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quinta-feira, 18 de junho de 2015

Guiné 63/74 - P14764: Filhos do vento (36): SIC, Jornal da Noite, hoje, 4ª feira, 18, 20h00-21h30; e revista do jornal "Público", domingo, 21: "Tivemos a felicidade de acompanhar o António Bento, que esteve em Angola entre 1973 e 1975, e era furriel, e ir com ele ao encontro do filho que ele nunca conheceu, deixou a mulher com quem viveu durante um ano grávida" (Catarina Gomes, jornalista)

1. Mensagem da nossa amiga Catarina Gomes,  jornalista do "Público", coautora da reportagem sobre os "Filhos do Vento" e "O Meu Filho Ficou lá"; filha de ex-combatente da guerra colonial (em Angola), escreveu o livro "Pai, tiveste medo ?" (Lisboa, Matéria Prima Edições, 2014):

Data: 16 de junho de 2015 às 10:19
Assunto: Reportagem Angola

Caro professor,

Tal como lhe tinha dito, desde a ida à Guiné a a reportagem dos "filhos do vento",  fiquei com vontade de contar uma história ao contrário, pelo lado de um pai de um "filho do vento". Tivemos a felicidade de acompanhar o António Bento, que esteve em Angola entre 1973 e 1975,  e era furriel, e ir com ele ao encontro do filho que ele nunca conheceu, deixou a mulher com quem viveu durante um ano grávida.

É dessa aventura que dá conta a reportagem que sairá publicada na revista do "Público", no domingo dia 21 de Junho, e no Jornal da Noite da SIC,  esta quinta-feira dia 18 de Junho.

Espero que a reportagem possa inspirar muitos pais a olharem para o passado e talvez a lembrarem-se que deixaram um filho para trás.

Aqui lhe deixo  os dados da conta  bancária da:

Associação da Solidariedade dos Filhos e Amigos dos Ex-Combatentes Portugueses na Guiné-Bissau (Fidju di Tuga)
Banco da África Ocidental em ligação à conta do Montepio em Lisboa.


114011010114

Um abraço
Catarina


2. Quinta-feira, dia 18 de junho, no 'Jornal da Noite', SIC [20h00-21h30], 

Grande Reportagem SIC: "O meu filho ficou lá" 


Sinopse:

A Guerra Colonial levou milhares de soldados portugueses para África e deixou por lá muitas crianças sem pai, filhos de militares portugueses que acabaram as suas comissões de serviço e regressaram a Portugal. Há quem desconheça que por lá deixou um filho, há quem o esconda porque construiu uma nova família após o regresso e há quem nunca esqueça o que se passou.

Já na parte final do conflito, António Bento foi enviado, por dois anos, para Angola onde prestou serviço militar entre 1973 e 1975. Foi colocado no interior de Angola, na província de Luena, perto da fronteira com a Zambia.

Durante a comissão de serviço, António Bento apaixonou-se pela angolana Esperança. O soldado chegou mesmo a mudar-se e a ir viver para casa de Esperança, numa aldeia perto do quartel. Mas no início de 1975, a comissão de serviço termina e António Bento regressa a Lisboa pouco antes do filho de ambos nascer. O ex-combatente nunca esqueceu que se tinha despedido de uma mulher grávida.

A longa guerra civil em Angola e as dificuldades de comunicação com o interior do país foram algumas das barreiras que impediram António Bento de descobrir o paradeiro do filho. Mas nunca desistiu.

Hoje "Zito", o filho de António e de Esperança, tem 40 anos, a mesma idade de Angola independente. E só ao fim de 4 décadas pai e filho encararam-se, pela primeira vez, olhos nos olhos.

"O Meu Filho Ficou Lá " é a história de uma viagem ao interior de Angola e à emoção do primeiro encontro entre um pai e um filho. Uma 'Grande Reportagem' em parceria jornal Público /SIC.

