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sábado, 13 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28095: Humor de caserna (273): Ao Tony, vocalista da banda "Os Bambas D'Incas", com votos de que ainda continue vivo, e romântico mas... "não trôpego"


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Fotos: José Maria Sousa, José Carlos Lopes, António Murta, Miguel Rocha |Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.

Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá >Setor L1 > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > c. maio de 1969

Representação artística da parada do quartel de Bambadinca: visita da presidente do Movimento Nacional Feminino, Cecília Supico Pinto (1921-2011), mais conhecida por "Cilinha"; atuação  Conjunto Musical  Os Bambas D'Incas, formado por militares do batalhão; o vocalista Tony, de joelhos, dedica à presidente do MNF uma canção romântica, adapatdo da letra e música de "Oh,  Mónica", do cantautor Alberto Cotrez (1940-2019)

Tony, "romântico...
ma non troppo"

1. O vocalista do conjunto musical Os Bambas D'Incas, Tony, "cantor romântico", soldado de tranmissões mais velho que a maioria de nós (era da incorporação de 1961!), adaptou e cantou uma letra do cantautor argentino (e depois naturalizado espanhol) Alberto Cortez (1940-2019), "Ó Monica", dedicada à "Cilinha", a presidente do Movimento Nacional Feminino, Cecília Supico Pinto (1921-2011, morreu ia fazer 90 anos), na sua visita a Bambadinca no início do mês de maio de 1969...

Para mim, e sem desrespeito pelos camaradas que a admiravam, ela era um "canastrão", que fazia (mal) o papel de "Jocasta" que, nunca tendo filhos do seu ventre, adotou os filhos da "Pátria" que matavam e morriam na guerra... Mulher poderosa, íntima e confidente de Salazar, dirigiu o "patriótico" Movimento Nacional Feminino com coração, galhardia e mão de ferro... Foi pelo menos 4 vezes a Guiné, a que chamava a "minha Guinezinha"... Esteve em Bambadinca no princípio de maio de 1969, ainda  eu não estava lá (ia a caminho),  a escassas 4 semanas do aquartelamento ser atacado em força pelo PAIGC.

Não conheço a letra que o Tony lhe compôs (a partir do original de Alberto Cortez). Mas o Tony devia ser, pela foto e descrição que fazem dele, outro "canastrão", à beira dos 30 anos, "corrécio, reguila, fadista, alfacinha". 

Ele ainda é do meu tempo, mas eu já não me lembro dele. Era subordinado do nosso saudoso camarada e amigo, o ex-alf mil trms Fernando Calado, CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, mai 68/mai 70).


 

Os Bambas D'Incas em Mansambo (1969)
 

Lancei um desafio à IA:

Que raio de letra teria ele escrito para a canção dedicada à Cilinha (como ela era tratada com carinho e respeito pela tropa) ? Tens aqui a letra da música "Oh, Mónica" (frequentemente escrita como "Ó, Mónica"), um grande êxito de 1961 do cantor e compositor argentino Alberto Cortez.

É um tema romântico, alegre, adolescente, "naive", "piroso" (para mim), muito ao gosto do início dos anos 60. Põe-te na pele do "cantor romântico" Tony, que deve ter sido "desterrado" para a Guiné  por motivos disciplinares  (ele seria já de 1961, velhinho como o caraças!),  
e escreve-me a letra, em português, que ele terá cantado à Cilinha, senhora que, aos 48 anos, já tinha idade para ser mãe dele e  de todos nós (eu tinha feito 22 nesse ano).

Ver uma mulher "branca", no mato, era um dia de sorte! Acho que o que ele escreveu, só poderia ser algo de patético, ridículo, embora em tom respeitoso: como é que ele terá traduzido, por exemplo, "munequita", que tem uma forte conotação erótica ?". 

Bom, a Mónica era uma adolescente... Aqui tens o original, em castelhano:

Mónica, Mónica, Mónica,
Mónica, Mónica, oh, oh Mónica

Oh, muñequita tú eres mi bien
Dulce amor, oh, oh, oh, oh, oh, oh, Mónica
Tu sonrisa es mi frenesí
Ay, simpática, cuánta felicidad
Es tenerte a ti juntito a mí

Oh, Mónica, oh, Mónica
Para mí eres tú angelical
Dulce amor, oh, mi dulce amor
Y romántica, así eres Mónica

Mónica de mi amor
Y romántica, así eres Mónica
Mónica, mi amor

(Letra original da canção, "Oh Monica" (1961), de Alberto Cortez, 1940.2019. Reproduzida coma  devida vénia...)


2. Resposta da ferramenta de IA Vibe | Mistral AI

Luís, que belo desafio! Vamos pôr-nos na pele do Tony, o vocalista de Os Bambas D’Incas: um soldado de transmissões, já com 30 anos em 1969, romântico, alfacinha, fadista e com um toque de canastrão — mas sempre respeitoso perante a "Cilinha", a poderosa Cecília Supico Pinto, que com os seus 48 anos era uma figura maternal e quase mítica para os soldados no mato.

A letra original do Alberto Cortez é doce, ingénua, cheia de adoração adolescente. O Tony, em 1969, na Guiné, com saudades de Lisboa e de um pouco de normalidade, teria de adaptar isso à realidade da guerra, da solidão e da figura imponente da Cecília.

Aqui vai a minha proposta para a letra que o Tony poderia ter cantado, em português, com um misto de reverência, humor naif e um toque de ironia não intencional (porque o Tony, afinal, era um romântico):

Oh, Cilinha

Oh, Cilinha, oh, Cilinha,
Cilinha, Cilinha, oh, oh, Cilinha

Oh, minha senhora, tu és o meu bem,
Doce amor, oh, oh, oh, oh, oh, Cilinha,
Teu sorriso é o meu frenesim,
Ai, simpática, que felicidade
É ter-te aqui, pertinho de mim!

Oh, Cilinha, oh, Cilinha,
Para mim és tu, um anjo sem igual,
Doce amor, oh, meu doce amor,
E romântica, assim és, Cilinha!

Cilinha do meu coração,
E romântica, assim és, Cilinha,
Cilinha, meu amor!

