quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Guiné 63/74 - P10368: Caderno de notas de um mais velho (Antº Rosinha) (24): África subsariana: As ex-colónias neocolonizadas, as ex-colónias abandonadas e os caso da Guiné-Bissau, Gãmbia e Casamansa... É preciso salvar a Guiné-Bissau.

1. Texto enviado pelo Antº Rosinha, há já cerca de 3 meses... Julgamos que não perdeu atualidade, oportunidade e importância... É a opinião de um homem que nunca foi "cólon" /(, trata-se de auto-ironia!), que ama a Guiné-Bissau e os guineenses, e que nos obriga a rever ou questionar ideias feitas, estereótipos, mitos, certezas, à esquerda e àdireita, em suma, um camarada que nos tira, muitas vezes, do "sofá do nosso conforto"... (LG)

De: António Rosinha <antoniorosinha@gmail.com>

Data: 14 de Junho de 2012 19:21

Assunto: África subsariana: As ex-colónias neocolonizadas, as ex-colónias abandonadas e o caso da Guiné-Bissau / CasamanÇA

Amigos editores se acharem que é de publicar no blogue façam-no caso contrário podem divulgar entre o pessoal . 


Um abraço, Antº Rosinha


PS - Data de hoje...

(...) Para justificação do que eu escrevo, queria dar uma pequena explicação pois que cientificamente, jornalisticamente ou políticamente não tenho arcaboiço de qualquer espécie e as pessoas podem pensar que falo por falar.

Tudo o que falo foi "respigos" que fui colhendo, durante 13 anos, de trabalhadores das obras, de engenheiros das Obras Públicas, meus amigos,  em conversas informais, e principalmente de uma viagem a Kolda com um 'chaufeur' meu amigo das Obras Públicas em que fomos abordados por jovens que seriam guerrilheiros, quase todos ou todos mesmo,  pela independência de Casamansa, todos a falar crioulo, muito eufóricos a cumprimentarem-nos por sermos de Bissau.

Ainda não era noite, eu já dentro da Guiné, soubemos que naquela região havia incursões do exército senegalês em perseguição de guerrilheiros dentro da Guiné.

Isto foi em 1993, mas como já conhecia outras fronteiras africanas, e sei o que se passa na Guiné e redondezas,  principalmente quando se fala em petróleo no mar, pode-se esperar o pior.

Esperemos que tudo se resolva, mas as cabeças dos próprios guineenses anda muito baralhada, quando sabemos que há imensos (mais elucidados) na diàspora que já nem pensam em regressar. (...)


2. Salvemos a Guiné-Bissau
por Antº Rosinha


Toda a gente conhece os golpes de estado crónicos da Guiné-Bissau, e a quem interessam esses golpes, mas ninguém fala abertamente. A Guiné-Bissau tem tanta lógica como a Gàmbia a sobreviver naquele mundo francófono.

Quando os países africanos subsarianos, tal como se conhecem a partir dos anos 50 do século passado,  ficaram independentes, foi imposta aos cidadãos uma bandeira e um hino só conhecidos por uma minoria que tinha tido acesso a uma educação colonial.

Alguns desses países (colónias) só existiam no mapa, praticamente a partir de 1900. (Em 1900 foram marcadas em Londres as fronteiras de Angola, Moçambique, Rodésia do Norte e do Sul). Ou seja, etnicamente ainda hoje não há fronteiras, e mesmo fisicamente e geograficamente, ainda hoje para muitos habitantes desses países ainda não há país pois nem há bem a certeza em alguns casos se os marcos fronteiriços coloniais estão bem definidos no campo ou se é apenas no papel.

Mas a guerra civil que se gerou em diversos países dessa África subsariana,  durante e após essas independências, vai continuar periódica ou permanente em quase todos esses países. 

Mas tanto os países colonizadores como as Nações Unidas sabiam que seria inevitável a guerra. E o mundo inteiro acha natural e os próprios dirigentes africanos guerream-se com as melhores armas que os países desenvolvidos lhe fornecem.

Ora , como apenas uns poucos cidadãos de cada um desses países tinham assimilado a cultura semelhante à do colono nos anos 50, como se iam auto-administrar igual a países que vinham do tempo de Carlos Magno e do Rei Artur? E m apenas 24 horas! Foram marcadas datas de independências com poucos meses de antecedência do que devia ser um grande dia.

Muito facilmente se resolveu o problema, os poucos dirigentes mais ou menos preparados passaram a governar sob a orientação do antigo cólon, e aparece o NEOCOLONIALISMO.

E aqui aparecem os países que não tendo uma potência que os "neocolonize", que são os casos das ex-colónias portuguesas e belgas, sofrem as influências mais nefastas do que os outros que têm quem os «proteja».

Os exemplos da guerra de 27 anos em Angola, de Moçambique (mais ou menos 15 anos de guerra fratricida), e os autênticos genocídios nas ex-colónias belgas, são o exemplo das ex-colónias «abandonadas» a que me refiro.

E aqui temos o caso da Guiné-Bissau  que,  segundo muitos guineenses,  «teve o azar de ser colonizado por um país que é tão fraco e tão pobre como a própria Guiné». E como o ex-colonizador perdeu toda a influência militar, política e económica,  naquele território, a Guiné tornou-se vítima de uma invasão descomunal dos mais diversos organismos internacionais, ONG,  empresários, religiosos, muçulmanos e cristãos, enfim, tudo aquilo a que se chamou "COOPERAÇÕES".

Mesmo as cooperações melhor intencionadas tornavam-se perniciosas, porque inadaptadas, impróprias e desestruturantes e viciantes (Suécia e URSS). À Guiné tudo afluiu, até revolucionários ideológicos abrigava a troco de ajudas, refugiados dos países vizinhos (Casamansa, Conacri, independentistas das Canárias, palestinos…).

Os guineenses após a independência nunca tiveram uma guerra civil entre o povo, porque o povo nunca tem armas, apenas os militares as têm e se matam entre eles e os políticos. Mas o povo não compreende nem colabora nem acredita nos militares nem nos governantes, reage apenas muito passivamente. Quem compreende bem os dirigentes guineenses são os vizinhos,  principalmente os do norte.

Muitos comerciantes guineenses tem uma vida dupla e até tripla, como a etnia deles se estende pelo Senegal, Gâmbia e mais distante ainda, são apenas Guineenses enquanto lhe convem.

Como a economia influenciada por esses comerciantes (muçulmanos) é baseada nos países vizinhos, sem qualquer controlo das autoridades (corrupção), para esses comerciantes o desaparecimento da fronteira norte é como que se não exista, na realidade a fronteira serve apenas para dar umas gorjetas a uns tantos polícias de um lado e do outro.

Mas existe um engulho para o Senegal e seu protector,  a França, que é a existência de uma Guiné-Bissau independente, estruturada e personalizada, é perigosíssima e subversiva pois mantem uma ligação étnica e territorial e linguística com a Casamansa, que vive de costas para o Senegal. [Imagem à direita:  Casamansa, a vermelho; Senegal, a cor de rosa; e no meio, a branco, o espaço correspondente à Gâmbia, anglófona... Fonte: Wikipédia].

Portanto cada golpe de estado na Guiné-Bissau que desestabilize este país, é sempre apoiado directa ou indirectamente pelos vizinhos.

Neste golpe e no de 1998 entraram os militares vizinhos, e a intenção é mesmo darem o golpe fatal neste PALOP. Só que desta vez uma tal CEDEAO é um cavalo de Troia que traz na sua barriga todo o veneno para acabar com a Guiné-Bissau como país de corpo inteiro.

Se não for desta tentativa o fim deste país com este golpe de estado, e os guineenses não abram os olhos para ver quem é mesmo guineense verdadeiramente responsável, não demora que haja outra tentativa mais decisiva, em próxima ocasião.

O discurso anti-colonial e anti-PALOP faz parte desse jogo por alguns dirigentes, que muitas vezes é usado ingenuamente por demagogos dos diversos governos, que o usam com outras intenções mais pessoais.

Sempre, desde a independência, o mundo de cooperações internacionais que invadiram a Guiné, massacraram os guineenses com a aleivosia que estavam ali para ajudar a Guiné, que os portugueses atrasaram durante 500 anos.

Este discurso foi e é usado até à exaustão para afastar os guineenses do fraquíssimo cordão umbilical lusófilo (PALOP), por aqueles a quem interessa directamente esse afastamento. Talvez este golpe de estado já tenha acabado com as resistências, e a CEDEAO só já saia quando aquele território se transformar num protectorado qualquer do Senegal, e assim acabar também com o perigo dos rebeldes da Casamansa, que são mais lusófilos que muitos guineenses. (Testemunhei isso pessoalmente em Kolda).

Os rebeldes de Casamansa expressavam-se em crioulo de Bissau, pelo menos nos anos 90. E notava-se que usavam subversivamente essa língua.

Mas pior que tudo o que se passa actualmente, será um dia que se concretize o que se fala de vez em quando: Haver petróleo no mar de Bissau. Existe um contencioso sobre as fronteiras marítimas com os vizinhos do norte e do sul. Este problema está em banho-maria, mas dentro de uma panela de pressão.

Como economicamente a Guiné Bissau é dependente dos vizinhos e da França, directamente (CFA), a solução à Timor não se pode aplicar a este país.

É preciso salvar a Guiné que tem tanto direito a sobreviver como a Gàmbia, seu vizinho. (**)
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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 29 de junho de 2012 > Guiné 63/74 - P10087: Caderno de notas de um Mais Velho (Antº Rosinha) (23): Esse tal de linguajar de Luanda, só foi possível ouvi-lo em 2012 na Ilha de Luanda, porque em 1961 não se deu ouvidos às catanas de Holden Roberto (UPA)


(`**) Tomamos a liberdade de reproduzir aqui o artigo:

Casamansa, um grito de liberdade sufocado, por Adelto Gonçalves (#) 

A situação dramática vivida por uma província do Senegal é mais um exemplo da herança deixada pelos colonizadores europeus

 Provavelmente, você nunca ouviu alguém falar da Casamansa. Também, pudera. Não se sabe de jornal, revista ou emissora de rádio e TV brasileiros que tenham citado o nome da Casamansa nos últimos anos. Não imagine, porém, que, por trás de tudo, haja uma conspiração de silêncio. É falta de informação mesmo dos jornalistas. No Brasil, ninguém sabe onde fica a Casamansa. Nem o que significa.

