população urbana e não só, que os dirigentes do PAIGC queriam extirpar de raiz, o que criou uma situação de fome e um ambiente explosivo de mal-estar que acabou por desembocar na mudança do regime de Luís Cabral. (...) 



(Revisão / fixação de texto, itálicos, negritos: LG)


terça-feira, 15 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28349: (Ex)citações (448): Os Antigos Combatentes e os medicamentos. O desastre do Rio Zambeze, em Moçambique, no dia 21 de Junho de 1969 (Artur Conceição, CART 730)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 13 de Setembro de 2026:

Caríssimo amigo Carlos Vinhal,
Antes de tudo os meus agradecimentos pelo esclarecimento, pena que não chegue a muitas pessoas ainda muito mal esclarecidas em relação a benefícios dados aos antigos combatentes. No caso dos transportes é uma desgraça. No tocante às viúvas é um lamento. Só na minha aldeia são 6 viúvas, uma irmã, uma cunhada e duas primas. Pouco ou nada sabem.

Quem vai à Farmácia aviar os meus medicamentos é sempre a minha mulher. Ela sabe ou pelo menos ouviu dizer que os antigos combatentes tem direito a medicamentos gratuitos.
Cada vez que paga algo pelos meus medicamentos, reclama e é informada na Farmácia de que só não paga se usar os medicamentos genéricos. Quanto à eficácia de uns e outros não sinto nenhuma autoridade para me pronunciar.
Fui sempre muito anti medicamentos. Durante os dois anos de Guiné nunca tomei os comprimidos para o paludismo e contudo nunca tive tal coisa.

Depois de ter passado à disponibilidade, fui durante cerca de meio ano obrigado a levantar uma carga de medicamentos num Departamento Militar, situado na Rua da Estefânia.
A justificação era: como não tiveste paludismo na Guiné vais ter paludismo em Lisboa, mas com muito mais gravidade.
Ouvi um médico recém chegado ao Hospital de Bissau exclamar: dão Quinino à malta? Mas isto mata!
Penso que ele se referia ao celebre “Daraprin”.
Em Brá, onde estavam os três Grupos de Comandos e que no início do ano de 1965 tinham o apoio em termos de refeições, por parte da CCS do Batalhão 733. As praças tinham direito a comer em pratos, mas quando levantavam o prato às quintas-feiras estava por baixo o comprimido já descascado. Com o dedo médio em forma de bilharda lá vai ele para o mais longe possível.
Durante o tempo em que fui dador de sangue raramente os responsáveis pela tiragem acreditavam que ter estado na Guiné e não ter tido paludismo não era real. E lá vinha a picada no dedo que era mais difícil que dar sangue.

A tragédia referida em (2) é a tragédia do Rio Zambeze em Moçambique na tarde do dia 21 de junho de 1969. O batelão São Martinho naufragou com 150 homens e 30 viaturas a bordo.
Morreram 101 militares e 5 tripulantes.

Um grande abraço com votos de muita saúde
Sempre ao dispor
Artur António da Conceição


******************************

2.  A TRAGÉDIA DO RIO ZAMBEZE

O amigo Artur Conceição no seu Post anterior[1], quando referia o afundamento de uma jangada que tinha vitimado mais de uma centena, estava a falar concretamente da tragédia do Rio Zambeze, em Moçambique, ocorrida no dia 21 de Junho de 1969. Posteriormente enviou-nos uma listagem com os militares falecidos na transposição deste rio num batelão civil. Esta coluna militar deslocava-se de Lourenço Marques para Vila Cabral.

Pesquisando no Livro 1 - Tomo III - Moçambique - Mortos em Campanha - Edição da CECA, Lisboa 2014, elaborei a listagem abaixo.

Honremos a memória destes nossos 101 compatriotas que cedo demais encontraram a morte.


******************************

Transcrevemos, com a devida vénia, as páginas 716 a 718 do Livro 1 - Tomo III - Moçambique - Aspectos da Actividade Operacional - Edição da CECA, Lisboa 2012:

A tragédia do Zambeze

Pelas proporções que assumiu merece referência específica, o acidente ocorrido em 21 de Junho de 1969 durante a transposição do R. Zambeze, em Chupanga, num batelão civil, por uma coluna militar que, de Lourenço Marques, se dirigia para Vila Cabral.