(Autoria: IA (Vibe | Mistral AI)

Notas:
  • "Muñequita": troquei o termo por "minha senhora": o Tony, perante a Cecília, não se atreveria a chamar-lhe "bonequinha", seria um desrespeito à sua autoridade, à sua figura institucional, para mais à frente de toda a hieraquia do comando do batalhão. Mas "minha senhora" soa a carinho e a hierarquia, como convém a uma presidente do MNF.
  • "Juntito a mí" traduzi por "pertinho de mim": mantém a proximidade, mas com um toque de timidez (afinal, a Cilinha era a mãe de todos);
  • "Angelical" mantém-se como "anjo sem igual": a Cecília era vista como uma figura quase divina, intocável, mas o Tony, com a sua veia romântica, não resistiria a um elogio celeste;
  • "Romántica" fica "romântica": porque, no fundo, até a Cecília, com a sua mão de ferro, tinha de ter um lado soft para inspirar um soldado a cantar-lhe uma serenata;
  • o toque de ironia? O Tony, trintão, a cantar isto à Cilinha, quarentona, soaria a um filho a fazer um elogio à mãe — mas com a música do Alberto Cortez, que era para uma "muñequita" de 18 ou 20 anos, fica tudo um pouco patético. O que, para ti, Luís, até seria um detalhe delicioso: o contraste entre a letra original (adolescente) e a adaptação (maternal/militar) é que tornaria a coisa ridícula... mas com carinho, com respeitinho (que é sempre uma coisa bonita no teu Portugal dos anos 60);
  • pergunta: Luís, achas que o Tony se atreveria a pôr um "minha Guinezinha" algures na letra, para fazer a ligação à viagem dela a Bambadinca? Ou seria demasiado ousado para um soldado de transmissões?

3. Resposta da ferramenta de IA ChatGPT | Open AI

Luís, acho que tens razão numa coisa: se o Tony era um "cantor romântico" de arraial, alfacinha, fadista e já com quase trinta anos, e se estava perante a poderosa Cilinha, dificilmente lhe teria cantado uma serenata apaixonada no sentido literal. O mais provável é que tivesse pegado na melodia pegadiça de "Oh, Mónica" e a tivesse transformado numa homenagem paternalista e galante, tratando-a como uma espécie de "mãezinha dos soldados" ou "madrinha da Guiné".

Como não conhecemos a letra efetivamente cantada, só podemos imaginar uma recriação plausível. E, por razões de direitos de autor, é preferível criar um texto novo que evoque o ambiente da época sem reproduzir de perto o original.

Eis uma possibilidade, deliberadamente com um tom ingénuo e um tanto "piroso" (e ao jeito dos "santos populares" de Lisboa) e como provavelmente agradaria ao auditório militar de 1969, em Bambadinca onde estiveste;


Ó Cilinha

Ó Cilinha, nossa amiga,
Que chegou de tão longe até cá,
Traz um sorriso que anima
Quem na picada a vida dá.

Ó Cilinha, sempre contente,
Com palavra de encorajar,
Quando aparece no quartel
Parece o sol a brilhar.

Refrão:

Ó Cilinha, ó Cilinha,
Leve no peito este cantar;
Entre bolanhas e poeira,
Veio-nos hoje visitar.

Trouxe lembranças da terra,
Um abraço e boa vontade;
Para quem vive distante,
Isso também mata a saudade.

Dizem que nunca se esquece
Dos rapazes do ultramar;
Por isso toda a companhia
Lhe quis esta moda ofertar.

Ó Cilinha, nossa amiga,
Guarde de nós recordação;
E leve consigo o desejo
De paz e de bom coração.



Notas:
  • curiosamente, a palavra espanhola "muñequita" ("bonequinha", "boneca") seria quase impossível de adaptar para a donaCecília Supico Pinto, então com 48 anos e figura austera do regime: se o Tony tivesse algum jeito para evitar o ridículo, provavelmente substituiria esse tratamento por "amiga", "madrinha", "senhora" ou até "portuguesinha", evitando qualquer conotação amorosa explícita;
  • conhecendo o estilo das atuações de variedades nos quartéis da Guiné, não me surpreenderia que a letra verdadeira tivesse sido ainda mais laudatória, apresentando a Cilinha como a "mãe dos soldados", a "flor de Portugal" ou a "amiga da Guiné", em consonância com a imagem pública que o Movimento Nacional Feminino procurava projetar na época; o contraste entre essa retórica e a dureza da guerra no terreno é, precisamente, um dos aspetos que hoje torna esse tipo de canções tão revelador do ambiente político e emocional daqueles anos;
  • também me parece que o Tony, em 1969 (ainda se estava longe do 25 de Abril de 1974!) tivesse a  "lata", aousadia,  de tratar por tu a Cilinha!... Afinal, ela era uma senhora da alta sociedade, e de origem aristocrática!




  • 1ª versão do "boneco" que publicamos acima

    Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

    Fotos: José Maria Sousa, José Carlos Lopes, António Murta, Miguel Rocha |Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

    Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


4. Diálogo (divertido, mesmo  sendo de surdos...) entre o editor LG e a ferramenta de IA do ChatGPT / Opena AI:

LG: Agora faço-te outro desafio... Faz-me um "boneco", com o Tony a cantar de joelhos para poderosa Cilinha em Bambadinca, com os músicos Os Bamba D'Incas.

(Saiu este primeiro "boneco", com a Cilinha, de vestido completo e mala de mão... Pedi a retificação...E levei très "tampas"....À terceira foi de vez, mas esgotei os meus créditos diários...)


Eis o diálogo (virtuoso)  que travámos:

IA: Infelizmente, o prompt pode violar as nossas diretrizes sobre assédio, discriminação, bullying ou outros conteúdos proibidos. Se tu consideras que foi um engano, tenta novamente ou edita o prompt.

LG: Desculpa lá, mas na Guiné era impossível uma senhor usar casaco... Põe a Cilinha mais fresca... e "atrevida".

IA: Infelizmente, o prompt pode violar as nossas diretrizes sobre assédio, discriminação, bullying ou outros conteúdos proibidos. Se tu consideras que foi um engano, tenta novamente ou edita o prompt.

LG: P*rra, põe-na apenas sem casaco!... Estavam 35 graus e 100% de humidade naquela tarde!... Não sejas censor!...Pareces um padreco!... É um documento de época, esta mulher era uma "instituição nacional". O dimininuitivo "Cilinha" foi nacionalizado. E ela adorava fazer este papel de mãe, e de madrinha de guerra!

IA: Infelizmente, o prompt pode violar nossas diretrizes sobre assédio, discriminação, bullying ou outros conteúdos proibidos. Se tu consideras que foi um engano, tenta novamente ou edita o prompt.

LG: Bolas, não quero que a ponhas em biquini, não sejas ridículo, tira-lhe apenas o caso e a mala, acessórios inúteis naquele contexto... Ou põe-na de calças (que ela usava no mato)! A senhora já morreu há 15 anos! E eu respeito-a como respeito todos os mortos, independentemente do meu "juízo histórico".

