domingo, 17 de maio de 2015

Guiné 63/74 - P14624: Libertando-me (Tony Borié) (17): Fisherman’s Wharf, o Cais dos Pescadores de S. Francisco

Décimo sétimo episódio da série "Libertando-me" do nosso camarada Tony Borié, ex-1.º Cabo Operador Cripto do CMD AGR 16, Mansoa, 1964/66.


A senhora Etelvina do Caril, como era conhecida na vila de Águeda, porque o seu marido tinha sido “tropa na Índia”, portanto cozinhava com alguns condimentos exóticos, vivia na parte baixa da vila, na zona dos cafés, pendurava a roupa a secar numa corda, nas escadas que iam para a parte alta, para a zona do Adro, junto da nossa escola primária, dizia mal das lavadeiras que lavavam a roupa no rio e a secavam areal, onde passavam todo o dia.
“Passam todo o tempo a falar na vida dos outros, malvadas, nunca mais vi aquela areia do rio, com toda aquela roupa, estragam o meu cenário, nunca mais fui ao “Cais dos Pescadores” - dizia ela a todo o instante.

Era uma senhora “fina”, era o que se dizia no nosso tempo de jovem, das senhoras que faziam a “permanente”, frequentavam os cafés da vila alguns dias por semana, estando sentadas horas seguidas, tomando somente um café e um copo de água, e claro, falando, falando, entre outras coisas, da vida dos outros. Eram senhoras que não se “misturavam” com as pessoas normais do dia a dia, do “tu cá, tu lá”, mas quando recebiam qualquer visita em sua casa, era vê-las a passear, pelo “Cais dos Pescadores”, a mostrar as belezas da vila, o rio, com o areal, as lavadeiras, a nora, a ponte e os barcos que vinham rio acima, com peixe e sal da Vila da Murtosa, carregando de volta lenha de madeira cortada à medida, ou feixes de carqueija.


Muito distante da nossa aldeia, dezenas de anos depois, falando com alguns habitantes da cidade de São Francisco, na Califórnia, verificámos que, quando lhes falam no “Fisherman’s Wharf”, que quer dizer mais ou menos “Cais dos Pescadores”, que é uma zona na cidade, junto da sua baía, o seu sentimento é de amor e ódio, tal como a senhora Etelvina do Caril ao seu “Cais dos Pescadores”.

Queixam-se do gosto duvidoso das suas lojas, que vendem recordações baratas, do preço um pouco acima da média dos seus restaurantes, os museus, que os turistas adoram e dizem que é "novidade", mas para eles é uma novidade há muito desgastante, os eléctricos sempre cheios de turistas, bloqueando a visão da baía e da ilha de Alcatraz, mas, lá no fundo, muito secretamente, eles gostam muito do seu “Cais dos Pescadores” e, sempre que algum convidado os visita, de fora da cidade, é uma desculpa perfeita para de uma forma, talvez um pouco cínica, se "forçarem" a si mesmos para irem para essa zona, para terem um bom tempo, evitando as linhas de espera nos museus, mas vestindo uma simples T-shirt, mesmo dizendo em letras muito pequeninas, "Eu sou um estúpido", e andam por lá, fazendo parte de alguns milhões de visitantes que visitam esta zona por ano, usufruindo de algumas das melhores vistas da cidade, comendo, entre outras iguarias, o caranguejo “Dungeness” fresco, cujo nome científico é Metacarcinus magister, conhecido pelo nome comum de “sapateira do pacífico”, uma espécie de caranguejo que mede entre 20 e 25cm e pesa por volta de 1kg, mas também lá servem frutos do mar frescos, mas para nós, que roubávamos pão no aquartelamento de Mansoa, o que mais gostámos, foi do ensopado de mexilhões servidos dentro de um pão de massa fermentada.

Já vamos longe na conversa e o Carlos Vinhal vai dizer que o texto é longo e ainda não explicámos o que é o “Fisherman’s Wharf”, da cidade de São Francisco, que é o principal destino turístico deste cidade, mas a sua história é muito mais rica e mais importante do que as atrações típicas de hoje sugerem, onde, muitas das teses dos pontos turísticos bem conhecidos, foram desenvolvidos somente nas últimas décadas.

Este cais, no lado sul da baía de São Francisco, originalmente era conhecido como “Meiggs Wharf”, recebeu as suas características de nome e de vizinhança, desde os primeiros dias da cidade, em meados da década de 1800, para mais tarde, quando os pescadores emigrantes italianos chegaram à cidade pela baía, para tirar proveito do afluxo de população, devido à corrida do ouro, onde um tal Achille Paladini encontrou sucesso com o negócio de peixe grosso local, como proprietário do Paladini Fish Company, onde veio a ser conhecido como o "rei dos peixes".

A maioria dos pescadores emigrantes italianos estabeleceram-se na área de North Beach, que quer dizer mais ou menos Praia do Norte, perto do cais, dedicando-se à pesca na região, onde abundava entre outras espécies o caranguejo Dungeness, agora muito famoso, onde desde então e até os dias de hoje, se manteve na base das frotas de pesca de São Francisco, mas este cais de pescadores, já foi a principal porta de entrada para São Francisco, sendo nessa época um lugar extremamente laborioso, com mercadoria, principalmente madeira, alimentos, com todos os emigrantes a chegaram aqui, com o caminho de ferro a vir direito à beira da água para carregar os suprimentos de construção para a cidade, que cresceu rapidamente, onde os pescadores trabalhadores, tanto chineses como italianos, muitas vezes acompanhados por suas esposas, aqui se estabeleceram para ganharem a vida na captura de peixe e caranguejo em pequenas embarcações construídas neste mesmo cais.

Hoje é um dos lugares mais famosos da cidade de São Francisco, mesmo uma das atrações mais movimentadas e bem conhecidos turísticamente do oeste dos Estados Unidos. Entre as muitas atracções, podemos admirar a Doca 39 (Pier 39), onde existe uma colónia de leões do mar (as típicas focas), que se apoderaram de uma grande parte da doca, onde fixaram residência permanente sobre docas de madeira que eram originalmente destinadas aos barcos, desde a Praça de Ghirardelli, até à Doca número 35, sempre encostada à baía, sendo a maior parte da zona, com casas construídas sobre estruturas na água, onde na avenida que passa na sua frente, circulam os “cables car”, que são os típicos “eléctricos”. Em toda a área existem diversões, como museus, o Aquário da Baía de São Francisco, o submarino da segunda guerra mundial “UUS Pampanito”, restaurantes famosos, que muitas vezes se vêm nas películas de Hollywood, como o Forbes Island Restaurant, o Fisherman’s Grotto, o Joe’s Crab Shack, ou o Bubba Gump Shrimp Co..

