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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28474: Em busca de... (337): Eugénio Manuel Paulo Agostinho, Soldado Condutor Auto da CART 3493 / BART 3873 (Mansambo e Cobumba, 1971/74) procura antigos camaradas através da sua filha Ana Rita Agostinho

1. Mensagem de Ana Rita Agostinho, filha do antigo combatente Eugénio Manuel Paulo Agostinho, Soldado Condutor Auto, NM 03019571, da CART 3493 / BART 3873 “NA GUERRA CONSTRUINDO A PAZ” (Mansambo e Cobumba - zona do Cantanhês, 1971/74) a viver em Rio Torto – Gouveia:

Agora, com mais de meio século passado, o seu maior desejo é simples: rever os amigos que deixou para trás. Se alguém serviu com ele, se tem fotografias da companhia ou conhece alguém que esteve nessa unidade, a família agradece imenso o contacto.
Vamos tentar reunir novamente estes antigos camaradas.

O meu pai gostaria muito de conseguir reencontrar antigos colegas com quem partilhou essa fase tão marcante da sua vida. Realizar até um possível almoço convívio.
Qualquer informação, por pequena que seja, poderá ajudar-nos a recuperar amizades e memórias de há mais de 50 anos.
Vamos tentar reunir novamente estes antigos camaradas!

Muito obrigada a todos pela ajuda e partilha.

Contacto: rita.agostinho81@gmail.com
TM: 965 113 731
Ana Rita Agostinho


FOTOGALERIA

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2. Comentário do coeditor CV:

Esperemos que o Eugénio Agostinho encontre os seus antigos companheiros para reatar os contactos e lembrar os tempos de juventude passados naquela parcela de África, para nós verdadeiramente desconhecida.

Está bem encaminhado pelo nosso camarada Sousa de Castro, que sendo da 3494, pertencente ao mesmo Batalhão, tudo fará para o ajudar nesta missão.

Para o Eugénio Agostinho, o nosso abraço e os votos de saúde.

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Nota do editor

Último post da série de 5 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28406: Em busca de... (336): Camaradas de Júlio Lopes Santos, ex-Soldado Atirador da Companhia de Artilharia n.º 6552/72 (Cameconde, Cabedú e Cufar, 1973/74)

Guiné 61/74 - P28473: Humor de caserna (300): O plano de vacinação da tropa: a nossa "dose de cavalo" (Carlos Vinhal, José Câmara, António Murta, Luís Graça, José Teixeira)









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Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Carlos Vinhal | José Câmara | António Murta | Luís Graça | José Teixeira  (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI (2026)



1. Comentários aos poste P28470 (*):

1.1. José Câmara (EUA):

Mano Carlos,

Em Tavira eramos mais sotisficados. A referida vacina, se bem me lembro, foi dada na nádega e na parada do CISMI.

Abraço atlântico fraterno.

José Câmara
quarta-feira, 28 de outubro de 2026 às 22:45:21 WET


1.2. António Murta (Figueira da Foz):

Olá, Carlos Vinhal.

Eu também passei por uma cena caricata no dia das vacinas, mas não desmaiei. A bicha para receber a vacina foi formada na rua e, como a vacina era dada no braço, mandaram-nos descer o blusão para as costas e deixá-lo preso nos braços. 

O ritual da vacinação foi exactamente como descreves. Ora, quando o enfermeiro (que eu pensava que era o último) enfiou a seringa na agulha e a despejou, seguiu para o "cliente" seguinte sem uma palavra. Eu, sem mais aquelas, julgando ter-me já safado, puxei o blusão para os ombros e fiquei a aguardar. 

Uns minutos depois aparece outro enfermeiro e, fitando-me nos olhos, perguntou-me onde é que eu tinha posto a agulha. Perguntei-lhe "qual agulha?" e ele mandou descer o blusão e abriu muito os olhos quando viu a agulha ainda no braço. Olhei de esguelha e nem quiz acreditar... Não desmaiei mas nunca mais me esqueci do incidente.

António Murta.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026 às 23:38:48 WET

1..3. Tabanca Grande Luís Graça:

Carlos e António: Não me lembro de ter desmaiado na vida...

Mas nessa "cena da vacinação" na tropa, na recruta, nas Caldas da Rainha (julgo eu), comecei a ver as cores do arco-íris a desaparecer...Já estava entre o verde e o amarelo desmaiado, o céu cada vez mais a desbotar-se, quando, cheio de orgulho machão, arrebitei, endireitei o corpo, ergui a cabeça ao alto... Mas foi por um triz, senão tinha caído ao chão, e não seria o primeiro, naquela enorme fila de espera onde estava os bravos filhos do povo...

Sei que estive em tronco nu, ao sol, de manhã (?), com pouca coisa no estômago... Estávamos em bicha de pirilau, e o ritual está muito bem descrito pelo Vinhal...

Aquilo parecia uma linha de montagem automóvel, e cada enfermeiro (da tropa!) tinha uma função "especializada": um homem, uma tarefa, um posto de trabalho... O "taylorismo" também tinha chegado à tropa...

Ainda não descobri foi o raio da vacina que apanhámos !... Tétano, febre tifóide... ? A da  febre amarela apanhava-se mais tarde era só para os felizes contemplados com um cruzeiro (de borla) até ao Ultramar.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026 às 09:39:20 WET


1.4. Tabanca Grande Luís Graça:

Numa pesquisa rápida na IA / Google, apurei o seguinte:

(i) Durante os anos 60 e 70, no contexto da Guerra Colonial / Guerra do Ultramar, os militares mobilizados na Metrópole (Portugal Continental) para servir na Guiné eram sujeitos a um protocolo de vacinação militar obrigatório bastante rigoroso antes de embarcarem;

(ii) A administração das vacinas ocorria habitualmente na reta final da recruta ou durante a Instrução de Aperfeiçoamento Operacional (IAO), nas unidades mobilizadoras, para garantir que as reações secundárias não perturbassem os treinos iniciais;

(iii) As principais vacinas obrigatórias administradas na Metrópole incluíam:

  • Vacina contra a Febre Amarela: era a imunização mais crítica e exigida pelo Regulamento Sanitário Internacional para quem viajava para a África Ocidental; o registo era feito no célebre Certificado Internacional de Vacinação (a famosa caderneta amarela) que todos os militares tinham de transportar;
  • Vacina contra a Varíola: ainda uma ameaça global na época, a vacinação (ou revacinação) antivariólica era aplicada a todo o contingente (através do método de escarificação no braço);
  • Vacina contra a Febre Tifóide (frequentemente combinada com a vacina TAB, hoje em descontinuada): protegia contra a febre tifoide e paratifoides A e B, doenças comuns em teatros de operações com condições de saneamento, água e alimentos precários;
  • Vacina contra o Tétano: essencial para militares expostos a ferimentos de combate, picadas e cortes no terreno;
  • Vacina contra a Cólera: administrada consoante os surtos ativos e as exigências sanitárias do período da mobilização (já existia em 1971)....

Ainda não havia, nem ainda há, vacina contra o paludismo... Mas há havia a vacina contra a Pólio (Poliomielite): durante as décadas de 1960 e 1970, na sequência da introdução global da vacina oral Sabin, a vacinação contra a poliomielite passou também a fazer parte do protocolo sanitário e da caderneta de vacinação das Forças Armadas. Não sei se já fomos abrangidos...