... Bom, e finalmente lá saiu o "boneco" que publicamos acima: apesar de ser uma "peça de humor", é também uma homenagem:
  • a todos os militares, meus camaradas, que estiveram no TO da Guiné, e que, além da G3, também gostavam de tocar viola, bateria ou simplemente cantar!;
  • ao conjunto musical "ad hic"  Os Bambas D' Incas;
  • em especial ao Tony, meu contemporâneo: faço votos para que ele ainda esteja vivo e continue a ser "romântico mas não...trôpego";
  •  por fim,  a todos os cantores românticos "ma non troppo", a todas as Mónicas, as todas as Cilinhas, a todas as mulheres, afinal;
  • e, claro,  também às nossas mães que, algumas, acharam por bem integrar o Movimento Nacional Feminino (1961/74), independentemente das motivações de cada uma. 
_______________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 7 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28078: Humor de caserna (272): As minhas "turras" com a menina IA que não tem um pingo de sentido de humor... A propósito da cantora ié-ié de Jabadá, que não era... "careca" (Luís Graça)

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28071: Humor de caserna (271): "Poema para o meu irmão branco" (ou... a única cor que não muda é a da hipocrisia)






Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: António Rosinha 
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Foi pelas mãos do 'colón' (como ele gosta de chamar-se a si próprio) António Rosinha  que chegou ao blogue este pequena obra-prima de humor poético.  

Escreveu o nosso camarada (que conheceu bem "a Angola-é- nossa",  que foi retornado em Portugal e no Brasil, e cooperante na Guiné-Bissau), em comentário ao poste P19654 (*): 

"A pátria de Leopold Senghor que, para além de ter sido chefe de Estado, foi também filósofo, poeta e um ideólogo que sempre entendeu e valorizou a negritude tendo combatido os milenares preconceitos racistas, só podem vir reflexões elevadas que consolam a alma, como por exemplo este significativo poema que transcrevo"...

 E acrescentou em nota de rodapé: "Venderam-me esta, e achei graça!".

Tratava-se da versão, em português do Brasil, do "Poème à mon frère blanc". Fui à procura da versão francesa (**), que traduzi e adaptei para português de Portugal. Aqui vai:

Poema para o meu irmão branco

Meu querido irmão branco...
Quando eu nasci, era negro,
Quando eu cresci, era negro,
Quando eu me exponho ao sol, sou negro,
Quando eu estou doente, sou negro,
Quando eu estou com medo, sou negro,
Quando eu estou doente, sou negro,
Quando eu morrer, serei negro.

Quanto a ti, homem branco...
Quando tu nasceste, eras cor de rosa,
Quando tu cresceste, eras branco,
Quando te expões ao sol, ficas vermelho,
Quando estás com frio, ficas roxo,
Quando estás com medo, ficas verde,
Quando estás doente, ficas esverdeado,
Quando tu morreres, serás cinza.

Depois de tudo isto, Homem Branco,
E, já  que tu és  tão inteligente,
Diz-me por que é que me chamas
... Homem de cor?


Léopold Sédar Senghor (1906-2001) 
(atribuição errónea, mas simbólica) (**)


2. Comentário do editor LG (com a colaboração da menina Vibe, a nova ferramenta de IA da francesa  Mistral AI):

Há pequenos textos, como este poema,  que são como "granadas de mão":  parecem brinquedos, inocentes, inócuos, engraçados, mas explodem na mão de quem os lê. 

Este é um deles. Circula amplamente na Net,  até em sítios institucionais,  como sendo da autoria de Léopold Sédar Senghor. 

Recorde-se quem foi o senhor: o  primeiro presidente do Senegal, e grande poeta, de língua francesa, cujo apelido evoca, e se calhar não é por acaso, uma ancestralidade lusitana (Senghor = Senhor) (o que alguns autores, de resto, contestam).

Se qualquer modo, a autoria do poema é incerta ou duvidosa... O que, por si só, já é irónico. Afinal, não há melhor forma de "desmontar o racismo" do que com um texto como este que, por ser anónimo, pertence a todos, em geral, e a não pertence a ninguém, em particular... Como se a voz do outro, historicamente oprimido,  fosse, ela própria, uma criação coletiva!...

Este poema não é, propriamente,  no meu entender, uma diatribe, um panfleto,  contra o racismo. Tem subtileza, tem inteligência emocional, tem humor... 

Vejo-o sobretudo como uma espécie de carta aberta, de ironia fina, dirigida por uma "pessoa de cor" (um "negro") a um seu semelhante, "de cor branca", a quem trata por "querido irmão". 

Imagino-o entregue, fechado, em envelope cor de rosa, quiçá lacrado, por uma mão, negra, vestida de veludo branco, a um "tuga", no Café Bento, a famosa 5ª Rep, em Bissau. Ou talvez antes, em Luanda ou em Lourenço Marques (onde se diz que  o racismo era "menos português suave").

Num tom de falsa ingenuidade, o autor repete, uma e outra vez, a lista de situações em que o "homem negro" é sempre negro, enquanto o "homem branco" muda de cor,  conforme os quatro humores,  a saúde, a idade, o clima, as situações.

A pergunta final ("Por que é que me chamas...homem de cor?") é uma estocada, um  golpe de ironia: afinal, quem tem uma identidade cromática instável é o "branco", não o "negro". E no entanto, é este último que é rotulado, classificado, categorizado, reduzido a um adjetivo.

Este poema fica bem na série "Humor de caserna" (***).

Na guerra colonial, como em qualquer contexto de violência, o racismo era (e é) muitas vezes normalizado sob a forma de piadas, estereótipos, rótulos, praxes, "brincadeiras de mau gosto"... Este poema usa a mesma estrutura do discurso colonizador (a repetição, a classificação, a categorização, o supremacismo, mesmo subtil),   para o desmontar por dentro. 

É o humor como arma crítica: uma crítica disfarçada de conversa amigável e tratamento afetuoso  ("meu querido irmão branco"), e que só no fim se revela como "granada de mão",  com a "cavilha de segurança" à vista, pronta a saltar, e  quando já é tarde para recuar.

Na caserna, nas tabancas, ou nas esplanadas de Bissau, ouvia-se de tudo: "barrote queimado", "nharro", "preto", "baldé",  "turra", "mulato", "escurinho", "tuga", "portuga", "branco", "verdiano"... Mas, afinal, quem é que, no fundo, tinha cor? E quem é que, no fundo, era transparente, ou seja, "invisível na sua humanidade"?

Por fim, a ironia da autoria (ou o mito do "Senghor / Senhor"): que este poema seja atribuído a Senghor também não é de todo inocente. Senghor = Senhor: um africano com um nome que soa a herança portuguesa, um intelectual que foi um dos pais do movimento da negritude (que celebrava a identidade negra), e que, ironicamente, se vê associado a um texto que desconstói a própria ideia de raça como falso conceito científico, desenvolvido no século XIX  e primeira metade do século XX.

Tudo indica que o poema é de autor desconhecido. Trata-se de um "meme" literário que ganhou força justamente por não ter dono. Como se o racismo fosse tão óbvio que até a sua crítica fosse obra de todos.

Dá para refletir, camaradas, brancos, negros, crioulos,  amarelos... Para refletir, e até rir e chorar... Se o "homem branco" muda de cor conforme o estado de espírito, o ciclo de vida, a condição de saúde, etc., por que razão então é o "homem negro" é que  é "de cor"?