Assim, em 09 de Junho de 1969 uma coluna militar comandada pelo Alferes Miliciano do GAC 6, Oscar David Firmino do Rosário e composta por 150 homens (1 Oficial, 1 Sargento e 148 Praças) e 30 viaturas saiu de Lourenço Marques com destino a Vila Cabral a fim de transportar pessoal e material para diversas Unidades sedeadas ao longo do percurso Lourenço Marques - Beira, Inhaminga - Chupanga (R. Zambeze) - Mopeia - Quelimane - Nampula - Belém - Vila Cabral.

A viagem até Chupanga (na margem direita do R. Zambeze) decorreu sem incidentes mas, aí chegados, no dia 15 de Junho, verificou-se que o batelão que efectuava a transposição do rio, pertencente ao Senhor Amancio Pedreiro, se encontrava avariado. Dois meses antes do acidente o batelão sofrera alterações não autorizadas pela Autoridade Marítima que avisara o respectivo proprietário que não poderia utilizá-lo sem aprovação da Direcção Provincial dos Serviços de Marinha 12.

Por este motivo a coluna permaneceu em Chupanga até 21 de Junho data em que o batelão foi declarado reparado pelo proprietário.

Depois do Comandante da coluna ter perguntado ao dono do batelão se toda a coluna podia embarcar na mesma viagem e ter recebido como resposta que o batelão aguentava com mais peso que o do pessoal e material da coluna 13, deu-se início ao embarque cerca das 15H30. A distribuição da carga foi feita pelo proprietário que seguiu no batelão juntamente com a tripulação e o mecânico que procedera às reparações.

A travessia iniciou-se cerca das 16H30.

Quando se encontravam a meio do rio, duas das almadias, das três que suportavam a plataforma, tendo cada uma o seu motor, começaram a meter água e um dos motores parou.

Foi então ordenada, pelo proprietário, uma mudança de rumo que, ao contrário do pretendido, originou que a embarcação metesse ainda mais água e se afundasse em menos de um minuto. Eram cerca das 17HOO.

Agarrados a objectos que flutuavam e com auxílio generoso expontâneo de uma família autóctone que morava numa ilha perto - os Campíra - sobreviveram 50 homens.

Já de noite a notícia do desastre chegou a Mopeia tendo o Administrador e o pessoal do Destacamento Militar local prestado toda a assistência aos sobreviventes.

Avisadas as autoridades civis e militares, desenvolveu-se, logo a partir do dia seguinte, uma grande operação de busca de sobreviventes e de recolha e identificação de cadáveres em que se empenharam meios aéreos civis e militares, almadias tripuladas por autóctones, lanchas a motor e mergulhadores da Marinha.

Em 23 de Julho a situação era a seguinte:

- Militares falecidos e identificados, 68
- Militares falecidos, encontrados e não identificados, 23
- Militares desaparecidos, 9
- Militares sobreviventes ~150

Faleceram também o proprietário do Batelão e parte da tripulação.

Seguiu-se um período de recuperação do material (foram recuperados 8 Unimog 404 e 1 Unimog 411) e as transladações, solicitadas pelas famílias, dos corpos dos militares inicialmente sepultados no cemitério de Mopeia.

Nas conclusões do "Relatório Sumário sobre as causas prováveis do acidente que teve lugar durante a travessia do R. Zambeze por uma coluna militar, em 21 de Junho de 1969 e suas consequências elaborado pelo comando do Sector "D", é referido:

"A existência do batelão que transportou a coluna e a sua actividade eram ilegais;
- O batelão não oferecia as condições de segurança que se julgam indispensáveis;
- As condições de navegação oferecidas pelo R. Zambeze no dia, hora e local onde se deu o acidente não eram favoráveis às condições do batelão e à carga transportada;
- Admite-se que foram tomadas, na generalidade, medidas de segurança para evitar a deslocação de viaturas sobre a plataforma;
- O comportamento dos militares durante a travessia foi disciplinado e colaborante;

Consideram-se como causas prováveis do acidente as seguintes:

(1) Falta de condições de segurança do batelão;
(2) Más condições de navegação oferecidas pelo R. Zambeze;
(3) Manobra precipitada de mudança de direcção".

Este desastre tocou profundamente toda a população de Moçambique e também da Metrópole de onde era oriunda parte dos militares falecidos.
Contudo não deixaram de surgir comentários tendentes à atribuição de responsabilidades aos militares.

C.V.

