sexta-feira, 20 de maio de 2016

Guiné 63/74 - P16112: Agenda cultural (485): Sessão de lançamento do novo livro do lusoguineense António Júlio Estácio, "Bolama, a saudosa...", Lisboa, Palácio da Independência, dia 25, às 18h00 - Resumo da obra: parte I

Parte I do resumo do livro "Bolama, a saudosa...", da autoria do nosso amigo e camarada, lusoguineense, António [Júlio] Estácio.


Vai ser  lançado em Lisboa, 
no Palácio da Independência, mesmo ali ao lado 
do Teatro de D. Maria II, 
dia 25 de maio,  4ª feira,
às 18h00.

O  autor:

António Estácio, lusoguineense,
 nado e criado no chão de papel, em Bissau,  em 1947, 
engenheiro técnico agrário (Coimbra, 1964-1967, Escola de Regentes Agrícolas,
 onde foi condiscípulo do Paulo Santiago), 
fez a tropa (e a guerra) em Angola, como alferes miliciano (1970/72). 
Trabalharia depois em Macau (de 1972 a 1998).

Vive há quase duas décadas em, Portugal, no concelho de Sintra, 
É membro da nossa Tabanca Grande desde maio de 2010 (*). 
Tem-se dedicado à escrita,
 é autor de dois livros que narram as histórias de vida  
de duas "mulheres grandes" da Guiné, 
a caboverdeana Nha Carlota (1889-1970) 
e  a guineense Nha Bijagó (1871-1959). (**).

Todos os amigos e camaradas da Guiné, que se sentam à sombra do poilão da Tabanca Grande, estão naturalmente convidados para este evento cultural. De resto, o Estácio é um bom amigo e melhor camarada, tem participado nos nossos encontros anuais em Monte Real, e é um elo de ligação fundamental com a história e a cultura crioula da Guiné-Bissau.

Esta obra, até pela sua extensão (c. de meio milhar de páginas), foi um "parto difícil", é um projeto que já vem de 2012. Parte do material fotográfico foi cedido pelo nosso blogue.

Parabéns ao autor, por ter chegado a bom porto, o mesmo é dizer que não morreu na praia!... Fica aqui um "cheirinho" do seu livro, com este resumo (alargado) com que ele presenteou o nosso blogue. Obrigado, António!... E boa sorte para o teu livro. 


Sinopse da obra - I Parte (da chegada dos portugueses até 1932)










(Continua)
_____________

(...) António Júlio Emerenciano Estácio  [,. foto à  esquerda, em 1964,]  nasceu em Bissau, a 3 de maio de 1947, no tchom de Papel.  Estudou no Liceu Honório Barreto, onde foi condiscípulo do nosso amigo Pepito e foi aluno da nossa decana, a dra. Clara Schwarz (n. 1915).

Conheceu, ainda na Guiné, o nosso camarada Mário Dias.

De 1964 a 67 estudou, em Coimbra, na ex-Escola Nacional de Agricultura, onde tirou o Curso de Regente Agrícola,  tendo depois estagiado no extinto Instituto de Algodão de Angola (IAA).

De Janeiro de 1969 a Abril de 1972 cumpriu o serviço militar obrigatório, tendo, a partir de março de 1970 a maio de 1972, prestado comissão de serviço na Região Militar de Angola (RMA), Esteve aquartelado nas povoações de Luquembo, Sautar e Bessa Monteiro.

Em 28/9/1972 chegou a Macau, a fim de desempenhar funções técnicas na então Brigada da Missão de Estudos Agronómicos do Ultramar (MEAU). Neste território, conviveu com o Mário Dias e com o  [nosso saudoso] José Neto, de quem ficou grande amigo. Trata.se de dois grã-tabanqueiros da primeira hora, camaradas da Guiné.

De 28 setembro de 1972 a 2 dezembro de 1998 viveu em Macau, onde exerceu vários cargos e funções. Vive hoje em Portugal. (...)

(**) Vd. postes de :

3 de julho de  2011 > Guiné 63/74 - P8500: Fotos do lançamento do último livro do nosso camarada e amigo António Estácio, Nha Bijagó: Respeitada personalidade da Sociedade Guineense (1871-1959) , Lisboa, 20 de Junho de 2011


20 de maio de 2010 > Guiné 63/74 - P6434: Notas de leitura (109): Carlota Lima Leite Pires, 'Nha Carlota' (1889-1970), de António Estácio (Mário Beja Santos)

(***) Último poste da série > 18 de maio de 2016 > Guiné 63/74 - P16104: Agenda cultural (477): Lançamento do livro "A Conquista das Almas: Cartazes e Panfletos da Acção Psicológica na Guerra Colonial", de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, dia 23 de Maio, às 18h30, na Associação 25 de Abril, em Lisboa

Guiné 63/74 - P16111: Parabéns a você (1082): Mário Pinto, ex-Fur Mil Art da CART 2519 (Guiné, 1969/71)

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Nota do editor

Último poste da série de 19 de Maio de 2016 Guiné 63/74 - P16106: Parabéns a você (1081): Joaquim Martins, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 4142 (Guiné, 1972/74) e Xico Allen, ex-1.º Cabo At Inf da CCAÇ 3566 (Guiné, 1972/74)

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Guiné 63/74 - P16110: Convívios (747): Almoço do pessoal da 3872, onde se encontraram dois grandes médicos, o Dr. Pereira Coelho e o Dr. Rui Vieira Coelho (Juvenal Amado)

 

1. Mensagem nosso camarada Juvenal Amado (ex-1.º Cabo Condutor Auto Rodas da CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1971/74), com data de 11 de Maio de 2016, com o rescaldo do Convívio do pessoal do BCAÇ 3872, ocorrido no passado dia 8:


Almoço do 3872

No dia 8 de Maio realizou-se mais um Encontro da CCS do 3872 onde se juntaram alguns elementos em especial da 3491 - Dulombi e 3490 - Saltinho, que já vão sendo hábito marcar presença. Não foi dos mais concorridos pois vão as preferências geográficas do pessoal participante por de zonas mais ao centro do país.

Foi no entanto um grande convívio, onde inesperadamente revi camaradas que já não via há muito tempo e presenciei reencontros de camaradas, que por estranho que pareça, não se reconheceram. O Cabo Enfermeiro Correia não reconheceu o Cabo Enfermeiro Catroga. Valeu a pena ver a estupefação genuína após a minha pergunta para adivinhar quem ali vinha. Ele não conseguiu reconhecer até eu desvendar o segredo. Depois, foi o que se esperava com abraços e conversas de nunca mais acabar.

