terça-feira, 21 de abril de 2015

Guiné 63/74 - P14498: X Encontro Nacional da Tabanca Grande, Palace Hotel de Monte Real, 18 de abril de 2015 (15): mais fotos, selecionadas e editadas, do Manuel Resende



Leiria > Monte Real > Palace Hotel Monte Real > X Encontro Nacional da Tabanca Grande > 18 de abril de 2015 > Foto nº 11 > Uma foto panorâmica da salão onde se serviram os aperitivos e o almoço...


Leiria > Monte Real > Palace Hotel Monte Real > X Encontro Nacional da Tabanca Grande > 18 de abril de 2015 > Foto nº 12 > Palavras de boas vindas, pela comissão organizadora (da esquerda para a direita, Luís Graça, Carlos Vinhal, Joaquim Mexia Alves e Miguel Pessoa)



Leiria > Monte Real > Palace Hotel Monte Real > X Encontro Nacional da Tabanca Grande > 18 de abril de 2015 > Foto nº 13 > Distribuição de diplomas aos "totalistas" dos 10 encontros nacionais (desde 2006): da esquerda para a direita, Luís Graça, Carlos Vinhal, Dina Vinhal,  Jorge Cabral, David Guimarães e a esposa Lígia, Raul Albino, António Santos e a esposa Graciela


Leiria > Monte Real > Palace Hotel Monte Real > X Encontro Nacional da Tabanca Grande > 18 de abril de 2015 > Foto nº 14 > O diploma do "totalista" Jorge Cabral



Leiria > Monte Real > Palace Hotel Monte Real > X Encontro Nacional da Tabanca Grande > 18 de abril de 2015 > Foto nº 15 > Luís Graça e Maria Alice Carneiro


Leiria > Monte Real > Palace Hotel Monte Real > X Encontro Nacional da Tabanca Grande > 18 de abril de 2015 > Foto nº 16 >  O veteraníssimo (da Guiné) João Sacoto e Aida  (Lisboa)... O casal veio pela primeira vez ao nosso encontro... O João é tio de outro João e nosso camarada, o João Martins


Leiria > Monte Real > Palace Hotel Monte Real > X Encontro Nacional da Tabanca Grande > 18 de abril de 2015 > Foto nº 17 > O João Alves Martins e Graça (Lisboa) mais os tios João Sacoto e Aida (Lisboa)



Leiria > Monte Real > Palace Hotel Monte Real > X Encontro Nacional da Tabanca Grande > 18 de abril de 2015 > Foto nº 18 > Senhoras da mesa da Dina Vinhal: Maria de Lourdes; Maria da Glória e Maria José, esposa do camarada Liberal Correia (O casal veio dos Açores, de propósito para participar no nosso encontro!)

Leiria > Monte Real > Palace Hotel Monte Real > X Encontro Nacional da Tabanca Grande > 18 de abril de 2015 > Foto nº 19 > Clara Sampaio e Helena Fitas


Leiria > Monte Real > Palace Hotel Monte Real > X Encontro Nacional da Tabanca Grande > 18 de abril de 2015 > Foto nº 20 > António Faneco e esposa Tina


Leiria > Monte Real > Palace Hotel Monte Real > X Encontro Nacional da Tabanca Grande > 18 de abril de 2015 > Foto nº 21 >  Dina Vinhal e Elisabete, esposa do camarada Ribeiro Agostinho


Leiria > Monte Real > Palace Hotel Monte Real > X Encontro Nacional da Tabanca Grande > 18 de abril de 2015 > Foto nº 22 > Jorge Canhão e Maria de Lurdes (Oeiras)


Leiria > Monte Real > Palace Hotel Monte Real > X Encontro Nacional da Tabanca Grande > 18 de abril de 2015 > Foto nº 23 > O António Santos e a filha, e no meio o J. Casimiro Carvalho, sempre pronto para a "palhaçada"...

Fotos: © Manuel Resende (2015). Todos os direitos reservados.
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Nota do editor

Guiné 63/74 - P14497: Lembrete (11): Sessão de lançamento do livro de Dora Alexandre, jornalista e filha de militar da Marinha, "O Outro Lado da Guerra Colonial" (A Esfera dos Livros, 2015): hoje, 3ª feira, dia 21 de abril, pelas 18h30, na loja FNAC do Colombo, Lisboa


Capa do livro "O Outro Lado da Guerra Colonial", de Dora Alexandre (Lisboa, A Esfera dos Livros,  abril de 2015,  336 pp., 17 €) (*)


Convite

A editora A Esfera dos Livros lança no dia 21 de abril pelas 18h30 na loja FNAC do Colombo, [Lisboa, ] uma nova edição sobre o conflito no Ultramar: “O Outro Lado da Guerra Colonial”, de Dora Alexandre, lança um olhar diferente sobre os anos que os militares portugueses passaram no Ultramar. 

Que realidade encontraram os militares portugueses num continente distante e desconhecido? O que faziam no tempo livre? Que peripécias viveram? A autora entrevistou mais de meia centena de combatentes e também alguns artistas, que partilharam vivências paralelas ao conflito armado: vivências do dia a dia, histórias divertidas, caricatas e insólitas.

