segunda-feira, 14 de junho de 2010

Guiné 63/74 - P6594: Notas de leitura (122): A Guerra de África, 1961-1974, Volume II, por José Freire Antunes (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso Camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil At Inf, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Junho de 2010:

Queridos amigos,
Acho que nos faz bem a todos rever o conjunto de depoimentos referentes à Guiné recolhidos pelo José Freire Antunes.
Sem ele, teríamos demorado mais tempo para saber que o Governo de Caetano estava a negociar com o PAIGC ou que o sistema financeiro avançava rapidamente para o colapso.

Um abraço do
Mário


A Guerra de África, 1961 – 1974, Volume II

Por José Freire Antunes


Beja Santos

A obra em dois volumes “A Guerra de África”, organizada por José Freire Antunes, obedece à metodologia designada por “história oral”, o investigador, a propósito de uma determinada época em análise, convoca protagonistas, dá-lhe voz ou socorre-se da sua escrita. Esta metodologia não é hoje completamente aceite como primeiro recurso, exige-se-lhe que seja complementada com outras diferentes fontes, posta em confronto com outros testemunhos, documentos e até com o tratamento do contraditório. Seja como for, há que reconhecer que no acervo dos protagonistas seleccionados por José Freire Antunes trazem um importante contributo para a história de guerra da Guiné. Como se compreenderá, são exclusivamente este tipo de protagonistas os que aqui vão ser enunciados.

Começando por Lemos Ferreira, General da Força Aérea, que serviu na Guiné onde comandou a Base Aérea n.º 12. Referindo-se ao último período da guerra, o general observa: “A convicção do PAIGC era a de que seria possível uma vitória militar e então arriscou e fez o contrário da guerrilha, que era aparecer no terreno com forças relativamente vultosas. Eles consideravam que o que faria a diferença seria a parte aérea, portanto, o que eles precisavam era qualquer coisa que anulasse a Força Aérea. Isto foi perfeitamente claro e apareceram os mísseis Strella. E o que aconteceu foi que, de repente, numa tarde, nós perdemos três aviões: um T6 e dois DO. Quando se tem um núcleo de 60 ou 70 pessoas e, só numa tarde, em duas ou três horas se perde cinco por cento da sua capacidade, isto é muito complicado. Um soldado de infantaria podia-se preparar num mês e meio, um piloto demorava muito mais tempo.

Criaram-se vícios de forma nas Forças Armadas. Pensava-se que era possível realizar tudo devido à cobertura aérea. Mas a nova situação levou a que se decidisse que tinha que haver algumas restrições. Tivemos que ser inventivos: se a ideia do adversário era de que a Força Aérea estava de gatas, havia que provar o contrário. E provar o contrário como? Com a utilização muito mais intensa da arma aérea. Eu nunca fiz tantos bombardeamentos na vida, nunca fiz tantos disparos, como nessa altura, exactamente para a contraprova. Normalmente, a noite era o refúgio do guerrilheiro e, por isso, nós tivemos que inverter a situação. A maior parte flagelações que eles faziam às nossas guarnições eram feitas de noite, muitas delas com morteiros. Havia que responder de forma muito mais pesada. Na altura, vimo-nos no embaraço de consumirmos mais munições – bombas e foguetes – na Guiné do que consumiam Angola e Moçambique juntos”.

O brigadeiro Martins Marquilhas serviu na Guiné entre 1966 e 1968. O seu depoimento é alusivo à instrução dos comandos. Comenta ele: “O inimigo da Guiné era mais aguerrido, mais evoluído culturalmente a nível do soldado. Não estou a falar das elites. Uma gala da Guiné, que era dos fulas, era mais evoluído. Um exemplo era a capacidade de decisão: um terrorista guineense, num aperto, era capaz de tomar uma decisão muito mais rápida e acertada do que um quioco. Na Guiné, a própria religião islâmica desenvolvia-os um bocadinho mais”. Falando dos comandos, observa: “Na Guiné, mataram-nos depois do 25 de Abril, não a todos mas a muitos. Mataram-nos com o receio da reacção deles em relação aos que tinham poder na altura, não foi por mais nada”.

O depoimento do general Almeida Bruno é detalhado, começa por explicar o projecto da Guiné Melhor e as dificuldades militares que Spínola encontrou quando chegou à Guiné. Spínola pretendia em simultâneo aumentar a actividade operacional e desenvolver a Guiné, queria dialogar com o PAIGC numa posição de força. Refere ao pormenor as tentativas de negociação de Spínola e como elas foram inviabilizadas por Caetano. E desabafa: “Quando saí da Guiné em Julho de 1973, nós tínhamos perdido a batalha no plano político. Enquanto se fez a guerra na esperança de que a solução estava à vista porque estávamos a ganhar terreno no plano político, tudo bem. Mas quando nos apercebemos que no plano político tínhamos perdido a batalha, voltámos ao princípio de fazer a guerra pela guerra... Quando percebi que tinha perdido essa batalha, só vi uma hipótese: derrubar o regime. Aderi e ajudei a derrubar o regime, vi na queda do regime a única hipótese de continuar Portugal através da lusofonia”.

O testemunho de Manuel Maria Monteiro Santos, combatente do PAIGC conhecido por “Manecas” tem igualmente muita importância. Destaco o seguinte comentário: “Quando Spínola foi para a Guiné substituir Schultz como comandante-chefe, a situação militar já era nitidamente favorável ao PAIGC. Schultz fez muitas asneiras. Não fez uma anti-guerrilha moderna, dado que os portugueses estavam a bater-se contra um movimento bem estruturado e bem equipado. Schultz não fazia trabalho com as populações... o PAIGC sempre procurou constituir a suas unidades com elementos vindos de todas as etnias. Procurou, mesmo, fazer mover todas as unidades do Sul para o Norte, do Norte para o Leste, do Leste para o Sul, etc., para não vincular nenhum combatente à sua área, à sua região ou à sua etnia”. Falando da sua preparação sobre os mísseis Strella, explicou: “Estive na União Soviética, numa escola militar, com o grupo de soldados que foi lá fazer o estágio dos foguetes anti-aéreos. Da primeira vez vieram umas 24 instalações de lançamento Strella, via Conacri. Os Strella acabaram com a guerra no sentido em que o exército colonial ficou completamente na defensiva. Foi exactamente nesse momento que começamos a fazer operações de maior envergadura, de dia... Em termos de luta armada, o assassinato de Cabral teve um efeito oposto àquele que se esperava: houve um recrudescimento da actividade armada e, quando chegaram os Strella, foi a gota de água. Lembro-me que a chegada de Bethencourt Rodrigues foi saudada com uma operação ofensiva que os portugueses fizeram. Foi uma operação no chão dos manjacos com duas companhias de comandos que se infiltraram ali de helicóptero mas que os helicópteros já não puderam ir buscar por causa dos mísseis terra-ar. Essas suas companhias foram perfeitamente destruídas e até foi capturado o comandante de uma delas”. Deixamos para o próximo texto os depoimentos de Dias Rosas, Tomé Pinto, Hélio Felgas e o Rui Patrício.

(Continua)
__________

Nota de CV:

Vd. postes de:

9 de Junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6569: Notas de leitura (120): A Guerra de África, 1961-1974, Volume I, por José Freire Antunes (1) (Mário Beja Santos)
e
11 de Junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6577: Notas de leitura (121): A Guerra de África, 1961-1974, Volume I, por José Freire Antunes (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P6593: Estudos (1): Guerra de África - O QP e o Comando das Companhias de Combate (António Carlos Morais da Silva, Cor Art Ref) (V Parte)



Luís Marcelino, um dos poucos ex-capitães milicianos que, até á data, fazem parte da nossa comunidade virtual e nos dão a honra da sua participação (activa) no blogue. Acredito que, para a grande maioria dos oficiais (quer do QP quer milicianos), não seja fácil dar a cara e o nome. Mas, como gostamos de lembrar com frequência, a nossa Tabanca Grande não tem portas nem janelas, cavalos de frisa, valas, arame farpado, fossas, minas e armadilhas... Este blogue está aberto a todos os combatentes da Guiné, qualquer que tenha sido o seu posto na época, ou até o lado em que combateram, desde que estejam dispostos a partilhar histórias e memórias, e aceitar as nossas regras do jogo...

