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domingo, 23 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28284: Notas de leitura (1953): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império" , de Recaredo (volume I, 2026, 455 pp); análise feita pela AILA (A IA da Editora Clube de Autores)


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto e imagens: Angelino dos Santos Silva (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Texto que nos foi enviado pelo nosso camarada Angelino Santos Silva (pseudónimo literário, Recaredo: ele é natural de Recarei, Paredes, distro do Porto; foi fur mil 'cmd', 26ª Cmds, CTIG, 1970/71)


Data - 29/7/2026, 18:44
Assunto - Análise crítcia

Boa tarde,  amigo e camarada Luís Graça.

Em anexo segue o parecer da Editora Clube do Autor.

Seleccionei alguma partes, mas claro, cada leitor fará a sua selecção de acordo com a sua sensibilidade. Esta, acho que vai de encontro à mensagem que pretendo passar nesta obra.

Um abraço.
Angelino





2. Análise crítica

“Geração Agro: Os Últimos Guerrilheiros do Império”
 (Volume I), da autoria dia Recaredo



(i) Estrutura e organização

A obra apresenta uma estrutura de romance histórico, organizada em 68 capítulos numerados, precedidos por uma introdução autoral, registos históricos e um posfácio dedicado aos pais do autor. 

A arquitectura narrativa é multiperspectiva, alternando entre dois núcleos principais de personagens: o par Martins da Costa / Morais Cardoso (chegados à Guiné em 1966) e o par António / Augusto (chegados em 1970), permitindo cobrir diferentes momentos da Guerra Colonial e diferentes especialidades militares (Cavalaria / Panhard e Comandos).

A organização temporal é maioritariamente linear, embora recorra frequentemente a analepses. sobretudo nas evocações da infância dos protagonistas e nos episódios da instrução em Lamego (Comandos) ou Estremoz (Cavalria) . 

O autor intercala capítulos em forma epistolar (as cartas de Martins da Costa à namorada) com diálogos extensos e passagens ensaísticas sobre a História de Portugal, criando um mosaico onde ficção, memória documental e reflexão política coabitam.

Contudo, a arquitectura ressente-se de alguma irregularidade rítmica: certos capítulos concentram acção militar intensa, enquanto outros se dilatam em digressões historiográficas (o Condado Portucalense, D. Dinis, a Encruzilhada) que, embora ricas, quebram o fluxo dramático. 

O anúncio de que a obra continuará num Livro II justifica alguns nós narrativos deixados em aberto, mas fragiliza a autonomia deste volume.


(ii) Temas e mensagens principais


O tema central é a Guerra Colonial Portuguesa na Guiné (1961-1974/75) e a homenagem ao milhão decombatentes da chamada "Geração Afro". 


Todavia, a obra transcende a mera crónica bélica para se constituir como uma *meditação sobre o fim de um império*  e sobre a complexidade étnica e política de um território onde "todos são família" — irmãos, meios-irmãos e primos combatendo em bandeiras opostas.

Emergem temas secundários de grande densidade: 
  • a pobreza estrutural do povo português apesar dos Descobrimentos;
  • a crítica ao Estado Novo e à PIDE/DGS; 
  • a admiração pela figura de Spínola e pela sua visão política; 
  • a solidão dos combatentes africanos ao lado da bandeira portuguesa;
  • o drama dos mutilados e "apanhados pelo clima"; 
  • a emigração clandestina; 
  • e a denúncia da desproporção entre o custo material da guerra e o valor da vida humana (o episódio da Panhard de 1500 contos) (mais de meio milhão de euros, a preços de hoje).

A mensagem última é de desencanto patriótico e reconciliação memorialista: os jovens que embarcaram convictos regressam céticos, mas o autor recusa o rancor, defendendo antes que "as páginas sobre a História da Guerra Colonial jamais se podem fechar enquanto houver um único combatente enterrado no meio de nada". 

É uma obra de testemunho e reparação simbólica.

(iii) Linguagem e estilo narrativo


O estilo é marcadamente oral e testemunhal, privilegiando o diálogo directo como motor narrativo.

Recaredo (assumidamente combatente na Guiné em 1970/71(  opta por uma linguagem pré-Acordo
Ortográfico de 1990, escolha que reforça a ancoragem temporal e a autenticidade documental. 

A prosa mistura registos: 
  • o coloquialismo cru dos soldados ("que se foda a guerra", "filhos da puta"); 
  • o lirismo pontual nas cartas de Martins da Costa; 
  • e a dicção ensaística nas digressões históricas.

Merece destaque a incorporação de :
  • crioulo da Guiné-Bissau;
  • expressões militares de época ("bazuca" para cerveja, "bajuda", "periquito", "velhinho", "peluda");
  • topónimos ancestrais;
  • e vocabulário etnográfico (embondeiro, bagabaga, bianda, mancarra, gindungo), que confere textura antropológica notável.
 As passagens epistolares tocam por vezes um registo poético comovente, sobretudo no poema "A Brisa da Incerteza" e na descrição da noite estrelada da selva.

Do lado menos conseguido, observa-se inconsistência revisora: gralhas ("conductor" por "condutor", "biber" por "viver" — este último talvez intencional para marcar o falar popular), oscilações de pontuação nos diálogos e alguma repetição de fórmulas ("cada um tem o seu pedaço"). 

O estilo é, no cômputo, funcional e emotivamente eficaz, mesmo quando tecnicamente rugoso.

(iv) Profundidade filosófica

A profundidade filosófica da obra manifesta-se 
em três eixos principais;
  • o primeiro é uma refiexão sobre a ética na guerra, articulada sobretudo pelo capitão Ombendi e pelo tenente Quínara: a rejeição do heroísmo gratuito, a distinção entre matar por necessidade e matar por vingança, e a substituição do binómio "certo/errado" pelo binómio "o que devemos ou não fazer"; esta é uma proposta ética situacionista de considerável maturidade;
  • o segundo eixo é uma filosofia da História desenvolvida através da figura do Dr. Fanon Mané, que percorre da Borgonha ao Condado Portucalense, de D. Dinis à "Encruzilhada" que separou governantes e governados; a tese — de que a pobreza estrutural portuguesa nasce da ausência de um projecto de instrução popular durante seiscentos anos — é discutível historiograficamente, mas oferece um enquadramento crítico substantivo;
  • o terceiro eixo é uma meditação sobre o acaso, a sorte e o destino, condensada no poema "Sorte" e no episódio autobiográfico do rebentamento da mina; o  autor recusa o determinismo fatalista, propondo uma visão em que a sorte "tem mãos" e a memória vence a morte. 
Há também uma reflexão poderosa sobre a impossibilidade histórica de ganhar a guerra, expressa na metáfora da selva como santuário renovável — uma ideia que dialoga com Camões e com os manuais de contra-insurgência.