O prefácio é do Prof. Adriano Moreira e a apresentação ficará a cargo do Comendador José Arruda (ADFA) e do jornalista Joaquim Furtado, autor da série documental “A Guerra”.



Entre os combatentes entrevistados, contam-se algumas caras conhecidas do meio artístico como os atores Rui Mendes, Vítor Norte, João Maria Pinto, Domingos Machado (Belle Dominique) ou João Mota, e ainda Manuela Maria, Io Apolloni, Rodrigo e Octávio de Matos, que atuaram em África para entreter os militares.



Todos os interessados são bem vindos na apresentação. 






2. Mensagens de Dora Alexandre, trocadas com os nossos editores:

(i) Mensagem de 1 de abril de 2015:




Boa tarde, não sei se se lembra de mim, sou Dora Alexandre, jornalista, e ajudou-me a entrar em contacto com alguns combatentes ligados ao blogue, para um livro.

O livro está finalmente pronto, chama-se "O Outro Lado da Guerra Colonial" e contém histórias de 57 entrevistados.

Gostaria de lhe agradecer e convidar-vos para o lançamento - é dia 21 de abril às 18h30 na loja FNAC do Colombo. Teria muito gosto na vossa presença.

O prefácio é do Prof. Adriano Moreira e a apresentação ficará a cargo do Comendador José Arruda (ADFA) e do jornalista Joaquim Furtado.

Envio um pequeno texto à laia de press release, caso queiram partilhar.

Muito obrigada por tudo! Dora

(ii)  Mensagem de 20/10/12, que o coeditor Carlos Vinhal depois reencaminhou para o correio interno da Tabanca Grande:

Caros senhores,

Sou Dora Alexandre, jornalista, e estou a contactar-vos porque vou escrever um livro baseado em histórias da Guerra Colonial, para uma editora.

Sendo eu filha de militar - o meu pai esteve 4 anos na guerra da Guiné e Angola e reformou-se há pouco tempo da Marinha - e tendo eu própria nascido em Angola, tenho muito empenho em dar o meu modesto contributo para a preservação da memória e para dar mais um pouco de voz a quem serviu o país no Ultramar.

Vou entrevistar ex-militares que estiveram na guerra para saber histórias e vivências. Caso acedam a dar-me uma ajuda, com entrevistas e contactos, poderei dar mais pormenores sobre a abordagem deste livro.

Podem encontrar informação sobre o meu percurso profissional aqui http://www.linkedin.com/in/doraalexandre

Agradeço, desde já, a atenção dispensada e aguardo uma resposta. Saudações cordiais, Dora Alexandre

(iii) Mensagem de 20/11/13



Olá, boa tarde,

Não sei se se recorda de mim, sou jornalista e estou a escrever um livro para a Esfera,  baseado em testemunhos do Ultramar. Ajudou-me ao início com a divulgação do meu pedido para entrevistas. Foi uma ótima ajuda, mais uma vez obrigada!

O trabalho já está adiantado e estou apenas a compor o leque de entrevistados, que já vai em 4 dezenas. Gostaria que fosse minimamente representativo. Ainda não tenho nenhum Ranger e gostaria de contactar o sr. José Romeiro Saúde, de Beja. Pode por favor ajudar-me?

Agradeço desde já a sua atenção. Saudações cordiais, Dora.

(iv) Resposta do nosso editor Luís Graça,com data de  21/11/13



Dora: Estou em Luanda... Aqui vai o contacto do José Saúde  (...) (*)

Um kandando. Luis Graça

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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 4 de março de  2015 > Guiné 63/74 - P14318: Lembrete (10): Apresentação do livro "As Mulheres e a Guerra Colonial", da autoria de Sofia Branco, hoje, dia 4 de Março de 2015, pelas 19h00, na Associação 25 de Abril (A25A), em Lisboa

(**) Vd. poste de 7 de abril de  2015 > Guiné 63/74 - P14442: Agenda cultural (390): Dora Alexandre, jornalista, apresenta “O Outro Lado da Guerra Colonial” (José Saúde)

(...) Eis a lista de entrevistados (a negrito e a amarelo, camaradas da Guiné, muitos deles nossos grã-tabanqueiros):

Ilustrino Alexandre Júnior, Marinha, Guiné 1971-73 / Angola 1974-75 (PAI); 
Domingos Machado, Exército, Angola 1973-74; 
Octávio de Matos, Artista; 


Belmiro Tavares, Exército, Guiné 1964-66; 
Francisco Nicholson, Artista; 
Carlos Miguel, Exército (Psico), Guiné 1967-69; 
Carlos Pereira, Exército, Angola 1964-65; 

Mário Gualter Pinto, Exército, Guiné 1969-71; 
Carlos Rios, Exército, Guiné 1965-67; 
João Paulo Diniz, Exército, Guiné, 1970-72; 
Manuel Valente Fernandes (Médico) Guiné 1973-74; 
Farinho Lopes, Exército, Moçambique 1970-72; 