(iv) Outras medidas profiláticas:

Para além das vacinas injetáveis aplicadas nos quartéis, os militares iniciavam ainda na Metrópole (ou imediatamente antes do desembarque) a toma diária ou semanal de comprimidos de quimioprofilaxia contra o paludismo (malária ou "sezonismo"), habitualmente à base de quinino ou cloroquina, que continuavam a tomar rigorosamente durante toda a comissão na Guiné. (Se hoje estamos surdos, agradeçam ao quinino que era  ototóxico...)

(Pesquisa: LG + IA / Google) (Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

quinta-feira, 29 de outubro de 2026 às 09:45:32 WET

1.5. José Teixeira (Matosinhos):

Eu, como todos nós, passei pelo "castigo" das vacinas. Numa segunda fase já como pronto e colocado no Ral 2 em Santa Clara, Coimbra, fui um dos que participei em duas ou três séries de aplicações da vacina, antes de ir para a Guiné.

Devia estar presente o médico da unidade e acolher cada recruta antes de ser dada a vacina. Porém, o médico da unidade trabalhava no Hospital Civil de Coimbra e ia ao quartel quando o rei fazia anos.
Para o substituir e preencher o questionário clínico, fui o felizardo escolhido, talvez por usar óculos. Recebidas as orientações, vesti uma bata branca, esteto ao ombro, sentado numa cadeira no fundo da sala. Cada recruta entrava e era direcionado para mim para o questionar.

Depois de preenchido o inquérito e antes de o mandar sentar na cadeira do martírio seguinte, fazia-lhe uma pergunta sacramental.

− Então não te queixas de nada?... Nem da carteira?

 − Sr. Dr., dinheiro não tenho.

− Então senta-te a seguir ao último.

E o outro, a seguir;

− Sr. Dr.,  não me posso queixar muito.

− Ótimo. Então, estás a ver aquelas seringas partidas,  ali à porta.? Os pobres rapazes enfermeiros têm de as pagar. Deixa lá cinco coroas para os ajudar.

Houve um ou outro que reagiu:

− E se eu der vinte paus e o Sr. Dr. diz para serem meiguinhos comigo?!...

− Ó nosso cabo, tome nota. Este que vai sentar-se agora,  deve ser tratado com cuidado.

No fim, seguíamos todos para a cantina, comprávamos umas latas de atum, casqueiro e umas cervejitas e petiscávamos, à custa dos mancebos que foram vacinados, logo na sexta-feira seguinte à sua entrada para a especialidade de condutores no Cica de Coimbra.

José Teixeira
quinta-feira, 29 de outubro de 2026 às 14:44:31 WET


(Seleção, revisão / fixação de título: LG)


2. Comentário do editor LG:

Camaradas, a final qual era a famosa "dose de cavalo" ou "a de cavalo", na nossa  gíria militar ?

A que deixou  marcas e memórias dolorosas na rapazida  era a vacina TAB,  a vacina contra a Febre Tifóide e Paratifoides A e B (frequentemente administrada em fórmula tripla ou associada ao Tétano, a TAB-T).

Mas eu não sei qual era exatamente o plano de vacinação obrigatório da tropa que era mobilizada... Temos que admitir que não todos apanhávamos as mesmas vacinas... Falta aqui o testemunho dos nossos médicos e dos nossos enfermeiros. Além disso, náo eram tomadas todas de uma só vez. Quem não era mobilizado para o Ultramar, não tomava a vacina contra a febre amarela... Havia vacinas que se tomavam na recruta e outras antes do embarque para o Ultramar. Temos de ter em conta essas particularidades...

Na documentação sobre o plano de vacinação dos militares portugueses destinados aos teatros de operações, encontramos, por exemplo, em 1963, a vacinação contra:

  • Varíola;
  • Febre tifoide;
  • Febre amarela;
  • Tétano;
  • Poliomielite.

No início da décadaa de1970, aparece também a vacina contra a cólera.

Mas eis algumas das razões por que a TAB, que podia ser ou não combinada com a  vacina contra o Tétano, deixou em muitos de nós marcas traumáticas:

(i) Volume e agulhas eeutilizáveis:

Na época, ainda hão havia as seringas de plástico descartáveis, pelo menos não chegavam às nossas "cavalariças"...  As vacinas eram administradas em massa com seringas de vidro e agulhas grossas de metal, fervidas e reutilizadas dezenas e dezenas de vezes, até "partirem"... A densidade da dose e o calibre da agulha tornavam a penetração muscular e a injeção extremamente dolorosas.

(ii) Administração dolorosa (subcutânea / muscular profunda): muitas vezes era administrada no braço, mas também era frequente ser inoculada na região subscapular (nas costas/omoplata) ou no peitoral; a sensação no momento da aplicação era descrita como "um ferro em brasa" ou um "soco de chumbo".

(iii) Reações secundárias violentas (Efeito pós-vacinal): sendo composta por bactérias inativadas (Salmonella enterica de vários serotipos), a TAB era extremamente reatogénica; poucas horas após a administração, a malta desenvolvia uma série de sintomas : febre muito alta (frequentemente acima dos 39 °C) e calafrios intensos; dores musculares e articulares generalizadas (mialgias e artralgias); dor local incapacitante: o braço ou a zona das costas onde fora dada a injeção ficava inchado, vermelho e tão dorido que o militar mal conseguia mover o membro ou apoiar-se; cefaleias (dores de cabeça) fortes, náuseas e prostração total...

Era habitual companhias inteiras ficarem "de baixa" no dia seguinte à aplicação da TAB. Nos quartéis, o dia da vacinação resultava em camaratas cheias de homens prostrados na cama, com febres altas e a queixarem-se do "braço dorido" ou da "picada nas costas". (Aqui não havia "heróis" !)

Embora a varíola deixasse a característica marca de escarificação (a cicatriz circular no braço) e a febre amarela fosse a mais exigida internacionalmente, no imaginário e na memória, dorida (!),  da tropa que embarcou para a Guiné, Angola e Moçambique, a TAB foi indiscutivelmente a rainha do "terror sanitário" .

Pesquisa: LG + IA (Gemini / Google | ChatGPT / Open AI) (Condensação, revisão / fixação  de texto: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. posgte de 28 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28470: (Ex)citações (450): Quando o "115" precisou de emergência médica (Carlos Vinhal, ex-Fur Mil da CART 2732)

(**) Último poste da série > 25 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28463: Humor de caserna (299): Só foi pena os lagostins, após o "incidente" com o Unimog, na estrada Enxudé-Tite, terem conseguido voltar, a nado... à bolanha

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28472: Historiografia da presença portuguesa em África (551): quem foi o João Landim ? Seguramente mais do que um topónimo...




Guiné > Região  de Cacheu  >  Bula > João Landim> Margem direita do rio Mansoa >   Junho de 1973 > Travessia de João Landim, que se fazia em jangada. Aqui, de norte para sul... Primeiro entravam as viaturas, depois as pessoas. Bissau ficava a cerca de vinte quilómetros. 

Foto do álbum de Francisco Gamelas. Foto a cores, reconstituída, melhorada digitalmente com recurso a IA/Google.


O Victor Costa
 já aqui explicou qual era o trajeto, de quem vinha de Bissau (sexta-feira, 10 de abril de 2026 às 11:38:00 WEST):

  • Bissalanca,
  • Safim,
  • João Landim Sul ( edificio com antena de transmissões), 
  • Rio Mansoa,
  • João Landim Norte (saída da estrada de alcatrão a cerca de 5 km e entrada numa picada) 
  • até ao destamento de João Landim Norte 
  • e , por fim, Bula.