O Luís Marcelino foi o Comandante da CART 6250, Mampatá, 1972/74.  Espero poder dar-lhe um abraço no nosso V Encontro Nacional, no próximo dia 26, em Monte Real. Eis como ele próprio fez a sua apresentação, aquando da sua entrada para a nossa Tabanca Grande, em 6 de Junho de 2009:

(...) "Sou Luís Marcelino, a viver em Leiria. Fiz o meu serviço militar, entre Janeiro de 1971 e Agosto de 1974. No primeiro Trimestre de 1972, em Vila Nova de Gaia, foi formada a CART 6250 que comandei,  ali fazendo a preparação para a comissão na Guiné. Em Junho desse ano, partimos para a grande aventura, que terminou em Agosto de 1974.

"Fizemos o treino Operacional em Bolama, durante cerca de um mês, findo o qual partimos para Mampatá, em rendição de uma Companhia de Infantaria. A nossa Companhia era independente e estava adida ao Batalhão sediado em Aldeia Formosa, a cerca de 7 Kms de Mampatá.

"Após o regresso da Guiné entrei para a GNR, onde prestei serviço em Leiria, Évora, Santarém e Lisboa. Estou actualmente aposentado" (...).

Foto: © Luís Marcelino (2009). Direitos reservados.

































































Publicação da 5ª (e penúltima) parte do estudo do Cor Art Ref António Carlos Morais da Silva, professor do ensino superior universitário, antigo docente da Academia Militar, do Instituto Superior de Gestão e da Universidade Autónoma de Lisboa. O autor é especialista em Investigação Operacional. Também passou pelo TO da Guiné como oficial do QP.

O Morais da Silva teve a gentileza de facultar ao nosso blogue, em pdf e em word, um exemplar do seu estudo, de 33 pp., sobre a "Guerra de África - O QP e o Comando das Companhias de Combate" (2ª versão Maio de 2010). A 1ª versão (Março de 2010), de 30 pp., circulou internamente, na nossa Tabanca Grande, através da nossa rede de emails. A 2ª versão, aumentada e actualizada, também irá ser distribuída por email.

Este estudo chega agora  a um público mais vasto, através do nosso blogue (*).

A existência de um elevado número de gráficos e quadros obrigou-nos a digitalizar todo o relatório , sob a forma de imagens, por partes. Esta é a V  parte, correspondente às pp. 22-29.

Por sua vez, o nosso camarada Jorge Canhão (ex-Fur Mil da 3ª Companhia do BCAÇ 4612/72, Mansoa, 1972/74, foto à esquerda) encarregou-se da morosa tarefa da digitalização do relatório, folha a folha. Aqui fica a expressão do nosso agradecimento público, pelo empenho e pela competência com que levou a cabo a digitalização do documento.

________________

Nota  de L.G.: 

(*) Vd. postes anteriores:


6 de Junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6541: Estudos (1): Guerra de África - O QP e o Comando das Companhias de Combate (António Carlos Morais da Silva, Cor Art Ref) (II Parte)

8 de Junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6560: Estudos (1): Guerra de África - O QP e o Comando das Companhias de Combate (António Carlos Morais da Silva, Cor Art Ref) (III Parte)


Guiné 63/74 - P6592: In Memoriam (44): A última foto do Cap Cav Luis Rei Vilar e o agradecimento da família ao blogue (Duarte Vilar)






Guiné > Região do Cacheu > Susana > CCAV 2358 (1969/71) > Natald e 1969 > Último Natal e provavelmente a última ou uma das últimas fotos do Cap Cav Luís Filipe Rei Vilar, comandante da CCAV 2538 / BCAV 2876, unidade de quadrícula de Susana (1969/71), que morreu, em combate, em circunstâncias que nunca foram esclarecidas, com detalhe,  pelo Exército, na sequência de uma operação contra o PAIGC, na fronteira com o Senegal, no dia 18 de Fevereiro de 1970. Nesse dia ainda foi evacuado,  de Susana para Bissau, para o HM 241, de heli (pilotado pelo nosso camarada Jorge Félix). O malogrado oficial foi substituído pelo Cap Cav Rogério da Silva Guilherme. Outras subunidades do  BCAV 2876: CCAV 2539 (S. Domingos) e CCAV 2540 (Ingoré). Foto cedido por Rosério Pedro Martins, que estava em Susana nesta altura. O Miguel Vilar também com o ex-Fur Mil Enf Jesus, que vive em Mértola, e que estava a dois metros do seu capitão, quando este foi atingido. O Afonso conseguiu o número de telemóvel do Jesus, o que permitiu ao Miguel contactá-lo.

Fotos: ©  Rosário Pedro Martins / Miguel Vilar / Duarte Vilar (2010). Direitos reservados. [Editadas por L.G.]


1. Mensagem, de ontem, do meu amigo Duarte Vilar (*),  com conhecimento aos seus irmãos Miguel e Manuel Vilar:

Caro Luís

Envio-te provavelmente a última foto do meu irmão, que foi obtida com a tua ajuda. O meu irmão é o que está entre o negro e o branco, de boca aberta e bem disposto, na ceia de Natal da companhia em 1969, em Susana. A foto foi dada pelo camarada que tu deste o contacto, ao meu irmão Miguel, que foi falar com ele. Foi um bom presente para todos nós.

Não sei se algum dos meus irmãos já te terá contactado, se assim foi, entende este agradecimento com um acto pessoal. Se não, entende este agradecimento em nome dos meus irmãos e da minha família. Agradeço-te profundamente o teres-te interessado pela nossa história e teres contribuído para afastares algumas nuvens negras que sobre ela pairavam.

Conta connosco para o que precisares.

Embora não tenhamos lá estado, sentimo-nos também vossos camaradas da Guiné.

Um grande abraço
Duarte Vilar

 2. Comentário de L.G.:





Lista dos oficiais da CCAC 2538 (Suzana, 1969/71)... Esta lista foi obtida pelo nosso camarada Afonso Sousa que conseguiu localizar o ex-Alf Mil Borlido.

Em 22 de Setembro de 2009, o Afonso mandou-me o seguinte mail de que dei conhecimento aos irmãos do nosso camarada Luís Rei Vilar: "Caro Luis:  Não me foi possivel ainda uma conversa com um ex-alferes da CCAV 2538, que estava ao lado do capitão Vilar, no momento em que foi atingido. Localizei-o em Alenquer, onde é vereador. Dado o momento eleitoral, em que ele está concentrado, tenho estado a fazer um compasso de espera para ver se me concede uns breves minutos para abordar e tentar clarificar alguns pontos. Ele próprio já me enviou um mail e disponibilizou-se a ter comigo uma conversa mais detalhada. Posso entretanto adiantar que a versão "ajuste de contas" está, segundo ele, completamente fora de questão, e ainda bem. No seguimento do ataque IN, o capitão foi atingido por uma arma disparada de uma árvore. Agradeço a v/ paciência para mais um pouco de espera. Tudo farei para entabular esse contacto o mais rápido possível. (...)

Não sei se o Afonso chegou a apurar mais dados sobre as circunstâncias em que morreu, em combate, o Cap Cav Luís Rei Vilar.  De qualquer modo, a família Vilar continuou, por sua conta e  risco, a averiguar a verdade dos factos. Eu próprio fiz questão de agradecer ao Afonso as suas diligências:
 
"Afonso: Obrigado. É uma notícia de GRANDE CONFORTO para os nossos amigos Manuel, Duarte e Miguel !!!... Obrigado pelo teu patriotismo e pela tua dedicação à memória dos nossos camaradas que morreram no campo da honra (...) E o nosso Cor Ayala Botto, será que terá mais alguns dados novos sobre este caso ? O nosso blogue pode contribuir, com rigor e serenidade, para esclarecer finalmente esta história que está mal contada... Faço questão de dar conhecimento do teor deste mail aos nossos amigos Miguel e Duarte... Eles encarregam-se de fazer chegar a notícia aos filhos do Luís (um dos quais continua convencido que o pai foi miseravelmente baleado por um dos seus soldados, e que 'sabe o seu nome'...)" (...)

Agradecimentos são devidos também a outros camaradas que colaboraram connosco: O Cor Cav Ref Ayalla Boto (que foi ajudante de campo de Spínola), e o João Manuel Félix Dias, ex-Fur Mil SAM das CCAV 2539 e 2540. E, naturalmente, ao Jesus, a quem,  embora não o conhecendo, convidamos pessoalmente, para integrar o nosso blogue, se for esse o seu desejo. Infelizmente não temos, na Tabanca Grande, nenhum antigo militar da CCAV 2538.

Duarte: O mais importante, para nós, camaradas do teu malogrado irmão, é saber que tu, os teus irmãos, os teus sobrinhos e o resto da família se sentem hoje mais confortados e reconfortados pelo apuramento da verdade. Vamos respeitar o vosso luto. Fico sensibilizado pelas tuas amáveis palavras que me dirigistes a mim e aos meus camaradas. Continua a dispor do nosso blogue que tem, justamente por missão (nobre), praticar a solidariedade  entre antigos camaradas e partilhar o conhecimento sobre a realidade da guerra colonial na Guiné, com particular destaque para os aspectos mais propriamente sócio-antropológicos do seu/nosso quotidiano de guerra. Um Alfa Bravo (ABraço) para ti, para os teus manos e para os teus sobrinhos, filhos do Luís.
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__________________

Notas de L.G.:

(*) Duarte Vilar: irmão do Cap Cav Luís Filipe Rei Vilar, comandante da CCAV 2538 (Susana, 1969/71), morto em combate em 18/2/170. O Duarte tinha 15 anos. O Miguel, 13. O Manuel é mais velho, trabalha em Franã como cientista. O  meu colega de curso de sociologia, Duarte,  é hoje presidente da direcção executiva da APF - Associação Para o Planeamento da Família. O Duarte também foi colega do Jorge Cabral como docente no extinto Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa.


(**) Vd. postes de:

22 de Setembro de 2009 > Guiné 63/74 - P4991: FAP (34): A heli-evacuação do malogrado Cap Cav Luís Rei Vilar em 18/2/1970 (Jorge Félix)

(...)  Junto uma foto da minha caderneta de voo do dia 18 de Fevereiro de 1970 onde consta uma evacuação á Zops de Susana. Foi há 39 anos ....


Se achares conveniente envia ao Miguel Vilar a imagem que te enviei. Estou sem jeito para contar seja o que for. (...)


16 de Setembro de 2009 > Guiné 63/74 - P4962: In Memoriam (31): Cap Cav Luís Rei Vilar, meu irmão e meu herói (Miguel Vilar)
 
(...) Meu querido irmão:


Passaram 39 anos e a ferida ainda sangra.

(...) Eras o meu herói e lembro nesse dia 18/02/1970,. às 13h00, chegava das escola para almoçar, como todos os dias, vinha eu e o Duarte. Entro em casa, subo ao meu quarto no 1º andar e estava o pai no cimo da escada que me olhou de frente, agarrou-se a mim a chorar (o meu pai nunca chorou!!) e abraça-me e em pranto diz:
- Miguel, levaram o Luisinho.....eles levaram o Luisinho! (...)

(...) C. Comentário de L.G.:


Querido Miguel: Tinha acabado, umas horas antes, de falar ao telefone com o teu irmão Duarte, meu amigo e colega do ISCTE onde ambos cursámos sociologia na segunda metade da década de 1970, quando me ligaste para casa... Sabia da tragédia que se abateu sobre a tua família, com a morte do teu irmão mais velho, meu camarada, do meu tempo de Guiné... Desconhecia, no entanto, a outra tragédia de que foste o protagonista, há treze anos atrás (bem como o processo kafkiano que se seguiu com a justiça)... Soube do infausto acontecimento, através da imprensa, na época, mas nunca imaginei que a vítima foste tu, irmão do Duarte, do Manuel e do Luís...

Deu para perceber, no entanto, enquanto falávamos ao telefone, que és um homem corajoso, determinado, inconformado, decidido, disposto a saber a verdade, toda a verdade, sobre as circunstâncias da morte do teu mano, que era o teu ídolo e o teu herói... Tinhas então 13 anos (e o Duarte 15), quando chegou a brutal notícia da sua morte, que destroçou a vossa família . (...)

 
Vd. ainda os postes de:
 
30 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1902: Manuel Rei Vilar, França: Quem conheceu o meu irmão, Cap Cav Luís Filipe Rei Vilar, morto em Susana, em Fevereiro de 1970 ?


30 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1903: Cap Cav Luís Filipe Rei Vilar, comandante da CCAV 2538, morto numa emboscada (Afonso M.F. Sousa)

1 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1906: Notícias sobre o Cap Cav Rei Vilar, comandante da CCAV 2538, morto em 1970 (Benjamim Durães / Ayala Botto)

1 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1908: Cap Cav Luís Rei Vilar, comandante da CCAV 2538, morto no campo da honra, em incursão no Senegal (Afonso M.F. Sousa)

10 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1939: Susana, região de Cacheu: fantasmas do passado (Pepito)

domingo, 13 de junho de 2010

Guiné 63/74 - P6591: O discurso de António Barreto no dia 10 de Junho de 2010 (3): O dia do ex-combatente devia ser comemorado noutra data (Ana Duarte)

1. Mensagem de Ana Duarte* (viúva do nosso camarada Sargento-Mor Humberto Duarte, que foi Fur Mil Op Esp / RANGER do BCAÇ 4514, Cantanhez -1973/74), com data de 13 de Junho:

Não fui combatente, mas também vivo o 10 de Junho

Não sou ex-combatente, sou apenas uma viúva, mas por ter acompanhado sempre e até ajudado o meu marido na sua luta de ex-combatente, essencialmente para que houvesse um reconhecimento, não só dos governantes, mas para que a sociedade civil desse valor aos seus ex-combatentes, venho dar a minha modesta opinião sobre o 10 de Junho.

Sou de opinião que todos os ex-combatentes no dia 10 de Junho se reunissem em Belém onde estão suposta ou verdadeiramente os nomes de todos aqueles que morreram na guerra do ultramar. Isto porque ao fazerem-se várias concentrações nas diferentes regiões, que têm monumentos ao combatente, há uma dispersão e muito menos visibilidade. Desculpem a sinceridade, mas isso é o que os nossos governantes há muito tempo querem: - "No separar é que está o ganhar".

Aliás no dia 10 de Junho, lá estive em Belém, mas fiquei triste porque achei a cerimónia dos guiões e das coroas muito inferior à dos outros anos. Por que é que este ano não desfilaram como era hábito os grupos e não foram eles próprios a depor as coroas? Estava lá menos gente do que no ano passado. Todos os anos vi pessoas com livros, com fotos nos caminhos que vão dar ao monumento, este ano não vi.

Vim para casa pensar e esperar para ver o que a comunicação social passava; também aqui foi menos do que o costume e até o Correio da Manhã, jornal que costumava dedicar um espaço razoável, pôs uma unica foto e meia duzia de linhas.