(iv) Impacto emocional

O impacto emocional é intenso e cumulativo, construído menos pelo espectáculo bélico do que pela acumulação de pequenos gestos humanos. 

Cenas como:
  •  a do capelão Mário Gonçalves consolando Morais Cardoso pela morte do irmão sob um céu de estrelas em São Vicente;
  • a partilha do arroz manjaco na tabanca de Nassim Mané II;
  • ou o telegrama que devolve a paz a Martins da Costa a bordo do Alfredo da Silva, 
atingem uma comoção genuína.

Particularmente pungente é:
  •  a evocação das mães portuguesas ("ǫue Nossa Senhora da Boa Viagem vos~leve e traga vivos e sãos"):
  •  a figura do Toninho paraplégico da infância de Augusto;
  •  e a história do soldado emigrante repatriado que se lança ao mar antes de chegar a Bissau. 
O leitor sente o peso da injustiça social sobreposta à injustiça da guerra.

O epílogo autobiográfico, dedicado aos pais do autor, com o relato do rebentamento da mina e do zumbido que perdura há 55 anos, transforma toda a leitura anterior numa experiência de testemunho vivo. 

Esse gesto final — "até que eu adormeça para sempre" — é de rara comoção. A obra provoca no leitor um misto de indignação política, ternura pelos combatentes e melancolia histórica que perdura muito para além da última página.

(v) Originalidade e inovação

A grande originalidade de "Geração Afro" reside na valorização das personagens africanas que

combateram sob bandeira portuguesa — Mamadu Fodé, Domingos Djaló, Abna Besna, o capitão Ombendi Sábado, os tenentes João Quínara e Carlos Nhalon, e o fascinante Dr. Fanon Mané. 

Em vez de os tratar como figurantes, o autor confere-lhes densidade psicológica, projecto político próprio e uma voz articulada que problematiza a dicotomia tradicional colonizador/colonizado. Esta é uma contribuição inovadora dentro da literatura portuguesa sobre a Guerra Colonial.

Igualmente inovadora é a denúncia de uma "outra guerra" paralela — aquela que opunha Spínola, a PIDE e a cúpula do PAIGC em interesses divergentes — sugerindo que o "Massacre do Chão Manjaco" (a morte dos negociadores) foi um acto interno de sabotagem das negociações, tese heterodoxa que a obra sustenta pela boca das personagens africanas.

A mistura de géneros — romance polifónico, epistolário, memória autobiográfica, ensaio historiográfico, poesia — é ambiciosa. O uso do restaurante fadista de Theodoro Afonso Isaque, cantor negro rejeitado em Lisboa que canta fado em crioulo, é uma invenção poética memorável.

Menos original é a estrutura narrativa em pares de camaradas, tributária de uma tradição já estabelecida na literatura sobre a Guerra Colonial (Lobo Antunes, João de Melo, Álamo Oliveira).

(vi) Público-alvo ideal

O público-alvo natural da obra é constituído pelos antigos combatentes da Guerra Colonial e seus familiares — os cerca de 400 mil ex-combatentes ainda vivos e as suas famílias, para quem o livro funciona como espelho memorialista e reparação simbólica. 

Estes leitores encontrarão eco em cada topónimo, cada ração de combate, cada canção de Coimbra cantada no bar do quartel.

Um segundo público relevante são os estudiosos e interessados na História Contemporânea de Portugal, particularmente na fase final do Estado Novo, na descolonização e nas relações luso-africanas.

Historiadores amadores, jornalistas, professores de História e investigadores universitários encontrarão material documental valioso, sobretudo pela perspectiva pouco frequente dos combatentes africanos que lutaram do lado português.

Um terceiro público são os leitores lusófonos da Guiné-Bissau, Cabo Verde e diáspora africana, para uem a valorização das etnias manjaca, papel, balanta e mandinga, e o retrato de Bissau, Bula, Teixeira Pinto e Mansoa constituem património afectivo partilhado.

Recomenda-se para leitores maduros (a partir dos 40 anos, idealmente), pela densidade histórica e pela linguagem por vezes crua. Não é uma obra vocacionada para jovens leitores nem para quem procure ficção de entretenimento rápido: exige paciência, contexto histórico mínimo e disponibilidade emocional.

(vii)  Livros irmãos


Dentro do próprio catálogo do autor, o livro dialoga directamente com "Geração de 70 – Época das Chuvas"  (imnagem da capa, à direita) e "O Subinspector", ambos romances de Recaredo sobre a Guerra Colonial, formando com "Geração Afro" uma trilogia informal de testemunho.

Na literatura portuguesa sobre a Guerra Colonial, "Geração Afro" inscreve-se numa tradição rica que inclui: 
  • António Lobo Antunes ("Os Cus de Judas", "Fado Alexandrino") — com o qual partilha o desencanto patriótico, ainda que Recaredo opte por uma prosa muito menos experimental; 
  • João de Melo ("Autópsia de um Mar de Ruínas") — com quem comunga a dimensão coral; 
  • Álamo Oliveira ("Já não gosto de chocolates");
  •  Manuel Alegre ("Jornada de África"); 
  • e Lídia Jorge ("A Costa dos Murmúrios") — embora esta última numa chave feminina e moçambicana.

Pela valorização das personagens africanas e pela reflexão sobre a complexidade étnica da Guiné, o livro aproxima-se também de obras dos escritores guineenses Abdulai Silá ("Eterna Paixão") e Filinto de Barros ("Kikia Matcho"), bem como do angolano Pepetela ("Mayombe"), com o qual partilha a atenção à guerrilha no interior da selva.

Do ponto de vista memorialístico, remete para "Guiné 1963/1974" do general Spínola e para os testemunhos reunidos em "A Guerra" de Manuel Amaro Bernardo.