E, no entanto, a fronteira entre a Casamansa, província do Senegal, e a Guiné-Bissau, na África Ocidental, vive hoje momentos de desespero, com mais de cinco mil de pessoas em fuga pelo campo, atemorizadas com as hostilidades que opõem o exército guineense a uma ala do Movimento das Forças Democráticas da Casamansa (MFDC). Há mais de 2.500 refugiados, segundo a Cruz Vermelha, e a Anistia Internacional já recebeu denúncias de violações dos direitos humanos de civis. Tanto na Casamansa como na Guiné-Bissau fala-se português. Não é incrível que, no Brasil, não se escreva uma linha a respeito de um drama que envolve povos que falam a língua de Camões e Machado de Assis?

Os confrontos começaram no dia 16 de março, quando guerrilheiros do MFDC lançaram um ataque suicida na cidade de São Domingos e 13 rebeldes morreram. O exército guineense respondeu com artilharia pesada contra a base dos guerrilheiros a cerca de 130 quilômetros de Bissau, capital do país, e a menos de seis da fronteira com o Senegal. Os bombardeios têm como alvo bases do comandante Salif Sadio, líder de uma facção do MFDC, a Frente Sul, que se recusou a assinar um acordo de paz em dezembro de 2004 com o governo de Dacar.

Pressionadas pelo exército senegalês, as forças de Sadio deixaram a Casamansa, refugiando-se na Barranca da Mandioca, na Guiné-Bissau. Agora, o exército guineense promete expulsar até o último intruso. “Vamos fazer uma operação limpeza para tirar essa sujeira de nosso território”, prometeu Antônio Indjai, chefe do comando militar estacionado em São Domingos. “Os rebeldes não vão aceitar ser capturados como galinhas”, respondeu Zacarias Goubiaby, lugar-tenente do comandante Sadio. “Vamos combater como leões”.

Esse conflito seja recente. É resultado de outro que começou em 1982, quando uma manifestação em Zinguinchor, capital da Casamansa, reuniu mais de 100 mil pessoas de várias etnias reclamando a independência da província. Houve repressão e mais de mil mortos.

Foi a partir de então que o MFDC partiu para a luta armada contra o governo de Dacar. Os 32.350 quilômetros quadrados do território da Casamansa contam com vastas reservas de petróleo, o que tem atraído a cobiça de empresas estrangeiras, inclusive uma da Malásia, que adquiriu recentemente do governo senegalês os direitos de exploração.

Já o resto do Senegal é rico apenas em fosfato e o país sobrevive com a ajuda que o governo francês envia regularmente. Só que a maior parte desses recursos fica em Dacar, segundo a queixa que se ouve na Casamansa. Isso explica em boa parte as razões históricas do conflito.

Desde 1982, as hostilidades dos separatistas da Casamansa são contra o governo de Dacar, mas, devido à fronteira, sempre ocorreram incursões no território guineense, inclusive com a tomada de “tabancas” (aldeias), seqüestros e mortes. A incursão maior ocorreu em 1998, quando as forças separatistas da Casamansa ajudaram o falecido brigadeiro Ansumane Mane a afastar do poder o presidente João Bernardo Nino Vieira. Depois, com Kumba Ialá na presidência, os separatistas passaram a contar com o apoio estratégico da Guiné-Bissau.

De volta ao poder em Bissau, depois das eleições presidenciais de junho de 2005, Nino Vieira acertou com o presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, uma operação conjunta para acabar com o foco guerrilheiro. Para tanto, Vieira e Wade contam com o apoio do comandante César Badiate, que se opõe a Salif Sadio dentro do MFDC e assinou o acordo de paz de 2004. Resolver a questão da Casamansa, inclusive, é uma promessa de campanha de Wade, eleito em 2000 e candidato à reeleição em 2007.

O bom relacionamento entre os países vizinhos é visto como fundamental para que o petróleo comece a ser explorado em maior profusão. Mas a posição política de Nino Vieira não é sólida: em março, enquanto estava em Lisboa para a posse do presidente português Aníbal Cavaco Silva, correram rumores de uma tentativa de golpe de Estado.

Antes, Vieira havia acusado algumas altas patentes de “conivência” com os rebeldes da Casamansa, enquanto o porta-voz do estado-maior do exército, tenente-coronel Arsênio Balde, desmentia que chefes militares tivessem recebido dinheiro do governo do Senegal para aniquilar a rebelião. Já dissidentes do PAIGC, principal partido do país, acusam Vieira de promover uma “caça às bruxas”, de pressionar cidadãos independentes e de manter “prisioneiros de guerra”.

A ajuda humanitária internacional começou a chegar a Casamansa e a Guiné-Bissau, mas ainda em quantidade reduzida. Vilas como Susana e Varela estão isoladas desde que os rebeldes colocaram minas na estrada que as liga a São Domingos. Uma dessas minas explodiu e provocou 12 mortos nos primeiros dias dos confrontos.

Até agora, o conflito só tem recebido indiferença por parte de Portugal e Brasil. Em razão da ajuda financeira que recebe da União Européia, o governo português, aparentemente, teme incomodar os interesses da França na região.

Também a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), até agora, não se manifestou. A entidade reúne Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor Leste e, em tese, poderia abrigar uma Casamansa independente. Para mediar o conflito, o chefe de Estado do Senegal, com o apoio da Guiné-Bissau, preferiu convidar o presidente da Gâmbia, Yaya Jammeh. 

Um drama esquecido

O domínio do Senegal na região vem sendo contestado há muito tempo, mas recrudesceu quando, entre 1974 e 1975, as antigas províncias de Portugal no Ultramar tornaram-se nações independentes e as forças políticas da Casamansa viram no movimento uma oportunidade de reivindicar a sua origem de “ex-colônia portuguesa”.

Faz quase um século que a Casamansa deixou de ser colônia portuguesa: em 1908, os portugueses foram obrigados a ceder definitivamente a região à França, passando a ocupar apenas a Guiné. Mas, desde 1884-1885, os franceses vinham tentando resolver a questão a seu favor, pressionando Portugal no âmbito da Conferência de Berlim, que dividiu a África entre ingleses, franceses, belgas, alemães e portugueses.

Historicamente, os portugueses chegaram primeiro. Foi em 1445 que o português Diniz Dias “descobriu” a Casamansa, que, na linguagem do país, significa rei do rio dos Cassangas, porque a palavra mansa quer dizer rei ou senhor. Mas há historiadores que afirmam ter sido em 1446 que a região foi “descoberta”, quando Antônio de Nolle e Luís de Cadamosto, por ordem do infante Dom Henrique, percorreram a costa do rio Geba.

A colônia nasceu a partir de uma feitoria em Zinguinchor — hoje uma cidade com cerca de um milhão de habitantes —, criada para intensificar o comércio de escravos com o Império Gabu, reino que englobava, além da Casamansa, a Guiné-Bissau e a Gâmbia, reunindo várias etnias, como a jola — que sempre foi majoritária —, a fula, a banta e a manjaco.

Os franceses, atraídos pelo florescente comércio de carne humana, chegaram em 1459. No século XVIII, franceses e portugueses combateram entre si na região. A partir de 1908, a Casamansa tornou-se colônia francesa, mas não integrada ao Senegal.

Depois da Segunda Guerra Mundial, foi criada a Federação do Mali, que reunia também Senegal e Casamansa. Em 1947, com a liberação das atividades políticas pelas autoridades coloniais, surgiram o Bloco Democrático Senegalês, comandado por Leopold Senghor, e o MFDC, que só optou pela luta armada a partir de 1982.

Proclamada a independência da Federação em 1958, o Mali, dois anos mais tarde, retirou-se da aliança porque exigia que a capital fosse Bamako em vez de Dacar. Casamansa ficou, então, unida ao Senegal por um documento que previa a coalizão por duas décadas. Mas, em 1980, Senghor entendeu que, “para o bem das duas nações”, a Casamansa deveria continuar unida ao Senegal. Quando ele já não estava no poder, ocorreu a tragédia de Zinguinchor.

Dos 3,5 milhões de habitantes, apenas 10% são alfabetizados e aprenderam obrigatoriamente um pouco de francês. O povo fala mesmo o idioma jola e o crioulo português. Só alguns integrantes da elite, que estudaram na França, usam o francês. As ligações com o mundo lusófono são mais fortes. Até porque Portugal esteve lá 462 anos, enquanto a presença francesa não passou de oito décadas.

Apesar do esforço de Dacar para erradicar a cultura lusa, há alguns monumentos em ruínas que testemunham a presença portuguesa. Mas, em razão da repressão, não há na Casamansa nenhum jornal ou emissora de rádio em língua portuguesa. Só entram jornais em francês impressos em Dacar.

Originalmente publicado na Revista Fórum,  São Paulo, ano 4, nº 39, junho 2006, pp. 42-43.  Dispoinível na Revista TriploV de Artes, Religiões e Ciências, nº 3, janeiro de 2010 (Com a devida vénia...)

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(#) Adelto Gonçalves, nascido em Santos, Brasil, é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa e mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanholas e Hispanoamericana pela Universidade de São Paulo (USP). É autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2003), Bocage: o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Fernando Pessoa: a voz de Deus (Santos, Universidade Santa Cecília, 1997), Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio, 1981) e Mariela morta (Ourinhos-SP, Complemento, 1977)... Fonte Revista RTriploV.


