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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Guiné 63/74 - P9109: O nosso fad...ário (1): O Fado da Emboscada (CCAÇ 5, Gatos Pretos, Canjadude, 1969) (João Carvalho / José Martins)





Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (Gatos Pretos, 1973/74) - Fado da Emboscada (*). Adaptado de O Embuçado (Música do Fado Tradição, da cantadeira Alcídia Rodrigues; letra de Gabriel de Oliveira; criação de João Ferreira Rosa) [Vd. aqui vídeo, da RTP Memória, inserido no YouTube por MikeFadoEtc em 7/8/2011]





Infogravura: © João Carvalho (2006) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados

Fado da Emboscada


A história que eu vou contar,
Já há muito aconteceu,
Gatos Pretos em acção,
Na grande operação
Lacoste, em Burmeleu.


A malt' ia pela mata,
Ainda não vira nada,
Mas por mal dos meus tormentos,
Com fortes rebentamentos,
Começou a emboscada.


Logo a malta reagiu,
No meio da confusão,
Atrás deles e a correr,
A gritar e a dizer
Gato Preto, agarra à mão!.


Perante a admiração geral,
No meio da algazarra,
Enquanto os turras fugiam,
Os nossos os perseguiam,
A gritar Agarra, agarra!.


E então já à noitinha,
Quando a tropa instalou,
P'ra nosso contentamento,
Munições e armamento,
Foi o ronco que ficou.


 
 
 
  1. O João Carvalho, que foi furriel miliciano enfermeiro dos Gatos Pretos, CCaç 5  (Canjadude, 1973/74) e - e hoje farmacêutico - quando apareceu na nossa tertúlia, no princípio de 2006, começou a rebuscar o seu "baú de recordações". E nessas voltas ao passado, disse-nos que encontrara "uma pequena bandeira [, guião,] dos Gatos Pretos", tendo digitalizado e enviado uma das faces que se volta a reproduzir aqui...
 
A par dessa preciosidade, também foi desencantar letras de canções com que os Gatos Pretos (se não todos, pelo menos os metropolitanos) exorcizavam os seus fantasmas, os seus medos, as suas angústias nas noites quentes e longas de Canjadude, na região do Gabu... Entre elas, esta letra de fado - o Fado da Emboscada - com que vamos inaugurar esta nova série - O Nosso Fad...ário - destinada a recolher, de maneira mais sistemática, letras  e, se possíveis, músicas de fados... 


2. Não sabemos quem é o autor da letra. Quem quer que tenha sido, não me parece que, a avaliar pela época, tivesse conhecimento do Cancioneiro do Niassa, onde há também diversas letras com adaptações de fados conhecidos (O Turra das Minas, o Fado do Turra, o Fado do Estado Maior, etc.)...  Devia estar familiarizado, em todo o caso, com o Fado "Embuçado", tema que é uma criação de João Ferreira Rosa, que o começou a cantar por volta de 1962, e que foi no seu disco Taverna do Embuçado, 1965).

Mas a  génese deste Fado da Emboscada já aqui nos foi explicada por um outro Gato Preto, mais antigo, o ex-Fur Mil Trms José Martins (1968/70)... Tomamos a liberdade de reproduzir aqui um excerto do seu poste de 1 de Março de 2006, ainda na I Série:

(...) "FADO DA EMBOSCADA



"Este fado, com música do Embuçado, faz referência à Operação Lacoste, que foi uma patrulha [ofensiva] ocorrida em 27 e 28 de Junho de 1969, e que,  tendo partido de Canjadude, passou por Sare Andebe, Ponto Cota 70, Burmeleu, Samba Gano,  e regresso a Canjadude.

"Houve contacto com o IN no final do dia 27. Quando a patrulha se preparava para montar a emboscada, foi detectado, na zona de Burmeleu, um grupo [IN] que nos atacou e ao qual foi iniciada a perseguição. No terreno ficaram armas e munições. Após o recontro retirámos para o Ponto Cota 70, que nos garantia protecção nocturna.

"Durante a noite assistimos à passagem de guerrilheiros que,  no dia seguinte, ao voltar a passar pela zona de Burmeleu, tínhamos 'festa rija' á nossa espera". (...)


Outros dois ilustres Gatos Pretos que pertencem à nossa Tabanca Grande são o ex-Cap Cav Pacífico dos Reis e o José Corceiro a quem perguntamos se não têm conmhecimento de mais letras de fado ou outras canções do Cancioneiro de Canjadude... Sabemos, através do José Martins, que a CCAÇ 5 teve um jornal de caserna, O Gato Preto, pelo menos em 1971, ou desde 1971... e de que terão saído uns 16 números...

3. Tocava-se e cantava-se o fado na Guiné, nas noites quentes e longas da Guiné... Violas, havia sempre, pelo menos uma, ao lado da G3... Violistas, dois ou três... Guitarras eram mais raras... Não tenho ideia de visto ou ouvido alguma, ao vivo, em Bambadinca ou noutros aquartelamentos por onde passei...(Talvez houvesse em Bissau). Vozes para cantar o fado, mesmo desafinadas, havia muitas...Numa companhia como a minha (CCAÇ 2590/CCAÇ 12) que tinha apenas 50 militares metropolitanos (os restantes eram do recrutamento local), lembro-me bem de malta que tocava e/ou cantava à viola ou acompanhado à viola...

Dos violistas, lembro-me logo do GG (Gabriel Gonçalves, 1º Cabo Cripto, lisboeta); do Zé da Ila (Fur Mil At Inf José Luís Vieira de Sousa, madeirense do Funchal); do Joaquim João dos Santos Pina (também Fur Mil At Infr, algarvio de Silves)... Todos eles tinham viola... O 1º Cabo Escriturário Eduardo Veríssimo de Sousa Tavares tocava acordeão (e acho que também arranhava a viola). Mas o que tinha mais cultura fadista era o nosso GG, companheiro inseparável de muitas noitadas e tainadas... Depois havia mais malta de outras subunidades: estou-me a lembrar do J. L. Vacas de Carvalho (hoje, também fadista amador), do Abílio Machado (, fundador do grupo Toque de Caixa), do David Guimarães (, agora ligado ao fado de Coimbra), etc. O Álvaro Basto e o Jorge Félix, que também tocam viola,  só os conheci através do blogue.

O Joaquim Mexia Alves  já não é do meu tempo de Bambadinca (Sector L1) mas sei que este era fadista apreciado e requisitado no TO da Guiné... Aliás, é autor de mais fados, para além do Fado da Guiné, que ele escreveu em 2007 para todos nós, seus camaradas e amigo...  É autor nomeadamente da letra do fado Montemor é praça cheia,  com música do Manuel Maria, e que foi gravado pelo Nuno Câmara Pereira, num disco de 1992, editado pela EMI- Valentim de Carvalho. (Vou ver se recupero um vídeo que fiz em Pombal, em 28 de Abril de 2007, por ocasião do nosso II Encontro Nacional, com a dupla J.L. Vacas de Carvalho / J. Mexia Alves).

Vem tudo isto a propósito de quê ? Do Fado, agora Património da Humanidade... O nosso modesto, discreto mas nem por isso menos valoroso contributo para a celebração deste evento (a inscrição do fado na lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade, pela UNESCO) poderia bem ser, daqui a uns tempos, a oferta,  ao Museu do Fado,  de letras de fados cantados e tocados no nosso tempo, na Guiné n(com a identificação das respetivas músicas, em geral fados tradicionais ou então em voga na época)...  Julgo que faz falta, no Museu do Fado, um secção sobre a fado e a guerra do ultramar (ou colonial, como queiram)...

Fica então aqui o meu/nosso apelo para raparmos o fundo ao baú das nossas memórias, e desencantarmos mais letras (e eventualmente músicas) do nosso fad...ário! (LG)

_______________

Nota do editor:

 
(*) Vd. I Série, poste de 28 de Fevereiro de 2006 >  Guiné 63/74 - DXCIII: Cancioneiro de Canjadude (CCAÇ 5, Gatos Pretos)

domingo, 28 de junho de 2009

Guiné 63/74 - P4595: Cancioneiro de Canjadude (CCAÇ 5, Gatos Pretos) (2): Binóculos de Sol (José Martins)



Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (Gatos Pretos) > 1973: Interior do Clube de Oficiais e Sargentos de Canjadude... O ex- Fur Mil Carvalho, membro da nossa Tabanca Grande, é o segundo a contar da direita... No mural, na pintura na parede, pode ler-se: [gato] preto agarra à mão grrr....

Percebe-se que estamos no Rio Corubal com o destacmento de Cheche do lado de cá (margem direita) e... o mítico campo fortitificado de Madina do Boé, do lado de lá (margem esquerda)... Em 24 de Setembro de 1973, não em Madina do Boé, mas algures, na vasta e desertificada região do Boé, junto à fronteira (se não mesmo para lá da fronteira...), o PAIGC proclama "urbi et orbi", unilateralmente,  a independência da nova República da Guiné-Bissau... Madina do Boé, como se sabe, foi retirado pelas NT em 6/2/1969.


Foto: © João Carvalho (2005). Todo os direitos reservados.


1. Mensagem de José Martins (*), ex-Fur Mil Trms da CCAÇ 5, Gatos Pretos, Canjadude, 1968/70, com data de 23 de Junho de 2009:

Caros amigos

Para suster a frustação de não ter sido terminada, pelo aparecimento de uma branca total, junto o texto completo da canção interrompida abruptamente [, na Quinta do Paul, Ortigosa, Monte Real, em 20 de Junho de 2009, por ocasião do nosso IV Encontro Nacional].

Abraços
José Martins


CANCIONEIRO DE CANJADUDE

O isolamento em que nos encontrávamos, a necessidade de ocupar a mente com algo diferente que não fosse a actividade operacional, a tentativa de encurtar a distância que nos separava da metrópole, o sentido de improvisação e muitas mais razões, levaram a que os militares tomassem como suas as músicas em voga, na época, e lhes dessem nova vida, com factos que lhes estavam mais próximos e, sobretudo, que ajudavam a manter um espírito de corpo.

Os textos das canções ou poemas que se seguem, quando não identificam o autor, devem ser considerados de criação colectiva, pois que, se sempre há quem lance a ideia e lhe dê uma forma inicial, será o conjunto a sancioná-la e a transmitir-lhe a forma definitiva.




José Martins cantando os Binóculos de Guerra durante o IV Encontro  Nacional da Tertúlia, no dia 20 de Junho passado, em Ortigosa .

Foto: © Fernando Franco (2009). Todos os direitos reservados


BINÓCULOS DE GUERRA

Com certa frequência a rádio, mesmo a da Guiné, passava a canção Óculos de Sol, interpretada por Natércia Barreto, que falava das suas amarguras numa ida à praia. (**)

Da ida à praia ou ao mato, com óculos ou com binóculos, a adaptação foi fácil…

Já arranjei muito bem, tudo quanto convém,
P’ro mato levar!
A minha arma, o bornal e o cantil com a água
P’ra me refrescar.

O emissor/receptor e o meu camuflado
Também estão na acção.
E como é bom de ver não podia esquecer
As granadas de mão,

Que levo p’ra atirar, p’ra defender.
P’ra amedrontar e o turra deter.
Para aumentar, o seu sofrer!

Pois eu sei que te hei-de encontrar
Talvez deitado na orla do mato
Com a arma ao lado e eu vou passar
A tarde emboscado.

Já pensei não sair, mas eu tenho de ir
Subir à montanha.
Mas que hei-de fazer p’ra não ter de passar,
Naquela bolanha.

Então peço ao meu Deus que me ajude na mata
Sou um ser pequenito,
E que traga depressa da querida Lisboa
O meu Periquito!

P’ra eu me ir embora, desta guerra
P’ra voltar, à minha terra
P’ra deixar, esta Guiné!

Pois eu sei que quando voltar
Estarás no cais p’ra me abraçar
Adeus às armas, eu vou dizer
E a arma entregar!

...Vou Partir, vou voltar …


Dado que a Companhia de Caçadores 5 era uma subunidade de guarnição normal, constituída por oficiais, sargentos e praças especialistas do continente e praças recrutadas na própria província, era de rendição individual. Isto quer dizer que os elementos eram mobilizados e enviados para a companhia um a um, pelo que a sua substituição também era feita elemento a elemento. Daí que, para a substituição no fim da comissão, havia um certa carácter individualista, que também transparece no texto.

Nota: Este texto faz parte do Cancioneiro de Canjadude que incluiu canções e poemas escritos pelos elementos da companhia e que foram recolhidos, depois do ano 2000, em visitas cíclicas à Biblioteca do Estado-maior do Exército. Se as recolhas efectuadas vieram a ser publicadas, darão lugar à “QUINTA DOS GATOS PRETOS DE CANJADUDE” (***).
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 27 de Junho de 2009 > Guiné 63/74 - P4592: Bibliografia de uma guerra (51): "Cambança" de autoria de Alberto Branquinho (José Martins)

(**)Vd. letra orignal da canção Óculos de Sol
Natércia Barreto

Composição: Natércia Barreto

Já arranjei muito bem
Tudo quanto convém
PÂ’ra praia levar
O pente, o espelho, o baton
E o creme muito bom
PÂ’ra me bronzear
Tenho o meu rádio portátil
E o bikini encarnado
Também está no meu rol
E como é bom de ver
Não podia esquecer
Os meus óculos de sol

Refrão:
Que levo pÂ’ra chorar uuuuhuh
Sem ninguém ver
PÂ’ra não dar uuuuhuh
A perceber
PÂ’ra ocultar uuuuhuh
O meu sofrer
Pois eu sei que te hei-de encontrar
Talvez deitado à beira-mar
Com outra lado
E eu vou passar
A tarde a chorar

Já pensei não sair
Mas aonde é que eu hei-de ir
Com este calor?
O que é que eu hei-de fazer
PÂ’ra não ter que te ver
Com o teu novo amor?
Ver-te-ei com certeza
Mas eu peço à tristeza
Um pouco de controle
E pelo sim pelo não
Eu vou ter sempre à mão os meus óculos de sol

Vou chorar
Uuuuh uh
Vou sofrer
Uuuuh uh
Vou chorar
Uuuuh uh


(***) Sobre o Cancioneiro de Canjadude, vd. poste, da primeira série, de 28 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXCIII: Cancioneiro de Canjadude (CCAÇ 5, Gatos Pretos)

Sobre a CCAÇ 5, vd. ainda:

23 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXXIV: O nosso fotógrafo em Canjadude (CCAÇ 5, 1973/74)

5 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXCIX: O ataque de foguetões a Canjadude, em Abril de 1973 (João Carvalho)


4 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCIV: Os últimos dias de Canjadude (fotos de João Carvalho)

4 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCV: A última noite em Canjadude (CCAÇ 5) (João Carvalho)

5 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCVI: A dolce vita de Canjadude, até ao dia 27 de Abril de 1973 (João Carvalho)

6 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCIX: Salazar Saliú Queta, degolado pelos homens do PAIGC em Canjadude (José Martins)

7 deAbril de 2006 > Guiné 63/74 - DCLXXX: CCAÇ 5 - Os Gatos Pretos de Canjadude (José Martins)

13 de Março de 2009 > Guiné 63/74 - P4028: FAP (17): Do Colégio Militar a Canjadude: O meu amigo Tartaruga, o João Arantes e Oliveira (Pacífico dos Reis)

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Guiné 63/74 - P1305: Blogoterapia (3): não fugi, não emigrei, ainda cá estou (João Carvalho)


Guiné > Canjadude > 1974 > O furriel miliciano enfermeiro Carvalho, da CCAÇ 5 - Os Gatos Pretos, Canjadude, 1972/74) com um guerrilheiro do PAIGC, equipado a rigor e empunhando um kalash...

Foto: © João Carvalho (2006)

Mensagam do João Carvalho, com data de hoje, que já circulou por e-mail através da tertúlia:

Olá a todos.

Peço desculpa pela a minha ausência na tertúlia. Espero voltar ao convívio.
Tenho cerca de 350 e-mails atrasados, ainda por ler.

Este e-mail destina-se só a avisar que ainda não desapareci.

Abraços para todos.

João Carvalho

Wikipedia - Guerra Colonial Portuguesa

Comentário de L.G.:

O João Carvalho é o nosso grande...wikipedista! Ele é um grande fã da Wekipédia, a enciclopédia livre, a maior enciclopédia do mundo. E está a fazer um trabalho notável, chamando a si a difícil missão de actualizar e enriquecer a entrada sobre a Guerra Colonial. A nossa Guerra Colonial. Em Português (1).

É um trabalho de formiga, de milhões de formiguinhas, em dezenas de línguas, incluindo a nossa. Não posso saber qual é contribuição específica do João, mas encontro nesta entrada sobre a Guerra Colonial algumas das suas marcas, incluindo fotos suas (2).

O João - nascido em Lisboa, a 23 de Junho de 1950, farmacêutico, de profissão - já chegou a administrador da Wiki.pt (que já tem cerca de 200 mil artigos!)... Como se pode ler lá no sítio, Administradores são wikipedistas que têm "direitos de operador de sistema (sysop)."

A Wikipédia atribui esse acesso "liberalmente a qualquer utilizador que tenha sido um contribuidor da Wikipédia durante algum tempo e seja geralmente encarado como um membro da comunidade conhecido e digno de confiança".

Os Sysops não gozam de nenhum privilégio especial, "são iguais a todos os outros em termos de responsabilidade editorial". Na prática são "utilizadores da Wikipédia a quem foram levantadas restrições de segurança e desempenho" relativamente a alguns funções do software, tendo já dado provas de confiança e idoneidade...

A entrada sobre a Guerra Colonial (ou outros temas relevantes da nossa história) espera o contributo de mais tertulianos... Aqui fica o índice do texto que está em permanente construção (mas que já faz parte da lista dos melhores artigos da Wikipédia em português):


1 Contexto político-social
1.1 Oposição
2 Antecipação casual
3 Conflito armado
3.1 Angola
3.2 Guiné-Bissau
3.3 Moçambique
4 A Organização de Unidade Africana
5 O fim da guerra
6 Consequências
6.1 Custos financeiros
6.2 Os veteranos de guerra
6.3 O 10 de Junho
7 Nas artes
7.1 No cinema
7.2 Na literatura
8 Ver também
9 Ligações externas
10 Bibliografia

... As únicas ligações externas (links) que, por enquanto, vêm no final do artigo são:

(i) o sítio do nosso amigo e camarada Jorge Santos (Guerra Colonial);
e (ii) os nossos Subsídios para a história da guerra colonial > Guiné (1963-1974) > Tertúlia

___________

Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 17 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXVII: Pedido do João Carvalho, o nosso wikipedista

(2) Vd. post de 23 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXXIV: O nosso fotógrafo em Canjadude (CCAÇ 5, 1973/74)

quarta-feira, 17 de maio de 2006

Guiné 63/74 - P767: Pedido do João Carvalho, o nosso wikipedista

Guiné > Canjadude > 1974 > O furriel miliciano enfermeiro Carvalho, da CCAÇ 5, com um guerrilheiro do PAIGC, equipado a rigor e empunhando a mítica espingarda-metralhadora Kalash...

© João Carvalho (2006)

Amigos e camaradas

Venho solicitar, se mo permitirem, que me dêem uma ajuda em informações, para que as possa divulgar na Wikipédia. É uma forma de divulgar a verdade, que muitos querem ocultar ou ignorar.

Trata-se da listagem das batalhas ou operações efectuadas durante a Guerra Colonial.

Se, além do nome da batalha ou operação, me poderem fornecer uma pequena descrição do acontecimento, eu agradeço.

Claro que se alguém desejar colocar na Wikipédia a informação em vez de ma transmitir, sinta-se completamente livre para isso. Todos os colaboradores são bem vindos.

Para facilitar junto o endereço da página que precisa ser acrescentada: http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_batalhas_de_Portugal

Quem desejar introduzir o seu próprio texto na Wikipedia e tiver alguma dúvida de como se faz, pode contatar-me por e-mail, por MSN (mesmo endereço do email) ou na minha página da Wikipedia

Agradeço antecipadamente aos camaradas.
João Carvalho
Ex-furriel miliciano enfermeiro
(CCAÇ 5 - Os Gatos Pretos, Canjadude, 1972/74)

Foto: © João Carvalho (2006)

sexta-feira, 17 de março de 2006

Guiné 63/74 - P618: Mais fotos de Canjadude (CCAÇ 5, 1973/74) (João Carvalho)

1. Mais fotos de Canjadude, do tempo em que os Gatos Pretos da CCAÇ 5 por lá se acolheram (1973/74). Arquivo pessoal do João Carvalho, ex-furriel miliciano enfermeiro. Legendas do fotógrafo. (Comentários off-record de L.G.) (1)


Guiné > Zona Leste > Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (1973/74) > A psico na tabanca. Em pé está o fulano que eu conheço desde o meu primeiro dia de vida. [E no meio, uma bajuda fula, linda de morrer, talvez ligeiramente estrábica... Sob o olhar vigilante da mãe, e rodeado dos irmãos mais pequenos... Repare-se como os tugas , passada a priimeira surpresa da exposição ao nu étnico, se apoderaram rapidamente do termo psico e deram-lhe uma outra conotação... mais épica, mais erótica, mais camoniana... Outra legenda possível: Canjadude, Ilha dos Amores, Lusíadas, Canto IX]
© João Carvalho (2006).

Guiné > Zona Leste > Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (1973/74) > O artista junto a um morteiro. [Morteiro 81 mm: uma arma poderosa, eficaz, mortífera, quando bem manejada, e apontada para as linhas inimigas...] © João Carvalho (2006).

Guiné > Zona Leste > Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (1973/74) > Escola da tabanca de Canjadude em que o Salazar dava aulas, vendo-se ao fundo a saída para Madina do Boé [ Recorde-se aqui a trágica história do professor Salazar Saliú Queta que terá sido executado (barbaramente) pelos homens do PAIGC a seguir à saída das NT, segundo fontes apuradas pelo João Martins...](1). © João Carvalho (2006).

Guiné > Zona Leste > Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (1973/74)> Ainda a escola, vendo-se junto um abrigo para a população da tabanca [As populações nas tabancas em autodefesa ou vivendo em povoações importantes, com destacamentos ou aquartelamentos das NT, pagaram uma pesada factura... Mesmo assim, não tão grande quanto a das populações sob controlo do PAIGC, bombardeadas pela Força Aérea, fustigadas pelos obuzes das nossas unidades de quadrícula, obrigadas a fugir sob a ameaça das nossas G-3... ] © João Carvalho (2006).

Guiné > Zona Leste > Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (1973/74) > Aeroporto de Canjadude durante a noite. Fotografia tirada de uma das tais grandes rochas (grandes para a Guiné), ou seja, de uma das rochas em que estava colocado um posto de sentinela. Consegue-se ver ainda o heliporto, que não sei se já existia quando o José Martins passou por estas bandas [Aeroporto, é favor: chamemos-lhe antes uma pista para pequenas aeronaves, como a Dornier-27, que nos trazia o correio e alguns víveres frescos... Falo pelo que conhecia de Bambadinca, por exemplo]. © João Carvalho (2006).


Guiné > Zona Leste > Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (1973/74)> Um dos postos de sentinela, á esquerda, e ao fundo os insólitos blocos de pedra de Canjadude... Bajudas transportam bidões que foram oferecidos à população, antes da entrega do aquartelamento ao PAIGC (Setembro de 1974). © João Carvalho (2006) [ A imagem original que estava demasiado azulada, foi editada e retocada pelo Albano Costa, o nosso artista-fotógrafo de Guifões, Matosinhos ].


Guiné > Zona Leste > Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (1973/74) > À direita as chapas de zinco que protegiam o tecto do abrigo do paiol. Mais à esquerda, protegida pelos bidões, a messe. A casa grande era a secretaria [ Canjadude não fugia à regra: adaptou-se aos condicionalismos da guerra... dispensando os bons ofícios dos engenheiros militares de Bissau... A malta virou arquitecto, engenheiro, trolha, marceneiro... O desenrascanço, à boa maneira dos tugas... É preciso fazer um paiol ? Pois, que se faça já aqui, a menos de 100 metros da messe... Admiro-me que não tenha havido, na Guiné - pelo menos, ao que se saiba - grandes acidentes resultantes da explosão de paióis... Em 1973 os foguetões de 122 mm caíram lá perto ] © João Carvalho (2006).


Guiné > Zona Leste > Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (1973/74)> A enfermaria em grande plano e à esquerda com uma pequena porta e umas minijanelas, o posto de transmissões [Julgo que o João Carvalho, furriel enfermeiro, também ele, não terá tido mãos a medir no apoio sanitário às populações locais... Uma nobre missão que muito dignificou os serviços de saúde militares... ]
© João Carvalho (2006).

Guiné > Zona Leste > Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (1973/74)> A porta para a estrada que levava a Cheche e Madina do Boé [, de má memória para as NT...] . © João Carvalho (2006).



2. Estas fotos mereceram o seguinte comentário do José Martins, que também foi furriel miliciano (de transmissões), da CCAÇ 5, mas noutro tempo (1968/70):

Caros camaradas:

Com estas viagens virtuais, a um tempo real e inesquecível, vamos vencendo o silêncio a que fomos sujeitos durante tanto tempo.

Para os nossos queridos filhos e netos: Aqui vão retalhos duma vida sem viver, mas que continua viva na nossa mente.

Pena é que cada dia que passa sejamos cada vez menos. Vivemos isto pelos nossos pais e por muitos de vós que já existiam e por muitos mais que vieram a existir.

Não calem as vossas vozes nem prendam o vosso pensamento: SEJAM LIVRES e
façam favor de SER FELIZES, para que nós também o sejamos.

Um abalo do vosso camarada, vosso pai e vosso avô incondicional
José Martins

_____________

Notas de L.G.

(1) Vd. posts anteriores:

23 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXXIV: O nosso fotógrafo em Canjadude (CCAÇ 5, 1973/74)

5 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXCIX: O ataque de foguetões a Canjadude, em Abril de 1973 (João Carvalho)

28 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXCIII: Cancioneiro de Canjadude (CCAÇ 5, Gatos Pretos)

4 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCIV: Os últimos dias de Canjadude (fotos de João Carvalho)

4 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCV: A última noite em Canjadude (CCAÇ 5) (João Carvalho)

5 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCVI: A dolce vita de Canjadude, até ao dia 27 de Abril de 1973 (João Carvalho)


(2) Vd. post de 6 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCIX: Salazar Saliú Queta, degolado pelos homens do PAIGC em Canjadude (José Martins)

segunda-feira, 6 de março de 2006

Guiné 63/74 - P592: Salazar Saliú Queta, degolado pelos homens do PAIGC em Canjadude (José Martins)

Uma fotografia recentíssima do José Martins (ex-furriel miliciano de transmissões, da CCA 5, Canjadude, 1968/70), "tirada no meu lugar de meditação e recordação". © José Martins (2006)

1. Texto do José Martins (CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70):

Caro João e, por extensão, caro Luís:

Estive a ler os últimos momentos passados em Canjadude.

Voltei a visitar aqueles lugares e é curioso que, após mais de trinta anos a seguir ao meu regresso, pela primeira vez não estive lá sozinho. Passados estes anos ao folhear o álbum de fotografias, cuja capa foi feita com o tecido do meu camuflado, foi folheado e comentado com a minha mulher a meu lado.

Pelo relato da última noite, calculo que a entrega do destacamento aos novos inquilinos não foi muito pacífica.

Em conversa com alguém que esteve lá contigo nos últimos dias - creio que o Capitão Miliciano Silva de Mendonça, de que já te enviei o contacto -, sei que pagaram aos africanos seis meses de pré e, como se o contrato de trabalho de muitos anos e muita lealdade tivesse terminado, disseram-lhes, em nome de quem nunca os conheceu e viveu junto deles, vão à vossa vida.

Também em conversa tida com o Capitão Figueiredo Barros, soube que o Salazar Saliú Queta, Soldado Africano da Psico-social, foi sumariamente executado, por degolação, assim que o PAIGC tomou conta do aquartelamento. Este relato foi feito pelo Fernando Saliu Queta, filho do nosso nharo.

Foi assim que se passou? Gostava de saber, já que estou a tentar escrever uma pequena resenha sobre a CCAÇ 5, além de pretender agregar alguns elementos para constituir a história da unidade com o maior número de factos possível.

Mudando de assunto.

Asim que me for possível, tentarei pôr em comum algumas fotos que retratam os mesmos locais das tuas fotos, mas quatro anos antes: o posto de rádio, o Aeroporto da Portela de Canjadude, o Clube Militar, a Parada do Aquartelamento, etc.

Espero também que alguns dos camaradas espalhados por este canteiro junto ao mar, que conheça Gatos Pretos, os encaminhem para este convívio, para que possamos trocar experiências e recordações e, quem sabe, promover um encontro (...).

Um forte abraço
José Martins


2. Resposta do João Carvalho (ex-furriel enfermeiro da CCAÇ 5, Canjadude, 1973/74)

Olá:

Agradeço o email. Não sei como mas passou-me completamente ao lado, na lista que me tinhas enviado do pessoal que esteve em Canjadude, o nome do meu ex-capitão Mendonça. Recordo-me muitíssimo bem dele. Lembro-me que ainda fui uma ou duas vezes a casa dele, mas depois perdi o contacto. Em algumas das fotos por mim enviadas, aparece o camarada Mendonça. Se falares com ele, pede-lhe o email, para juntar à tua lista, e para que eu também o possa contactar. Há por vezes promenores dos quais eu já não me lembro muito bem, e assim pode-se confirmar alguns factos, para repor a verdade.

Em relação ao Salazar (não o que caiu da bendita cadeira), o professor de Canjadude, desconhecia o facto da sua morte. Tenho imensa pena. Apesar de eu pessoalmente não simpatizar muito com ele, acho que não merecia uma morte dessas. A maldita guerra e os ajustes de contas, têm sido uma vergonha da sociedade ao longo dos milénios. Quem diria que no fim do século XX e princípio do XXI ainda se fazem coisas [dessas]...

Enquanto nós estivemos em Canjadude não tive conhecimento de nenhum acto semelhante a este que aconteceu ao Salazar. Devem ter esperado pela nossa saída.

Sabes, estes emails e o blogue do Luís têm mexido comigo. (Provavelmente com os camaradas acontece o mesmo). Parece-me um pouco, a terapia do stress pós-traumático. (Nem sempre é fácil...).

Um grande abraço
João Carvalho

domingo, 5 de março de 2006

Guiné 63/74 - P589: A dolce vita de Canjadude, até ao dia 27 de Abril de 1973 (João Carvalho)


Guiné > Zona leste > Algures > 1973 > Uma Daimler, avariada, é levada em cima de uma GMC... Sítio ? Talvez Bambadinca, talvez Bafatá, junto ao Rio Geba... quando o João Carvalho veio de férias à metrópole... © João Carvalho (2006).

Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > 1973 > O Bar da CCAÇ 5, onde se fizeram muitos terrafianços. © João Carvalho (2006).

Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > 1973 > O sentido de humor dos tugas da CCAÇ 5: Placa, em pedra, que sinaliza o "Aeroporto da Portela de Canjadude", com data de 2-11-68, e que tem a assinatura da CCAÇ 5 / CART 2338. © João Carvalho (2006)


Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > 1973 > Posto de rádio da CCAÇ 5
"onde eu, ilegalmente, muitas vezes passei umas boas horas a jogar King" (JC) © João Carvalho (2006).


Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > 1973 > Um furriel miliciano enfermeiro... em serviço no posto de rádio. © João Carvalho (2006).


Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > 1973 > O João Carvalho deve ter batido umas boas sonecas neste cadeirão, no posto de rádio... © João Carvalho (2006)

Olá Luís

Venho complementar a informação descrita no aerograma sobre o ataque a Canjadude em 27 de Abril de 1973, com mísseis terra-terra Katyusha (1).

1 - A razão da existência de um Unimog estacionado (contra a qual eu choquei) num local em que não era habitual haver viaturas foi a seguinte:

Tinha sido enviado para Canjadude um grupo de milícia africana para uma operação. Qual a finalidade ou objectivo dessa operação, eu desconheço. Sei é que esse grupo foi transportado desde Nova Lamego até Canjadude no referido Mercedes Unimog.

2 - Depois do ataque, constou que os mísseis não teriam sido levados para aquela zona, com a finalidade de serem lançados sobre Canjadude, mas sim sobre Nova Lamego e que o que originou a alteração dos alvos teria sido o PAIGC ter detectado (ou ter sido perseguido por) o grupo de milícias.

Não sei se esta versão corresponderá à realidade, nem se alguém terá dados para confirmá-la ou desmenti-la. O que me leva a supor que haja pelo menos um mínimo de verdade nisto, é que em todo o tempo que estive em Canjadude,esta foi a única vez que um grupo exterior à companhia CCAÇ 5 passou por lá para uma operação.

Observações pessoais:

Será que haveria informações que o PAIGC iria atacar Nova Lamego? Terá sido por isso que foi enviado um grupo de milícias para tentar que isso não acontecesse ? É evidente que atacar com mísseis Nova Lamego ou Canjadude, o impacto político-militar seria muito diferente:
- Manga de ronco!!! - diríamos nós, na época. Ou melhor: já não me lembro bem se a expressão utilizada era esta para grande façanha).


Anexo duas fotos a cores, mais algumas, a preto e branco, que ilustram a calmaria - direi mais, a dolce vita ! - em que se vivia em Canjadude, antes do famoso ataque com foguetões:

(i) Uma tirada quando vim de férias à Metrópole: uma Daimler, avariada, em cima de um GMC, talvez em Bambadinca... (a memória é fraca, se alguém me confirmar, eu agradeço!).

(ii) O nosso bar em Canjadude, vendo-se um dos bancos em que eu estava sentado quando se ouviu o lançamento dos mísseis terra-terra Katyusha. Neste bar foram feitos muitos terrafianços. (Não sei se a expressão era utilizada também nas outras companhias para designar farras com muita, muita, bebida).

Abraços para ti e para todos os tertulianos
João Carvalho
__________

Nota de L.G.:

(1) Vd post de 5 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXCIX: O ataque de foguetões a Canjadude, em Abril de 1973 (João Carvalho)

sábado, 4 de março de 2006

Guiné 63/74 - P588: A última noite em Canjadude (CCAÇ 5) (João Carvalho)

Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 > 1974 > A azáfama dos últimos dias ...© João Carvalho (2006)

Guiné > Bissau > 1974 > A peluda à vista para os tugas da CCAÇ 5... © João Carvalho (2006)

Olá, Luís:

A fotos que se publicam,em anexo, mostram: a primeira, os preparativos para a saída definitiva das NT de Canjadude, após a independência; a segunda, a chegada a Bissau, ao QG, para em seguida apanharmos o avião de volta à Metropole.

Relacionado com a retirada das NT de Canjadude, vou contar-te mais um dos episódios por que passei nesses lugares longínquos, mas que não nos saiem da memória.


A última noite em Canjadude

Finalmente chegou o dia! Pegar nos trapos e deixar Canjadude para regressar à metrópole. Peluda!!! Aquele regresso tão ansiosamente esperado!!!

Carregam-se as Berliet Tramagal e os Mercedes Unimog, com tudo o que era possível lá encaixar: caixotes com armamento, malas, etc, etc. A azáfama é grande, pois a quantidade de tralha para trazer é enorme e o dia é curto.

Com o aproximar do fim do dia, constatando-se que era quase impossível carregar tudo, foi decidido que partiria nesse dia uma coluna em direcção a Nova Lamego e que no dia seguinte algumas viaturas voltariam a Canjadude para transportar o resto, assim como um mini grupo das NT que ainda ficavam uma noite a tomar conta do resto dos pertences. Fui incluído nos que ficavam.

Depois de assistir à partida da coluna, dirigi-me para o abrigo, para me deitar um bocado, pois carregar viaturas deixa-nos um pouco cansados.

Como o abrigo já tinha diversas camas sem ocupação, pois os camaradas já tinham partido, as camas vagas foram ocupadas pelas tropas do PAIGC (ex-IN).

Nessa altura começaram os problemas. Um dos nossos camaradas furriéis do mini grupo (não me lembro qual) quis tirar o seu armário (caixote), para ir dar a um dos nossos soldados africanos que vivia na tabanca e a quem já o tinha prometido há muito.

Um dos soldados do PAIGC começou a refilar, porque aquilo agora era deles e que dalí não saia nada. A situação começou a ficar um bocado esquisita, se assim se pode dizer. Os ex-IN, deitados, com garrafas de cerveja (manga delas) e Kalashnikov na mão, não davam bom agouro àquela noite.

Saímos do abrigo e fizemos uma mini-reunião. A partida era complicada. Ainda havia bastante tralha para carregar e a única viatura existente era uma Berliet que tinha um buraco enorme no radiador.

A probabilidade de chegar a Nova Lamego durante a noite e com uma viatura naquele estado, era bastante remota. A alternativa era ficar e esperar que nada de grave acontecesse.

Foi decidido partir. Mesmo com a grande probabilidade de passar a noite no meio da picada, era mais seguro do que ficar.

Carregámos a Berliet de tal forma que, lá em cima da tralha, quase era necessário fazer equilibrio para não vir parar ao meio do chão. O nosso camarada mecânico resolveu improvisar (como bom português) e deitou no radiador água e cimento (sim, cimento em pó!).

Finalmente partimos. Pelo caminho, andando muito devagar devido à carga instável, fomos sempre deitando água (a pouca que conseguimos transportar) no radiador da bendita Berliet.

Já perto do final da picada, relativamente próximo da estrada alcatroada, fomos encontrar, para nosso espanto, parte das viaturas que tinham saído, ainda durante o dia, de Canjadude (Avarias também acontecem às máquinas que parecem estar em bom estado).

O mini grupo chegou ainda nessa noite a Nova Lamego, enquanto as viaturas que avariaram na picada, tiveram de esperar pelo dia seguinte para serem rebocadas.

Estas nossas estadias por aquela maravilhosa África foram cheias de pequenos episódios bons e maus, mas que nos marcaram, não há dúvida nenhuma.

João Carvalho

Guiné 63/74 - P587: Os últimos dias de Canjadude (fotos de João Carvalho)

Olá, Luís!

Se não me pedes para parar, não sei onde vais arranjar espaço para guardar tantas fotos.

Envio-te mais umas fotos, com as respectivas legendas, todas relacionadas com a partida em definitivo de Canjadude (1).

Um abraço
João Carvalho
(ex-furriel mil enfermeiro, CCaç 5 - Os Gatos Pretos,
Canjadude, 1973/74)

Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 > 1974 > Queima da papelada existente que não podia ser trazida e que não devia cair nas mãos do ex-IN, na altura da entrega do aquartelamento aos novos senhores da Guiné (JC).
Comentário de LG: Presumo que tenham sido dias de sentimentos contraditórios, de alívio e de tristeza... Para os africanos, para os verdadeiros gatos pretos, dias de tensão e de apreensão... Ou não ? Para os tugas, por sua vez, terão sido dias de descompressão, cantarolando o Hino da Velhice (2)...
© João Carvalho (2006)

Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 > 1974 > Penso que esta foto se refere à entrega da farda e armamento, por parte dos nossos soldadoa africanos. Não me lembro se também tinha a ver com o receber o último pré (JC).

Comentário de LG:
O que terão pensado os teus gatos pretos, agora abandonados pelos tugas ? Como terão vivido os dias que antecederam a chegada dos guerrilheiros do PAIGC, seus inimigos de muitos anos ? © João Carvalho (2006)


Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 > 1974 > O pessoal da tabanca teve autorização para ficar com os bidões vazios. Foi uma verdadeira corrida para ver quem conseguia ficar com eles (JC).

Comentário de LG:
Fracos despojos de guerra...

© João Carvalho (2006)
________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 23 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXXIV: O nosso fotógrafo em Canjadude (CCAÇ 5, 1973/74)

Guiné > Canjadude > 1974 > O PAIGC toma posse do antigo aquartelamento da CCAÇ 5 e hasteia a bandeira da nova República da Guiné-Bissau, na presença da população local (fula) e dos poucos brancos, fardados, da CCAÇ 5 ...
Fonte: João Carvalho / Wikipédia > Guerra do Ultramar (2006)

(2) Vd. post de 28 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXCIII: Cancioneiro de Canjadude (CCAÇ 5, Gatos Pretos)
Hino da Velhice
Ai....
Tirem-me daqui,
Mandem-me p'ra Metrópole,
Que eu estou a ficar maluco, maluco, maluco,
Quero ir daqui embora!...

Já lá vem o meu periquito
A saltar na bolanha,
Quando for daqui para fora
Nunca mais ninguém me apanha.

Quero ir embarcar...
E à Metrópole voltar...

Refrão

Despedidas eu vou fazer
E a arma entregar.
Depois então vou receber
A guia p'ra marchar.

Quero ir embarcar...
E à Metrópole voltar...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

Guiné 63/74 - P576: Cancioneiro de Canjadude (CCAÇ 5, Gatos Pretos, Canjadude, 1973/74) (João Carvalho)


Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (Gatos Pretos, 1973/74) - Guião

Foto: ©João Carvalho (2006)

O João Carvalho, que foi furriel miliciano enfermeiro dos Gatos Pretos, diz-nos que começou a rebuscar o seu "baú de recordações". E nessas voltas ao passado, "enontrei uma pequena bandeira dos Gatos Pretos. Digitalizei só uma face"...

A par desta preciosidade, também foi desencantar letras de canções com que os Gatos Pretos exorcizavam os seus fantasmas, os seus medos, as suas angústias nas noites longas de Canjadude (1)...

Fica aqui uma amostra desse Cancioneiro que eu tomei a liberdade de chamar o Cancioneiro de Canjadude, por analogia com o da Niassa (Moçambique) (3), tal como já tinha feito com os cadernos do Eduardo Magalhães Ribeiro, ex-furriel miliciano de operações especiais, da CCS do BCAÇ 4612, que teve o seu momento de glória em Mansoa, em 9 de Setembro de 1974, ao arrear a última bandeira verde-rubra, e que eu rebaptizei com o título Cancioneiro de Mansoa (3) .

Também já aqui publicámos, no nosso blogue, a famosa letra do hino de Gandembel (4). No meu tempo (CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71) era provavelmente a canção de caserna mais popular, passando de boca em boca. Guileje, Gadamael e Gandembel eram três nomes de aquartelamentos do sul que os periquitos, em Bissau ou na Zona Leste, pronunciavam com temor e respeito... Infelizmente já não me lembro da música...


O nosso camarada João Carvalho, ex-furriel miliciano enfermeiro da CCAÇ 5 (1973/74), hoje farmacêutico

©João Carvalho (2006)

Guiné> Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (Gatos Pretos, 1973/74) - Balada de Canjadude. Música: DEsconhecida. A letra é uma paródia do conhecidíssimo poema do Augusto Gil (1873-1929), Balada da Neve (do livro Luar de Janeiro, 1909) (LG).


© João Carvalho (2006)


Voam forte, fortemente,
Provocando o alvoroço.
Metralha de outra gente
Que pretende certamente
Estragar-nos o almoço.

Será talvez um tornado,
Mas ainda há pouco tempo,
Nem as chapas do telhado,
Nem o desconjuntado,
Se moviam com o vento.

Fui ver...
As morteiradas caíam,
Do azul cinzento do céu,
Grandes, negras, explodiam,
Como elas se moviam,
Mas que barulho, Deus meu!

Olho através da seteira,
Está tudo acinzentado.
Elas caem, que poeira,
Levantam à nossa beira,
Felizmente mais ao lado.

Ficando olhando estes sinais,
Deixados pela tormenta.
E isto por entre os mais,
Buracos descomunais,
Dos impates do oitenta.

Inesperado, cortante,
Eis que ribomba o canhão
Que, apesar de estar distante,
Com a sua voz troante,
Vem espalhar a confusão.

Com potente vozear,
Estas armas falam forte,
O canhão a metralhar,
Propõe-se a enviar
Sua mensagem de morte.

Que quem já é terrorista,
Sofra tormentos, enfim.
Mas esta tropa, Senhor,
Porque lhes dai tanta dor,
Porque padecem assim ?

É uma infinita tristeza,
Constante perturbação,
No coração é inverno,
Cai chumbo na natureza,
Canjadude é um inferno.



Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (Gatos Pretos, 1973/74) - Hino da Velhice. Música de Puppet on the String, uma canção do Reino Unido, composta por Bill Martin/Phil Coulter que ganhou o Festival da Canção da Eurovisão de 1967, interpretada por Sandi Shaw. (LG).

© João Carvalho (2006)

Refrão

Ai....
Tirem-me daqui,
Mandem-me p'ra Metrópole,
Que eu estou a ficar maluco, maluco, maluco,
Quero ir daqui embora!...

Já lá vem o meu periquito
A saltar na bolanha,
Quando for daqui para fora
Nunca mais ninguém me apanha.

Quero ir embarcar...
E à Metrópole voltar...

Refrão

Despedidas eu vou fazer
E a arma entregar.
Depois então vou receber
A guia p'ra marchar.

Quero ir embarcar...
E à Metrópole voltar...


Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (Gatos Pretos, 1973/74) - Bibóculos de guerra. Música: Vou partir, vou voltar, vou partir... (Conhecida música da época, mas já não me lembro quem era o intérprete) (LG)

© João Carvalho (2006)

Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (Gatos Pretos, 1973/74) - Gato Pira. Música: Negro Gato, do Roberto Carlos. ©João Carvalho (2006)


Minha triste história
Vou-lhes contar,
Por certo ao ouvi-la
Vão ter que tarrafiar!

Miau... Eu sou o gato pira (bis)

Manga de meses tenho
Para lutar,
Manga de chances tenho
Para escapar.
Mas se eu afinar,
Acabo num farrapo.

Miau... Eu sou o gato pira (bis)

Há dias, lá no mtao,
Pobre de mim,
Queriam as minhas penas
Para um ronco assim.
Apavorado eu pensei
Ai, que será de mim ?


Miau... Eu sou o gato pira (bis)


Guiné > Região do Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (Gatos Pretos, 1973/74) - Fado da Emboscada. Música: Fado do Embuçado (Autor: João Ferreira Rosa).

©João Carvalho (2006)

A história que eu vou contar,
Já há muito aconteceu,
Gatos pretos em acção,
Na grande operação,
Lacoste em Burmeleu.

A malt' ia pela mata,
Ainda não viar nada,
Mas por mal dos meus tormentos,
Com fortes rebentamentos,
Começou a emboscada.

Logo a malta reagiu,
No meio da confusão,
Atrás deles e a correr,
A gritar e a dizer
Gato preto agarra à mão.

Perante a admiração geral,
No meio da algazarra,
Enquanto os turras fugiam,
Os nossos os perseguiam,
A gritar Agarra, agarra!.

EW então já noitinha,
Quando a tropa instalou,
P'ra nosso contentamento,
Munições e armamento,
Foi o ronco que ficou.
____________

Notas de L.G.
(1) Vd. post de 23 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXXIV: O nosso fotógrafo em Canjadude (CCAÇ 5, 1973/74)

(2) vd post de 11 de Maio de 20054 > Blogantologia(s) - XI: Guerra Colonial: Cancioneiro do Niassa (1)

" (...) 1. No final dos anos sessenta, no norte de Moçambique, na região do Niassa, os soldados portuguesas entoavam fados e canções que relatavam as alegrias e as tristezas do seu quotidiano de guerra. O registo era, umas vezes, de bravata e paródia, e outras vezes mais triste e intimista... Era uma forma de exorcizar a angústia das emboscadas e das minas, de lidar com o stresse, de manter viva a ligação com a sua terra natal, de reforçar o seu espírito de corpo como combatentes e até de certo modo humanizar uma guerra que não parecia ter uma solução militar à vista. Nas letras dessas músicas podia-se inclusive descortinar sinais de contestação e até de resistência, sinais esses que minavam o moral das tropas e a vontade de combater.
"O mesmo se passava, de resto, noutras frentes de guerra, como a Guiné, como eu posso testemunhar pela minha própria experiência pessoal: as longas noites da Guiné eram passadas, muitas vezes, entre muitos copos de uísque, cerveja, intermináveis jogos de lerpa e longas sessões de fados, baladas e outras canções (com o Manuel Freire à cabeça, seguido do Zeca Afonso, do Adriano Correia de Oliveira, dos Beatles, do Bob Dylan, do Donovan e de tantos outros...): "Eles não sabem nem sonham/ Que o sonho comanda a vida...", era uma das nossas preferidas, sendo cantada e acompanhada à viola com um misto de saudades da nossa terra e de rebeldia contra o aparelho político-militar.
"Vários poetas e versejadores, de maior ou menor talento, pertencentes aos três ramos das forças armadas, contribuiram anonimamente para aquilo a que depois se veio a chamar o Cancioneiro do Niassa (5). As letras eram acompanhadas por melodias em voga na época, incluindo tangos e fados, tradicionais ou não, ainda hoje facilmente reconhecíveis (por ex., A Casa da Marquinhas, de Alfredo Marceneiro, ou a Júlia Florista, da Amália). O seu interesse não é literário mas sim documental, socioantropológico" (...).

(3) Vd post de 1 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXXVI: Cancioneiro de Mansoa (1): o esplendor de Portugal

" (...) O que o Ribeiro me mandou foi um carderno, de 47 páginas, onde ele conta, em verso, as peripécias da sua atribulada vida militar. Vou chamar a estes cadernos o Cancioneiro de Mansoa, por analogia com o Cancioneiro do Niassa. Está imbuído da ideologia ou (da mística) ranger, não é uma obra colectiva, é escrito por um dos últimos guerreiros do Império e, para mais, ao longo dos anos que se sucederam ao 25 de Abril de 1974 em que o autor também participou... O Cancioneiro do Niassa tem outra origem, outro contexto, outro tom... De qualquer modo, o Magalhães Ribeiro e os seus camaradas de operações especiais não me levarão a mal se eu chamar Cancioneiro de Mansoa ao conjunto destes versos, ditados pela nostalgia do império perdido e pela afirmação do valor e do patriotismo do soldado português" (...).
(4) Vd post de 30 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CDII: O Hino de Gandembel

(5) Vd ainda:

(i) Página do nosso camarada Jorge Santos > A Guerra Colonial > Canções do Niassa

(ii) Página do José Rabaça Gaspar > Cancioneiro do Niassa

"(...) as CANÇÕES que fazem parte da Gravação da Rádio Metangula, da Marinha, em 1969, na voz de João Peneque (Como é evidente, pedimos desculpa das falhas na gravação, que foi recuperada a partir de uma cassete gravada em 1969, pelos bons serviços dos amigos Manuel Aleixo e Manuel Cruz, a quem deixamos os melhores agradecimentos) " (...)

Este camarada fez parte da CART 2326, Os Lobos de Maniamba (Moçambique, 1968/70).


domingo, 5 de fevereiro de 2006

Guiné 63/74 - P482: O ataque de foguetões 122 mm a Canjadude, em abril de 1973 (João Carvalho, ex-fur mil enf, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", 1973/74)

Guiné > Gabu (Nova Lamego) > Canjadude > 1973 > CCAÇ 5 (Gato Preto) > Vista geral do aquartelamento... Em Abril de 1973, as NT são surpreendidas por um ataque certeiro de 6 foguetões 122 mm... Mais uma escalada na guerra... 

© João Carvalho (2005) (1)

Olá Luis

Peço desculpa de só agora te enviar qualquer coisa. ´Tenho falta de tempo, para procurar arquivos. 

Envio- te:

1 - a cópia de um aerograma que enviei de Canjadude em 1973 ao meu irmão. O original, não sei se ainda existe, mas por vezes eu escrevia numa agenda a cópia dos aeros que enviava e, por isso, ainda tenho o texto (com uma péssima redacção, mas...)

2 - Foto tirada no interior do Clube de Oficiais e Sargentos de Canjadude (sou o 2º a contar da direita).

3 - Foto tirada de cima duma das grandes pedras existentes em Canjadude. Vista geral da CCAÇ 5 .

João Carvalho
(ex-furriel milicano enfermeiro da CCAÇ 5, Canjadude, 1973/74)
____________

Canjadude (CCAÇ 5)

(...) No dia 27 de abril de 1973 às 22h e 50m, estava eu no clube de oficiais e sargentos, a conversar com mais dois furriéis e com o soldado que trabalha lá, quando ouvimos Bum-bum!!! (dois sons graves, logo seguidos). Um dos furriéis virou-se para o outro e disse:

- Não batas com os pés no balcão que é chato.- (Quando se bate no balcão, parece uma saída de morteiro).

Então o outro, com um ar muito espantado, diz:

- Mas eu não toquei no balcão. - Ficámos a olhar uns para os outros, assim meio desconfiados, até que chegámos à conclusão que devia ser um ataque pois, de imediato ouvimos um estrondo enorme e o clube abanou por todos os lados. Logo a seguir outro igual. Ficamos completamente despassarados e resolvemos sair a correr pela porta principal, porque se abrissemos a porta lateral, via-se luz cá de fora e podiam começar a atirar para nós.


Guiné > Gabu (Nova Lamego) > Canjadude > 1973 > CCAÇ 5 (Gato Preto) > Interior do Clube de Oficiais e Sargentos de Canjadude (o furriel miliciano Carvalho é o 2º a contar da direita... No mural, na pintura na parede, pode ler-se: [gato] preto agarra à mão grrr.... Percebe-se que estamos no Rio Corubal com o campo fortitifaco de Cheche do lado de cá (margem direita) e... a mítica Madina do Boé, do lado de lá (margem esquerda)... Em 24 de Setembro de 1973, em Madina do Boé, o PAIGC proclama a independência da nova República da Guiné-Bissau.

© João Carvalho (2005)


Eu vinha em último lugar a correr (semiagachado) a contornar o clube para ir para a vala, quando bati com a cara numa coisa duríssima e caí para trás e em cima do outro furriel que estava ainda no chão e que lhe tinha sucedido o mesmo. Levantámo-nos e ele disse que era uma viatura que estava ali parada (nós não víamos o Unimog porque saímos dum sítio com luz e ainda por cima como não havia lua não havia claridade nenhuma e a viatura não costumava estar estacionada naquele lugar).

Contornámos a viatura e metemo-nos na vala, andando ao longo desta para sairmos debaixo dos mangueiros. Olhei para dentro do quartel e vi um clarão enorme acompanhado de um grande estrondo (parecia que estava numa sala com 10 amplificadores ligados ao mesmo tempo). Entretanto começaram a sair do quartel, morteiradas para o mato e também rajadas de metralhadora, ou seja o fogo era já o nosso.

Um indivíduo que estava na metralhadora Breda, perto de nós, dava uma rajada, parava e depois berrava:

- Filhos disto e daquilo, não querem lá ver ?! Vêm gozar com a velhice ?! ... d

Depois, mais uma rajada e repetia a mesma coisa. Agora, quando me lembro, até dá vontade de rir! O fogo parou e eu e o outro furriel, fomos à enfermaria tratar da cara e dos outros feridos se os houvesse. Fiz um corte no nariz e debaixo de cada vista... o outro furriel tinha cortes um pouco menos profundos...

Um dos furriéis que também estava no clube contou que foi a correr pela parada do quartel e que se meteu dentro de um dos abrigos, tendo entrado pela janela um estilhaço que lhe passou por cima. 

Em conclusão, fomos atacados por 6 foguetões lançados mais ou menos a 12 km daqui. Um deles caiu a uns 300 m do arame farpado, outro mesmo no centro do quartel e os outros mais ou menos em cima do arame farpado. Não faço ideia como é que a 12 Km conseguem enfiar com os 6 foguetões praticamente dentro do quartel (2).

Felizmente não houve nada de grave. Só 3 pessoas é que apanharam com estilhaços, mas já com tão pouca força que só tiveram umas feridas superficiais. Houve muitos joelhos esfolados das valas mas... O foguetão que caiu no meio do quartel, deitou abaixo parte da cozinha, o que não faz mal pois aquilo já estava a cair! 

Este ataque pregou-nos um bom susto mas, com uma sorte incrível, não houve nada de especial. (...)
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Nota de L.G.:

(1) Vd post de 23 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXXIV: O nosso fotógrafo em Canjadude (CCAÇ 5, 1973/74)

(2) A utilização de foguetões 122 mm (ou mísseis terra-terra Katyusha), a partir de 1970,   e de mísseis terra-ar Strela, ambos de origem soviética, implicou uma escalada da guerra...

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

Guiné 63/74 - P453: O nosso fotógrafo em Canjadude (CCAÇ 5, 1973/74) (João Carvalho)

Guiné > Canjadude > 1973 > Restos de uma autometralhadora Daimler no itinerário entre Canjadude e o Rio Corubal (Cheche) ...

Fonte: João Carvalho / Wikipédia > Guerra do Ultramar (2006)

Guiné > Canjadude > 1974 > O PAIGC toma posse do antigo aquartelamento da CCAÇ 5 e hasteia a bandeira da nova República da Guiné-Bissau.
Fonte: João Carvalho / Wikipédia > Guerra do Ultramar (2006)


Guiné > Canjadude > 1974 > O furriel miliciano enfermeiro Carvalho, da CCAÇ 5, com um guerrilheiro do PAIGC, equipado a rigor e empunhando um kalash...
© João Carvalho (2006)

Guiné > Canjadude > 1974 > Posto de controlo do PAIGC, vendo-se um grupo de guerrilheiros aramados de kalash e de RPG-7.
Fonte: João Carvalho / Wikipédia > Guerra do Ultramar (2006)

1. No final do ano passado (26 de Dezembro último) fui contactado por um antigo camarada da Guiné que esteve em Canjadude (actual região do Gabu), de 1973 a 1974, na CCAÇ 5 . Convidou-me a ir ver uma foto de Canjadude na Wikipédia, a enciclopédia livre da Net, de que ele é colaborador, com um entrada sobre a Guerra do Ultramar.

2. Acabei , mais tarde (10 de Janeiro de 2006), por apresentá-lo a outro camarada, mais velho, que também esteve em Canjadude, na mesma companhia, a CCAÇ 5, mas uns anos antes (em 1968/69).

Tratava-se do José Martins, ex- furriel miliciano de transmissões, membro da nossa tertúlia, um estudioso da guerra da Guiné de quem já publicámos o relato dramático do desastre de Cheche, na sequência da retirada de Madina do Boé (1)...

Profissionalmente, o Martins é técnico de contabiliddae, trabalhando numa multinacional. Tinha-me telefonado, uns dias antes, do MARL (Mercado Abastecedor da Rgeião de Lisboa), em Loures, e tinha-se mostrado interessado em aderir à nossa tertúlia


3. Mandei a seguir a seguinte mensagem ao João Carvalho:

Vi as tuas fotos na Wikipédia e fiquei cheio de inveja... Tu és o que se pode dizer o homem certo no lugar certo.. Tu estavas lá no momento exacto (em 1974, em Canjadude) ... O sexto sentido do fotojornalista ? ... Autorizas que a gente publique algumas das tuas fotos dessa época ? Ou melhor: não queres ser tu apresentá-las, com uma legenda mais detalhada, no nosso blogue (que pode e deve também ser teu, no caso de entenderes fazer parte da nossa tertúlia)?

A propósito, já temos gente para formar um bigrupo (50/60)... Fico a aguardar uma resposta. É claro que na nossa caserna cabe sempre mais um camarada... Um abraço do Luís Graça


4. Resposta do João Caravalho, com data de 11 de Janeiro de 2006:

Olá, Luis:

Espero que não haja problema de te tratar desta forma mais que informal. Em Canjadude, fui furriel enfermeiro e neste momento sou farmacêutico.


2006 > O João Carvalho, ex-furriel miliciano enfermeiro da CCAÇ 5 (1973/74) e hoje farmacêutico

© João Carvalho (2006)

Em relação às fotos na Wikipedia, parece-me que pela legislação existente são consideradas de domínio público, ou seja, podem ser copiadas e mostradas por quem quiser e onde quiser. Portanto sintam-se à vontade para colocar no blogue as que quiserem.

Claro que quem tiver fotos que mereçam ser colocadas na Wikipedia também podem fazê-lo à vontade. Se houver alguma dificuldade ou alguma dúvida é só dizer, que eu ajudo no que me for possível.

Tenho sempre pouco tempo disponível (trabalho, trabalho...) e por isso é que ainda não entrei no blogue, mas podem contar comigo brevemente.

Este fim de semana estive a digitalizar mais 50 slides da Guiné e ainda me falta digitalizar mais algumas coisas. Tenciono colocar na Wikipedia ainda mais algumas fotos, quando conseguir arranjar tempo para isso.

(...) Permitem-me que retire informação do blogue, para a Wikipedia como por exemplo os efectivos do PAIGC ?

Até muito breve
Um abraço
João Carvalho


5. Nova mensagem do João Carvalho, aderindo à nossa tertúlia:

Como solicitado, segue em anexo uma fotografia minha tirada em 1974 na Guiné, acompanhado por um elemento do PAIGC. Será que esta foto serve como foto antiga ? Foto mais recente tenho que ir à procura. Envio logo que possível.

(...) Já acrescentei uma ligação externa (link) na Wikipedia para a página Subsídios para a história da guerra colonial > Guiné (1963-1974) (em português).
Está na Wikipedia > Guerra Colonial Portuguesa (2).
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Notas de L.G.:

(1) Vd post de José Martins, de 24 de Outubro de 2005 > Guiné 63/64 - CCLVII: A contabilidade dos mortos na operação de retirada de Madina do Boé

Vd. também post de 2 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXXXIII: O desastre de Cheche, na retirada de Madina do Boé

(2) A Wikipedia é um projecto de enciclopédia livre, a maior enciclopédia que está à disposição, sem encargos nem senhas de acesso, na Internet. Começada em 2001, a Wikipedia tem já, na sua versão inglesa, quase um milhão de artigos que são actualizados regularmente. Qualquer indivíduo pode editar esta enciclopédia, mandando artigos e documentos... É o caso do nosso camarada João Carvalho.