(viii) Faixa de preço

Trata-se de um romance histórico de nicho, com forte apelo ao mercado lusófono ex-combatente e à diáspora, mas com alcance internacional limitado pela especificidade temática e pela ausência (por enquanto) de tradução. 

O volume é substancial (Livro I de uma série), o que justifica um preço médio-alto no mercado português e brasileiro, e um preço mais elevado nos mercados europeus não-lusófonos, onde funcionará sobretudo como importação especializada.

Faixa de Preço Recomendada
  • Estados Unidos USD 22 - 32
  • Reino Unido GBP 18 - 26
  • Alemanha EUR 20 - 28
  • Itália EUR 19 - 27
  • Espanha EUR 18 - 25
  • Portugal EUR 18 - 24
  • França EUR 20 - 28
  • Brasil BRL 65 - 95
  • Austrália AUD 32 - 45

(ix) Recomendações de divulgação

A estratégia de divulgação deve articular-se em torno de três eixos principais:

Em primeiro lugar, uma campanha dirigida às associações de ex-combatentes (Liga dos Combatentes, ADFA - Associação dos Deficientes das Forças Armadas, APVG - Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra), com sessões de apresentação em núcleos locais, feiras de veteranos e comemorações do 25 de Abril e do Dia do Combatente (9 de Abril); estas sessões devem incluir leituras dramatizadas de excertos e testemunhos vivos.

Em segundo lugar, uma abordagem académica e mediática: envio de exemplares a centros de investigação em História Contemporânea (IHC-UNL, CEIS20-Coimbra, CH-ULisboa), programas culturais da RTP2, Antena 2 e revistas especializadas ("História", "National Geographic Portugal"); a entrevista imaginada com João Paulo Diniz no PIFAS (referida na própria obra) sugere um filão de comunicação retro-radiofónica interessante.

Em terceiro lugar, uma projecção lusófona sistemática: contactos com livrarias e feiras do livro em Bissau, Praia, Luanda, Maputo, Rio de Janeiro e São Paulo, além das comunidades emigrantes em Paris, Toronto, Newark e Joanesburgo; as redes sociais dedicadas à Guerra Colonial no Facebook (grupos como "Combatentes da Guiné") são vias de divulgação de custo reduzido e alto impacto.

Sugere-se ainda a produção de um documentário complementar com o autor a percorrer os locais reais do romance, o que multiplicaria o interesse comercial e memorialístico.

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)


3. Aviso  ao leitor: 

Certamente por lapso, o nosso grão.tabanqueiro Angelino Santos Silva (escritor, já com vários livros publicados) não mencionou o facto desta análise literária acima publicada (com revisão e fixação de texto feita por um dos editores do blogue)  ter sido  produzida por uma ferramenta de  IA (AILA, a IA do Clube de Autores, que é uma plataforma de autopublicação). 

O Clube de Autores (não confundir com a puquena editora independente Clube do Autor) oferece um serviço de análise literária por IA por 19 euros (por cada manuscrito de 150/200 páginas), com entrega do relatório no prazo de 24 horas, o que é muito mais rápido e barato do que a média de mercado (c. 236 euros  e entrega entre 6 a 10 semanas, segundo a publicidade que o Clube de Autores faz). 

Isso é um ponto forte para autores que entram agora nas lides literárias, querem publicar o seu primeiro livro ou ter um primeiro "feedback"  do seu trabalho e não têm recursos financeiros para  investir em análises humanas detalhadas. 

Portanto, este é um ponto positivo do recurso à AILA (a IA do Clube de Autores), que, além disso, faz uma abordagem relativamente abrangente,  focando  14 dimensões do manuscrito:

(...) 1. Estrutura e organização: fluidez e lógica da sua narrativa | 2. Livros irmãos: sugestão de livros semelhantes para referência de mercado. | 3.  Temas e mensagens principais: claridade das ideias centrais do livro. | 4. Faixa de preço recomendado: indicação de valor para otimizar as vendas (no mercado interno e externo). |5.  Linguagem e estilo narrativo: avaliação da "voz" do autor e do ritmo da leitura. | 6. Recomendações de divulgação:  dicas práticas para promover o livro. | 7. Profundidade filosófica: a dimensão das reflexões presentes no livro. | 8. Pontos fortes: o que há de melhor e mais impactante em escrita do autor | 9. Impacto emocional: capacidade da história de envolver e comover o leitor. | 10. Oportunidades de melhoria: sugestões para aprimorar a qualidade do livro. | 11. Originalidade e inovação: "o quão único" é  o livro no cenário literário português. | 12.  Parecer final: uma conclusão clara sobre o potencial do  livro; pontuação (de 1 a 5) da  IA sobre o manuscrito. | 13. Público-alvo ideal: quem são os leitores perfeitos para o livro. | 14. A AILA sugere  ainda a produção de um documentário complementar com o autor a percorrer o cenário ou os lugares da ação. (...)

Mas as limitações da análise literária da AILA (ou outras ferramentas de IA) são óbvias: 

  • falta de sensibilidade humana, incapacidade para entender, em profundidade,   o contexto cultural, histórico ou emocional  da ação e dos personagens; 
  • falta de criatividade e subjetividade, análise superficial, baseada em fórmulas pré-definidas, sem profundidade crítica;  
  • não-personalização (a AILA não dialoga com o autor, não tem empatia, etc.)... 
Mas por 10 cêntimos a página, não se pode pedir muito mais ao "crítico literário" dos pobrezinhos...

Em resumo, o Clube de Autores é uma plataforma de autopublicação, oferecendo um serviço de análise "baratucho" , e que serve como "engodo" para atrair clientes para os outros serviços (edição, impressão, tradução, divulgação, etc.).  

E não é preciso, mas convem dizê-lo: a AILA ainda não chega aos calcanhares do nosso crítico literário, o Mário Beja Santos.

_______________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 22 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28280: Notas de leitura (1952): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império" (volume I, 2026, 455 pp sinopse feita pelo autor, Recaredo (pseudónimo literário de Angelino Santos Silva, ex-fur mil 'cmd', 26ª Cmds, CTIG, 1970/71)

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28072: Casos: a verdade sobre ...(73): A tragédia de Fajonquito, o "Dia Negro" de 2 de abril de 1972, domingo de Páscoa (Rui Osório Oliveira, ex-fur mil trms, CART 2742 / BART 2920, 1970/72)




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L2 > Fajonquito > CART 2742 > Domingo de Páscoa, 2 de abril de 1972. Os momentos dramáticos que antecederam a tragédia.