O local onde as pessoas se juntam mais é na “Pier 39”, onde além de muitas e variadas diversões, foi onde se filmou algumas cenas do filme de James Bond, “A View to a Kill”, onde num restaurante local se vêm fotos de muitas cenas do filme.

Só mais um pequeno pormenor, também se pode sentar num dos muitos bancos que existem na margem da baía e admirar, mesmo ali, no meio da baía, a ilha de Alcatraz, onde está a casa, longe do que era a sua casa em Chicago, de algumas personagens infames, como por exemplo, Al Capone ou Robert "o Birdman" Stroud, entre outros, tendo sido um monte de coisas desde a sua criação em 1853, incluindo um forte exército dos EUA, uma prisão militar e uma alta penitenciária de segurança.

Tony Borie, Maio de 2015.
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Nota do editor

Último poste da série de 10 de maio de 2015 > Guiné 63/74 - P14594: Libertando-me (Tony Borié) (16): Napa Valley & Sonoma

Guiné 63/74 - P14623: Historiografia da presença portuguesa em África (61): Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné, nº 51, janeiro de 1963 - parte I: evolução das receitas e despesas públicas da província (1930-1961) (António Bastos, ex-1.º cabo, Pel Caç Ind 953,Teixeira Pinto e Farim, 1964/66)















1. Mensagem,  com data de 4 de março último, enviada pelo  António Paulo Bastos (ex-1.º cabo do Pel Caç Ind 953, Teixeira Pinto e Farim, 1964/66)


 Ass«unto -. Material encontrado no baú




Camarada Luís, cá estou novamente com mais umas coisas que encontrei,  é um boletim da Associação Comercial, como já vistes,

Não sei se tem interesse  para publicar,  fica ao teu critério.

O boletim fala de todos os produtos que eram exportados são: Amendoim, Arroz, Borracha, Cera, Coconote, Couros, Madeira e Óleo de Palma.

Também encontrei outros livros: Subsídios para Estudos da Língua Manjaca,  Usos e costumes Jurídicos dos Fulas da Guiné, A vida Social dos Manjacos... Estes livros comprei ainda em Bissau em 1965, no museu que ficava ao lado do Palácio do Governo .

Um abraço e obrigado.

António Paulo S. Bastos

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Nota do editor:

Guiné 63/74 - P14622: Parabéns a você (904): António Pinto, ex-Alf Mil Inf do BCAÇ 506 (Guiné, 1963/65)

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Nota do editor

Último poste da série de 15 de Maio de 2015 > Guiné 63/74 - P14620: Parabéns a você (903): Vasco da Gama, ex-Cap Mil, CMDT da CCAV 8351 (Guiné, 1972/74)

sábado, 16 de maio de 2015

Guiné 63/74 - P14621: Notas de leitura (713): "Neste mar é sempre inverno", romance de Tibério Paradela (edição de autor, 2014) (Parte III): toldaram-se-te os olhos, marinheiro... (Luís Graça)


Lisboa > Gare Maríitima de Alcântara (arq. Pardal Momnteiro, 1943) > Panéis de Almada  Negreiros (1947) > Tema "A Nau Catrineta"... Almada Negreiros  (1893-1970) é um dos nossos grandes artistas, polifacetados, do séc. XX.  Os seus painéis do Porto de Lisboa (Gare Marítima de Alcântara  e do Cais da Rocha Conde Óbidos) merecem ser melhor conhecidos e divulgados,,,



Lisboa > Gare Marítima de Alcântara (arq. Pardal Monteiro, 1943) > Panéis de Almada  Negreiros (1947) > Tema  "Quem nunca viu Lisboa não viu coisa boa” (1).


Lisboa > Gare Marítima de Alcântara (arq. Pardal Monteiro, 1943) > Panéis de Almada  Negreiros (1947) > Tema  "Quem nunca viu Lisboa não viu coisa boa” (2).



Lisboa > Gare Marítima de Alcântara (arq. Pardal Monteiro, 1943) > 10 de maio de 2015 > O cais, visto do navio-escola "Sagres".



Lisboa > Navio Escola Sagres (construído em Hamburgo em 1937) > Cais de Alcântara > 10 de maio de 2015 > Foto panorâmica.

Fotos (e legendas): ©  Luís Graça (2015). Todos os direitos reservados


Toldaram-se-te os olhos, marinheiro,
Quando pra trás olhaste e já não viste
A terra, que deixaste em adeus triste,
Chorado no convés do teu veleiro.

Se és tu do mar o grande caminheiro
Em busca de destinos que cumpriste;
Se o fado teu, ao qual nunca fugistes,
Já fez de ti, no mundo, o Ser primeiro,

Então, enxuga as faces, meu guerreiro,
E volta para a frente o teu olhar.
Não vá esse inimigo traiçoeiro


A quem, por toda a parte, chamam mar,
Revoltar-se e engolir-te por inteiro
Numa onda vilã que vai passar!



In: PARADELA; Tibério - Neste mar é sempre inverno. Edição de autor, Aveiro, 2014, p. 12. Soneto, da autoria do romancista.  Formalmente perfeito,duas estrofes de quatro versos (quartetos) mais  duas de três versos (tercetos)... Cada verso com dez sílabas poéticas... (LG)




Capa do livro, da autoria do meu amigo,
o arquiteto JoséAntónio Paradela,
irmão do autor, ambos naturais de Ílhavo.
conterrâmeos e amigos
do nosso grã-tabanqueiro Jorge Picado.
O livro pode ser pedido através
do mail:
1. Mais algumas notas da minha leitura do livro do Tibério Paradela, "Neste mar é sempre inverno" (edição de autor, Aveiro, 2014) (*)...

Já aqui referimos algumas (dis)semelhanças entre a vida a bordo nos bacalhoeiros e a nossa situação como militares na guerra colonial,   que vem propósito por a ação do romance se passar em 1965, na safra do bacalhau na Terra Noba e na Groenlândia (longe de casa, longe da pátria), no espaço confinado de um navio (que era também na época o meio de transporte habitual das tropas que iam para a África) (**):

(i) Os pescadores, em geral recrutados pelo capitão do navio (ou por recrutadores a seu cargo, e por conta do armador), eram divididos em duas categorias em função da antiguidade (que, tal como na tropa, era um "posto" ou dava "estatuto"): os maduros (com uma ou mais campanha na pesca do bacalhau, em geral de seis meses); e osverdes, diríamos nós os "periquitos"... Competia aos maduros praxar os verdes, mas ao mesmo tempo apadrinhá-los, enquadrá-los, apoiá-los...