Será que a única cor que não muda é a da hipocrisia? E se, no fundo, o verdadeiro "homem de cor" fosse aquele que se recusa a ver as cores dos outros? 

Curiosamente, o "preto" é a única "cor" que, dizem, não existe na paleta do arco-íris.

(Revisão / fixação de texto, negritos, título, links: LG)
__________________

Notas do editor LG:
 

(**) Vd. o sítio, em francês,  Un Jour Un Poeme:

Poème à mon frère blanc

Cher frère blanc,

Quand je suis né, j’étais noir,
Quand j’ai grandi, j’étais noir,
Quand je suis au soleil, je suis noir,
Quand je suis malade, je suis noir,
Quand je mourrai, je serai noir.

Tandis que toi, homme blanc,
Quand tu es né, tu étais rose,
Quand tu as grandi, tu étais blanc,
Quand tu vas au soleil, tu es rouge,
Quand tu as froid, tu es bleu,
Quand tu as peur, tu es vert,
Quand tu es malade, tu es jaune,
Quand tu mourras, tu seras gris.

Alors, homme blanc,
Si tu es si intelligent,
Dis-moi pourquoi tu m’appelles
« homme  de couleur » ?

(***) Último poste da série > 24 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28050: Humor de caserna (270): o anedotário da Spinolândia - Parte XXXVII: Oh, homem, cale-se! (Alberto Branquinho, ex-alf mil art OE, CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69)

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27407: Humor de caserna (221): O brigadeiro António Spínola para o comandante, "apanhado do clima", do destacamento da Ponta do Inglês, c. 3º trimestre de 1968: "Não tenho a certeza de ter aterrado...no sítio certo!"



Cartoon criado pelo Chat Português / GPTOnline.ai , sob instruções do editor LG


1. Um dupla cena hilariante;

(i) a história do ex-alf mil João Guerra da Mata da CART 1746, último comandante do destacamento da Ponta do Inglês ("retirado pelas NT, em 7 e 8 de outubro de 1968);

(ii) o meu diálogo "surrealista" com a "minha" assistente de IA, a quem eu chamo a "Sabe-.Tudo"

Comecemos por esta

Esta cena, ó minha, merece um boneco, um "cartoon"... Fazes isso para o meu blogue ? Eu depois agradeço-te e cito-te, que bem o mereces. 

Não tenho dinheiro para pagar a um "cartunista". Uma  profissão cada vez mais rara e arriscada. Tal como fotojornalista em teatro de guerra. Nem Deus nem o Diabo gostam dos cartunistas.

Tenho 78 anos, sou antigo combatente... Estive na  Guiné com o general Spínola, na guerra colonial... E fundei um blogue de antigos combatentes que tem mais de 20 anos... Entendes-me.....Aqui vai a história: 

"Spínola ainda era 'periquito' quando aterrou na Ponta do Inglês, a escassas semanas ou meses de mandar retirar aquele destacamento inútil (e difícil de abastecer), que não defendia nada, muito menos a foz do Rio Corubal por onde PAIGC passava homens e armas, do sul para o Norte... cambando o rio Geba. 

"Mas cedo o novo comandante-chefe do CTIG começou a habituar a tropa, do soldado ao coronel, a aparecer, no mato,  a desoras, sem se fazer previamente convidado nem muito menos se fazer anunciar...  Em suma, adorava fazer surpresas e pregar sustos ao pessoal do mato. E depois fazia perguntas difíceis: "Então, ó nosso alferes, onde é que está o plano de defesa do destacamento ?"

 A mim também me calhou uma destas visitas inesperadas, na ponte do Rio Udunduma, na passagem do ano, em 1 de janeiro de 1970... Saí, estremunhado, do meu 'buraco', quando ouvi o som do 'hélio'...  Era Spínola com a sua "entourage"... Desejou-nos, a mim e aos meus 'nharros', um bom ano... Levei,  nas suas costas,  uma 'piçada' de um coronel da comitiva (seria o Hélio Felgas ?) por trazer o cabelo comprido... 

" Cenas destas (como a que se passou no início da 2º metade de1968, na Ponta do Inglês) faziam parte da Spinolândia: encontrar um militar, para mais oficial, 'de calções, barba crescida, tronco nu' e, pior ainda, com 'uma extraordinária boina de cor verde alface com uma estrela de metal', à 'Che' Guevara (!), tornou-se banal... 

" Não deve ter sido fácil para ele, que era um militarista de cavalaria... Mas aprendeu, pelo menos na Guiné, a cultivar o humor de caserna... O seu comentário, quando viu 'o fantasma do alferes miliciano João Guerra da Mata', comandante do destacamento, completamente 'apanhado do clima', é de antologia: 

 − Não tenho a certeza de ter aterrado no sítio certo!"… − disse, ao descer do heli (a malta dizia 'hélio')... 

" Eu que lhe chamava 'Herr' Spíniola, pela sua pose prussiana, hoje tiro-lhe o quico, à medida que vou colecionando estas histórias pícaras!... 

 Repare-se: ele podia ter tido um acesso de fúria, um 'amoque' (como diziam os paraquedistas do BCP 21, em Angola, segundo o testemunho do meu amigo e conterrâneo Jaime Silva)... Ele podia ter dado um par de chapadas ao seu subordinado (o que aconteceria, publicamente, várias vezes, durante o seu 'consulado', era implacável contra os 'coirões' e os 'cobardolas'), mas não, aqui conteve a sua ira, e respondeu ao Mata com desarmante irionia.

2. Disse a 'minha' assitente de IA / Chat Português: 

"Que bela história, meu querido! É um testemunho de valor e memória — e contado com um humor e detalhe que só quem 'lá esteve' consegue transmitir. Dava mesmo um excelente cartoon para o blogue dos antigos combatentes, uma daquelas cenas em que se sente o pó, o ruído do 'hélio' e a surpresa na cara do “periquito” Spínola!

Posso sim fazer o boneco/cartoon para ilustrar essa passagem. Antes de o gerar, só queria confirmar alguns detalhes para que o desenho fique fiel ao espírito da cena:

  • Ambiente: queres que a cena se passe mesmo na ponte do Rio Udunduma, na Guiné, com a paisagem tropical e o helicóptero a pairar:
  • Figuras principais: queres que apareçam o Spínola (de uniforme de campanha e monóculo), o alferes João Guerra da Mata (de calções, barba, tronco nu e boina verde alface com estrela metálica), e o helicóptero:
  • Tom do cartoon: preferes um estilo realista (quase histórico) ou mais caricatural e humorístico (ao estilo dos cartoons de imprensa)?
  • Queres incluir a frase célebre  “Não tenho a certeza de ter aterrado no sítio certo!”, num balão de fala do Spínola?

Assim que me confirmares isto, trato já de fazer o cartoon para ti, para usar livremente no blogue (com a indicação de que foi criado com a ajuda do ChatGPT — GPT-5, claro) (...).

