quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Guiné 63/74 - P10513: (Ex)citações (199): Nunca me considerei, não fui, não sou nem pretendo ser um “valentão” (Belmiro Tavares)

1. Mensagem do nosso camarada Belmiro Tavares (ex-Alf Mil, CCAÇ 675, Quinhamel, Binta e Farim, 1964/66), com data de 10 de Outubro de 2012, com um esclarecimento dirigido a José Manuel Silva Estanqueiro que comentou o Poste 10476:

Caro Senhor José Manuel
Acabo de receber o seu comentário* ao meu texto sobre factos concretos e verídicos que eu vivi intensamente na famigerada guerra da Guiné.

1º - Antes de mais, pretendo informar que não tinha conhecimento que os não combatentes e/ou ex-combatentes doutros TO “ eram mal aceites” neste blog. Acontece que este é um blog de ex-combatentes da Guiné (apenas) e tem as suas regras como tudo na vida. Na verdade, cada um vê as coisas um pouco de acordo com a sua vivência dos acontecimentos e o seu interesse. Pretendo dizer que sendo a guerra da Guiné diferente – pior – das outras duas, nós vivemos os temas e reproduzimo-los de modo dissemelhante. De qualquer modo, uma coisa será ser “mal aceite” (a sua opinião), outra será ser proibido de entrar.

2º - Gostaria que o Sr. José Manuel me informasse:
a) Se é ex-combatente;
b) Se afirmativo, em qual TO participou
c) Qual o posto
d) Em que arma esteve inserido.

3º - Não compreendo que, em termos práticos, não distinga entre um oficial do QP e um do SG. Permito-me não explicar

4º - Se tem dúvidas que um castigo em OS prejudicava tremendamente o ex-militar (de novo na vida civil), apenas direi que um furriel miliciano da minha companhia – a gloriosa CCaç 675 – era funcionário das Finanças em Ponte de Lima; foi punido na Guiné e, quando chegou ao seu antigo posto de trabalho, foi informado que já não era funcionário público. Basta!

5 – Meu caro Sr: nunca me considerei , não fui, não sou nem pretendo ser um “valentão”; tenho, porém, duas pernas e dois braços (estes com uma mão no extremo de cada um) que, na defesa de superiores interesses dos meus subordinados (ou mesmo que sejam já ex-combatentes), seria capaz de usar, sujeitando-me à resposta do visado. Cumpre-me esclarecer que o alferes a quem transmiti o “tal” aviso era mais antigo do que eu. Ciente que esta situação era gravemente penalizadora para mim, eu não fugi à questão – a defesa intransigente dos meus Homens; em primeiro lugar os do meu pelotão… mas dos outros também. E valeu a pena! Que eu saiba nunca mais fez o mesmo.

6º - Não consigo, Sr. Estanqueiro, entender a expressão: “se fosse de Infantaria também mencionava?” não posso deixar de informar que a minha CCaç 675 – a gloriosa – era uma unidade independente; inicialmente adimos a um batalhão de Cavalaria – o célebre batalhão de Como; na parte final dependíamos de um batalhão de Artilharia. Tivemos um bom relacionamento com o Ten. Coronel de Cavalaria e também (quase o mesmo) com o Ten. Coronel de Artilharia. Com os capitães dos dois batalhões não nos demos bem nem mal, antes pelo contrário; com os subalternos tudo correu sempre sobre esferas. Pior foi a minha convivência – e a CCaç 675 também, com um ten./Cap./major que até me ameaçou com prisão… porque eu me recusei a caminhar… para o suicídio, o meu e o do meu pessoal. Ele, porém, não teve a coragem de pôr em prática as suas ameaças!

7º - Quanto aos seus considerandos sobre comandantes e chefes, meu caro Sr. José Manuel, apenas direi que um graduado tem de dar e transmitir ordens (não é o mesmo) e acima de tudo cumpri-las e fazê-las cumprir. Quanto às consequências apenas e especialmente me interessa o que os meus soldados pensaram de mim, na Guiné, e os seus juízos de valor durante os 46 anos que se seguiram ao nosso regresso, para já. Desde o nosso regresso, organizei “apenas” 46 confraternizações anuais e um sem número de “minis” que ocorreram em Lisboa e de norte a sul do País. A maior das minis ocorreu em Fermentelos (Águeda) com a participação de mais de 50 ex-combatentes – já não era propriamente uma mini!

8º - “Por isso ocorriam desastres”. Penso, Sr. Estanqueiro que entendi onde pretende chegar, mas afirmo categoricamente que nunca receei que tal acontecesse comigo; nunca pensei nisso; eu confiava plenamente nos militares à minha guarda e sempre senti que o contrário também era verdadeiro. Aliás nunca tive conhecimento efetivo – nem lá nem cá – de casos desses mas… diz-se muita coisa. O meu comportamento não mudava com a hora, e a temperatura ou o local onde nos encontrávamos; em Évora, em Bissau, em Binta ou no meio das matas mais cerradas ou mais abertas, nas viaturas ou em num barco, armados ou não, eu agi sempre do mesmo modo – eu era sempre o mesmo quer em combate quer a beber uns copos. De qualquer modo, Sr. Estanqueiro, só pode tentar beliscar-me quem teve a mesma vivência que eu e acima de tudo quem eu entender que tem capacidade moral, para agir como tal – até rima mas é verdade! A melhor resposta a tudo isto é dada pelos meus soldados – aqui incluo todos os da Companhia- não só os do meu pelotão. Permita-me Sr. José Manuel, parafrasear o estafado lema mas em sentido diferente do usual: “o povo é quem mais ordena”!

9º - Quanto ao agredir os empregados, Sr. Estanqueiro, aconselho-o (aceite se quiser) a não misturar alhos com bugalhos; não são compatíveis.

Para terminar:
Meu caro Sr. José Estanqueiro, alvitro que leia os meus textos no blog em que falo da gloriosa CCaç 675 – a família e seus componentes – e já são vários – e creia, caro senhor, que são puras verdades; não necessito inventar o que quer que seja (nem romancear) sobre o tema.

Última nota:
Aceito, perfeitamente, que trate por “senhor” quem não conhece. Como poderá o senhor, Estanqueiro, em sã consciência, tentar emitir juízos de valor sobre quem não conhece… minimamente?!

Por aqui me fico, aguardando os esclarecimentos solicitados, bem como qualquer réplica que o tema possa merecer.

Mui respeitosamente
Belmiro Tavares
10.10.2012
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Notas de CV:

(*) Comentário de José Estanqueiro ao poste > Guiné 63/74 - P10476: (Ex)citações (197): Carta aberta a Tony Borié (Belmiro Tavares) de 3 de Outubro de 2012:

Sr Belmiro 
Sei que neste blog são mal aceites todos os que não combateram na Guiné, mesmo sendo combatentes noutros TO. Pelo menos é a conclusão daquilo que vou lendo de cada vez que aqui venho. Mesmo assim não resisto em expor a minha opinião. 
Não concordo minimamente coma as suas teorias sobre disciplina. Não é preciso agredir ninguém para fazer cumprir as normas e regulamentos. E não me venha com a teoria que que os castigos à ordem prejudicava a vida civil.
O sr agredia soldados e ameaçava camaradas de igual posto por ser oficial e se achar um valentão. E teve a sorte de apanhar oficiais que não o puseram em sentido. 
Não percebi a referencia () ser do serviço geral. Se fosse de infantaria também mencionava? Também agride os e empregados do hotel?. 
Francamente, um chefe, líder não usa métodos desses. A diferença entre comandante e chefe está exactamente na capacidade de se levar os outros a fazerem o que nós queremos sem recurso a violência.
Os (co)mandantes esses recorrem a ela. Infelizmente à época havia muitos Belmiros. Por isso por ocorriam "desastres". 
Como não pertenço ao clã e sou penetra, trato-o por sr, pois foi assim que aprendi a tratar quem não conheço. 
Atenciosamente 
José Manuel Silva Estanqueiro

Vd. último poste da série de 9 de Outubro de 2012 > Guiné 63/74 - P10508: (Ex)citações (198): O termo “batalha” pela ocupação da mata de Cufar Nalu poderá ser uma “figura de estilo”, à luz dos conceitos da ciência militar (Manuel Lomba)

Guiné 63/74 - P10512: As Nossas Tropas - Quem foi Quem (11): Tenente de 2ª linha Mamadu Bonco Sanhá, régulo de Badora, comandante da companhia de milícia do Cuor (Cherno Sanhá)



Guiné > Zona leste > Sem data nem local > Mamadu Bonco Sanhá. Segundo informação do filho Cherno Sanhá, esta foto deve ser de finais de 1960 ou de 1970, quando o tenenente Mamadu foi condecorado com a cruz de guerra. Deveria ter uns 40 e poucos anos.

Foto: © Cherno Sanhá (2012) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados,


1.  No passado dia 5 de setembro, recebi a seguinte mensagem do nosso leitor, Cherno Sanhá, que presumo viva (ou tenha vivido em Espannha), a avaliar pelo endereço de correio eletrónico: cherno2009@yahoo.es

 Bom dia!

É com grande satisfação que pude hoje ler o vosso blog,é muito importante e enriquecedor.
Sou filho do Mamadu Bonco Sanhá,vou tentar contribuir com mais informações sobre o meu pai e enviar algumas fotografias dele.

Um grande abraço.

Cherno Sanhá


2. Comentário de L.G.:

Na altura eu não associei o nome, Mamadu Bonco Sanhá, ao todo poderoso cabo de guerra e régulo de Badora, homem grande de Bambadinca,  fula, que eu conhecera no meu tempo (1969/71). Hoje, 10 de outubro, recebo um outro mail com uma das prometidas fotografias do pai do Cherno Sanhá (Pelo indicatiivo  do telemóvel, 00 245, vejo que ele afinal vive na Guiné-Bissau):

Caros Luis Graça,

Junto envio uma foto do meu pai Mamadú Bonco Sanhá.
Cumprimentos
Cherno Sanhá
Telemóvel: (+245) 727 6999



3. Comentário de L.G.:

Meu caro Cherno:  De repente, ao olhar esta foto amarelecida pelo tempo, fez-se-me luz no "meu computador central", reconheci de imediato aquela cara: era ele, o tenente de 2ª linha Mamadu, ou simplesmente o tenente Mamadu, como os 'tugas' o tratavam, com deferência e respeito,   comandante da companhia de mílícia do Cuor...