 (ii) As alcunhas, tal como na vida militar...

Todos ou quase todos têm alcunhas, em geral ligadas à sua proveniência geográfica ou terra natal, 
ou a alguma particularidade biográfica;

 (iii) O navio era a "grande casa", a caserna, o quartel, onde também havia segregação socioespacial...

Por exemplo, não era habitual, os oficiais (capitão e imediato) entrarem, a não ser em situações excecionais, na área reservada ao pessoal (pescadores e moços de convés).

(iv) O mar é o mato... 

E só ao fim de quarenta dias depois de partirem de Lisboa, é que os homens do "Nova Esperança", agora a caminho da Groenlândia, voltam a pisar terra, neste caso o mítico porto de St. John's...

(v) Mas o mar (e a pesca à linha do bacalhau) também é a solidão e a violência (dos conflitos, da fúria do mar, da dureza da vida a bordo, do risco de acidente e de naufrágio)...

Haveremos de falar disso noutro poste, com mais tempo e vagar...

(vi) Enfim, não esquecer a  importância do correio...

2. Poderíamos acrescentar outras situações que eram comuns às partidas (e chegadas) por mar... quer da frota bacalhoeira quer das "tropas expedicionárias":

(vii) A "pompa e a circunstância" que os senhores do regime da época, o Estado Novo, punham nas cerimónias de "depedida", tendo como pano fundo neste caso a a Praça do Império, a fachada do Mosteiro dos Jerónimos, e frente ao Tejo, o Padrão dos Descobrimentos... Ironicamente, o autor descreve o fim da festa:

"Junto à berma do passeio, um senhor pomposo de farda azulo e botões amarelos que participara na decoração da cerimónuia insistia em fazer entrar no automóvel do Ministério a teimosa espada que pendia à cinta" (p. 9).

(viii)  As referências icónicas de Lisboa, "capital do império", e que vão desaparecendo, à medida que o barco se afasta de terra: 

Ainda estava em construção, em 1965, a ponte sobre o Tejo (inaugurada em 6 de agosto de 1966), mas a montante e a jusante, não escapavam aos olhos de quem partia, o Terreiro do Paço, o Cristo-Rei, os Jerónimos, o Padrão dos Descobrimentos, a Torre de Belém, o forte de São Julião da Barra, o ilhéu do Bugio "cuja linha de união, dizem, é o onde o mar começa" (p. 11).

(ix) A visão derradeira do continente: a serra de Sintra!...

"É este o momento em que o marinheirop  diz o último adeus, assumindo a p0erda da sua identidade (...). Mede a altura das vagas e avalia a força do vento. Contemplka as estrelas e o anscer e o p^ªor do sol. (...) Conta os dias para voltar e sente o peso da solidão.Arrasta os pensamenmtos e engeole ems eco a SAUDADE!" (p. 111)...

(x) E, claro, os inevitáveis enjoos... 

No caso dos T/T Niassa, Uíge e outros levavam 5 dias a chegar a Bissau... No caso do bacalhoeiro "Nova Esperança", navegando 200 milhas por dia, chegará à Terra Nova em 10 dias.

Como diz uma das personagens, "o enjôo é este estado estúpido que anula valentões!(...). Depois somos grandes por igual (...) (p. 20).

(xi) As praxes... a que não escapam os "verdes" (ou sejam, os "piras", no nosso caso)... e o temor face à autoridade, personificada no capitão d navio...

Francisco, "moço de convés", da Beira Alta, é logo praxado, a bordo.

"Ó moço" Vai ao porão, enche um balde de sal e leva-o à ponte, ao capitão!"... "No Francisco notou-se um certo tremor e logo a preocupaçãoi de ter que obedecer cegamente àquela ordem" (p. 23)...

Quando chegou diante do capitão, "saltou, num estremeção", sentindo-se  "o rato mais pequenino do celeiro da sua casa, lá na aldeia", ao ver-se se viu confrontado com com "aquela figura avantajada no corpo e na autoridade" (p. 26)... "O sal?! Para que raio quero eu o sal? Põe-te a andar!", respondeu-lhe, ríspido e cúmplice, o comandante..

(xii) O "calão" da pesca (por analogia com o nosso, da tropa fandanga da Guiné)...

O livro traz um glossário no fim (pp. 261/262) para que o leitor possa saber algo mais do linguajar destes valentes portugueses de antanho, tais como: 

(i) "fazer capa" (aproar o navio às vagas em marcha reduzida" (vd, p. 19); 

(ii) "foquim" (pequeno baú de madeira com asa, em forma de tronco de cone) (vd. p. 49);

 (iii) "moiros" (referência pejorativa aos pescadores) (vd. p. 36);  

ou (iv) "rabada" (parte interior do navio,, na popa) (vd. p. 14)...

(Continua)

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Notas do editor:

(*) Vd, postes anteriores:

Guiné 63/74 - P14620: Parabéns a você (903): Vasco da Gama, ex-Cap Mil, CMDT da CCAV 8351 (Guiné, 1972/74)

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Nota do editor:

Último poste da série > 15 de maio de 2015 > Guiné 63/74 - P14616: Parabéns a você (902): António Eduardo Ferreira, ex-1.º Cabo Condutor Auto Rodas da CART 3493 (Guiné, 1972/74)

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Guiné 63/74 - P14619: Efemérides (188): 9 de Maio de 2015, Dia do Combatente de Matosinhos e comemoração do VI aniversário do Núcleo de Matosinhos da Liga dos Combatentes (Carlos Vinhal)


No passado dia 9 de Maio de 2015 comemorou-se o Dia do Combatente de Matosinhos e o VI Aniversário do Núcleo de Matosinhos da Liga dos Combatentes

Na primeira cerimónia que decorreu no Cemitério de Sendim, junto ao Memorial aos Combatentes caídos em Campanha, estiveram presentes, pela ordem na foto, da esquerda para a direita: Representante do Presidente da União de Freguesias Matosinhos/Leça da Palmeira; Comandante da Zona Marítima do Norte; Presidente do Núcleo de Matosinhos da LC; Presidente e Vice-Presidente da Câmara Municipal de Matosinhos e Pároco de Matosinhos.

Estiveram também presentes muitos Combatentes, familiares e matosinhenses anónimos que se quiseram associar a esta homenagem.

Caixa de guerra, Clarins e Força, presentes na cerimónia

Após o Toque de Sentido foi depositada uma Coroa de Flores na Base do Módulo do Memorial onde estão inscritos os 70 nomes dos matosinhenses caídos em Campanha na Guerra do Ultramar.