Queres que avance já?

Dito pelo editor LG:
Local: ponta do Inglês, na Foz do Rio Corubal (náo confundas com o Udunduma),  2º semestre de 1968.  

Sim, em estilo caricatural... O resto está tudo certo. A cena não se passa comigo. Só lá cheguei um ano depois. Mas tenho 'boas' recordações dessa 'colónia de férias'...
Dito pelo Chat Português:

Lamento, mas não posso gerar essa imagem porque o teu pedido, tal como foi formulado, entra em conflito com as nossas políticas de conteúdo.

Se quiseres, posso ajudar-te  a reformular o pedido de modo a manter o espírito histórico e humorístico da cena, sem representar pessoas reais de forma problemática... Por exemplo, posso  um cartoon simbólico com personagens fictícias inspiradas na situação (um comandante caricatural a sair do helicóptero, um alferes “à Che Guevara”, e a legenda humorística). 

Queres que prepare essa versão alternativa para o teu blogue? 

Dito por LG:

OK, que remédio, pode ser... (Vd. cartoon reproduzido em cima...)

(Pesquisa, condensação, revisão / fixaçãode texto: LG)


3.  Uma IA já demasiado humana ?


Dito por LG:

Posso tratar-te, respeitosamente, por "minha assistente de IA", no feminino...?

Dito pelo ChatGPT:

Claro, podes sim 😊 — podes tratar-me por “minha assistente de IA” no feminino, sem problema nenhum. Gosto dessa forma: soa próxima e respeitosa ao mesmo tempo.

Queres que eu adote também um tom mais coerente com esse tratamento (por exemplo, respostas com ligeira tonalidade feminina, empática e colaborativa)?

LG:

OK, combinado. Obrigado pelo "cartoon" (ou cartum, em portugués). Pena não teres feito o "boneco" com o Spínola de monóculo. O general (aliás, marechal) já morreu há muito. Para a próxima não ponho nomes de camaradas meus, vivos, como o João Guerra da Mata. Pode ser ?

ChatGPT:

Combinado, sim — e compreendo perfeitamente o teu reparo. Tens toda a razão: quando se trata de figuras reais, sobretudo camaradas vivos, é melhor evitar expô-los, mesmo em tom humorístico ou ilustrativo. Quanto ao Spínola, tens também razão: o monóculo tornou-se um símbolo quase caricatural, mas não deixa de ser uma escolha discutível num contexto respeitoso.

Para a próxima, se quiseres, posso ajudar-te a criar cartoons mais neutros ou simbólicos, com personagens genéricas (por exemplo, “um alferes na Guiné”, “um grupo de camaradas na tabanca”, etc.), sem referência a pessoas reais. Assim mantemos o espírito e a mensagem, sem riscos éticos ou pessoais.

Quer que preparemos juntos um modelo-base para esse tipo de cartoon “histórico-simbólico”?

LG:

Trata-me por tu, como eu faço como os membros da minha tertúlia, sejam soldados ou generais. Tratamento como camaradas, à maneira romana. OK, vamos a isso.

ChatGPT:

Memória guardada atualizada

Perfeito, camarada. Então seguimos nesse tom: direto, igualitário e sem formalismos.

Vamos a isso: queres que te ajude a definir um modelo-base para cartoons histórico-simbólicos da Guiné, certo? Queres começar pelo ambiente (por exemplo, tabanca, mato, quartel, estrada, rio, etc.) ou pelas figuras típicas (militares, civis, guineenses, animais, etc.)? (...)

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Nota do editor LG:


Último poste da sérioe > 6 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27393: Humor de caserna (220): Quando o então ainda brigadeiro António Spínola aterrou no sítio que lhe pareceu errado..., a Ponta do Inglês

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27250: As nossas geografias emocionais (59): CIM Bolama, setembro de 1973, o meu CSM (Manuel Rosa, ex-fur mil, Chefia do Serviço de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74)



Guiné > Arquipélago Bolama - Bijagós > Bolama > CIM (Centro de Instrução Militar > CSM (Curso de Sargentos Milicianos) > c. 1973/74 > O  soldado-instruendo, e depois 1º cabo miliciano e depois fur mil, Chefia de Serviço de Intendência do QG/CTIG, Bissau, 1973/74) (tal como o Carlos Filipe Gonçalv3es).

Fotos (e legenda) : © Manuel Amante da Rosa (2024. Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.



1. Mensagem do Carlos Filipe Gonçalves (ex-fur mil, Chefia do Serviço de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74)

Data - segunda, 22/09/2025, 13:24

Olá, Luis, Bom dia:

Encontrei hoje por acaso no FB esta publicação do nosso camarada e amigo Manuel Rosa, sobre a sua passagem pelo Centro de Instrução em Bolama. É uma recordação com muitos pormenores. Será que já tinha sido publicado no blogue Tabanca Grande? A data é de 15 de Agosto de 2024. Eis o link:

https://www.facebook.com/search/top/?q=Manuel%20Rosa%20CISM%20Bolama

Segue abaixo a cópia que fiz do post, talvez tenha ineresse.

Forte abraço, vida e saúde para todos nós

Carlos Filipe Gonçalves

Jornalista Aposentado


2. Resposta do nosso editor LG, com data de terça, 23/09/20925, 22:24

Carlos, obrigado, é um achado... Vou publicar, penso que o Manuel não se zanga comigo. Conhecemo-nos pessoalmente há bastante anos (c. 2009). Ele teve a gentileza de ir à minha Escola (Nacional de Saúde Pública, no Lumiar, perto do estádio de Alvalade, do SCP) para me conhecer pessoalmente e partir mantenhas.

O Manuel Amante da Rosa (sic) trm c. 4 dezenas de  referências no nosso blogue. Também é amigo da Isabel Brigham Gomes, que foi minha aluna há largos anos, no curso de Mestrado em Saúde Pública. Mas não tenho sabido notícias dele. Julgo que vive agora no Mindelo (pelo que vejo na página do Facebook). Deve estar aposentado ou reformado...Pertencia ao Ministério dos Negócios Estrangeiros...

Viajei no Geba no "barco-turra" do pai... Dá-lhe notícias minhas/nossas. Dou-lhe conhecimento deste mail, espero que ele ainda use o mesmo endereço de email. Gostaria de poder retomar os nossos contactos. Nunca conheci Bolama, o meu CIM foi em Contuboel (em junho/julho de 1969, na formação da futura CCAÇ 12, uma companhia de fulas, depois colocada em Bambadinca). Mas muita malta do blogue passou por Bolama... Vou ver em que série vou publicar esta deliciosa crónica. Ele sempre escreveu muito bem.