O almoço foi bem condimentado com as nossas recordações como de costume. Também de costume se falou dos ausentes, reviveram-se as estórias com nuances e versões, que o tempo burilou onde o mesmo acontecimento é contado de várias formas.
Mas que interessa isso? Não se está a escrever a História mas sim a relembrar estórias.

A talhe de foice, acabou por vir à baila um dos nomes mais acarinhados, que por doença não pode estar presente.
Todos os que lidaram com ele têm estórias mirabolantes de que foi protagonista e como dava a volta ao tenente, que tinha por ele uma estima paternal.
Falo do Alfredo (estofador), que era um daqueles camaradas que tinha sempre uma piada, uma partida e sendo ele de riso fácil, o tornava contagiante espalhando-o pela assistência.

Em conversa com o primo, que foi furriel da ferrugem e por conseguinte superior no nosso pelotão, a respeito da doença (AVC) que o acometeu, diz este:
- ”O estofador não fala o que é uma grande injustiça”.

Como grande comunicador que era, ao perder o dom da fala, fica limitado no poder que tinha para espalhar a sua boa disposição. A sua forma de se expressar, com tiques de malandragem lisboeta, fazia dele uma companhia sempre desejada.

O tenente tinha-se arvorado em “padrinho” e protector. Passava a vida a ralhar por tudo e por nada. Mandava-o chamar a todo o momento para as tarefas mais disparatadas, facto esse que motivava o desaparecimento do “estofa” por largos períodos das vistas do nosso tenente. Mas o nosso superior deitava a mão a qualquer um que passasse junto à secretaria, mandava-o chamar a toda a hora e a todo o momento. Também lhe cortava a idas a Bafatá, o que motivava que ele se desenfiasse para a bolanha e aí apanhava boleia da coluna onde tinha sido proibido de participar.
Tal exagero quase perseguição, veio-se a saber que se devia à promessa do Alfredo “estofa”, de vir a integrar a Guarda-Fiscal, ou Republicana, após a desmobilização. E assim o tenente garantia que o nosso extrovertido camarada não apanhasse alguma porrada, que lhe sujasse a folha de serviços.
Nesse jogo de “sedução” o Alfredo tinha o que queria do tenente, mas também lhe tinha que aturar as reprimendas.

Assim se chegou ao fim da comissão sem que o “estofa” assinasse os benditos papeis que o tornaria membro dessas pouco prestigiadas, na altura, forças da ordem.

Já tínhamos os carros preparados com a bagagem para rumar ao Xime e embarcarmos para Bissau. A cerveja corria a rodos e todos bem bebidos, lá andava o tenente à procura do arredio camarada que não queria de maneira nenhuma ser apanhado e assinar os tais papeis.

Mas o imponderável aconteceu e o bem bebido Alfredo, entre a enfermaria e o edifício do comando, dá-se de frente com o até ali “benfeitor”. Levou um ralho a que os vapores do álcool fizeram responder assim mais ao menos:
- Raios parta o homem, que não larga da mão!
- O que é que disseste? Queres ver que levas já nas trombas?

O Alfredo embalado como estava e com voz distorcida responde:
- Dê-me sim, que logo vê o que lhe acontece!

O tenente ficou estarrecido. Era impensável o que acabara de ouvir do seu protegido. Desta vez, o nosso camarada tinha transposto a barreira do inaceitável até de um pai para filho.
A coisa ia acabar mal e logo chamamos o Alfredo à razão, que entre os vapores do álcool começou a aperceber-se do que tinha acabado de fazer. No dia seguinte partiríamos logo cedo para o Xime e urgia que o “estofa” arranjasse forma de pedir desculpa ao tenente, atribuindo que não sabia com quem estava a falar, pois para além dos copos, ali entre as viaturas carregadas estava escuro, etc. etc. etc.
Escapou à justa. O tenente não deve ter engolido as desculpas esfarrapadas e assim se acabou a amizade, bem como a entrada do Alfredo para a GNR ou congénere Guarda-Fiscal.
Parece que ainda vejo o Alfredo a contar isto imitando o nosso tenente e a fazer-nos rir até às lágrimas.

Compreende-se que seja uma injustiça ter perdido o dom da fala, ver os esforços que ele faz para nos comunicar, a coisa mais básica e insignificante sem o conseguir.
Este ano não foi ao encontro pois no ano passado emocionou-se de tal forma, que o médico desaconselhou a sua participação no deste ano. Para o ano talvez, e faço votos que ele esteja melhor para juntos recordarmos as peripécias de que ele era pródigo.

Um abraço
JA

 Drs. Pereira Coelho e Rui Vieira Coelho

 Enfermeiro Catroga e Ussumane Baldé

Momento do encontro dos dois grandes médicos do 3872
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Nota do editor

Último poste da série de 14 de Maio de 2016 Guiné 63/74 - P16086: Convívios (746): 22.ª edição (2016): Pessoal de Bambadinca, 1968/71 (CCS/BCAÇ 2852, CCAÇ 12, Pel Rec Daimler 2046, Pel Rec Daimler 2206, Pel Caç Nat 63, e outras subunidades adidas) - Coimbra, 28 de Maio de 2016 (António Damas Murta, ex-1.º Cabo Op Cripto, CCAÇ 12, 1969/71)

Guiné 63/74 - P16109: Álbum fotográfico do José Salvado, ex-fur mil, CART 1744 (S. Domingos, 1967/69) - Parte II: São Domingos (1)


Foto nº 1 >  "Lendo o correio no mato... Curiosa foto, porque tirada com rolo novo, assumiu as cores da bandeira nacional. Foi mero acaso!" [...Ou entrou  luz ou houve erro na revelação,]



Foto nº 2 > "Ponte construída depois da nossa chegada"


Foto nº 3 >  "Regresso ao quartel, em S. Domingos"


Foto nº 4 > "S. Domingos, do lado oposto da ribeira"


Foto nº 5 > "Vista da Ribeira de S. Domingos"
Guiné > Região do Cacheu > S. Domingos > CART 1744 (1967/69)

Fotos (e legendas): © José Salvado (2016). Todos os direitos reservados








Segunda parte do álbum de fotografias do novo membro da nossa Tabanca Grande, José Salvado, ex-fur mil arm pes inf, CART 1744 (São Domingos, 1967/69). 

Natural da Covilhã, vive hoje nas Caldas Rainha onde é advogado. Também passou por Angola onde foi administrador de posto (1969-1975).