Seguiu-se o Toque de Silêncio, o Toque de Homenagem aos Mortos em Combate e o Minuto de Silêncio cumprido com o maior recolhimento.

A Evocação religiosa esteve a cargo do Pe. Manuel Medes, responsável pela Paróquia de Matosinhos, que contou com a colaboração do Coro do Núcleo, interpretando uma das Orações.

Coro do Núcleo

Após os Toques de Alvorada e Descansar, começaram as Alocuções alusivas ao acto, com a primeira intervenção a cargo do Presidente do Núcleo de Matosinhos da Liga dos Combatentes, Tenente-Coronel Armando Costa.

TCor Armando Costa da Liga dos Combatentes

O Dr. Guilherme Pinto, edil de Matosinhos, no uso da palavra, falando aos presentes, de improviso como é seu hábito.

Terminadas as cerimónias públicas, as comemorações continuaram na Sede do Núcleo, em Leça do Balio, para onde se dirigiram os convidados.

A Sala repleta


Com a Sala completamente cheia, chegou o momento de impor as Medalhas Comemorativas das Campanhas a 23 Combatentes, assim como o da entrega de Testemunhos de Apreço aos sócios da Liga com mais de 40 anos de associados.

Imposição de Medalhas Comemorativas das Campanhas

O nosso camarada e tertuliano Ribeiro Agostinho recebe da mão do Comandante Martins dos Santos o seu Testemunho de Apreço pelos 40 anos de sócio da LC

Seguiu-se um momento cultural a cargo do Eng.º e Arqt.º Rocha dos Santos, também ele Combatente em Angola, onde foi Alferes Miliciano da Arma de Engenharia, que falou dos tempos em que Leça da Palmeira era essencialmente uma zona rural, dedicada praticamente só à agricultura, dos seus usos e costumes, entretanto abandonados pela industrialização do concelho de Matosinhos. Alguns de nós ainda nos revimos em muitos dos slides apresentados.

O Engenheiro (e Arquitecto) Rocha dos Santos durante a sua apresentação

Entretanto chegou a hora de almoço e o apetite já se ia sentindo. O tempo fez uma trégua na chuva dos últimos dias e convidava ao convívio ao ar livre. As mesas foram montadas num local exterior da Sede, previamente limpo por alguns dos sócios, onde se passou uma excelente tarde.
O almoço foi bem servido e o ambiente não podia ter sido melhor.

O aspecto da "Sala de Jantar" antes de ser "invadida" pelos comensais

Houve a habitual animação musical a cargo dos nossos, já amigos, Vítor Castanheira, voz e Meneses nas teclas...


... e ainda a colaboração do nosso Coro que interpretou alguns trechos da música popular portuguesa.

O Coro do Núcleo, que conta desde há poucos dias com a colaboração do nosso camarada e tertuliano António Sampaio, em acção.

No dia 30 de Abril de 2009 foi aprovada a constituição do Núcleo. No dia em que estávamos todos juntos não podia faltar o Bolo comemorativo do VI ano de vida.


Com pompa e circunstância, o Padrinho do Núcleo, Coronel Barbosa Pinto, e o seu Presidente, TCor Armando Costa, procederam ao corte do Bolo Comemorativo.

A tarde escoou-se sem darmos por isso.
Começámos o dia honrando, no Cemitério de Sendim, os nossos camaradas caídos na batalha, e celebrámos a vida, convivendo no Núcleo de Matosinhos da organização que aglutina e auxilia os combatentes que de algum modo precisam de ajuda, a Liga dos Combatentes.

Texto: Carlos Vinhal
Fotos: © Abel Santos, Dina e Carlos Vinhal
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Nota do editor

Último poste da série de 13 de maio de 2015 > Guiné 63/74 - P14610: Efemérides (187): Cerimónias comemorativas do 13.º aniversário da inauguração do Monumento ao Torrienses Mortos na Guerra do Ultramar e do 89.º aniversário do Núcleo de Torres Vedras e Lourinhã, dia 31 de Maio de 2015, em Torres Vedras

Guiné 63/74 - P14618: Notas de leitura (712): René Pélissier escreveu sobre a CCAÇ 2317, Gandembel (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Maio de 2015:

Queridos amigos,
É sempre bom que se fale dos nossos livros, e em publicações de grande importância, como é o caso da Africana Studia.
O essencial respeitante ao livro do Idálio Reis já está dito e publicado no nosso blogue, em martírio que está gravado em bronze para a História.
Vale a pena ver a peça de um grande historiador que é René Pélissier, mais uma razão para o orgulho que temos no nosso blogue.

Um abraço do
Mário


René Pélissier escreveu sobre a CCAÇ 2317, Gandembel

Beja Santos

Na conceituada revista Africana Studia, uma das poucas publicações científicas relacionadas com estudos africanos, editada pelo Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, no n.º 20, de 2013, René Pélissier, que regularmente aqui publica as suas recensões sobre obra da literatura colonial, debruça-se sobre o livro de Idálio Reis, a "CCAÇ 2317 na guerra da Guiné. Gandembel/Ponte Balana", 2012.

É do conhecimento de todos que à CCAÇ 2317 coube o martírio de erigir junto do “Corredor da morte” um aquartelamento por decisão do Estado-maior de Arnaldo Schulz. Viveram literalmente enterrados no solo, como escreve Pélissier e o martírio acabou em 28 de Janeiro de 1969 quando Gandembel foi evacuado.
Entretanto, este posto avançado em terra de ninguém foi flagelado 372 vezes enquanto durou o suplício.

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Nota do editor

Último poste da série de 11 de maio de 2015 > Guiné 63/74 - P14597: Notas de leitura (711): "O Outro Lado da Guerra Colonial", por Dora Alexandre, A Esfera dos Livros, 2015 (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P14617: Questões politicamente (in)correctas (46): "Não sou 'tuga', sou português"... (António J. Pereira da Costa) / "Confesso que nunca me chocou como português e patriota ser chamado por 'tuga' pelos guineenses" (Francisco Baptista)...

1. Comentário (*) do António José Pereira da Costa
nosso grã-tabanqueiro [, Coronel art ref, ex-alf art.  CART 1692/BART 1914, Cacine, 1968/69; ex-cap art,  CART 3494/BART 3873, Xime e Mansambo, e CART 3567, Mansabá, 1972/74; é prortanto oriundo da Academia Militar, e não vem de oficial miliciano, como por lapso é referido mais abaixo, no comentário de outro dos nossos grã-tabanqueiros, o Francisco Baptista. ex-alf mil inf, CCAÇ 2616/BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72)]

Olá, Camaradas

Pese embora a justeza do assunto tratado, considero ofensivo o nome da organização que procura os pais dos filhos dos militares portugueses que prestaram serviço na Guiné.