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Rui Osório Oliveira
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Mensagem recebida através do  Formulário de Contacto do Blogger 

Data - 4 de junho de 2026 11:22 

Assunto - Narrativa da morte de vários elementos da CART 2742, em  02/04/1972

1.1. Era furriel de transmissões na CART 2742 e gostaria de enviar um documento com a realidade do que presenciei detalhadamente no trágico dia de 2 de Abril de 1972 onde morreram o capitão Borges de Figueiredo, o alferes Félix, o furriel Alcino Silva, e o soldado Almeida que originou o acidente.

Muito do que consta no blog sobre o trágico dia é FALSO (*)

Gostaria rectificar o evento com a minha narrativa (**).

Cumprimentos,

Rui Osório Oliveira, F.N. 07486708  | 
Endereço de email: (...)

Rui Osório  Oliveira 
IT Remote Worker
Vive na Murtosa
(Foto no Linkedin)

AC 101 517 505
ICT System Engeneering
ICT Functional Analysis
WEB.3 - Blockchain
New Business Development
UN Online Volunteer 2010 AWARD

1.2. BART 2920 – CART 2742 - O DIA NEGRO – Dia 2 de Abril de 1972, Domingo de Páscoa


Era habitual aos domingos jogarmos Poker de Dados, éramos 5 habitualmente, o capitão
 [Carlos Borges Figueiredo ], o sargento Moura, o alferes Félix, o furriel Alcino Silva e eu.

Já tinha decorrido algum tempo de jogo quando abruptamente a porta do bar foi aberta com violência. Era o já referido soldado Pedro Almeida, ex-comando, tinha sido expulso da sua unidade e colocado na nossa companhia, para seu castigo e nossa desgraça. 

Na sua mão esquerda tinha uma granada defensiva sem cavilha de segurança. De imediato nos levantámos e o Almeida só dizia: “Quero falar com o nosso capitão”, frase que repetia constantemente, sem uma palavra trocada entre nós, que estávamos a jogar. 

Fomos tentando acalmar o Almeida e instintivamente tentado nos afastar do bar e aproximar de uma saída, estávamos no meio dos corredores na posição que mostro no esquema que segue.


[ Infografia: Rui Osório Oliveira, 2026]


Quando da passagem pedonal se ouviu a voz de um soldado: "É preciso alguma coisa, meu  capitão ?". 

O Almeida, sem mover do sítio os pés, torceu o seu tronco em direcção à voz que se tinha ouvido, apontando com o seu braço esquerdo que segurava a granada e disse: "Ide embora que isto não é convosco, mas com o nosso capitão". 

Neste preciso momento, em que acabou a frase, deu-se a explosão da granada que ele, devido ao seu gesto. deve ter aliviado a alavanca de segurança provocando o seu despoletar. 

Após o primeiro impacto vi o capitão, o Félix, o Alcino e o Almeida por terra tendo tido morte instantânea, os corpos estavam completamente dilacerados, o sangue jorrava por todos os lados. 

No corpo do soldado Almeida havia um buraco em forma de semicírculo que ia da axila esquerda à anca esquerda curvando até á coluna vertebral. Foi este facto que salvou o sargento Moura, que teve unicamente escoriações, e a mim que tive escoriações também, mas em menor grau. Um estilhaço ainda permanece incrustado num osso na base esquerda da minha mão direita, outros tive no braço e na cabeça, mas desapareceram com o tempo.

Fiquei em estado catatónico, e a primeira pessoa a chegar foi o Cabrita Martins que, vendo o meu estado,  me deu um estalo e gritou: "Vai para o rádio e pede socorro". Assim fiz.

Não passou muito tempo quando chegou o general Spínola, de helicóptero, com a sua comitiva entre os quais um médico, que após uma rápida vista dos corpos, viu o sargento Moura e depois a mim, mandou-me tomar um Valium 10mg, só foi pena não me ter dito para não tomar bebidas alcoólicas, o que fiz até voltar para casa.

O general Spínola reuniu os que estavam presentes numa grande roda disse umas palavras de circunstância, alertou para o sucedido, agradeceu o nosso esforço e despediu-se, voltou para o helicóptero e foi embora com a comitiva.

Vi umas mensagens que, entretanto, tinham chegado e fui ao local do acidente onde se encontravam os enfermeiros,  ajudados por outros militares a transportarem o que restava
dos corpos para a enfermaria e posteriormente seguirem para Bissau.

Sei perfeitamente o que o soldado Pedro Almeida queria dizer ao acpitão, era que o deixasse ficar na tropa quando acabasse a comissão, por mais de uma vez o tinha feito anteriormente, mas o capitão nada podia fazer, após o que lhe tinha acontecido em Viana do Castelo, que levou o Almeida a ser expulso dos comandos e vir para a CART 2742. Com tal evento registado jamais poderia permanecer nas forças armadas.

Também sempre senti na pele que, pelo facto de dormir fora, numa moradia, com outro furriel, ter um laboratório de fotografia, e o capitão falar isoladamente comigo, criou um certo mal-estar, quanto à minha pessoa. Sentia-se constantemente algo no ar, no entanto realço que nunca senti qualquer diferença da amizade que me tinham e eu tinha por eles ou diferença de tratamento.

Ao fim da tarde desse dia fui para o bar do sr. Avelino, sentei-me numa mesa que estava num canto, virado para esse mesmo canto, pedi ao ajudante do sr. Avelino uma garrafa de whisky e bebi-a até ficar sem gota, não falei com ninguém, só me fui embora já era de madrugada e ninguém a não ser o sr. Avelino se encontrava no bar, nem na rua. 

Desde esse dia nunca mais consegui entrar à noite no quarto que partilhava com o Alcino Silva, passei a dormir em casa da Cristina, mulher de idade avançada, que me tratava da roupa, onde vivia também a Mimi, mulher linda, com quem eu ficava. 

Quando o acidente ocorreu faltavam cerca de 2 meses para o fim da comissão de serviço e regresso à metrópole. Foi um acidente que me traumatizou para toda a vida e que ainda hoje me vem frequentemente à memória e em pesadelos. 