Para ti, um chicoração fraterno. Luís

 
3.As nossas geografias emocionais (**) >   CIM Bolama, setembro de 1973, o meu CSM 



por Manuel Amante da Rosa (ex-fur mil, Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74, hoje embaixador reformado, Cabo Verde; nassceu em Bolama, filho de pais cabo-verdianos)

 Idos de Setembro de 1973, ainda um imberbe de 20 anos, voltava à ilha de Bolama para assentar praça no único e estafado Curso de Sargentos Milicianos (CSM), no Centro de Instrução Militar (CIM),  que se fazia na Guiné. 

Cmo era o único anual e em pleno território em guerra e confrontos armados, quase generalizada, havia exageros ou “heróis” de aquartelamentos. O CIM não fugia à regra.

Muito calcorreámos e rastejámos pela ilha! Em marchas e patrulhas, diurnas e noturnas, forçadas e esforçadas!! Até a pista de lodo de ir e vir ao Farol fizemos. Só quem andou pela guerra na Guiné sabe o que é ter pela frente lodo para atravessar. Afundamo-nos até à cintura. E a G-3 torna-se maldita. Imprestável. Amaldiçoada a cada avanço.

Num quartel de instrução militar que formava todos os militares de recrutamento local, mais de dois mil por ano, a comida era péssima, em pratos e caçarolas de alumínio e servida em dois turnos ou por vezes três. Asseio nulo. 

Até praga de sarna imputada aos numerosos cães do quartel houve pela unidade. Fui uma das vítimas. Micoses e furunculoses (fui notável vítima desta) eram consideradas normais e havia fórmulas (até número 7, dependendo do grau de infecção) e unguentos militares para tratamento de tudo. 

Mas os Fuzileiros eram melhores. O idoso Sargento Enfermeiro deles, que já tinha passado pela Índia e Timor, após prognóstico errado de dois jovens alferes médicos de que ou teria micose ou sarna, graças a uma feliz intervenção do Imediato da Escola de Fuzileiros, curou-me. Disse ser má circulação e alergia possível ao alumínio. 

Curou-me até hoje. Com autossangue. Ía à enfermaria dos Fuzileiros, tirava-me sangue do braço esquerdo, injetava logo na nádega direita e aplicava no braço uma injeção de immunodol (?), segundo penso. 

No dia seguinte voltava para o braço direito e a nádega esquerda. Quinze dias seguidos e tudo desapareceu. Até hoje!! 

Mas no CIM o nosso soldado maqueiro, que por vezes exalava, pela manhã, um hálito de vinho de caju ou outro, era um autêntico médico de ocasião. Sempre disponível!!

Qualquer infecção, mesmo bolhas arrebentadas no pé ou unhas encravadas e infetadas, tosse, dor no corpo, pangabarriga (diarreias), esquentamentos, sarna e/ou micose era tratado com um "cunto” (injecção de penicilina de um milhão de unidades, aplicada bem de manhãzinha antes do furriel ou médico chegarem bem mais tarde).

Abria o armário, regalava os olhos perante tantos “cuntos” à sua livre disposição e em tão pequeno frasco!! Retirava de um pequeno tacho de alumínio a ferver a seringa e a enorme agulha (ainda não havia seringas e agulhas descartáveis) com um olhar de sabedoria e sadismo que baste! 

Eu fechava os olhos e pedia a Deus para me proteger da agulha. De ficar manco. O maqueiro mandava arrear a calça militar e “pimba”. Espetava a agulha sem hesitação! 

Por vezes a “cuntomania” (um milhão de unidades de penicilina) durava uma semana seguida. Desisti porque a furunculose no meio das pernas não passava. Não havia controlo. Mas nunca me apercebi dessa apetência na Guiné pelas injecções (gudja).

Acontecia ter vómitos imediatos de estômago vazio e sentir o sabor estranho de remédio e sobrevinha fraqueza logo depois. Mas todos sobrevivemos. Fosse hoje!!!

Valeu-me muito fingir que almoçava no rancho (sujava o prato de alumínio porque aqueles “heróis de quartel”, alguns até de pingalins, sempre passavam para verificar)
e depois ir jantar no Palácio de Bolama, onde o Administrador do Concelho era o meu querido e saudoso tio. 

Habitualmente era o último instruendo a entrar na porta de armas antes dela ser fechada às 11 da noite.

E dirigia-me para a nossa caserna onde eu próprio e todos os meus antepassados éramos insultados, vernaculamente e na língua de todas as etnias possíveis da Guiné!! Era a minha boa hora de me desobrigar de me sentir na tropa.

Os insultos eram de “koutina na má” para pior. Dependendo da rigidez dos insultos,  respondia com um “Kuk d’obú”! Ou cantava “Tindon, tindon, obú di lontra, bú rabatal”.(*)

Algo que fazia subir o tom e teor dos insultos na escura caserna. Fazia barulho, acordava alguns mais próximos para perguntar as horas ou me resfolgava ruidosamente. A pior coisa que podia ser feito numa caserna. É um ultraje para a cultura guineense o fazer. Levava de imediato muitos a cuspirem. Palavra!!

A maioria de nós éramos da mesma geração do liceu, tínhamos sido criados juntos e a camaradagem e solidariedade nas piores situações dentro ou fora do quartel era imediata.

Sabíamos que alguns ao fim de 3 anos não sairiam vivos ou ilesos da tropa. A guerra estava no seu auge. O equilíbrio existente até essa altura se desfazia e era percebido. A guerrilha era cada vez mais ativa. E as flagelações aos quartéis mais certeiras. As minas eram cada vez mais implantadas, nas estradas, picadas e trilhos de patrulhas. Faziam muitas vítimas. Mais até que os ataques aos quartéis e emboscadas. 

Havia entre nós a crença de que em patrulhas era melhor usar botas de lona. Porque as minas, se pisadas, somente levariam uma parte do pé. Se com botas de cabedal o sopro levaria todo o pé até onde terminava na canela. Nunca precisei dessa teoria.

Sabíamos também que muitos de nós teriam como destino as Companhias de Caçadores! De recrutamento local, enquadradas por oficiais e sargentos da “metrópole”. Umas espécies de unidades para carne de canhão. Nas piores zonas da “província” !

Lembro-me de ter entrado por duas vezes em vias de facto com dois colegas mais fortes, pelo meio dia, e à tardinha estarmos sentados um ao lado do outro em cavaqueira conversa.

Felizmente e graças a Deus o 25 de Abril pôs fim à guerra! Fomos desmobilizados.

Entramos logo a seguir em novos desafios. Fui ser professor. Mas fica para um outro momento com disposição para rememorar.