Não sou "Tuga", sou Português e só fui assim chamado no contexto diferente pelos guerrilheiros do PAIGC. Acho de péssimo gosto que se persista na utilização de uma alcunha do tempo da Guerra.

Não vejo bem o que esta organização espera obter. Se é ver quem foi o pai de quem não tenho nada contra, se calhar, antes pelo contrário. Contudo, parece-me excessivo que se espere mais do que isto.
Excluindo casos de violação, de que nunca ouvi falar, estamos perante leviandades de juventude das quais hoje, se calhar, ninguém sai bem...

Confesso que sempre ouvi chamar aos ciganos "filhos do vento" por não terem terra e andarem sempre e movimento, comerciando.

Mas posso aceitar a designação que foi estabelecida. Uma organização para a procura de pais cujo nome contem uma alcunha de guerra é verdadeiramente inaceitável...

Um Ab.
António J. P. Costa


2. Comentário de Francisco Baptista (*)


Camarada António Costa;

Apesar de algumas clivagens sociais e militares que herdamos da nossa sociedade pequena e demasiado escalonada, confesso que nunca me chocou como português e patriota ser chamado por tuga por naturais da Guiné Bissau. Se pensares bem no dialecto crioulo que eles falavam não existe a palavra inteira "o português" que tu desejavas.

Pessoalmente agradeço-te a ti que talvez tenhas subido a hierarquia militar a partir de oficial miliciano a consideração pelos milhares e milhares de tugas milicianos que mesmo em percentagem,foram o grosso dos mortos, feridos e combatentes das três guerras de Àfrica. Tu sabes isso, amigo e camarada, porque a tua guerra não começou pelos gabinetes de ar condicionado como a de muitos dos nossos superiores, a quem não podemos chamar camaradas mesmo depois de reformados.
O processo de democratização civil e militar deste grande general que se chama Luís Graça é o possível, não é o desejável.

Um dia numa operação em Mansabá, com dois ou três pelotões, eu muito próximo do chefe da mílicia, um guineense alto e atlético, percebo que se cruzam com formigas das mais chatas de lá, seriam as formigas "correção", não sei. Sei, ele disse a pensar que eu não ouvia ; vamos deixar as formigas para os "tugas".

Estavamos de passagem, íamos corrigir a linguagem ou a mentalidade deles? 

Não quero tirar conclusões, todos os que me lêem são homens inteligentes.

Um abraço a todos,

Francisco Baptista

3. O que o dizem os dicionários  e os linguistas...


3.1. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

tu·ga
(redução de portuga)

adjectivo de dois géneros e substantivo de dois géneros

[Informal] O mesmo que português. = PORTUGA

"tuga", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/tuga [consultado em 15-05-2015].


3.2. Infopédia

tu.ga
[ˈtuɡɐ]
nome masculino

1. Guiné-Bissau soldado português
2. Guiné-Bissau designação dada a qualquer português
3. Guiné-Bissau designação dada a qualquer indivíduo de raça branca

tuga in Dicionário da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2015. [consult. 2015-05-15 10:31:08]. Disponível na Internet: http://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/tuga

3.3. Ciberdúvidas da Língua Portuguesa

À volta dos termos galego, portuga e brasuca
Ida Rebelo #

Sobre o termo portuga, convém fazer um comentário que, certamente, não se encontra nos dicionários, mas pode ser verificado em meios digitais de publicação como blogues e também em jornais escritos ou falados.

O termo já foi muito usado no Brasil de forma pejorativa, mas galego é bem mais agressivo e antigo. Galego era a forma de se referirem aos imigrantes portugueses para ofendê-los, enquanto portuga era uma redução deportuguês que, hoje, é usada no mesmo tom que brasuca em Portugal, creio eu.

É possível, também, que, por falta de outro termo para designar informalmente o grupo, se tenha passado a utilizar esse termo em outros contextos que não incluem um tom pejorativo. Cabe aos portugueses dizerem como é usado o termo brasuca em Portugal…

Com o advento da Internet e de grupos como Yahoo, Orkut e os blogues, esses termos passaram a fazer parte de uma espécie de intercâmbio cultural e lingüístico entre integrantes das duas comunidades, portuguesa e brasileira. Hoje, os portugueses referem-se a si mesmos como portugas ou tugas, parecendo ser este último uma indiscutível redução do outro termo.

Acredito, pois, que há mais a dizer sobre o uso do que o que os dicionaristas são capazes, até mesmo devido à rapidez com que os termos são difundidos na Internet, com agilidade/tempo difíceis de ser igualados pelos meios tradicionais de publicação.

(#) Ida Rebelo é uma linguista brasileira. Doutora e mestre em Estudos da Linguagem, Descrição do Português para o Ensino de Português Língua Estrangeira, pelo Departamento de Letras, da PUC - Rio de Janeiro; licenciada em Letras Português-Francês, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Fonte:  Ciberdúvuidas da Lín gua Portuguesa > Artigo 1393  [Reproduzido com a devida vénia)...

3.4. Wikipédia

Tuga
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Tuga(s) é uma expressão utilizada para designar o(s) portugues(es), tal como acontece com Lusitanos, ainda que este último seja um termo mais erudito ou literário. Tuga é uma abreviatura de Portuga que, por sua vez, é uma derivação regressiva de português, com fontes registadas desde 1899.1

"António Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 2.ª edição, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986, ISBN 85-209-0846-2, p. 625

Tuga na Guerra colonial (...) 

O termo tuga popularizou-se durante os anos 1960, no decurso da dita "Guerra Colonial", como expressão para designar os portugueses por parte dos guerilheiros e oposição independentista africana em geral. Tinha como contraponto o termo turra (para terrorista, influenciada por gíria turra (andar às turras), usado pelos portugueses para designar os guerrilheiros independentistas. Ambas as expressões foram, nessa época, entendidas como depreciativas, por serem usadas pelo inimigo. (...)

3.5. Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné > Abreviaturas, siglas,  acrónimos, gíria, calão, expressões idiiomáticas, crioulo...

Tuga - Português, branco, colonialista (termo depreciativo) (crioulo)
Turra - Terrorista, guerrilheiro, combatente do PAIGC (termo depreciativo)

Temos muitas  referências ao termo "tuga" e/ou  aos "filhos do vento"... Ver aqui alguns postes, a título exemplificativo  (***).