A CART 1744 partiu para o TO da Guiné, no T/T Uíge,  em 20/7/1967, desembarcou em Bissau a 25, sendo colocada em S. Domingos, na região do Cacheu, como companhia de intervenção. Fez operações em S. Domingos, Susana, Ingoré, Cacheu e Sedengal. Regressou à metrópole  no T/T Niassa, com partida a 16 de maio de 1969, e desembarque em Lisboa no dia 21.

Era comandante da companhia o  cap mil cav António José de Carvalho Serrão.

O José Salvado mandou-nos um resumo da história da sua companhia da qual sabíamos muito pouco até agora. (*)
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Nota do editor:

Último poste da série > 16 de maio de 2016 > Guiné 63/74 - P16096: Álbum fotográfico do José Salvado, ex-fur mil, CART 1744 (São Domingos, 1967/69) - Parte I: Bissau e Bissalanca, 1968

Guiné 63/74 - P16108: Tabanca Grande (488): Conceição Alves, esposa do nosso camarada José Eduardo Alves, recentemente falecido, benemérita em favor das crianças de Mampatá/Guiné-Bissau, onde já se deslocou mais que uma vez desde 2009, nossa nova Amiga Grã-Tabanqueira de Leça da Palmeira

1. Aquando do funeral do nosso camarada José Eduardo Alves, o Manuel Carvalho (ex-Fur Mil da CCAÇ 2366) falou-me de um Poste (Guiné 63/74 - P4458: Bem-vindo, Comandante Marcelino!) onde o Eduardo dava as boas-vindas ao seu Comandante de Companhia, ex-Cap Mil João Marcelino, e falava na hipótese de a sua esposa Conceição fazer parte da nossa tertúlia.

Nesse mesmo Poste, mais abaixo, tinha-nos na altura passado despercebido este parágrafo onde o Eduardo se referia a uma mensagem enviada por si ao Blogue.:

Já mandei as fotografias para a [minha] adesão e perguntei se a minha esposa também pode fazer parte do blogue, porque ela diz que também foi militar, já que éramos casados quando fui para tropa.

Hoje, talvez já um pouco tarde, achamos ser de inteira justiça darmos entrada, com todas as honras,  à Conceição.
Porquê? Porque ela já foi à Guiné-Bissau umas quantas vezes com o marido, coisa que infelizmente não voltará a acontecer, continua a demonstrar vontade em ajudar aquele povo tão carenciado, especialmente as crianças, é só ver o que ela tem em "armazém" para enviar, ou levar pessoalmente como era seu desejo, e também porque, parafraseando ainda o seu marido, ela também foi militar já que era casada com ele antes da sua ida para a Guiné. Cumpriu a sua espinhosa missão na retaguarda.

A foto que se segue é a melhor justificação para recebermos de pé esta nossa nova amiga tertuliana. 

Guiné-Bissau - Mampatá - A Conceição rodeada de meninos.

Ortigosa - 2009 - IV Encontro da Tertúlia - Esta terá sido a primeira participação do casal Eduardo e Conceição nos nossos Encontros Nacionais.


2. Comentário do editor CV:

Bem-vinda cara amiga tertuliana Conceição Alves.
Vai ficar assim registada para a ligarmos ao, já saudoso, nosso camarada e seu companheiro de vida, que recentemente a (nos) deixou, José Eduardo Alves.

Que fique bem claro que a Conceição não ocupará na tertúlia o lugar do seu marido, está aqui por direito próprio e pelo seu sentimento de solidariedade em favor de quem precisa, especialmente pelas crianças da Guiné-Bissau.
Será uma honra tê-la entre nós, inclusive nos Encontros Nacionais da Tertúlia, se quiser dar-nos o prazer da sua companhia.

Ficamos também ao seu dispor para darmos a conhecer as suas iniciativas em favor dos meninos de Mampatá. Só terá que me contactar, já que somos vizinhos, em minha casa ou através do nosso comum amigo Ribeiro Agostinho.

Receba destes velhos combatentes da Guiné um enorme abraço e aceite a disponibilidade dos editores para o que lhe for útil.

Carlos Vinhal
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Nota do editor

Último poste da série de 19 de maio de 2016 Guiné 63/74 - P16107: Tabanca Grande (487): Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, cmdt Pel Red Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73): vive em Aveiro e é o nosso grã-tabanqueiro nº 716

Guiné 63/74 - P16107: Tabanca Grande (487): Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, cmdt Pel Red Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73): vive em Aveiro e é o nosso grã-tabanqueiro nº 716


 Foto nº 1 


Foto nº 1 A 


Fopto nº 1 B

Foto nº 1 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Da esquerda para a direita, (i)  cap mil Lema (CAOP1); (ii) alf mil médico  Mário Bravo; (iii) comandante do Batalhão [BCAÇ 4615/73] que rendeu o BCAÇ 3863, cujo nome desconheço [ten cor inf Nuno Cordeiro Simões]; (v) ten cor Joaquim Correia, comandante do BCAÇ 3863; (vi) alf mil médico Viana Pinheiro,: (vii) alf mil  Francisco Gamelas (comandante do Pel Rec Daimler 3089);  (viii) major Pires (2º comandante do BCAÇ 3863); (ix) alf mil Correia Pinto;  e  (x) Maria de Jesus, mulher do alf mil médico Albino Silva (que não aparece nesta fotografia).

Foto (e legenda): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados



1. Mensagem de Franscisco Gamela, ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto,1971/73) [, foto atual à direita]:

Bom dia Luís (c/c Manuel Reis e Jorge Picado);

Peço desculpa, mas não tinha percebido a necessidade, afinal óbvia, de "autorizar" e requerer a minha adesão à Tabanca Grande. É com imenso prazer que o faço, pois, pelo que me vou apercebendo, representa uma iniciativa a todos os títulos meritória, com "dez mandamentos" que subscrevo por inteiro e, desde já, prometo cumprir fielmente.

Junto envio duas fotografias, uma dos velhos tempos da Guerra Colonial - é assim que a designo - assim como outra recente. Não ponho qualquer reserva na publicação da minha foto actual. A questão da privacidade, prende-se mais comigo mesmo, ou seja, conheço as regras do jogo, agora sou eu que decido casuísticamente o que devo ou não devo intervir e o como. 

Sobre a foto, ela está no livro (Outro Olhar - Guiné    ), pelo que a questão não passava por aí. De
qualquer modo, o sítio onde ela aparece, também terá a sua importância. Na Tabanca Grande estou muito bem acompanhado. Desde o soldado ao general, todos vivemos uma experiência única, que podemos partilhar com todos, mas que só os que lá estiveram podem entender de forma mais completa e abrangente, seja qual for a janela de participação que experienciou. Todas, sem excepção foram (são) importantes.