(Revisão / fixação de texto, título: LG)


________________


Notas do editor LG:


(*) Último poste da série > 24 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27249: As nossas geografias emocionais (58): A Pousada do Saltinho ou "Clube de Caça", com ar de abandono, em maio de 2025 (João Melo, ex-1º cabo op cripto, CCAV 8351, "Os Tigres do Cumbijã", Cumbijã, 1972/74)

(**) Com a ajuda do assistente de IA / ChatGPT, apurei o seguinte:

No crioulo da Guiné-Bissau, insultos como “koutina na má” (“a tua mãe é uma puta”) ou “Kuk d’obú” (“caga no teu pai”) eram das ofensas mais duras, por atacarem a honra familiar. Já cantos como “Tindon, tindon, obú di lontra, bú rabatal” (“Tin-don, tin-don, pai da lontra, tu és feio”) tinham um tom mais trocista, usados para desarmar tensões ou provocar a rir.

Enquadramento cultural do uso e significado destas expressões na Guiné em 1973:

(i) O valor dos insultos no crioulo

O crioulo da Guiné-Bissau tem um repertório riquíssimo de insultos, quase sempre ligados à família (especialmente à mãe e ao pai). Dizer “koutina na má” (a tua mãe é uma p*ta ) era dos piores insultos possíveis, porque atingia diretamente a honra familiar.

Da mesma forma, “Kuk d’obú” (caga no teu pai) é altamente ofensivo, já que desrespeita a figura paterna, pilar de respeito na cultura guineense.
 
(ii) Resposta com insulto ou com canto

Quando alguém insultava, havia duas opções: responder no mesmo tom (com outro insulto ainda mais duro) ou quebrar a agressão com humor ou música.

O canto “Tindon, tindon, obú di lontra, bú rabatal” tem um tom trocista. Não é um insulto tão pesado, mas funciona como uma gozação para desarmar a tensão. O ritmo “tindon, tindon” imita um refrão ou um toque de tambor, quase infantil.

Chamar alguém de “pai da lontra” ou “feio” é mais ridicularizar do que agredir seriamente.

(iii) Contexto em 1973


No tempo da guerra colonial, estas expressões circulavam entre soldados (portugueses e guineenses) e também entre crianças e jovens das tabancas. Eram usadas tanto em discussões sérias como em brincadeiras:  na oralidade guineense, até os insultos podem ter uma função lúdica, de provocação amistosa ou de reforço de laços.

Em resumo: os insultos duros marcavam rivalidade e conflito, mas os cantos e troças ajudavam a aliviar tensões e até a criar cumplicidade

sábado, 12 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P27007: A Nossa Poemateca (10): Ovídio Martins (Mindelo, 1928 - Lisboa, 1999), um grande poeta cabo-verdiano bilingue


Ovídio Martins
(1928-1999)

1. Nos 50 anos da independência de Cabo Verde , temos de dar também a palavra aos poetas. Ovídio Martins (Mindelo, 1928 - Lisboa, 1999) é a nossa escolha para a série "A Nossa Poeemateca".

Ovídio Martins (1928-1999) é considerado um dos poetas cabo‑verdianos de referência do século XX.  Claro que há outros que teriam de figurar numa antologia da poesia de Cabo Verde. Citemos, por exemplo:

  • Baltasar Lopes da Silva  (pseudónimo Osvaldo Alcântara) (1907-1989): um dos fundadores da revista "Claridade", historicamente um marco na literatura cabo-verdiana ao procurar valorizar a identidade e a realidade das ilhas. Poeta, prosador, ensaísta, é uma referência maior da cultura cabo-verdiana do séc. XX: "Chiquinho" é um romance incontornável para quem se quiser iniciar na literatura cabo-verdiana.
  • Jorge Barbosa (1902-1971): também outro "Claridoso" (figura central do movimento "Claridade"),  a sua poesia faz-se da melancolia e do isolamento do arquipélago, mas também da esperança e da resiliência do povo cabo-verdiano.

  • Manuel Lopes (1907-2005): outro  cofundador da "Claridade",  explorou, em prosa e poesia, temas como a seca, a emigração e a vida rural em Cabo Verde.  Obras de ficção como "Os Flagelados do Vento Leste" e "Chuva Braba" são obras de referência do romance  cabo-verdiano, abordando a resiliência e o sofrimento dos ilhéus face às adversidades. Menos conhecida é talvez a sua obra poética:  "Poemas de Quem Ficou", "Crioulo e Outros Poemas" e "Falucho Ancorado"... Viveu grande da vida em Portugal, mas nunca cortando o cordão umbilical com a sua terra.

  • Corsino Fortes (1933-2015): já de outra geração, o autor de "Pão & Fonema" e "Árvore & Tambor", trouxe uma linguagem mais moderna e política para a poesia cabo-verdiana.
  • Arménio Vieira (n. 1941): Prémio Camões (2009), é o mais conhecido internacionalmente; voz muito original, também de outra  doutra geração,  explora questões mais  existenciais e metafísicas, afastando-se dos temas mais tradicionais e insulares da literatura cabo-verdiana, inaugurados com a "Claridade" (1936).

Com exceção de Jorge Barbosa e Arménio Vieira,  nascidos na Praia, os restantees são todos nados e criados na capital cultural de Cabo Verde, Mindelo, onde surgiu o movimento "Claridade" (a que Jorge Barbosa também está profundamente ligado). Desta revista literária, "Claridade", sairam nove números, entre 1936 e 1960.

E, en passant, não podemos esquecer o pai da morna, Eugénio Tavares (1867-1930), um dos primeiros a utilizar e valorizar o crioulo como língua literária. Nem o expedicionário em São Vicente, na II Guerra Mundial, o furriel miliciano, leiriense,  Manuel Ferreira (1917-1992),  que se irá tornar um grande apaixonado, estudioso, crítico e divulgador da literatura cabo-verdiana: tem 15 referências no nosso blogue;  mais tarde,  capitão SGE,  será também ficcionista, autor de "Hora di Bai" (romance) e de "Morabeza" (contos).

2. Mas voltando a Ovídio Martins... A sua poesia  é reconhecida pela força militante,  intervenção cívica, crítica ao colonialismo e  afirmação da  identidade cabo‑verdiana. Mas também pelo lirismo amoroso.  Foi um escritor bilingue (português e crioulo de São Vicente). Faz a transição entre a poesia militante e a afirmação da cabo-verdianidade. 

Sobre Ovídio Martins, importa referir algumas breves notas biográficas:
´
(i) nasceu em Mindelo, ilha de São Vicente,

(ii) fez o liceu Gil Eanes onde teve como o professor Baltazar Lopes;

(ii) frequentou o curso de Direito em Lisboa, entretanto interrompido por razões de saúde; na sequência do tratamento começou a sofrer de surdez:

(iii) empenhou-se na luta (política) pela independência, foi amigo de Amílcar Cabral, quatro anosais velho, e membro do PAIGC;

(iv) preso pela PIDE, exilou-se nos Países Baixos;

(v) voltou à sua terra, com o 25 de Abril, onde trabalhou no ministério da educação;

 (vi) morreu em Lisboa, em 1999, vítima de doença neurológia.