Foto (e legenda): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Portugal > Ministério das Colónias > Comissão de Cartografia  > Carta da Guiné (Esboço)  (1933) > Escala 1/500 mil. Comp e des M Diniz > Imagem da carta  cedida pelo cartógrafo João Escravana (cortesia do portal Ultramar TerraWeb > Dos Veteranos da Guerra do Ultramar ).

Em 1933, existia na margem direita do rio Mansoa a Ponta João Landim. E Bissau era uma ilha. Vinte anos depois, a carta de Bula (escala de 1/50 mil) sinaliza aqui um ponto de cambança; João Landim, entre as duas margens do rio Mansoa. E a estrada que vai para Bula atravessava duas zonas distintas, João Landim e Mato Dingal. Ainda na bacia hidrográfica do Mansoa havia a Ponta Geraldo Landim. 

Na carta de Bula, estão sinalizadas muitas outras pontas. Por exemplo, na margem direita do rio Dingal: Germano Landim, Joaquim Mendes, Domingos Monteiro (?), Batijaqui, etc.; na margem direita do rio de Bula:  Conselho, Soares, Consolação, Umbrum, Alfama. etc.

É mais que provável que o João, o Geraldpo e o Germano pertencessem à família Landim, já que o apelido Landim é comum aos três "ponteiros"...

Escreveu o António Rosinha, a propósito da jangada de João Landim:

"Só entre a jangada de João Landim e Bula, encontram-se naquelas redondezas treze pontas, e provavelmente a maioria seriam de Caboverdianos.E até se poderá dizer que pelo resto da Guiné seria assim já desde Honório Barreto, até Amilcar Cabral e o herdeiro da Ponta Alfama terem as suas ideias da União/Junção/Anexação Guiné-Cabo Verde.

O Mapa de Bula onde vemos essas pontas, é de 1953, ora nessa data já a pacificação da Guiné e das outras colónias portuguesas viviam numa paz e numa calma que até iludiu os estudantes do império, que era facílimo governar aquilo mais e melhor por eles do que pelos atrasados dos portugueses.

E de facto o ex-guerrilheiro Alfama ainda chegou a governante, na Guiné, mas só até 1980, pois deve ter acompanhado Luís Cabral que também "desistiu" em 1980.

Mas talvez tenham sido eles, que ajudaram a garantir que aquele arquipélago a figurar como país com fronteiras e bandeira própria".



Guiné > Carta de Bula (1953) / ewcal 1/50 mil > Posição relatiuva de João landim, no rio Mansoa, sinalizada na carta como ponto de combança do  rio Mansoa.

 Infografias: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1. Ainda a propósito da jangada do João Landim... Quem foi afinal o João Landim, consagrado pelos nossos cartógrafos e a memória do povo ?  Qual a origem deste topónimo ? 

Teria sido algum "ponteiro" ? "Tuga" ou cabo-verdiano? Algum "herói das campanhas de pacificação" ? Hoje há uma ponte (c. 800 metros), conhecido por "ponte Amílcar Cabral", mas para o povo é a "ponte João Landim". Tal como a ponte de São Vicente, na "estrada euro-africana", ligando a Guiné-Bissau, aos países a norte e nordeste (Senegal, Gâmbia, Guiné-Conacri...): continua associado, o nome, a uma ponta que aqui existia antes do início da guerra...

É uma pergunta para os especialistas de história, cartografia  e  toponímia da Guiné, a começar pelo nosso erudito e apaixonado por estas coisas, o Mário Beja  Santos. 

É uma pergunta para os "ratos de biblioteca", mas com uma particularidade: conhecemos muito bem, os antigos combatentes, a velha jangada de João Landim (que funcionava todos os dias, durante  a guerra colonial, de 1961 a 1974, e que deve ter continuado a funcionar, depois da independêncai até finais de 2003!), mas não temos, até agora, uma identificação documental segura da pessoa que se esconde por detrás do topónimo. 

A pesquisa que fizemos permite confirmar a importância histórica do lugar, mas não permite afirmar que João Landim tenha sido um militar português, um ponteiro cabo-verdiano ou um protagonista das chamadas campanhas de pacificação. Seria arriscado transformar uma hipótese numa biografia.

(i) João Landim: quem é o o homem por detrás do topónimo ?

O nome já estava consagrado na cartografia colonial. A localidade situava-se junto ao rio Mansoa, cerca de 20 quilómetros a norte de Bissau, numa passagem estratégica entre a capital e as regiões do norte da Guiné. A travessia fazia-se por jangada, muito antes de existir a ponte atual (pronta em 2004, inaugurada em 2005).

Mas quem foi, afinal, esse tal João Landim? 

  • Um português? É possível, mas não encontrámos prova documental que o confirme;

  • Um cabo-verdiano? Também não há fundamento para essa hipótese;

  • Um militar ou antigo participante nas "campanhas de pacificação" ? Não há, nas fontes consultadas, elementos que permitam estabelecer essa ligação;

  • Um colono, comerciante, proprietário ou morador, ou um desterrado,  que deixou o nome ao lugar? 

São hipóteses possíveis, mas continuam por demonstrar. João Landim tem 23 referências no nosso blogue. 

O nome próprio e o apelido, por si sós, não permitem determinar a origem étnica, a nacionalidade ou a profissão do indivíduo. Mas provavelmente o João, o Germano

Landim é um apelido portuguès, antigo, medieval, provavelmente de origem toponímica... Há uma fanília e um antigo mosteiro, Santa Maria de Landim, em Vila Nova de Famalicão...


(ii) O que nos dizem os testemunhos dos antigos combatentes?

O nosso blogue é, neste caso, uma fonte preciosa para a história do lugar, ainda que não resolva a identidade do homem.

No poste P16489, de 14 de setembro de 2016 o destacamento e a jangada de João Landim, no Rio Mansoa, recolhemos testemunhos de antigos militares que conheceram o local em diferentes períodos. Mas nenhum deles avança uma pista para esclarecer a origem do topónimo.

  • Alcídio Marinho [ex-fur mil inf, CCAÇ 412  (Bafatá, 1963/65); (1940-2021); vivia no Porto];
  • Francisco Gamelas [ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73), adido ao BCAÇ 3863 (1971/73): vive em Aveiro];
  • José Nascimento [ex-fur mil art, CART 2520, (Xime, Enxalé, Mansambo e Quinhamel, 1969/71); vive no Algarve];

  • Leonel Olhero [ex-Fur Mil Cav do Esq Rec 3432 (Panhard) (Bula, 1971/73); vive em Vila Real].


Há três pormenores que merecem ser destacados:

  • A jangada era uma infraestrutura essencial: transportava militares, viaturas e abastecimentos entre as duas margens do Mansoa, ligando Bissau às regiões do norte, nomeadamente do Cacheu (Bula, Binar, Có, Pelundo, Jolmete, Teixeira Pinto...);
  • O lugar tinha uma história possivelmente anterior à guerra:  testemunho de Alcídio Marinho remonta a 1963/65, quando ali esteve destacado com uma secção de militares; a jangada que então operava não era a mesma dos anos 70;
  • A memória do lugar sobreviveu à função militar; hoje, mesmo com a construção da ponte, o nome João Landim continua a identificar a localidade e a travessia.

Estes testemunhos ajudam-nos a reconstruir a história da jangada e da presença militar. Não esclarecem, porém, quem foi o homem que lhe deu o nome.

(iii) A ponte Amílcar Cabral... ou ponte João Landim?