_____________

Notas do editor:

[1] - Vd. poste de 13 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28343: (In)citações (290): Eventos de iniciativa de Antigos Combatentes (Artur Conceição da CART 730)

Último post da série de 12 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28092: (Ex)citações (447): O pessoal das transmissões: músicos, de talento (tirando eu que só tocava ferrinhos): o que é é feito de vocês, camaradas, Luís Dutra (já falecido), Eduardo Pinto, Victor Barros, Carlos Lã, Fernando Cruz, Fernando Marques, António Camilo, Miguel Pacheco, José Fanha, Nélson Batalha (já falecido), e outros, do meu curso de transmissões... (Hélder Sousa)

Guiné 61/74 - P28348: Manuscrito(s) (Luís Graça) (295): Em 6 de setembro passado, a orografia que rodeia a Quinta de Candoz retirou-me cerca de uma hora e meia de insolação direta: cerca de 35 minutos de manhã e cerca de uma hora ao fim da tarde.

 

Foto nº 1 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07;16

Foto nº 2 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07:18


Foto nº 3 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07: 20


Foto nº 4 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07:22

Foto nº 5 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07:24

Foto nº 6 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07:31


Foto nº 7 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07:35


Foto nº 8 > Quinta de Candoz > Nascer do sol > 6 de setembro de 2026 > 07:35


Marco de Canavezes > Paredes de Viadores > Candoz  > 6 de setembro de 2026


Fotos (e legendas): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição:   Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Não é habitual ver o nascer do sol, só o pôr do sol. Justamente porque vivo no Oeste, na Lourinhã, junto à costa atlântica... (O Oeste é uma região da Estremadura, que vai de Torres Vedras a Alcobaça.) 

Não sei porquê,  ninguém fotografa o nascer do sol... Terá menos magia ?  (Acho que não...  O nascer do sol exige acordar cedo, enquanto o pôr do sol é mais acessível:  no fim do dia, o fotógrafo tem mais liberdade e disponibilidade; por outro lado, o pôr do sol tende a ter tons mais quentes e dramáticos (laranjas, vermelhos intensos), enquanto o nascer pode ser mais suave e frio (amarelos, brancos, cinzentos, azuis); e, adicionalmente,  há uma razão cultural: tendemos a associar o pôr do sol ao fim de algo (romântico, melancólico, trágico), que é um tema recorrente na arte ocidental; enfim, o  nascer do sol é mais difícil de capturar em palavras, ligado à ideia de começo, recomeço, trabalho, suplício de Sísifo, mas esperança, desafio,  incerteza...).

 Em Candoz, a mais de 300 km de distância, freguesia de Paredes de Viadores e Manhuncelos. concelho de Marco de Canaveses, estou rodeado de serras (Montedeiras, Aboboreira, Montemuro, Gralheira, Meadas, Marão...).

O rio Douro que vejo da minha janela ou varanda, na Quinta de Candoz, à direita (Porto Antigo, barragem do Carrapatelo e, mais à direita, Cinfães, já na serra de Montemuro),  separa os distritos do Porto e Viseu... 

Da minha janela ou da minha varanda,  virada para nascente,  vejo também em frente, a linha do Douro, a escassos 200 ou 300 metros: o comboio que vai do Porto à Régua e ao Pocinho (e até Barca de Alva, em viagens de turismo histórico) passa pelo vale que me separa do concelho de Baião, que fica a Leste e Nordeste. Em frente, as freguesias, de povoamento disperso, de Mesquinhata, Santa Leocádia, Grilo (e por detrás do 1º horizonte, Grove, Ancede, cujo fogo de artifício vejo na Páscoa)...

Eu estou aqui:  Quinta de Candoz, Coordenadas GPS:41.118254559520246, -8.1129390491463

No dia 6 de setembro de 2026, o sol nasceu em Portugal às 07.01 mas eu só o vi da varanda da nossa casa, na Quinta de Candoz, mais de meia-hora depois... Em rigor, devo tomar como referência a hora solar local, a da cidade do Marco de Canaveses, que foi às 07:03.  E o pôr-do-sol às 19:57. Houve, portanto 12 h 53 min de dia astronómico.

Mas eu estou  numa situação completamente diferente: o horizonte montanhoso é o meu “segundo horizonte”. Na varanda no VIGIA, na Praia da Areia Branca, eu vejo o sol a cair pique no Atlântico, com as Berlengas e o cabo Carvoeira à minha direita...Claro, quando não há nuvens...