José Santos, Exército (Enfermeiro) Guiné 1971-73; 
Fernando Costa, Exército, Guiné 1972-74; 
José Manuel Lopes, Exército Guiné 1972-74; 
Rui Neves, Força Aérea, Angola 1970-72; 

Amílcar Mendes, Comandos, Guiné 1972-74; 
José António Pereira, Comandos, Guiné 1972-74; 
Romão Durão, Marinha, Angola 1968-70 / Angola 1971-75; 
João Maria Pinto, Exército, Moçambique 1969-71; 

Armando Carvalhêda, Exército, Guiné 1972-73; 
António Almeida, Exército, Moçambique 1972-74; 
Alfredo Brás, Marinha, Moçambique 1970-1974; 
João Mota, Exército, Angola 1965-66; 

Vítor Oliveira, Força Aérea, Guiné 1967-69; 
José Pedro Reis Borges, Força Aérea, Angola 1972-74; 

Hugo Borges, Paraquedistas, Guiné 1972-74; 
José Avelino Almeida, Exército, Guiné 1970-72; 
Luís Rolo, Exército (Enfermeiro) Angola 1970-72; 
António Prates da Silva, Polícia Aérea, Angola 1974-75; 

Vítor Norte, Exército (Enfermeiro) Guiné 1973-74; 
Luís Pinhão, Paraquedistas, 1973-74; 
Carlos Vinagre, Comandos, Angola, 1971-73; 

Rosa Serra, Paraquedistas (Enfermeira) Guiné 1969-70 / Angola 1970-71 / Moçambique 1973; António Godinho Luís, Comandos, Angola, 1961-63; 
António Leal, Comandos, Angola, 1961-63; 
Rui Mendes, Exército, Angola, 1962-64; 
Raul Patrício Leitão, Fuzileiros, Moçambique 1966-68 / Missão Hidrográfica N.H. «Carvalho Araújo», Angola e S. Tomé, 1970-75;

José Paracana, Exército, Guiné, 1971-73; 
João Dória, Exército (Médico) Guiné, 1968-70; 
Io Apolloni, Artista; 
António Vasconcelos Raposo, Fuzileiros, Angola, 1973-75; 

Nuno Mira Vaz, Paraquedistas, Angola 1963-65 / Guiné 1966-68 / Guiné 1970-72 / Moçambique 1973-74; 
Rodrigo, Artista;
Mário Henriques Manso, Fuzileiros, Angola 1963-65, Angola 1966-68; 

Nazário de Carvalho, Exército (Capelão) Moçambique 1961-64 / Guiné 1964-66 / Angola 1970-72; 

José Romeiro Saúde, Ranger, Guiné 1973-74; 
Joaquim Santos, Exército, Guiné 1967-69; 
Agostinho Rocha, Exército, Angola 1965-67; 
Manuel Roque dos Reis, Fuzileiros, Moçambique 1968-70; 
José Manuel Parreira, Fuzileiros, Guiné 1964-66 / Angola 1966-69; 

Otelo Saraiva de Carvalho, Exército, Angola 1961-62 / Guiné 1971-73; 
Manuel Lopes Dias, Exército, Moçambique 1970-71; 

António Carreiro e Silva, Fuzileiros, Angola 1967-69 / Angola 1972-74 / Guiné 1974; 
Francisco Guerreiro Soares, Fuzileiros, Angola 1964-66 / Guiné 1969-71 / Guiné 1972-74; 
Carlos Alberto Acabado, Força Aérea, Angola 1963-65 / Angola 1965-70 / Angola 1971-75; Norberto Cardoso, Exército, Angola 1974-75; e

 Manuela Maria, Atriz, Angola e Moçambique 1962, Guiné 1967. (...)

Guiné 63/74 - P14496: Parabéns a você (893): António Branquinho, ex-Fur Mil Inf do Pel Caç Nat 63 (Guiné, 1969/71)

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Nota do editor

Último poste da série de 19 de Abril de 2015 > Guiné 63/74 - P14488: Parabéns a você (892): Augusto Vilaça, ex-Fur Mil Art da CART 1692 (Guiné, 1967/69); Leão Varela, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 1566 (Guiné, 1966/68) e Victor Barata, ex-1.º Cabo Esp MMA/DO 27 da BA 12 (Guiné, 1971/73)

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Guiné 63/734 - P14495: História da CART 3494 (6): RECORDANDO A 1.ª EMBOSCADA NA PONTA COLI EM 22ABR1972 E A MORTE DO FURRIEL BENTO - A única baixa em combate da CART 3494 (Jorge Araújo)


1. Mensagem do nosso camarada Jorge Araújo (ex-Fur Mil Op Esp / Ranger, CART 3494, Xime e Mansambo, 1972/1974), com data de 20 de Abril de 2015: 

Camaradas

Com a presente narrativa procuro recuperar duas das principais memórias do nosso percurso militar como ex-combatentes no CTIGuiné [1972-1974], ambas ocorridas no mês de Abril, mas com dois anos de intervalo, e que ficarão para sempre na historiografia do contingente da minha CART 3494/BART 3873.