A ponte sobre o rio Mansoa tem oficialmente o nome de Ponte Amílcar Cabral. Foi construída com financiamento da União Europeia, pela empresa espanhola "Necso Intercanales", e inaugurada oficialmente em 9 de maio de 2005. Com interrupções devido aos sucessivos conflitos militares, a ponte foi construída em 28 meses. Já estava aberta ao tráfego em 2004. Tem cerca de 785 metros de comprimento, 11,4 metros de largura e duas vias de circulação automóvel, de 3,5 metros cada.

Parece que o nome do "Pai da Pátria" não se conseguiu sobrepor ao topónimo João Landim...

Curiosamente fomos encontrar, no portal Casa Comum, da Fundação Mario Soares e Maria Barroso, dois militantes do PAIGC com o apelido Landim:

  • o cmdt de grupo Grad, Paulo Correia Landim (set 1970), e que em outubro de 1962 foi mandado pelo Amílcar Cabral para estudar em Moscovo (!);
  • e o nosso (da CCAÇ 12...) já conhecido Pedro Landim (comissário político, sector 02 / Xitole - Bafatá / Frente Leste ) (novembro de 1970) (fazia parte dos quadro do Exército Popular, então criado, EP 38/70, comissário político no Xitole...no meu tempo (1969/71) (e tinha instruções para limpar o sebo aos graduados da CCAÇ 12 e aos seus "cães")...

Amílcar Cabral dispensa apresentações: foi o fundador do PAIGC e uma figura central na luta pela independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. O João Landim já ninguém sabe quem é...

Mas há aqui um fenómeno de memória popular interessante: o nome oficial da ponte homenageia Amílcar Cabral; o nome tradicional da passagem continua a ser João Landim. A designação da localidade acabou por se sobrepor, na linguagem quotidiana, à designação oficial da infraestrutura. O mesmo aconteceu com a Ponte Salazar sobre o rio Tejo em Lisboa (1966), rebatizada Ponte 25 de Abril, em 1974.

(iv) Pistas para pesquisa

Para tentar descobrir a identidade de João Landim, a IA sugere-nos quatro pistas documentais:

  • Cartografia antiga: comparar cartas da Guiné anteriores à ocupação efetiva do território, designadamente mapas do século XIX e do início do século XX;
  • Boletins oficiais e registos administrativos: procurar referências a pessoas chamadas João Landim, proprietários, comerciantes, funcionários ou autoridades locais;
  • Documentação militar e colonial: consultar relatórios de operações e registos administrativos das chamadas campanhas de pacificação, sem pressupor que João Landim tenha participado nelas;
  • História oral guineense: recolher testemunhos de habitantes antigos da região de Safim, Bula e João Landim; a tradição oral pode conservar uma explicação que não chegou aos documentos escritos.

A primeira pista a explorar  seria a cartografia mais antiga: importa saber quando aparece pela primeira vez o topónimo e se a sua forma original era efetivamente «João Landim». Bom, já sabemos que em 1933 havia um "Ponta João Landim", na margem norte do Rio Mansoa, a norte de Safim.

Em conclusão, não temos provas para dizer quem foi João Landim. Temos, isso sim, um topónimo antigo, uma jangada que marcou a vida de várias gerações de antigos combatentes, e uma ponte moderna que, apesar do nome oficial, continua associada à memória do lugar.


 [Pesquisa: LG + UTW + IA (ChatGPT / Open AI)]

Guiné 61/74 - P28471: Convívios (1081): Os antigos combatentes da vila de Loriga, a princesa da Serra da Estrela, homenagearam as suas mães, no almoço-convívio realizado na Escola Secundária de Sacavém, no passado sábado, dia 17 - Parte IV


Foto nº 32



Foto nº 33


Foto nº 34


Foto nº 35


Foto nº 36


Foto nº 37


Foto nº 38


Foto nº 39


Loures > Sacavém > Escola Secundária de Sacavém > 17 de outubro de 2026 > Almoço-convívio dos antigos combatentes do ultramar de Loriga, Seia (*)



Fotos (e legendas)  © Zé Fernandes Pina (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] (Cortesia da página do facebook do loriguense Zé Fernanes Pina, antiogo combatenmte)


Legenda das fotos  nº 35 e 36:  "A mesa da comissão organizadora: de costas, em primeioro plano, o António de Brito Ribeiro,  ladeado  à direita por outro elemento da comissão organizadora do almoço-convívio, o Gabriel Pina; e à esquerda, pelo presidente da Junta de Freguesia de Loriga, Luís Costa, que veio cá abaixo com uma delegação de gente da aquela terra serrana, de gente voluntariosa, trabalhadora e bairrista (tem hoje c. de 850 habitantes; tinha em 1950, no auge da indústria de lanifícios, c. de 3 mil). Outros elementos da comissão organizadora, que estavam presentes na mesa nº 1: além do António Ribeiro (Guiné) e do Gabriel Pina (Moçambique):  António Fernandes (Guiné); José Manuel Alves (Angola); e José Ambrósio (Guiné). Há ima um convidado, represent6ante da CM Loures".

Legenda da foto nº 37: "Mesa nº 5, membros da Tabanda da Linha e da Tabanca Grande".


1. Mais fotos do memorável almoço-convívio dos antigos combatentes de Loriga, Seia, realizado no passado sábado, em  17 de outubro de 2026, na Escola Secundária de Sacavém. As fotos acima são do José Fernandes Pina, loriguense,  nascido em 1949 (pertenceu à 32ª CCmds, esteve  29 meses no Ultramar, 3 em Angola, e o restante tempo em Moçambique, fev 1971 / julho 1973; segundo percebi da sua ficha de combatente, foi condutor auto; vive em Loriga).

Publicamos também informação adicional sobre o encontro e os seus participantes:

1.1. Mensagem de António Brito Ribeiro

Data - quinta, 22/10/2026, 17:58

Maria de Jesus Mendes
Assunto - Registo de Memórias e Homenagem a Mãe

 Boa tarde, amigo Luís Graça,

Como prometido, envio em anexo o registo de memórias de alguns ex combatentes de Loriga que eu e o Adelino Pina (Alemanha) conseguimos registar com base em textos enviados pelos próprios, ou redigidos por nós com base em dados recolhidos (86 páginas em formato A4) .

Cada memória é a recordação / passagem, contada na primeira pessoa, de uma fase da nossa vida, que agora tem um sentimento especial mais ou menos sentido, mas quase sempre doloroso.

Por curiosidade encaminho-te para os textos dos dois “José Brito Ribeiro”, um na India e o outro (meu irmão) em Moçambique.

Envio-te também a folha de homenagem de Maria de Jesus Mendes, mãe de 4 filhos, ainda vivos que estiveram no ultramar:
  • Fernando António Mendes Alves, Moçambique, 61/63, Exército,
  • Nuno Mendes Alves Pereira, Moçambique, 70/72, Paraquedista,
  • Tarcísio Mendes Pereira, Timor, 68/70, Exército,
  • Vítor Manuel Mendes Alves, Angola, 71/73, Exército.

Em Loriga ainda houve outra família / mãe com 4 filhos no ultramar. Penso que poucas famílias tiveram esse n.º de filhos enviados para a guerra colonial. Gostaria que evidenciasses esta situação, porque estas MÃES devem ser devidamente homenageadas.

Abraço, António Ribeiro.

1.2.  Mensagem de  Luís Graça (by email)

Data - sábado, 24/10/2026, 21:32

António (e companheiros da mesa nº 5, em C/C) (Foto nº 37)

António: obrigado pelos documentos que me mandaste (o teu CV, que vou ler com toda atenção + testemunhos de antigos combatentes loriguenses, os da Guiné poderei publicar na Tabanca Grande + a foto da mãe loriguense Maria de Jesus Mendes que teve 4 filhos mobilizados, mas tu falaste de uma outra, que também me escapou, quando visionei o painel, "au vol d'oiseau")...