Reportagem : Catarina Gomes
Ricardo Rezende (imagem e som)
Montagem: Ricardo Rezende | Rui Berton
Uma parceria jornal Público / SIC
Coordenação: Cândida Pinto
Direcção: Alcides Vieira | Rodrigo Guedes de Carvalho

Fonte: Cortesia de:

SIC | Ana Margarida Morais
Assistente Gabinete de Comunicação e Relações Externas

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quarta-feira, 25 de junho de 2008

Guiné 63/74 - P2984: Op Mabecos Bravios: a retirada de Madina do Boé e o desastre de Cheche (Maj Gen Hélio Felgas † )

Major General Hélio Esteves Felgas (1920-2008): duas comissões na Guiné, um dos militares portugueses da sua geração mais condecorados, autor de dezenas de livros e artigos sobre a "luta contra o terrorismo", a guerra ultramarina... Comparou a Guiné ao Vietname. Também considerava que a solução para a Guiné não era militar mas política... Foi, todavia, um crítico de Spínola que lhe terá roubado, entretanto, a ideia dos reordenamentos (aldeias estratégicas) (1). Um oficial intelectualmente brilhante mas controverso, dizem alguns dos seus pares, mais novos.

Foto gentilmente cedida pela filha, Dra. Helena Felgas, advogada.



Reprodução da assinatura do então brigadeiro Hélio Felgas, em documento, de 1995, de que o Paulo Raposo me facultou fotocópia.

Fotos: © Luís Graça & Camaradas da Guiné (2008). Todos os direitos reservados.





Guiné > Região do Oio > Mansoa > CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 > 1968 > Antes de partir para a zona leste (Galomaro e Dulombi)... O Alf Mil Paulo Enes Raposo, que anda agora mais arredio do nosso blogue... Na I Série (Abril de 2005/Maio de 2006) teve um papel muito activo na animação bloguística. Dele publicámos um longo e interessantíssima depoimento sobre a sua comissão na Guiné (O meu testemunho e visão da guerra de África. Montemor-o-Novo, Herdade da Ameira Documento policopiado. Dezembro de 1997). 

.Foto: © Paulo Raposo (2006). Todos os direitos reservados


1. Entretanto recebemos hoje do seu (e nosso) camarada e amigo Rui Felício, a seguinte mensagem, respeitante à morte do Maj Gen Hélio Felgas: 

" Luís Graça, chocado com a notícia, reafirmo a admiração que sempre tive por esse Homem, um verdadeiro militar à moda antiga e, mais do que isso, uma pessoa com um sentido de justiça e um humanismo que só em muito poucos consegui encontrar na minha vida militar. Um abraço, Rui Felício"...

O Rui perdeu 11 dos seus homens na Op Mabecos Bravios. No total, a sua companhia, a CCAÇ 2405, perdeu 17 (num total de 46 vítimas, militares metropolitanos), nessa trágica manhã do dia 6 de Fevereiro de 1969.


2. O Paulo Raposo, ex-Alf Mil da CCAÇ 2405, organizador do nosso I Encontro Nacional, na Ameira, Montemor-o-Novo, em 2006, mandou-me,  em devido tempo, uma fotocópia de um depoimento do então Brigadeiro Hélio Felgas, sobre a trágica retirada de Madina do Boé.

Se bem me lembro (uma vez que não tenho aqui à mão o documento em suporte de papel), esse depoimento terá sido escrito em 1995, a pedido dos baixinhos de Dulombi, os ex-Alf Mil Felício, Raposo, Rijo, David e , e demais pessoal da CCAÇ 2405, que perderam 17 homens na travessia do Rio Corubal, em Cheche, 6 de Fevereiro de 1969. Só o Rui Felício perdeu 11 homens do seu Grupo de Combate (2).

Estive no velório do Major General na Situação de Reforma, Hélio Felgas, onde conheci a sua filha, Helena Felgas, advogada, mãe do jovem Miguel Felgas Menezes, o neto que nos deu a notícia da morte do avô, e que não o pode acompanhar até à última morada por se encontrar em Toronto, Canadá, em viagem profissional. 