Era ele, fardado, com os respetivos galões, e os óculos escuros que sempre lhe conheci. A farda, branca, devia ser a da administração colonial, a das cerimónias oficiais, a de régulo. Régulo de Badora.

Vestido de farda, branca, como na foto, não me lembro de o ter visto.  Rebobinando os filmes das minhas memórias de Bambadinca, estou a vê-lo, sim, ora de camuflado, ora com as vestes tradicionais dos homens grandes, a chabadora, e quase sempre, se não sempre, montado na sua motorizada de 50 cm3, de marca japonesa (talvez uma Kawasaki), oferta pessoal - segundo se dizia -  do Governador Geral da Província e e Com-Chefe, António Spínola (, facto que nunca pude confirmar).

Habituei-me a vê-lo,com alguma frequência, na parada do quartel de Bambadinca, junto ao comando do batalhão ali estacionado no meu tempo (primeiro, o BCAÇ 2852, e depois o BART 2917), ou seja, no período que medeia entre agosto de 1969 e março de 1971.

Nunca fiz, que me lembre, nenhuma operação com ele. De resto, não era habitual os pelotões de milícias participarem nas nossas operações, apenas os Pel Caç Nat (52, 54, 63)...

Também era voz corrente que tinha uma cruz de guerra, por feitos valorosos em combate, não sei onde nem quando. O que também nunca soube era onde vivia, se em Bambadinca ou nalguma tabanca dos arredores.

Dele também se dizia - seguramente com os exageros próprios das 'bocas'  da caserna  - que o todo poderoso e temido régulo de Badora tinha 50 mulheres, uma em cada aldeia do seu regulado, e que só em cabeças de gado deveria ter umas centenas. Mulheres e cabeças de gado  faziam parte do 'status' de um homem grande.

Dizia-se também que tinha alguns filhos na CCAÇ 12, como seria o caso do nosso infortunado  e saudoso Umaru Baldé, o 'puto' [,foto acima, à esquerda; crédito fotográfico: Benjamim Durães]...

Nunca lhe perguntei, ao Umaru,  nem nunca lhe perguntaria...Lidei, privei com os fulas, fiquei nas suas tabancas, mas também respeitei a sua privacidade, a sua cultura, o seu modo de ser e de estar... Com os balantas, infelizmente, não consegui criar qualquer empatia... A barreira da língua e da farda, além da pertença a uma companhia fula (, a CCAÇ 12,), eram obstáculos intransponíveis...

Havia tensão entre os fulas e os balantas de Badora... Julgo que desgraçadamente "ajustaram contas" entre eles depois da nossa saída... Os malditos demónios étnicos ficaram na "caixinha de Pandora" que entregámos ao PAIGC... (E os guerrilheiros tinham uma caixinha destas, com outros ingredientes)...

Eu, que sempre lidei com fulas, e fiz amigos entre eles, também tive que gerir sentimentos contraditórios, em relação a este povo e aos seus filhos... Sempre fiz uma distinção entre os seus "chefes" tradicionais, de um modo geral aliados das NT, e os seus pobres "súbditos", a grande maioria dos quais eram também  meus/nossos soldados.

Desgraçadamente o aliado dos 'tugas', o nosso Tenente Mamadu,  foi fuzilado em Bambadinca depois da independência, já em 1975: o seu "crime" terá sido apenas o de ter apostado no "cavalo errado" do jogo de xadrez geopolítico que se travava na Guiné... Não sei em que circunstâncias foi julgado, condenado e executado. Talvez o Cherno Sanhá nos possa (e queira) esclarecer melhor este último e trágico episódio da vida do seu pai e nosso camarada de armas.

Quanto às autoridades militares de Bambadinca do meu tempo,  faziam dele quase um mito... Veja-se por exemplo o que se pode ler na história do BART 2917 (1970-72):

(...) "No Sector L1 podemos considerar duas raças (sic) distintas: para Leste da estrada Bambadinca-Xitole onde predomina a raça Fula, e para Oeste da mesma estrada onde predominam as raças Balanta e Beafada.

"A população Fula de um modo geral é nos favorável, sendo de destacar o regulado de Badora, que tem como Chefe / Régulo um homem de valor e considerado pela população como um Deus. Esse homem é o Tenente Mamadu, já conhecido do meio militar pelos seus feitos valorosos e dignos de exemplo. Da outra população, fortes dúvidas se tem, especialmente as dos Nhabijões, Xime e Mero" (...).

Enumera-se depois o seu currículo, apresentado em termos grandiloquentes e laudatórios:

(i) Régulo do Badora; 

(ii) Vogal do conselho logístico da Província; [, ao lado, por exemplo, de outro grande aliado dos portugueses, o régulo manjaco Joaquim Baticã Ferreira]

(iii) Comandante da Companhia de Milícias do Cuor; 

(iv) "Intitulando-se Fula, é considerado pelos Mandingas e Beafadas como Beafada, em virtude da ascendência materna"; [, segundo Beja Santos, devia ser parente dos Soncó do Cuor, "os mais ardorosos guerreiros da Guiné";  em carta ao comandante Avelino Teixeira da Mota, ele escreveu o seguinte: (...) "Quando tiver tempo e paciência, gostava muito que me indicasse literatura sobre este dinamismo da islamização, que foi animada pela presença europeia, pela submissão dos infiéis beafadas e dos fula-pretos animistas. Também no estudo do Carreira descobri que Boncó Sanhá (seguramente familiar do actual tenente Mamadu Sanhá, régulo de Badora) era sobrinho de Infali Soncó. (...)]



(v) "Pelos seus actos de valentia é condecorado com a Cruz de Guerra"; 

(vi) "Régulo justo e especialmente preocupado com a segurança das suas populações"; 

(vii) O seu prestígio parece ir muito "para além dos limites do regulado de Badora"; 

(viii) "É um excelente colaborador das NT, parece representar o movimento dos Fulas Nativos" (...).

Fica aqui o nosso gesto de apreço pela memória de um homem  que foi um importante aliado das NT, na zona leste, e que pagou com a vida essa aliança.  Um abraço para o Cherno Sanhá que ao fim destes anos todos nos vem surpreender com uma foto do seu pai, seguramente rara e indiscutivelmente valiosa para todos aqueles de nós que, em Bambadinca, conheceram o "tenente Mamadu".  LG

4. Nota posterior de L.G.:

Em conversa com o Cherno Baldé (que teve a gentileza de me telefonou de Bissau e aceitou o meu convite para integrar o nosso blogue), soube mais o seguinte acerca de Mamadu Bonco Sanhá: (i) a residência oficial do tenente Mamadu era em Madina Bonco; (ii) muitos dos papéis dele perderam-se, ficaram nas  mãos das mulheres, mas a foto deve ser de 1970 ou por aí; (iii) o Cherno deve ter uns 20 irmãos; (iv) o tenente Mamadu nunca teve "50 mulheres", embora tivesse bastantes como régulo que era, mas algumas delas eram dos irmãos que faleceram antes dele; (v) o Umarau Baldé não era filho do Mamadu Bonco Sanhá: (vi) o Cherno Sanhá, que tem 56 anos, fez a 4ª classe em Bambadinca, foi aluno da profª Dona Violeta, residia em Bambadinca nessa altura, mas tinha nascido em Madina Bonco; (vii) fez o liceu em Bissau;  (viii) formou-se em Cuba, em 1983, em engenharia de telecomunicações; (x) trabalhou na rádio nacional durante uns 3 anos; (xi) andou por Espanha na sequência da guerra civil em 1998/99; (xii) vive hoje em Bissau, e trabalha numa empresa de telecomunicações: (xii) conhece alguns dos nossos grã-tabanqueiros de Bissau: o Pepito, o Patrício Ribeiro, o Cherno Baldé... Aguardo que ele me mande uma foto sua, atual. Aprecio a coragem dele por dar a cara e vir aqui recuperar a memória e a honra do seu pai.
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Guiné 63/74 - P10511: Contraponto (Alberto Branquinho) (46): Banho... de cobra

1. Mensagem do nosso camarada Alberto Branquinho (ex-Alf Mil de Op Esp da CART 1689, , Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), com data de 8 de Outubro de 2012:

Caro Carlos Vinhal
Depois das anunciadas "dentadas" no nosso orçamento destinadas ao outro Orçamento, junto um história onde se fala de uma dentada, que ninguém provou ter, de facto, existido.
Esta história será incluída no livro "CAMBANÇA II".

Com um abraço do
Alberto Branquinho


CONTRAPONTO (46) 

 BANHO… DE COBRA

Ao fim da tarde, o furriel Melo, responsável pelas Transmissões, passou à frente da construção feita, essencialmente, com madeira de caixotes que era designada por “messe de sargentos”. Ao vê-lo passar, com o seu ar levemente efeminado, somente com a toalha presa à cintura e a caixa de plástico com o sabonete dentro, o furriel Adão, sentado num dos pipos cortados a meio, que serviam de cadeira e com uma “basuca” já meia bebida, encarou-o e atirou-lhe:
- Ó caramelo! Vê lá se não gastas a água toda!

O Melo seguiu e não deu resposta. Ia para o duche – um conjunto de dois bidões, assentes em cima de tábuas, a mais ou menos a dois metros do chão, dos quais pendiam cordas – uma para abrir a água, pintada de verde (já debotado) e outra de vermelho, também debotado, para fechar. Por baixo dos bidões havia um cubículo feito de quatro tábuas, sem porta, para dar uma certa intimidade aos banhos.

Àquela hora, em sol poente, havia uma certa obscuridade no interior do cubículo. O pessoal tomava duche com os chinelos calçados para não pisar, descalço, o interior enlameado, devido à dificuldade de escoamento da água.