Guiné 63/74 - P10367: Convívios (473): Almoço do pessoal da CCAÇ 2791 a realizar no dia 29 de Setembro de 2012 em Penafiel (Luís Faria)

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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 8 de Setembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10351: Convívios (472): 23º Almoço/Convívio da 3ª CCAÇ do BCAÇ 4612/72 – 6 de Outubro de 2012 – Caldas da Rainha (Jorge Canhão)

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Guiné 63/74 - P10366: O PIFAS de saudosa memória (13): O ex-fur mil Garcez Costa, que trabalhou como radialista, ao lado do 1º srgt Silvério Dias, do José Camacho Costa e do João Paulo Diniz... É o nosso grã-tabanqueiro nº 577


Guiné > Bissau > PFA - Programa das Forças Armadas > c. 1970/72 > Álbum de Garcez Costa > Foto nº 1  > Da esquerda para a direita: Silvério Dias, José Camacho Costa  e Garcez Costa




Guiné > Bissau > PFA - Programa das Forças Armadas > c. 1970/72 > Álbum de Garcez Costa > Foto nº 2 > José Camacho Costa e Silvério Dias




Guiné > Bissau > PFA - Programa das Forças Armadas > c. 1970/72 > Álbum de Garcez Costa > Foto nº 3 – Garcez CosTA A ler "a bíblia" e o João Paulo Diniz à espera qu'eu lhe passe "a bola"


Guiné > Bissau > PFA - Programa das Forças Armadas > c. 1970/72 > Álbum de Garcez Costa > Foto nº 4 > Silvério Dias e Garcez Costa (a ler o noticiário)




Guiné > Bissau > PFA - Programa das Forças Armadas > c. 1970/72 > Álbum de Garcez Costa > Foto nº5 > No dia da minha estreia aos microfones, fardado a rigor, como quase sempre era obrigatório.

Guiné > Bissau > PFA - Programa das Forças Armadas > c. 1970/72 > Álbum de Garcez Costa > Foto nº 6 > Cá estou eu 40 anos depois!


Garcez Costa (2012). Todos os direitos reservados

1. Mensagem do nosso novo grã-tabanqueiro, Garcez Costa, ex-fur mil, que foi locutor no PFA (Guiné, 1970/72),

De: Tony Sacavém

Data: 10 de Setembro de 2012 01:46

Assunto: Blogue - Pifas





Memória de elefante... Digamos que é algo que ainda vou tendo, e não sendo um notável contador de histórias como outros na nossa praça, mais não vou do que fazer uma espécie de cronologia dos factos. Embora reconheça que possam existir algumas imprecisões. Entre os camaradas cujos nomes vou aqui referenciar, posso assim testemunhar aquilo que ainda recordo, nesta página, onde se constata felizmente não haver recalcamentos sublimados de uma guerra colonial, para muitos com as armas às costas.


[Imagem à esquerda: O PIFAS, a mascote do PFA - Programa das Forças Armadas]

Bem vamos ao que interessa:

O P.F.A. - Programa das Forças Armadas tinha instalações na Avenida Arnaldo Schultz, onde funcionava o Comando Chefe das Forças Armadas da Guiné, sob a tutela do Estado Maior do Exército, com uma tafefa específica a que se chamava Acção Psicológica. 

Daí a intenção da criação por volta de 1967, e cujo primeiro locutor foi Raul Durão, do célebre mais tarde conhecido Pifas, com o fim de transmitir emissões de animação cultural e-musical junto da própria população civil e dos militares aquartelados em toda a região da Guiné Portuguesa. 

Já agora o último a fechar as portas, em 1974, foi José Manuel Barroso, sobrinho do casal Mário Soares/Maria Barroso.

As 3 emissões diárias (12:00-13:00; 18:00-19:00; 23:00-24:00) eram radiodifundidas através do Emissor Regional da Guiné. 

Nos quadros desta estação, enquanto militares, passaram, por exemplo, os compositores Rui Malhoa e Nuno Nazareth Fernandes, e o açoriano António Lourenço de Melo,  da actual RDP-Antena 1.

Eu, de nome completo António Manuel Garcez da Costa, endereço electrónico an_ter_bar@hotmail.com, utilizando Tony Sacavém como pseudónimo, cumpri o serviço militar entre Fevereiro de 70-72, substituído no final da comissão , segundo consta, pelo Armando Carvalheda, considero que:

(i) Após a intervenção logística dos Chefes da Repartição Otelo e depois [Ramalho] Eanes, esses seus empenhos não só contribuíram para a remodelação de todo o equipamento técnico dos estúdios de gravação e directos, como foi o período em que se projectou como mais recursos humanos a área de Rádio e Imprensa;

(ii) Daí que foi uma mais valia, tipo 2 em 1, a conjugação de projectos dos jornalistas José Camacho Costa e Júlio Montenegro com o radialistas Silvério Dias, Garcez Costa, João Paulo Diniz, que foi admitido para render Carlos Macareno;

(iii) De realçar, entretanto, o nosso Chefe de Núcleo Arlindo de Carvalho, hoje figura pública político-partidária;  

(iv) Outro Carvalho foi o António (Tony),  carinhosamente tratado por engenheiro de som e do discotecário Carlos Castro;

(v) E,  claro,  a nossa "tenente",  esposa do nosso primeiro,  que emprestava graciosamente a sua colaboração administrativa e radiofónica;

(vi) Haverá outros nomes aqui em esquecimento mas que seja perdoado por isso.

Agora é assim: Quem tiver corrector corriga o que eu disse; quem tiver mais a dizer prossiga a escrita!

Quanto à gravação anteriormente enviada (*) , reafirmo que parte dos textos do extracto que genericamente dei o título de "Crónica da Guiné" devem ser atribuídos a Júlio Montenegro, e inseriu-se numa programação especial de enorme qualidade no decurso de 1971. 

As vozes são de Silvério Dias, Garcez Costa, João Paulo Diniz, António Carvalho. Este último era também o sonoplasta desta rubrica semanal. A referência à alunagem da Apolo é um registo do disco em vinil do Luís Filipe Costa chamado "Década de 60".

Prometo, entretanto, reformular as gravações em fita magnética, a partir do meu velho gravador de bobines, passando-as aqui para o computador para efeitos de mistura, bem como procurar uma foto do Jantar de Convívio no Pátio Alfacinha em meados dos anos 80.

Junto em anexo algumas fotos pifanianas. E a minha mais actualizada.

1 – Silvério Dias, José Camacho Costa , Garcez Costa

2 – José Camacho Costa , Silvério Dias

3 – A ler "a bíblia" e o João Paulo Diniz à espera qu'eu lhe passe "a bola"

4 – Silvério Dias , Garcez Costa (a ler o noticiário)

5 – No dia da minha estreia aos microfones , fardado a rigor , como quase sempre era obrigatório.

6 – Cá estou eu 40 anos depois!

Saudações militares com continência e tudo.

2. Comentário de L.G.:

Camarada Garcez Costa, ou Tony, simplesmente: considera-te o grã-tabanqueiro nº 577 (**). Sê bem vindo em nome desta toda rapaziada que teima em recordar, com jovialidade e até irreverência,  os seus tempos de Guiné, entre 1961 e 1974...  Como vês, já somos mais do que um batalhão... E, em tua opinião de leitor, somos de facto (e queremos continuar a ser) um blogue  onde não há, genericamente falando,  "recalcamentos sublimados de uma guerra colonial, para muitos com as armas às costas".

Respondeste cabal e assertivamente às nossas perguntinhas (*)... e mandaste-nos mais do que as duas fotos da praxe. É uma honra para nós, teus camaradas e teus ouvintes do PFA, lá nos idos tempos de 1970/72. O teu nome já aqui tinha sido evocado pelo João Paulo Diniz:

(...)  Lembra, com saudade, outra malta que fez o PFA, como o Sargento Silvério Dias e a sua esposa, Maria  Eugénia, que era a tal "senhora tenente", de que muita malta se lembra... (,..) Havia uma vasta equipa, o sargento Silvério Dias, o furriel Garcez da Costa, o furriel Jorge Pinto... O Carvalhêda virá mais tarde...  (...).

Como vês, o "puzzle" da nossa memória vai-se compondo, com uns "baites" daqui e outros de acolá... Já agora deixa-me perguntar-te se foste "mordinho pelo bichinho da rádio", ou apanahdo pelas "ondas hertzianas" ou se,pelo contrário,  nunca mais pegaste num microfone, em estúdio ?...  Diz-nos também em que unidade ias integrado, a caminho da Guiné; e,  por outro lado, como queres ficar registado para a posteridade: Garcez Costa, Tony Sacavém, ou Garcez Costa (ou Tony Sacavém) ? 

Ficamos com água na boca com a tua promessa de nos arranjares mais uns registos áudio do teu tempo de locutor do PIFAS...Um Alfa Bravo. Luis Graça

Guiné 63/74 - P10365: Do Ninho D'Águia até África (8): O "Arroz com pão" (Tony Borié)

1. Oitavo episódio da narrativa "Do Ninho de D'Águia até África", de autoria do nosso camarada Tony Borié (ex-1.º Cabo Operador Cripto do Cmd Agru 16, Mansoa, 1964/66), iniciada no Poste P10177.


Do Ninho D'Águia até África (8)

O Arroz com pão!

O dia tinha sido de calor tórrido e abafado, à noite, por volta das nove e meia, dez horas da noite, mais próximo das dez do que das nove e meia, o Cifra, sai do centro cripto, dá uma volta pela cozinha do aquartelamento, para roubar um naco de pão, aliás, como fazia quase todos os dias, que ia comer com um bocado de chouriça de conserva, que ao meio dia, lhe deu o sargento da messe, a quem o Cifra ajudava a acertar as contas no final de cada mês, pois as contas tinham que terminar em zero. Não podia haver lucros, nem perdas, e esse acerto, por vezes era complicado. Tinham que arranjar produtos, que quase sempre eram caixas de cerveja, ou cigarros, às vezes até chegavam ao descaramento de incluir garrafas de “Vat 69”, para no final, dar tudo em zero.

Era bom comer fora de horas, e havia sempre alguém no dormitório que tinha uma cerveja morna, que no caso sabia deliciosamente. Quando o Cifra ia à cozinha, fora de horas, o cabo do rancho, o “Arroz com pão”, era assim que lhe chamavam derivado a sempre que alguém dizia que não gostava da comida ele logo se aproximava da mesa de onde tinha vindo a reclamação, e com um farrapo amarrado à cinta, servindo de avental, que todos sabiam alguns meses atrás ter sido uma camisa, dizia:
- Qual é a reclamação? A comida está limpa e muito bem confeccionada. Se não gostam, façam sandes de arroz com pão.