Publiquei já  a 3ª parte da nossa "reportagem" do encontro de sábado... E aproveito para pedir:

(i) ao Manuel Resende, para me confirmar os nomes dos membros da Tabanca da Linha, da mesa do Orlando Pinela, o Alpoim (Algés) e sobretudo o Ambrósio (Lisboa) (Foto nº 30);

(ii) a ti e ao Jaime, para me confirmarem o nome do antigo combatente que esteve em Angola e ainda é pastor na Serra da Estrela...Fiquei com a ideia que se chamava Abílio (Foto nº 31);

(iii) ao Hélder, para me lembrar o nome do "loriguense", dos TSF, que ele foi render em Piche (e que esteve no almoço);

(iv) ao João Crisóstomo, para me escrever "duas linhas" com as suas impressões (dele e da Vilma) sobre o encontro...(Oh, Vilma, não ficaste para o fim, houve música africana, como tu gostarias de ter ouvido ouvir, bolo da festa e "champanha"...).

Um alfabravo, para ti e todos os "camarigos" a quem mando esta mensagem em C/C.

PS - Já te transmiti, António, a impressão da Alice: em geral crítica como todas as nossas companheiras em relação a estes encontros ("da tropa"), foi sincera e pediu-me para te dizer que adorou e que te manda, a ti e demais loriguenses presentes, um abraço fraterno... Ficou impressionada com o nível do encontro em todos os aspetos. E ficou com vontade de, um dia destes, dar um salto até Loriga...

domingo, 25 de outubro de 2026 às 06:09:08 WET


1.3. Comentário do Hélder Sousa
 
Ora bem, aceitando o desafio do Luís Graça, sempre posso dizer que apesar de já termos estado em troca de comentários, nunca tinha chegado a estar "ao vivo" com o "Zé Bentinha", pois é esse o nome pelo qual ele responde, embora saiba que "Bentinha" é uma espécie de alcunha.

Ora o "Zé Bentinha" era o homem que tinha a responsabilidade de Posto do STM em Piche, imediatamente entes de eu para lá ser enviado. Por um motivo qualquer, que nunca esclareci bem, ele saiu de Piche e por esse motivo a chefia do referido Posto sofreu um hiato até à minha chegada na primeira semana de Dezembro de 1970.

Na prática fui substituí-lo mas nunca cheguei a estar com ele.

Já descobri, entretanto, que o "Zé Bentinha" é o José Mendes Gouveia, conforme escreveu, faz pouco tempo, o Brito Ribeiro nos comentários a outro "post".

Quanto ao evento foi, de facto, notável. Tanto na organização como na forma como decorreu. Sinceramente fiquei agradavelmente surpreendido. E aproveitei, a par do Jaime Suilva para voltar a praticar "falar francês" com a Vilma Kracun, esposa do João Crisóstomo.

Relativamente ao António Brito Ribeiro pois também foi um conjunto de circunstâncias que se precipitaram. Já o conhecia dos encontros na Tabanca da Linha, onde vou irregularmente, mas, claro, sabia dele muito pouco. E ele de mim.

Sabia que tinha estado na Guiné mas não quando nem onde.

Agora já sei que esteve em rendição individual no Batalhão de Piche que antecedeu aquele ao qual também estive adido durante cerca de 6 meses, mas não nos encontrámos por lá.

Entretanto ele também andou a pesquisar e ficou a saber que eu também era Engenheiro Técnico e telefonou-me na passada sexta-feira para saber se eu também pertencia à OET (Ordem dos Engenheiros Técnicos) e se sabia dum evento que iria ocorrer (e ocorreu) no sábado, dia 24 e, caso sim, se iria lá, para nos voltarmos a encontrar ao vivo.

Disse-lhe que sim e que certamente teria uma surpresa, pois não lhe disse que seria um dos oradores e que sou detentor de um cargo na instituição.

Correu tudo muito bem, exceto o facto de ele ter sido homenageado no grupo dos membros com 25 anos de associados, quando o deveria ter sido no grupo dos de 50 anos, o que o deixou bastante aborrecido.

Certamente foi um caso de erro administrativo (perfeitamente possível, dada a quantidade de elementos a tratar) mas que tivemos a possibilidade de abordar com o Bastonário, o qual, conjuntamente comigo, ficámos de averiguar o sucedido e depois agir em conformidade.

Na prática, um conjunto de sucessivos acontecimentos que se precipitaram e que mostram como a nossa "teia de contactos" permite estas coisas: 

(i) o João Crisóstomo ao dar-me os parabéns pelo telefone disse-me que gostaria de dar ao vivo e que devia contactar o Manuel Resende para que isso fosse possível num almoço em Sacavém; falei com o Resende que me passou ao Brito Ribeiro e assim lá fui;

(ii) conversa puxa conversa, e o Brito Ribeiro apercebeu-se da minha "função civil", seguiu a pista, e acabámos por nos encontrar num evento bem significativo;

(iii) sucedeu um percalço e, fruto do (re)conhecimento recente, tal será certamente resolvido.

Abraço, HS

domingo, 25 de outubro de 2026 às 23:57:00 WET 


1.4. Mensagem do A. Brito Ribeiro (by email)

Data - domingo, 25/10/2026, 23:37

Boa noite Luís,

Antes de mais um bem-hajas pelo relevo que tens dado ao evento realizado pelos ex-combatentes loriguenses de homenagem às suas mães.

Vou tentar responder às solicitações / observações que colocaste.

Como te referi, existem em Loriga 2 famílias/mães que tiveram 4 filhos no ultramar, uma foi a que te indiquei, Maria de Jesus Mendes. Não consegui indicação do nome da outra mãe que teve 2 filhos na Guiné, 1 em Angola e 1 em Moçambique (mas vou procurar).

Na mesa do Alpoim e do Orlando Pineda esteve outro magnífico da Tabanca da Linha, Fernando Pereira Ambrósio (Guiné 73/74) (Foto nº 30) (*).

Além do Fernando e de mim, estiveram ainda no evento mais 2 magníficos, o António Mendes Fernandes (mesa 1) e o José Mendes Fernandes (mesa 7). Faltou ainda à ultima hora o magnífico António Santos Pina.

O antigo combatente em Angola (67/68), pastor na Serra da Estrela, é o Abílio Gomes de Brito (Foto nº 31(.

O Combatente presente que como o Hélder pertencia às transmissões STM, é o José Mendes Gouveia (70/72), que atua no grupo Chão da Ribeira (baixo), irmão da vocalista Maria Mendes, que tu já enalteceste. Também esteve em Piche simultaneamente comigo, comforme foto que te envio em anexo.

Podes ter a certeza que tanto tu como a Alice serão sempre bem-vindos e bem recebidos em Loriga e irão adorar.

Abraço a todos,

António Ribeiro

quarta-feira, 28 de outubro de 2026 às 22:45:38 WET


 (Seleção, revisão / fixação de texto: LG)

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28470: (Ex)citações (450): Quando o "115" precisou de emergência médica (Carlos Vinhal, ex-Fur Mil da CART 2732)

Ilustração gerada por inteligência artificial com o ChatGPT, baseada em recordações pessoais da recruta nas Caldas da Rainha, durante o Curso de Sargentos Milicianos (abril–julho de 1969).