Sobre o meu livro, o preço de capa é de 12,50€ e pode ser encomendado através do meu mail - franciscogamelas@sapo.pt. Como pagamento sugiro a transferência bancária, cuja conta facultarei a cada encomenda.

Muito abrigado ao Luís, que tem sido inexcedível.

Um abraço.
Francisco Gamelas

Capa do livro de Francisco Gamelas ("Outro olhar - Guiné 1971-1973. Aveiro, 2016, ed. de autor, 127 pp. + ilust, preço de capa 12,50 €. A encomendar ao autor através do seu email pessoal). O design é da arquiteta Beatriz Ribau Pimenta. Tiragem: 150 exemplares.  Impressão e acabamento: Grafigamelas, Lda, Esgueira, Aveiro.

2. Nota curricular >  Francisco [António da Costa Vieira] Gamelas: 

(i) nasceu em Aveiro (1949);

(ii) formou-se em eletrotecnia (Instituto Superior de Engenharia do Porto, 1969);

(iii) esteve na Guiné, em Teixeira Pinto, em 1971/73, como alf mil cav, a comandar o Pel Rec Daimler 3089;

(iv) fez a sua carreira profissional na PT Inovação como quadro superior de telecomunicações;

(v) está reformado;

(vi) tem-se dedicado à escrita, à poesia e ao ensaio histórico-sociológico: "O apelido Gamelas: um património histórico e sociológico de Aveiro" (2009); "Lavradores do Vilar ou o casamento inter-pares como estratégia de sobrevivência" (2014), ambos publicados pela ADERAV - Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro;

(vii) "Outro olhar - Guiné 1971-1971", publicado em 2016, é a sua "primeira incursão nas áreas da poesia e da crónica";

(vii) vive em Aveiro.


3. Comentário do editor:

Tinha feito o convite ao Francisco para formalmente passar  a integrar a nossa Tabanca Grande. Tinha-lhe dito o seguinte (importante para se perceber a sua resposta):

(...) A Tabanca Grande não é o Clube dos Poetas Mortos... Não temos nenhum estatuto jurídico, apenas 10 regras de bom (con)viver... É tão só a "comunidade virtual" dos amigos e camaradas da Guiné, a Tabanca Grande, que tem um poilão ao meio, e onde todos nos sentamos, à sua volta, porque todos nela cabemos com tudo o que nos une e até com aquilo que nos separa (...política, religião, futebol). 

Só preciso de uma foto tua "antiga", em relação à atual, dou-te o direito de "reserva da intimidade", no caso de não quereres "dar a cara"... O próximo nº de grã-tabanqueiro disponível é o 716...

Diz-me qual é o preço de capa do teu livro e como pode ser adquirido pelo correio... Faremos a devida promoção da tua obra." (...)
 

O Francisco passa, a partir de hoje,  a ser o nosso grã-tabanqueiro nº 716, o que muito nos honra. Já lhe tinha dito que fazia questão de o apresentar pessoalmente à Tabanca Grande, aos vivos (670) e aos mortos (45):

(...) "Somos alguns dos melhores da nossa geração, é só por isso que eu quero que estejas aqui ao nosso lado, ao lado do Jorge Picado, do Manuel Reis, do Mário Bravo, do Graça de Abreu, e de mais 711, incluindo o Luís Graça, o Carlos Vinhal, o Magalhães Ribeiro e o Virgínio Briote. Este blogue não é contra ninguém, e a ter uma bandeira é a da camaradagem,  forjada na situação-limite de uma guerra e numa terra que nos "tocou" a muitos títulos... 

(...) Francisco, nós fizemos a História, e outros vão-na escrevendo... Mas temos uma palavra a dizer a esse respeito... Para que os nossos filhos, netos e bisnetos, não digam um dia: "Guiné? Canchungo? Ponta do Inglês? Madina do Boé? Cheche? Chinchim Dari? Guileje? Guidaje? Gadamael? Bambadinca? Xime? Mansabá? Olossato?... Não, nunca ouvi falar"...

A "inscrição" na Tabanca Grande não é obrigatória, mas sinto-me honrado com a tua presença, ainda para mais sendo tu um homem da cavalaria e da bela região de Aveiro. (...)


Temos já bastantes referências a diversos Pel Rec Daimler e Pel Rec Fox, mas não ao Pel Rec Damler 3089. Esta será a estreia desta subunidade. 

Já tive ocasião de, por mail, dar as boas vindas ao nosso novo camarada, de sentá-lo "à sombra do nosso poilão", no lugar nº 716 e pedir, para ele e para todos  nós, a proteção dos nossos bons irãs...
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Nota do editor:

Guiné 63/74 - P16106: Parabéns a você (1081): Joaquim Martins, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 4142 (Guiné, 1972/74) e Xico Allen, ex-1.º Cabo At Inf da CCAÇ 3566 (Guiné, 1972/74)


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Nota do editor

Último poste da série de 18 de Maio de 2016 Guiné 63/74 - P16102: Parabéns a você (1079): Joaquim Fernandes Alves, ex-Fur Mil Art da CART 1659 (Guiné, 1967/68)

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Guiné 63/74 - P16105: Blogpoesia (448): Gadamael Porto, eu te amo, eu te odeio (Manuel Augusto Reis, ex-alf mil cav, CCAV 8350, Guileje,Gadamael, Cumeré, Quinhamel, Cumbijã e Colibuia, 1972/74)


Guiné > Região de Tombali > Guileje > Abril de 1973 > CCAV 8350 (1972/73), "Piratas de Guileje" > O Alf Mil Manuel Reis junto ao monumento erigido à memória do Alf Victor Lourenço, dos "Piratas de Guileje", morto em 5 de março de 1973, na explosão de uma armadilha.

Segundo nos conta o J. Casimiro Carvalho, "um dia, o alferes Lourenço, a manusear uma granada duma armadilha, e rodeado de militares - eu estava emboscado com o meu grupo -, a mesma explodiu-lhe na mão, tendo-o morto instantaneamente. Ficou sem meia cabeça e o abdómen aberto. Eu, já no quartel, ao ajudar a pegar no cadáver, este praticamente partiu-se em dois… Que dor!... Chorei como nunca, e isto foi o prenúncio do que nos esperava".

De seu nome completo Victor Paulo Vasconcelos Lourenço, era natural de Torre de Moncorvo, está sepultado na Caparica. Foi uma das 9 baixas mortais da companhia também conhecida por "Piratas de Guileje" e um dos 75 alferes que perdeu a vida no CTIG.