Como era possível fazer sandes de arroz com pão? Ainda bem que o Curvas, alto refilão, tinha boa boca e comia de tudo, porque de contrário havia conflito, e grande.

Mas continuando, quando o Cifra se aproximava da cozinha, fora de horas, e o “Arroz com pão”, andava por perto, logo lhe dizia:
- Oh Cifra, se vens aqui mais, depois da cozinha fechar, e eu venha a saber, dou-te um tiro. Se eu não posso entrar no centro cripto, tu também não podes entrar aqui. Que raio. Que gente mais gulosa e descarada.

Ao que o Cifra, lhe dizia:
- Oh “Arroz com pão”, parece que isto é teu.

Nessa altura ficava mau, barafustava mas de repente lhe passava e depois desse barulho todo, ia buscar uma caneca de café, cheia de vinho para os dois.

Nessa noite que o Cifra não mais esqueceu, ao entrar na cozinha encontrou o “Arroz com pão” a fazer as últimas tarefas, preparando as coisas para o café da manhã, quase pronto para fechar. O argumento foi o mesmo de sempre, a resposta do Cifra, foi a mesma e no final a mesma caneca do café cheia de vinho para os dois.

Já fora da cozinha, a caminho do dormitório, tentando ferrar o naco de pão, o Cifra ouve uma forte rebentação numa área próximo da cozinha, seguida do som de tiros de metralhadora. Nesse momento também lhe pareceu ouvir alguns gritos de aflição, mas fica em pânico, larga o naco de pão e foge para o abrigo mais próximo. Quando ia a entrar no abrigo, fica como que paralizado e lembra-se.
- Oh meu Deus, é o “Arroz com pão”.

O Cifra era um militar razoável, mas um fraco guerreiro, disso tinha ele a certeza, mas com uma coragem que não sabia que existia nele, volta-se e vai de novo em direcção à cozinha, onde o “Arroz com pão”, já vinha ao seu encontro, quase arrastando-se, com um lado do seu corpo com algum sangue. Com a ajuda do Cifra, foram os dois para o abrigo, onde entretanto, já se encontravam outros colegas.

Seguem-se mais rebentamentos de granadas de morteiro nas áreas próximas, tiros de metralhadora e outra arma que lhe parecem ser de pistola. As forças de intervenção saem para bater a zona, mas são paradas mais ou menos a duzentos metros do aquartelamento, do lado das matas. Resistem ao fogo cerrado, aguentando quase quinze minutos, até os guerrilheiros se deslocarem para o interior das matas, que nalgumas áreas circundavam o aquartelamento.

Quando essas forças de intervenção, regressaram ao aquartelamento, o Curvas, o tal soldado atirador, alto e refilão, continuava a gritar e dizia:
- Filhos da puta! Eu penso que matei dois. Já não tinha mais carregadores cheios. Eu creio que alguns tiros vinham do lado aldeia que fica perto do aquartelamento.

Todos diziam, que era só basófia. Não tinha matado ninguém, mas o Curvas, alto e refilão, continuava a afirmar que alguns tiros tinham vindo da aldeia próximo do aquartelamento.

O resultado deste ataque foi um morto civil natural da província, que era habitante da tal aldeia, com casas cobertas de colmo, que ficava perto do aquartelamento, pois uma dessas granadas de morteiro foi cair à aldeia, ferimentos com balas em dois militares das forças de intervenção que saíram a bater a zona, um foi de raspão, numa perna, o outro tinha uma bala alojada num braço, perto da clavícula. Dos outros quatro militares feridos, o mais mal tratado era o “Arroz com pão”, que tinha estilhaços de granada de morteiro de um lado corpo, num braço e nas pernas, felizmente não foi atingido na zona da cara. Os restantes militares ficaram feridos, com escoriações ligeiras, nos quais se incluía o Cifra, também com estilhaços de granada de morteiro, na parte superior da perna direita, que só se apercebeu da situação, quando ao deitar-se, tirou a bota, vendo-a húmida, reparou no rasto de sangue que vinha da parte superior da perna. Recebeu os estilhaços de granada no momento em que fugia, sobre pânico e angustiado, para o abrigo. Os feridos foram evacuados nessa mesma noite para o hospital da capital da província.

O Cifra e mais dois militares não foram evacuados. O Cifra curou o ferimento e, uns tempos antes de regressar a Portugal, veio ao hospital da capital tirar o fragmento da granada. Cicratizou e não teve mais complicações, por Deus. Ao outro dia, o café da manhã foi feito mais tarde que o habitual, numa cozinha que se improvisou, pois a original ficou com uma parte inutilizável pelas granadas de morteiro que caíram próximo. Ninguém mais disse que não gostava da comida, mas continuaram a chamar o cabo do rancho de “Arroz com pão”, o qual recebeu uma grande salva de palmas no dia em que se apresentou de novo no aquartelamento, já restabelecido dos ferimentos e com o seu habitual avental, que tempos atrás, tinha sido uma camisa.

Durante um tempo, os militares brincavam com a situação, dizendo:
- Até que enfim que os guerrilheiros acertaram com o aquartelamento. E desta vez queriam matar-nos à fome, pois o alvo deles era a cozinha.

Só o Curvas, é que continuava refilão, e dizia.
- Aqueles filhos da puta que eu matei não voltam cá mais, isso eu garanto-vos.

Quase todos sabiam, que era só basófias.
____________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 6 de Setembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10336: Do Ninho d'Águia até África (7): O abastecimento ao aquartelamento

Guiné 63/74 - P10364: Tabanca Grande (359): José Fialho, alentejano de Portimão, ex-1º cabo radiotelegrafista (CCAÇ 4641/72, Mansoa e Ilondé, 1973/74)


Guiné > Região do Oio > CCAÇ 4641/72 (1973/74) > Braia (?) > "Maravilha, o grande Alferes Silva e o escriturário da treta, o Fialho"...




Guiné > Região doOio > CCAÇ 4641/72 (1973/74) > "O Nosso Natal de 1973 em Mansoa"... A CCÇ 4641/72 passou à disponibilidade em 1 de setembro de 1974, no quartel do RALIS, em Lisboa. [O José Fialho é o primeiro à direita].

Fotos (e legendas): © José Fialho (2012). Todos os direitos reservados.


1. Do nosso camarada José Fialho, quer pertenceu à CCAÇ 4641/72 (Mansoa e Ilondé, 1973/74) , criador do do blogue Mansoa, alentejano, a viver em Portimão:

 Data: 9 de Setembro de 2012 22:42

Assunto: CCAÇ 4641/72

 Amigo Luís Graça,

Só não sou tabanqueiro porque nunca pensei merecer tal honra e porque não sei o que devo fazer. Diga-me como faço e é já.

O Mexia disse-me para ir passando por cá mas... O Caseiro??? O [Vitor] Caseiro é uma macaco do caraças que só ontem no almoço da companhia [, em Estremoz,] me falou que andava por aqui.

Caseiro, Almeida e Magalhães, malta 5 estrelas.

Faça-me chegar o que devo fazer porque já me considero tabanqueiro

Luís, se algum texto do meu blog tiver algum interesse, disponha

Abraçosssssssss
Fialho


2. Apresentação, à Tabanca Grande,  do 1º ex-cabo radiolegrafista José Fialho, CCAÇ 4641/72 (Mansoa e Ilondé, 1973/74) :

Por que há 35 anos estávamos em Mansoa na Guiné, na guerra de todas as guerras...

Revolta

Ao politico e letrado
Aqui deixo esta mensagem,l
Era animal amestrado
No meio da camuflagem.

Quando estava em gestação,
A meus pais não ajudaram,
Cresci e fui então
Que p´ra guerra me enviaram.

Ainda de tenra idade,
P´ra terras dalém parti,
É certo, fiz amizades,
Mas sem saber combati

Angola era meu destino
Mas á Guine fui parar,
Com idade de menino
Ensinaram-me a matar.

Despacharam-me p´ra Mansoa
Com a arma à bandoleira,
Um canhão a voz entoa,
Era á boa maneira.

Mas deste susto refeito,
P´ra Braia fui enviado,
Como toupeira sem jeito
Sob o chão fui colocado-

Como era telegrafista,
No posto rádio fiquei.
A guerra ficou á vista
Sem saber então chorei.

Muitos meses se passaram,
Quinze mais concretamente,
Em Abril nos libertaram
Dessa servidão pungente.

No ano da liberdade,
Em Setembro dia um,
Passei à disponibilidade,
Dei a farda, fiquei nu.

Na camisa que vesti,
Foice e martelo se via,
Nem sei bem o que senti,
Gritei à Democracia.

Algum tempo já passou,
Mas ao jovem quero dizer
Sem saber porque lutou,
É muito triste morrer.

Fialho
Maio/84

Nem que fosse só pelo terminar do martírio da juventude de então...



3. Apresentação da CCAÇ 4641, segundo o o nosso grã-tabanaqueiro Vitor Caseiro (ex-fur mil):

(i) Quando estava colocado no RI 14 em Viseu, saiu em ordem de serviço a minha mobilização para Angola (26 de Setembro de 1972);

(ii) Apresentei-me no RI 16 em Évora para formar a CCaç 4641;

(iii) Entretanto, no início de Maio, a Companhia foi informada do embarque para Angola agendada para o dia 8 de Junho de 1973;

(iv) Em 23 de Maio às 12h recebemos ordens para nos apresentarmos às 6h do dia seguinte, no aeroporto de Figo Maduro;:

(v) No dia do embarque, quando nos preparávamos para entrar no avião, fomos informados que já não iríamos para Angola, mas sim para a Guiné;

(vi) Depois de várias manifestações de revolta da nossa parte, tentámos recusar o embarque: foi quando chegou um pelotão da PM. e nos forçou a entrar no avião;

(vii)  Após o desembarque na Guiné, o oficial superior que nos fez a receção, informou-nos que a nossa Companhia era a primeira de outras que vinham em reforço do contingente militar na Guiné;

(viii) Daí seguimos para o Cumeré para fazer novo IAO e mais tarde para Mansoa substituindo a 3.ª Companhia do Batalhão 4612 que foi deslocado em apoio de Gadamael, que estava a ferro e fogo (...);

(ix) Ao fim de 13 meses de Guiné, a minha Companhia foi deslocada para Ilondé, onde passámos a fazer colunas de abastecimento de Bissau para Farim;

x) O final da nossa comissão, foi fazer segurança e proteção ao Palácio do Governador.