A família decidiu não adiar o funeral, que teve honras militares, repousando os seus restos mortais no Talhão dos Antigos Combatentes do Cemitério do Alto de São João. Pormenor revelador de uma personalidade: foi o próprio quem redigiu a notícia necrológica, saída hoje no Diário de Notícias.

Também conversei com Jorge Casal, actual marido da Dra. Helena Felgas, e antigo combatente em Angola, donde regressou nas vésperas da independência. Era alferes miliciano da Manutenção Militar. Tive com ele uma amável conversa sobre o sogro, a sua carreira militar,as relações com a Guiné, etc. Conheci igualmente a viúva do major general, a quem repeti a história da conversa telefónica, de há uns meses atrás, pedindo autorização para publicar este depoimento que, em princípio, é inédito. A família também não se opôs, embora reconheça que a recordação deste episódio continuou, pela vida fora, a ser triste e doloroso para o antigo comandante da Op Mabecos Bravios.

Agradeço ao Paulo Raposo e à família do ilustre militar Hélio Felgas, em especial à viúva e à filha (que viveram em Bula, na 1ª comissão 1963/64), a possibilidade de enriquecer, com este depoimento (inédito), o dossiê sobre Madina do Boé, um topónimo que, por razões diversas, faz parte do nosso imaginário e das nossas dolorosas memórias da guerra da Guiné. 

Reproduzimos aqui esse texto, com o respeito que é devido por este antigo combatente, que agora nos deixou, depois de vários anos de sofrimento devido a doença.

Entretanto, recebemos também do José Colaço o seguinte comentário:

 "Paz à sua alma, a guerra não resolve nada, veja-se os casos de todos os Países ou negociaram livremente ou aconteceu-lhe o mesmo que a Portugal, ter que negociar sem condições para o fazer. José Colaço.".

Registe-se, finalmente, a mensagem que o Torcato Mendonça mandou para o neto, Miguel Felgas Rezende:

"Recebi, há momentos, a triste notícia. É, com Profundo Pesar que lhe apresento as minhas sentidas Condolências. Torno-as extensíveis á Senhora sua Avó e Família. Fui oficial subalterno de seu Avô, quando do Seu Comando no Sector Leste – Bafatá. Mereceu-me, sempre, o mais profundo respeito como Homem e Militar. Manterei, na minha memória, viva a sua recordação. Cumprimenta, Torcato Mendonça. Apartado 43, 6230-909 Fundão. torcatomendonca@gmail.com "

3. A retirada de Madina do Boé 

pelo Brigadeiro Hélio Felgas (2)

Digitalização, fixação e revisão do texto e subtítulos: L.G.

Todo o sudeste da Guiné, ao sul do rio Corubal, era uma região praticamente despovoada onde só havia dois postos administrativos: Beli e Madina do Boé.


(i) Um ponto sem valor estratégico

Já antes de, em 1968, eu ter assumido o comando do sector Leste [, Agrupamento nº 2975, com sede em Bafatá], Beli fora abandonado. O pelotão que aí se encontrava fora transferido para Madina, completando a companhia aí instalada.

Madina fica a cerca de 5 quilómetros da República da Guiné-Conacri. Não tinha qualquer população civil e só dispunha de um ou dois pequenos edifícios. Nem ruas tinha. Havia sido apenas uma minúscula tabanca (aldeia nativa), sem importância de qualquer espécie.

À medida que o PAIGC aumentava o seu poder de fogo com morteiros pesados e artilharia, os bombardeamentos e flagelações a Madina, executados em geral a partir do lado de lá da fronteira, passaram a ser quase diários.

Por isso a guarnição dormia em abrigos, escavados 4 ou 5 metros abaixo do nível do solo. Muitas vezes os bombardeamentos nada destruíam, caindo os obuses e granadas fora do perímetro do aquartelamento. Mas outras vezes causavam estragos e baixas que, em caso de necessidade, eram evacuadas de helicóptero para o hospital militar de Bissau.


(ii) A rotina dos bombardeamentos e flagelações

Apesar desta situação certamente pouco agradável, o moral da guarnição era levado. Lembro-me da primeira vez em que fui pernoitar a Madina. Pouco antes do anoitecer comecei a ouvir os soldados à porta dos seus abrigos gritando “Está na hora! Está na hora!”. O comandante da Companhia elucidou-me que era a altura de o PAIGC começar o usual bombardeamento e os homens já tomavam aquilo como uma brincadeira, habituados como estavam ao estrondo do rebentamento das granadas. Por acaso nesse dia as granadas só de madrugada caíram e não causaram baixas nem prejuízos.

Claro que a nossa guarnição respondia com morteiros e com canhão sem recuo e toda a gente estava sempre preparada para disparar a curta distância do arame farpado. Que eu saiba, porém, nunca o adversário tentou assaltar o aquartelamento.

Na manhã seguinte um destacamento saía do recinto e percorria os arredores procurando descobrir o local de onde teria sido feita a flagelação. Umas vezes tinha êxito e o local era cuidadosamente assinalado nas nossas cartas de tiro. Mas outras vezes nada se descobria pela simples razão de o bombardeamento ter sido feito a partir do território da Guiné-Conacri e os nossos militares cumprirem escrupulosamente a ordem que tinham de não atravessar a fronteira.

As viaturas da Companhia encontravam-se dispersas pela área do aquartelamento, em especial junto às árvores para melhor protecção. E até ao princípio de 1969 havia algum gado para consumo do pessoal. O último boi foi porém abatido por uma granada do PAIGC e a isso se referia com certo humor o relatório-rádio do comando local, confirmando assim o bom moral da unidade.


(iii) Missão: defender-se a si próprio!

De qualquer forma, tornou-se pouco a pouco evidente a inutilidade da presença de uma Companhia em Madina.

A tropa estava na Guiné para defender a população civil que nos era afecta, tentando suster o seu compulsivo aliciamento pelos guerrilheiros do PAIGC vindos do Senegal, a norte, ou da Guiné-Conacri, a sul e a leste. Procurava também evitar ou dificultar a penetração desses guerrilheiros em território então considerado nacional. E pretendia ainda impedir a destruição das estruturas económicas e administrativas: pontes, estradas, edifícios, etc.

Ora em Madina e em todo o sudeste guineense a sul do rio Corubal, não havia população alguma. Não havia estruturas de qualquer importância. E a fronteira era totalmente permeável em dezenas de quilómetros.

Então, se a tropa não estava a proteger qualquer ponte nem qualquer tabanca e não tinha a menor possibilidade de impedir penetrações territoriais, o que é que estava a fazer em Madina ?

A resposta era simples: a Companhia de Madina estava lá “para se defender a si própria”! Quando, afinal, fazia tanta falta em outros pontos da Guiné!

Por outro lado, ponderou-se também a possibilidade de o PAIGC aproveitar uma possível evacuação de Madina pelas nossas tropas, para declarar a região como “libertada”.

Mas isso podia o PAIGC fazer em qualquer outro ponto, do imenso sudeste guineense. Na zona de Beli, por exemplo, que nós abandonámos havia muito tempo e onde nunca íamos por falta de objectivo.

Aliás, mesmo com a Companhia em Madina, o PAIGC podia declarar o sudeste guineense uma “zona libertada” e até lá levar jornalistas estrangeiros, como parece que fez.


(iv) Evacuação: riscos calculados

Todas estas considerações foram devidamente estudadas, bem como os principais riscos que a evacuação podia acarretar.

Entre esses riscos contavam-se várias possibilidades de actuação dos guerrilheiros do PAIGC. Como por exemplo:
- Aumentarem as flagelações e bombardeamentos sobre Madina nas noites anteriores à manhã da “descolagem” quando as viaturas da Companhia, já meio carregadas, se encontrassem mais expostas;
- Lançarem sobre Madina um bombardeamento maciço na madrugadas da partida, quando parte da coluna de viaturas já estivesse fora do aquartelamento (cuja exiguidade não comportava toda a coluna); tanto nesta possibilidade como na anterior, contava-se que o PAIGC certamente detectaria o movimento desusual no interior de Madina;
- Montarem emboscadas à coluna em diversos pontos da estrada Madina-Cheche; esta estrada corria quase a direito no sentido norte-sul e, aqui e ali, era flanqueada por pequenas colinas de onde, em deslocamentos anteriores, os guerrilheiros haviam lançado emboscados; estava além disso minada com poderosas minas anticarro soviéticas;
- Tentarem dificultar a travessia do rio Corubal no Cheche.

Claro que, ao reconhecerem-se estes riscos, admitiam-se baixas da nossa parte pois a operação não era simples.


(v) Operação Mabecos Bravios

Mas tudo se fez para que tais baixas fossem mínimas. Em Bafatá, no comando do Sector, começou a ser elaborada a Ordem de Operações [O. Op.].

No Gabu (então Nova Lamego) construiu-se uma nova jangada que depois foi levada para o Cheche onde a que lá estava foi devidamente reforçadas. Estas jangadas eram constituídas por um forte estrado dotado de vedações laterais e assente em bidões vazios e em três “barcos” formados por grandes troncos de árvores escavados. Estrutura esta que, com a jangada descarregada, colocava o estrado a cerca de um metro da água.

As jangadas eram consideradas muito seguras e incapazes de se voltarem ou afundarem, desde que não fossem excessivamente carregadas. Calculava-se que aguentariam um peso de dez toneladas. Mas para maior segurança a O.Op. proibia que fossem transportados mais de 50 homens de cada vez.

Por seu lado, em Madina, os motores e as suspensões das viaturas da Companhia foram cuidadosamente revistos, não tendo o comando local tido pouco trabalho no carregamento de todo o material, incluindo a parte delicada das munições, até então guardadas em paióis subterrâneos.

No princípio do ano [ de 1969], a O. Op. foi levada ao Comando-Chefe, em Bissau, e apreciada e aprovada em reunião de comandos. O dia da evacuação foi marcado para 9 de Fevereiro de 1969, sendo a operação designado por Mabecos Bravios.

Aos comandos das unidades que forneciam contingentes de reforço foram dadas as respectivas ordens, com indicação dos locais onde as suas tropas deviam ser colocadas (de helicóptero). Alguns destes locais ficavam nas colinas de onde anteriormente haviam sido lançadas, sobre a estrada, emboscadas contra as nossas tropas. Outros ficavam na margem sul do Corubal, próximo do Cheche.


(vi) Uma manobra de diversão

Fui para Madina na manhã da véspera do dia D. Comigo foram 5 helicópteros pois eu queria executar com eles uma operação de diversão que consistia e, por duas ou três vezes, enviar os helis (vazios) para os locais de onde o PAIGC costumava bombardear o aquartelamento. Dava assim a ilusão de que estava colocando forças nesses locais, em emboscada.

A medida deve ter resultado pois nessa noite não houve bombardeamento a Madina.

Foi em completa calma que a complexa coluna auto se formou, com a parte dianteira já na estrada do Cheche.

Ao amanhecer iniciou-se o movimento com as viaturas e respectivos reboques completamente carregados e a grande maioria dos homens a pé. Como era costume eu seguia à frente com o meu guarda-costas e o homem do posto-rádio. Só os picadores nos precediam, picando cuidadosamente a estrada com compridos ferros pontiagudos. E excelente trabalho fizeram pois nenhuma mina rebentou embora tenham sido levantadas 12 ou 14.



(vii) A visita do Bispo [com-chefe, gen Spínola]

A progressão poderia ser lenta mas parecia segura. De tempos a tempos passávamos por camiões e autometralhadoras destruídas em emboscadas anteriores. Também vi os restos de um avião mas não sei se teria caído por acidente ou sido abatido. E conseguiu-se recuperar uma autometralhadora que se encontrava abandonada na berma da estrada.

A dada altura um helicóptero sobrevoou-nos. Contactei pela rádio e verifiquei que era o Bispo, ou seja, o General Spínola. Quase todas as manhãs o Comandante-Chefe saída de Bissau num helicóptero e ia observar as principais operações que se realizavam na Guiné. Mandei parar a coluna e montei segurança ao lado da estrada. O heli pousou e o General Spínola acompanhou-me a pé durante alguns quilómetros, demonstrando assim o apreço que a execução da operação lhe estava merecendo. Depois foi-se embora, satisfeito.

Chegámos ao Corubal ao princípio da noite sem termos sofrido qualquer emboscada. A travessia do rio começou imediatamente com as jangadas trabalhando alternadamente. Havia um cabo de aço estendido de uma margem à outra, a ele ficando ligada a jangada em serviço, a qual era empurrada por um pequeno barco com motor for de bordo.

O rio tinha uma corrente muito forte e uns 100 a 150 metros de largura. O motor do barquito levantava uma pequena ondulação que formava um V.

Atravessei para o Cheche cujas instalações eram semelhantes às de Madina, isto é, quase tudo abrigos enterrados.

Durante toda a noite assisti ao vai-vem das jangadadas. Parte dos destacamentos de reforço foram os primeiros a atravessar o rio, formando logo uma coluna auto na estrada que partia de Cheche para Nova Lamego. A Companhia de Madina [, a CCAÇ 1705,] seria a última a fazer a travessia, juntamente com dois Gr Comb da [CCAÇ] 2405.


(viii) O desastre da jangada

Cerca das 9 ou 10 horas da manhã apareceu um helicanhão que sobrevoou demoradamente toda a zona. Depois pousou e eu fui ter com ele procurando informar-me do que a tripulação tinha visto. Mas tinha chegado, apareceu um soldado correndo para mim a gritar que a jangada se estava afundando, logo após ter partido da margem sul. Pedi imediatamente ao piloto para... [ linha inteira cortada na fotocópia] depois para a margem do Cheche onde eu estava. Parecia vir normalmente carregada com homens e material.


(ix) Um comandante também chora

Quando chegou é que eu soube que diversos homens tinham caído ao rio, não aparecendo mais. Verifiquei tratar-se do pessoal que realizava a última travessia.

Quando se fez a chamada, viu-se que faltavam quarenta e tal homens, seis dos quais nativos.

Não consegui controlar-me e desatei a chorar, tal como aliás vi muitos valorosos militares a fazerem. Foi assim que me encontrou o General Spínola que nesse dia também quisera ir ter comigo.

Aguardámos horas, com o helicóptero sobrevoando o local na esperança de localizar alguns dos desaparecidos. Dois ou três bons nadadores também mergulharam na zona onde acorrera o acidente. Nada foi encontrado.

Interroguei diversos militares mas alguns nem podiam falar. Outros disseram-me que a jangada, logo após ter partido da margem sul, tinha-se afundado um bocado, ficando o estrado rés-vés com a água. Este afundamento era aliás natural desde que não fosse excessivo. O estrado, como dissemos atrás, ficava a cerca de um metro da água quando a jangada estava vazia. Esta distância diminuía conforme o peso do carregamento mas o estrado normalmente nunca chegava a ser coberto pela água.

Segundo parece, alguns dos homens que seguiam junto às vedações laterais assustaram-se quando alguma água começou a cobrir o estrado. Teriam então descido para o rio procurando segurar-se às travessas laterais do estrado e continuar assim a travessia. Desta forma o peso da carga diminuiria e a jangada subiria. Só que não se lembraram de que com o equipamento e as munições cada um pesava mais de cem quilos.

Foi desta forma que uma operação que decorrera sem qualquer baixa (ao contrário do que inicialmente se esperava), viu o seu final tragicamente enlutado. Durante toda a noite, desde as seis da tarde da véspera até às 10 ou 11 da manhã seguinte, as jangadas tinham trabalhado sem qualquer anomalia. Fizeram dezenas de travessias. E o azar logo havia de aparecer na última e de forma tão dolorosa.

Nem o facto de na altura terem ocorrido acidentes semelhantes (ou talvez ainda mais graves), com jangadas em Moçambique, podia servir de lenitivo para o que nos sucedera na Guiné. Dezenas de homens que tinham vivido longos meses sob bombardeamentos quase diários, acabaram por morrer afogados.

Hélio Felgas, Brigadeiro

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Notas de L.G.

(1) Hélio Felgas, nascido em 1920, fez duas comissões na Guiné, durante a guerra colonial (Bula, 1963/64; Mansoa, Tite, Bafatá, 1968/69). 

Na última, ele começou por “chefiar o Estado-Maior do Sector de Mansoa”, depois passou ao “Comando do Batalhão de Artilharia de Tite, no sul” [BART 1914] e, por fim, ficou à frente do “Sector Leste, que abrangia cerca de metade do território e incluía batalhões das três armas combatentes, os quais, naquele tipo de guerra, actuavam concertadamente”.

Entre esses batalhões, contava-se o já nosso conhecido BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70). Quando ele, como o posto de coronel, comandou a Op Lança Afiada (8 a 19 de Março de 1969), era então comandante do Agrupamento 2957 (sediado em Bafatá). Repare-se que o brigadeiro, como disciplinado e disciplinador militar de carreira que era, nunca identifica as unidades a que se refere…

Esta nota biográfica é respigada de Os últimos guerreiros do império (Amadora: Erasmo, 1995), livro donde constam entrevistas com o Comandante Rebordão de Brito, o Coronel Caçorino Dias, e o Alferes Marcelino da Mata, entre outros. Nele, o então Brig Hélio Felgas faz um depoimento (polémico) sobre a guerra da Guiné.

Já aqui publicámos a última parte do depoimento ("algumas considerações acerca da Guiné Portuguesa"), onde ele é intencionalmente polémico, comparando a Guiné com o Vietname... Nessa parte do livro (pp. 135 e ss.) , ele revela - 27 anos depois ! - algumas ideias do relatório que terá enviado, no final do ano de 1968, ao General Spínola, "onde defendia que a concessão da independência à Guiné Portuguesa não iria agravar, antes pelo contrário, a situação em qualquer das outras Províncias Ultramarinas" (p. 135).

Outra peça de antologia é o seu relatório da Op Lança Afiada, onde não se coibe de fazer críticas à falta de apoio aéreo e de outros meios (não-participação das forças pára-quedistas e dos fuzileiros).

O Brig Hélio Felgas, condecorado com a Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito (1970), passou compulsivamente à Reserva, a seguir ao 25 de Abril, data em que estava em comissão de serviço em Angola.

(2) Vd. poste de 12 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXVI: O desastre do Cheche: a verdade a que os mortos e os vivos têm direito (Rui Felício, CCAÇ 2405)

(...) Acabei de ler um texto escrito pelo camarada José Martins onde relata a sua experiência na zona de Madina do Boé. Embora tenha reconhecido que não assistiu directamente ao que se passou no célebre e lamentável desastre do Cheche, ocorrido no fatídico dia 6 de Fevereiro de 1969, o José Martins conheceu bem o local e a região e desenvolveu a sua descrição socorrendo-se de relatos e documentos alusivos ao sucedido.Deduz-se daquele relato, publicado no blogue, que o desastre teria acontecido essencialmente devido a três factores:

(i) Os militares descomprimiram e tentaram encher os cantis com água do rio, o que terá provocado, depreende-se, o desiquilíbrio da estabilidade da jangada;

(ii) Teria sido ouvido um som abafado, semelhante a uma morteirada, que teria provocado agitação entre os militares e, em consequência, desiquilibrado a jangada;

(iii) Que, após o acidente, a água do Rio Corubal terá tomado um tom avermelhado, querendo com isso dizer-se que os crocodilos que habitavam as águas do rio, teriam consumado a morte dos militares que cairam à água.

(...) 2. O filme da SIC sobre o desastre do Rio Corubal

O mais curioso é que no filme, da autoria de José Saraiva, realizado por Manuel Tomás, que foi visto há uns anos atrás, por muitos milhares de portugueses através da sua transmissão pela SIC e pela distribuição de um vídeo feita na mesma altura pelo Diário de Notícias, são apresentadas aquelas mesmas razões como causas imediatas do desastre.

Já nessa altura contestei as conclusões do filme, e fi-lo por escrito e em reunião pessoal com o Director de Informação da SIC, Dr. Alcides Vieira, estando presente o realizador Manuel Tomás, que dirigiu a realização do filme.

Refiro que a carta entregue na SIC foi subscrita não só por mim mas por dezenas de ex-militares da CCAÇ 2405, que, por coincidência nessa mesma altura, no almoço de confraternização anual, a leram e assinaram.

A contestação dos factos descritos no filme foi feita nessa reunião na SIC, com a prévia concordância do Comandante da Operação, Brigadeiro Hélio Felgas, e estando presentes, além de mim próprio, o Capitão Miliciano José Miguel Novais Jerónimo e o Alferes Miliciano Paulo Enes Lage Raposo.

E ela foi por nós solicitada à SIC em virtude do impacto que a exibição do filme teve nos ex-militares que a ele assistiram e que tinham estado presentes na jangada naquele dia do desastre.Com efeito, no próprio dia da exibição do filme comecei a receber telefonemas de antigos camaradas, um tanto decepcionados e alguns até revoltados, pela inexactidão dos pormenores que ali eram descritos.

Todos nós três, presentes na dita reunião, participámos na operação de evacuação de Madina do Boé, e todos estavamos presentes no local do acidente no Cheche naquele dia 6 de Fevereiro de 1969.O Capitão Jerónimo, comandante da CCAÇ 2405, e eu próprio, estávamos na jangada no momento do acidente, onde se encontrava também o Alferes Miliciano Jorge Rijo, oficial da CCAÇ 2405, com o seu pelotão.O Alferes Miliciano Paulo Raposo, também oficial da CCAÇ 2405, já tinha feito a travessia do rio na viagem anterior, e encontrava-se na margem norte do Corubal com o seu pelotão, observando a tragédia.

Na referida reunião da SIC, o realizador Manuel Tomás argumentou que o filme fora realizado com fundamento em entrevistas e em documentos oficiais militares a que tinha tido acesso, pelo que considerava o filme suficientemente documentado.E disse que esses documentos atestavam as razões acima referidas, isto é, que a jangada se virou porque, no essencial, teria havido disparos de morteiro que, supostamente vindos do IN, teriam criado o pânico nos militares, os quais, ao agitarem-se, teriam provocado o desiquilíbrio da jangada.

Perante a irredutível posição da SIC em manter a versão veiculada pelo filme, nada mais nos restou do que desistirmos do pedido que lhe fizémos para que fosse proporcionado esclarecimento público sobre as conclusões desse filme.

Foi dito, nessa reunião, ao Dr. Alcides Vieira e ao Sr. Manuel Tomás que, por muito credíveis que pudessem parecer os documentos militares em que fundamentaram a versão filmada, nenhum deles jamais desmentiria ou apagaria da minha memória e dos meus camaradas o que realmente se passou.

Mais importante que os documentos preparados no silêncio dos gabinetes militares, sabe-se lá com que inconfessados motivos, era a indesmentível memória daqueles que tinham sido protagonistas e vítimas do desastre.

É com o mesmo espírito de esclarecimento da verdade dos factos que volto hoje ao assunto, desta vez no ambiente mais acolhedor de um blogue criado e gerido por alguém como o Luis Graça que, tendo estado na Guiné, sabe melhor que ninguém que não queremos honrarias, distinções ou protagonismo público. Queremos tão só que a história seja o mais verdadeira e exacta possivel...

Esse é o legado que queremos deixar aos vindouros, para que jamais seja ignorado o sacrificio de uma geração inteira, retirada à sua despreocupada juventude para fazer uma guerra em longínquas terras, em nome dos seus deveres e obrigações para com a sua Pátria. (...).