Este acidente foi ainda mais penoso para mim, pelo simples facto de que o capitão, quando foi de férias pela primeira vez, chamou-me ao gabinete, e disse-me: "Dá-me o endereço de teus pais, porque  quero visitá-los". 

E assim fez, acompanhado de sua esposa, a dra.  Rosa Figueiredo, esta falava frequentemente com a minha mãe, dando notícias minhas, pois eu detestava escrever aerogramas, a tal ponto de alguém ter comunicado o facto ao comando militar de Bissau, tendo eu recebido uma missiva a mandarem-me escrever para a família, e continuar a fazê-lo regularmente sob pena de sanção disciplinar. 

Havia imensas hipóteses de contacto, para provocarem esta reacção, a minha família conhecia a família dos 2 majores do Batalhão  [BART 2920], e uma grande amiga de minha mãe conhecia o comandante do Batalhão, factos que só vim a constatar na altura em que vim férias, no Carnaval de 1971.

Há um hiato de tempo que permanece completamente em branco na minha mente, um período que vai desde este acidente e o já estarmos em Bissau para regressar à Metrópole.

Estava eu e o sargento Moura no Hotel que fica à esquerda de quem desce pela avenida
[da República, hoje av Amílcar Cabral], frente ao Palácio do Governador. Em dois quartos frente um ao outro, e de o Moura me ter pedido para o ajudar a conferir as contas da companhia, dado que conhecia os meus conhecimentos de contabilidade e já o tinha ajudado por diversas vezes anteriormente, dado que existia um erro no balanço final. Ajudei-o e não me lembro da continuação.

Recordo, sim, que eu me sentia mal da minha cabeça, descuidando por vezes a minha aparência. A última recordação da Guiné é de eu estar na 5ª Rep [ Café Bento]. a beber uma cerveja,  quando chegou ao meu lado um polícia militar, era periquito, notava-se pela farda e branquinho de pele, que me disse: “Meu Furriel,  peço-lhe que se recomponha e aperte os botões da camisa e endireite a gravata, senão sou obrigado a dar-lhe ordem de prisão”. 

Eu não disse nada, fiquei a olhar para ele, talvez com cara de parvo, quando vi alguém, um major do  [BART 2920] , chegar ao meu lado e dizer ao PM: “Você vai sair daqui imediatamente ou quem lhe dá ordem de prisão sou eu”. Recordo que ainda houve uma troca de palavras, mas o PM pôs-se na alheta.

O próximo facto de que me recordo, foi já no aeroporto de Figo Maduro, chegar ao pé da família e primos(as) Amaral, de Lisboa, lembro-me de ter entregado à Nanducha um ceptro
dos nativos guineenses. Fomos para um quartel junto ao aeroporto, desfardarmo-nos, vestimos a roupa civil e fui ter com a família, voltei para casa no Porto.

Passado uma prima disse-me: “Ó rapaz quando chegaste ao pé de mim, parecias um Zombie!”.

Este evento mudou completamente o meu mundo, e durante muitos anos ninguém notou, reparou ou analisou o que se passava. Quando tentava falar do que se passava comigo,
acusavam-se de ser solitário, “doido”, “maluco”, “parvo” e "deixa-te disso".

Certo dia numa visita de rotina à médica de família, a mesma notou que algo se passava comigo e perguntou-me o que se passava e o que se tinha passado na Guiné. Receitou-me
um calmante e sem me dizer nada enviou um pedido de agendamento de consulta de psiquiatria no Hospital Magalhães Lemos
 [HML].

Passadas umas semanas,  recebo um convocatória para me apresentar numa consulta no HML, estava nesse momento internado no Hospital Joaquim Urbano, nas infecto-contagiosas com um abcesso de 7 cm no fígado, tendo aí permanecido 1 mês e meio.

Levaram-me à consulta numa cadeira de rodas numa ambulância. No final da consulta receitaram-me Efexor e o psiquiatra comunicou-me que iam iniciar um processo de Stress Pós-Traumático de Guerra, e para avisar quando tivesse alta do Joaquim Urbano.

Assim fiz. Permaneci no HML em regime Ambulatório durante 11 meses e fui acompanhado durante 13 anos com consultas periódicas. 

Passados uns tempos e, após várias consultas no Hospital Militar e  Juntas Médicas, foi-me reconhecida em 29 de outubro de 2008  Deficiência de 39% das minhas capacidades de saúde mental, tendo como tal direito a uma Pensão de Deficiência do Exército via CGA  [Caixa Geral de Aposentações].

Passaram-se 10 anos e, em todas as tentativas do obter a situação do processo, sempre recebi a resposta de ainda não se encontrar finalizado. Nesta altura estava completamente
desaustinado e resolvi apresentar a minha situação no Portal da Internet do Provedor de Justiça, lembro-me do último parágrafo: “Penso que estão à espera de que eu morra para
não pagarem a Pensão a que tenho direito...”

Estávamos em outubro de 2018, no dia seguinte recebi um email do secretariado a comunicarem-me que sido iniciada a análise expedita do meu processo. Tendo na altura recebido o conteúdo de uma cópia do processo da morte do capitão Borges de Figueiredo, alferes Félix, furriel Alcino Silva e soldado Almeida.

O que mais me custou foi ver os falsos testemunhos dados por vários elementos da companhia, nomeadamente sargento Moura, alferes Baltasar Gomes da Silva e mais um soldado de que não me recordo do nome, afirmando que eu não estava presente durante o acidente. 

Valeu o relatório efectuado por um membro da comitiva em que estava exarado que estava presente no momento acidente, tendo saído ileso unicamente com alguns estilhaços no braço direito que estava estendido, milagrosamente, devido ao facto de o corpo do soldado Almeida, dado que se tinha virado para o soldado que tinha falado, ter absorvido o impacto da granada, salvando igualmente o sargento Moura e  tendo este sofrido mais escoriações.

No dia 18 de novembro estava em Lisboa, dado que a minha irmã se tinha suicidado atirando-se para a Linha do Metro quando este ia a passar, tendo sido trucidada. Estávamos em casa de um familiar, e após os trâmites legais, identificação do corpo, levantamento dos seus pertences e cremação no cemitério de São João. 