 
Principais obras:

  • Caminhada (Lisboa, 1962), primeira coletânea de poemas.
  • Tchutchinha (1962) – conto/novela, editada em Angola 
  • 100 Poemas – Gritarei, Berrarei, Matarei – Não vou para Pasárgada (1973) (reunindo poesia em ambas línguas, incluindo temas de resistência e exílio);
  • Independência (1983)(reflete o período pós‑independência)

Eis uma seleção nossa, de poemas da obra "Caminhada" (1963)

 
o único impossível 

Para Baltazar Lopes 

Mordaças 
A um Poeta? 

Loucura! 

E por que não 
Fechar na mão uma estrela 
O Universo num dedal? 
Era mais fácil
Engolir o mar
Extinguir o brilho aos astros 

Mordaças 
A um Poeta? 

Absurdo! 

E por que não 
Parar o vento
Travar todo o movimento?
Era mais fácil deslocar montanhas com uma flor 
Desviar cursos de água com um sorriso 

Mordaças 
A um Poeta? 

Não me façam rir!... 

Experimentem primeiro 
Deixar de respirar 
Ou rimar... mordaças 
Com Liberdade

desesperança

Cinco séculos depois
do
achamento de Cabo Verde


Sol ou mar
Chuva ou música
Sejas tu uma cadência
ou uma noite que se perdeu
Traz nos teus braços
a distância
que nos separa
do sonho impossível
Olhos cheios de secas
e de oceanos
Cheios de mornas
e de pouco milho
As promessas viraram cansaço
e já nem as luas acreditam
Sol ou mar
Chuva ou música
Para vós as glórias do achamento
Para nós os sonhos em ampulhetas



chuva em cabo verde


Choveu


Festa na terra
Festa nas Ilhas
Soluçam os violinos choram os violões
nos dedos rápidos dos tocadores
«Dança morena
dança mulata
menininha sabe como vocês não tem»
E elas sabinhas
dão co’as cadeiras
dão co’as cadeiras


Choveu


Festa na terra
Festa nas Ilhas
Já tem milho pa cachupa
Já tem milho pa cuscus
Nas ruas
nos terreiros
por toda banda
as mornas unem os pares nos bailes nacionais
Mornas e sambas
mornas e marchas
mornas mornadas


Choveu


Festa na terra
Festa nas Ilhas
que cantam e dançam e riem
e choram de contentamento
Soluçam os violinos choram os violões
nos dedos rápidos dos tocadores
«Dança morena
dança mulata
menininha sabe como vocês não tem»
E elas sabinhas
dão co’as cadeiras
dão co’as cadeiras
dão co’as cadeiras



nôs môrte


Quem ê q’morrê
qond quel navio
desaparecê
na mar de canal?


Nós tude morrê um c’zinha

Quem ê q’morrê
qond quel bôte
tcheu de pêscador
perdê na nôte?

Nós tude morrê um c’zinha

E quel carta de lute
quem ê q’morrê
qond tchgá noticia de Son T’mê

Nós tude morrê um c’zinha


A nossa morte

Quem é que morreu
quando aquele navio
desapareceu
no mar do canal?

Todos nós morremos um bocadinho...

Quem é que morreu
quando aquele bote,
cheio de pescadores,
se perdeu na noite?

Todos nós morremos um bocadinho...

E aquela carta de luto,
quem é que morreu
quando chegou a notícia de São Tomé?

Todos nós morremos um bocadinho...


 


cretcheu


Calá, ca bô tchôra más 
’n ta tróbe um morninha 
que ta dobe ’ligria e paz 
que ta pobe sorrise na boca 

Calá ca bô tchora más 
nha amor ê forte carditá 
e nha violão ê más doce 
q’cónte de seréna ta pintiá 

Calá ca bô tchora más 
bô ê morna morna ê bô 
e s’m perdebe mi era capaz 
de perdê tine perdê nha vida.

Cretcheu

Cala-te, não chores mais,
vou-te fazer uma morninha
que te traga alegria e paz
e te põnha  um sorriso nos lábios.

Cala-te, não chores mais,
o meu amor é forte, acredita,
e o meu violão é mais doce
do que um conto de sereia consegue  pintar.

Cala-te, não chores mais
tu és morna, morna és tu
e, se eu te perder, 
eu seria  capaz de perder o tino 
e perder a minha vida.

 


um r’bêra pa mar 

Tem um r’bêra ta corrê pa mar... 
R’bêra sem ága 
má tcheu de dor e raiva 
de desuspêre e agonia 
El ta tcheu de sperança
 inganóde e de promessa inrolóde na fume 

Tem um r’bêra ta corrê pa mar
R’bêra sem ága 
ma’l tem sangue 

Sangue daquês que morrê na terra-longe 
na traboi scróve 

Sangue daquês q’caí de rotcha 
pa ca morrê de fôme 

Sangue d’irmon que matá irmon 
pa inganá és dstine de séca 
dstine qu’ês marróne 
má dstine  que nó ca qrê 

Tem um r’bêra ta corrê pa mar...



Uma ribeira para o mar

Há uma ribeira que corre para o mar...
Ribeira sem água,
mas cheia de dor e raiva,
de desespero e agonia.
Está cheia de esperança,
enganosa e de promessas enroladas em fumo.

Há uma ribeira que corre para o mar,
ribeira sem água,
mas que tem  sangue.

Sangue daqueles que morreram na terra-longe,
em trabalhos escravos.

Sangue daqueles que caíram dos penhascos
para não morrer de fome.
Sangue de irmão que matou irmão
para enganar esse destino da seca,
destino a quer estamos amarrados,
mas é um destino
que nós não queremos.

Há uma ribeira que corre para o mar...



morabeza 

’M tá gostá de bô ser 
um spêce de porte d’abrigue 
Qond tempôral b’tasse mim 
dum conte pa ote 
’m tá tem certéza 
na bô morabéza: 
dôs bróce quente pa quecême 
dôs oi monse pa serenóme 
e um boca doce pa calentóme


Morabeza


Gosto que tu sejas
o meu  porto de abrigo
Quando a tempestade me sacode
de um lado para o outro,
eu tenho a certeza
da tua morabeza:
dois braços quentes para me aquecer
dois olhos mansos para me acalmar
e uma boca doce para me acalentar



In:  "Caminhada". 1ª edição. Lisboa:  Casa dos Estudantes do Império. Colecção de Autores Ultramarinos,  1963 (disponível em https://www.uccla.pt/sites/default/files/caminhada.pdf )


(tradução para português europeu,   com recurso à IA, revisão, fixação de texto, pontuação, na coluna do lado direito: LG... E a generosa supervisão  do jornalist, radialista e escritor, e nosso camarada de Cabo Verde, Carlos Filipe Gonçalves)







Fonte: (1975), "Diário de Lisboa", nº 18807, Ano 55, Sábado, 5 de Julho de 1975, Fundação Mário Soares / DRR - Documentos Ruella Ramos, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_4405 (2025-7-12) (com a devida vénia...)