20 de Julho de 2009 > Guiné 63/74 - P4710: Blogoterapia (119): As Fantas, as Marias, as Natachas, ou o amor em tempo de guerra e de diáspora (Cherno Baldé)

19 de Setembro de 2011 > Guiné 63/74 - P8798: Memórias de Gabú (José Saúde) (3): reflexos de uma guerra que deixou marcas no tempo: “Filhos do vento”



12 de abril de 2013 > Guiné 63/74 - P11377: (Ex)citações (218): Sexo em tempo de guerra... e brancos mpelelé no pós-independência (Cherno Baldé / José Teixeira / António Rosinha)

12 de julho de  2013 > Guiné 63/74 - P11829: Os filhos do vento (12): "Em busca do pai tuga" ou "Os filhos que os portugueses deixaram para trás"... Reportagem de Catarina Gomes, Manuel Roberto e Ricardo Rezende, a sair no Público, domingo, dia 14

Guiné 63/74 - P14616: Parabéns a você (902): António Eduardo Ferreira, ex-1.º Cabo Condutor Auto Rodas da CART 3493 (Guiné, 1972/74)

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Nota do editor

Último poste da série de 10 de maio de 2015 > Guiné 63/74 - P14592: Parabéns a você (901): Fernando Valente (Magro), ex-Cap Mil do BENG 447 (Guiné, 1970/72) e Henrique Matos, ex-Alf Mil Art, CMDT do Pel Caç Nat 52 (Guiné, 1966/68)

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Guiné 63/74 - P14615: Convívios (683): XXXVI Encontro do pessoal da CCAV 2639, a levar a efeito no próximo dia 20 de Junho, em Aguim-Anadia (Mário Lourenço)

1. Pede-nos o nosso camarada Mário Lourenço (ex-1.º Cabo Radiotelegrafista da CCAV 2639 Binar, Pete, Bula, Ponta Consolação e Capunga, 1969/71), que anunciemos o 36.º Convívio da sua Unidade, a levar a efeito no próximo dia 20 de Junho, em Aguim-Anadia.




VAI-SE REALIZAR, NO DIA 20 DE JUNHO DE 2015, 
 O 36.º CONVÍVIO DOS ANTIGOS COMBATENTES DA 
COMPANHIA DE CAVALARIA 2639


CONCENTRAÇÃO PELAS 12 HORAS JUNTO AO RESTAURANTE "NOVA CASA DOS LEITÕES" EM AGUIM-ANADIA

GRATOS PELA VOSSA ATENÇÃO. 

FICAMOS A AGUARDAR PELA VOSSA PRESENÇA 

CONTACTO; JOSÉ CERVEIRA LAGOA - 96 883 76 81 / 91 293 32 43 / 91 554 25 64 
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 Nota do editor

Último poste da série de 13 de maio de 2015 > Guiné 63/74 - P14612: Convívios (682): IX Encontro do pessoal da CCAÇ 4740, dia 20 de Junho de 2015, em Fátima (Armando Faria)

Guiné 63/74 - P14614: A bianda nossa de cada dia (6): O que bebíamos e comíamos na 1659, nem uma onça escapou (Mário Vitorino Gaspar)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Vitorino Gaspar (ex-Fur Mil At Art e Minas e Armadilhas da CART 1659, Gadamael e Ganturé, 1967/68), com data de 8 de Maio de 2015:

Camaradas e Amigos

Na CART 1659, minha Companhia, repleta de amigos, existia um Vaguemestre, meu Amigo, Augusto Varandas Casimiro. Curiosamente, o Cozinheiro era o 1.º Cabo Zacarias Salvador Branco e não existiam padeiros. Ninguém se lembrou que era imprescindível haver um padeiro.

Quando pisámos terras de Gadamael Porto, segui logo para o destacamento de Ganturé. Pediram-me para gerir o “rancho” de todo o pessoal e ao mesmo tempo para ser Gerente de Messe. No caso de Gerente de Messe combinou-se ser este cargo rotativo. Além de Atirador de Artilharia de G3 e de ter o Curso de Minas e Armadilhas, era Vaguemestre, com certeza apoiado pelo Casimiro.

No seguinte dia, já que a CCAÇ 798 deixara bastante pão, o Capitão numa reunião disse não haver na CART 1659 um Padeiro, e estava com dificuldades em resolver a situação. Existiam entretanto uns Soldados que diziam já terem visto fazer pão, e que estavam prontos a darem o seu contributo. Padeiro oficialmente não existia, ninguém sabia, nem sequer o Exército, que eu era padeiro, até com Carteira Profissional.
Nunca senti amores pela profissão do meu pai, muito embora se possa dizer ter nascido numa padaria. Se leram o texto sobre “O meu Pai”, já o sabem. Mas teria sido melhor para mim, dizer que era padeiro quando fui incorporado.
Verdade ou não? – É a pergunta que faço à Tabanca.

Disse que era Padeiro, mas que não queria voltar a ser, mas prontifiquei-me em colaborar na primeira fornada, acompanhado com os futuros padeiros. Fui uma noite só, depois surgiu a sabedoria “desenrascar sempre”.

Existia fabrico de pão, tivemos a sorte da farinha ser de muito boa qualidade. Farinha Francesa. Com o pano dos sacos, os civis aproveitavam para fazerem saias e os tais trapos enrolados. Que lindas fincavam! Carimbadas com marca da farinha francesa, e a tinta não saía.

Quanto aos cozinheiros, o 1.º Cabo Zacarias (que deve ainda morar na Charneca da Caparica e devia juntar-se à tabanca da “bianda”), há muito que não o vejo, ficou com a carga de uns tantos soldados-padeiros aprendizes para o apoiarem.

E as Messes? Em Ganturé existia uma: no início éramos dois Alferes Miliciano (um deles ficara lá, rendera um Alferes Miliciano da CCAÇ 798); 2.º Sargento e 3 Furriéis Milicianos. E tínhamos Messe e um Soldado Atirador cozinheiro desenrascado – os portugueses possuem essa bênção – são desenrascados. Para o “rancho” saquei ao Casimiro um bidão de azeite, penso que éramos abastecidos quase diariamente.
O prato principal era a famosa, e eu que nunca a vi com olhos, nunca desde criança gostei a “bianda”.
O vinho era entregue em barris e garrafões de 15/20 litros cada, tudo tara perdida. Os barris serviam para se fazerem cadeiras de baloiço.

É verdade que nos barcos retiravam vinho, mas faziam-no para o beberem na ocasião. Quando cumpri a comissão todo o vasilhame é de tara perdida.

Criança com uns 12 anos, sendo os meus pais proprietários de uma quinta, com vinha, vinho de qualidade, era a primeira pessoa a beber umas gotas de vinho, dizia: Este ano é bom! Os anos passaram e apurei mais o paladar, dizendo inclusive as razões.