Aqui, em Candoz, comecei a ver o primeiro sol direto aproximadamente às 07:37. Ou seja, preguiçosamente, o sol só "pegou ao trabalho" uns 34 minutos depois... E o seu trabalho é o de iluminar e aquecer a nossa encosta, as nossas vinhas: estamos  de 250/300  metros acima do nível do mar, nas faldas da serra de Montedeiras,  que ficou tristemente famosa pelas andanças e façanhas do Zé do Telhado, e nomeadamente o assalto à Casa do Carrapatelo, em 8 de janeiro de  1852. 

Montedeiras fica no concelho de Marco de Canaveses, e tem altitudes que variam entre os 450 e os 650 metros...

E no passado dia 6, domingo, o pôr-do-sol foi às 19:57, mas em Candoz,  eu despedi-me dele cerca de uma hora mais cedo (estimativa minha, hora não documentada)... 

Em conclusão, perdi  nesse dia cerca de  uma hora e meia de sol direto...

Como me levantei cedo nesse dia, de resto como habitualmente, deu-me na veneta de o fotografar, minuto a minuto, e até fiz um vídeo de 2 minutos... Aqui fica uma seleção desses momentos em que o sol amigo nos diz "bom dia, cheguei para te iluminar e aquecer, a ti e a todos os bichos e demais seres vivos que te rodeiam"...


2. Com a ajuda da IA (ChatGPT) fiz o cálculo da posição do sol para as minhas coordenadas (41.1183 N, 8.1129 W): às 07:37, o sol estava aproximadamente:

  • 5,6° acima do horizonte astronómico
  • azimute ≈ 86°, ou seja, praticamente Este.

Portanto, a minha serra/horizonte nascente (parte do concelho de Baião) (a 3, 5, 5 km, em linha reta,  da minha janela ou varanda)  está a ocultar aproximadamente os primeiros 5–6 graus de altura do Sol. É precisamente o que será de esperar de uma casa encaixada numa paisagem montanhosa como a da Quinta de Candoz.

A fotografia das 07:37 é, portanto, uma excelente evidência de campo: a minha observação dos 34 minutos está perfeitamente dentro do que o cálculo astronómico prevê.

Menos rigoroso, porque não tenho fotografias recentes (e disponíveis aqui), é a estimativa de perda de sol direto ao fim da tarde.

Se a minha observação de que o Sol desaparece cerca das 19:00 estiver correta, então:

19:57 − 19:00 ≈ 57 minutos. Ou seja, perco quase uma hora de Sol direto ao fim do dia.

E  momento em que o sol desaparece por trás da minha encosta (a poente) ele ainda estará aproximadamente 10° acima do horizonte astronómico.

Isto significa que a serra de Montedeiras (o conjunto de relevos que tenho  a poente) funciona como uma verdadeira parede solar. "A serra engole o sol"...

Em conclusão, no passado domingo, o sol direto começu: ~07:37; e terminou: ~19:00. Perdi c. 90 minutos de sol direto.

Mas há uma distinção importante: não estou propriamente a perder “luz do dia” durante esses 90 minutos, mas sim "sol direto".

Às 07:20, por exemplo, já há claridade em Candoz (vd. foto nº 3), apesar de a serra impedir que os raios solares atinjam diretamente a nossa a casa e as nossas vinhas. E depois das 19:00 ainda temos crepúsculo, embora já não tenhamos o disco solar.

Em rigor, devo então dizer: “Em 6 de setembro, a orografia que rodeia a Quinta de Candoz retirou-me cerca de uma hora e meia de insolação direta: cerca de 35 minutos de manhã e cerca de uma hora ao fim da tarde.”

Neste último fim-de-semana, colhemos uvas com vamos fazer o vinho verde branco DOC Nita, Escolha, 2026, com 14 graus de álcool provável.

É uma ironia bonita: a mesma montanha que nos rouba sol, é também parte da paisagem que nos ajuda a obter este vinho, que continuamos a fazer por amor...

























Marco de Canavezes > Paredes de Viadores > Candoz  > 12 e 13 de setembro de 2026 > As primeiras vindimas...


Fotos (e legendas): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição:   Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Marco de Canavezes > Paredes de Viadores > Candoz  > 18 de setembro de 2020 > A nossa querida Nita (1947-2023), a "alma mater" da nossa quinta..


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Foto: Luís Graça (2020)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI. (2026)