quinta-feira, 14 de julho de 2016

Guiné 63/74 - P16304: Notas de leitura (858): (D)o outro lado do combate: memórias de médicos cubanos: o caso do cirurgião Domingo Diaz Delgado, 1966-68, segundo o livro de H. L. Blanch (2005) - Parte IV: depois de 3 meses em tratamento do paludismo, em Conacri, o médico vai para a frente leste, em junho de 1967, regressando a casa em janeiro de 1968


Guiné > 1970 > s/l > Algures, numa enfermaria do mato, um "médico guerrilheiro" do PAIGC, seguramente cubano, faz um parto.  Uma das célebres fotos de Bara István o fotojornalista húngaro, nascido em Budapeste. 1942, que esteve 'embebed' com forças do PAIGC, no mato, em 1969/70. Ocorre-nos perguntar se médico. parturiente e criança (do sexo masculino) ainda estarão vivos. Oxalá /inshalla / enxalé!

Título da imagem em húngaro: "0084_Bara Istvan_Szules a dzsungelben 5, Guinea Bissau_1970.jpg [Em português, um nascimento no mato],

Fonte / Source: Foto Bara > Fotogaleria > Guiné-Bissau (com a devida vénia / with our best wishes...)

Estamos gratos a este conhecido fotojornalista magiar pelas imagens sobre a guerra colonial / guerra de libertação na Guiné-Bissau que disponibilizou na sua página. Isttvàn Bara continua manter, na sua página na Net, na sua galeria, esta e outras fotos que documentam bem a dura realidade da vida dos guerrilheiros do PAIGC e da população sob o seu controlo.  artimos do princípio que estas imagens são do domínio público.

Tentámos em tempos contactá-lo por e-mail, mas nunca recebemos resposta, para obtermos autorização para divulgação de mais fotos da sua fotogaleria. A Hungria, como se sabe,  é hoje um membro da União Europeia, e da NATO,  mas 1989 tinha um regime de partido único, e estava integrada no Pacto de Varsóvia. Penso que o fotojornalista de ontem se adaptou, com sucesso,  aos novos tempos e à economia de mercado. Na qualidade de diretor do MIT, e de fotojornalista com prestígio internacional, integrou em 1985 o júri do famoso prémio World Press Photo (mas ambém em 1986). Recorde-se que ainda estávamos em plena guerra fria.

Há apenas duas fotos, tiradas por ele, no Arquivo Amílcar Cabral / Casa Comum.


Quarta parte, enviada a 13 de julho último,  das "notas de leitura" coligidas pelo nosso camarada e grã-tabanqueiro, Jorge Alves Araújo. Trata-se de um extenso documento, que está a ser publicado em diversas partes (*), tendo em conta o formato e as limitações do blogue.  



Foto à esquerda:

O nosso grã-tabanqueiro Jorge Araújo: (i) nasceu em 1950, em Lisboa; (ii) foi fur mil op esp / ranger, CART 3494 / BART 3873 (Xime e Mansambo, 1972/1974); (iii) fez o doutoramento pela Universidade de León (Espanha), em 2009, em Ciências da Actividade Física e do Desporto, com a tese: «A prática Desportiva em Idade Escolar em Portugal – análise das influências nos itinerários entre a Escola e a Comunidade em Jovens até aos 11 anos»; (iv) é professor universitário, no ISMAT (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes), Portimão, Grupo Lusófona; (v) para além de lecionar diversas Unidades Curriculares, coordena o ramo de Educação Física e Desporto, da Licenciatura em Educação Física e Desporto].


1. INTRODUÇÃO

Caros tertulianos; eis a última de quatro partes em que foi dividida a publicação, no nosso blogue, da entrevista realizada pelo jornalista e investigador cubano Hedelberto López Blanch ao cirurgião Domingo Diaz Delgado, médico do primeiro grupo de clínicos cubanos chegados em junho de 1966 à Guiné Portuguesa [hoje Guiné-Bissau] para apoiarem o PAIGC na sua luta pela Independência.

Trata-se da primeira de três entrevistas organizadas pelo autor e que constam no seu livro, escrito em castelhano, com o título «Historias Secretas de Médicos Cubanos» [La Habana: Centro Cultural Pablo de la Torriente Brau, 2005, 248 pp.]. [Disponível "on line"em formato pdf, ].

Seguir-se-ão os depoimentos de Amado Alfonso Delgado (médico de clínica-geral, com experiência em cirurgia) e Virgílio Camacho Duverger (médico militar, especialista em cirurgia geral), onde cada um deles relata algumas das suas histórias de vida  passadas naquele contexto durante as suas missões,  de acordo o guião de entrevista utilizado pelo investigador. "(D)o outro lado do combate" é o título escolhido  por mim para explicitar o propósito da publicação deste meu trabalho neste espaço de partilha.

O livro merece uma leitura integral: o autor conseguiu localizar e entrevistar 15 médicos cubanos que estiveram, como "voluntários" em missões no estrangeiro, de "ajuda humanitária" e "solidariedade internacionalista", de 1963 a 1976, em diversos contextos africanos: Argélia, Guiné-Bissau, Congo Leopoldville, Congo Brazzaville  e Angola.

A primera brigada sanitária cubana chegou à  Argélia en maio de 1963: tinha 55 membros. incluindo 29 médicos- Por  tszões de "segurança de Estado", estas "histórias" tiveram que se manter "secretas".

Só a partir de 2001 é que o jornalista, investigador e escritor  H. L. Blanch [, foto à esquerda,] pode começar a trabalhar este tema. Doze dos entrevistados são apresentados como "médicos guerrilheiros"; os outros 3 (incluindo uma mulher) integraram a missão da Argélia, que não  era militar (nem, portanto, secreta).  Recorde-se que a Argélia tornou-se independente em 1962, depois de uma longa e sangrenta guerra contra a França.

Porque se trata de uma tradução (com adaptação livre e fixação do texto em português, da minha responsabilidade),  não farei juízos de valor sobre os diferentes depoimentos:  apenas coloquei  entre parênteses rectos algumas notas avulsas de enquadramento socio-histórico ao que foi transmitido,  com recurso a imagens desse contexto retiradas da Net e dos arquivos deste blogue.

2. O CASO DO CIRURGIÃO DOMINGO DIAZ DELGADO [IV]

Para melhor compreensão da contextualização deste último fragmento sobre o médico em título, sugere-se a leitura dos P16224, P16234 e P16285, primeira, segunda e terceira parte destas "notas de leitura" (*).

O primeiro poste está relacionado com a preparação para a missão africana, a viagem (secretíma) de barco até à Guiné-Conacri e os primeiros contactos com a estrtutura do PAIGC noterreno. O segundo tem a ver com a  explicação/caracterização do leque de actividades clínicas presentes no quotidiano de um médico naquela guerra de guerrilha, das duríssimas condições logísticas vividas em bases improvisadas, provisórias e de parcos recursos, ora socorrendo os guerrilheiros feridos nos combates, ora cuidando das maleitas apresentadas pela população sob o seu controlo. Por fim,  no terceiro poste,  o entrevistado fala das actividades operacionais em contexto de bigrupo durante os primeiros três meses de 1967 na região [frente] Norte [Sambuiá] até ao momento em que começou a ter vários problemas de saúde que o obrigaram a fazer uma viagem, já em março de 1967.  até Conacri para recuperação/restabelecimento. e onde ficou 3 meses.

Utilizando o mesmo instrumento já apresentado no P16234 [Suprintrep n.º 31, de 13 de fevereiro de 1971 - P2787] dá-se conta na linha azul (mapa abaixo) da geografia dos itinerários percorridos pelo médico Domingo Diaz, também designados por “corredores”, ligando as diferentes bases do PAIGC, durante os primeiros oito meses da sua missão [julho de 1966 a março de 1967].

A estrela verde corresponde aos itinerários utilizados durante o segundo período na região [frente] Leste, entre junho e dezembro de 1967, com destaque para as actividades desenvolvidas em Madina do Boé e Beli.


Mapa das regiões [frentes e bases do PAIGC]. A linha azul corresponde ao primeiro período da missão de Diaz Delgado  (de julho de 1966 a março de 1967), na Frente São Domingos / Sambuiá. A estrela verde corresponde ao segundo período (de junho a dezembro de 1967), na Frente Bafatá  / Gabu (Sul). Infogravura adapt. de Supintrep nº 31, fevereiro de 1971.

Se em junho de 1967 Diaz Delgado  vem de Conacri, onde esteve a ser tratado de uma crise de paludismo, para a região do Boé, não faz sentido a nossa referência, no poste anterior [P16285],  à Op Cacau, realizada em  4/6/1967, e em que morreu o cap inf José Jerónimo da Silva Cravidão, cmdt da CCAÇ 1585, na região de Bricama (Farim), justamente no dia em que fazia 25 anos... 

O médico cubano refere uma data anterior,  março de 1967, para o ataque das NT a Sambuiá,  na véspera de ser  evacuado para Conacri com paludismo, regressando ao fim de 3 meses... No período em que o Diaz Delgado esteve na Guiné, na frente norte, entre agosto de 1966 e março de 1967 e depois na frente leste, entre junho de 1967 e janeiro de 1968, não temos informação de mais nenhum comandante de companhia das NT morto em combate numa operação. O Diaz Delgado pode estar a querer referir-se a um alferes, substituto do comandante de companhia. Quem poderá ter morrido em março de 1967 no ataque à base de Sambuiá ?









Indice da obra. A versão em pdf não está paginada,  Hedelberto López Blanch: «Historias Secretas de Médicos Cubanos» [La Habana: Centro Cultural Pablo de la Torriente Brau, 2005, 248 pp. [Consulta em 30 de maio de 2016]. Disponível em: http://www.centropablo.cult.cu/libros_descargar/historiamedicos_cubanos.pdf. [A versão disponível em pdf,. embora integral, não está paginada; em papel a obra tem 248 pp, em versão digiral 147 pp.]


Capítulo 10 - Onde o tempo não se mede pelo relógio” (continuação). Transcrição da entrevista de Diaz Delgado, com as seis últimas questões [da 23ª à 28ª, identificadas por nós em numeração romana] (**)


(xxiii) Depois da recuperação em Conacri, 
aonde o colocaram?


Após um forte tratamento médico e com uma recuperação quase total, enviaram-me para a zona [frente] Leste. Esta região era um pouco mais tranquila do ponto de vista militar, embora se realizassem várias operações. Por exemplo Víctor Dreke [, o chefe da missão cubana, em Conacri] dirigiu um dos ataques a um quartel. Anteriormente [novembro de 1966] tinha-se verificado ali um combate importante onde mataram um dirigente do PAIGC, o comandante Domingos Ramos.

[Domingos Ramos foi morto em Madina do Boé, em 10 de novembro de 1966 (curiosamente o dia do meu 16.º aniversário), sendo considerado, por esse facto, um herói da Guiné-Bissau, uma vez que fez parte do grupo de pioneiros da luta de libertação, sob a liderança de Amílcar Cabral (1924-1973). Morreu ao lado do cubano Ulisses Estrada.Tem o seu nome ligado à toponímia e a instituições de ensino do país. O seu rosto figura em notas do Banco Central da Guiné-Bissau – exemplo da nota de cem pesos de 1983 e 1990. Tinha também um irmão na guerrilha, o Pedro Ramos – P16123].


[Imagem à esquerda: Efígie de Domingos Ramos, em nota de 100 pesos do Banco Central da Guiné-Bissau, emitida em 1990].


Para Domingo Diaz, a frente Leste era uma região onde se combatia, mas não com as mesmas características das do Norte. No Leste era uma zona mais isolada, com uma fronteira amiga, ou seja, a Guiné-Conacri.

Na zona de Madina do Boé morreu um companheiro cubano por uma úlcera perfurada ao comer umas folhas muito ácidas daquele lugar, que se chamam "foli" [também se diz "fole", com o fruto faz-se sumo]. Os nativos comem-nas para ter mais força e reanimarem-se, pois é muito ácida. 

A este companheiro se lhe perfurou o estômago e quando chega às minhas mãos está em agonia. Fiz tudo o que estava ao meu alcance para lhe conter a hemorragia, e,  como carecíamos de instrumentos cirúrgicos, tentámos transferi-lo para o pequeno hospital de Boké, na Guiné-Conacri, mas faleceu durante a viagem. Este companheiro foi sepultado ao lado da base aonde nos encontrávamos [no Boé].

[A morte deste cubano – o tenente Radamés Sánchez Bejerano – ocorreu em 19 de julho de 1967, cinco dias depois de um ataque de artilharia efectuado pelos guerrilheiros do PAIGC ao quartel de Madina do Boé, conforme depoimento do médico Domingo Diaz publicado no livro «La Historia Cubana en África – 1963-1991», de Ramón Pérez Cabrera, 2011, p. 152. (Imagem da capa, à direita),

[ Aí se refere que após concluído o ataque, e na sequência da retirada, o tenente Radamés Sánchez perdeu-se na mata durante dois dias e por efeito de ter fome comeu umas folhas muito ácidas que lhe provocaram lesões no estômago. Tinha vinte e nove anos. (…) Esta foi a segunda baixa no contingente cubano em missão na Guiné-Bissau, sendo a primeira a de Félix Barriento Laporté, ocorrida duas semanas antes, em 3 de julho de 1967, durante o ataque ao quartel de Mejo. Na retirada, o artilheiro cubano morreu ao ser atingido por uma granada de obus. Tinha vinte e cinco anos. (op.cit. p.152)].


(xxiv) Que características tinham 
os guineenses?

Recordo muitos nomes valiosos, de chefes e soldados muito valentes que estavam dispostos a morrer antes de um cubano cair nas mãos do inimigo. Às vezes ouve-se falar de pessoas que são mais ou menos combativas. Creio que a guerrilha mais combativa, decidida e valente que havia em África naquela época, era a integrada pelos homens dirigidos por Amílcar Cabral [1924-1973].


(xxv) Nas caminhas pelas matas 
teve experiências com serpentes?


Claro que sim. Atendi vários com mordidelas de serpentes e também vi morrer à minha volta seis nativos por esse motivo. Eram principalmente da população civil. 

Recordo um caso na Zona Leste, um homem que chegou em muitas más condições e lhe tinham feito um garrote na perna, a qual estava em muito mau estado, com muitas borbulhas e praticamente preta. Comecei a tratá-lo e eu tinha uma ferida no pé. Usava  uns chinelos de plástico [hoje, havaianas] que os naturais utilizavam muito e a que me acostumei,  a esse tipo de calçado. Não me lembrei que tinha essa ferida no pé e já havia visto morrer gente à minha volta por picadelas de serpente.

Para esse tratamento fazíamos um corte em cruz no lugar da picada, levantávamos a pele nessa zona e começávamos a drenar para que saísse o sangue. Todo esse líquido me ia caindo na ferida que eu tinha no pé. Não sabia se isso me podia fazer mal ou não. Tomei a decisão de colocar um garrote na perna e fazer-me uma ferida. Não tinha bisturi, senão um canivete, que não estava esterilizado, mas era tanta a adrenalina que não senti o corte, e comecei a drenar. Um companheiro cubano controlava o garrote. Não tínhamos soro antiveneno para aplicar nessa zona. Em cada quarenta e cinco minutos aliviava dez minutos o garrote para que o sangue fluisse.

Passaram as horas e não senti nenhum sintoma. Provavelmente tomei esta decisão muito apressada, mas como tinha visto morrer cinco pessoas não quis arriscar a ser mais a sexta. Os companheiros que estavam comigo eram gente competente, um grupo de tropas especiais de dez guerrilheiros, embora não estivessem acostumados às lides  médicas. Dois deles desmaiaram, mas depois outro ficou a ajudar-me até ao fim.




Um curioso mapa da Guiné, sem data nem origem... Veja-se como os cubanos viam o território. Os únicos rios sinalizados são o Farim e o Corubal, Madina (do Boé) tem a mesma importância que as outras povoações donde faltam topónimos importanets como Nova Lamego (Gabu), Teixeira Pinto (Canchungo), Mansoa, Xime, Bambadinca, Catio, Cacine... Ziguinchor (no mapa, grafado como Zinguinchor), no Senegal, e Boké e Conacri na repúblcia da Guiné são as três únicas referências, nos países vizinhos,  que convinha ficar... Fonte: H. L. Blanch (2005).



(xxvi) Quando e como regressou 
da Guiné-Bissau?


Regresso em janeiro de 1968, ou seja, estive nesta missão durante vinte meses e em zonas de combate cerca de dezasseis. Regressei em más condições. Quando parti tinha 80 quilos e saí da Guiné-Bissau só com cinquenta. Com o objectivo de me recuperar, levaram-me a Conacri onde embarquei no navio cubano Pinar del Rio, que ia com destino ao Congo Brazzaville. Esses sete dias de viagem, mais uma semana no Congo, carregando troncos de árvores, e outra semana para regressar à Guiné-Conacri para recolher os restantes companheiros, serviram para me restabelecer um pouco.

O meu grupo regressa com o que pensámos ser aquele que nos iria substituir, uma vez que quando tínhamos oito meses de actividade em território da Guiné-Bissau, chega o segundo grupo cujo objectivo era reforçar a missão. No final regressamos todos juntos.

Desse segundo grupo quero fazer menção ao doutor Raúl Currás Regalado, que esteve todo o tempo na Zona Sul da Guiné-Bissau. Posteriormente foi cumprir uma missão internacionalista em Angola, aonde participou na companhia do clínico cubano Martin Chang Puga em várias acções de guerra. Durante uma deslocação, o veículo aonde seguiam voltou-se e perderam a vida. Currás tinha características excepcionais e deixou dois filhos e a esposa. E Chang, que não esteve na Guiné-Bissau, era epidemiologista, e também deixou filhos e esposa. [Os dois são considerados "mártires" pelo reime cubano].


(xxvii) Como foi a chegada do grupo 
a Cuba?


Em Cuba fomos recebidos pelo então capitão Guillermo Rodriguez del Pozo, chefe dos Serviços Médicos das FAR [, Forças Armadas Revolucionárias], e seu adjunto, Ángel Fernández Vila. Chegámos a Mariel e fomos para um acampamento aonde durante dois dias nos fizeram exames médicos. Ali nos foram visitar o comandante Pedro Miret, designado por ministro das FAR  Raúl Castro [n. 1931, atual presidente de Cuba]. 

Sentimo-nos muito orgulhosos e reconhecidos pelas palavras que nos dirigiram, e a todos os companheiros que participaram nesta missão nos entregou uma pistola «Makarov», a qual guardo ainda. [Pistola semiautomática, de 9 mm, que entrou em 1951 ao serviço das forças armadas e políciais da antiga União Soviética, substituindo a obsoleta Tokarev].


(xxviii) Que fez ao regressar 
a Cuba?

Conclui a especialidade de neurocirurgia. Já tinha experiência desde quando era estudante de medicina ao prestar apoio nos Centros. Nesse tempo existiam somente três mil médicos em Cuba e os cirurgiões eram muito poucos. Antes de partir para a Guiné-Bissau fiz o internato com o sistema do Instituto Nacional de Cirurgia e Anestesiologia (INCA), criado pelo comandante René Vallejo para formar no imediato cirurgiões e anestesistas. Nesse ano de internato realizei operações de cirurgia superior e quando regressei da missão queria fazer neurocirurgia. 

Estive três anos e meio no Instituto de Neurologia e Neurocirurgia e graduei-me como especialista de primeiro grau nessa área. Depois estive oito meses no Hospital Joaquin Castillo Duany, no Oriente, como chefe dos Serviços de Neurocirurgia, e mais tarde transferi-me para o Hospital Naval como chefe da mesma especialidade, até 1979. Daí passei para o Ministério do Interior com a perspectiva da fundação do CIMEC [Centro de Investigaciones Médico-Quirúrgicas] em 1982, aonde trabalho desde o seu início como vice-director para a docência e a investigação.




Guiné > c. 1966//67 > s/l > Provavelmente base de Sambuia, em 1967... Da direita para a esquerda, os médicos Pedro Labarrere (falecido),  Domingo Díaz Delgado e Teudy Ojeda... O primeiro da direita era o chefe do grupo cubano da Frente Norte, o tenente Alfonso Pérez Morales (Pina). Fo anexa ao livro de H.L. Blanch (205). Reproduzida com a devida vénia...



Domingo Diaz Delgado - Nota biográfica (adapt por JA):

(i)  nasceu em 1936, numa povoação chamada Florencia, na província de Camaguey, mas foi registado em Arroyo.  Arenas, na província da cidade de Havana;

(ii) terminou o bacharelato no Instituto de Marianao,  em 1957;

(iii) começou a estudar medicina em 1959, devido a estar fechada a Universidade desde 1956, quando se agudizou a luta contra o ditador Fulgêncio Batista Zaldivar (1901-1973);

(iv)  em meados de 1958 foi detido pela ditadura e levado à Décima Estação de Polícia situada no El Cerro, em Havana; ali foi torturado durante vários dias, mas, por alguns esforços que foram desenvolvidos, foi libertado e saiu para o México;

(v) regressou ao país em janeiro de 1959, depois do triunfo da revolução castrista;  decidiu retomar os seus estudos, matriculando-se na Escola de Medicina.

(vi) em 1961, quando se funda a Associação de Jovens Rebeldes, passou a ocupar o cargo de secretário organizador na Escola de Medicina;

(vii) mais tarde, em 1962, aderiu à União de Jovens Comunistas;

(viii) desde os primeiros anos, trabalhou como interno  de cirurgia no Hospital Militar Carlos J. Finlay;

(ix) terminou o internato de cirurgia em 1965;

(x)  pertenceu ao grupo de médicos que subiu, em 14 de novembro de 1965,  ao Pico Cuba Turquino, a cuja graduação presidiu o Comandante-chefe Fidel de Castro (n. 1926) [tratou-se da primeira geração de médicos formados pelo regime: 400 médicos e 26 estomatologistas]

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Notas do editor:

(*) Postes a nteriores:

22 de junho de 2016 > Guiné 63/74 - P16224: Notas de leitura (850): (D)o outro lado do combate: memórias de médicos cubanos: o caso do cirurgião Domingo Diaz Delgado, 1966-68, segundo o livro de H. L. Blanch (2005) - Parte I: a partida de La Habana e os primeiros contactos com o PAIGC (Jorge Araújo, ex-fur mil op esp / ranger, CART 3494, Xime-Mansambo, 1972/1974)

24 de junho de 2016 > Guiné 63/74 - P16234: Notas de leitura (851): (D)o outro lado do combate: memórias de médicos cubanos: o caso do cirurgião Domingo Diaz Delgado, 1966-68, segundo o livro de H. L. Blanch (2005) - Parte II: a vida dura nas base de Sara, na região do Oio (Jorge Araújo, ex-fur mil op esp / ranger, CART 3494, Xime-Mansambo, 1972/1974)

Guiné 63/74 - P16303: Efemérides (232): Romagem ao cemitério de Lavra de Homenagem aos Combatentes mortos na Guerra do Ultramar, levada a efeito no passado dia 2 de Julho de 2016 (Carlos Vinhal)

Panteão aos lavrenses caídos em campanha na Guerra do Ultramar
Foto: © Dina Vinhal (2016)


ROMAGEM AO CEMITÉRIO DE LAVRA DE HOMENAGEM AOS COMBATENTES MORTOS NA GUERRA DO ULTRAMAR

Realizou-se em Matosinhos, Lavra, no dia 2 de Julho de 2016, a tradicional romagem anual ao cemitério em homenagem aos combatentes mortos na Guerra do Ultramar.

A cerimónia foi promovida pelo Núcleo, em colaboração com a Junta da União das Freguesias de Perafita, Lavra e Santa Cruz do Bispo – Pólo de Lavra.

Pelas 10H30 iniciou-se a comemoração com a concentração dos participantes em frente ao edifício da Junta, sendo de seguida içada a Bandeira Nacional pelo Presidente da Direção do Núcleo ao mesmo tempo que o Grupo Coral do Núcleo entoava o Hino Nacional e a força militar solicitada para o efeito, constituída por um Clarim da Brigada Ligeira de Intervenção – Coimbra e por uma Secção do Regimento de Transmissões do Porto, prestava as honras militares à Bandeira Nacional.

Início das cerimónias com o hastear da Bandeira Nacional, ladeada pelas bandeiras do Município e da União de Freguesias

Procedeu-se à deposição de uma coroa de flores no memorial em frente ao edifício daquela Junta pelo Presidente da Junta, Presidente da Direção do Núcleo e 1.º Secretário da Mesa da Assembleia Geral do Núcleo.

Deposição de uma coroa de flores no Memorial junto do edifício da Junta de Freguesia

Posteriormente, os participantes seguiram em romagem ao cemitério local, acompanhando o porta guião do Núcleo e a força militar.

Deslocação para o cemitério. Porta-estandarte, o combatente José Trindade

Pelas 10H45, já no cemitério junto ao Panteão onde se encontram os lavrenses que tombaram pela Pátria, realizou-se a cerimónia militar onde o Presidente da Junta começou por fazer a chamada de todos os combatentes mortos na Guerra do Ultramar da União das Freguesias de Perafita, Lavra e Santa Cruz do Bispo, seguindo-se a deposição de uma coroa de flores, no referido Panteão, pelo Presidente da Junta, Presidente da Direção do Núcleo e 1.º Secretário da Mesa da Assembleia Geral do Núcleo.

Momento da deposição da coroa de flores no Panteão

A cerimónia prosseguiu com os respetivos toques de homenagem aos mortos e, na altura do minuto de silêncio, foi cantado um salmo pelo Grupo Coral do Núcleo e lida a prece do Exército pelo sócio combatente Manuel Monteiro.
 
Momento da homenagem aos combatentes de Lavra, Perafita e Santa Cruz do Bispo caídos em campanha

O Combatente Manuel Monteiro durante a leitura da Prece do Exército

Dando continuidade ao programa traçado, foram proferidas alocuções alusivas ao ato pelo Presidente da Direção do Núcleo, Tenente Coronel Armando Costa e pelo Presidente da Junta da União das Freguesias de Perafita, Lavra e Santa Cruz do Bispo, Sr. Rodolfo Mesquita.
Por último, o Grupo Coral do Núcleo cantou o Hino da Liga dos Combatentes.

O senhor Tenente Coronel Armando Costa, Presidente do Núcleo de Matosinhos da LC, no uso da palavra

Momento em que o Presidente da Junta da União das Freguesias de Perafita, Lavra e Santa Cruz do Bispo, senhor Rodolfo Mesquita, usava da palavra na qualidade de combatente.

Momento em que os presentes cantavam o Hino da Liga dos Combatentes

Terminada a cerimónia, e na Sede da União de Freguesias, o Grupo Coral do Núcleo fez a sua primeira atuação em Lavra, perante dezenas de combatentes, familiares e amigos, cantando três temas populares. A finalizar, foi servido um porto de honra a todos os participantes que, num ambiente de franco convívio e camaradagem, fortaleceram o ideal patriótico e humanista que a Liga dos Combatentes proclama como um dos seus grandes objetivos, aproveitando-se ainda este momento para cimentar a excelente parceria entre as duas instituições.

O Grupo Coral do Núcleo de Matosinhos numa das suas actuações

Parte dos presentes no Salão Nobre do Polo de Lavra quando assistiam à actuação do Grupo Coral

Foto de família com alguns dos combatentes presentes e o Grupo Coral

Texto e fotos: © Núcleo de Matosinhos da LC
Fotos editadas e legendadas por CV
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Nota do editor

Último poste da série de 16 de junho de 2016 > Guiné 63/74 - P16207: Efemérides (231): Leça da Palmeira homenageia os seus Combatentes no Dia de Portugal (Carlos Vinhal)

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Guiné 63/74 - P16302: Em busca de... (268): Alferes mil Serra, que esteve no Quartel General (Santa Luzia) em 1972/73, e que se reunia, no Café Império, com um grupo de jovens amigos guineenses, incluindo eu, Camilo Camussa, hoje com 62 anos, cofundador de várias ONGD, consultor independente, a viver em Bissau, amigo do Pepito e do Leopoldo Amado


Guiné > Bissau > Foto de grupo > O alf mil Serra, o único branco do grupo, com os seus amigos guineenses, que se costuimavam reunir no Café Império,  c. 1972/73 (*).

Foto: © Camilo Camussa  (2016). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem,  com data de 7 do corrente, de Camilo Camussa [, foto atual à direita]:



Nesta foto [ de grupo, acima, ]   é possível ver de esquerda para direita;

(i)  as pessoas que estão de pé,  pode-se identificar: Pedro Benvindo Gomes Araújo encontra-se em Argélia, Mamadu Candé,  médico,  encontra-se em Bissau, e Pedro Saido Moreira Embalo,  é ex-governador de Gabu;

(ii)  sentados,  Alferes Serra,  eu,  Camilo, e Armando Cherno Djaló,  hoje reformado nas finanças, 

A foto foi tirada ao lado do Café Império,  no Foto  Arco Iris, atual Orange. 

O Café Império ainda existe na Praça dos Heróis Nacionais, perto da Embaixada de Espanha com o mesmo nome, a vossa foto não reflete a imagem do Café Império (**). 

Almocei hoje em minha casa com o doutor Leopoldo Amado o qual me falou muito da vossa amizade, dado que ele é um amigo meu. 

O alferes Serra era um oficial lúcido, penso que ele fazia parte de um partido ou de um movimento de oposição ao regime de então, não o posso afirmar a 100%.  Assim que tiver mais dados enviarei, obrigado.

Camilo Camussa


Guiné-Bissau > Novembro de 2000 > Praça dos Heróis Nacionais > Café Império (**)

Foto: © Albano Costa (2016). Todos os direitos reservados  [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


2. Comentário do editor LG:

Continuam a ser escassas as informações sobre o teu "tuga": sabemos que (i) era alferes miliciano; (ii) de apelido Serra (não era normal os militares portugueses serem conhecidos pelo nome prórpio); (iii) devia estar colocado no Quartel General, em Santa Luzia, mas não sabemos em que serviço ou repartição; (iv) reunia-se com vocês no Café Império; (v) falavam de política, de literatura; (vi) ele emprestava-vos livros "proibidos"; e (vi) deixaste de ter contacto com ele em finais de 1973.

Fico feliz por saber que estiveste com o nosso amigo e membro sénior da nossa Tabanca Grande, Leopoldo Amado, do qual temos cerca de 7 dezenas de referências no nosso blogue.Tivemos o privilégio e a honra de assistir na Reitoria da Universidade de Lisboa, em 28 de Maio de 2007, ás suas provas públicas de doutoramento em História Contemporânea

Enfim, eras também amigo do nosso saudoso amigo Pepito. E deves também, eventualmente,  ser amigo do Patrício Ribeiro, da empresa Impar Lda, mais conhecido em Bissau como o "pai dos tugas"... 

E parabéns pelo nosso Éder, ou Ederzito, que vai ficar na história do futebol como o menino de Bissau que marcou o golo da vitória (e que golo!) da seleção de Portugal, no campeonato europeu de futebol de 2016. 

Como sabes, estamos "proibidos" de falar aqui no blogue de política  (partidária...), de futebol (clubístico...) e de religião (igrejas...).  De qualquer modo o Éder e a sua história de vida e o feito (histórico) da seleção portuguesa de futebol (sénior) são razões fortes para abrir uma aceitável exceção. Pois, então, que o futebol seja também um valor acrescentado para os nossos dois povos, para a lusofonia e para o combate (universal) contra o racismo e a pobreza!... Ab. fraterno, LG.
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(***) Vd. poste de 9 de julho de 2016 > Guiné 63/74 - P16287: Memória dos lugares (340): Café Império, Praça dos Heróis Nacionais, Bissau, em novembro de 2000 (Albano Costa, ex-1.º cabo da CCAÇ 4150, Bigene e Guidaje, 1973/74, o fotógrafo de Guifões, Matosinhos)

Guiné 63/74 - P16301: Manuscritos(s) (Luís Graça) (87): Um exemplo, de promoção do envelhecimento ativo e saudável, para os nossos tabanqueiros sedentários: a tertúlia dos caminheiros da Quinta das Conchas, Lumiar, Lisboa,

1. Há um grupo de gente sénior, alguns amigos e camaradas da Guiné, membros da nossa Tabanca Grande (Alice Carneiro, João Martins, Joaquim Pinto de Carvalho e esposa Maria do Céu ...) que se juntam todas as terças feiras de manhã para conviver e fazer duas horas de caminhada na Quinta das Conchas, no Lumiar, em Lisboa... 

De tempos a tempo fazem uma visita lúdico-gastronómico-cultural, geralmente de dois dias, fora de Lisboa... E almoçam juntos, em certas datas marcantes. Antes da partida para as férias de verão, fazem uma celebração gastronómico-tertuliana no restaurante O Arranhó, ali perto da Quinta das Conchas.  São todos ou quase todos (e são mais elas do que eles) gente reformada, das mais diversas profissões, magistrados, advogados, professores, engenheiros, médicos, enfermeiros, jornalistas, topógrafos, técnicos de serviço social, etc.

É a tertúlia da Quinta das Conchas, ao qual eu não pertenço, mas que me acolhe com simpatia e amizade, sempre que por lá apareço... Uma vez por outra, sento-me à mesa come eles e elas, os/as caminheiros/as da Quinta das Conchas, para dar dois dedos de conversa, tomar um café, almoçar... Costumo levar para a "sobremesa" uns versinhos, de fabrico próprio,,,  Estes foram os últimos que fiz (e declamei), ontem, no encerramento das atividades da tertúlia... Publico também os do útimo Natal.

Regressam no início do novo ano de 2016/17... E oxalá / inshallá / enxalé o seu exemplo frutifique, nomeadamente entre os nossos "tabanqueiros".., que são mais "sedentários". Os caminheiros da Quinta das Conchas promovem o envelhecimento ativo, e saudável,  através da atividade física e do convívio. [ A Organização Mundial de Saúde define envelhecimento ativo como o processo de optimização das oportunidades para a saúde, participação e segurança, para melhorar a qualidade de vida das pessoas que envelhecem.]

Não é preciso lembrar que Portugal é cada vez mais um país grisalho: falando com números, e reportando-nos ao início da guerra colonial, 1961, basta-nos  comparar dois índices ou indicadores;
(i) em 1961 o índice de envelhecimento era de 27,5%; hoje (2015). é de 143.9 %. [O índice de envelhecimento é o número de pessoas com 65 e mais anos por cada 100 pessoas menores de 15 anos. Um valor inferior a 100 significa que há menos idosos do que jovens. Relação entre a população idosa e a população jovem, definida habitualmente como o quociente entre o número de pessoas com 65 ou mais anos e o número de pessoas com idades compreendidas entre os 0 e os 14].


(ii) O índice de longevidade é o número de pessoas com 75 e mais anos por cada 100 pessoas com 65 e mais anos. Quanto mais alto é o índice, mais envelhecida é a população idosa. Em 1961 era de 33.6%, hoje (2015) é de 49,0%. (Fonte: Pordata).

Para o João Martins [, foto atual, à esquerda,] que anteontem foi submetido a uma intervenção cirúrgica programada, eu desejo-lhe (e, por certo, os seus companheiros da Quinta das Conchas também lhe desejam, tendo sido comentada a sua ausência) uma rápida convalescença e restabelecimento. [Tem página no Facebook.] LG



Natal de 2015

Depois do café, p’la manhã,
Cá na quinta, sempre às terças,
Nesta pista de tartã,
Eles dão a volta às berças.

Poucos  são os de Lisboa,
Vieram do sul, centro e norte,
Caminhar é coisa boa,
Dá saúde, esconjura a morte.

É um grupo excursionista,
Desportivo e cultural,
Não há cá gente pessimista,
Pode é não ser… pontual.

P’ra chefiar nenhum se oferece,
Nem o grupo tem um hino,
Tem líder, ao que parece,
Vai à frente, o Laurentino.

São os das Conchas, os concheiros,
Dão a volta a Portugal,
Uns valentes caminheiros,
P’ra todos…Bom Natal!


Quinta das Conchas, 
3ª feira, 15/12/2015

LG



Em louvor aos caminheiros 
da Quinta das Conchas

É gente de grande fibra,
Que corre as maratonas,
Mesmo sem ouro ou  libra,
Salta logo das poltronas.

Salta logo das poltronas,
Faça chuva ou faça sol,
Rapazes e mocetonas,
Fazem guerra ao colesterol.

Fazem guerra ao colesterol,
Os das Conchas, caminheiros,
Uns a passo de caracol,
Outros esp’rando p’los companheiros.

Outros esp’rando p’los companheiros,
Sem olhar para o cronómetro,
Os últimos são os primeiros,
Depois de muito quilómetro.

Depois de muito quilómetro,
No melhor tartã do mundo,
Desliga-se o complicómetro,
Respira-se o ar, bem fundo.

Respira-se o ar, bem fundo,
Dão-se dois dedos de blá-blá,
E um não, bem rotundo,
Aos chatos de cá e lá.

Aos chatos de cá e lá,
Que nos dão cabo da vida,
Sacanas, é o que mais há,
Nesta terra prometida.

Nesta terra prometida,
Ponta mais acidental
Da Europa, tão querida,
Ser das Conchas é bom sinal.

Ser das Conchas é bom sinal,
É ser da vida campeão,
É viver em Portugal,
E ter um grande… coração!

E ter um grande coração,
Em corpo tão enfezado,
É um dos males da Nação,
Mas não é um triste fado.

Mas não é um triste fado,
Este é um povo de heróis,
Não há destino danado
Nem festas só de cachecóis.

Nem festas só de cachecóis,
P’ra esta gente valente,
Nem tremoços e caracóis
São p’rá elite dirigente.

São p’rá elite dirigente
Os bons tachos e panelas,
O povo, esse,  que aguente
C’ os pontapés nas canelas.

C’os pontapés nas canelas,
E os calos de andar a pé,
Caminheiros, eles e elas,
Voltam p’ró ano, cheios… de fé.

LG

Viva a tertúlia da Quinta das Conchas!
Boas férias de verão para todos/as os/as caminheiros/as!
Não tenham nenhum achaque
E, cuidado, com as caneladas dos gajos, durões,  
do Goldman Saque Saque!!!


Almoço de encerramento das atividades da tertúlia, 
ano económico, desportivo, recreativo, cultural, jantarista, excursionista e promotor de saúde, de 2015/2016.

Restaurante O Arranhó [, passe a publicidade: gente simpática, comida caseira, atmosfera familiar, espaço acolhedor, boa relação qualidade-preço]

Lisboa, Quinta das Conchas, 3ª feira,  12 de julho de 2015

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Guiné 63/74 - P16300: Os nossos seres, saberes e lazeres (163): A estação de metro do Campo Grande: Uma obra-prima da arte pública urbana (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Dezembro de 2015:

Queridos amigos,
Todos sabemos que há manifestações artísticas de grande valor no metro de Lisboa.
Como conjunto impressionante de interpenetração entre um metro de viaduto, acessos e a envolvente dos viadutos vizinhos até ao parque de material e oficinas que integra a estação do Campo Grande, não acredito que haja obra que se compare, porque é intenso o diálogo que se construiu entre os exteriores e interiores da estação com os seus viadutos vizinhos, conseguiu-se um sentido plástico e simbólico, uma permanente comunicação entre o antigo e o moderno, é uma estação onde os passageiros se sentem bem, sentimento a que não é alheio o malabarismo dos cromatismos, as cores repousantes, a sensação de que há leveza num nó de transporte que tem o condão de ter as suas horas de congestionamento. É uma obra-prima que merecia ter rapidamente classificação artística e uma intervenção que lhe proporciona manutenção e visitas comentadas.

Um abraço do
Mário


A estação de metro do Campo Grande: 
Uma obra-prima da arte pública urbana

Beja Santos


Reza que a organização arquitetónica e plástica da estação e dos viadutos da estação do Metro do Campo Grande, desde a cor exterior e interior, aos azulejos, pavimentos, grades metálicas e painéis de betão em relevo e pilares dos viadutos, deve-se ao arquiteto Ezequiel Nicolau e ao artista plástico Eduardo Nery que fizeram daquele espaço público uma obra singularíssima. Esta obra começou a ser pensada em 1981, foi pensada e repensada, fizeram-se toneladas de estudos, admitia-se que o metro ia até ao aeroporto, que seria um metro de superfície, e que também andaria debaixo do solo, desistiu-se tal a complexidade, o enorme impacte ambiental de viadutos excessivamente elevados. E em 1993, aparecia esta belíssima estação, acolhedora, cheia de malabarismos cromáticos, o primeiro metro em viaduto, só muito mais tarde surgirá a linha vermelha.


O que aqui preside são as relações entre a altura e o comprimento, entre os vazios e os cheios, esta delicadeza requintada com cores descansativas, uma luminosidade quase doméstica e o desafogamento dado pelos óculos. Nada ficou ao acaso: o que vai das superfícies planas dos azulejos chega às figuras de convite, voltamos aos palácios, que os há e os houve, maior ilusão ótica em estações do metro de Lisboa não conheço, tudo parece enorme quando, afinal, este azulejar moderno é que transfigura as relações com o espaço em comprimento, altura e largura.


Eduardo Nery foi muito bem-sucedido com estas figuras de convite. As figuras de convite apareciam à entrada dos palácios e significavam que quem entra é bem-vindo. Mas Nery vai mais longe, fragmenta as figuras, há aqui como uma homenagem ao movimento artístico do cubismo e também do surrealismo. Nery observou a propósito do seu trabalho que a preocupação de evitar o sentimento de claustrofobia ou de esmagamento do teto do átrio, muito baixo o levou a escolher um azul claro, que suporta a cobertura da estação. É uma dialética azulejar entre o branco e o azul, uma constante nas doze escadas que ligam entre si o átrio e o cais. Tudo trabalho da Fábrica Sant’Anna.


Estas figuras de convite, diz Nery, ocorreram-lhe da sua experiência no domínio na colagem, “através da qual alterei ironicamente diversas reproduções de obras de arte do passado, conferindo-lhes um novo sentido plástico e simbólico, como acontece com estas quatro figuras do século XVIII, duas femininas e duas masculinas”, utilizadas para acolher quem chega e quem parte. Os óculos ocorreram-lhe da sua experiência na Op-Art. E foi muito feliz nesta deformação e interpenetração das figuras, deu um novo sabor ao geométrico e abstrato.


Arquiteto e artista plástico tiveram que se entender entre o cromatismo e as texturas dos viadutos e da estação, era preciso imprimir unidade e continuidade entre a cor rosada dos painéis em betão lavado, ligando entre si os ecrãs acústicos dos viadutos. Escolheram-se azulejos monocromáticos em seis tons, em faixas estreitas, tanto nos pilares dos viadutos como nas fachadas da estação. Enfim uma combinação entre vermelho, azul e branco, tudo a remeter para um interior e para a envolvente do metro.


Estamos agora no exterior, nos pilares do viaduto. Não sei se o engenho e arte de Nery não atingiram nesta intervenção a sua cota máxima. A ligação ao passado e a remissão para memórias do Campo Grande têm uma estrita lógica. Vemos aqui um cavaleiro e sabemos que muito perto está o hipódromo do Campo Grande. A simbólica da aviação não é delirante, basta pensar que um pouco mais acima está a Portela.


Este Campo Grande era um espaço de passeios, de exibição de moda, aqui havia um clube de ténis, o Visconde de Alvalade foi um dos fundadores do Sporting. Nery trabalhou aqui anos depois do metro estar a funcionar custa a crer que este portentoso trabalho tenha sido imaginado para ficar dentro de um parque automóvel, os poucos transeuntes passam por aqui indiferentes a esta obra-prima da azulejaria do nosso tempo.


Tínhamos o hipódromo, o aeroplano e depois veio o automóvel. Nery terá pensado em fixar neste painel o objeto mais visível da modernidade, na sua modalidade de carros de corrida. A ironia é o seu contraste com as carripanas que aqui parqueiam.


E os pioneiros da aviação, pois claro. Ao contrário do que muitos pensam, esta artéria era frequentada por gente chique, por aqui houve palacetes, moradias, uma burguesia endinheirada e até aristocratas lhe davam preferência vivendo da Alameda das Linhas de Torres e no Lumiar.


Perto da churrasqueira do Campo Grande temos uma mansão de grande porte, faz gaveto com o Campo Grande e a Alameda das Linhas de Torres, é um dos últimos vestígios de gentes com título que escolhiam este quase fora de portas para viverem onde o bulício era marcado pela passagem do gado que corria para o Entreposto Geral de Gados, no Campo Pequeno. Há quem não acredite, mas o Campo Grande foi formoso e espaçoso, era escolhido pelas suas sombras, os passantes admiram-se com as espécies arbóreas e a variedade de flores, andavam de barco no lago, era um quase termo da cidade. Ainda bem que nesta convulsão urbana o metro deixou uma estação extraordinária com azulejaria única. Os sinais de deterioração são bem visíveis e era tempo dos amigos de Lisboa pedirem a classificação do espaço, uma porta aberta para a preservação dos materiais e a convocação para chamar turistas: estão aqui alguns dos melhores azulejos da nossa contemporaneidade.
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Nota do editor

Último poste da série de 6 de julho de 2016 > Guiné 63/74 - P16277: Os nossos seres, saberes e lazeres (162): A pele de Tomar (12) (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P16299: Inquérito 'on line' (57): Total de respostas: 122. Só 3,3% não tinha lavadeira... E na grande maioria dos casos (86,1%) lavadeira só lavava mesmo a roupa...


Guiné > Região do Oio > Olossato > c. 1964 > Duas bajudas locais


Guiné > Região do Oio > Olossato > c. 1964 > Lavadeira local

Fotos (e legendas): © José Augusto Ribeiro (2013)(*). Todos os direitos reservados  [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


INQUÉRITO "ON LINE" (**): 


"SIM, NO TO DA GUINÉ, TIVE LAVADEIRA"...


1, Sim, tive lavadeira 
mas só me lavava a roupa > 
105 (86,1%)

2. Sim, tive lavadeira, lavava a roupa 
e fazia outras tarefas domésticas  
1 (0,8%)

3. Sim, tive lavadeira 
e também me fazia "favores sexuais"  > 
12 (9,8%)

4. Nunca tive lavadeira  > 
4 (3,3%)

Votos apurados > 
122 (100,0%)

Sondagem fechada em 28/6/2016, às 14h36
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Guiné 63/74 - P16298: Parabéns a você (1109): António Tavares, ex-Fur Mil SAM do BCAÇ 2912 (Guiné, 1970/72) e Rogério Ferreira, ex-Fur Mil Inf MA da CCAÇ 2658 (Guiné, 1970/71)


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Nota do editor

Último poste da série de 12 de Julho de 2016 > Guiné 63/74 - P16295: Parabéns a você (1108): António Dâmaso, Sargento-Mor Paraquedista Ref - CCP 122 e CCP 123 (BCP 12 - Guiné)

terça-feira, 12 de julho de 2016

Guiné 63/74 - P16297: Brunhoso há 50 anos (9): O Ciclo do Pão (2) (Francisco Baptista, ex-Alf Mil da CCAÇ 2616 e CART 2732)

Brunhoso - Com a devida vénia


1. Em mensagem do dia 8 de Julho de 2016, o nosso camarada Francisco Baptista (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2616/BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72), traz-nos a segunda parte do Ciclo do Pão.


Brunhoso há 50 anos

 9 - O Ciclo do Pão (2)

Depois das ceifas ou em parte em simultâneo, era necessário fazer o transporte dos molhos de trigo que os ceifeiros tinham juntado em "rilheiros" nas terras já despidas de cereal e cobertas de restolho áspero. Começava a “acarreja” assim se chamava essa grande operação do transporte dos molhos de trigo e centeio para as eiras do Prado e outras eiras particulares, para serem trilhados ou malhados.

Os lavradores normalmente iam dormir às terras, com o gado, para a primeira carrada estar nas eiras ainda antes do nascer do sol, aproveitando o calor das noites e a luminosidade dessas alvoradas de Verão. Por esse ou por outros motivos cheguei a dormir muitas vezes no campo nessas noites quentes de verão, tendo por luz somente o céu estrelado que cobria a terra com um manto de estrelas que brilhavam como se o Universo tivesse renascido.

Os carros eram carregados, como diziam os lavradores, com "pousadas", conjunto de quatro molhos, e havia muito rivalidade nessas cargas, quer pela melhor aplicação da técnica utilizada, quer por carregarem mais, sinal de animais possantes e bem treinados.

Devido a esse peso, os carros "chiavam”, assim se dizia e, para que isso não acontecesse, primeiro porque o eixo aquecia muito e podia arder com a fricção, e também porque se andassem nas estradas, mesmo municipais, poderiam ser multados, untava-se o eixo e as "estreitouras" com sabão caseiro ou com borras de azeite.

Logo ao inicio do alvorecer, dessas manhãs claras de Verão, com o sol ainda escondido atrás dos montes, os lavradores, os filhos ou os criados de lavoura regressavam numa primeira viagem com os carros carregados de trigo ou centeio, numa marcha lenta que enchia os ares dessa música continua e arrastada, produzida pela fricção das rodas, que parecia um lamento transformado em sinfonia, que desagradava às autoridades policiais, mas não desagradava às gentes da aldeia. À medida que os dias iam passando, as medas nas eiras iam crescendo em largura e altura, algumas imponentes como grandes pirâmides, e outras mais ou menos modestas de acordo com a riqueza em terras de cultivo de cada um. Eu, como de resto os meus irmãos, na adolescência, só começávamos a ir à acarreja, quando o meu pai achava que já tínhamos músculos nos braços para poder atirar, com uma espalhadoura, os molhos para os carros, onde o irmão mais velho ou alguém os acomodava. Na década de cinquenta esse trabalho seria feito por um criado de lavoura, que se "justava" anualmente no dia de S. Pedro, e por um trabalhador que era chamado à jeira. Eu e os meus irmãos, à medida que íamos crescendo, como no geral os filhos dos lavradores menos abastados, íamos fazendo todos ou quase todos os trabalhos agrícolas. Depois das ceifas, o trabalho mais duro das colheitas, de que o nosso pai nos poupava com trabalhos menores, como distribuir água aos ceifeiros ou levar-lhes as refeições nos alforges em cima da burra, voltávamos a ser novamente trabalhadores activos no primeiro plano das actividades agrícolas. A acarreja seria uma tarefa de quinze dias, mais ou menos, em que animais e homens andavam num rebuliço constante que começava logo nesses alvoreceres de verão, suspendia-se durante as horas de maior calor, para recomeçar outra vez à tarde. As eiras do Prado eram um grande espaço de relva próximo da aldeia, propriedade da Igreja (Fábrica da Igreja, como se denominava), onde todos os que não tivessem uma boa área de terreno, uma cortinha ou um prado, próximo da aldeia, podiam trilhar ou malhar os cereais. Fora da época das colheitas era um terreno de pasto, destinado a burros e outros animais de carga, aproveitado sobretudo pelos mais pobres que não tinham “lameiros” (o mesmo que prados) onde os pudessem levar a pastar. Todos os grandes lavradores, cinco ou seis, tinham eiras próprias para fazer as debulhas.

Nos primeiros anos da década de cinquenta os cereais ainda eram debulhados, tal como acontecia com as ceifas, pelo processo tradicional e histórico, igual aos dos antigos povos de lavradores da bacia mediterrânica, com recurso ao trilho e à trilha.

O trilho, aparelho para debulha do cereal, é uma espécie de estrado de madeira, compacto e com algum peso, com lâminas de ferro em forma de faca fixados na parte inferior. Puxado pelo gado na eira, com o condutor em cima do trilho, para maior pressão sobre o cereal tirado das medas, e previamente espalhado, depois de cortados os ”vincelhos” dos molhos. Os vincelhos, com que os ceifeiros atavam os molhos de cereal na ceifa, faziam-se atando o próprio cereal pelas espigas de forma a não se soltarem. Havia sempre um garoto que ia no trilho com uma cortiça em concha, para aparar as fezes dos animais.

Trilho
Com a devida vénia a Capeia Arraiana

As lâminas de ferro separavam o grão da espiga e cortavam a palha.

A Trilha, em tudo igual aos trilhos, mas em vez de metal, tinham seixos cravados na madeira e usavam-se, sobretudo nas lentilhas e tremoços.

Depois da malha o trigo (ou centeio) era junto em parvas, compridos montículos com pouca altura, para fazer a separação da palha e do grão, com a ajuda do vento, utilizando pás próprias para esse efeito. Depois de separado o cereal da palha, era metido com as rasas ou rasões nos sacos de linho grosso com a capacidade de cerca de cinquenta quilos cada um. No fim do dia os sacos seriam carregados nos carros de bois e transportados para as despensas dos lavradores, muitas vezes despejados em tulhas a aguardar o transporte para o celeiro, situado à beira da estação dos caminhos de ferro de Mogadouro. A palha era também carregada nos carros que eram providos de grandes cancelas para puderem transportar mais quantidade, e levada para os palheiros e curraladas. As curraladas eram recintos grandes que alguns lavradores tinham, onde guardavam as alfaias agrícolas, a palha, o feno e nalguns casos também os animais de trabalho.

Os mais pobres ainda utilizavam os malhos ou, "manguais", para todo o tipo de cereal, primeiro porque a colheita era pequena, segundo porque os trilhos eram caros para as suas posses.

Malhar o centeio
Com a devida vénia a Quinta do Lagar da Moira

Parte do centeio era sempre malhado pela força dos homens com os malhos, preservando o caule inteiro, chamado colmo, muito útil para fazer albardas, belfas, encher os xaragões (colchões de colmo, já que outros não havia) e para chamuscar o pelo dos porcos nas matanças, durante o inverno. Nesse tempo havia uma aldeia no concelho de Freixo de Espada-à-Cinta, chamada Fornos, a cerca de 30 kms de Brunhoso, onde os telhados da maioria das casas eram cobertos de colmo. Outras iguais havia nas zonas serranas e mais afastadas, tanto nas Beiras como em Trás-Os-Montes.

A debulha era o epílogo do longo ciclo do pão, o culminar de uma grande jornada onde todos estavam presentes: os homens, as mulheres, os pais, as mães, os filhos, os patrões, os trabalhadores, os novos, os velhos. A gente de Brunhoso saía toda de casa para ajudar nas malhas, o final das colheitas do cereal. Em casa só ficavam as mulheres dos lavradores e algumas ajudantes a fazer comida, pois era necessário alimentar todo esse exército de trabalhadores que estavam nas eiras a tratar do grão e da palha. A comida era abundante tal como tinha sido a dos segadores nas ceifas. Havia uma algazarra própria dos grandes acontecimentos, com todo esse povo de homens e mulheres, sujos do pó do cereal e da palha, a trabalhar debaixo desse sol tórrido de Agosto, ou sentados em longas mesas improvisadas com trigo ou centeio a comer as melhores comidas que as patroas sabiam fazer e a beber o vinho “precioso” da colheita do patrão ou comprado para os lados de Miranda do Douro. Eram dias de grande convívio, trabalhava-se muito, mas falava-se, gracejava-se, comia-se bem, bebia-se bastante. O que recebiam desses dias de trabalho além do vinho e da boa comida, do prazer dessa convivência alargada, era um agradecimento dos lavradores que se confundia com a caridade cristã, de alguns alqueires de trigo ou centeio, ou pães já cozidos que em tempos posteriores de mais necessidade lhes dariam para eles e para os filhos e alguns sacos de palha, para alimento dos burros. Era pouco mas esse pagamento ancestral dessa ajuda por comida e por alguns benefícios futuros certos ou incertos, era muito antiga, tão antiga que os mais velhos já não sabiam se tinha sido instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo, na Galileia, que era terra de trigo. Tinha uma vizinha, mãe de muitos filhos, boa mulher, muito faladora e sociável que não perdia um dia de colheitas.

Nos primeiros anos da década de cinquenta, do século passado, era eu garoto, e recordo-me ainda das debulhas serem feitas da forma que descrevi atrás, somente por homens e animais. Talvez ainda antes de meados dessa década surge a malhadeira uma grande máquina que por processo mecânico, movida inicialmente por um motor a gasóleo e posteriormente por um tractor, separa a palha do grão, saindo a palha já moída por uma abertura larga e o grão por outras aberturas mais estreitas onde havia sacos de linho a encher, vigiados por trabalhadores.

Malhadeira
Com a devida vénia a Paisagens de Trá-os-Montes

O primeiro tractor agrícola surge em Brunhoso, disso recordo-me ainda bem, a meio dessa década e quando foi levado ao lavrador que o comprou para demonstração, com arados e outros acessórios provocou grande sensação e juntou muita gente, pequena e grande sobretudo do género masculino.

Nunca me esqueci era um David Brown, grande e azul .

Tractor David Brown 900 de 1957
Com a devida vénia a The David Brown Tractor Club

Passados alguns anos, já na década de sessenta, irão entrar na aldeia as ceifeiras debulhadoras, máquinas agrícolas, uma espécie de grandes tractores, que se deslocam às searas e fazem toda a ceifa e a debulha à medida que cortam o cereal, que irão alterar radicalmente as formas ancestrais de ceifar e transformar as searas em grão e em palha. As primeiras ceifeiras da região, eram do chamado GRÉMIO DA LAVOURA, instituto do estado que fomentava o cultivo dos cereais, quando vieram para esta região já eram usadas, vinham do Alentejo, onde já eram consideradas pequenas e obsoletas. Com a introdução das ceifeiras-debulhadoras, os antigos ceifeiros passam a ser meros espectadores desse progresso tecnológico onde não havia lugar para eles. Provavelmente será uma das causas, associada a outras, da debandada em massa, a salto, desses trabalhadores para França e para essa Europa das nossas ilusões, depois das Índias, das Américas e das Áfricas. Os homens querem jeiras, querem trabalho e ele cada vez escasseia mais.


A agricultura sujeita a variações de produção provocadas pela seca, a chuva excessiva, as trovoadas o granizo e outras causas naturais pelo que os povos de agricultores procuraram sempre a protecção de entidades sobrenaturais para se protegerem de todas essas calamidades.

A palavra cereal vem de Ceres, a deusa romana da agricultura da colheita e dos grãos.
Ceres, generosa na essência e na forma, é bela sem sofisticação, serena e natural como uma flor silvestre.
Tem outras representações de acordo com os gostos e a sensibilidade dos seus adoradores ou artistas. Eu imagino-a tal como a descrevi.

Ceres é também um símbolo da fertilidade e da vida tal como a sua irmã da mitologia grega a deusa Deméter.
Quando o Império Romano declara o cristianismo como sua religião oficial, no século IV dC, através o imperador Teodósio, as competências de muitos deuses e deusas da antiga religião politeísta são atribuídas pela Igreja a santos e santas.
S. Isidoro, um santo espanhol, é o protector dos lavradores, quase desconhecido no Nordeste Transmontano onde no geral se pedia auxílio a Santa Bárbara, virgem e mártir, protectora das trovoadas e doutros males associados como aguaceiros fortes e o granizo.
A festa à Santa Bárbara, nesse tempo antigo, ainda antes da "fuga" dos trabalhadores para a Europa, era celebrada no segundo domingo de Setembro, quando as colheitas já estavam feitas com o cereal e a palha recolhidos. Era um tempo em que se podiam lançar os foguetes sem o perigo de incendiar as searas ou as medas de trigo e era a ocasião de agradecer à Santa os resultados das colheitas do ano.

Francisco Baptista
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Nota do editor

Poste anterior de 1 de julho de 2016 Guiné 63/74 - P16258: Brunhoso há 50 anos (8): O Ciclo do Pão (1) (Francisco Baptista, ex-Alf Mil da CCAÇ 2616 e CART 2732)

Guiné 63/74 - P16296: FAP (96); Algumas correções, para a história: (i) Morais da Silva comandava a Esquadra121, também dos Fiat G-91 e nunca voou helicópteros; (ii) quem veio substituir o cap pilav Cubas em 1970 foi o cap pilav Zúquete da Fonseca, o meu primeiro comandante de Esquadra; (iii) não foi a Esquadrilha mas a Esquadra de voo 122, que sempre se designou por Canibais; (iv ) quando lá cheguei, em 8/12/1970, ainda conheci a "velhice", o Jorge Félix, o Solano de Almeida, o Heleno e o Falé... (Lino Reis, ex-alf mil pil, BA 12, Bissalanca, 1970/72)

Alouette III. Bambadimca (c. 1969/70). Foto:
Humberto Reis (2006)
1. Mensagem do nosso leitor e camarada Lino Reis [e, além disso, amigo e conterrâneo do nosso editor LG; foi alf mil pil, BA 12, Bissalanca, 1970/72, hoje cor pilav ref; tem página no Facebook]


De: Lino Reis
Data: 8 de julho de 2016 às 12:36
Assunto: Mais uma correcção cirúrgica.


Luís, bom dia.

Pensava entretanto encontrar-me contigo no Táss....qualquer coisa,[Bar da Praia da Areia Branca, Tasse-Bem] para te comunicar uma pequena correcção a um dado colocado por Humberto Reis que colo abaixo [, na sequência de uma pesquisa que fiz no teu blogue, sobre os Canibais]

" Notas de L.G.:

(1) Mensagem que recebi hoje, do Humberto Reis:

"(...) Este nosso novo tertuliano Jorge Félix, ex-alf mil pil av, julgo que era um que andava quase sempre com botas de cano alto. O comandante da esq 123 era o cap Cubas, de alcunha o Canibalão, pois a esquadrilha era a de Os Canibais. O Cubas foi substituído em 70, se não me engano, pelo cap Morais da Silva, que chegou a ser CEMFA depois do 25 de Abril."


Para que a verdade histórica seja uma meta suprema, sugiro que a referência a Morais da Silva, na altura Capitão Piloto Aviador e que mais tarde foi CEMFA após o 11 de Março [de 1975], seja corrigida.

Ele comandava a Esquadra 121, também dos Fiat G-91 e nunca voou Helicópteros na sua carreira militar.

Entretanto partiu há meses para o seu último voo. [José Alberto Morais da Silva, cor pilav ref, 1041-2014]

Quem veio substituir o Capitão Piloto Aviador Cubas em 1970 foi o Capitão Piloto Aviador Zuquete da Fonseca, que foi o meu comandante de Esquadra durante quase toda a Comissão [, na Guiné, 1970/72].

Não foi a Esquadrilha mas a Esquadra de voo 122, que sempre se designou por Canibais.

Quando lá cheguei, dia 8 de Dezembro de 1970, ainda conheci o Jorge Félix [, foto à direita], sempre com as suas máquinas a tiracolo, o Solano de Almeida (que teve a sua carreira civil na TAP seguindo o seu pai e o seu irmão), o Heleno (continuou a voar na TAP) e o Falé, pelo menos.

"Eram a velhice" e eu um garboso "periquito" ou abreviando um"PIRA".

Foram escassos dias de sobreposição ou de "largada" dos piras (graças às nossas qualidades no domínio das máquinas voadoras,kkk), pois desapareceram pouco tempo depois rumo à Metrópole; felizmente chegara a sua hora.

É um pequeno contributo para, repito, a verdade dos factos históricos. (**)

Desapareço com saudações aeronáuticas.

Um abraço

Lino Reis

Piloto Cmdt. de Linha Aérea de Aviões ref.

2. Comentário de LG:

Obrigado,  meu caro, pelas tuas "correções cirúrgicas"...  A verdade também é uma questão de detalhes. O meu camarada Humberto Reis (, ex-fur mil op esp, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71) não era da FAP, mas tinha amigos na BA 12 e tirou magníficas fotos áereas da zona leste, graças às boleias de heli...

Quanto ao Jorge Félix, há um vídeo dele (ou melhor, do  Pierre Fargeas),  a que ele acrescentou uma conhecida e nostálgica canção do Ch. Aznavour, com letra em espanhol, e carregou no You toube, na sua página... Está reproduzido no nosso blogue. Merece ser visto, revisto e comentado. Na altura escrevi-lhe o seguinte:

"Jorge, é um vídeo que eu vejo e revejo... Por muitas razões: por ti, amigo e camarada do meu tempo; pelo regresso ao passado; pelas saudades da doce, tranquila e bela Bafatá; pelos nossos 20 anos. tão generosos quanto verdes; pela beleza (pertubadora) da Ivete Fargeas; pela 'canción desesperada' do Ch. Aznavour... Uma combinação perfeita!...Um Alfa Bravo".

Julgo que ainda é do teu tempo este casal francês, os Fargeas, que suponho vivia na Base. O Pierre Fargeas (n. 1932) era o técnico francês de manutenção do Alouette  III, e representava o fabricante, a Aérospatiale, Terá estado na Guiné até 1974, segundo informação do Jorge Félix. No vídeo vê-se também o então cor pilav Manuel Diogo Neto (1924-1995).

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Notas do editor:

(*) 28 de fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2592: Voando sob os céus de Bambadinca, na Op Lança Afiada, em Março de 1969 (Jorge Félix, ex-Alf Pil Av Al III)