Foto: © Manuel Reis (2009). Todos os direitos reservados



1. Poema de Manuel Reis (ex-Alf Mil da CCAV 8350, (Guileje,Gadamael, Cumeré, Quinhamel, Cumbijã e Colibuia, 1972/74), escrito durante a batalha de Gadamael (maio / junho de 1973) (*)


GADAMAEL-PORTO,
EU TE AMO,
EU TE ODEIO



por Manuel Augusto Reis (**)



Na vala recordo os dias alegres da infância,
os tempos da boémia coimbrã, 

e a ti, Catarina.

Chove, troveja.
Não, não é um trovão, alerta o João.
Deito-me na vala, 
o mundo parece desabar.
Outra saída, outra e mais outra...
Ouço gemidos,
o João calara-se para sempre.

É manhã. 
Ai o café quente de Bissau!...
Os rebentamentos não param.
Abdulai, nosso guia de Guileje,
chora os nossos mortos com palavras sentidas e comoventes.

Na vala refilo,
protesto,
com palavras obscenas contra tudo e contra todos.
Abdulai, o nosso guia, o nosso amigo,
morreu.


Manuel Reis, Gadamael-Porto, junho de 1973


2. Comentário do editor L.G.:

Presto, comovido, a minha homenagem aos bravos de Guileje e de Gadamael. Leio, comovido, o surpreendente poema do Manuel Reis, escrito com sangue e raiva nas valas de Gadamael... O Manuel Reis é um dos nossos grã-tabanqueiros que pode pôr no seu currículo que desceu aos infernos e voltou à terra, à terra da alegria... Voltou, mas há memórias do inferno que não se apagam... O João, o Abdulai, o Lourenço, o Branco e tantos outros não regressaram... Às vezes carregamos esta culpa: porquê eles, porque não eu ?

Manuel, bom amigo e camarada: o blogue, se alguma importância tem, não é por ser uma "feira de vaidades", ou muito menos por publicar as narrativas épicas dos heróis... Não é o Olimpo, ou o caminho para o Olimpo. O blogue fala, em primeira mão, das nossas alegrias e tristezas, dos momentos bons e maus que nos calharam naquele tempo e naquele lugar... O blogue é seguramente importante porque procura dar voz e rosto àqueles que a terra já engoliu e comeu: o Lourenço, o Branco, o João, o Abdulai...

Obrigado, Manuel, pela teu poste e pelo teu poema... Terá lugar, por certo, na antologia poética da guerra colonial que um dia ainda haveremos de organizar, se Deus, Alá e os bons irãs nos deram vida e saúde...

PS -Um abraço para o professor Armando Gonçalves, de Torre de Moncorvo, que, ao organizar uma exposição sobre os mortos na guerra do ultramar / guerra colonial, naturais do seu concelho, como o Victor Paulo Vasconcelos Lourenço, está também a lutar contra a indiferença e o esquecimento que pesa sobre toda a nossa geração...


3. Outros comentários (*):

(i) C. Martins: A verdade dói. A verdade fere e mata consciências. Tenho a esperança que um dia ainda se vai saber a verdade..nua e crua. Um grande alfa bravo para ti, Manel Augusto.

(ii) Carvalho de Mampatá: É na verdade um poema escrito com sangue, num momento de desesperança e revolta. Está ali a demonstração da nossa impotência face à vontade do inimigo se ver livre de nós e a clara sensação de que éramos, cada vez mais, carne para canhão. Como te compreendo, Manuel Reis !
(iii) Vasco Pires (Brasil): Digo eu hoje : "...ainda bem,que não estamos em Gadamael...". Forte abraço.

(iv) Jorge Araújo:   No Expresso, a caminho de Portimão, acabo de ler esta narrativa do camarada Manuel Reis onde nos conta, em síntese, a sua experiência vivida no inferno de Gadamael, prestando, igualmente, homenagem aos que aí tombaram á sua volta. Porque fiquei comovido com o seu relato, ao qual adiciona referências ao meu amigo e companheiro das lides académicas e desportivas - Artur José de Sousa Branco (ver o meu poste 15904) - seria interessante colocar este novo texto na etiqueta com o seu nome. Obrigado pela atenção. Um abraço para todos vós.

(v) Belarmino Sardinha: A minha homenagem a todos quantos não deixam esquecer o que aconteceu e mais sentida ainda por todos que perderam a vida.  A forma de não os esquecermos é falarmos deles, lembrá-los. A quem não viveu esse tempo, mas procura hoje documentar-se, ajudar a lembrar o que se passou e levar até outros mais distraídos, o meu obrigado. Um abraço ao Manuel Reis.

(vi) Manuel Peredo (França):  Também vivi os acontecimentos de Gadamael como furriel paraquedista da CCP 122 / BCP 12. Quem deu ordens para que este pequeno grupo fosse patrulhar nas imediações do destacamento, deve sentir um grande peso na consciência. A emboscada deu-se a algumas centenas de metros do destacamento e não a cem metros,  como foi relatado no depoimento de Manuel Reis. Eu próprio carreguei os corpos para a Berliet,com a ajuda de outro furriel do meu pelotão e nesse momento houve um forte bombardeamento na zona do cais e com muita sorte não houve feridos.

(vii) Zé Teixeira: Manuel Reis,  tantos anos depois, as lágrimas, teimosamente, voltam...e eu já me tinha "safado"! Abraço!

Guiné 63/74 - P16104: Agenda cultural (484): Lançamento do livro "A Conquista das Almas: Cartazes e Panfletos da Acção Psicológica na Guerra Colonial", de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, dia 23 de Maio, às 18h30, na Associação 25 de Abril, em Lisboa

C O N V I T E

Lançamento do livro "A Conquista das Almas: Cartazes e Panfletos da Acção Psicológica na Guerra Colonial", de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, dia 23 de Maio de 2016, às 18h30, na Associação 25 de Abril.


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Nota do editor

Último poste da série de Guiné 63/74 - P16100: Agenda cultural (476): Apresentação do livro "O Jornalismo Português e a Guerra Colonial", organização de Sílvia Torres, dia 24 de Maio de 2016, às 18h30, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Lisboa

Guiné 63/74 - P16103: Os nossos seres, saberes e lazeres (155): A pele de Tomar (5) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Fevereiro de 2016:

Queridos amigos,
Foi uma digressão em várias direções, meteu portas, detalhes do Convento de Cristo e um passeio à Quinta da Anunciada Velha, cuja origens se confundem com os primórdios da nacionalidade, pertenceu a um moçárabe que a vendeu à Ordem do Templo, daqui passou para a Ordem de Cristo, viveu um mau bocado com a extinção dos conventos, em 1834, pertenceu à família do conde de Tomar, é hoje uma casa esplêndida que inclui turismo de habitação, foi renovada com enorme desvelo por Sofia e António Pinto da França, falamos exatamente daquele que foi embaixador de Portugal na Guiné-Bissau em 1977 e 1978 e que escreveu "Em Tempos de Inocência, Um Diário da Guiné-Bissau", foi um diplomata que amou aquela terra e sobre ela escreveu: "As gentes que apreciam carregar uma dignidade ancestral. Demonstravam grande senhorio, cultivavam com esmero e minúcia os rituais de secular hospitalidade. A qualquer porta que se batesse, por mais pobres que fossem os seus habitantes, logo nos convidavam festivamente a entrar e nos ofereciam nem que fosse um simples chá nos mais rudimentares recipientes".

Um abraço do
Mário


A pele de Tomar (5) 

Beja Santos



Primeiro, uma digressão mundana, venho à procura de portas, que tenham caráter, que representem poder ou estatuto, portas com charme, singulares, daqueles proprietários que não se fiam no gosto do construtor, querem bilhetes de identidade. O que é que me aderiu na primeira porta? É maciça, tem uma solidez dos materiais e manutenção, quem lá vive gosta de ordem, recebe quem quer com este magnífico cartão-de-visita. Há muito que a Fanny não vem a esta loja, basta olhar para as paredes corroídas, é uma porta com muito uso, está marcada pela modernidade do seu tempo, oxalá que quem vier reparar este edifício, ou mesmo demoli-lo, fique condoído pelas linhas magníficas que marcaram a entrada da loja da Fanny, que ela viva em paz, quem transacionou nesta loja e deixou tão linda porta merece perdão.




Agora, subo às alturas, chegou este sol de Inverno, vou em demanda de uma luz crua que reflita a suavidade rósea da pedra e que destaque da pátina da janela mais linda que há em Portugal pormenores soberbos. Subi, vi e venci. Se D. Manuel I, o Venturoso, não andou por aqui numa onde de vertigem e deslumbramento, não subsistem dúvidas. Aceito que ele tinha muito dinheiro, podia convocar os maiores artífices das quatro partidas do mundo. Mas tudo isto são pedras que falam para a eternidade, isto é alegria de viver, de ver a pedra rendilhada, que nem bordado à mão de Bruxelas; até a carranca é magnífica, mesmo com a pedra doente. Vem-se mil vezes a estas alturas e aprende-se sempre, toda esta pedra levanta voo, em glória de terras descobertas, de Cristo em viagem para outros continentes, até este guerreiro de Cristo partiu de Tomar e foi à Índia e ao Brasil, fez circunavegação por todo o continente africano, demandou o Japão. Por isso estarreço vezes sem conta diante desta epopeia de pedra.



Algures, ali para os lados de Cem Soldos e as Algarvias, há uma quinta que vem desde os primórdios da nacionalidade, houve até um moçárabe que vendeu o local à Ordem de Cristo, é uma casa ligada ao conde de Tomar, sente-se no seu interior uma fidalguia convivente. O casario deu muitas voltas, segundo a proprietária, foi recebido na antiga abegoaria, dali a visto uma bela vinha, atapetada de verde, os olhos espraiam-se até às colinas. É uma senhora gentil, viúva de diplomata, mostra o interior e o exterior dos edifícios com uma grande candura, com voz pausada relembra antepassados, férias, obras imensas, onde se descobriram no entulho preciosidades. É o caso deste banco, quem nos diria que estes azulejos quinhentistas estivessem expostos aos caprichos da natureza?


Esta torre manuelina tem igualmente valor concelhio, saímos da casa, percorremos um caminho e subimos à Torre, ali perto há um tanque, consta que é um lugar mágico. Tomei a sério tudo quanto me disse a anfitriã, ali escreveu e recebeu cartas de amor, ali vinha descansar depois de acompanhar o marido pela Indonésia, Brasil, Guiné-Bissau, Angola e Itália, e muito mais. Pusera-se uma tarde de grande serenidade, eu só queria uma luz que me desse a certeza que registava fielmente a cor da pedra e o enlevo da torre octogonal que sobe, com donaire, pelo céu limpo de nuvens.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 11 de maio de 2016 Guiné 63/74 - P16075: Os nossos seres, saberes e lazeres (154): A pele de Tomar (4) (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P16102: Parabéns a você (1080): Joaquim Fernandes Alves, ex-Fur Mil Art da CART 1659 (Guiné, 1967/68)

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Nota do editor

Último poste da série de 17 de Maio de 2016 Guiné 63/74 - P16097: Parabéns a você (1078): António Pinto, ex-Alf Mil Inf do BCAÇ 506 (Guiné, 1963/65)

terça-feira, 17 de maio de 2016

Guiné 63/74 - P16101: Efemérides (226): Dia 20 de Abril de 2016, triste aniversário; 46 anos se passaram sobre o assassinato do Chão Manjaco (Manuel Resende, ex-Alf Mil da CCAÇ 2585)



Pelundo - Major Osório em primeiro plano


Pelundo - Major Passos Ramos, o primeiro à esquerda; Major Osório,
último à direita e de costas



Alferes Mosca em primeiro plano ajudando na preparação da ceia de Natal de 1969

Fotos (e legendas): © Manuel Resende (Ferreira) (2016).


1. Mensagem do nosso camarada Manuel Resende (ex-alf mil da CCaç 2585/BCaç 2884, Jolmete, Pelundo e Teixeira Pinto, 1969/71), com data de 20 de Abril de 2016, a propósito da passagem do 46.º aniversário do assassinato dos Majores PASSOS RAMOS, MAGALHÃES OSÓRIO, PEREIRA DA SILVA; Alferes Miliciano JOÃO MOSCA; dois condutores e um tradutor, no Chão Manjaco, no dia 20 de Abril de 1970.




Triste Aniversário

Caros amigos e camaradas
Hoje é o dia 20 de Abril. Por acaso alguém se lembra do que aconteceu no dia 20 de Abril de 1970 em Jolmete, precisamente há 46 anos?

Neste dia não houve saída para o mato, não saímos do quartel nem para caçar. Achámos estranho, mas o nosso Capitão Almendra disse aos Oficiais, não sei se a mais alguém, talvez ao Dandi, depois do almoço, que se estava a passar algo de anormal.