A primeira, com quarenta e três anos [faz hoje!], relembra os episódios das emboscadas na Ponta Coli, com particular destaque para a 1.ª [22ABR1972]. A outra efeméride, já com quarenta e um anos, recorda a chegada à Metrópole [como se dizia à época], em 03ABR1974, a derradeira etapa após o dever cumprido.

Como o tempo passa veloz…

RECORDANDO A 1.ª EMBOSCADA NA PONTA COLI 
EM 22ABR1972 E A MORTE DO FURRIEL BENTO
- A única baixa em combate da CART 3494 -

1.- INTRODUÇÃO

Para o contingente dos ex-combatentes da COMPANHIA DE ARTILHARIA 3494 [CART 3494 - Xime-Enxalé-Mansambo / 1971-1974], do BART 3873,ABRIL passou a ser, desde 1972, um mês onde, por motivos opostos, se comemoram duas efemérides de grande significado colectivo; uma de dor, tristeza e revolta [1972] a outra de felicidade pelo regresso às origens depois do dever cumprido [1974].

A primeira, de muitas emoções e tensões, está relacionada com o «baptismo de fogo» da Companhia ocorrido na emboscada em22ABR1972 [sábado], experiência que classificamos de superação extrema [ou superior transcendência] vivida por vinte e dois elementos continentais do 4.º GComb, mais um Guia guineense, atacados [à má fila…] no contexto damissão/acção de segurança à Estrada Xime-Bambadinca, no sítio da Ponta Coli, onde se registou, lamentavelmente, a primeira e única baixa da Unidade contabilizada em combate durante a sua presença no CTIGuiné, a do nosso camarada Furriel Manuel Rocha Bento, natural da Ponte de Sor, a quem justamente prestamos a nossa sentida homenagem.

Foto 1 – Xime - Uma semana antes do trágico acontecimento em 22ABR1972. O camarada Manuel Bento acompanhado por dois homens do “rancho”; à sua dtª o João Machado e à sua esqª o João Torres [cozinheiros], com o Geba ao fundo.

Foto 2 – Xime - Alguns dias antes do 22ABR1972. O trio de furriéis responsáveis pelo 4.º GComb, que foram apanhados na emboscada na Ponta Coli, pousando antes de um «jogo da bola». Da esqª/dtª, o Manuel Bento, eu e o Sousa Pinto [1950-1912.04.01].

Sete meses depois, uma segunda emboscada voltou a ser perpetrada pelo PAIGC no mesmo local e à mesma hora, ou seja, em 01DEC1972 [6.ª feira], em que o alvo foi, naturalmente por coincidência, o mesmo 4.º GComb, mas desta vez não se verificaram baixas mortais nas NT, registando-se dois feridos que foram evacuados para o HM 241, em Bissau. 

Do lado IN, que era constituído pelo grupo de «Bazookas» de Coluna da Costa e pelo bigrupo de Mamadu Turé e Pana Djata [substitutos de Mário Mendes, morto em combate, em 25MAI1972 [5.ª feira], na Ponta Varela, e responsável pela 1.ª emboscada], os guerrilheiros deixaram, no terreno, dois cadáveres, que foram sepultados no cemitério de Bambadinca, em campas separadas, bem como uma pistola, uma espingarda automática e um RPG com duas granadas.

Mapa-itinerário (linha vermelha) utilizado entre o Aquartelamento do Xime e o sítio da Ponta Coli – Estrada Xime-Bambadinca.

2.-RECORDANDO A EMBOSCADA…

Hoje, ao recordar aquele episódio de há quarenta e três anos, continuo incrédulo como foi possível superar aquela batalha, perante tamanha inferioridade física e numérica das NT, com um morto, dezassete feridos, desmaiados e poucos em condições de estabelecer um equilíbrio com quem iniciou a contenda.

Actuando de surpresa a cinquenta/sessenta metros dos alvos [humanos] colocados em cima de duas viaturas, ainda que em movimento lento, estaríamos nos centros das miras das suas “costureirinhas” e “RPG’s”,é inacreditável como não conseguiram fazer um “ronco” maior neste (des)encontro? 

Em primeiro lugar, porque as NT eram piriquitas nestas andanças da guerra de guerrilha, pois tinham apenas oitenta dias de mato, equivalente a mês e meio de sobreposição com a CART 2715 e os restantes dias [ainda poucos] de autonomia plena. Em segundo, pela experiência dos líderes do PAIGC, acumulada nas emboscadas anteriormente montadas no mesmo local desde 10ABR1968, data da primeira acção, a que se adicionam todos os outros conhecimentos adquiridos ao longo de muitos anos de prática neste contexto.

No meu caso, esta deslocação à Ponta Coli era a oitava vez que a fazia, pois havia chegado ao Xime somente nos últimos dias do mês de Março, e onde encontrei muitas rotinas já instaladas, em particular o exemplo da segurança à Ponta Coli.

Foto 3 – Xime [Ponta Coli] – Local do combate travado com o IN pelo 4.º GComb, em 22ABR1972, onde o camarada Bento foi atingido mortalmente por efeito de uma granada de RPG na zona da cápsula articular/clavícula do ombro direito, uma vez que se encontrava na 1.ª viatura, no banco da frente, ao lado do respectivo camarada condutor.

Foto 4 – Xime [Ponta Coli] – Árvore sinalizada como posto de vigia e onde ficava instalado o CMDT da força em acção/missão de segurança diária. Foi a partir deste local que o IN deu início à emboscada no dia 22ABR1972. 

Foto 5 – Xime [Ponta Coli] – A mesma árvore da imagem anterior, agora no seu plano superior, donde se tinha uma observação de maior alcance.

Quanto ao menor sucesso do IN [e ainda bem…], acredito que uma possibilidade ficou a dever-se à gestão do tempo, que correu a nosso favor, pois [como referi na narrativa original, a 1.ª que publiquei no blogue] aos poucos, ao ritmo de um tempo que parecia não passar, os desmaiados começam a acordar, os feridos tomam consciência de que ainda têm força suficiente para reagirem, e com os cinco ilesos que continuavam activos e operacionais, através de um impulso colectivo vindo das entranhas e de um grito de contra-ataque, contribuímos para anular a terceira tentativa de sermos apanhados à mão por parte dos elementos do PAIGC, que muito porfiaram mas sem sucesso. 

Por outro lado, é da mais elementar justiça referir o desempenho do nosso camarada guineense MALAN [guia e também ele combatente - imagem ao lado (6)], que sempre me mereceu o maior respeito, admiração e apoio, pois era um homem solitário, tendo como única companhia o seu cachimbo artesanal, mas nosso amigo, e que muito nos ajudou nos diferentes itinerários que tivemos de percorrer, numa mata extremamente difícil, com muitas armadilhas, ratoeiras e outros obstáculos [já relatados neste espaço por outros camaradas que por lá passaram] e que hoje, certamente, ele já não faz parte do grupo dos vivos. 

Parece que ainda o estou a ver sangrando com alguma abundância da cabeça, onde existiam pelo menos duas perfurações, empunhando duas G3 [a sua e outra que encontrou abandonada no solo].Com uma em cada membro superior, apoiadas nas suas axilas e, em plena estrada, de pé, defendia-se contribuído, também, para o sucesso do grupo. Foi depois evacuado para Bissau, onde ficou internado algumas semanas, regressando ao Xime ainda a tempo de participar na segunda emboscada. 

Outra situação que também ajudou, certamente, na debandada dos guerrilheiros teve a ver com a circunstância dos municiadores de morteiro e de bazuca, após recuperarem a consciência, depois de terem ficado atordoados na sequência do salto das viaturas em andamento, fazerem uso das suas armas a uma cadência de tiro inconstante, mas mesmo assim relevante, uma vez que o desempenho de ambos estava/ficou dependente da localização das suas munições [granadas] que acabaram por ficar dispersas ao longo da estrada, numa frente de cento e vinte metros, mais ou menos, dando a ideia de que estávamos fortemente armados.

Foto 7 – Xime [Ponta Coli] – Linha recta da zona de segurança à Ponta Coli. A estrada Xime-Bambadinca fica do lado direito da imagem, paralela às árvores. Os elementos IN estavam emboscados ao longo do trilho, enquanto as NT se encontravam na estrada asfaltada, à direita.

Depois deste episódio negativo, que provocou dor, sofrimento e algum temor entre nós, nada mais ficou como dantes, a exemplo do que nos diz a metáfora popular «depois de casa roubada trancas à porta», tendo apresentado de imediato outras metodologias e procedimentos assimilados durante a instrução no CIOE, em Lamego, visando a salvaguarda da minha/nossa sobrevivência perante este contexto adverso e muito exigente.

A prová-lo estava, ainda, o facto do CMDT da Companhia se ter autoexcluído no dia seguinte à 1.ª emboscada, ao assinar a sua própria baixa ao Hospital Militar [Serviço de Psiquiatria],em Bissau, para não mais regressar ao Xime.

Devido a essa sua decisão de se autoexcluir é nomeado para novo CMDT da CART 3494 [o 2.º], o então ex-CapArt António José Pereira da Costa [hoje, Cor Art Ref], meu/nosso camarada e tertuliano deste blogue. A sua chegada ao Xime ocorreu dois meses após a 1.ª emboscada, ou seja, no dia 22JUN1972 [5.ª feira], dia do seu aniversário… que coincidências!

As duas histórias originais que foram escritas na primeira pessoa em 2012, quarenta anos depois de as ter vivido in loco, e que agora recordei em síntese, fazem parte do espólio de narrativas divulgadas neste blogue [P9698 e P9802], no separador “Ponta Coli”e que, por sinal, correspondem às minhas duas primeiras memórias com que iniciei a participação na «Tabanca Grande», o grande batalhão de ex-combatentes que no passado sábado, em Monte Real, se reuniram no seu X Encontro Nacional, e que na próxima 5.ª feira, 23ABR2015, comemorará o seu 11.º Aniversário.

PARABÉNS aos Editores e a todos os camaradas Tertulianos que dela fazem parte.

Entretanto, em resultado da experiência e das emoções contabilizadas nesse 1.º episódio no sítio da Ponta Coli, e como modo de as traduzir no papel, decidi baptizá-las como «Era uma vez uma estrada, palco de jogos de sobrevivência (Xime-Bambadinca) – o caso da Ponta Coli».

Quanto à segunda efeméride, reportada ao mês de Abril,esta está datada desde03ABR1974 [4.ª feira],quando o contingente regressou definitivamente à Metrópole, ao aeroporto de Figo Maduro, em Lisboa, a bordo de um boeing 707, dos Transportes Aéreos Militares [TAM]. Este acto [ou facto] ocorreu oitocentos e vinte e sete dias depois do embarque no Cais da Rocha, em Lisboa, encerrando-se assim o ciclo de vida ultramarino previsto nos deveres individuais para com a Nação inscritos, à data, na Lei do Serviço Militar Obrigatório [SMO].

Esta referência normativa é dirigida, justamente, aos mais jovens leitores deste blogue, uma vez que o SMO foi extinto em meados de 1999. A partir de 2004, passou a ser atribuída às Forças Armadas a capacidade de captar os seus próprios recursos humanos concorrendo directamente no mercado de trabalho com outras entidades empregadoras.

Termino, prometendo voltar logo que possível a este tema, resumindo num só texto o mapeamento cronológico e histórico relacionado com as emboscadas na Estada Xime-Bambadinca, com destaque para a Ponta Coli, e as suas consequências.

Com um fraterno abraço de amizade,
Jorge Araújo.
Fur Mil Op Esp / Ranger, CART 3494
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Nota de M.R.: 

Vd. Também o último poste desta série em: 


Guiné 63/74 - P14494: X Encontro Nacional da Tabanca Grande, Palace Hotel de Monte Real, 18 de abril de 2015 (14): as fotos de família, tiradas pelo nosso fotógrafo Manuel Resende


Foto  nº 1

Foto nº 2


Foto nº 3


Foto nº 4

Foto nº 5 - Entre outros, reconhece-se Raul Albino, Idálio Reis, José Zeferino, José Manuel Lopes Mário Fitas e esposa Helena, e António Faneco


Foto nº 6


Foto  nº 7 - António Faneco, Maria de Lourdes; Isaura Resende, Tina Faneco e o neto do nosso camarada José Nunes Francisco que pelo segundo ano participa no nosso Encontro


Foto nº 8 - Gil Moutinho, Fernando Súcio, Joaquim Soares e esposa Maria Laura


Foto nº 9 - Em primeiríssimo plano o camarada Armando Pires


Foto nº 10 - Artur Soares e Francisco Silva

As primeiras fotos de família (fotos nºs 1, 2 e 3)... Por volta das 11h30 celebrou-se missa na igreja da freguesia, em frente ao hotel e, terminada a celebração, o pessoal foi-se juntando frente à fachada principal do hotel, com fachada dos anos 20, da autoria dos arquitetos Korrodi (pai e filho)... É difícil juntar 200 pessoas para uma foto de família, mas lá se conseguiu com a disciplina da tropa... Como o  tempo estava fresco e a ameaçar chuva, os aperitivos foram servidos no Salão D. Diniz, com capacidade para 20 mesas de 10 lugares, onde decorreu também o almoço.

Como todos os anos aparecem, caras novas, precisamos de tempo e vagar para identificar alguns camaradas... Outros são já velhos conhecidos da Tabanca Grande... Poucos, nove, são totalistas dos nossos 10 encontros... (CV)

PS -As fotos vão numeradas para facilitar a sua legendagem, se os nossos leitores quiserem colaborar connosco, fazendo comentários na respetiva caixa...

Fotos: © Manuel Resende (2015). Todos os direitos reservados.
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Guiné 63/74 - P14493: X Encontro Nacional da Tabanca Grande, Palace Hotel de Monte Real, 18 de abril de 2015 (13): Obrigado pela gentileza, cordialidade e camaradagem (Carlos Alberto Rodrigues Cruz, Paço de Arcos, Oeiras; ex-fur mil, CCAÇ 617/BCAÇ 619, Catió e Cachil, 1964/66)



Leiria > Monte Real > Palace Hotel Monte Real > X Encontro Nacional da Tabanca Grande > 18 de abril de 2015 > O numeroso grupo de malta da Tabanca da Linha, que é devidamente comandado pelo Jorge Rosales, tendo como eterno ajunto o Zé Manel Dinis... O Carlos Alberto [Rodrigues da] Cruz aparece aqui no lado esquerdo, é o primeiro da sgunda fila, e esta acompanhado pela esposa, Irene... É de Paço de Arcos / Oeiras... Veio também com o seu filho, Paulo Jorge. É frequentador da Tabanca da Linha e nosso grã-tabanqueiro.

Foto: © Manuel Resende (2015). Todos os direitos reservados.


1. Mernsagem de Carlos Alberto Rodrigues Cruz [foto à esquerda, na Tabanca da Linha, coma  esposa Irene, em 19/3/2015, foto de Manuel Resende;  foi fur mil da CCAÇ 617/BCAÇ 619, Catió e Cachil, 1964/66]


Data: 19 de abril de 2015 às 17:15
Assunto: Ponto de situação no regresso da festa-18/04/15



Caríssimos camaradas e amigos,

Tem este por finalidade dar-vos conta de que eram precisamente 16.30, retornei à minha residência, em Paço de Arcos, após viagem sem incidentes de maior.

Creio em boa verdade ser esta a forma correcta de corresponder à vossa gentileza e cordialidade que, como era de esperar, foram inexcedíveis e verdadeiramente dignas de ex-camaradas que pisaram as mesmas bolanhas, tarrafes e outros caminhos difíceis à força de muito sangue, suor e lágrimas, para conseguir destilar as "bazookas"que nos retemperavam as forças até quando nos aproximávamos do balcão da cantina. Aí agradecíamos aos deuses por não sermos maometanos e não estarmos sujeitos á lei do não álcool. Pior que isso só se nos enfiassem uma burka pela cabeça abaixo e nos mandassem para o Afeganistão. Lagarto, lagarto - que me desculpe o Bruno de Carvalho e o seu delfim Marco Silva a quem desejo as maiores felicidades desde que o seu clube fique à devida distância das "Papoilas Saltitantes do meu querido Luis Piçarra que Deus haja.

Mas para quê tanta divagação, dirão os meus queridos amigos e camaradas ?! Que se pode fazer se eu já nasci assim com esta veia de prosador inato (ou será que é nato ?).

Já estou mesmo baralhado, pelo que peço me desculpem se puderem que eu pra próxima vou espremer-me (ou exprimir-me) melhor.

Sorry, but I did my best.

Carlos Alberto Cruz
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Nota do editor:

Guiné 63/74 - P14492: Notas de leitura (705): Abdulai Silá, o grande prosador guineense (1): "A Última Tragédia" (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Junho de 2014:

Queridos amigos,
Uma surpresa de um escritor empolgante, empático, um grande confecionador do português e do crioulo guineense.
Temos aqui uma patroa branca iluminada por Deus, uma criada negra nascida no Biombo sob o sinal do azar e uma paixão que irá desaguar numa tragédia, à mistura teremos o emolduramento do colonialismo nos anos 1950.
É uma injustiça e um atentado cultural que este escritor não esteja editado em Portugal. Leiam-no e vão ver que me dão razão.

Um abraço do
Mário


Abdulai Silá, o grande prosador guineense (1)

Beja Santos

Abdulai Silá nasceu em 1958, em Catió. Estudou em Dresden, então República Democrática Alemã onde se licenciou em Engenharia Eletrotécnica. Além de engenheiro é também economista e investigador social. Foi cofundador do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas – INEP, da primeira editora privada da Guiné-Bissau, a Ki Si Mon e da revista cultural Tcholona. Eterna Paixão é o primeiro romance guineense (1994) ao qual se seguiu a publicação de A Última Tragédia (1995) e Mistida (1997). Esta trilogia foi publicada em 2002 pelo Centro Cultural Português Praia-Mindelo. Importa esclarecer que não há nenhuma edição em Portugal deste autor, ele é editado em Bissau pela Ku Si Mon Editora Lda.

Em sucessivas entrevistas, Abdulai Silá fala das suas recordações, dos seus sonhos, da força da escrita, da mágoa que representam os sucessivos retrocessos da Guiné-Bissau. Falando da guerra de libertação diz o seguinte:
“Não é fácil para mim falar da guerra de libertação. As minhas lembranças são horríveis! Perdi o meu melhor amigo de sempre, o meu irmão Idrissa, que numa manhã de fevereiro de 1972 foi gravemente ferido. Tinha na altura oito anos de idade, ficou paraplégico, viveu mais seis anos. No mesmo dia, uma outra irmã minha, que tinha dez anos, perdeu uma perna. Ela era a melhor futebolista de Catió… podes imaginar como foi a vida dela depois? O meu pai morreu pouco tempo depois em consequência do choque que teve ao ver metade da família a sangrar. A minha mãe foi quem aguentou mais, mas perdeu a alegria da vida. Tomou conta do meu irmão paraplégico”.

No inverno rigoroso de 1984, em Dresden, Silá ficou mais de duas semanas retido no quarto, foi nessa altura que escreveu A última Tragédia. Escreveu depois Eterna Paixão, o primeiro livro que publicou. Mistida tem uma temática mais próxima do desencanto guineense, como ele observou a Fernanda Cavacas:
“As pessoas que estão hoje em situação de desenrasca tinham há pouco tempo outras preocupações, tinham outros sonhos. Os valores tradicionais africanos de solidariedade foram destruídos. Foram destruídos por pessoas concretas e essas pessoas, infelizmente, conseguiram destruir a tal ponto que puseram em questão os próprios valores seculares. E hoje transformam a vida nisso, numa coisa banal em que não há mais sonhos, em que a esperança foi enterrada… acho que nós ainda temos de encontrar uma explicação para tudo isto e, sobretudo, uma explicação para as gerações vindouras. O que é que a geração vindoura dirá em relação a nós? Quando nós destruirmos mesmo o nosso país com essa desgovernação, essa corrupção que acaba por dar cabo de nós mesmos, o que é que a geração vindoura dirá?”.

A Última Tragédia passa-se na Guiné colonial dos anos 1950. Tem um arranque luminoso:
- “Sinhora, quer criado? Ela repetira esta frase já não sabia quantas vezes naquele dia. Uma pergunta imbuída de esperança, que colocara em muitas casas e em diversas pessoas. Até parecia que a origem das pessoas que a atendiam era determinada pela altura do sol: No início, quando o sol se encontrava lá em baixo, ainda mansinho, ela fora atendida quase sempre por jovens brancos, provavelmente filhos das senhoras brancas a quem ela de facto queria dirigir a falar; depois o sol subira, tornando-se bravo, agitando as pessoas e as coisas, e então, durante todo aquele período, só fora atendida por gente que certamente não habitava naquelas casas, uns empregados domésticos que apesar de serem, na quase totalidade dos casos, da sua raça, nem por isso se dignavam ouvi-la, deixá-la explicar direito as suas pretensões; enfim, o sol se acalmara de novo, o suor deixara de correr por todo o corpo e eis que finalmente ela localiza uma interlocutora condigna, uma senhora branca que habitava uma casa grande, que até parecia estar à sua espera”.
Depois de muitas peripécias, Ndani, é admitida como criada por Maria Deolinda Leitão, mulher de funcionário colonial. Dona Linda, esta, quer que a menina tenha “nome de gente”, trata-a por Maria Daniela. Ndani veio do Biombo amaldiçoada por bruxos, veio cheia de fome, procura adaptar-se à psicologia do branco. Dona Linda descobre que é uma agente da civilização, é preciso levar a criada à igreja. Cedo o proselitismo desta iluminada choca com a rotina das outras senhoras brancas, mais do que fazer rezas e procissões é preciso fazer escolas, assim se impedirá, controlando a escola, qualquer subversão que surja.

Em paralelo, o régulo de Quinhamel acorda para o sonho de construir uma casa como tem o funcionário colonial local e depois encontrar uma jovem esposa com regras de civilização. Ndani será eleita. O régulo pede ao professor local que venha à sua casa, quer passar a papel o seu testamento, não é para deixar dinheiro a ninguém, é para que se saiba o que o régulo Bsum Manky pensa da presença do branco, um plano de como tirar os brancos a mandar nesta terra. “Não é matar ninguém. Não é matar nem expulsar ninguém. É só pôr os brancos no seu lugar. Essa coisa de uma pessoa ir mandar na terra de outras pessoas não me agrada, não estou de acordo. Então eu posso sair daqui e ir mandar no chão dos Bidjogós, sem mais nem menos? As pessoas podem ir para onde quiserem ir, podem viver em paz onde quiserem viver, mas agora ir para mandar nas pessoas que encontram lá, para cobrar impostos, castigar, isso não pode ser”. Mas este régulo morre sem ter concluído o seu testamento. Ndani apaixona-se pelo professor, paixão correspondida. Partem para Catió, aqui o filho de um funcionário colonial procura fazer uma tropelia ao professor, este aplica um corretivo ao administrador que irá aparecer morto em casa. A reação da administração é encontrar um bode expiatório, monta-se uma cabala contra o professor, e mesmo com o médico a dizer em tribunal que o professor não assassinara ninguém, o professor será deportado para São Tomé. Como nas grandes obras românticas, Ndani irá todos os anos até ao cais do Pidjiquiti esperar pelo seu amante. Mas a atmosfera vingativa de África acaba por vencer, e Abdulai Silá termina o seu livro numa combinação espetacular entre o português e o crioulo guineense: “Subitamente, sentiu um vento diferente a soprar. Estava carregado de muita humidade. Num instante tinha toda a roupa molhada e a água começou a dançar à frente, num ritmo absurdo que nem um kankuran tchaskiado. O ambiente à sua volta tornou-se turvo. Virou a cabeça para um lado e para o outro, mas descobriu que o cenário era sempre o mesmo. A água exibia a sua estranha dança e não deixava ver outra coisa. Abriu a boca e choupou uma boa quantidade. Começou então a ouvir uma melodia desconhecida, uma mistura de sons agudos que chegavam de todos os lados, fazendo vibrar as mãos e os pés sem parar. O ambiente tornava-se cada vez mais turvo, a água à sua volta dançando a um ritmo frenético. Tinha que olhar para aquele local de costume onde estava o seu homem à espera. Tinha que falar com ele, sem falta.
Tinha que dizer-lhe que estava morrendo de saudades…”.

Uma tragédia antiga, grega ou africana, a fatalidade de ver o amor roubado por ódios de poderes dominantes. Um livro impressionante que abre a carreira literária de Abdulai Silá.
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Nota do editor

Último poste da série de 17 de abril de 2015 > Guiné 63/74 - P14483: Notas de leitura (704): A contestação contra a guerra colonial: A radiografia das universidades em 1971 feita por uma organização ultranacionalista (Mário Beja Santos)