QUANDO O "115" PRECISOU DE EMERGÊNCIA MÉDICA

O último post do nosso amigo Artur Conceição,[1] sobre as vacinas que nos eram ministradas na tropa, lembrou-me um episódio passado no RI 5, Caldas da Rainha, durante a recruta.

Um dia fomos todos para a enfermaria do quartel a fim de recebermos a célebre vacina ou "injecção de cavalo", como era conhecida na gíria.

Longos bancos corridos num enorme corredor sombrio de chão de mosaico preto e branco, o pelotão todo em tronco nu esperava sentado, calmamente, a dita injecção.

Vem então um enfermeiro com algodão embebido em álcool, desinfectando um por um os recrutas. Mais atrás o segundo enfermeiro com uma tina cheia de agulhas que vai espetando nos nossos ombros. A seguir vem outro enfermeiro que vai injectando o desgraçado líquido e, finalmente, o último que de imediato remove as agulhas.

Todos nós conhecemos esta cena, mais ou menos assim.

No RI 5, cada um de nós tinha um número de ordem, na minha Companhia, a 6.ª, os números andavam pelo 2000. Eu era o número 2109, o meu amigo e vizinho de Leça, o Coelho, era o 2105, um camarada de S. Mamemede de Infesta (Matosinhos) era o 2107 e um camarada de Gaia, que dormia na cama ao lado da minha, seria o 2111.

Se bem se lembram, o número do emergência, hoje 112, era naquele tempo o 115. E nós tínhamos o nosso "115", mais propriamente o 2115, do qual não lembro o nome. Era um moço bastante alto, rondaria 1 metro e 80, magro e ar um pouco pálido.

Quando o enfermeiro, a quem competia injectar a vacina, passou, o 115 levantou-se de pronto, ainda com a agulha espetada. Alertámo-lo de que se devia manter sentado até lhe ser tirada. Ele, olhando por cima do ombro, vendo o canhão da agulha, de imediato perdeu os sentidos.

O "115" foi prontamente socorrido pelo pessoal de saúde ali presente, passando a partir daquele dia, e por uns tempos, a ser alvo das nossas piadas.

Lembro-me de a maioria de nós ficar com o braço "empenado" por uns dias. Acho até que nos mandaram de fim de semana prolongado.

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Notas do editor:

[1] - Vid. post de 27 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28467: Retalhos da vida militar (15): A Guerra do Ultramar e as Doenças Tropicais (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

Último post da série de 2 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28395: (Ex)citações (449): A velha placa que terá estado colocada em Mansoa (Artur Conceição, CART 730)

Guiné 61/74 - P28469: Historiografia da presença portuguesa em África (550): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (18): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Ganha-se a perceção de que o capitão Brosselard está muito orgulhoso de ter visto hasteada a bandeira francesa em Ziguinchor, e em modo de relatório descreve as novas possessões francesas, deixa-nos um retrato minucioso até da presença portuguesa em Ziguinchor, deixando crítica velada às nossas autoridades por terem consentido que as populações mantivessem usos e costumes que ele classifica como ultrajantes e bárbaros.
Confesso que o aspeto mais luminoso de todo este relato de Brosselard é ele falar no norte da colónia da Guiné portuguesa e a sua grande coesão com o território do Casamansa, logo os negócios entre Cacheu e o rio Casamansa, as matérias primas que iam até Selho vindas do Gabu, o elogio que ele faz da exploração das madeiras, sugerindo que o mesmo deva ser feito no baixo Compony. Aproveita para visitar os arredores de Ziguinchor, e ficamos a saber que o mosaico étnico era praticamente similar, dirá mesmo que as populações estabelecidas no Casamansa e rio Cacheu eram Djolas, Felupes e Banhuns e que os Balantas e Mandingas habitavam no alto Casamansa e no distrito de Farim. Veja-se a ironia da História, o preço de separar povos, etnias vizinhas, com convivências multisseculares.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 18
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Após uma apreciação sobre as interligações entre o Casamansa e a colónia portuguesa da Guiné, falando inclusivamente das riquezas em madeiras que se podem encontrar entre o Casamansa e o rio de São Domingos, bem como no rio Cogon, o Capitão Brosselard volta ao Casamansa, vamos registá-lo no seu discurso na primeira pessoa do singular.

As florestas do Casamansa são muito abundantes em casa e servem de antro às legiões de panteras. Durante a minha estadia em Ziguinchor tomei nota que um desses animais vinha todas as noites roubar os porcos de uma povoação vizinha, então fui ao dito lugar e ao cair da noite escondi-me a trezentos metros das casas. Estava acompanhado de um caçador da região que gozava de grande reputação, teve o cuidado de fazer amarrar a alguma distância uma cabra cujos balidos só podiam encorajar o senhor da floresta.

Uma hora, duas horas de espera passaram-se sem que nada acontecesse, tínhamos a luz da lua; enfim, a fera apareceu, avança lentamente, para, parece escutar; não está a mais de sessenta metros de nós e dispõe-se a atirar-se à sua presa. A infeliz cabra treme e lança gemidos que parecem uma oração. Dois tiros ecoam quase ao mesmo tempo; o animal dá um salto formidável, creio no instante que se vai atirar a nós, mas cai e não se mexe mais; a bala da minha carabina atingiu-o no dorso.

Os negros acorrem da povoação, esfolam, cortam a mandíbula porque a pele com as garras e os dentes têm um certo valor. Esta pele é uma das mais belas da minha coleção. Em 1837, a ocupação de Carabane tinha sido cedida da posse da ilha de Guimbéring. Nesse mesmo ano, uma comissão foi encarregue de procurar no rio um lugar favorável para a criação de um posto. A comissão escolheu um lugar de Selho, no Poudhié. Situado no centro de uma região rica, e habitado por uma população inteligente e trabalhadora, este novo estabelecimento só podia prosperar, estando seguro por uma boa proteção. Também se construíram grandes estabelecimentos e rapidamente a escala francesa tomou o aspeto de uma pequena povoação. Encontram-se agora aqui numerosas fontes de água a correr; belas avenidas onde estão plantadas árvores magníficas; há caminhos bem mantidos; uma igreja e uma escola francesa em que prestam serviço missionário. Numerosas e bonitas povoações agruparam-se à volta de Selho cuja defesa está bem organizada.

O forte foi construído ao pé de Selho, à beira-rio, as suas muralhas estão perfuradas por seteiras e os seus bastiões estão equipados com cinco peças de artilharia. A escola se Selho funciona em excelentes condições; é habitualmente frequentada por 79 alunos, alguns são bastante instruídos e fazem exames com sucesso, no fim do ano escolar fazem exames de admissão à escola secundária de S. Luís. Selho recebe algodão trazido do Gabu, exporta muitas toneladas, o resto é empregue na região e trocado com os Felupes e Banhuns. Os principais produtos comerciais são o arroz e o amendoim. Ziguinchor é o grande entreposto do arroz e Selho comercializa o amendoim.

Ensaiou-se a cultura da vinha, uma cepa deu duas colheitas no mesmo ano. Nada tem de extraordinário, pois no Casamansa todos os produtos que enriquecem os países quentes e tropicais dão-se aqui admiravelmente, e os legumes da Europa são cultivados com sucesso. As populações estabelecidas no Casamansa e rio Cacheu são Djolas; os Felupes e os Banhuns no baixo Casamansa e distrito de Cacheu; os Balantas e os Mandingas no alto Casamansa e no distrito de Farim. Os Djolas apresentam muito pouca genuinidade da raça indígena e estão muito misturados por elementos estrangeiros dos países vizinhos. Estes negros embriagam-se com vinho de palma e aguardente, e sofrem a influência nefasta da feitiçaria. Os Felupes habitam sobretudo as regiões pantanosas da margem direita do Casamansa, eles trabalham de uma maneira admirável a cultura do arroz.