Quando me apresentei no RI 5 nas Caldas da Rainha para o Curso de Sargentos Milicianos, pertenci a um grupo que percorreu todas, e muitas tabernas que lá existiam, sabia onde estava o melhor vinho. Na Guiné provei a primeira vez, não gostei, pior fiquei desconfiado. Com certeza que se tratava de vinho, nem sequer baptizado, antes anestesiante. Deixei de beber, não arrisquei. Ouvi falar de cânfora.
Pergunto: E a cerveja? O que continha a cerveja, diferente daquela que se bebe cá?

Quando fui transferido para Gadamael, fiquei a dormir junto do Furriéis Milicianos o Vaguemestre Casimiro e o Furriel Auto, o Guerreiro Justo, este malandro, que vai ler esta minha discrição, não era guerreiro, era Auto e seria justo? Decerto que sim. Um grande amigo.

Como não comia arroz, antes bianda, procurava refúgio no atum, mas um dia descobri que no armazém existia um monte de caixas, julgo ter perguntado o que estava naquelas caixas, e eram muitas. Então o que vi? Eram latas de borrachos com ervilhas, mas fora de prazo. A CCAÇ 798 deixou-nos, ou deixou uma alternativa que substituía a bianda. Devo ter sido eu a comer tudo, estavam todas as latas fora de prazo, mas em condições.

A sopa era um outro grande prato, alcunhámos a sopa de “365 dias”. Sempre e sempre lá estava ela, mandada pelo PAIGC. Estava… mascarada? Tipo Knorr. Lembro-me que um dia recebemos os chamados “frescos”, normalmente: frangos de aviário; sardinha fresca; ovos; tomate e não sei se mais algum outro comestível.

Iam surgindo menus novos – até em termos de boa comida – quando vi os tais ovos, resolvi, até por haver pão duro, pedir ao cozinheiro, ao grande cozinheiro, que fizesse Sopa à Alentejana. Foi um descalabro, e os ovos ganharam asas. Não foram aproveitados os ovos para outras refeições. Concluí mais tarde que os “frescos eram uma bênção dos céus”, eles vinham mesmo nos céus, e de helicóptero.

O “desenrascar” dava para cada um de nós fazer um copo. Uma garrafa de 6 decilitros de cerveja sagres vazia, um ferro e óleo queimado. O necessário para levar avante a tarefa. Enchia-se a garrafa até a altura que pretendíamos que o copo tivesse, colocava-se a vara de ferro ao lume até ficar incandescente, colocar o ferro no gargalo da garrafa e zás, lá estava o copo.

Quanto ao comer, muitas e muitas vezes “peixinhos da bolanha” e lá estavam os tais peixinhos. A acompanhar? Feijão-frade! Acho que foram algumas vezes uns destes peixinhos para Guileje e Mejo. Talvez até para Sangonhá e Cacoca.
No período em que havia pesca e caça dava para dividir pelas Companhias.

Quase sempre a comida tinha de ser inventada e passávamos maus bocados, sendo a cerveja para mim a alternativa, não alimentava o estômago mas a alma. Bacalhau carregado de cal, se não era cal, era parecido. Dobrada desidratada, era uma beleza. Depois e sempre ao almoço e ao jantar, fosse no Rancho ou na Messe lá estava a tal sopa.

Para não enjoar, vou tratar de recuperar o isqueiro Zippo do Movimento Nacional Feminino, e possuía 3 avariados, mas se conseguisse aproveitar um, era óptimo. E consegui. Uma oferta de um Furriel que se desenfiou, da CCAÇ 798, rendida pela CART 1659.

Virar a meio, à esquerda lá está o meu palacete

Quem ia de Gadamael para Ganturé, depois da entrada à esquerda lá estava a minha habitação, uma barraca de lama e capim coberta com chapa. Tipo forno de tortura. Mas tinha três isqueiros e restou um. Obrigado Furriel Miliciano da CCAÇ 798!

Vamos ver os tais utensílios. Tudo velho: colheres, pratos, tachos, panelas, garfos, facas e era… Improvisar. De caixote fazia-se um armário; uma mesa-de-cabeceira; um móvel para colocar a mala de cartão. Mas tinha de ficar por ali, mais não. Onde meter aquilo que tinha e espaço? Meus vizinhos, um abrigo improvisado de chapa de bidão; bidão; terra batida e o telhado de chapa de zinco.
Forno…Melhorias? Um tecto falso feito de capim e colocar capim sobre zinco… molhar quando há tempo.

Sucedia que apanhavam caça, uma alegria. Houve um período que comer havia, tanto peixe como carne do mato. As salsichas, se existindo era uma festa. Sardinha em lata. Atum, e que fartura do atum, então não que inventei (registado o invento) o prato:

“Atum de conserva assada no forno”.
Como fazer?
– Abrem-se as latas de 2,200 Kg cada uma de atum e parte-se ao meio o conteúdo de cada lata, na altura com certeza. Fica metade de cada lata, espalha-se as metades e tempera-se; um pouco de pimenta; cebola às rodelas; um pouco de azeite (o atum vem em azeite, portanto é pouco azeite) e leva-se ao forno velho e a cair num tabuleiro de chapa de bidão. Que cheirinho! Comer…

Gadamael Porto – SET68 Final da Comissão

Em Gadamael Porto criaram-se duas Messes: de Oficiais e de Sargentos e era nomeado um Gerente de cada Messe. Tocava a todos, era rotativo. Então e os utensílios da cozinha. Tabuleiros fortes, feitos na Oficina onde se encontravam os Mecânicos – esta era uma boa Equipa chefiada pelo Furriel Miliciano, algarvio de Loulé – um camarada – José Manuel Guerreiro Justo (acompanha o Blogue).

Os algarvios não têm terra, são “algarvios”. Portanto estamos em família porque o Camarada Joviano Neto Mendonça Teixeira é natural da Luz de Tavira. Andei por estas andanças em Agosto de 1965. Era terra de mulher bonita, gostava dos Milicianos.
Lembro quando cheguei ao CISMI, esperavam-nos um grupo de jovens morenas algarvias, dizia: Tavira tem bonitas raparigas e boa uva.
Lavar a roupa, engomar umas calças, o dinheiro não chegava. E a água? Uma bica 12 tostões e mais 6 tostões por um copo de água. Havia bom vinho, e subia.

Tudo era improvisado na Guiné. Os tais tabuleiros iam ao forno do pão, e era o único alimento de qualidade. É verdade que existiam uns naturais que iam à pesca e caça. A pesca quase sempre peixinhos muito pequenos. Apareceu lá um negro da Serra Leoa, falava com o tipo, em Francês, sempre desconfiei dele, ia à pesca mas já ao mar, trazia um peixe semelhante à pescada, a cabeça comprida. Deitavam fora as cabeças. Um dia disse para as guardarem e pendurá-las no alpendre, como vira em Sesimbra. Depois de aberta a cabeça, pendurada e seca. Era um pitéu.

A sopa era da boa, tão boa que todos os dias era sempre igual. Tínhamos um bom camarada, andava sempre connosco, o feijão-frade (duas caras, feijão preto e ciclistas). Nunca enjoei, e não vou contar os feijões que comi por unidade, mas por medida. Se a cerveja coubesse numa piscina Olímpica de 100 metros, os camaradas “ciclistas” davam para fazer um a um alinhados, em bicha de pirilau faziam a fronteira pelo menos de Portugal, este cantinho à beira-mar plantado.

A água era imprópria para consumo, mesmo filtrada. Logo no início da comissão deixei de bebê-la e substituí pela sempre bela cerveja de 6 decilitros. A comida repetida. Tendo reparado que nas operações em que levávamos ração de combate que a rapaziada não comia aquele triângulo de queijo. Disse ao Furriel Miliciano Vaguemestre que era melhor, quando na entrega das rações, ele perguntar se cada um comia o queijo. Guardava os queijos num caixote. Dava sempre para desenrascar, metiam-se 3 triângulos no pão e bebia-se 7 cervejas das tais, sempre as “bazucas”.

Um dia ao dar uma volta por Gadamael Porto, vi umas folhas juntas à paliçada. Perguntei a um Soldado se sabia o que era aquilo. Respondeu-me a gritar:
– Beldroegas, meu furriel!
Além de ter de descobrir as minas, descobrira a pólvora. Nunca se chegou a saber o nome daquele conjunto de beldroegas e “365 dias”. As folhinhas nadavam e numa colherada ia a verdura para o maneta. Saía-nos a sorte grande quando apanhavam caça. Num período, e longo ficámos sem abastecimento.

A “bianda” nunca foi para mim um problema, nunca gostei de arroz e de nabos. Curiosamente de nabos, nem duns nem doutros.
Um dia chego junto do Cozinheiro da Messe e digo-lhe que tínhamos de combinar o prato, respondeu-me que eram salsichas com arroz. Eu sabia, referi que o ajudaria a fazer o prato. Iniciámos a obra.
Em cada salsicha colocaram-se quatro palitos, ficando a mesma parecendo mais um animal com quatro patas, mas em pé. Tudo feito secretamente. Os pratos foram todos para a mesa com as salsichas e o arroz e ao mesmo tempo.
O pessoal, que andava em baixo e nem sequer tinha vontade de rir, desatou numa sonora gargalhada. Um grito. Riram.

Também segundo o que me lembre faltava o correio. Nem a avioneta nem barco. Em toda a guerra foi o pior. Logo de seguida, estou no cais, por nós construído, mas enganados com promessas de 18 meses de comissão. Prometeram no início se fizéssemos o cais eram 18 meses e juraram.
Estando no cais vejo algo. Sonho? Então não está um civil a tirar a pele a um animal que não reconhecia. Olhei para aquela carne fresca, perguntei se não vendia. Respondeu que “cá presta”, foi o que percebi, e insisti. Levou o bicho para a Messe, e segui com uma bonita pele nas mãos.

Disse para assar as pernas e o resto era para guisar noutra refeição. Assisti a todo o trabalho do Soldado Lima.
Temperou, cebolas ainda existiam. Levaram os tabuleiros de chapa de bidão. Neste período já tínhamos outro conforto. Os copos feitos de garrafas de cerveja tinham sido substituídos por copos de inox. Pratos e talheres tudo de inox. Não tomávamos banho de púcaro. Tínhamos duches ainda improvisados mas os bidões estavam sobre estacas, altos e com torneiras. A Companhia quase que podia tomar banho à mesma hora. Tínhamos terminado de acabar as obras da Sala do Soldado, foi já no fim e pouco gozámos. Em suma: condições mínimas existiam, mas víveres no fim. O Capitão gritava para Bissau. Os barcos não chegavam. Sofríamos nós e Mejo, Guileje e Gandembel. E ataques, com muto mais frequência a Ganturé. Os pescadores e caçadores não saíam.

Bem, o Capitão aproxima-se de mim e diz, “então Mário, onde foi buscar a carne. Cheira tão bem”. Respondi “se gosta, venha almoçar connosco”. Tive entretanto conhecimento pelo civil que me entregara a carne que o bicho caçado era uma onça, e que eu insistira mas que a carne de onça não é boa para comer, embora não fazendo mal nem morresse quem a comesse. Fui àquilo que denominavam de Enfermaria e estava lá o Furriel Miliciano Enfermeiro José Jorge Fernandes Durães (desconheço o seu paradeiro. Se estás a ler um grade abraço!). Contei o que se passava e respondeu-me que pode a carne não prestar mas não mata ninguém.

Chegou a hora do almoço. Cheirava bem, o pessoal ansioso e vem a comida para o prato. Espeto o garfo e a carne separava-se. Comem, até que o Durães diz, “Justo, compraste a pele e por que razão não compraram a carne do bicho”. O Capitão respondeu que o Justo é que havia comprado a pele, e que ele morria se comesse a carne de uma onça. O Durães diz, rindo: - “Então morra por que é o que está a comer”.

Os barcos não chegam e o Capitão informa o Batalhão que o moral da Companhia está em baixo, se não chegarem víveres não saímos de Gadamael nem de Ganturé.
Chegam frescos de Bissau, penso que só frango, um frango por cada um. Entregam na Messe uns 19 frangos e grandes.
Chamei o Soldado Cozinheiro Lima e disse que eram todos assados no forno e um para cada. Alegria total, alguns quase que deitavam frango pelos olhos, um dia bem passado. Quando o Capitão tomou conhecimento veio zangado dizer “e agora, comeram um frango que era para quatro refeições, o que comem agora”. Respondi que continuávamos a comer o que havia antes.

Bem chegaram os víveres, barcos carregados de tudo. Tivemos o prazer de comer naquele dia.
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Nota do editor

Último poste da série de 11 de Maio de 2015 > Guiné 63/74 - P14598: A bianda nossa de cada dia (5): Se a vida era boa em Lisboa, em Bissau nem tudo era mau... Do arroz de todas cores ao vinho verde alvarinho "Palácio da Brejoeira"... (Hélder Sousa)