Estão muito contentes porque desfilaram na cerimónia oficial, alguns combatentes. Eu não, o nome de todos estão em Belém, os governantes querem honrar os mortos vão ali. Desculpem mas quando uma criança quer atenção e o adulto não pode, dá-lhe um chupa-chupa, entretem-te aí que eu já te ligo. Mas na cerimónia oficial do 10 de Junho, no Algarve, soube por pessoas que viram nas noticias e por alguém que tem um cargo oficial onde sabe de todos os problemas que se passam nessas cerimónias, que falou comigo por telemóvel, ouve um desentendimento entre aquilo que o Sr. Presidente queria e o que os ex-combatentes queriam. Estes queriam desfilar com os estandartes e quanto percebi não foram autorizados, desfilar sim mas sem os estandartes, era a ordem de Sua Excelência, o Sr. Presidente. Só a meio da semana vou saber os pormenores porque falarei pessoalmente com quem lá esteve. Aqui é que na minha opinião o governo ofereceu o chupa-chupa aos ex-combatentes. Somos todos amigos até vão desfilar na cerimóna oficial mas do modo que nós queremos e não como vocês gostam e têm orgulho nos vossos estandartes. Pode ser apenas uma pequena diferença mas para a maneira de pensar de muito ex-combatente o levar ou não o estandarte, o simbolismo que isso implica é muita a diferença.

O.K. vocês querem o 10 de Junho, o governo deixa desfilarem alguns, mas estandartes não.

Não pode ser no 10 de Junho porque é dia das comunidades e tem de se descentralizar, então instituam mesmo um dia que seja o dia do ex-combatente e façam a cerimónia no monumento de todos eles.

É uma vergonha porque ainda há muitas pessoas que vivem em Lisboa e arredores, e nem sequer sabem que existe ali aquele monumento!! Nas escolas não se fala. Por que é que em vez de irem ao jardim zoológico ou ao planetário, não aproveitam para ensinar os alunos e não vão até ao monumento? Dão-lhes uma explicação na escola, levam as crianças a verem os nomes inscritos e depois fazem um piquenique na relva.

Mas se alguns ex-combatentes me dizem : "isso é muito longe, há uma cerimónia aqui perto em....." o que eu posso esperar?

Eu fui e já que não tinha a minha companhia habitual, fui com a nova geração quatro miudos -22, 19, 13 e 7 anos - e todos eles souberam portar-se como manda a decência, e até o de 7 ficou quieto e calado nas alturas certas e cantou o Hino porque o sabe todo de cor.

Se para o ano ainda cá estiver, lá estarei no dia 10 de Junho em Belém, nem que caia uma trovoada africana.

Bem-hajam, um abraço
ana duarte

Ano de 2009 > O último 10 de Junho de Humberto Duarte


Fotos de Ana Duarte referentes ao 10 de Junho de 2009
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 7 de Março de 2010 > Guiné 63/74 - P5945: In Memoriam (38): Agradecimentos (Ana Duarte)

Vd. último poste da série de 12 de Junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6582: O discurso de António Barreto no dia 10 de Junho de 2010 (2) (Amaro Samúdio / Felismina Costa) 

Guiné 63/74 - P6590: História de vida (30): O dever militar chamou-me: Joaquim Cardoso Veríssimo (1949-2010),ex- 1º Cabo At Inf, CCAÇ 5, Canjadude, 1971/73) (José Corceiro)

1. O José Corceiro  (ex-1.º Cabo Trms, CCaç 5 - Gatos Pretos, Canjadude, 1969/71) mandou-nos a seguinte mensagem:

Data: 11 de Junho de 2010 23:00

Assunto: O DEVER MILITAR CHAMOU-ME

Amigos Luís Graça, Carlos Vinhal e Magalhães

O Poste 6548 (*) noticiou o trágico acidente que ceifou a vida ao nosso camarada Joaquim Cardoso Veríssimo, um brioso Gato Preto da CCAÇ
 5 que,  oito dias após o ter localizado e ter falado com ele, via telefone, que o deixou maravilhado, resolveu partir sem nos dar o prazer da sua convivência. 


Joaquim Cardoso Veríssimo (1949-2010)

Acabo de receber, enviado pela esposa, este escrito que o Joaquim  (foto acima) redigiu recentemente. Tal e qual o recebi, assim o envio, sem acrescentar, ou tirar, um ponto ou vírgula.

Na simplicidade e singeleza do artigo, escrito pelo amigo JOAQUIM, descrevendo sem queixumes ou revolta o progredir duma vida madrasta, que algumas vezes lhe serviu para comer o pão que o diabo amassou, é exposta uma nobreza e transparência de alma, reveladora do carácter íntegro, sincero, leal, honesto e puro, de Homem Probo, que o Joaquim foi.

Curvo-me perante a sua memória.

Publiquem se acharem interesse.

Um abraço, José Corceiro 


Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 (1971/73) &gt Foto 2  > O Veríssimo é 1º do lado direito. Fui eu que tirei a foto, mas não identifico os outros.

Fotos (e legendas): © José Corceiro (2010). Direitos reservados

2. História de vida > O DEVER MILITAR CHAMOU-ME
por Joaquim Cardoso Veríssimo

Eu sou o Joaquim Cardoso Veríssimo, nasci na freguesia de Pínzio, distrito da Guarda, concelho de Pinhel em 28/01/1949. Sou filho de José do Nascimento Veríssimo e Maria Augusta Cardoso. O meu avô paterno chamava-se António Veríssimo e a minha avó, Maria Luísa. Os meu avô materno Francisco Cardoso e a minha avó Mariana de Jesus, os quais não tive o prazer de conhecer. Sou o 3º de 12 irmãos, 6 ainda vivos, 5 falecidos antes de eu nascer e 1 falecido há cerca de 1 ano.

Do que me recordo primeiro da minha juventude foi a escola onde completei a 4ª classe mas já um pouco tarde uma vez que faltava muito por ter de guardar os meus irmãos mais novos (Manuel e Carlos), tendo ainda de ajudar na horta da família e em casa mas lá consegui.

Depois tive de ir trabalhar para fora, a 1ª foi para Vila Franca das Naves (Trancoso), para a abertura de um poço. Como era jovem incumbiram-me de pôr os motores a trabalhar para tirar a água para os homens poderem trabalhar. Também antes do meio-dia fazia uma fogueira e punha as panelas de ferro ao lume para cozer as batatas, feijão, etc. Só que eu por vezes esquecia-me de por a água e quando chegavam tinham batatas assadas e feijão assado esturrado. Com o tempo aprendi.

Dali voltei a Pínzio. Daqui os meus pais pensaram em se mudar para a minha residência actual, Sobral do Campo, distrito e concelho de Castelo Branco, de onde o meu pai era natural.

A 1ª vez que saí do Sobral do Campo para trabalhar, foi para colher azeitona para a freguesia de Frazoeira, Ferreira do Zêzere. Foi aqui que aprendi a montar uma escada ao alto sem a deixar cair mas até aprender ainda caiu muitas vezes. Gostei imenso desse trabalho, era um convívio saudável.

Voltei ao Sobral e voltei a sair desta vez na companhia do meu pai o qual recordo com muitas saudades. Fomos trabalhar para S. Domingos de Rana, Cascais, fazer valas para esgotos e alcatroar as ruas. Daqui fomos para uma aldeia chamada Fim do Mundo, São João do Estoril. Daqui fui trabalhar para Bicesse, Cascais. Comia e dormia no local que era café e mercearia.


Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Camjadude > CCAÇ 5 &gtFoto nº 3> O  Veríssimo é o 3º a contar do lado esquerdo, flectido. De pé, metropolitano, Furriel Caetano.

Também posso dizer que aqui é que eu aprendi a andar de bicicleta. Tinha uma cesta de verga atrás e comecei por pôr umas pedras para ter equilíbrio, para depois pôr uma botija de gás e mais tarde atrelar um reboque com 4 botijas. Uma dessas vezes numa descida travei e pús o pé na roda da frente. Embrulhei-me e quando dei por mim estava no meio da estrada, debaixo da bicicleta e do reboque com as 4 botijas espalhadas. Também foi nesta mercearia que aprendi a fazer lixívia num tanque de lavar a roupa. Os fregueses telefonavam e eu com a tal bicicleta ia levar a vários sítios tais como Alcoitão, Manique, Alto dos Gaios, etc. Também estive numa drogaria no Estoril.

Voltei a voar, agora para Cascais, para uma urbanização junto à praça de touros. Não sei se essa praça ainda existe. Daqui fui até Belém, ali entre o mosteiro dos Jerónimos e a torre de Belém. Havia por ali uma fábrica de sardinhas de conserva, nas costas dessa fábrica uns estaleiros onde faziam pequenos barcos. Moravamos aí muito perto. Fomos completar um colector de descargas de esgotos para o mar. Mais uma viagem e fomos até Fátima uma vez que Fátima não tinha água da rede pública. Fomos buscá-la através de tubos a Vila Nova de Ourém para ser inaugurada pelo Papa em 1967 se não estou em erro.

Aqui também fui muito feliz. Conhecia muitas gentes, muitas culturas e enriqueceu muito os meus conhecimentos mas não fiquei por aqui, desta vez vamos até Sacavém, mais propriamente na Courela do Foguete. Aqui construímos vários prédios durante alguns tempos, trabalhava e ia treinar futebol em Camarate, no clube Águias de Camarate. Ainda hoje existe.


Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 &gtFoto 4 > Veríssimo de pé no meio. Consigo identificar de pé, 1º lado direito, Pimenta, de joelho 2º lado esquerdo, Gaspar.

O dever militar chamou-me, fui tirar a recruta ao quartel na Guarda.

A especialidade fui tirá-la a Abrantes. Passei a pronto e fui para Beja. Aqui já os preparativos finais para o Ultramar. Um dia saí daqui para um quartel na Ajuda. Um certo dia de madrugada acordaram-nos, meteram-nos nos camiões fechados e quando os carros pararam estávamos no cais de Alcântara para embarcarmos num barco chamado "Uije". Mandaram alinhar todos os militares e fui promovido a 1º cabo antes de entrar para o barco e aí vai ele que se faz tarde a caminho da Guiné.

Cheguei a Bissau e fui parar a um quartel a que chamavam "Adidos". Daí a alguns dias meteram-me num barco civil com 4 rações de combate para 4 dias com mais 3 colegas. A água quase a entrar para dentro do barco e eu sem saber nadar mas chegámos a um lugar em que o barco começou a bater no fundo. Saímos com muita sede e pedimos a um miúdo que nos arranjasse uma garrafa de água e pagámos. Pedimos outra e por curiosidade fomos atrás dele. Apanhava a água no meio do caminho, muito suja.

Destino seguinte: Bafatá tivemos que pedir boleia para chegar lá um senhor com um camião civil lá fez o favor de nos levar. Chegámos lá começámos por ver muitas casas pré-fabricadas ocupadas por militares. Apresentámo-nos ao comandante para passados 2 dias apanharmos uma coluna militar para Nova Lamego, agora Gabu, capital do distrito.

Aqui vinham abastecer-se todas as unidades que faziam parte deste aquartelamento, quer de Viveres quer de Armamento,  da qual fazia parte a minha futura unidade a que chamavam "Canjadude",  distanciada vinte e poucos quilómetros de Gabu. Era uma unidade de cento e poucos Africanos e apenas com vinte e poucos brancos. Com 3 abrigos feitos em cimento: 1 para os soldados, 1 para oficiais e 1 para o capitão. Cozinha, armazém de viveres, refeitório, cantina, balneários e enfermaria eram feitos de chapas de Zinco.

A rendição de cada militar era feita individualmente. Quando cheguei, quem ia render ainda se encontrava ali, não havendo cama para mim, tive que dormir uma semana na enfermaria em cima de uma maca. Quem eu fui substituir veio embora e depois sim já dormia num abrigo com uma rede mosqueira. Sem ela era muito difícil devido aos muitos mosquitos que havia por ali.

Logo quando cheguei comecei por fazer vários trabalhos, entre eles, ajudar a fazer várias casas, todas elas feitas de terra. Punham-se várias formas de madeira que depois se enchiam com terra amassada. Depois de secas, assentavam-se umas em cima das outras levando também terra para fazer de areia e de cimento. Depois de feitas tinha que se por logo o telhado porque se chovesse lá ficava apenas um monte de terra.


Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > CCAÇ 5 > Foto 5  > Secção de transmissões a carregar viatura com os blocos, feitos de terra (adobes) que o Veríssimo referencia. Corceiro a pegar num bloco, Silva e Viriato em tronco nu, Coias em cima da viatura.

 Também tínhamos umas horas por semana para dar aulas aos Africanos, quer militares, quer civis. Passados vários meses, uma certa noite, tive muitas dores que não passavam de maneira nenhuma. De madrugada veio uma avioneta buscar-me para o aeroporto de Gabu. Aí meteram-me num Atlas, avião de onde saltavam os pára-quedistas. Levaram-me até ao aeroporto de Bissau. Chegado aí estava uma ambulância à minha espera para me levar ao hospital de Bissau para ser operado a uma perfuração do estômago.

Não passei muito bem depois da operação e tive de ser evacuado para Portugal. Passei aqui 6 meses e quando faltavam 30 dias para terminar a minha comissão no Ultramar recebi um postal para regressar novamente à Guiné. Agora sim, custou-me imenso porque já lá tinha estado e já sabia o que era aquilo.

Mas lá se passou o tempo e vim para o Sobral, onde enveredei pelo caminho de carteiro. Comecei em Tinalhas, acabei em Castelo Branco. Conheci muito boa gente, aprendi muito com eles, percorri quilómetros e quilómetros, quer a pé, quer de motorizada e por fim de carro. O tempo foi passando, fui tendo problemas de saúde.

Comecei por fazer muitos e muitos exames entre Castelo Branco, Lisboa e por fim Coimbra, que me disseram que tinha problemas de rins. Comecei por pedir serviços leves uma vez que não me sentia com forças. Pedi a reforma antecipada e 2 anos depois comecei a fazer diálise. Fi-lo durante quatro anos e meio. Um dia recebi um telefonema de Coimbra a dizer que tinham um rim compatível para mim e se estava interessado. Disse logo que sim. Fui transplantado há quase 10 anos. Tenho-me sentido mais ou menos bem até agora, sou feliz com os amigos e com a família que tenho portanto nada mais posso pedir.

O que eu gostaria de ter feito e nunca tive oportunidade

Regressar há Guiné e recordar os locais onde cumpri o meu serviço militar, onde passei alguns momentos felizes e outros muitos infelizes, mas que fazem parte do meu passado mas que contribuíram muito para fazer de mim o homem que sou. Tornar a reencontrar os meus ex colegas de tropa.

Quem Sou Eu

Eu sou o Joaquim Cardoso Veríssimo, meço 1,63,  peso 67 quilos, e tenho olhos castanhos. Sou geralmente uma pessoa bem disposta, amigo do meu amigo, ao pé de mim não há tristeza, sou honesto trabalhador embora esteja reformado.


Castelo Branco > Sobral do Campo > s/d > Foto 6 > Veríssimo, com a esposa e os netos.

Fotos e legendas: : © José Corceiro (2010). Direitos reservados

As minhas virtudes 

Alem de ser divertido sou responsável, lutador, e paciente. Coloco a família acima de todas as minhas prioridades.

Os meus defeitos 

Sou teimoso e enervo-me com facilidade.

O que mais gosto de fazer

Conversar com pessoas não importa a idade, sexo, ideologia politica ou clubista. Adoro bricolage.

O que me faz mais feliz 

É ver as pessoas que eu amo com sorrisos sinceros de felicidade nos rostos.


3. Comentário de L.G.:

O Joaquim Cardoso Veríssimo estaria hoje na nossa Tabanca Grande, por iniciativa do José Corceiro, se fosse vivo... Sensibilizou-me imenso a leitura da sua história de vida, de homem humilde mas trabalhador e corajoso,  e que é a história de muitos de nós, os da geração que fez a guerra colonial...

A sua trágica morte no IC 3, no passado dia 1 (e não a 3, como noticiou o Diário de Coimbra), deixou consternados não só os seus camaradas da CCAÇ 5 mas também os demais camaradas da Guiné... Cada vez que morre um camarada nosso, é um pouco de nós que morre também... Daí a singela homenagem que eu lhe quero prestar, mesmo não o tendo conhecido pessoalmente, juntando doravante o seu nome à nossa lista de amigos e camaradas da Guiné.   Infelizmente, e daqui para o futuro, vai aumentando progressivamente , também, a lista dos nossos camaradas que nos vão deixando.  É importante que os seus nomes continuem a figurar no nosso blogue.

A nossa homenagem é extensiva não só aos Gatos Pretos como também à família do Joaquim, na pessoa da viúva, Maria Carolina, nossa companheira, a quem agradecemos, através do José Corceiro, o gesto carinhoso que foi o envio, para o nosso blogue, do texto escrito pelo Joaquim  (bem como as fotos aqui publicadas). Cabe também às nossas família o dever de salvaguardar, proteger e acarinhar as "marcas" da nossa passagem pela Guiné, sob a forma de aerogramas, cartas, fotografias, diários, apontamentos, relatórios de operações, objectos e por aí fora... LG
_______________

Nota de L.G.;

(*) Vd. poste de  6 de Junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6548: In memoriam (43): Faleceu Joaquim Cardoso Veríssimo da CCAÇ 5 (José Marcelino Martins)

(...) O Joaquim Cardoso Veríssimo era/é um dos nossos. Fez parte da Companhia de Caçadores nº 5 do Comando Territorial Independente da Guiné, uma das muitas companhias formada por soldados africanos e enquadrada por militares metropolitanos.

Dos elementos que colhemos para elaborar a história da unidade, consta: (i) 1º Cabo Atirador de Infantaria, número mecanográfico 12539370, natural da Guarda; (ii) prestava serviço no Regimento de Infantaria 3 quando foi mobilizado;  (iii) foi aumentado ao efectivo da Companhia em 12 de Março de 1971, assumindo as funções de Comandante de Esquadra.

Não se encontra referida a data em que foi abatido ao efectivo da Companhia, presumindo-se que tenha ocorrido no primeiro trimestre de 1973.

Pouco tempo depois de ter sido “reencontrado” para a família dos Gatos Pretos, parte de vez, aumentando na lista que não deixa de crescer, e cuja leitura nos provoca saudade.

À Esposa, nossa companheira Maria Carolina, apresentamos as nossa condolências e o nosso afecto, assim como a todos os familiares. Vocês são também, por direito próprio, GATOS PRETOS. Não deixem que a memória do Joaquim se esfume. Vejam nas suas recordações “daquele tempo de Justos e Valorosos”, a divisa dos Gatos Pretos, as fotos, os escritos e mandem-nos cópias, para que possamos reter dele, como no meu caso que não o conheci, a melhor recordação e memória. (...)


(...) Comentário de José Corceiro, com data de 7 do corrente:

Caro José Martins

Pois é, “A vida é o pouco que nos sobra da morte”. Saber eu, a semana passada, a euforia e felicidade que manifestou o Verrissimo, quando falei com ele pelo telefone a primeira vez, e lhe disse que eu andava a caçar Gatos Pretos. Ele não queria acreditar, que tinha sido descoberto. No Domingo passado, telefonou-me logo de manhã, todo radiante, para me dizer que já tinha reunido uma série de fotos, para me enviar para o álbum dos Gatos Pretos.


Sexta-feira, telefona-me a esposa, inconsolável, a comunicar o fatídico acidente.
Desejo ao Verissimo, a paz merecida, segundo a sua devoção, à família enlutada, os meus sentidos pêsames e desejo que encontrem força e coragem, para suportar a dor causada pela perda do seu ente querido.

José Corceiro

Guiné 63/74 - P6589: História da CCAÇ 2679 (37): Como se pode ser vítima da sua própria armadilha (José Manuel M. Dinis)

1. Mensagem de José Manuel Matos Dinis* (ex-Fur Mil da CCAÇ 2679, Bajocunda, 1970/71), com data de 11 de Junho de 2010, com mais um episódio da História da sua Companhia, tendo como protagonista principal um técnico de Minas e Armadilhas, ele próprio:

Carlos,
Cá o jeitoso ia arranjando um trinta e um, dos valentes.
É disso que dou conta neste epísódio.

Por ti, envio um abraço tabancal.
Até breve.
JD


Não me lembro das circunstâncias, mas o gerador devia estar inoperacional quando o Trapinhos me incumbiu de armadilhar a área interior às vedações de arame, numa zona relativamente extensa, talvez de cem a cento e cinquanta metros, entre dois abrigos de defesa periférica virada para Amedalai, sendo que um deles era o abrigo com cavalo-de-frisa na saída para aquela localidade e Copá, frente ao local onde mais tarde foi construído o heliporto.

Quando o sol se punha, era quando aumentava a possibilidade de flagelação por parte do IN, por isso, durante aquele período, crescia o medo em muita gente. A falta de iluminação, e a maior distância entre abrigos, deviam espevitar algumas cachimónias na imaginação de aproximações e infiltrações de elementos IN, o que, sendo bastante improvável em virtude da limpeza e do terreno plano, deve ter influênciado algumas queixas junto dos intrépidos sargentos e capitão, militares que aliavam muita falta de imaginação com muito cagaço.

Era para montar três ou quatro armadilhas, apesar de eu ter alertado o capitão para a mais que provável detonação, a provocar por cabras que naquele espaço eram visitas frequentes.

Pedi ao Valentim para me ajudar. Peguei na bolsa de sapador e nas granadas ofensivas, e lá fomos. A seca já durava havia três meses, e o capim sêco, partido, acumulava-se pelo chão numa malha inextrinçável. O terreno devia ter sido limpo, mas era para ser assim mesmo, e a erva sêca ajudaria a dissimular.
Pronto, siga a tropa!

O Valentim era um tipo calmo, mas resoluto, que nunca levantava objecções, e competente no desempenho das tarefas. Aquela era uma tarefa minha, mas para o que fosse preciso, o Valentim podia ajudar e garantia confiança.

Comecei por instalar uma granada pelo método tradicional, localizando o local para constar num mapa, espetando dois paus de onde se suspendiam os arames de tropeçar, tensos, com a granada quase descavilhada, a meio, suspensa dos arames. Estava feita a armadilha, coisa de minutos.

Eu, de cócoras sobre o engenho, enquanto dispunha algum capim sobre a granada, no intuito de a tornar irreconhecivel, desempenhava a função com a sabedoria ministrada no Casal do Pote e experimentada em situações anteriores.
O sol, lá do alto, atirava-nos raios de fogo, mas não causavam qualquer perturbação, porque a nossa piriquitisse já levava muitos meses de matos e bolanhas, e dera-nos habituação. Também não devia entregar-me a outras cogitações extra-curriculares, na medida em que a natureza da função devia absorver-me a atenção. Estávamos tranquilos e solitários.

O Valentim deslocou-se a buscar qualquer coisa na bolsa. Uma enormidade de tempo depois, tive a sensação de ter ouvido um clic, e outra enormidade de tempo levei para lhe perceber a origem. Não podia ser, o trabalho estava a correr perfeitamente, e nós não éramos perturbados, nem estávamos à conversa correndo o risco de distração, que raio de ideia!

Mas olhei para baixo, para baixo de mim, e lá estava a granada, verdinha, cilindrica, meia encoberta, caída no chão, e afastada alguns centímetros, também no chão, da cavilha presa a outra extremidade do fio, que, quando se liberta do corpo da granada, onde trava os ímpetos explosivos, determina a sorte de quem se expuser à explosão irrevercível. Sei lá quanto tempo decorreu. Durante a instrução dizia-se que mediavam três segundos, mas na realidade seriam quatro.

De alguma margem beneficiei, pois impulsionei-me num mergulho para a frente, enquanto gritava para o Valentim, que não se fez rogado e copiou o movimento. Alisámo-nos na terra, corpos estendidos, enquanto a granada se peidava estrondosamente, perto dos meus pés, interrompendo a pacatez daquela manhã na aldeia.

Caíu alguma terra que aumentou a minha apreensão. Que descoberta faria a seguir? Não me dava conta de qualquer ferimento, e os pés sentia-os dentro das botas. Ao Valentim, mais distante, perguntei se estava bem, e ele reagiu, levantou a cabeça com um sorriso, que sim, que merda foi aquela, perguntou.

Levantei-me. A pouco mais de um metro, uma razoável cratera, talvez de trinta a quarenta centímetros de diametro, e com uma profundidade de quinze a vinte centímetros, registava o acontecimento. Olhei para o buraco enquanto concluía: e nós porreiros.

Depois reflecti sobre o que acontecera. Parecia haver apenas duas hipóteses a equacionar: a granada descavilhara em virtude do peso incidir sobre uma extremidade exígua da cavilha, que provocara o deslizamento e libertação da mesma; ou descavilhara por acção de algum movimento sobre o cordão de tropeçar já tenso.

Sem arredar definitivamente a primeira possibilidade, poisa operação já teria alguns minutos para a considerar preponderante ou exclusiva, considerei quanto à segunda possibilidade, que só houve um momento possível para aquele desfecho, quando o Valentim se deslocou até à bolsa. Foi curta a deslocação, talvez de dois ou três metros, mas suficiente para deslocar capim, que entrançado arrastaria mais capim, num arrastamento que afectaria a estabilidade do arame, tal como viemos a verificar.

Assim, concluí pela conjugação das duas possibilidades para potenciar a suavidade de um movimento e torná-lo capaz de activar o dispositivo.

Desta maneira dei-vos conta de uma acção de guerra que correu mal, mas, simultâneamente, também correu bem, ou não estaria aqui a descrevê-la.
__________

Nota de CV:

(*) Vd. poste de 25 de Maio de 2010 > Guiné 63/74 - P6470: Controvérsias (76): Carta aberta a António Martins de Matos (José Manuel M. Dinis)

Vd. último poste da série de 20 de Maio de 2010 > Guiné 63/74 - P6442: História da CCAÇ 2679 (36): O jogo do gato e do rato (José Manuel M. Dinis)

Guiné 63/74 - P6588: Convívios (253): 10 de Junho de 2010 (Mário Fitas / Miguel Pessoa / Magalhães Ribeiro)


CERIMÓNIAS / ENCONTRO / CONVÍVIO
10 de Junho de 2010 - XVII Encontro Nacional de Combatentes da Guerra do Ultramar
Camaradas,
Tal como havíamos estabelecido, por vários contactos (via blogue, e-mails e telefones) o pessoal desta Tabanca Grande, voltou a reencontrar-se no passado dia 10 de Junho (a modos que um treino de preparação para o nosso grande Encontro Nacional de Monte Real, no próximo dia 26 deste mês), festejando cada um a seu modo o XXVII Encontro Nacional de Combatentes da Guerra do Ultramar, Colonial, ou de África.
Como vem sendo habitual, nos últimos anos, as comemorações decorreram em frente ao magnífico e majestoso Monumento Evocativo aos Combatentes da Guerra do Ultramar, situado na margem direita do Rio Tejo, junto ao Forte do Bom Sucesso, em Belém, Lisboa.
Numa rápida auscultação ao pessoal que ali se reúne, é comum recolherem-se opiniões, que é ali junto das peças de mármore com os cerca de 10.000 nomes dos nossos Camaradas falecidos em África, que se deve comemorar o NOSSO 10 de Junho - o NOSSO dia do Combatente do Ultramar.
É claro que cada vez estamos mais divididos, havendo inúmeras iniciativas paralelas e divisionistas, com intenções diversas cujos teores não interessa, minimamente sequer, aqui analisar, muitas delas organizadas por outros ex-Combatentes, mas nós, os indefectíveis, continuaremos a encaminhar os nossos passos nesta direcção, enquanto as saúdes, forças e disposição assim nos permitirem.
Assim, à imagem do ano passado, sempre em “rotação” constante entre os milhares de pessoas presentes, lá nos fomos concentrando em pequenos grupos, em frente ao portão principal do Forte, a partir das 12h00.
O programa incluiu uma cerimónia inter-religiosa (católica e muçulmana), homenagem aos mortos e deposição de flores, sobrevoo por aeronaves da Força Aérea Portuguesa e Salto de Pára-quedistas.
Foram também muitos os visitantes ao Museu do Combatente, e ao Forte do Bom Sucesso, que neste dia foi gratuita, com uma significativa e bem montada mostra (permanente) representativa de material/equipamento dos três ramos das Forças Armadas Portuguesas.
No fim das cerimónias a organização dispôs, no local da realização das cerimónias, para quem o pretendeu, de serviço de refeições a preços económicos, o que permitiu a um grupo alargado almoçar em amena, fraterna e agradável confraternização pela tarde fora.
Jorge Canhão, Jorge Cabral, Mário Pinto, António Marques e Fernando Chapouto.
Miguel Pessoa, Jorge Canhão e Gisela Pessoa.

Fernando Chapouto, Mário Pinto, Jorge Canhão e Magalhães Ribeiro.

Gisela Pessoa, Miguel Pessoa, Jorge Cabral e Vacas de Carvalho.

Vacas de Carvalho, (um Camarada que não sei identificar), Jorge Cabral e Fernando Franco.

Mário Fitas e 3 Camaradas que não sei identificar.

José Martins e Esposa Manuela.

Amadu Bailo Djaló
José Colaço

Fotos: © Miguel Pessoa & Mário Fitas (2010). Direitos reservados.
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Nota de M.R.:
Vd. último poste da série em:

Guiné 63/74 - P6587: A Guiné aos olhos das actuais gerações (5): Primeira semana de trabalho em Catió (Hélder Sousa / Marta Ceitil)

1. Mensagem de Hélder Sousa (ex-Fur Mil de TRMS TSF, Piche e Bissau, 1970/72), com data de 11 de Junho de 2010:

Caros camaradas
Na continuação dos relatos anteriores da experiência de uma jovem portuguesa envolvida em acção de voluntariado em formação na Guiné-Bissau no Verão do ano passado, aqui deixo agora o resultado da 1.ª semana ocorrida no início de Setembro de 2009.

Podemos apreciar (e talvez avaliar) o choque sofrido quando as formadoras contactaram com a realidade em que tinham que desenvolver o trabalho, a forma superior como resolveram as contrariedades, os ganhos obtidos com as iniciativas.

Um abraço para toda a "Tabanca".
Hélder Sousa
Fur. Mil. TSF

Jovens de Catió

Giovanni


A GUINÉ AOS OLHOS DAS ACTUAIS GERAÇÕES (5)

Primeira semana de trabalho em Catió

Hélder Sousa / Marta Ceitil

No que diz respeito aos relatos das experiências da jovem Marta Ceitil, envolvida com outras três companheiras de aventura (Telma, “Xana” e Andreyna), nas acções de formação desenvolvidas por voluntários no âmbito dos “Projectos de Voluntariado para a Cooperação” (com divulgação no blogue NÔ DJUNTA MON), que na prática é também o veículo de divulgação das acções efectuadas, e que resultam da promoção efectuada pela Organização Não-Governamental para o Desenvolvimento, o Instituto de Solidariedade e Cooperação Universitária (www.isu.pt), dizia eu que esses relatos levaram-nos até Catió, no início de Setembro do ano passado, local onde se iria desenrolar nova acção de formação.

Dos relatos anteriores tomámos conhecimento de como progressivamente Marta (e presumo que também as outras companheiras) foram tomando contacto com as novas realidades em que estavam inseridas, de como foram reflectindo sobre as suas experiências e de como haviam ganhos recíprocos. Ensinar e aprender.