Nesse dia iria acontecer uma reunião (a última) para a pacificação do “Chão Manjaco”, entre os chefes do PAIGC e os OFICIAIS do CAOP, num local junto à primeira bolanha a contar do Pelundo para Jolmete, a cerca de 4-5 Kms do Pelundo.
Essa reunião destinava-se a integrar todo o pessoal do PAIGC pelos aquartelamentos da zona, como já estava combinado em reuniões anteriores.

No dia anterior, Domingo 19, o CAOP esteve em Bula, e ao jantar, o Sr. Major Pereira da Silva recebeu um telefonema, presume-se de Bissau, dizendo que um tal “LUIS” iria estar presente na reunião no dia seguinte. Segundo o que me lembro dos comentários da altura, diziam que ele ficou cabisbaixo, mudo e pensativo, ... devido à presença inesperada dessa pessoa.

Estavam previstos 5 jipes (isto é o que me lembro da altura dos acontecimentos), mas ficaram reduzidos a três, pois o Sr. Major Pereira da Silva, que superintendia o assunto, não autorizou os outros a serem “martirizados”. Lembro-me de ouvir dizer que o nosso Capelão, Padre António Gameiro queria ir, mas não foi autorizado. Eu tinha a impressão que o nosso médico Dr. Diniz Calado, também queria ir, mas ainda há poucos meses estive com ele, abordei o assunto e o próprio disse-me “que nunca essa hipótese foi colocada, não queria participar em aventuras dessas”.

Bom, o local foi alterado para a segunda bolanha, a 5 Kms de Jolmete. Porquê? Como lá foram parar, cerca de 8 Kms mais a norte, mais próximos de Jolmete?

Devo confirmar que ouvi alguns tiros por volta das 3 da tarde (e muitas outras pessoas também ouviram). Foi muito comentado, pois nesse dia estávamos proibidos de “fazer fogo”, nem a caçar.

Foram barbaramente assassinados pois estavam desarmados:

Major PASSOS RAMOS
Major MAGALHÃES OSÓRIO
Major PEREIRA DA SILVA
Alferes JOÃO MOSCA
Nativo MAMADÚ LAMINE 
Nativo ALIÚ SISSÉ 
Nativo PATRÃO DA COSTA 

OBS: Os nativos eram dois condutores dos jipes e um tradutor.

Não é meu interesse aqui entrar em pormenores, pois apenas quero lembrar a memória destes Oficiais, que devem figurar em todos os escritos com letra maiúscula.

Junto algumas fotos tiradas por mim, lamento não ter nenhuma do Sr. Major Pereira da Silva.

Manuel Cármine Resende Ferreira
Alf. Mil. Art. em Jolmete (Pelundo – Teixeira Pinto)
CCAÇ 2585 – BCAÇ 2884

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2. Comentário do co-editor CV

São devidas desculpas ao Manuel Resende por só hoje estarmos a dar conta desta triste efeméride mas, como este assunto é por demais marcante na história da guerra da Guiné, qualquer dia é próprio para se falar dele.

Quanto a mim, não esqueço esta data porque foi o dia em que nos apresentámos, na Parada do Depósito de Adidos, ao General Spínola. A 21 seguiríamos para Mansabá para uma longa estadia, ali, que só terminaria a 23 de Fevereiro de 1972.

Temos mais de meia centenas de referência a este trágico episódio; Três majores | Alferes Mosca | Chão manjaco
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Nota do editor

Guiné 63/74 - P16100: Agenda cultural (483): Apresentação do livro "O Jornalismo Português e a Guerra Colonial", organização de Sílvia Torres, dia 24 de Maio de 2016, às 18h30, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Lisboa

 C O N V I T E


2. Mensagem do nosso camarada Carlos Matos Gomes, Coronel Cavalaria Reformado (ex-2.º CMDT Batalhão de Comandos da Guiné, 1972/74), escritor e historiógrafo da guerra colonial, com data de hoje, 17 de Maio de 2016:

Junto vos envio o convite para a apresentação do livro "O Jornalismo Português e a Guerra Colonial", no dia 24, às 18 horas, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.

A autora, eu e a editora teremos o maior prazer na vossa presença
Carlos Matos Gomes


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Nota do editor

Último poste da série de 16 de maio de 2016 Guiné 63/74 - P16095: Agenda cultural (475): A Fundação Casa de Macau e o sinólogo, nosso amigo e camarada, António Graça de Abreu convidam-nos para a tertúlia, de amanhã, dia 13, às 18h30, na Praça do Príncipe Real, 25-1º , Lisboa: "Macau visto da China"

Guiné 63/74 - P16099: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (37): O nosso Blogue e a sua importância (Manuel Augusto Reis, ex-Alf Mil da CCAV 8350)

1. Mensagem do nosso camarada Manuel Reis (ex-Alf Mil da CCAV 8350, (Guileje, Gadamael, Cumeré, Quinhamel, Cumbijã e Colibuia, 1972/74), com data de hoje, 17 de Maio de 2016, subordinada ao tema, O nosso blogue como fonte de informação:


O BLOGUE E A SUA IMPORTÂNCIA

Caros Editores
Amigos e camaradas,

Há perto de um mês, um professor de História da Escola Secundária de Moncorvo, Armando Gonçalves, solicitou ao Blogue a sua colaboração para que pudesse concluir a sua pesquisa sobre as condições que envolveram a morte do Alf Mil Lourenço da CCAV 8350, falecido na Guiné em 5 de Março de 197373(1).

Este caso englobava-se num projecto mais amplo, respeitante a todos os ex-combatentes de Moncorvo, falecidos nas ex-províncias ultramarinas e nascidos no concelho de Moncorvo. Como se depreende a sua tarefa não foi fácil. O conhecimento das datas de nascimento, filiação, localização dos cemitérios onde se encontram os corpos e a localização de familiares ainda vivos exigiu muito tempo e perspicácia ao Armando. Os locais e as circunstâncias em que morreram foram talvez o trabalho mais complicado. A singela homenagem aos ex-combatentes mortos ser-lhes-à prestada com a colaboração da Câmara Municipal, em data oportuna.

Quero deixar aqui duas notas: O meu apreço e gratidão pela dedicação do Armando a ex-combatentes, nossos camaradas e amigos. Não basta dizer que houve uma guerra e como em todas as guerras há mortos, feridos e estropiados. É redutora esta visão. Há algo mais para além disso. O meu apreço pela pronta, rápida e eficaz colaboração do Blogue, que acabou por me envolver neste processo e me sensibilizou para avançar na localização da campa do Alf. Lourenço e da da sua família.