As expedições de Hilor e de Thiong, em 1860, asseguraram a soberania da França sobre os territórios dos Felupes. Mas de 1877 a 1888 estes territórios foram devastados por Fodé-Kaba e os infelizes habitantes que puderam escapar à escravatura refugiaram-se sob a proteção dos postos coloniais. Foi assim que muitos povoados se criaram à volta de Ziguinchor. Os seus habitantes vieram em minha solicitação prestar juramento de fidelidade à França.

A sul, os Felupes têm por vizinhos os Banhuns que foram no passado um estado poderoso, eles ocuparam a maior parte dos territórios compreendidos entre a Gâmbia e o Cacheu; os seus reis eram sagrados sobre as pedras fetiches de Piedras e o seu cetro de ouro está conservado em Diagnou, na margem esquerda do Casamansa.

Os Banhuns são afáveis e bons cultivadores; infelizmente, têm por vizinhos bandidos de profissão, os Balantas, que estão espalhados pela margem direita do Geba e chegaram no século XIX ao rio Cacheu, estabeleceram-se nas magníficas florestas de S. Domingos e abriram caminho até ao Casamansa. Caçadores intrépidos, procuram as florestas impenetráveis e cheias de caça, e põem com sucesso uma barreira intransponível ao fluxo mandinga na região compreendida entre o Casamansa e o Cacheu.

Os Mandingas são originários dos países montanhosos do Alto Níger. Contidos pelos Fulas, disseminaram-se na baía superior do Casamansa e conquistaram a região à volta de 1830. Muçulmanos fanáticos e muito guerreiros, eles trazem com eles os germes de uma civilização civilizada.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Bilhete postal antigo de Ziguinchor, chegada dos pescadores
Postal antigo de Ziguinchor, chegada do correio
Bilhete postal antigo de Ziguinchor, dançarinos da região
Bilhete postal antigo, Mandingas de Farim
Bilhete postal antigo, Balantas

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 21 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28453: Historiografia da presença portuguesa em África (549): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (17): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28468: O segredo de... (54): Foi com as praxes ("Piriquito, vai p'ró mato!"...), que comecei a beber o bom uísque velho (Victor Costa, 1952-2026)











~






Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Victor Costa  (2022)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI (2026)




1. Há 13 anos atrás, fizemos aos nossos leitores um inquérito por questionário "on line" sobre as "praxes" militares. O período de respostas decorreu entre  14 a 20 de fevereiro de 2013. Pedia-se a opinião do leitor em relação à frase "As praxes aos piras, no meu  tempo, não lhes fizeram mal"...

Responderam 81 leitores. Comentámos, na altura:

(i) os resultados evidenciam um certa fratura relativamente à questão em apreço;

(ii) e qualquer modo, as respostas negativas poderão estar enviesadas pelas denúncias,  nestes últimos anos, de abusos cometidos com as praxes quer académicas quer militares, abusos de que a comunicação social se tem feito eco;

(iii) alguns de nós poderão também ter passado por experiências individuais negativas, nomeadamente cá na Metrópole, no período de instrução militar (recruta e especialidade);

(iv) apenas 1 em cada cada 4 dos respondentes à nossa "sondagem" discorda  do enunciado, revelando por isso uma opinião negativa em relação às praxes a que eram submetidos, no TO da Guiné, os "piras" (abreviatura de "periquitos", os recém-chegados);

(v) um em cada cinco não tem opinião sobre o assunto, não se tendo prounciado a favor ou a contra;

(vi) pelo contrário, mais de metade (53%) dos respondentes manifestou uma opinião favorável  às praxes e aos efeitos benéficos sobre os "piras"...

Todos, de uma maneira ou doutra, fomos submetidos à praxe da receção. A maior parte, resumia-se às estafadas "bocas" dos "velhinhos": "Piriquito, vai p'ró mato!"






2. O Victor Costa (1952-2026) que chegou ao CTIG  a um mês do 25 de Abril, e que era de rendição individual, já aqui tinha partilhado connosco as suas memórias da ida para a Guiné e da receção que teve no QG/CTIG... 

De algum modo, foram "pequenos segredos" que ele-nos quis contar, mesmo sabendo nós que "há segredos que não se contam, vivem-se": por exemplo, terá sido graças às praxes do bar de  sargentos do QG/CTIG, à sua chegada, que ele se terá tornado um bebedor (moderado) de uísque, ao longo da sua vida.

São impressões que,  mais de 500 anos depois dos primeir0os navegadores do Infante Dom Henrique terem bebido a água do Geba, vão "enriquecer" a história com h pequeno da presença dos "tugas" naquele pedaço de terra da África Ocidental (na altura, a Senegâmbia): 


 Foi com as praxes ("Piriquito, vai p'ró mato!...), que comecei a beber o bom uísque velho  

por Victor Costa (1952-2026)




(i)  CICA 2: a "política" não fazia parte do programa da semana de campo...


(...) Cruzei-me várias vezes com o Jaime Gama no CICA 2 (Centro de Instrução de Condução Auto nº 2, na Figueira da GFoz) , mas apenas falei com ele 4 vezes durante um serviço comum, ele no papel de Oficial de Dia e eu no papel de Sargento de Dia. 

Foi o único contacto directo que tive e por isso não dá para falar do ex-Presidente da Assembleia da República, enquanto pessoa ou militar. Desse dia recordo a imagem dum indivíduo pouco falador, não dava nas vistas, não era vaidoso, não era militarista mas cumpria as regras. Depois da minha mobilização foi um exemplo a seguir para evitar problemas na tropa.

No final da recruta do 1.º turno em fevereiro de 1974,  no CICA 2, realizou-se a semana de campo numa mata chamada Foitos, localizada na freguesia de Louriçal. Apesar de  ter decorrido  sem incidentes, ficou gravada na minha memória para sempre. 

No penúltimo dia da dita semana, uma 5.ª feira, houve melhoria de rancho, o Vitor Costa pouco bebia e não era todos os dias que se comiam febras na brasa (rancho melhorado) e eu aproveitei a oportunidade para regar as febras com tintol.

Com o aproximar da noite, a bebida a subir à cabeça e eu, eufórico, decidi fazer uma sessão de esclarecimento à tropa contra a guerra colonial, estava a dita tropa já acomodada dentro das viaturas Morris cobertas com toldo. 

Que seca... deviam pensar os soldados, quem pensa este gajo que é. Quando terminei a sessão, lá fui para o acampamento do "IN" a que pertencia, salvo erro, com a arma e as munições simuladas.

No dia seguinte, sexta-feira, com a boca ainda seca, começaram os preparativos para a tropa regressar ao quartel e o Victor Costa ia recordando as peripécias da noite anterior e nem me queria lembrar daquilo que tinha feito. 

Na segunda-feira seguinte e durante a semana tudo decorreu sem incidentes e eu, já mais calmo, comecei a pensar que afinal não tinha dado nas vistas. 

Mas veio a outra segunda-feira e, às nove horas da manhã, chamaram-me pelo altifalante do quartel, ao gabinete do 2.º comandante, o major Pires. Ao chegar à porta faço anunciar-me, faço a continência e, "V.ª Ex.ª meu Major,  dá-me licença", segue-se um momento de silêncio e lá veio a resposta:

−  Entre, nosso cabo miliciano, esteja à vontade.

 Seguiu-se um período de silêncio.