4. Comentário de L.G.:

Meu caro Fialho: Nunca um pedido  ingresso na magnífica, gloriosa, solidária, velhinha Tabanca Grande (a caminho das cinco comissões de serviço!) foi tão rapidamente aceite e deferido...Na realidade, tu já fazias partes desta comunidade virtual, com a apresentação do teu blogue, que criaste e tens mantido discretamente, mas com humor e amor, unindo e mantendo vivos os bravos da CCAÇ 4641... 

Sobre o teu  blogue já aqui escrevemos em tempos (*): 

(...) O blogue da CCAÇ 4641 (Mansoa e Ilondé, 1973/74) foi criado em 2007 e é editado pelo 1º cabo radiotelegrafista  José Fialho, um alentejano dos quatros costados que vive em Portimão. Como ele diz o seu perfil, no Blogger, 'sou daqueles, que enquanto não me entalar, vou colocando por estes espaços sem teias nem peias aquilo que sou'. (...)

Fico feliz por saber que o último encontro anual do pessoal foi há  dias em Estremoz e que o organizador  evento  foi o nosso (e vosso)  Joaquim Sabido, alentejano, alferes que também esteve ligado à CCAÇ 46141... E feliz continuo por  chegares ao conhecimento do nosso blogue através do leiriense e também nosso grã-tabanqueiro Vítor Caseiro.

Na coluna do lado esquerdo do nosso blogue, podes ler: 

"Camarada, ex-combatente da Guiné! Onde quer que hoje estejas, longe ou perto, na Pátria ou no estrangeiro, entra em contacto connosco!... Manda-nos um mail. Também podes telefonar. Costumamos dizer que O Mundo É Pequeno e a Nossa Tabanca... É Grande. Todos cabemos cá com o que nos une e até com o que nos separa. Este blogue é teu. Preço de ingresso (mínimo): duas fotos tipo passe (uma antiga e outra actual) + 1 história...É importante que te registes para poderes sentar-te à sombra do frondoso e fraterno poilão da nossa Tabanca Grande e poderes participar no blogue, partilhando fotos e outras memórias".

Pois então, o que tinhas a fazer, já eu fiz por ti!... Estás formalmente aceite e integrado na nossa Tabanca Grande.És o grã-tabanqueiro nº 576 (Podes ver o teu nome na lista alfabética dos 576 magníficos amigos e camaradas da Guiné, constante da coluna do lado esquerdo do nosso blogue).

Só te peço que (i) nos digas a data do teu nascimento (embora isso seja facultativo...) para a gente de poder dar os parabéns todos os anos, e (ii) nos envies uma foto atual,  com mais resolução do que aquela que tens no Blogger. Quando tiveres algo de novo para publicar no teu blogue (notícias, fotos, histórias...), manda também para nós, através do nosso endereço de email.

Sê bem vindo! Estás em casa! E muito bem acompanhado!

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Guiné 63/74 - P10363: Estórias do Juvenal Amado (44): O nosso Tenente Raposo

1. Mensagem do nosso camarada Juvenal Amado (ex-1.º Cabo Condutor da CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1971/74), com data de 30 de Agosto de 2012:

Meus caros Luís, Carlos, Magalhães e restante Tabanca Grande
Mais uma recordação do 3872
Juvenal Amado


ESTÓRIAS DO JUVENAL AMADO (44)

O Nosso Tenente  Raposo

Na minha Companhia foram vários os oficiais mobilizados, que tinham construído carreira na Guarda Fiscal ou na GNR. Foram cumprir comissões de serviço com o fim de progredir na carreira e assim almejarem uma melhor reforma, uma vez que já estavam perto da mesma.

Foi o que se passou com o nosso Tenente Raposo, que era 1.º Sargento praticamente a entrar na idade da reforma. Quando formamos Batalhão e antes de embarcarmos já era Alferes do Quadro. Já na Guiné mas bem no início da comissão, a reforma do então Capitão que comandava a Companhia, também ele sem dúvida nenhuma foi para a Guiné pela mesma razão, de idade mais avançada e saúde pouco conveniente para aquelas paragens, o nosso camarada rapidamente chegou a Tenente e a Comandante de Companhia. No fundo para os militares profissionais, especialmente para os de secretaria, a guerra era uma forma de ganhar uns cobres e alcançar carreiras, onde a subida era mais rápida e a reforma mais confortável. Também é verdade que militares do Quadro era uma espécie em extinção, e à falta deles fazia o Exército recorrer a expedientes destes e outros.

Mas o grande enlevo dele era a Guarda Fiscal. Passava a vida a fazer cercos aos soldados, que via como potenciais futuros elementos dessa organização mas também para a GNR e PSP. Assim levou alguns que por sinal não se deram mal com isso, a julgar pelo bem-estar que ostentam nos nossos almoços anuais.

Outros houve, que usaram da boa-fé do nosso Tenente, para colherem algumas benesses, ao darem-lhe a entender, que estariam também inclinados a seguir essas carreiras.

Escusado será referir que quando já de malas aviadas para casa, lhe deram o nega e a coisa deve ter sido bem difícil de digerir.

Na foto, da esquerda para a direita: Tenente Raposo, Sarg Silva, Caramba (com o pipo), Santos (de cócoras) e Grijó.

O nosso Tenente era um daqueles oficiais que muito gostava de arranjar trabalho para todos aqueles em que poisasse os olhos. Mal apanhava algum soldado a passar nas imediações do seu gabinete, ele o requisitava e invariavelmente lhe dizia vai buscar isto, traz-me lá aquilo, sabes quem é fulano? Vai-lhe dizer que estou à espera dele. Isto passava-se a toda a hora e a todos instantes, pois os mais directos subordinados dele passavam a vida a desenfiar-se e mesmo de folga não estavam livres de serem chamados. Invariavelmente dizíamos que sim, apressávamos o passo como quem ia cumprir a ordem rapidamente e nunca mais lhe aparecíamos. Por vezes, horas depois, víamos o tipo que ele mandou chamar e dizíamos-lhe: “Olha que o tenente anda à tua procura”.

Quando estava de oficial de dia, ou nas chamadas nas formaturas da manhã, onde meia Companhia respondia pela Companhia toda, não era novidade o homem ameaçar com tabefes no focinho a toda a hora e nós gozávamos dizendo, que ele lá em casa só tinha peles a forrar as paredes.

Depois da leitura da ordem do dia, ele perguntava sempre se alguém tinha alguma coisa para dizer e se tivesse e ficasse calado tudo bem, mas se falasse e se o que dissesse não lhe agradasse, estava o caldo entornado. Assim aconteceu comigo por causa dos preços da cantina que já contei noutra estória.

Fiel ao ditado que cão ladra não morde, o bom do nosso Tenente nunca bateu em ninguém e ninguém teve castigo grave por sua causa.

Um dia o Aljustrel disse-me quando eu estava de reforço com ele:
- O Tenente vem sempre com pezinhos de lã para ver se apanha um de nós distraído, hoje vou-lhe pregar um cagaço.

Bem mo disse, bem o fez. Quando o Tenente vinha sorrateiro, o Aljustrel levanta a voz e, ao mesmo tempo que grita “quem vem lá, nem mais um passo”, mete uma bala na câmara da G3. Aquilo no mais completo silêncio gelou o homem. Depois já refeito, ralhou para lá os trinta farrapos, e a brincadeira custou ao Aljustrel uns reforços à “benfica,” o que era da praxe. Nada que não estivéssemos habituados pois eram quase dia sim, dia não. No meu caso fui muitas vezes já no posto chamado para sair da escala, pois ia numa coluna na madrugada seguinte. Bom, um homem habituado à disciplina e respeito na Guarda Fiscal, é bom de ver que não se entendia com aquela tropa macaca que lhe tinha calhado na rifa.

Na noite em que o Alferes X, meteu a granada descavilhada debaixo da cama e por causa dela saiu pelo telhado, tinha o Tenente Raposo estado a guardá-lo até dez minutos antes, o que o deixou muito abalado.

Quem o queria ver era de papelinho na mão para apontar uma ocorrência, ameaçar com uma “porrada”. Quando havia coluna a Bafatá, especialmente quando acabávamos de receber o pré, todos queriam ir “arejar” o patacão, o nosso herói olhava para as viaturas apinhadas de voluntários, fazia a chamada para os que estavam na lista, e mesmo estando lá quase o dobro, ninguém arredava pé até ele começar a barafustar depois de contar e recontar o pessoal.

- Raios partam a minha sorte, logo me fui meter com uma canalha destas - dizia furibundo exibindo um ar de vítima.

No Xime a caminho de casa > O Caramba e o Tenente Raposo

Quando fomos atacados entre as primeiras rajadas do Lourenço e os RPGs deles, ainda ouvimos o nosso Tenente a perguntar com a voz irada:
- Quem que foi a besta que deu os tiros? - Gritava depois no meio das explosões pelos homens do canhão, quando não tínhamos canhão nenhum. Decerto traria um papelinho na mão para apontar a ocorrência.

Nunca mais o vi depois de desembarcar, e atendendo que já era pessoa de idade, possivelmente já faleceu. Quando me encontro com o Caramba, que o sabia levar muito bem, falamos dele com algum carinho. Disse-me que o chegou a ver em Évora, já era ele Major e possivelmente na reforma.

Incontornável falar da CCS do 3872 sem falar do Tenente Raposo.

Um abraço
Juvenal Amado
____________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 28 de Agosto de 2012 > Guiné 63/74 - P10305: Estórias do Juvenal Amado (43): Olha o Silva!!!

Guiné 63/73 - P10362: CCAÇ 3325,Cobras de Guileje (1971/73): Parte VI: Atividade operacional, de outubro a dezembro de 1971 (texto: Orlando Silva; fotos: Jorge Parracho)



 Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAÇ 3325 > 1971 > Álbum fotográfico do cor inf ref  Jorge Parracho > Foto nº 38 > Estrada Guileje-Gadamael (?): progressão no tempo das chuvas


Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAÇ 3325 > 1971 > Álbum fotográfico do  cor inf ref   Jorge Parracho > Foto nº2 > O pessoal (todo ou quase todo) da companhia que esteve em Guileje de janeiro a dezembro de 1971


Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAÇ 3325 > 1971 > Álbum fotográfico do  cor inf ref  Jorge Parracho > Foto nº 31 > Reabastecimento por via aérea no tempo das chuvas.



Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAÇ 3325 > 1971 > Álbum fotográfico do  cor inf ref  Jorge Parracho > Foto nº 34 > Reabastecimento por lançamento em paraquedas, no tempo das chuvas.


Fotos: © Jorge Parracho / AD - Acção para o Desenvolvimento, Bissau (2007) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados.



1. Sexta e última parte do texto, da autoria de Orlando Silva,  relativo à estadia da CCAÇ 3325, em Guileje, de janeiro a dezembro de 1971. (Reproduzido aqui com a devida autorização do autor, José Orlando Almeida e Silva, ex-alf mil, residente em Aveiro) (*).


Atividade operacional (continuação)

De 01 a 31 de Outubro de 1971:

Mais 18 operações de patrulhamento.

A actividade directa do IN tem sido nula. Continua no entanto, a utilizar com frequência o “Corredor de Guileje”, embora certamente com menos à vontade, dado ter accionado várias minas implantadas pelas NT nesse itinerário. Igualmente accionou minas A/P colocadas pelas NT no trilho para Simbeli (perto da fronteira), tendo tido várias baixas conforme vestígios encontrados.

A actividade das NT neste período, esteve orientada no sentido de continuar a criar insegurança ao IN no “Corredor de Guileje”, procurar novos acessos para aquele “Corredor”, continuar a patrulhar com assiduidade as bases de fogos do IN, patrulhar com certa frequência a estrada para Gadamael pois iríamos brevemente iniciar as colunas Auto, e na implantação de minas nos locais perto do quartel passíveis de ser utilizados pelo IN para a instalação de Bases de Fogos.

Neste período, foram efectuadas pela Companhia duas acções ao “Corredor de Guileje”, podendo considerar-se uma delas (acção “Prestígio”) como a mais dura realizada até então pela Companhia. A patrulha teve a duração de 15 horas, sempre por zonas difíceis, dentro de bolanhas e rios ou por mata densa em locais de contacto eminente com o IN, sendo parte dela realizada na ZICC [, Zona de Intervenção do Com-Chefe] perto de Salancaur, onde o IN costumava dispor de grandes efectivos. 

Acrescente-se que o pessoal, durante toda a patrulha, não tomou qualquer alimento, porque as rações que levavam ficaram logo no inicio totalmente inutilizadas pela água. Conseguimos no entanto o objectivo da missão, que era colocar minas no “Corredor de Guileje” num local de passagem habitual do IN, e onde o IN dificilmente admitiria a nossa ida já que, segundo informações do guia, há  mais de 5 anos que as NT não iam àquela zona.

Para que não se perdesse ingloriamente o esforço dispendido nesta patrulha até à altura, tornou-se obrigatória a travessia de um braço do Rio Balana, largo e fundo, infestado de crocodilos (que os soldados desconheciam), mas decisiva para conseguirmos os nossos intentos, possibilitando assim o cumprimento da missão.

Para que isso fosse conseguido, o Alferes Cunha a certa altura, de uma forma destemida e contra o conselho do nosso guia Abdoulai Jaló, lançou-se à água a fim de que os soldados o seguissem. Como o nosso pessoal era de uma maneira geral de baixa estatura, tornou-se necessária a nossa ajuda para que os mesmos efectuassem a travessia, o que conseguimos. Correu tudo bem, montámos as minas A/P planeadas e retirámos de imediato.

O moral das nossas tropas continuava bem, podendo mesmo dizer-se melhor que no período anterior, devido aos êxitos que a Unidade tinha tido, à notícia da nossa rendição por outra Companhia e pela visita de várias entidade militares e de uma equipa da RTP.

De 01 a 30 de Novembro de 1971:

Realizámos mais 21 patrulhas.

O facto mais saliente do período foi a abertura a viaturas do itinerário para Gadamael, ficando assim quebrado o isolamento em que a Companhia se encontrava há cerca de 5 meses.

Fomos rendidos pela CCAÇ 3477, não se notando qualquer incremento de actividade do IN para impressionar esta Companhia, como seria de esperar.

A nossa actividade continuou orientada para continuar a criar insegurança ao IN no “Corredor de Guileje”, manter em constante vigilância as bases de fogos IN e seus itinerários, manter aberta a estrada para Gadamael, e dar a conhecer a Zona de Acção à CCAÇ  3477.

Continuámos a manter em tudo a nossa actividade anterior, e o moral da tropa encontrava-se em alta.
Para essa moralização, contribuíram em parte as palavras de apreço e incitamento que a Companhia tem recebido das entidades que a visitam, sendo de salientar especialmente as proferidas por Sua Excelência o General Comandante-Chefe, que durante o período visitou por duas vezes Guileje.

Iniciou-se entretanto o período de rendição da Companhia pela CCAÇ 3477, e a ida para Nhacra do 1º e 2º Grupos de Combate da CCAÇ 3325, tendo o pessoal daquela Companhia começado a integrar-se muito bem dentro da missão que lhes irá ser atribuída.

A alimentação melhorou com a abertura da estrada, lançamentos em pára-quedas e fornecimento de frescos por avião.

Manteve-se pois sem quebras a actividade operacional, com boa colaboração no final do período da CCCAÇ 3477, prosseguindo também em bom ritmo os trabalhos de beneficiação da defesa e instalações do quartel, e podendo nós  afirmar que continuava a ser excelente o moral da Unidade.

Em Dezembro de 1971:

Realizaram-se em conjunto com a CCAÇ  3477 mais 15 acções.

O IN revelou durante o período grande actividade e agressividade. Efectuou várias flagelações ao quartel, ou para desviar as atenções das NT do “Corredor de Guileje” ou ainda para impressionar o pessoal da nova Companhia.

A actividade das NT neste período, foi totalmente orientada no sentido de procurar dar aos Oficiais, Sargentos e Praças da CCAÇ 3477 um conhecimento perfeito de toda a ZA,  bases de fogos IN, itinerários, localização das nossas minas, que foram todas levantadas e tornadas a montar por pessoal daquela Companhia, dando-se inclusivamente instrução ao pessoal dentro do quartel, de tiro, para adaptação das armas que iam passar a ser distribuídas, e instrução sobre minas e armadilhas, dada a larga difusão destes engenhos na ZA



Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAÇ 3325 > 1971 > Álbum fotográfico do cor inf ref Jorge Parracho > Foto nº 17 >  O com-chefe gen António de Spínola numa  duas visitas que efetuou a Guileje em 1971.


Foto: © Jorge Parracho / AD - Acção para o Desenvolvimento, Bissau (2007) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados. [As fotos de Jorge Parracho foram disponibilizadas à ONG AD- Acção para o Desenvolvimento, com sede em Bissau, em 2007, no âmbito do projecto de criação do Núcleo Museológico Memória de Guiledje]


Jantar no Palácio do Governador – 23/12/71

Finalmente, venho recordar com saudade o jantar no Palácio do Governador em Bissau, oferecido aos Oficiais desta Companhia após a saída da mesma daquela zona de guerra, e antes do nosso regresso à Metrópole, pelo General António Spínola, em homenagem à nossa actuação militar.

EM RESUMO…

Como se vê, apesar de tudo o que os Cobras de Guileje passaram, apesar de todos os mortos e feridos, ninguém ouviu qualquer oficial, sargento ou praça desta Companhia, vir gabar-se ou pavonear-se em público, quer fosse em jornais, rádio ou televisão.

Pelas fotos aqui inseridas, podemos ver como estava o aquartelamento quando chegámos e como ficou quando saímos. E tínhamos tempo para jogar à bola e receber visitas por avião.

Seríamos inconscientes?

No Jornal que V. Exa. dirige [, referência ao diário Correio da Manhã], e para uma correcta informação dos leitores, antes de serem publicados aqueles artigos, deveriam ter reunido à mesma mesa todos os intervenientes. Lembro ainda outro artigo, esse publicado na revista do vosso jornal de 24/05/2009, que surge pleno de dramatização e falta de verdade.

Os mortos e feridos merecem melhor!

Da nossa parte, Companhia Independente de Caçadores 3325, bastaria ouvir qualquer oficial, sargento ou praça, que, melhor que ninguém e de uma forma isenta, mostraria ao País o que foi “Guileje”.

Gostaríamos de poder convidar o Sr Jornalista (autor do/s referido/s artigo/s sobre Guileje) a estar presente na nossa próxima reunião anual, que se irá realizar em Maio de 2010, caso seja para isso devidamente autorizado pela redacção do “Correio da Manhã”.

Que [a Guiné] foi a pior zona de toda a Guerra do Ultramar, é o que dizem! Que Guileje foi o pior quartel de toda a Guerra do Ultramar Português (daí a sua importância), isso também foi. Está comprovado.