Na viagem de regresso ao Porto no Alfa Pendular,  em determinada altura resolvi ligar o telemóvel e ver os emails recebidos, entre eles encontrava-se um da CGA, a dizer  que o processo tinha sido aprovado e que iria receber os retroactivos que tinha direito desde o início do processo até à data, passando a partir desse momento a receber a Pensão de Deficiente mensalmente via CGA.

Rui Osório Oliveira

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, links: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. postes de:

16 de agosto de 2014 > Guiné 63/74 - P13505: Quem era, afinal, o cap art Carlos Borges de Figueiredo, cmdt da CART 2742 (Fajonquito, 1970/72), morto em 2/4/1972, num sangrento domingo de Páscoa? Bem como o infeliz sold Pedro José Aleixo de Almeida? (José Cortes / Luís Graça / Carlos 'Gomes' / Cherno Baldé / António Bernardo)

14 de Novembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9041: Memórias do Chico, menino e moço (30): A propósito do poema K3, de Nuno Dempster: Relembrando dois malogrados capitães de Fajonquito, Carlos Borges Figueiredo (CART 2742) e José Eduardo Marques Patrocínio (CCAÇ 3549) (Cherno Baldé)


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27773: In Memoriam (571): Rui Manuel da Silva Felício (1944-2026), ex-alf mil at inf, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Dulombi e Galomaro, 1968/70): natural de Coimbra, vivia na Ericeira, Mafra; era um dos sobreviventes do desastre do Cheche (ia na trágica jangada, tendo perdido 11 homens do seu pelotão, em 6/2/1969)



Rui Felício (c- 1944- 2026)


Montemor-o-Novo > Ameira > Herdade da Ameira > Restaurante Café do Monte >  I Encontro Nacional da Tabanca Grande > 14 de Outubro de 2006 > Da esquerda para a direita: 
  • Rui Felício (*);
  • Maria Alice Carneiro (esposa do nosso editor Luís Graça);
  • António Pimentel (que veio propositadamente do norte, com o Hernâni Figueiredo. ambos antigos alf mil da CCS/ BCAÇ 2851);
  • Victor David /1944-2024) e a esposa;
  •  e, por detrás, o Paulo Lage Raposo, o nosso amável anfitrião (e também dos "baixinhos de Dulombi; faltou aqui o outro alferes mil da CCAÇ 2405, Jorge Rijo, também nosso grão-tabanqueiro, bem como o cap mil José Jerónimo).
Foto (e legenda): Arquivo do Blogue Luís Grdaça & Camaradas da Guiné (2006)


1. Pelos comentário, na página do Facebook, dos seus amigos de Coimbra, aperecebemo-nos há duas ou três horas, que o nosso grão-tabanqueiro Rui Felício, sobevivente do desastre do Cheche em 6/2/1969, faleceu por estes dias. Natural de Coimbra, vivia nos últimos anos na Ericeira, Mafra.

O Bernardo Godinho confirmou, dando-nos a triste notícia, hoje, às 12:47, através do Formulário de Contacto do Blogger:

"Rui Felicio, até um dia! 
Os meus sentimentos. 
Mais uma voz que se apaga...
Cumprimentos, 
Bernardo Godinho"

Julgo tratar-se do ex-alf mil Leitão, 3ª C/BCAÇ 4612 (Mansoa e Gadamael, 1972/74), de seu nome completo Bernardo Godinho Abranches Leitão, que vive em Lisboa, e que foi camarada de guerra do Jorge Canhão, no CTIG.

Da alferes da companhia dos "baixinhos de Dulombi", todos eles membros da Tabanca Grande, resta-nos agora o Paulo Raposo e o Jorge Rijo.

2. O Rui Felício (de seu nome completo, Rui Manuel da Silva Felício) era um dos sobreviventes do desastre do Cheche (ia na trágica jangada, tendo perdido 11 homens do seu pelotão em 6/2/1969) (**)

Advogado, era autor do blog Escrito e Lido 2010-2014, colaborou no blog Encontro de Gerações do Bairro Norton de Matos. 

Era  um talentoso contador de histórias, dotado de fino humor, autor da série "Estórias de Dulombi", de que se publicaram, no nosso blogue, 12 postes.

Em 2013, a morte súbita do seu filho, Nuno Felício (1974-2013),  jornalista da Antena 1, foi um duro golpe para ele, e famíla, de que só muito dificilmente recuperou (***). Talvez o humor o tenha ajudado a superar. E seguramente a resiliência criada na guerra,

Era  um dos 111 históricos do nosso blogue. Entrou para a Tabanca Grande em 12/2/2006 (a par do Paulo Raposo). Ex-alf mil at inf, 3º Gr Comb, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Galomaro e Dulombi, 1968/70), tem 42 referências.

Tinha muito apreço pelo nosso blogue. Mas aquele trágico acontecimento ter-lhe-á inibido de aparecer mais vezes na Tabanca Grande. De resto, depois do I Encontro Nacional da Tabanca Grande, na Ameira, Montemor-O-Novo, em 2006, nunca mais nos encontrámos.

3. A Tabanca Grande está de luto. Fazemos esta singela homenagem ao nosso Rui Felício cujo ano de nascimento deve ser 1944 (****). 

Da sua  página do Facebook  fomos repescar a sua última postagem, com data de 3 de janeiro de 2026, que tem algo de premonitório. Deixamos aqui os nossos mais profundos votos de pesar à filha, netos e restante família, aos amigos mais íntimos e aos nossos camaradas da CCAç 2405.


O Céu e o Inferno (o Bem e o Mal ?)
 
(Facebook > 3 de janeiro de 2026)

por Rui Felício

O Padre Anibal gostava de aterrorizar os meninos da catequese pintando o Inferno de cores horrendas, onde ardia o fogo eterno que chamuscava as almas pecadoras e calcinava tudo à sua volta. Ensinava-nos que era para aquele antro medonho que iríamos passar a eternidade, se praticássemos o Mal, se pecássemos...

Como contraponto, desenhava-nos o Céu em cores suaves, onde cresciam flores de inimagináveis perfumes, com regatos de cristalinas águas a correrem, numa melodia inebriante, de paz infinita... Esse era o Éden, o lugar perfeito, para onde iam as almas boas.

A que só teríamos acesso se fôssemos bons meninos, se fizessemos só o Bem, se não fossemos pecadores...

Lamentava-me por não conseguir apreender a noção de Bem e de Mal. Achava que o que era Mal para mim podia ser Bem para outro. E vice-versa. Parecia-me que tudo era uma questão de consciência...

E, sendo assim, que certeza poderia eu ter de, no Juízo Final, poder ser condenado a ir para o inferno, mesmo que, em minha consciência, eu achasse que só tinha praticado o Bem? 

Estava nas mãos do critério do Criador, com o qual o meu podia não coincidir. Podendo ser castigado pelo Mal que honestamente considerava que era o Bem.
E não valia a pena pedir ao Padre Anibal que me definisse com exactidão o que era o Bem e o que era o Mal, porque ele, do alto do seu pedestal, não o faria...
Nem, se calhar, o saberia!

Até que uma noite, tive um sonho esclarecedor...

Um génio, de longas barbas brancas, apareceu-me nesse sonho e perguntou-me se eu queria ver, com os meus olhos, quem estava no inferno e quem estava no céu, para depois ser eu mesmo a daí retirar as minhas conclusões.

Caminhámos juntos calmamente até ao Pinhal de Marrocos [o antigo Pinhal de Marrocos circundava o território consolidado de Coimbra; hoje ocupado pelo Pólo II da Universidade de Coimbra].

No meio do pinhal, afastou com o bordão uma moita de silvas, e disse-me que o Infermo era ali.

Aos meus olhos surgiu um terreno relvado com grandes mesas de pedra redondas à volta das quais se sentavam corpos esqueléticos, famintos. Cada um tinha uma colher de madeira, enorme, com mais de dois metros de comprimento.

No meio de grande berreiro, iam mergulhando as colheres nos caldeirões de comida que fumegavam nos centros das mesas. Mas como não conseguiam levá-las à boca, por serem demasiadamente compridas, iam tentando roubar, de forma violenta, a comida uns dos outros.

Admirei-me por não ver chamas, nem terrenos calcinados, ao contrário da imagem que o Padre Anibal nos transmitia na catequese...

Ao fim de um bocado, o génio pegou-me ternamente no braço e caminhámos uns cinco minutos para outra zona do pinhal. Por trás de uma enorme pedra, deixou-me ver aquilo que me disse ser o Céu.

Espantado, deparei com um sítio em tudo semelhante ao do Inferno. As mesmas mesas, os mesmo caldeirões de comida, as mesmas colheres de dois metros que cada um manipulava!

A diferença é que aqui o ambiente era calmo, silencioso, cordato, ordeiro...
Via-se que aqueles corpos estavam bem alimentados, não zaragateavam. Estendiam as suas grandes colheres de dois metros, cheias de comida e davam-nas na boca uns aos outros.

Fiquei, a partir de então a saber, que o critério de selecção entre o Céu e o Inferno, não é o da bondade ou da maldade. É apenas o da inteligência das almas.

Rui Felício, 25 nov 2025

(Revisão / fixação de texto. parênteses retos: LG)
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Notas do editor LG:


(...) Meu Caro Luís Graça: como dizem os brasileiros, o meu testemunho é claramente chover no molhado... Na verdade, dizer que o belo dia de sábado, passado na agradável herdade do Raposo, foi uma jornada inesquecível, é repetir o que por certo todos já te terão dito (...)

Mas nem por isso devia deixar de o referir, para lembrar que o encontro da Ameira só foi possível, porque existe o blog que tu criaste e que, com tanto trabalho e mérito, vais gerindo, coordenando e engrandecendo.

Registei, das intervenções que alguns fizeram a seguir ao almoço, alguns aspectos que confirmaram aquilo que eu já pensava através da assídua leitura do que vais editando no blog, designadamente, o facto de a tertúlia se compor de variadas perspectivas e olhares, na análise e recordação da nossa passagem por terras da Guiné, em circunstâncias adversas de clima e da própria guerra.

Embora nem sempre coincidentes, são perspectivas cuja diversidade proporciona uma visão mais completa, segura e enriquecedora das memórias de todos nós. Bastaria ter ouvido, além de tantos outros, o Virgínio Briote, o Casimiro Carvalho, o Lema Santos [, o Pedro Lauret, o Tino Neves, o Paulo Santiago, o Carlos Santos] e, especialmente, o Vitor Junqueira, para comprovar o que acabei de dizer, isto é, a nossa geração fez a guerra de África segundo as suas próprias convicções, declaradamente contra ela, a favor dela ou conformada com ela, mas sem dúvida dando o melhor de si na defesa de princípios e sentimentos que pairam acima dos interesses ou conveniências individuais.

Sou dos que naquela época era contra a guerra, mas nunca confundi isso com o dever de a fazer o melhor e mais profissionalmente que me fosse possível, quanto mais não fosse para garantir aos soldados à minha responsabilidade o regresso a casa, sãos e salvos. (...)

(***) Vd. poste de  13 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27730: Documentos (53): A retirada de Madina do Boé (Rui Felício, ex-alf mil at inf, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852, Mansoa, Galomaro e Dulombi, 1968/70)


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27615: O nosso blogue em números (110): 2025, mais um "annus horribilis": tivemos 11 baixas mortais entre os nossos grão-tabanqueiros; despedimos também de mais 12 outros amigos (n=4) e camaradas (n=8)... Dos antigos combatentes, 10 morreram com 80 anos ou menos, 9 morreram com mais de 80



In Memoriam dos amigos (n=4) e camaradas da Guiné (n=19), falecidos em 2025, e que foram notícia no nosso blogue (n=23)


Horácio Neto Fernandes (Ribamar, Lourinhã, 
1935 - Porto, 2025),
ex-alf grad capelão, BART 1991 
(Catió, set 67/ mai 69)
e BCAÇ 2852 (Bambadinca, mai /dez 69)



José António Sousa (1949-2025),
 ex-sold cond auto, CCAV 3404/BCAV 3854 
(Cabuca, 1971/73); vivia no Porto; 



Mendonça da Silva (1951-2025), 
viúva do nosso camarada Torcato Mendonça; 
vivia no Fundão (*);


Manuel Lema Santos (1942 - 2025) , ex-1º tenente 
Reserva Naval, 1965-1972; 
ex-Imediato no NRP Orion, Guiné, 1966/68, 
vivia em Massamá, Sintra; 
era um dos históricos da Tabanca Grande, 
mas em dada altura desvinculou-se do blogue; (*)