−  Então a semana de campo correu bem  ?! 
−  pergunta-me de chofre.

Seguiu-se um período de silêncio e lá veio a resposta.

 −  Sim,  meu major,  correu bem...

 
 −  Hum  −  ouvi eu...

 −  Mas ouvi dizer que houve política,  que não estava no programa da semana de campo... 

Silêncio.

Seguiu-se uma lição de meia hora sobre dever, disciplina, exemplo a dar à tropa, a política não era para ali chamada etc. E a terminar:

 − Olhe, quero dizer-lhe que foi mobilizado para a província portuguesa da Guiné para render um camarada seu. É tudo, pode sair.

Faço a continência, despeço-me, dou meia volta aos tacões e lá segui para casa, com a convicção que tinha mijado fora do penico e falado de mais. 

Daquela reunião com o 2.º comandante, fiquei também a saber com quantos paus se faz uma canoa, ou seja, havia um pau que tinha uma ponta no bico e tinha havido uma mão que tinha aproveitado o pau para escrever.


(ii) Piriquito vai no mato... ólé-lé-lé


Aqui começou o início de uma nova vida, seguiram-se 10 dias de licença para tratar da farda e da papelada, no Depósito Geral de Adidos de Lisboa, e apanhar um Boeing 727 dos TAM (Transportes Aéreos Militares)  em Lisboa e daí para Bissalanca. 

Até nisso eu tive sorte, porque foi a primeira vez que andei de avião. Ao chegar a Bissalanca já tinha uma carrinha Mercedes do Exército para me levar para os quartos do QG/CTIG,  em Bissau, junto ao bar de Sargentos.

No outro dia depois de arrumar a mala com o fardamento e outros pertences, dirijo-me para o dito bar e, ao passar pelas mesas na esplanada, começo a ouvir umas bocas que me eram dirigidas, não liguei e dirigi-me para o balcão.

As bocas, "piu... piu... piu"..., eram de gozo, divertidas, nunca as tinha ouvido e com tendência para aumentar. 

Que sorte, eu a pensar que ia ver gente triste e carrancuda e sai-me esta cena... A seguir,  de uma das mesas,  começa um coro, que só lhe faltava a música. 

Hoje já não existem praxes pelo menos daquele tipo, para mim que sempre gostei de praxes, esta foi do melhor, ser praxado permite conhecer novas pessoas e uma boa integração melhora o nosso moral.

Entretanto o coro foi aumentando:

Piriquito vai no mato... ólé-lé-lé
que a velhice vai no Bissau... óla-ré-lé-lé
salta, salta piriquito... 
ólé-lé-lé
que a velhice já saltou...
óla-ré-lé-lé

E a festa continuou.

Numa das mesas as picadelas tornaram-se mais fortes e foi para lá que eu me dirigi para os cumprimentar. Nem parecia que tinha chegado à Guerra;

  − De onde és ?  − pergunta um.

  − Não havia sol lá na terra ?   −diz outro.

 − Para onde vais?

  − Vai trocar as divisas porque essas cheiram a leite! ...(Ainda hoje tenho as divisas de outro furriel.)

 −  O que queres beber ?

 

(iii)  10$00 (escudos ou "pesos") = 2 uísques, a minha dose diária


Foi aqui que comecei a beber o bom Whisky Old Parr, simples e seco, porque a água estraga o whisky e este, 5$00 a bolha e 127$50 a garrafa, era barato.

(...) Depois de começar a beber bom Whisky é difícil parar, só temos que manter o controle da situação. A primeira coisa que me lembro quando cheguei à CCaç 4541/72, foi da minha deslocação ao barraco, perdão queria dizer Bar, pedir um Old Parr e o soldado dizer que não havia, porque dava prejuízo... Foi a minha oportunidade para saber quantas bolhas tinha uma garrafa e ensinar o soldado a gerir o bar.

De facto 5$00 por cada dose e sendo elas 28, dava para ganhar dinheiro, mas a melhor opção seria vender do Dimple porque a garrafa custava 125$00, ainda hoje é raro o dia, não beber um uísque  a seguir ao almoço. 

As moedas que ainda mantenho na minha posse têm a ver com uísque. Na tropa aprendi que há limites para tudo e 10$00 correspondia a dois uísques e eram suficientes para andar direito, não falar demais, não dar nas vistas e não fazer coisas que nos tragam problemas. É o melhor remédio


(iv) Ordem para ir fazer o espólio de um morto

(...) Só no dia seguinte é que comecei a ouvir relatos sobre a guerra. O ambiente era bom, não fosse a saturação e a pancada no sotão, com alguns "velhinhos", com mais de 28 meses de comissão (!), fartos daquilo que era a fruta da época,  a aguardar que os mandassem para casa. 

Na minha primeira visita ao "Barracão" (perdão queria dizer Hospital Militar de Bissau),  para visitar uns amigos do "velho" furriel Bilhau, da Leirosa, é que vi que tinha chegado à Guerra.

No dia 17 de março de 1973, ao som do altifalante e da voz de Raul Solnado, que falava das munições da Guerra de 1908, recebi a ordem para fazer o espólio dum furriel miliciano morto em combate na região de Bafatá e que era o objecto da minha mobilização.

Foi um momento difícil:

  • conhecer o historial desse camarada, 
  • fazer a seleção dos seus pertences para os enviar à família;
  • e queimar a correspondência imprópria das cartas enviadas por cinco mulheres ou raparigas que com ele tinham tido uma relação muito íntima (não sei se seriam madrinhas de guerra ou outra ligação qualquer, a verdade é que aquele tipo de escrita até dava vida a um morto).

Fiquei então a saber que a fotografia dele de camuflado com chapéu à cowboy com a Walther de 9 mm a pender para o lado direito,  pronta a sacar,  não era nada, quando comparada com a dita escrita das cartas. 

Apenas o vi em fotografias, não vi nem o caixão.  E a dita escrita não permitiu saber que tipo de vida levava na Metrópole. Prefiro recordá-lo apenas como um guerreiro com tomates.

Entretanto, a dita rendição para Bafatá nunca se concretizou, nem cheguei a saber a razão. O facto é que fui direitinho para a CCaç 4541/72, em Safim, para aprender a arte da guerra. 

(v)  Sem complexos de esquerda ou de direita

(...) Destas recordações sobre a minha mobilização para a Guiné, resta-me apenas um papel timbrado que a grande maioria não possui, que guardo como recordação e sem complexos de esquerda ou de direita. 

O facto de ser contra a situação da guerra nas ditas colónias, refletia o pulsar da juventude do meu tempo e ela só trazia problemas.

Mas uma vez chegado à guerra da Guiné, o meu lado da barricada estava escolhido, a minha obrigação era cumprir e fazer cumprir as ordens, respeitar a hierarquia e fazer a guerra, ali comecei a respeitar aquele povo.

Mas também a aprender que, afinal, além de ter costelas de esquerda, tinha uma mão direita e um dedo que disparava a G3 apenas com o apoio do braço e da anca do mesmo lado e enquanto existissem ordens as ditas eram para funcionar.

A minha passagem pela Guiné mostrou-me que, se o Regime que nos conduziu à Guerra não era bom, o PAIGC não era melhor e as minhas costelas de esquerda começaram a perder força.

 Entre outras coisas eu consegui uma Declaração em papel timbrado de uma comissão por imposição, que nem o filho do Secretário do Gabinete do Ministro das Colónias, Baltazar Rebelo de Sousa, dessa altura,  tem. (...)

 (Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)

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Nota do editor LG: