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quarta-feira, 6 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27991: Humor de caserna (262): O poeta Bocage (que foi oficial da marinha de guerra) e o Café Nicola, no Rossio, em Lisboa

Estátua em bronze do Bocage.
Café Nicola, Rossio, Lisboa.
Autor: Marcelino de Almeida
(1929)
1. Não sou bom a contar anedotas, ao vivo, à volta da mesa, numa roda de amigos... É uma arte, que não é para todos, inventá-las e sobretudo contá-las. Mas gosto de as reescrever e recriar... 

Esta, é mais uma do Bocage, que me foi contada,  se não erro,  na tropa ou já na Guiné. Nunca a  esqueci, passados  mais de 50 anos, o que é caso raro em matéria de repertório de anedotas. O meu é muito pequeno.

De facto, também não sou bom a lembrar-me das anedotas. Faltam-me sempre aqueles detalhes que dão o picante à(s) história(s)... É como os coentros nas ameijoas à Bulhão Pato ou nas favas soadas... ou o piri num franguinho grelhado.

Na altura já conhecia os célebres versos do "Calafate" ou "Cantador de Setúbal", sobre "A Quinta da Panasqueira",  publicados no poste P27990 (*), por via da célebre "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica" (seleção, prefácio e  notas de Natália Correia, 1965), que li clandestinamente. (Não consegui apanhar a 1ª edição, vivia na província, o livro foi rapidamente confiscado, mas houve um amigo que teve a sorte de ficar com um exemplar.)

Neste caso, que vou reconstituir de cor, ainda hoje desato a rir pelo absurdo e caricato da situação. É uma anedota, caro leitor, que mete, com a sua licença,... m*rda. Logo, é humor... escatológico. Mas que tem perfeito cabimento na nossa série "Humor de Caserna". 

Só tem graça porque, além da dita m*rda, mete o Bocage, um botequim e uma ventoinha de teto (ou ventilador elétrico). 

Ora, este  equipamento (precioso num território como a Guiné, no nosso tempo, a par do frigorífico a petróleo) só será inventada em 1882, mais de 3/4 de século depois da morte do Bocage (1805). 

Portanto, há aqui um anacronismo: naquele tempo, nos finais do séc. XVIII, ainda não havia eletricidade, não podendo haver por isso ventoinhas (muito menos de teto)... Mas devia haver "buracos" para ventilação e respiradores, nos edifícios pombalinos...E isto passa-se na baixa pombalina, no Rossio...

De resto, as ruas da capital eram iluminadas por candeeiros a azeite, num sistema criado a partir de 1780  pelo intendente da polícia Pina Manique. (Depois do azeite, veio o petróleo, o gaz e finalmente a eletricidade; o funcionário camarário que acendia  e apagava os "lampiões", antes da iluminação elétrica,  eram os "vaga-lumes", popularmente mais conhecidos como "caga-lumes").

À parte o anacronismo, a anedota tem piada porque ilustra o talento de improvisador, de repentista, que a tradição oral atribui ao poeta sadino,  frequentador do Botequim do Nicola, no Rossio, em Lisboa.

O Botequim do Nicola (cuja fundação remonta a 1787, em pleno reinado de Dona Maria I (que vai de 1777 a 1815) era o centro das tertúlias intelectuais e conspiratórias de Lisboa. E das rusgas da polícia (Intendência-Geral da Polícia da Corte e do Reino, criada pelo Marquês de Pombal, em 1760). 

O Botequim (do italiano botteghino, diminutivo de bottega, loja), foi fundado por um italiano chamado Nicolau Breteiro, vulgo "Nicola". Posteriormente o negócio foi assumido pelo português José Pedro Silva, que manteve o nome do estabelecimento.

O cliente mais mais conhecido na época foi o nosso poeta, de seu nome completo Manoel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), de ascendência francesa, cuja vida, aventurosa e boémia, mas também militar e literária,  ainda hoje está mal documentada: sabe-se, por exemplo,  que foi oficial da marinha de guerra, andou pela Índia e pelo Brasil, até começar a ter problemas com a Inquisição e a polícia do Intendente Pina Manique...  Viveu pobre, morreu miserável. E hoje ajuda a vender lotes de café em grão... "italiano"! 

Diz a tradição que José Silva, o proprietário do Botequim do Nicola, terá sido uma espécie de mecenas do poeta, apoiando-o na fase terminal da sua vida, com o poeta maldito já doente e pobre.