O Melo aproximou-se da entrada, abriu a pequena caixa plástica que continha o sabonete, encaixou a tampa na parte inferior e segurou-a com a mão esquerda. Retirou a toalha da cintura e, já nu, pendurou-a no prego grande que havia na tábua do lado direito. Mal deu o primeiro passo para o interior e poisou o pé, deu um grande grito de medo e horror e fugiu. Parou a uns metros a olhar, de olhos esbugalhados, a cobra que fugia do espaço dos banhos. Ao dar-se conta de que estava nu num espaço aberto, tapou, com ambas mãos, o pénis e os testículos.

Acorreram alguns soldados, assim como os furriéis que estavam na “messe” próxima. Ainda puderam ver uma cobra grande, com a espessura de um pulso, amarela-esverdeada, que fugia. Foi refugiar-se nos arbustos próximos, espessos, bem regados com as águas de escoamento dos banhos.

O furriel Melo, passados os instantes de espanto, correu para o seu abrigo junto ao Centro de Transmissões, sempre com as mãos protegendo o sexo.

Os soldados correram procurando paus para, cuidadosamente, esquadrinharem os arbustos, tentando localizá-la.

- Mas a cobra era grande?
- Era grande com’ó caraças! Nunca mais acabava de sair de lá de dentro.
- E que é que foi aquele grito?
- Acho que a gaja deu uma dentada na picha ao furriel cripto.
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 2 de Junho de 2012 > Guiné 63/74 - P9983: Contraponto (Alberto Branquinho) (45): Fogo de rajada com... morteiro

Guiné 63/74 - P10510: Em busca de... (206): Camaradas que tenham conhecido o meu pai, Francisco Parreira (1948-2012), ex-1º cabo mec elect auto, Grupo de Artilharia nº 7, Bissau, 1970/72 (Filomena Maria de Sousa Parreira)

Guiné > Bissau > 25 de >Março de 1972 > Cerimónia de despedida da CART 2716 (Xitole, 1970/72), unidade de quadrícula do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72), na presença do Com-Chefe General Spínola.



Foto: © Jorge Silva (2010). Todos os direitos reservados (Com a devida vénia...)

1. Em 5 de Julho passado, a nossa leitora Filomena Parreira fez seguinte comentário ao poste P7857:(...) Caros amigos, sou filha do 3º elemento da fotografia, não fazem referência ao nome mas tenho a certeza que é meu pai... Francisco Parreira, diz-vos alguma coisa?

Meu pai faleceu há pouco e por coincidência procurei na Net pelo nome dele...pois só me lembro dele e apareceu esta foto. Ele esteve em Guiné e nesta altura.... podem por favor enviar mais informação ?!

obg e bem-hajam, Filomena Parreira (...) 


2. O nosso grã-tabanqueiro David Guimarães foi o primeiro a confirmar a não existência de nenhum militar com o nome de Francisco Parreira, em comentário ao mesmo poste:

(...) Amigo Luís e todos aqueles que nos vamos preocupando uns com os outros... Amigos: Eu, David Guimarães Furriel Miliciano, esclareço o seguinte: essa Companhia que em cima (na foto) desfila é a CART 2716 onde em memória não me lembro que tivesse algum elemento com o apelido Parreira.
 
Como a memória não dá para relembrar toda a companhia em nomes, então fui ao livro do Batalhão ver se haveria alguém de que eu me tivesse esquecido e que se chamasse Francisco Parreira. Lamento dizer que se deve tratar de um equívoco (...). Pedia à nossa amiga para efectivamente ver se não se tratará aí de algum sósia de seu pai - o que pode acontecer... 


Um abraço e muito lamento pelo falecimento do Pai da nossa amiga e do pouco que possa ter sido útil... mas uma certeza tenho... Há equívoco... Abraço, David Guimrães (...)


3. No dia seguinte houve uma troca de correspondente entre o David e a Filomena:


(i) Filomena Parreira:

(...) Caros camaradas, obrigada pela atenção. Pode até ser equivoco, mas eu vou jurar que é o meu pai... Então tentarei enviar-vos uma foto dele e informação mais detalhada sobre a prestação dele na guerra, em África, pois ele esteve na Guiné e por esses anos...70/72abraço e obrigado pela força. (...).

(ii) David Guimarães:


Minha amiga, pois estarei atento à fotografia que enviar, no entanto procure saber se seu falecido pai era da CART 2716 e esteve no Xitole. Sabe que nessa data estávamos na Guiné cerca de 35 mil  homens espalhados por tudo quanto é canto da Guiné, ora em Batalhões. em Companhias, em Pelotões e Companhias independentes, mais a Aviação e a Marinha... Qualquer um de nós poderia estar em algum lado...
Querendo, facultarei a página onde constam todos os nomes dos militares que vê aí nesse desfile e onde verificará não constar o nome de Francisco Parreira - falecido e que muito lamento (...).



4. Mais tarde, e procurando a ajudar a  nossa amiga (, dentro daquele princípio da nossa Tabanca Grande segundo o qual "filho/a de um camarada nosso, nosso/a filho/a é"), sugeri à Filomena que fosse consultar a caderneta militar do seu pai... A 26 de julho ela trouxe, até nós, os seguintes elementos e identificação


De: [Filomena] Maria de Sousa [Parreira]
Data: 26 de Julho de 2012 12:15

Assunto: Meu pai, o Parreira

Bom dia caro Luis, já tenho novidades quando à identificação do meu pai, encontrei a caderneta e do que dela consta vejamos:

(i) 
Nome completo: Francisco Manuel de Almeida Parreira;

(ii) Nº matricula: 190543769;

(iii) Função : 1º cabo, curso Mec Elect auto;

(iv) Pertenceu  ao Grupo de Artilharia nº 7 [ O Grupo de Artilharia de Campanha Nº 7 - Grupo de Artilharia Nº 7 ( GAC 7 - GA 7) teve Início em 1Jul70, e foi extinto em 14 de Outubro 1974 ]

(v) Esteve em (ou passou por) as  seguintes unidades; RAP 3 em 1969; EPSM em 1970; RI 2 em 1970; GAC 7 e CICA em 1970; RAL 1 em 1972...

(ii) Embarcou em Lisboa em 18 de setembro 70 com destino ao CTIG;

(ii) Desembarcou em Bissau, em 24 de setembro de 1970;

(iii) Regressou a 8 novembro de 1972:

(iv) Considerado serviço na GUINÉ - 100% desde 24-09-1970 até 6/11/72 ou seja 2 anos e 44 dias.

Posto isto, espero que me ajudem de alguma forma a compreender a vida do meu pai na guerra, por onde ele andou e o que fez…

Pois ele era um homem bastante sociável, mas com uma forma de estar, um temperamento um pouco reservado, calado, resistente e muito teimoso, inclusive até revoltado, vivia no mundo só dele; quanto ao estado de saúde, não aceitava outras opiniões..e bastava ter tido um pouco mais de cuidado que não se ia assim tão de repente.

Eu creio que deve-se também ao facto dos traumas que teve lá fora... Não se relacionava de forma equilibrada o suficiente para aceitar que os outros também tinham razão ...e se preocupavam consigo, principalmente a família. Havia sempre um sentido de forte, homem resistente.

Melhor que ninguém os camaradas podem me falar um pouco desses tempos, uma vez que do meu pai pouco sei... Ele não falava muito desse tempo, nada mesmo, aliás não gostava nada de falar da guerra. Algo me diz que muito há a dizer sobre o que vocês lá viveram e, de alguma forma, consequências e os porquês. Eu leio a história e sei do que se trata, mas quando nos toca aos nossos queremos outras respostas…

Sabe, a família também viveu os fragmentos da guerra.... Do que eu vi, ele tinha estilhaços nos braços pois esteve no meio de uma bomba...

Quanto as fotografias, não me esqueci, estou a tratar de digitalizar, em breve envio, porque muito me custa mexer nas coisas dele…

obrigado pelo vosso apoio e ajuda, bjs, 
Filomena Maria de Sousa Parreira

5. Mais recentemente, a 8 do corrente, a Filomena mandou-nos uma foto do pai [, vd. acima],

(...) Conforme combinado junto envio as fotos do meu pai, que esteve em Guiné em 1970/72.
Ele nasceu em 10/08/48 e faleceu a 27/09/12 [?], tinha 63 anos...

Peço desculpa por só entregar agora, mas isto não tem estao bom, eu tenho estado um pouco em baixo...O verão foi difícil. Faz-me muita falta o meu pai. Obrigado pela força e apoio e desejo que alguns colegas amigos se lembrem dele e me digam histórias e passagens sobre a vida na guerra. (...)
 
PS - Eis umas palavras que li e gostei e fazem-me refletir...é tudo o que sinto... "E chegará o dia em que o pai se cala de vez e aí passamos a compreender tudo aquilo que ele nos disse, tudo aquilo que ele nos quis ensinar. A lágrima rola com o avançar do tempo mas os dias não voltam para trás, nem nós voltámos para trás... talvez a memória, talvez a dor, de certeza a saudade." (desconhecido)

6. Comentário de L. G.: 

Obrigado, Filomena, faz-lhe bem falar do seu pai, num blogue de camaradas de armas. Você está a fazer o luto. Também perdi o meu,  em abril deste ano, já com quase 92. Também estou a fazer o luto. Um pai é sempre  uma perda irreparável. Resta-nos a saudade, a partilha, a memória. Vamos ver se aparece alguém do tempo do seu pai, algum camarada da matrópole ou do GAC 7 (Bissau, 1970/72). Um bj. Luis Graça

PS - Presumo que a data da morte do seu pai esteja errada... Se ele morreu com 63 anos, deve ter sido antes de 10 de agosto de 2012. Não será antes junho ou maio de 2012 ? O seu primeiro comentário é de 5 de julho de 2012. Mas isso, não é relevante. Por outro, diz-me que me  mandou "fotos" (no plural)... Em anexo, só vinha esta, que agora publicamos acima. Deve ter fotos do tempo da Guiné. São mais fáceis de reconhecer por parte dos camaradas do seu pai.
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Nota do editor: 

Último poste da série > 27 de setembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10445: Em busca de... (205): Manuel Moreira de Castro encontrou o camarada Santos, do BENG 447, ao fim de 44 anos

Guiné 63/74 - P10509: Parabéns a você (480): Manuel Resende, ex-Alf Mil da CCAÇ 2585/BCAÇ 2884 (Guiné, 1969/71)

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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 9 de Outubro de 2012 > Guiné 63/74 - P10503: Parabéns a você (479): José Carmino Azevedo, ex-Soldado Condutor Auto da CCS/BCAV 2868 (Guiné, 1964/66)

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Guiné 63/74 - P10508: (Ex)citações (198): O termo “batalha” pela ocupação da mata de Cufar Nalu poderá ser uma “figura de estilo”, à luz dos conceitos da ciência militar (Manuel Lomba)

1. Comentário do nosso camarada Manuel Lomba (ex-Fur Mil da CCAV 703/BCAV 705, Bissau, Cufar e Buruntuma, 1964/66), deixado no dia 6 de Outubro de 2012 no seu Poste de apresentação*: 

Até Dezembro de 1964, as situações de guerra em Cufar foram contas do rosário operacional da BCaç 619, de Catió, da CCaç 6, de Bedanda e das tropas especiais, enviadas de Bissau. Os Comandos Os Fantasmas não tiveram sucesso na sua surtida em finais de Novembro, precedente à intervenção da CCav 703, e os Fuzileiros, que interagiam frequentemente com o BCav 705, os Cavaleiros Marinhos, diziam-nos que era um fuzileiro desertor e atirador especial, de alcunha G3 quem lhes embargava a penetração na mata de Cufar Nalu.