A verdadeira história do Ultramar há-de ser feita, pois ainda há Portugueses com memória e com sentido da verdade. Só exigimos respeito, principalmente pelos mortos e feridos, igual àquele que nós próprios temos pelos que então eram nossos inimigos.
______________

Nota do editor:

(*) Último poste da série > 4 de setembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10329: CCAÇ 3325, Cobras de Guileje (1971/73): Parte V: Atividade operacional, de agosto a setembro de 1971 (Orlando Silva)

Guiné 63/74 - P10361: Memórias de outros tempos (7): Operação Ananases (Jorge Teixeira-Portojo)

1. Em mensagem do dia 4 de Setembro de 2012, o nosso camarada Jorge Teixeira (Portojo), (ex-Fur Mil do Pelotão de Canhões S/R 2054, Catió, 1968/70), enviou-nos esta memória de uma operação muito perigosa:


MEMÓRIAS DE OUTROS TEMPOS

7 - Operação Ananases

Andava num remanso de vida numa terra chamada Catió, algures em África que de concreto sabia ser uma colónia chamada Guiné. Do meu tempo de estudante aprendi que ficava no Golfo da Guiné, próximo do Equador e que produzia arroz. Tinha por vizinhos o Senegal, a Guiné Conacri e o Oceano Atlântico. Nessa altura, sabia apontar no mapa a sua localização e ficava por aí.

Para chegar ao remanso de vida naquela terra, passei por algumas experiências incluindo um cruzeiro de seis dias num paquete chamado Niassa e depois umas 10 horas num batelão que fedia a tudo que é possível imaginar-se. Creio que vem desde essa altura o cheiro que se me entranhou e elas tanto gostam.
Para que o remanso fosse completo, entregaram-me uma velha conhecida chamada G3 com a qual nunca me dei bem. Mas tive direito a ela porque nos registos de um livrinho que me ofertaram anos depois diz "não satisfaz".
Nesse remanso, passeava algumas vezes nem sei por onde, de dia e de noite, ninguém se importava com a minha existência.

Certo dia, convidaram-me para mais um passeio. Lá fui todo contente devidamente vestido com umas roupas e botas lindas que comprei num armazém na Rua da Boavista, situado num edifício que acho ter pertencido à família de Garrett. Ou terá sido da do Alexandre? Para o caso não interessa.
Reparei que a maior parte dos meus acompanhantes não trajava o mesmo estilo de roupas. Mas como devem ter sido convidados à última da hora como eu, sem saber o que iriam descobrir no passeio, lá pensaram que qualquer trapinho serviria. Embora eu tivesse avisado que lhes ficavam mal aquelas roupinhas.
O nosso cicerone usava uma roupa parecida com a minha e nos ombros ostentava, brilhante, uma tirinha amarela.

Partimos para a excursão seriam umas três da tarde, levando a tal G3 como amparo, alguns com cintos cheios de pequenas maletas que comportavam alimentação para a dita, roupas e calçado os mais variados.
Caminhamos por ali e acolá e a tarde quase no fim. E os passeantes começaram a sentir fome e sede. O cicerone usava um aparelho tipo telemóvel mas muito grande, que não tugia nem mugia. Só soltava ruídos, tanto quanto me apercebi.

Como uma bênção, ou talvez estivesse delineado no programa do passeio, caímos no meio de uma plantação de ananases. A rapaziada sentou-se por ali e toca de começar a descobrir o paladar da fruta. Logo descobrimos que eram azedas. Mas a esperança de encontrar alguma doce levou a que quase se destruísse a plantação. Entretanto foram chegando umas visitas indesejáveis, minúsculas, com asas e ferrão. Começaram então a ouvirem-se duas orquestras: Uma de sopro, em estereofonia, mais parecendo que usávamos auscultadores; a outra de repercussão, com batimentos em tudo que era pele a descoberto. Foi com satisfação que regressamos ao remanso, seria para aí uma meia-noite.

Quase noite, um dos participantes em plena prova de doçura

Mudando de tom. Faz agora 43 anos que morreu o meu único homem, o Salvado. Que me foi substituir numa altura em que eu andava doente. Evacuado para o HM 241 de Bissau, encontrei-me lá com ele, mas já no caixão. Levei os seus pertences para serem devolvidos à família. Em Setúbal existe uma lápide com o seu nome. Espero que também lá estejam os seus restos mortais.

Durante muito tempo não soube o que andei a fazer em Catió. Ninguém se dignava dar-me instruções, informações, mínimas que fossem. Fiz patrulhamentos, reabastecimentos, montei emboscadas (?) totalmente de olhos fechados. Fui aprendendo com o tempo caminhos, a vida do mato, a conhecer a população, a desenfiar-me. E a tentar unir um grupo de homens, eles também à deriva durante muito tempo.

Esta Operação Ananases, conforme lhe passámos a referir, deu-se numa das propriedades do senhor de Catió, creio que lhe chamavam Chefe de Posto. Participou da ocorrência aos comandos militares e acabei por levar por tabela um repreensão.

Não me lembro se ao pessoal lhes deram alguma coisa para comer quando regressamos. Mas naquela altura em Catió, era eu um periquito mal saído do ovo e não "pescava" nada do assunto, só o bolso encher interessava a alguns. Comer miseravelmente era o lema. Até ter acontecido um levantamento de rancho e a partir dessa altura então para mim o remanso foi ainda mais perfeito.

A Operação Ananases ocorreu em meados de Maio de 1968 e as chuvas ainda não tinham chegado.

Jorge Teixeira
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Nota de CV:

(*) Vd. poste de 31 de Dezembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7530: Memórias de outros tempos (6): Passados mais de 42 anos (Jorge Teixeira - Portojo)

Guiné 63/74 - P10360: Viagem à volta das minhas memórias (Luís Faria) (56): Bula - A guerra das minas (6): A "sentinela"

1. Mensagem do nosso camarada Luís Faria (ex-Fur Mil Inf MA da CCAÇ 2791, Bula e Teixeira Pinto, 1970/72), com data de 4 de Setembro de 2012:

Amigo Carlos
Diziam-me e penso ser verdadeiro que, naquela guerra os “Unimog” e outras viaturas militares, à falta de gasolina aceitavam qualquer tipo de álcool como combustível. Vinho inclusive! Parece-me que tinham até um comutador?
Bom, vem isto ao caso porque o tipo de combustível que tem sido gasto nesta “Viagem à volta das minhas memórias” está a entrar nas reservas que e aproveitando as descidas só irão permitir-me chegar ao destino. A ser verdade as viaturas poderem usar combustível do tipo “tintol verdasco” de que gosto e havendo postos de abastecimento… bom, talvez me disponha e consiga conduzir-me numa outra viatura mais ligeira em passeio à aventura, sem destino e ao destino.
Como se dizia na minha terra em troca do ver-se-á: “depois verá-se!”

Espero que tenhas tido e aproveitado umas boas e calmas mini-férias.
Um abraço para ti e outro para a Rapaziada, com votos de saúde e qualidade de vida.
Luís Faria


Viagem à volta das minhas memórias (56)

Bula- guerra das minas 6

A “sentinela!”

Como de outras vezes em que recordo estes momentos, revivo-os e um arrepio percorre-me o corpo.
Na minha perspectiva e à altura, no intuito e esperança de se conseguir viver com alguma normalidade a anormalidade daquele enfileiramento de dias e mais dias em que palmilhávamos na monstruosidade de extensão e densidade daquele campo de minas, julgava que o melhor a fazer era assumir e mentalizar que o momento ou o segundo seguinte podia marcar a diferença numa vida ainda jovem mas já envelhecida.

A par, havia que interiorizar fortemente as já anteriormente abordadas medidas preventivas e não condescender na sua aplicação, pois eram fatores de esperança na ultrapassagem de obstáculos e desastres recorrentes, na não paralisação por receios ou medos, no acreditar e seguir em frente.

Vem isto ao caso pela especificidade de uma situação vivida conjuntamente pelo António Matos (P4296 de 7MAI09) e por mim, que passarei a referir com alguns pormenores que na certa continuarão a ter registo vivo na minha memória ao longo do tempo.

Já bem avançados no campo e com o final da campanha mineira de certo modo à vista, já não recordo por qual dos dois, a mina metálica portuguesa (fragmentação) procurada é localizada. Era um valente “cú de boi” que se apresentava meio escondida por um tufo de vegetação e bastante incrustada no “sopé da encosta” dum bagabaga que por ali tinha nascido naqueles passados anos. Parecia até que as formigas, cientes dos tempos que se viviam, tinham construído ali a sua nova cidadela com o fito de aumentar a sua segurança contra intrusos e acabaram por envolver esta “sentinela” assassina num abraço de reciprocidade protectora!

Por oferecimento altruísta de ajuda expresso por um de nós, creio que do A. Matos, o certo é que nos achamos de facas nas mãos a esgravatar minuciosamente e em conjunto o condomínio formigueiro em volta da “sentinela”, com o intuito da sua neutralização e posterior “sequestro”!

Era uma acção difícil e de risco, sabíamo-lo bem e como tal usamos de toda a precaução e tempo exigível em conformidade. Creio que não nos passou sequer pela cabeça e como tal não nos questionamos sobre a hipótese do rebentamento provocado sob controlo. Não sei porque, talvez por não ser possível ou outra razão qualquer, não recordo.

De volta da mina, o primeiro passo seria cavilha-la logo que possível, o que se tornou um bastante moroso e dificultado por parte do sistema de percussão e até os orifício superior (primário) de cavilhamento estar parcialmente obstruído não permitindo meter a cavilha e o inferior lateral (secundário) não estar visível.

Com paciência, muita sensibilidade e calma, fomos aligeirando o abraço desbastando o bagabaga, acabando por desobstruir o orifício primário e conseguir espaço para enfiar a cavilha, se bem que não correctamente, por impossibilidade ao momento. Continuamos o trabalho atento e meticuloso de desencastamento do engenho, acabando por pôr a descoberto o orifício lateral de segurança secundária. De seguida dou início a introdução da cavilha que finalizaria a neutralização do percutor do engenho e nos permitiria desencarcerá-lo à vontade. Aponto-a mas não chego a coloca-la…!

“CLICK” … este som macabro em simultâneo com uma ligeira pancada sentida nos dedos, transporta-me (nos) a um silêncio absoluto… talvez do “Além”?

O sangue fugiu para os pés deixando a lividez espraiar-se num suor gelado que nos alagou. Olhamo-nos mudos e incrédulos. Onde estávamos? Ainda por cá? Como? O que tinha acontecido de errado?