Isto é sempre assim, se estivermos atentos e despidos de preconceitos. Em circunstâncias dessas, se se quiser, aprende-se sempre. Também como concluímos dos escritos anteriores o êxito dessas acções de trabalho (e de outras, tal como pudemos ler no Relatório da AD), está essencialmente na atitude, não se ser “inter rail” mas sim estar lá de corpo inteiro.

Neste relato das acções de Catió, que a seguir se apresenta, cobrindo a 1ª semana de trabalhos, chamo particular atenção para o choque que representou a descoberta de que os locais de trabalho (o edifício da escola, o quadro, as carteiras) não eram bem como sempre tinham como dados adquiridos (“eram de lama!…”) e a forma, quanto a mim muito criativa, como resolveram e ultrapassaram esses aparentes obstáculos e até os transformaram em motivos de empenhamento dos professores.

Esse relato está datado de 9 de Setembro, e foi o que se segue:

Data: 9 de Setembro de 2009

Assunto: Boletim Informativo de Catió - Marta Ceitil vira quase Balanta!

Olá
Kuma ki bó stá? Portugal sta diretu?


Estamos em Catió quase há duas semanas e parece que já cá estamos há um ano. Catió é lindo de cortar a respiração, mas não se passa nada... Por um lado temos muita sorte por estarmos na Missão Católica, temos água, electricidade, espaço para trabalharmos e comida com fartura, incluindo doces. Por outro, temos regras, horários, muito tempo livre e somos vigiadas 24 horas sobre 24 horas. Sentimo-nos como se estivéssemos numa gaiola dourada. Continuo com o mesmo princípio: propus-me a esta experiência, eu quis isto, estou a crescer a cada dia que passa e por isso mesmo quero tirar o máximo partido de tudo o que estou a ver, a sentir e a aprender. Até porque, infelizmente o tempo está a passar rápido demais, falta menos de um mês para regressar. Quantas e quantas vezes em Portugal, nos picos do trabalho, não pensei: “quem me dera ter tempo para mim”. Pois bem, agora tenho e decidi optimizar este tempo para tratar de mim, corpo e mente.

Na primeira semana que passou estivemos a preparar a formação e a ambientarmo-nos a esta vida. Fomos passear com o Padre Maurício ate a uma Tabanka que se chama Mato Farroba, não quero dizer nenhum disparate, mas acho que no tempo da Guerra Colonial era um sítio privilegiado de esconderijo dos “Turras” (combatentes guineenses). De qualquer maneira vou investigar e depois confirmo. Em Mato Farroba fomos visitar a escola, onde alguns dos professores a quem nos vamos dar formação costumam dar as suas aulas aos alunos de ensino básico. A escola tem duas salas, construídas com lama e com palha a servir de telhado. Os bancos e as mesas também são feitos com lama, e não existe um quadro na sala. Senti um aperto no coração... como é que é possível? Claro que me questionei o que e que eu estou aqui a fazer? Que raio de sentido e que a formação que nós vamos dar tem para estes professores, quando eles precisam bem mais do que pedagogia? Eles precisam de uma sala que não se dissolva com a chuva, precisam de bancos, mesas, cadeiras, quadro, sei lá...precisam de tudo o que eu sempre dei por adquirido e que só hoje dou valor. Passados estes minutos iniciais de choque, de revolta e de confrontos com estas duas realidades, percebi que a nossa vinda aqui faz sentido e que posso contribuir de alguma forma. Como? Só temos de ser criativas. Ok, não há quadro, não há bancos, e então? Decidimos que na nossa formação vamos só usar materiais da terra, mostrar que o que tem podem utilizar recursos didácticos que iram facilitar o ensino dos seus alunos. Nem imaginam o desafio que tem sido..., temos feito coisas tão giras, o nosso mais recente bébé é um ábaco com paus, linha e sementes de pinha, ficou liiindooo!!!

A Formação está a correr bem, os professores estão maravilhados com o que podem fazer com os materiais da terra, e apesar de estarem formatados para darem aulas como se ainda estivéssemos no “Estado Novo”, tem reagido positivamente a nossa iniciativa. Ainda temos mais duas semanas de trabalho com eles e acredito que ainda me vão surpreender muito.

Para além da formação tenho ocupado o meu tempo a tratar de mim, todos os dias vou correr 1 hora. Nunca gostei de correr, mas aqui com esta paisagem no meio das tabankas é brutal. Ao inicio as pessoas ficavam muito surpreendidas, e algumas crianças vinham a correr atrás de mim a dizer: “Curri Branco Pélélé”!!! lolol!!! Mas agora já estão habituadas e não me ligam nenhuma.

Chego a casa e junto-me a elas, Andreyna, Xana e Telma para fazermos Yoga e fazermos a nossa sessão de dança. Todos os dias dançamos uma música tradicional da Guiné.

No outro dia vinha da feira para casa, e aparece um Balanta que me acompanha o caminho todo. Os Balantas são a Etnia predominante da Guiné-Bissau e os Homens balantas caracterizam-se por usarem um barrete encarnado (símbolo que fizeram o fanado que é um ritual tradicional que marca a passagem do jovem adolescente para adulto).

A nossa conversa foi qualquer coisa, ele mal falava crioulo só mesmo o seu dialecto, mas lá nos conseguimos entender. Então, o meu amigo Balanta queria que eu fosse a sua mulher e tivesse 8 filhos. Eu só me conseguia rir, e dizia-lhe que não podia, que já tinha marido e filhos, e depois o que seria deles, coitadinhos sem mim, lol! Depois passámos pela casa dele, e lá me apresentou a família. Afinal já tinha mulher, os 8 filhos, queria só que eu fosse a outra mulher! Mesmo “á lá Guiné!!” Já me estava a imaginar a escrever um livro cujo o titulo seria: ”Casei com um Balanta”! Mãe, Pai, estou a brincar!!

O Giovanni que já cá está há 3 anos, tem-me ajudado a perceber melhor as diferenças e características entre as várias etnias, e por isso já sei algumas palavrinhas, no próximo mail o cumprimento já vai ser em Balanta.

É também Graças ao Giovanni que temos tido momentos no mínimo hilariantes. Ele é completamente avariado da cabeça, e não tem problemas nenhuns com isso, diz, faz o que pensa e quer. No outro dia estávamos todos os almoçar com o Padre, e ele aparece na sala em tronco nu, com uma folha de Palmeira a tapar as partes íntimas a dizer que era o Adão! LOL Surreal!! Este é só um exemplo, isto é assim sempre e a toda a hora.

Bem, acho que este mail já esta a ficar para lá de grande por isso vou-me despedir com muitos beijinhos cheios de saudades.

Mantenhas pa bós
Da vossa Badjuda di Guine
Marta Ceitil

**********

Volto a interrogar-me: que se pode dizer quanto a isto?

Sei que a experiência, em todos os aspectos, foi altamente importante para a Marta. Como já vos disse anteriormente, no fim destas acções de formação a Marta e companheiras regressaram a Portugal mas a Marta (pelo menos) voltou para lá onde ainda se encontra actualmente e cada vez com maior segurança daquilo que quer.

Nesta experiência em Catió teve a possibilidade de reflectir sobre as diferenças entre realidades diferentes, cada qual com as suas características próprias e com ‘janelas de oportunidade’ para se fazer bom trabalho, assim se queira; teve também a experiência do “encontro” com o balanta que queria acrescentar mais alguém ao seu harém; teve a possibilidade de observar a vida da comunidade.

Um abraço para toda a Tabanca!
Hélder Sousa
Fur Mil Transmissões TSF
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 21 de Maio de 2010 > Guiné 63/74 - P6443: A Guiné aos olhos das actuais gerações (4): Primeiras impressões de Catió e viagem até Bubaque (Hélder Sousa / Marta Ceitil)