A primeira surtida da CCav 703 à mata de Cufar Nalu ocorreu em 19 e 20 de Dezembro de 1964, em interação com aquela unidade e sub-unidade de quadrícula e fomos três vezes repelidos, não obstante a simultaneidade da acção dos Paraquedistas e os bombardeamentos da aviação mais a Sul, na área de Cafine, etc, a condicionar Nino Vieira ao envio de reforços, acoitados em Quitafine. O capitão Fernando Lacerda estava de licença e não comandou essa operação. Será o comandante da ocupação das ruínas da fábrica de descasque de arroz, a quinta de Cufar e a nomadização da CCav 703, entre Janeiro e Março de 1965 - Operação Campo.

No contexto do longo e exaustivo período dessa nomadização, além da nossas acções de batidas, emboscadas, etc, o Comando-chefe (General Schulz) desencadeou as operações Alicate I, II, III e Ursa, em conjunto com as mesmas tropas de quadrícula e/ou especiais, sem surtidas ao coração da mata de Cufar Nalu. O assalto e o desmantelamento de Cufar Nalu foram executados pela Operação Razia em Maio de 1965, tendo a CCaç 763 como força nuclear, com a participação do BCaç 619 e da CCav 703, vinda de Bissau, enquanto os Paraquedistas manobravam sobre o Cantanhês e os Fuzileiros a partir das margens do Cumbijã.

Cufar Nalu constituía um refúgio- base paigcista, dotado de armamento terra-terra e terra-ar, protegido pelo ânimo dos seus combatentes, pelo grande porte do arvoredo e com abrigos cavados, que me calhou contactar, em Dezembro de 1964; a CCav 703 e, depois, a CCaç 763 nomadizaram, entrincheiradas, com armamento terra-terra e terra-ar, durante 10 meses, na quinta de Cufar. Ao fim e ao cabo de quase 18 meses a dar batalha recíproca, o ferro e fogo nosso e os cães de guerra da CCaç 763 forçaram as já então FARP a retirar da mata de Cufar Nalu.

Houve mortos e feridos, longe da dimensão das carnificinas das batalhas das guerras clássicas, que faziam a glória dos seus altos comandos. O termo “batalha” pela ocupação da mata de Cufar Nalu poderá ser uma “figura de estilo”, à luz dos conceitos da ciência militar; mas a semelhança não será coincidência, salvo erro ou omissão.

Cerca de um milhão de portugueses cumpriram o seu dever, em “tributo de sangue”, nela e por ela. Dos incorporados e ou mobilizados, apenas cerca de 2 mil tomaram a opção de desertar. Dos recenseados, os refractários serão mais de 100 mil; mas só em Paris haveria cerca de 80 mil - a maioria familiares das vagas da emigração clandestina. Eloquência dos números, quando cotejados com as estatísticas de outras guerras. Os veteranos não poderão deixar as narrativas da história da guerra do Ultramar aos seus construtores, presente e ou tendenciosos.
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 17 de Setembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10396: Tabanca Grande (361): Manuel Luís Lomba, ex-Fur Mil da CCAV 703/BCAV 705 (Bissau, Cufar e Buruntuma, 1964/66)

Vd. último poste da série de 3 de Outubro de 2012 > Guiné 63/74 - P10476: (Ex)citações (197): Carta aberta a Tony Borié (Belmiro Tavares)

Guiné 63/74 - P10507: Antropologia (21): "Molleh" ou corrida de sal, como meio de prevenção da saúde reprodutiva do gado bovino (Cherno Baldé)

1. Mensagem do nosso amigo tertuliano Cherno Baldé, com data de 3 de Outubro de 2012 com mais um dos seus textos que nos dão a conhecer os usos e costumes dos povos do seu continente, África:

Caros amigos Carlos e Luis Graça,
Junto envio mais um texto,e desta vez, para variar, sobre uma pratica cultural muito antiga dos Fulas que, provavelmente, muito poucos "Tugas" terão tido oportunidade de conhecer ou apreciar in loco.
Esta festa ainda continua a ser celebrada no meio pastoril, mas um pouco ofuscada pela grandiloquência das celebrações religiosas que dominam o meio social e cultural dos muçulmanos.
Como sempre, publiquem se apresentar interesse, caso contrario, também, não haverá lugar para ressentimentos.

Um grande abraço,
Cherno Baldé


MOLLЁH

Todos os anos, no Sahel africano (Agadés) costuma-se realizar o encontro de criadores de gado para celebrar uma prática ancestral que, em Francês, se convencionou chamar de “course salée”, corrida de sal (em português), que reúne todos os povos da região desde Tuaregs, Djermas, Fulbhé Bororos, Aussas e muitos outros.

Os Fulbhé (Peul, Fulani ou Fulas) sobre os quais vamos falar aqui, formam um grupo extenso e heteróclito com mais de vinte milhões de almas, espalhadas entre os diferentes países da região ocidental, central e oriental d’Africa, mas quando se pergunta a um velho Fulani quantos são, na realidade, a resposta pode surpreender pela sua simplicidade e originalidade filosófica, pois ele dirá que há somente dois Fulbhé: um, que herdou e celebra a festa de molléh e o outro, o que não conhece o significado de molléh e, por conseguinte, não sabe como se bebe o cabaz do leite fresco, ainda quente, acabado de ordenhar. Ao primeiro, ele dá o nome de Pullö (singular de Fulbhé), o ser, o que é, e o segundo seria o Al-Pullar (o que fala a língua fulani).

O Molléh encerra um conceito de difícil tradução em outras línguas enquanto actividade original e única da cultura tradicional dos povos pastores. Eu, pelo menos, não tenho conhecimento que tenha sido feita a sua descrição por investigadores ou africanistas que pululavam pelo continente, mas encontra-se no centro da cultura dos povos de Sahel como um dos mais antigos e eficazes meios de prevenção da saúde reprodutiva do gado bovino e logo, da sua própria sobrevivência como comunidades económicas. No essencial, molléh ou corrida de sal, podia definir-se como o processo através do qual os criadores reforçam o organismo dos animais com suplementos essenciais, tirados da natureza em forma de folhas, cascas e raízes de plantas, misturadas com sal iodado. No fundo é isso, mas ao longo dos séculos, essa prática vital, estendeu-se para outros domínios da vida dos povos nómadas, adquirindo uma dimensão socioeconómica e cultural de primeira grandeza. Antigamente, quando eram obrigados a deslocar-se permanentemente e em grupos restritos, os breves momentos de realização dos molléh eram propícios para a reunião das famílias dispersas em grandes extensões territoriais para a renovação de laços e alianças tribais e a definição de novas zonas de pasto. Assim, pela sua importância, a indicação da data e do local da sua realização era rodeada de uma auréola mística tão grande quanto à marcação da data de fanado entre os povos do litoral, de culto animista, cuja realização, não raras vezes, demora por períodos de dez e mais anos (caso dos Felupes). É daí que nasce a metáfora popular entre os fulas segundo a qual, se as vozes da concessão entoam o canto do molléh é porque os mais velhos já tinham fixado a data da sua realização, dito por outras palavras, quando as crianças praticam uma acção que ultrapassa as suas competências é porque contam com o beneplácito dos mais velhos.

Os preparativos da realização do molléh, começam na véspera do dia marcado, com a operação da colecta das folhas, raízes e partes epidérmicas de plantas, conhecidas só dos mais velhos. Mas, os primeiros sinais da festa começam mesmo quando as mulheres, encarregadas de pilar (esmagar) os materiais orgânicos se organizam em grupos de idades e enchem o ar com o barulho ritmado dos “pilons”, entoando canções coloridas com cenas triviais de amor, ciúme e traição da malta jovem, no quotidiano da vida nas aldeias improvisadas ao longo dos trilhos da caminhada sem fim, em direcção ao sol poente.

Os mais velhos partem de manhã cedo à procura do local da celebração, atentos aos possíveis sinais premonitórios, no seu trajecto, que deverão contribuir para a decisão final. Na tabanca, por volta da meia-noite, já só ficaram os mais novos em especial as raparigas solteiras com os braços cansados e gargalhadas sonoras que se encarregarão de finalizar e entregar o produto que servirá para a preparação da beberagem milagrosa já com as tonalidades vermelhas da cor das árvores donde foram extraídas as cascas.

O molléh é uma festa total, partilhada por todos, da mesma forma que o gado é, antes de mais, uma propriedade conjunta onde todos e cada um, a semelhança de uma bolsa de acções nas sociedades modernas, detém a sua quota-parte, o activo bruto ou capital de reserva para fazer face aos imponderáveis da vida. A criança quando nasce já tem aberta uma conta poupança (cornuda?), a mulher quando se casa leva, consigo, o seu dote para alicerçar a sua futura casa e o mais velho quando deixa este mundo precisa da carne e do sangue do animal para alegrar a partida na longa caminhada até a sua ultima e eterna morada. Tudo tem sentido num mundo que se encontra em equilíbrio perfeito. Branco, azul, castanho, vermelho e preto são as cores dos animais e da bandeira Fulani, cada grupo totémico com suas cores de herança de acordo com principios predeterminados na origem. A nossa família, por exemplo, assim como a maior parte dos Fulas da zona da Guiné e da Casamança, estava ligada aos animais de cor branca e, de preferência, sem manchas ou chifres retorcidos. Os velhos regressam ao anoitecer para anunciar a boa nova com grande pompa, cabeças e corpos cobertos com folhas jovens de ramos de palmeira, gritando: Amanhã é molléééh!... Amanhã é molléééh!... Amanha haverá comida e leite em abundância, a vida dos animais será assegurada e a riqueza da comunidade multiplicada.

O local da celebração, situado na cabeça de uma bolanha é agora o epicentro das atenções, mas ainda nem tudo esta pronto, é preciso cortar os arbustos, deslocar os pequenos montículos de bagabagas, escavar sulcos na terra em forma de um cabaz grande, proteger o fundo com produtos impermeáveis para evitar a infiltração d’água, deitar a farinha de cor vermelha, composto de raízes e cascas de árvores, juntar o sal iodado na mistura aquosa assim obtida e mexer com as mãos, transformando tudo numa massa pastosa e salgadinha que os animais irão sorver com o prazer único de um acto que se realiza uma vez no periodo de mais de um ano. No centro de um espaço igual ao de um campo de futebol, com dezenas de sulcos no solo, encontra-se o cabaz da sorte e da vitória, aquele que vai ditar a escolha da vaca do ano.

Ainda os preparativos no local não terminaram e eis que a equipa de estafetas voluntários que vai conduzir os animais, está de partida, dela farão parte os melhores atletas. Saúde, inteligência, vigor e rapidez serão os atributos de base para a sua composição. Momento crucial na vida dos jovens pastores e candidatos, uma grande oportunidade para a revelação de dotes e capacidades, mas que não esta isenta de perigos. Os velhos estão atentos e não hesitam em refrear ânimos exaltados. Os membros da equipa, sem desconfiar que já são portadores da notícia através dos cheiros que transportam na roupa e no suor dos corpos aquecidos pelo calor e pela ansiedade do momento, vão retirar as amarras dos animais, dar sinal de partida e orientar a corrida, num percurso de 3 a 5 quilómetros, até ao local do molléh.

- Góóh Saraél-âmen, góh!... Góóh Daneél-bêssel, góh!... Góóh, Siraél-kumáh, góh!... [1]

De início e durante os primeiros quilómetros a corrida é pausada, os animais estão desorientados e entrechocam-se gravitando a volta dos homens-guias, cabeças erguidas, farejando no ar. O momento exige alguma agilidade e concentração e, sobretudo, é preciso posicionar-se para a recta final.

A partir dos últimos quilómetros, com a ajuda do vento e do seu portentoso faro, os animais já localizaram o local e agora é cada um por si, a corrida é desenfreada em direcção ao molléh, é o momento de todos os perigos. Do local da celebração também já gritam o “góóh!...góóh!”, agora é preciso correr… correr, trata-se de uma competição, não se pode fraquejar, os mais fortes serão glorificados, os fracos podem ser esmagados pela fúria de uma ou duas centenas de animais sedentos de sal e endiabrados pelo chamamento do molléh. A distância é cada vez menor e eis que no recinto entram as primeiras vacas. As crianças estão empoleiradas em cima das árvores e soltam gritos animados.

No grupo da frente estão as meninas, quão gazelas voando ao vento, deve ser a primeira vez que participam no molléh e, por inexperiência, passam ao largo sem saber o que fazer, são seguidas de perto pelos rapazes (machos) e por fim o resto da manada.

Mas, dentre a equipa dos voluntários os resultados são surpreendentes, antes da chegada dos animais, pelo menos dois ou três deles já se encontravam no recinto, a espera de felicitar a vaca do ano, munidos de ramos de palmeiras e, os primeiros a chegar ao local são sempre os mais velhos. A primeira vista, torna-se difícil perceber como é que homens tão frágeis, no auge da idade, embrulhados nos seus amplos vestidos brancos, agora cinzentos pela acção do tempo e do uso, conseguem realizar tamanha proeza no meio de um matagal de árvores e arbustos, desafiando a força e o brio dos mais novos. No fim, a festa é de todos, haverá comida (sem carne), farinha de milho, leite e muita alegria a mistura.

No caso dos animais, como já se viu, chegar primeiro ao molléh não é sinónimo de vitória na corrida e, quase sempre, são aqueles que chegaram em último lugar os que vão por a boca no cabaz que dá direito a vitória. Compreenda quem puder. E a vaca do ano é, invariavelmente, uma vaca mãe já experiente, com as tetas cheias que serão ordenhadas no local e cujo leite será, primeiro, absorvido pelos guias, vencedores da corrida, num cabaz especialmente preparado para o efeito, de joelhos e com os rostos virados para o sol nascente, donde os seus antepassados saíram um dia, para procurar novas pastagens e enfrentar a marcha rumo ao ocidente desconhecido. Assim, Molléh deve ser visto como uma tradição que os Fulas trouxeram da costa leste donde saíram há muitos séculos atrás e cuja prática os seus irmãos das montanhas da Etiópia, das planícies do imenso Sudão ou das colinas do Ruanda até Quénia, esqueléticos, longilíneos e incansáveis, souberam conservar e valorizar, transformando-se simplesmente nos melhores atletas d´África e do mundo.

Em Fajonquito, lembro-me de o meu pai ter convidado o seu amigo branco Tintim, um Cabo da companhia metropolitana estacionada em Fajonquito por volta de 1969/70. Ele assistira e observara de longe toda a encenação sem interferir. Em contrapartida, no fim, parecia ter gostado do jogo de hóquei no capim, com golpes de pau em frutos secos e redondos servindo de bola de arremesso. Esta modalidade depois foi abandonada, porque quando se falhava a bola, muitas vezes, acertava-se nas pernas dos adversários.

Nota: 1- Corre pequeno Saráh, corre!...Corre branquinha linda, corre!...Corre Siráh, filha de Kumba, corre!... (pelos vistos trata-se de uma formula onomatopeica para incitação e encorajamento dos animais durante a corrida da celebração do molléh.
Era frequente e normal, na altura, atribuir aos animais nomes dos seus proprietários. De notar que antes da islamização, os fulas tinham nomes próprios que identificavam os seus laços de parentesco e a posição de cada um na hierarquia e ordem sequencial do nascimento dos filhos.
Na linha masculina eram: Saráh, Samba, Demba, Patê, Dulô etc. e na linha feminina: Siráh, Takôh, Djabú, Kumba, Ainéh. Verifica-se claramente a predominância de nomes bissílabos.

Bissau, 27 de Setembro de 2012.
Cherno Abdulai Baldé
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Vd. último poste da série de 9 de Outubro de 2012 > Guiné 63/74 - P10505: Antropologia (20): Funeral Fula / Funeral Islâmico (Luís Borrega / Luís Encarnação)

Guiné 63/74 - P10506: Agenda cultural (221): A 4.ª e última série do documentário "A Guerra" começa a ser exibida amanhã dia 10 de Outubro, pelas 22h40

1. Mensagem de Eva Verdú, da Direcção de Meios de Produção da RTP, enviada ao nosso Blogue no dia 9 de Outubro de 2012

Assunto: Documentário "A Guerra"

Boa tarde, 
Informo que a 4ª e última série do documentário “A Guerra” começará a ser exibida amanhã dia 10 de outubro pelas 22:40H. Serão 17 episódios que vão incidir sobre o período que antecede o 25 de abril de 1974.

Com os melhores cumprimentos, 
Eva Verdú 
Direção de Meios de Produção


SINOPSE*

O período que antecede o 25 de Abril de 1974, caracterizando a situação política geral e o quadro militar em cada uma das colónias

A série documental "A Guerra" regressa agora com os seus últimos episódios. Serão 13 programas que vão incidir sobre o período que antecede o 25 de abril de 1974, caracterizando a situação política geral e o quadro militar em cada uma das colónias. Na Guiné, de destacar o período marcado pela morte de Amílcar Cabral e o subsequente recrudescimento do conflito.

Recebendo novos meios, como os mísseis terra-ar "Strela", o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) condiciona a manobra portuguesa. Isola e ataca quartéis como Guidage e Gadamael e obriga ao abandono de Guileje. Em conflito com Marcello Caetano, o general Spínola deixa o território, defendendo uma solução política para a guerra, enquanto em Moçambique é o Presidente do Conselho (Marcelo Caetano) que recusa ao general Kaulza de Arriaga a continuação da sua liderança militar.

A situação em Moçambique agravara-se após a Operação Nó Górdio. A FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) avançara para as regiões de Tete, de Manica e Sofala, enquanto as notícias de massacres como Mucumbura, Wiriyamu e Inhaminga - divulgadas sobretudo por padres e missionários - iriam desgastar fortemente a imagem política do regime.

Em Angola, as Forças Armadas controlavam a situação após terem neutralizado militarmente a FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola) e também o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), entretanto afetado por fortes dissensões internas. Após ter cooperado com os portugueses na luta contra aqueles movimentos, a UNITA volta a ser encarada como inimigo e executa a sua mais mortífera ação.

Se em Angola o quadro militar era favorável à tropa portuguesa, em Moçambique os europeus revoltavam-se perante ações da FRELIMO que punham em causa a sua segurança e a imagem das Forças Armadas. Ao mesmo tempo, na Guiné o PAIGC declarava unilateralmente a independência, enquanto os militares portugueses divergiam sobre se a guerra estava ou não perdida.

Bastante isolado internacionalmente, em confronto interno com alguns aliados iniciais e paralisado perante o impasse da guerra, o governo de Marcelo Caetano não cabia já na solução que, entretanto, os militares tinham começado a preparar. É todo este período, com os seus inúmeros factos e acontecimentos políticos e militares, muitos deles desconhecidos, que será apresentado nos novos episódios a exibir.

