
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Novembro de 2026:
Queridos amigos,
A exposição de João Pina, que tem por fundo o seu livro publicado pela Tinta-da-China em 2024, baseou-se num arquivo familiar dos seus bisavós (Luís Alves de Carvalho e Herculana da Costa Dias Carvalho) e do seu avô Guilherme da Costa Carvalho (1921-1973), um militante do Partido Comunista; este arquivo é constituído por fotografias e correspondência (cerca de 800 cartas), incide na sua prisão política no campo de concentração do Tarrafal entre 1959 e 1961. Neste "campo da morte lenta" estiveram aprisionados centenas de pessoas de diversos quadrantes ideológicos. Os pais de Guilherme receberam a permissão especial para o visitar, foi-lhes permitido fotografar todos os presos. Desta exposição, com pouco mais de pormenor, falaremos mais tarde, hoje irei contemplar belíssimas obras de Sorolla e Cândido Portinari e daqui parto para uma exposição de um artista plástico angolano que nos irá falar da Guiné.
Um abraço do
Mário
Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (123):
Exposição “Terás visto o mar? Memórias do Tarrafal”, de João Pina, antes damos uma saltada até à Guiné, também recomendamos esta visita - 1
Mário Beja Santos
Extraído da folha de sala:
“Com curadoria de Emília Tavares, Terás visto o mar? Memórias do Tarrafal assinala os 100 anos da instauração dos regimes ditatoriais em Portugal e os 90 anos da criação do Campo do Tarrafal. Resultado de vários anos de investigação desenvolvidos por João Pina em torno da história e memória daquele campo de concentração em Cabo Verde, a exposição revisita um dos mais emblemáticos lugares de repressão política do Estado Novo. O título inspira-se numa das cartas enviadas ao seu avô, Guilherme da Costa Carvalho, enquanto ali esteve preso.
Com origem no arquivo familiar do artista, constituído por cerca de 800 cartas, fotografias e documentos pertencentes aos seus bisavós, Luís Alves de Carvalho e Herculana da Costa Dias Carvalho, e ao seu avô, Guilherme da Costa Carvalho, preso político no Tarrafal entre 1949 e 1951, a exposição reúne aproximadamente 250 imagens e documentação histórica.
Através deste conjunto documental singular, João Pina revisita a memória da resistência antifascista portuguesa, questionando simultaneamente as heranças do colonialismo e a forma como a fotografia pode contribuir para a construção de uma cultura de liberdade e consciência histórica.
Reunindo fotografias contemporâneas, imagens de arquivo, objetos, documentos históricos e testemunhos, a exposição aborda o Campo do Tarrafal enquanto símbolo da repressão política do Estado Novo. Criado em 1936 para encarcerar opositores ao regime, o campo acolheu posteriormente militantes dos movimentos de libertação das então colónias portuguesas, apenas encerrando as portas em 1974 após a revolução portuguesa.
Através do cruzamento entre investigação documental e prática fotográfica, João Pina constrói uma narrativa visual que recupera experiências frequentemente ausentes da história oficial, abordando temas como a resistência, a violência política, a memória pós-colonial e a transmissão intergeracional das experiências traumáticas. A exposição permanece no MNAC até 24 de janeiro de 2027.”
Lera no site do MNAC – Museu do Chiado que estavam patentes obras que me interessavam rever, particularmente a pintura de Sorolla, Pescadoras valencianas, e Chôrinho, de Cândido Portinari (1903-1962), um importante pintor de índole neorrealista, há anos que não via esta obra que faz parte do património do MNAC. Seguiria depois para a exposição de Délio Jasse, estava intrigado quanto aos apetrechos da sua técnica fotográfica e audiovisual. Comecei por Sorolla e Portinari. Pescadoras valencianas é uma imponente tela em que o pintor luminista celebra o quotidiano das mulheres que aguardam na margem a chegada dos barcos carregados de peixe para depois o venderem. Tinha muitas saudades de facto de ver Chôrinho. Nesta roda de Chôrinho, música genuinamente brasileira, reúnem-se músicos, uns sentados, tocando cavaquinho e cuíca, instrumento musical afro-brasileiro, semelhante a um tambor, com uma haste de bambu, outros, de pé tocam trompete e clarinete. Esta obra integrava um conjunto de oito painéis de temática musical que decorava a Rádio Tupi, no Rio de Janeiro, em 1942. Após um grande incêndio nesta emissora, o seu proprietário, Assis Chateaubriand, doou duas pinturas sobreviventes ao Estado português. Chôrinho, passou a integrar a coleção do MNAC, a outra obra é património do Museu Nacional Soares dos Reis. O que mais aprecio nesta obra que me parece sobretudo modernista é a construção geométrica dos fundos e a planificação de volumes.
No seu trabalho fotográfico, entrelaça frequentemente imagens encontradas com pistas de vidas passadas (fotografias encontradas, álbuns de família etc.) aproximando-se do conceito de “imagem latente” vs. a memória. Utiliza processos analógicos para subverter a reprodutibilidade do meio fotográfico, criando variantes e intervenções subtis com recurso à pintura, luz líquida, folheamento a ouro e colagem.
Vamos agora entrar na exposição alusiva ao trabalho de João Pina focado no campo de concentração do Tarrafal, vamos ser confrontados com imagens dos presos políticos naquele lugar de Chão Bom, imagens de uma viagem onde uma mulher se curvou em homenagem junto de campas, e iremos também na companhia de João Pina à sua viagem a este ponto de martírio na ilha de Santiago.
Para a curadora Emília Tavares, a exposição de João Pina reafirma a importância da imagem como instrumento da resistência política e aborda uma reflexão geracional de alguém que nasceu em democracia, mas cuja família sofreu a opressão das ideias, da liberdade e dos direitos cívicos durante a ditadura do Estado Novo.
Nas suas viagens ao Tarrafal, Luís Alves de Carvalho e Herculana da Costa Dias de Carvalho, produziram um testemunho dos assassinatos políticos ocorridos no campo, sobretudo na sua mais violenta fase, entre 1936 e 1948. O gesto de Herculana ao de pôr flores em cada uma das campas dos 32 presos ali sepultados, dos quais 26 são patentes, foi registado por Luís Alves de Carvalho através da imagem fotográfica.
(continua)
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Nota do editor
Último post da série de 31 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28479: Os nossos seres, saberes e lazeres (757): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (277): Um jardim zen à moda de um jardim de Quioto, no Planalto das Sezaredas (Mário Beja Santos)











