Suleimane Baldé (1938-2025), régulo de Contabane, 
ex-1º cabo do Pel Caç Nat 53 (1968-1974),
 filho do régulo Sambel Baldé e de Fatumat 
(fica inumado, simbolicamente, à sombra do nosso poilão, no lugar nº 908);

filha do nosso camarada Carlos Filipe Gonçalves,
 ex-fur mil amanuense, CefInt / QG / CTIG, Bissau, 1973/74): 
vivia na Praia, Cabo Verde (*);


uma mulher pioneira em vários domínios, interditos às mulheres, 
a começar pelo paraquedismo... 
Foi a "madrinha" das enfermeiras paraquedistas (1961); vivia emLisboa; (*)



Rita Mascarenhas (1978-2025), 
filha do nosso camarada José Rodrigues (ex-fur mil trms, 
CCAÇ 1419, Bissau, Bissorã e Mansabá, 1965/67;); 
vivia em Belas, Sintra: (*)


escritor, romancista, poeta, autor e ensaiador de teatro; 
cumpriu o seu serviço militar na Guiné, trabalhou na Rádio; 
 homemagem dos seus conterràneos Narciso Santos e José Câmara, 
bem como do nosso crít6ico literário Beja Santos; 
vivia em Ponta Delgada; (*)


 natural de Fermentões, Guimarães, 
antigo autarca, ex-fur mil, 2ª CART / BART 6520,
 "Os Mais de Nova Sintar", 1972/74): (*)


 (Ferreira do Alentejo, 1945 - Lisboa, 2025),
 ex-alf mil trms, CCS/BCAÇ 2852 
(Bambadinca, 1968-1970);


J. L. Pio Abreu (Santarém, 1944 - 
Coimbra, 2025): 
ex-alf médico, CCS/BCAÇ 3863 
(Teixeira Pinto, 1971/73): (*)


(1949-2025),  ex-Fur Mil Inf, 
CCAÇ 3328 (Bula, 1971/73); 
vivia em Faro (*)


2.º Ten FZE do DFE 21, Reformado, DFA (Guiné, 1972); 
vivia em Santarém:


Carlos Matos Gomes (1946-2025), 
membro do MFA no CTIG, 
cor cav 'cmd', ref, escritor e historiógrafo, 
e grande amigo da Tabanca Grande; 
vivia em Lisboa(*)


Maria Rosa Rosa Exposto, ex-alf enf pqdt 
(Bragança, c. 1940 - Portalegre, 2021), 
pertencia ao 4º curso (1964) e passou pelo CTIG: (*)



(Ribeira Grande, Santo Antão, 
Cabo Verde, 1935 - Sesimbra, 2025): 
 era do 2º curso (1962) 
e passou pelos 3 teatros de operações; (*)



Leopoldo Correia (1941-2024),
ex-fur mil, CART 564
 (Nhacra, Quinhamel, Binar, Teixeira Pinto, 
Encheia e Mansoa, 1963/65); 
vivia em Águas Santas, Maia


Mário Vitorino Gaspar (Sintra, 1943- 
Lisboa, 2025), ex-fur mil art, MA,
 CART 1659, "Zorba" (Gadamael e Ganturé, 
1967/68): 


Valdemar Queiroz (Afife, Viana do Castelo, 1945 - 
Agualva Cacém, Sintra, 2025),
 ex-Fur Mil da CART 2479 / CART 11 
(Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca 
e Guiro Iero Bocari, 1969/70)


Cap Cav Ref Alberto Bernardo Leite Rodrigues 
(1945-2025), 
ex-Alf Mil Cav da CCAV 1748 (1967/69); 
era membro da Tabanca
 de Matosimnhos (fica inumado, simbolicamente, 
à sombra do nosso poilão, no lugar nº 899)


ex-alf mil, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 
(Mansoa, Galomaro e Dulombi, 1968/70); vivia em Coi,mbra;
era um histórico da Tabanca Grande (**)


António Medina (Santo Antão, 
Cabo Verde, 1939 - 
Medford, Massachusetts, EUA, 2025), 
ex-fur mil at inf, OE, CART 527 
(Teixeira Pinto, Bachile, Calequisse, 
Cacheu, Pelundo, Jolmete e Caió 1963/65)


(*) não eram formalmemnte membro da nossaTabanca Grande

(**) notícia só recebida em 2025


2. Os grão-tabanqueiros que "da lei da morte se libertaram" em 2025 foram 11. É sempre uma exercício doloroso, mas são os vivos que têm de cuidar dos mortos e honrar a sua memória: 




Suleimane Baldé (1938-2025)

Fernando de Carvalho Taco Calado (1945-2025)


Leopoldo Correia (1941-2024)


Valdemar Queiroz (1945-2025)

Leite Rodrigues  (1945-2025)





Homenagem aos nossos mortos queridos, em 2025. Não se estranhe a bandeira dos EUA: o António Medina era luso-americano, ou cabo-verdiano -ameroicano, não tenho a certeza (era natural de Santo Antão, emigrou para os States em 1977); o Suleimane Baldé era guineense (já tinha sido português); a Eugénia era portuguesa, de origemc abo-verdiana; a Dúnia Gonçalves era cabo-verdiano, mas o pai já foi português... Afinal, pertencemos todos e todas â mesma terra que nos deu origem...É preciso dar muitas voltas para se chegar a uma ilustração como esta...

Ilustração: IA generativa (ChatGPT / OpenAI), 
composição orientada pelo editor LG


3. Há a registar nesta lista necrológica mais 8 combatentes (que estiveram na Guiné, mas que não integravam formalmente a nossa Tabanca Grande). Há ainda 4 mulheres (1 viúva e 2 filhas de grão-tabanqueiros, e ainda a "mentora" das enfermeiras paraquedistas).

Calculámos a média e a mediana dos combatentes que morreram em 2025 (n=19), a partir da idade aproximadade (=ano da morte - ano do nascimento).

  • Média=81,1 anos
  • Mediana= 80
  • Mínimo = 72
  • Máximo = 90

Interpretação (mediana): 10 camaradas morreram com 80 anos ou menos; 9 morreram com mais de 80 anos.

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