(*) Retirado do site da RTP, com a devida vénia.
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 7 de Outubro de 2012 > Guiné 63/74 - P10493: Agenda cultural (220): Apresentação do livro "Alpoim Calvão Honra e Dever", dia 11 de Outubro, pelas 18h30, na Sociedade de Geografia em Lisboa

Guiné 63/74 - P10505: Antropologia (20): Funeral Fula / Funeral Islâmico (Luís Borrega / Luís Encarnação)

1. Texto enviado a 8 do corrente pelo Luís Borrega [, foto atual. à direita,] a quem no próprio dia dos anos, a 27 de setembro,  fiz um pedido de comentário ás fotos do Armindo Batata, uma sequência fotográfica de um funeral fula:

"Tu que conviveste com os fulas, como eu, e tens inclusive um pequeno dicionário fula-português (*), é possível que tenhas assistido a algum funeral... Lembras-te como eram celebradas as cerimónias fúnebres entre os fulas, islamizados ? Mais do que um funeral fula, deve tratar-se de um funeral muçulmano... Ou não ? Só assisti a um funeral, e foi de um soldado nosso, da CCAÇ 12... Levámo-lo à sua aldeia numa urna de madeira, e prestámos-lhe honras militares... Não me lembro de ter assistido à descida do corpo à terra... Foi no regulado do Cossé, a 8 ou 9 de setembro de 1969... Ele morreu a 7. Não sei se a urna ia chumbada".


2. Funeral fula / funeral islâmico

por Luís Borrega / Luís Encarnação


[Foto à esquerda, de Armindo Batata]

Foi-me solicitado, pelo nosso Tabanqueiro-Mor Luís Graça, informações sobre os procedimentos referentes a um Funeral Fula, em virtude de eu ter convivido bastante com esta etnia, na minha permanência no Leste da Guiné (Pitche).

Acontece que,  como não tenho conhecimentos sobre a totalidade dos procedimentos de um Funeral Fula , contactei o Fur Mil.Cav  MA Luís Encarnação, meu Camarada e Amigo desde os tempos da EPC (Santarém) e que me acompanhou sempre no percurso Militar, Curso de Minas e Armadilhas na EPE (Tancos), RC 3 em Estremoz para formar o BCav 2922 que foi para o CTIG.

O BCav 2922 foi colocado em Pitche, assim como a minha CCav 2749, e o Luís Encarnação foi colocado na CCav 2748 que ficou sediada em Canquelifá. Só nos víamos quando o meu Gr Comb  estava a fazer a escolta às colunas para Canquelifá. Aí, ele viveu mais a vida da população na tabanca e elucidou-me sobre os funerais fulas, que mais adiante passo a narrar.

Quando estive colocado no Destacamento de Cambor, no itinerário Pitche-Canquelifá, tive um enorme contacto com a população fula da tabanca. Como estava a exercer a "vaguemestria" no Destacamento , tinha a oportunidade de fazer o que queria neste campo. A nossa Padaria (o forno era um baga baga adaptado) confeccionava um pão para cada elemento da Guarnição. Dei ordem para se cozer mais cinco ou seis pães para distribuir pelos Homens Grandes de Cambor [, a nordeste de Piche].

Todos mandavam diariamente alguém buscá-los, à excepção do Cherno Al Hadj Mamangari Djaló, que era o Chefe religioso do "Centro Fixo de Difusão" do Islamismo de Cambor, com real influência religiosa em toda a região do Gabu, mesmo além fronteiras. [O título Al Hadj é dado ao crente que já foi a Meca].

Diariamente eu tomava a missão de entregar em mão própria o pão a este Homem Grande. Ficávamos horas a fio a conversar, umas vezes sós, outras acompanhados pelos Homens Grandes, nessa altura punhamo-nos todos de cócoras em circulo debaixo do mangueiro existente à porta da "morança" do Al Hadj. Eu também tinha aulas de árabe. Ainda hoje tenho o livro de ensino da Língua Árabe (ofertado). Éramos Amigos...

Mais tarde por incompatibilidade de feitios com o Alf Mil Cav Jorge Malvar, pedi ao Capitão Cav João Luís Pissarra a minha tranferência por troca com o Fur Mil Cav Belard da Fonseca. Fui para o 3º Gr Comb /CCav 2749 comandado pelo Alf Mil Cav José Belchiorinho. Os tempos livres começaram a escassear, e portanto as idas à Tabanca foram mais espaçadas, devido à carga operacional,a que estávamos sujeitos em Pitche.

Na véspera de eu partir para Pitche, fui-me despedir do Al Hadj Mamangari Djaló. Ambos estávamos emocionados, com os olhos "embaciados ", disse para eu esperar, entrou na sua "morança " , trouxe o seu Alcorão que tinha levado na sua peregrinação a Meca e um terço árabe e deu-mos. Depois tirou o seu barretinho (sabiá) branco e ofereceu-mo também e disse:
- Furiel Boriga , durante a tua vida ouve sempre o teu coração.

Abraçámo-nos , virei costas com as lágrimas a rolar pela cara... e ainda hoje guardo uma grata recordação deste Homem Bom. E os objectos que ele me ofertou, dão-me um enorme, mas enorme prazer possuí-los...

Quando havia funerais ( em Cambor, enquanto lá estive não houve nenhum), pelo pitoresco das cerimónias ía até à " morança "do morto(a) e assistia. O funeral propriamente dito no Cemitério, nunca vi.

Quando se dava o óbito, o viúvo(a) mandava abater vacas, ovelhas ou cabras, conforme o seu grau de riqueza, para fazer o Choro,  obsequiando os Familiares e Amigos com comida, pois para eles,  Islâmicos, a " verdadeira vida começava após a morte". Havia Ronco com batuque e depois havia os procedimentos abaixo indicados, conforme a informação do Luís Encarnação.

(i) Cavavam um buraco do comprimento do falecido e com a largura de +/- 60 cms;

(ii) O corpo era envolvido num pano branco;

(iii) O corpo era disposto deitado no buraco ( desconhece-se a posição em que ficava);

(iv) A sepultura tem nos topos e a meio de cada lado uma espécie de degrau;

(v) Um tronco com mais ou menos 15 cms de diâmetro é colocado a meio, encaixado nas concavidades;

(vi) Uma estaca feita de um ramo de uma árvore da Mata Sagrada, é pregada no canto superior, a prender a ponta do lençol do lado da cabeça;

(vii) Em todo o comprimento da sepultura são colocados ramos (fortes), a preencher toda a largura do buraco;

(viii) (Toda a folhagem dos ramos utilizados é colocada em cima , de maneira a fazer um tapete:

(ix) Depois leva a terra em cima (tirada do buraco);

(x) Só tem este ritual , todo o Mulçumano que respeite a Religião ( não pode ter comido carne de porco (combaro) ou beber álcool).

CONCLUSÃO : Se ele não estiver morto, tem ar suficiente e pode abrir a tampa...

Espero que tenham ficado elucidados, como se fazia os Funerais Fulas/Funerais Islâmicos.

3. Comentário de L.G.

Obrigado aos dois. Djarama! Peço ao 1º Luís (Borrega) que traga o 2º (Encarnação) até à nossa Tabanca Grande. Para que ele se possa também sentar no bentém à sombra do nosso mágico, secular, grandiosos, simbólico, fraterno poilão!

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Notas do editor:

(*) Vd. postes de:
24 de Janeiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3785: Dicionário fula / português (Luís Borrega) (1): Nafinda, nháluda, naquirda... Bom dia, boa tarde, boa noite...

24 de Janeiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3786: Dicionário fula / português (Luís Borrega) (2): Gô, Didi, Tati, Nai, Joi.../ Um, Dois, Três, Quatro, Cinco...

26 de Janeiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3798: Dicionário fula / português (Luís Borrega) (3): Jungo, neuréjungo, ondo... / Braço, mão, dedo, ...

1 de Fevereiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3827: Dicionário fula / português (Luís Borrega) (4): Nhamo, nano... / Direita, esquerda...


14 e fevereiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3889: Dicionário fula / português (Luís Borrega) (5): Jubi, ala poren, iauliredu... / Miúdo, avião, tem medo...

Comentário de L.G.:

(...) Obrigado, Luís Borrega, camarada e amigo! O teu esforço por tentar comprender o outro (neste caso, os fulas, que eram e são um dos principais grupos étnico-línguísticos da Guiné-Bissau) é, só por si, um gesto de grande abertura de espírito, de recusa do etnocentrismo, e sobretudo de ternura. Bem hajas! 

Espero que a tua recolha (que não obviamente não tem a pretensão de ser um dicionário...) possa ser útil a muita gente, os nossos camaradas que voltam à Guiné em 'turismo de saudade', os nossos antigos camaradas fulas que vivem em Portugal, os seus filhos e netos, nascidos em Portugal (que estão em idade escolar, e que já não sabem ao idioma dos seus pais e avós)... 

Todos os idiomas do mundo fazem parte da riquíssima diversidade cutural da humanidade, diversidade que devemos conhecer, apreciar, manter e preversar... Por que só há uma terra, só há um raça (humana) (...) 

(**) Último poste da série > 19 de julho de 2010 > Guiné 63/74 - P6762: Antropologia (19): Os muçulmanos face ao poder colonial português e ao PAIGC (Eduardo Costa Dias)

Guiné 63/74 - P10504: Do Ninho D'Águia até África (16): As notícias (Tony Borié)



1. Continuação da narrativa "Do Ninho de D'Águia até África", de autoria do nosso camarada Tony Borié (ex-1.º Cabo Operador Cripto do Cmd Agru 16, Mansoa, 1964/66), iniciada no Poste P10177.


Do Ninho D'Águia até África (16)

As Notícias

Quarta-feira, é dia de correio. Vem a avioneta, que por vezes nem aterra, passa rasteiro e larga os sacos, no que os militares chamam o campo de aviação, que é a tal área plana que existe ao norte da dita aldeia com casas cobertas de colmo.

O piloto costuma ser o “Pardal”, foi assim que o baptizaram, pois costuma fazer umas habilidades antes de largar os sacos do correio, como por exemplo, dá uma volta rasteira ao aquartelamento, de lado, a rasar a enorme árvore, a que chamam a “Mangueira do Setubal”, que existe dentro do aquartelamento, fazendo os macacos e piriquitos fazerem um barulho fora do normal.

O “Pardal”, sabia isso.

Uma secção de combate vai buscar os sacos, que traz para o aquartelamento, onde já todo o pessoal espera pela distribuição. Alguns, com uma dúzia de madrinhas de guerra, recebem um monte de cartas, com fotografias e tudo. Outros, nem uma carta, mas não ficam tristes, vão direitos à cantina e abafam a amargura numas garrafas de cerveja ou numas canecas do café, cheias de vinho.

O Cifra recebeu quatro cartas e três aerogramas, chamaram o seu nome sete vezes. Alguns colegas assobiaram, e como o Cifra se ria, alguns fizeram-lhe um gesto erótico com o dedo da mão direita. Mas adiante, pois de outras vezes, e em situação oposta, o Cifra fazia o mesmo.

Uma dessas cartas, era dos seus pais.

A mãe Joana começava por dizer que tinha pedido à menina Teresa, que era uma vizinha, costureira e solteira, de quase sessenta anos que por saber ler e escrever, entre outras coisas era a conselheira da família, e o Cifra até se lembra de uma vez, a menina Teresa aparecer muito aflita em casa de seus pais pela manhã, dizendo com a voz embargada pela angústia:
- Joana, hoje é um dia de luto, arranja alguma roupa de cor preta e veste, pois morreu o Marechal Óscar Carmona e a mãe Pátria está de luto, estamos todos de luto, anda vai mudar de roupa, mulher de Deus!.

[Foto à esquerda, o marechal Óscar Carmona, 11º presidente da República Portuguesa, entre 1926 e 1951, imagem do domínio público, cortesia da Wikipédia].

Ao que a mãe Joana, muito admirada, nesse momento limpando as mãos ao avental, já muito sujo e roto, pois tinha acabado de regressar do curral dos porcos, onde tinha deitado na pia, um balde com alguns restos de comida, que tinham sobrado do dia anterior, lhe responde:
- Oh meu Deus, deve ser alguém conhecido dos primos de Lisboa, pois não me recordo de ninguém na família com esse nome!

E o Cifra, que nessa altura se chamava Tó d’Agar, ficou radiante, pois a menina Teresa, mais à frente dizia que nesse dia não havia escola, por o País estar de luto, para chorar a morte do presidente.

Mas adiante, vamos continuar com a história. A mãe Joana contava na carta que tem andado um pouco sem cabeça para notar a carta, mas hoje estava melhor, e dizia, que o irmão mais velho, quer casar com uma rapariga para os lados do rio Vouga, e não pára em casa, anda sempre fugido. O irmão do meio, que sempre foi um aventureiro, quando o Cifra era criança, lembra-se que esse irmão andava sempre vestido com alguns farrapos, que colocava no corpo, parecendo tal e qual o “Robin dos Bosques”, e com uma habilidade espantosa no manejo de um arco, feito por ele, acertava com uma flecha, feita de pau, nas galinhas, no cão, nas ovelhas, nas cabras e nos porcos.

O Cifra recorda-se do irmão, tal e qual ele via nos desenhos dos livros de quadradinhos que o Carlos, filho do Santos dos correios, que tinha vindo dos lados de Leiria, que sempre lhe trazia, com um lápis de cor vermelha ou azul, que o pai geralmente usava nos correios, e não só, pois também fazia a revisão e censura do jornal da vila, que o senhor Macieira, compunha letra por letra na travessa da venda da Tia Zinia, tudo isto a troco de uma simples conta de multiplicar, em que o Cifra, naquela altura, To d’Agar, lhe resolvia, em dois minutos na lousa de pedra, com um riscador também de pedra. Mas não tirando o fio à meada, esse irmão, está com a mania de ir para Lisboa, ter com os primos.

Dizia também, que o pai estava muito resmungão, mas era a sua companhia. A quinta estava muito mal tratada, já tem algumas silvas nas terras altas. Explica ainda que na semana que passou, foram à vila buscar o dinheiro. (Dinheiro este que recebem do governo, que diziam, metade era pago pelo governo, que o mandou para aquela província, e outra metade era pago por uma multinacional de nome parecido com “Marconi”, o Cifra, nunca soube, mas o dinheiro que os pais do Cifra iam receber, é parte do salário militar do Cifra, por se encontrar em cumprimento de serviço numa província do ultramar).

Dizia também que no local onde foi receber o dinheiro, lhe deram café com leite e pão com manteiga, e que um senhor que parecia militar, lhe explicou que o seu filho já não era seu filho, mas sim filho da Pátria, ou coisa parecida, e que estava pronto a morrer para salvar essa Pátria, que era a sua verdadeira mãe, ao que ela começou logo a chorar, e sempre chorava quando lhe vinha isto à lembrança, pois tinha sido ela que o trouxe na barriga por nove meses e dois dias, e foi a sua mãe, avó do Cifra, que naquela altura se chamava Tó d’Agar, que a ajudou a trazê-lo ao mundo, que lhe deu de mamar, que o criou, e agora vem o maldito do militar dizer que não é seu filho, que o “diabo o arrenegue para o meio do inferno”, e que pedia a todos os Santos, mais à Nossa Senhora de Fátima, para que ao receber esta carta, ainda estivesse vivo, aliás, a partir desse momento, todas as cartas que recebia da mãe, começavam sempre com a frase, “Oxalá que ainda estejas vivo”.

E continuava dizendo na carta que esse dinheiro lhe tem dado algum jeito, a ela e ao seu pai. Cada um tem um par de tamancos novos, e o pai tem umas botas de borracha, a que chamam “galochas”, agora anda sempre com os pés secos. Comprou cobertores novos, o seu pai e ela andam mais bem calçados. Os vizinhos perguntam por ele e mandam recomendações. Na vila tinha visto algumas pessoas do grupo folclórico, que lhe perguntaram se ele estava vivo, pois tinham visto na televisão umas notícias da Guiné, onde morreram muitos militares, que a guerra aí era feia, mandavam saudações e que esperavam por ele. Pronto, ia acabar, que recebesse a sua benção, e finalizava com a frase, “que Deus te proteja”.

As outras cartas eram dos primos de Lisboa e das madrinhas de guerra, pois neste momento, escreve-se com uma brasileira, duas espanholas e duas portuguesas, uma das quais viria a ser a sua companheira para o resto da vida.
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Notas de CV:

Foto de Manuel Traquina, editada por CV

Vd. último poste da série de 6 de Outubro de 2012 > Guiné 63/74 - P10488: Do Ninho D'Águia até África (15): O "Caneta" (Tony Borié)

Guiné 63/74 - P10503: Parabéns a você (479): José Carmino Azevedo, ex-Soldado Condutor Auto da CCS/BCAV 2868 (Guiné, 1964/66)

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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 7 de Outubro de 2012 > Guiné 63/74 - P10491: Parabéns a você (478): Jorge Rosales, ex-Alf Mil da 1.ª CCAÇ (Guiné, 1964/66)

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Guiné 63/74 - P10502: Convívios (477): 13.º Encontro do pessoal da CCS/BCAÇ 3852, dia 27 de Outubro de 2012 em Vila do Conde (Manuel Carmelita)

1. Em mensagem do dia 8 de Outubro de 2012, o nosso camarada Manuel Carmelita (ex-Fur Mil Mecânico Radiomontador da CCS/BCAÇ 3852, Aldeia Formosa, 1971/73), solicita a divulgação do:

13.º CONVÍVIO DA CCS/BCAÇ 3852 QUE COMEMORARÁ O 39.º ANIVERSÁRIO DO SEU REGRESSO À METRÓPOLE

VILA DO CONDE - DIA 27 DE OUTUBRO DE 2012

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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 6 de Outubro de 2012 > Guiné 63/74 - P10489: Convívios (476): 4.º Convívio anual dos ex-Combatentes do Ultramar do Concelho de Gondomar, ocorrido no passado dia 29 de Setembro de 2012 em Valbom (Jorge Teixeira - Portojo)

Guiné 63/74 - P10501: Os nossos camaradas guineenses (35): O Dandi, manjaco, natural de Jol, que eu conheci... (Manuel Resende / Augusto Silva Santos)



Guiné > Região do Oio > Jolmete > CCAÇ 2585 (1969/71) > O Alf Mil At Inf Manuel Resende e o chefe de secção de milícias, Dandi, mais tarde Capitão da Companhia de Milícias do Pelundo...

Foto: © Manuel Resende (2009). Todos os direitos reservados.


1. Comentário do Manuel Resende, ao poste P10495:

Olá,  Augusto,

O Dandi,  no meu tempo 69 a 71 (*),  tinha sete mulheres e a mais velha é que fazia a escala de serviço...
Quando fizemos as casas que mostras nas fotos, as primeiras, junto à escola,  foram para ele.

Quando íamos para o mato, além dos roncos que todos desejávamos, ele tinha um "feeling",  como se diz agora, para apanhar mulheres. Para ele, quantas mais tivesse maior era a importância.

Conto rapidamente um caso, em Fevereiro de 1970, em que ele foi caçar num domingo à tarde. Levou com ele dois milícias e um camarada de transmissões com um rádio. O destino era junto ao rio Cacheu. Nesta altura estávamos em tréguas com os turras, pois havia as conversações para o desfecho cruel do 20 de Abril, com o assassinato dos 4 oficiais do CAOP1. Pois o nosso amigo Dandi deu de caras com uma coluna de turras, e a reacção foi correr atrás de uma bajuda que,  segundo ele, vinha agarrada ao turra que vinha à frente.

Claro que não houve tiroteio, porque por sorte eles pensavam que havia mais pessoal do nosso lado.