Retrato gravado a buril e água-forte
por Joaquim Pedro de Sousa (1818-1878). 
Fonte: Wikipedia

O Botequim, mais tarde Café Nicola, continuou a ser um ponto de encontro de escritores, jornalistas e políticos, atravessando vários regimes e épocas. Sofreu remodelações ao longo do tempo. Na II Guerra Mundial, foi um dos cafés de Lisboa onde se misturavam refugiados, escritores,  espiões e polícia política.

Em 1929, a fachada foi redesenhada pelo arquiteto Manuel Norte Júnior. Foi também inaugurada uma estátua do poeta, em bronze,  da autoria de Marcelino de Almeida. 

Em 1935, o interior foi modernizado em estilo Art Déco, pelo arquiteto Raul Tojal (1899-1969), com pinturas a óleo de Fernando Santos (1892-1965) que retratam cenas da vida de Bocage. 

Estas intervenções deram ao Nicola o aspeto que ainda hoje se pode admirar, sendo atração turística, "loja histórica" e património da cidade de Lisboa.

O Café Nicola, enquanto marca, também se expandiu: no fim do século XIX e início do XX, abriram filiais em várias cidades portuguesas (como Coimbra e Figueira da Foz), e hoje existem 13 cafés e quiosques com o nome Nicola em Portugal (incluindo a minha terra, Lourinhã). 
2. Mas vamos à anedota (*): num dia de calor, estava o Bocage no Nicola com o seu grupo de tertúlia, mesmo no centro da sala.

Entrou um sujeito, a correr, "muito à rasca" (sic), a perguntar ao empregado onde era a "caganeira"... "Ao cimo das escadas", respondeu maquinalmente o "garçon". O sujeito subiu as escadas já com as calças na mão. Mas, com a atrapalhação,  não deu com a retrete. Aliviou-se no primeiro buraco que encontrou...

Desceu as escadas, mais descontraído, e a assobiar, enquanto ajeitava calmamente as calças e a jaqueta... Mas, para seu espanto, havia um reboliço enorme de mesas e cadeiras, com os clientes a fugirem para a rua, aos berros.

O cheiro tornou-se insuportável e, ao sentir o odor, e sobretudo ao levar com os salpicos de m*rda na cara, no cabelo e na camisa (branca) de janota, o Bocage levantou-se de um salto e declamou, alto e bom som, em cima de uma mesa, estes versos em redondilha maior que ficaram para a história:

Pelo  cheiro não é fruta,
Nem p'la cor é farinha,
Quem foi o filho da puta
Que cagou na ventoinha?!
______________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 5 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27990: Humor de caserna (261): "Apalpar a fruta" (neste caso, a "papaia"...)

4 comentários:

antonio graça de abreu disse...

Depois de uma noite de patuscadas no café Nicola, Bocage regressou a casa a pé, na Travessa André Valente, no Bairro Alto. A casa ainda existe. Na escuridão da noite foi assaltado, o ladrão apontou-lhe uma arma e perguntou-lhe:

"Quem és? De onde vens, para onde vais'"

Bocage respondeu:

"Sou o poeta Bocage,
venho do Café Nicola
e vou para o outro mundo
se disparas a pistola."

abraço

António Graça de Abreu

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Nas nossas companhias, no CTIG, faziam-se "jornais de caserna" , com alguma regularidade ( em muitos casos, fizeram-se duas, ou três edições, no máximo meia-dúzia). A "stencil". Davam uma grande trabalhadeira, mas ajudavam a manter o "moral". Inevitavelmente havia uma secção de anedotas. Todos os combatentes precisam de humor. E provável que a malta se lembrasse das anedotas do Bocage. Mas a autocensura fazia parte do "sistema". Já estava no ADN. Afinal, nascemos todos sob a ditadura. O respeitinho era muito bonito, dizia o capitão e o capelão. Mas a gente acrescentava: e o riso ainda mais...



Tabanca Grande Luís Graça disse...

Mesmo antes do 25 do Abril, havia "válvulas de escape": apesar da censura, o teatro de revista era popular... E até algum cinema. Nas vilas e pequenas cidades do interior, havia as "récitas". E todos os jornais tinham a sua secção de anedotas, que depois se repetiam nos escritórios e repartições públicas. Mas a "rua" ainda era a melhor fábrica de anedotas no Estado Novo. Aqui não chegava o lápis azul dos coronéis da censura.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Mesmo antes do 25 do Abril, havia "válvulas de escape": apesar da censura, o teatro de revista era popular... E até algum cinema. Nas vilas e pequenas cidades do interior, havia as "récitas". E todos os jornais tinham a sua secção de anedotas, que depois se repetiam nos escritórios e repartições públicas. Mas a "rua" ainda era a melhor fábrica de anedotas no Estado Novo. Aqui não chegava o lápis azul dos coronéis da censura.