Os cigarros começam a queimar-se. Olho para a mina e vejo que a cavilha superior, que por impossibilidade só estava parcialmente enfiada, está completamente torcida e vergada de viés pelo percutor. Por milagre aguentou!

Julgo que sentados e mudos com olhar distante e incrédulo, vão-se somando cigarros. Ninguém se terá apercebido do acontecido.

Muito… pouco? O tempo vai passando e os cigarros sucedem-se.

O Cangalhas, Alf OE em comando local por mais velho, atira-nos um mais ou menos “vamos a levantar…!?”

“Que o pariu!”…depois… depois consumamos o “sequestro” e recomeçamos a levantar minas!

Na sua memória o António Matos tem registado que a mina não detonou por envelhecimento, apodrecimento. Talvez!

Na minha e conforme narro, ainda que deficientemente colocada a cavilha não saltou e aguentou, ficando toda torcida de viés mas empancando o percutor que realmente desceu um pouco na manga guia. Teria descido o suficiente para percutir?

Hoje, como à altura, não tenho resposta para o disparo ter acontecido mas… aconteceu, simplesmente!

Luís Faria
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Notas de CV:

Foto: © António Matos (2009). Direitos reservados - Com a legenda: O nosso camarada António Matos manuseando uma mina portuguesa.

Vd. último poste da série de 15 de Agosto de 2012 > Guiné 63/74 - P10268: Viagem à volta das minhas memórias (Luís Faria) (55): Bula - A guerra das minas (5) - Um jogo de "apanhadinha"

Guiné 63/74 - P10359: Histórias e memórias de Belmiro Tavares (26): A reserva de quarto

1. Em mensagem do dia 3 de Agosto de 2012, o nosso camarada Belmiro Tavares (ex-Alf Mil, CCAÇ 675, Quinhamel, Binta e Farim, 1964/66), enviou-nos mais três das suas histórias e memórias. Segue-se a segunda desta série:


HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DE BELMIRO TAVARES (26) 

A Reserva de quarto

1º. Ato

Os hotéis são, diariamente, um manancial quase inesgotável de acontecimentos divertidos, danosos, agressivos, cómicos; uns por serem mais ou menos originais ou singularmente engenhosos ficam gravados por mais tempo na nossa memória; outros não são facilmente esquecidos, porque nos lesaram economicamente com maior ou menor gravidade.

Certos clientes, para conseguirem uma qualquer benesse, alegam ser amigos dum primo ou parentes da prima do diretor; outros conseguem iludir (ou tentam) a atenção dos rececionistas enquanto a soma das suas diárias vai aumentando, todos os dias, por vezes perigosamente, para depois aplicarem o golpe final e total; outros, ainda, dão-se ao cuidado de aparecer com uma volumosa mala pesada para convencer o bagageiro e/ou porteiro de que são possuidores de valiosa e densa mercadoria… trazendo dentro da mala apenas – pasme-se! – Uns três ou quatro tijolos.

Não enumero, por certo, mais destes ardis, apenas para, por precaução, evitar que alguém ainda leigo (se é que alguém vai ler este texto) ou ainda pouco experiente nestas andanças possa vir a utilizá-los (sem gastar fósforo a inventá-los) contra os hoteleiros mais distraídos ou confiantes.

O que agora vou narrar não consta dos alfarrábios das burlas nem com a elas tem qualquer parentesco e não consta, portanto, do rol dos embustes, mas tem, assim o creio, uma certa dose de graça.

Uma senhora telefonou para a receção do Hotel Dom Carlos Park (não se trata de publicidade) para proceder a uma reserva dum quarto duplo para determinada data. O rececionista aceitou o pedido, registando-o no respetivo livro, indicou o preço e as regras essenciais para aceder ao quarto e outras. A senhora, porém, manifestou um segundo desejo:
- Pretendo pernoitar no mesmo quarto no qual dormi (será mesmo que dormiu?!) há cerca de dez anos.
- E qual foi o quarto? – Perguntou o funcionário, solícito.
- Não me lembro do número mas recordo que havia uma coluna da estrutura do edifício mais ou menos a meio!
- Com esta informação tudo fica, ainda, mais difícil de solucionar; na verdade nós temos 16 quartos com um pilar no seu interior! Mas não se preocupe! Eu vou pesquisar os nossos registos e a senhora dormirá, com toda a certeza, no mesmo quarto que utilizou na data que indica.

Naquela data, ainda, não havia computadores mas os manuscritos eram guardados durante anos e anos. Uns dias passaram! Na data aprazada para a sua reentrada pouco antes das doze horas, duas senhoras apareceram no hotel, abeiraram-se da receção, pedindo autorização para colocar um bonito e enorme ramo de flores no quarto já atribuído à tal cliente, a senhora Rosa – nome fictício - ; alegaram que eram suas colaboradoras noutro hotel de Lisboa; ficámos a saber que a dita cliente era governanta geral; que ela tinha pernoitado no H.D.C. na noite de núpcias e volvidos dez anos, ela pretendia voltar ao local do crime, não! Não houve, por certo, delito algum. Nada digno de registo, que se saiba, ocorreu no dia da sua reentrada no Hotel Dom Carlos para ali pernoitar, mais uma vez, após um interregno de 10 anos.

No dia seguinte, ao fim da manhã a senhora apareceu na receção para pagar a conta; o marido colocou-se estrategicamente, junto à porta de saída…, para o que desse e viesse. Ela ria-se imenso! Delirava por todos os poros! Parecia que conhecia os funcionários há vários anos!

A cliente, exuberante, contou que as suas colaboradoras lhe haviam pregado uma partida da qual gostara imenso e pretendia saber os nomes delas.
- Isso é impossível! Como elas pretendiam, apenas colocar flores no quarto não considerámos necessário identificá-las.

Ela solicitou ao rececionista que descrevesse a fisionomia das ditas colaboradoras, com a minúcia possível. Assim foi feito! Logo ela declarou que aquela informação era preciosa; ficou convencida que havia descoberto as autoras da brincadeira… que tanto lhe agradara!

De seguida contou, com muitos detalhes (não todos por certo), o papel que as suas colaboradoras haviam desempenhado na perfeição:
- Colocaram um faustoso e agradável ramo de flores bem frescas sobre a cama; com batom fizeram uns desenhos “esquisitos” no espelho e beijaram-no, deixando ali as marcas do baton dos seus lábios. Não satisfeitas, colocaram “um das caldas”, imponente, sobre a mesa-de-cabeceira; penduraram, ainda na face interior da porta, uma enorme fotografia pornográfica. Adorei! Adorei! Adorei! Estava tudo muito engraçado! Mas vou vingar-me delas! Não imaginam o que vai acontecer-lhes! Isto tudo, porém, é uma prova do enorme carinho que elas nutrem por mim! Mas não posso deixar de retribuir acrescentando uma boa dose de juros.

2º Ato

Mesmo ao lado do balcão da receção encontrava-se um senhor brasileiro, nosso cliente havia vários anos; vinha 3 ou 4 vezes por ano a Portugal e passava no hotel cerca de um mês de cada vez. Saía do hotel, apenas, três ou quatro vezes, durante a sua estada; um dia ia a Figueiró dos Vinhos visitar uns familiares, noutro dia ia a Fátima; uma noite ou outra saia para jantar com uns amigos… e mais nada. Este cliente entrava, deliberadamente, em todos (quase) os recantos do hotel; por vezes tomava o pequeno almoço no meu gabinete (para não pagar uns telefonemas) e frequentemente “invadia” o refeitório do pessoal onde petiscava e jogava lá uma “suecada” ou disputava uma partida de xadrez.

Eu disse várias vezes:
- Este cliente já está à carga! Já faz parte da mobília.

O sr. Maneco (o cliente de quem se fala,) é ainda nosso cliente, mas menos assíduo… a velhice é uma treta”) ouviu toda aquela conversa e pediu desculpa por se intrometer no diálogo; perguntou se podia contar o que acontecera a um casal seu amigo na comemoração duma data semelhante… mas com outros números… mais uns anos. A cliente acedeu delicadamente àquela solicitação e acrescentou que adorava ouvir estórias engraçadas… e, se com pimenta… tanto melhor.

Ele começou:
- Uns amigos meus iam comemorar 40 anos de casados; decidiram passar aquela noite no mesmo hotel onde pernoitaram na noite de núpcias e que iriam repetir (tentar) tudo o que haviam feito naquela noite muito especial.
Jantaram no restaurante do hotel. De mãos dadas olhavam-se muito ternurentos; sorriam por tuno e por nada.
O empregado serviu a sopa! Pouco depois, com voz trémula de emoção, ela sussurrou ao ouvido do marido:
- Estou a sentir os mesmos calores de há 40 anos! - Mas desta vez – respondeu o marido “derretido de amor” – meteste o seio no prato da sopa.

Acabado o jantar, passearam um pouco no jardim fronteiro ao hotel; quando entenderam, reentraram e dirigiram-se ao mesmo quarto onde haviam passado a noite de núpcias havia 40 anos. Ao entrar no aposento a esposa lembrou ao companheiro o que haviam acordado: deveriam fazer tudo tal como na primeira noite de casados; eu vou em primeiro lugar mudar de roupa, na casa de banho e depois vais tu! Foi assim que procedemos na outra vez.

Quando o marido saiu do banheiro, ela já na cama, comentou, sorridente:
- Está tudo a decorrer como da outra vez! Até a tua gargalhada na casa de banho! - Mas da outra vez – respondeu ele preocupado – eu ri-me porque urinei para o nariz;… hoje… molhei os chinelos!

A matéria húmida… seria semelhante… o modus faciendi era diametralmente oposto. Coisas que acontecem… quando menos se espera!

No meu tempo de tropa, os soldados diziam: “Na tropa, a velhice é um posto”! Hoje virando o disco, afirmamos: “a velhice… é uma treta”!

Lisboa, Agosto de 2012
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 6 de Setembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10342: Histórias e memórias de Belmiro Tavares (25): "O Aguardente"