Claro que isto dava para um poste, mas ficará para outra altura. (**)

Uu abraço
Manuel Resende

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Nota do editor:


Manuel Resende:

(...) Neste apontamento quero e tenho o dever de salientar o contributo altamente positivo dos soldados africanos do Pelotão de Caçadores Nativos nº 59, comandado inicialmente pelo colega Alferes Mosca, e pela secção de milícias, comandada pelo chefe da milícia, o célebre Dandi, mais tarde promovido a Capitão de Milícia pelo Sr. General Spínola, e que já vinha com boas referências da companhia anterior [, CCAÇ 2366].

Sempre que saíamos para o mato estes homens iam sempre à frente, pois como conhecedores do terreno, sabiam como chegar ao objectivo. O Dandi, natural do Jol, conhecia como ninguém todos os recantos da mata. 

Bom guerrilheiro, bom caçador, muito nos ajudou a evitar cair em emboscadas, abrindo trilhos novos na mata. Quando saíamos para o mato com ele, ninguém tinha medo, por mais difícil que fosse a missão. Mais tarde fez parte do rol dos fuzilados [, a seguir à independência]. Sinceramente não sei se a Cruz de Guerra prometida pelo Sr. General Spínola lhe foi entregue antes de 1975. Que será feito dos outros? (...)

Augusto Silva Santos

(...) Sobre o célebre Dandi... No meu tempo ele já era o Comandante da Companhia de Milícias do Pelundo, embora estivesse sempre no Jol, e já tinha sido agraciado com a cruz de guerra pelo General Spínola. Numa das operações (a mais difícil que me lembro), ele chegou a ser ferido com um tiro numa perna.

Era de facto um excelente guerrilheiro. Numa ocasião, para escaparmos a uma emboscada do IN, lembro-me que ele nos levou por um trilho de caça muito antigo que, segundo o próprio Dandi, já não passavam por lá pessoas há alguns anos. (...)

(**) Último poste da série > 6 de março de 2012 > Guiné 63/74 - P9571: Os nossos camaradas guineenses (34): Marcelino da Mata visitou a Tabanca do Centro (Joaquim Mexia Alves)

Guiné 63/74 - P10500: Ficou um Palmeirim nas bolanhas da Guiné (3): No N/M Uíge, com Lisboa à vista (J.L. Mendes Gomes, ex-alf mil, CCAÇ 728, Cachil, Catió e Bissau, 1964/66)



Lisboa > O N/M Uíge em 1968, no Rio Tejo, com tropas a bordo. Foto do álbum do nosso camarada, empregado bancário reformado, a viver em Penafiel, José Rocha, ou José Barros Rcoha, ex-Alf Mil, CART 2410 (que passou por Mansoa, Guileje e Gadamael, 1968/70).

Foto: © José Rocha (2011) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados

A. Continuação da nova série do nosso camarada e amigo J. L. Mendes Gomes, ex-alf mil da CCAÇ 728, (Cachil, Catió e Bissau, 1964/66), jurista da Caixa  Geral de Depósitos, reformado [, foto atual à esquerda]. 

[ Esta nova série evoca a figura e narra a história alf mil Mário Sasso, da CCAÇ 728 - Os Palmeirins -,  nascido na Beira, em Moçambique, de uma família de origem eslovena, os Sasso; o Mário Sasso foi morto em combate no Cantanhez, em 5 de dezembro de 1965].




B. Ficou um palmeirim nas bolanhas da Guiné >  

3. A Barra do Tejo


Foi o primeiro a subir ao portaló, do garboso Uíge, ao raiar do dia previsto para a chegada. Que ansiedade...

Fazia uma ligeira neblina sobre a extensão de mar, mas dava para ver, ao longe, em recorte de brincar, uma faixa de verdura, salpicada de pontos brancos, avermelhados por cima. Eram as casitas da costa alentejana todas rasteirinhas ao chão.

Não havia ainda aquela praga de betão, a crescer em altura, que havia de surgir, muitos anos, mais tarde. Muito diferente do que estava habituado a ver. Nada que se parecesse com aquela pujança de verde, em altura e densidade.

A luminosidade do céu e a cor da luz do sol eram diferentes. Ali, o sol estava a nascer dos fundos da terra e não das larguras das águas do mar, como na Beira. A bola de fogo não era tão cheia de lume e o vestido do céu era de um azul muito mais ténue, como o de uma criança... O céu era mais alto e transparente até ao infinito, em vez da capa acinzentada a que se habituara, desde pequeno.

Do outro lado do vapor, era o mar imenso, a perder de vista. Já estavam todos fartos de mar, desde a saída, há uns dez dias, sem parar.

Ao fim de uma horas sempre iguais, surge uma grande embocadura, a entrar pela terra dentro. Um farol ao meio, divide-a, em partes diferentes. A do lado direito é amarelada e ondulada; desce, erma e alcantilada, sobre as águas verdes do rio; a do lado esquerdo está cheia de casario estendido pela encosta suave e verde acima, coberta de pinheiros.

O rio vai-se estreitando, lentamente, sem deixar de ter um grande porte…enquanto o casario se vai adensando.

Um frémito nunca sentido invade o jovem Mário que está a sorver tudo, como se fosse uma máquina de filmar. Ali está a famosa Torre de Belém. Tão pequena que ela é afinal…mas é bonita!… Os Jerónimos de telhado rendilhado e com vários torreões esguios lançados para o alto… Um grande palácio ao meio da encosta. Deve ter sido um palácio real. E o casario adensa-se cada vez mais.

O Uíge avança lentamente, em direcção ao cais e deixa ver mais além o Castelo de são Jorge, lá em cima e a Sé, no meio de um mar avermelhado de telhados entrelaçados, sem uma ordem que se percebesse, à primeira vista…A balaustrada do paquete está abarrotar do lado do cais. Lá em baixo há muitos lenços a esvoaçar.

Era a cena que estava sempre a repetir-se. Várias vezes por semana. Os vapores de transporte de passageiros eram o principal, se não exclusivo, meio de ligação da metrópole, pelo mar abaixo, com as extensas e numerosas colónias que formavam o Portugal, de então e com o além-mar, americano.

O avião, sem qualquer carácter de regularidade, ainda estava reservado ao transporte militar.

(Continua)
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Nota do editor:

Último poste da série > 30 de setembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10459: Ficou um Palmeirim nas bolanhas da Guiné (2): A cidade moçambicana da Beira,berço do Mário Sasso (J.L. Mendes Gomes, ex-alf mil, CCAÇ 728, Cachil, Catió e Bissau, 1964/66)


Guiné 63/74 - P10499: Em bom português nos entendemos (10): Camarada, companheiro, colega, irmão, amigo, camarigo...


Guiné > Zona Leste > Setor L1 > Mansambo > CART 2339 > Abril de 1968 > Fase de construção do aquartelamento (que o PAIGC, através da rádio Conacri, chamava campo fortificado de Mansambo)...Os Alferes Milicianos Cardoso e Rodrigues apanham banhos de luar... Dois camaradas, etimologicamente falando... instalados num hotel de muitas estrelas.

Foto: © Henrique Cardoso / Carlos Marques Santos (2005). Todos os direitos reservados

1. Escreveu L.G. há tempos atrás:

(...) camaradas
(que colegas é só nas putas):
se eu morrer, que me enterrem,
numa anta do meu país megalítico.
(*)

2. Boa questão semântica e concetual: camarada, companheiro, colega, amigo, irmão, camarigo...Qual a diferença ? Há outras palavras usadas aqui, que soam mal aos ouvidos com pruridos de alguns dos nossos leitores como estórias ou camarigos...Sobre os camarigos estamos à espera de ver consagrado o neologismo pelos nossos lexicólogos: até agora o Ciberdúvidas não nos respondeu à questão da sua legitimidade... Nem sei se vai pegar o uso do camarigo... De qualquer modo, para este peditório da nossa bela e querida língua, já temos dado alguns cêntimos... Sempre com amor e humor... 

Sobre o camarada (, salvo seja!, dirão alguns), fomos consultar o Ciberdúvidas da língua portuguesa: aqui vão a pergunta e a resposta, com a devida vénia (**):

A diferença entre camarada, companheiro e colega
[Pergunta] Qual a diferença entre camarada, companheiro e colega?
Pedro Teixeira,  Empresário, Portugal
[Resposta] As palavras têm, de fa(c)to, sentidos muito próximos uns dos outros. A principal diferença está na situação em que são usadas e na carga histórica que lhes anda associada. 

Assim, «camarada», que significou «pessoa que vive no mesmo quarto (i.e. câmara) que outra», acabou por se aplicar a um «soldado da mesma companhia, regimento, divisão» (e há trinta anos usava-se muito em Portugal, como sinal de militância política). 

«Companheiro» é praticamente sinónimo de «camarada», mas tem uma história um pouco diferente: deriva de uma tradução em baixo latim (‘cum’ + ‘panis’), corrente na antiga Gália (hoje, a França), de uma expressão germânica, "gahlaiba", composta de “ga” («com») + “hlaiba” («pão») – cf. Dicionário Houaiss. Por outras palavras, «companheiro», que se referia àquele com quem se comia o pão, passou a significar simplesmente «o que faz companhia». 

Finalmente, «colega» (com o qual se relaciona «colégio») é um termo derivado do latim ‘collega’, por via culta, e designa «indivíduo que, em relação a outro, faz parte da mesma comunidade, corporação, profissão» (ver José Pedro Machado, Grande Dicionário da Língua Portuguesa), ou seja, em termos a(c)tuais, é a pessoa que trabalha na mesma a(c)tividade ou no mesmo lugar que nós.

Carlos Rocha, 19/09/2005

3. Submeti, em 26 de abril último, ao Ciberdúvidas da Língua Portuguesa,  a questão (existencial) de saber se o neologismo "camarigo" já é (ou poderá vir a ser) português de lei... É verdade é que continuo a aguardar resposta. Mas, pela demora (lá vão mais de cinco meses), já não tenho ilusões: a questão foi mesmo parar à "cesta secção"...(LG)

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Notas do editor:


(**) Último poste da série > 18 de julho de 2012 > Guiné 63/74 - P10165: Em bom português nos entendemos (9): Uma declaração de amor, bem humorada, à língua portuguesa (Teolinda Gersão + netos)