Em pouco tempo se reuniram a maior parte dos elementos que o nosso amigo Armando precisava com a ajuda preciosa do Alf. Gonçalves, outro dos Alferes da CCAV 8350, que vive em Almada e não via há imensos anos. Localizámos a campa do Alf. Lourenço e dois dos seus primos ainda vivos.

Prestar uma singela homenagem, junto da campa do Lourenço, no Monte da Caparica, conversar com o Gonçalves e conhecer uma prima do Lourenço era uma razão forte para me deslocar ao Monte da Caparica, o que fiz logo que se deparou uma oportunidade. Foi um encontro emotivo e gratificante.
Durante o almoço recordámos vários amigos, várias situações e alguns episódios. Recordámos a morte dramática do Alf. Branco, em Gadamael, que foi substituir o Alf. Lourenço e que poucas horas permaneceu entre nós.


Guiné > Região de Tombali > Gadamael > Vista aérea de Gadamael Porto nos finais do ano de 1971. 

Foto: © António Carlos Morais da Silva, Coronel Art Ref.

Assisti, revoltado, na vala, à sua partida para o patrulhamento, desnecessário e sem sentido. Já não o vi regressar.

Ainda hoje dói ao reviver o filme deste episódio. Não é minha intenção responsabilizar ou julgar alguém, o meu relato é factual.

No dia 31 de Maio de 1973 o Coronel Durão ordena-me para fazer um patrulhamento a Ganturé, da parte da tarde. A meio do percurso, perto das 15 horas, rebenta o ataque do PAIGC e ouvem-se as granadas a sibilar por cima das nossas cabeças. Chego ao local e constato que estou a 100 metros de uma boca de fogo do PAIGC. Solicito o regresso ao aquartelamento, conforme combinado, mas é-me negado, e só no dia seguinte de manhã regresso sem autorização superior, por não me ter sido possível estabelecer qualquer contacto, via rádio, com Gadamael. Entro no aquartelamento pelas 11 horas da manhã do dia 1 de Junho.

No aquartelamento sou informado pelo Alf. Seabra de toda a situação. Houve imensos mortos e feridos e não restavam mais de 30 homens, dispersos nas valas. Tinha havido uma fuga desordenada no dia 1 de manhã. Uns conseguiram chegar a Cacine e outros refugiaram-se nas imediações do aquartelamento, onde se sentiam mais seguros do que dentro do aquartelamento. E ainda outros que morriam na travessia do rio.

No dia 1 de Junho, da parte da tarde, o abrigo das transmissões é atingido e são feridos os dois comandantes de Companhia, que acabam por ser evacuados pelos fuzileiros estacionados em Cacine. Poucas horas depois chegam os dois novos Comandantes de Companhia e o Alf. Branco, em substituição do Alf. Lourenço. O novo Comandante da CCAV 8350 teve connosco uma breve conversa, para se inteirar da situação. No dia 2 de Junho ordena um patrulhamento ao Alf. Branco para a zona do antigo heliporto localizado nas imediações do cais. O Alf. Branco não tem homens e caso os tivesse não os conhecia e percorre, vala a vala, a perguntar quem pertencia ao 4.º grupo. Não encontrou ninguém.

Acabou por sair no dia 3, sob pressão do Comandante de Companhia, com 11 homens, voluntários e mal armados. Perante o desespero do Alf. Branco, ainda cheguei a saltar da vala para os acompanhar, mas a protecção divina e percepção da minha inutilidade, aconselhou-me a não o fazer. Mal entrou na mata o pequeno grupo foi fortemente atacado pelos militares do PAIGC, instalados em valas, em missão de protecção avançada aos camaradas estrategicamente colocados no cimo das árvores, para orientar o fogo. Isto acontece a menos de 100 metros do arame fardado. Registaram-se 5 mortos e 1 ferido grave, sendo recolhidos pela Companhia de Paraquedistas 122, recém-chegados.

No ar pairava um misto de dor e revolta. A noite era de breu, alguns comentários ecoaram e  o Comandante de Companhia acabou por exercer algumas represálias sobre mim e sobre o capitão Catarino, ex-adjunto do Major Coutinho e Lima, que também tinha presenciado a saída do reduzido grupo de combate.

Gadamael foi mau demais e só não se transformou num enorme cemitério, devido ao apoio relativamente rápido das três Companhias de Paraquedistas que a partir do dia 3 de Junho passaram a operar em rotatividade.

Recordo algumas palavras escritas na altura.

GADAMAEL-PORTO EU TE AMO, EU TE ODEIO

Na vala recordo os dias alegres da infância, 
os tempos da boémia coimbrã e a ti, Catarina.
Chove, troveja.
Não, não é um trovão, alerta o João.
Deito-me na vala, o mundo parece desabar.
Outra saída, outra e mais outra....
Ouço gemidos. 
O João calara-se para sempre.
É manhã. Ai o café quente de Bissau!....
Os rebentamentos não param. 
Abdulai, nosso guia de Guileje, 
chora os nossos mortos com palavras sentidas e comoventes.
Na vala refilo, 
protesto com palavras obscenas contra tudo e contra todos.
Abdulai, o nosso guia, o nosso amigo,
 morreu.

Um abraço amigo,
Manuel Reis
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Notas do editor

(1) Mensagem de Armando Gonçalves com data de 22 de Março de 2016:

Assunto: Victor Paulo Vasconcelos Lourenço

Boa noite, 
Sou professor da Escola Dr. Ramiro Salgado de Torre de Moncorvo. 
Uma das iniciativas para o 25 de Abril na nossa escola é lembrar os soldados mortos no Ultramar. 
Tenho procurado na Internet informação de todos os nossos conterrâneos caídos, pelo facto encontrei o vosso Blogue e o texto de Hélder Sousa, Fur Mil Transmissões TSF (Piche e Bissau e 1970/72) sobre o Alferes Victor Paulo Vasconcelos Lourenço que muito me sensibilizou. Naturalmente, gostaria de apresentar este texto à comunidade, pois poucos conhecerão este episódio. Além de que seria uma homenagem devida. 
Por este motivo procuro que o autor do texto Hélder Sousa possa compartilhá-lo connosco, com a devida autorização. 

Grato pela atenção que possam dar ao exposto, 
Atenciosamente, 
Armando Manuel Lopes Gonçalves.

Último poste da série de 25 de março de 2016 Guiné 63/74 - P15900: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (36): quantos quilómetros terá feito, em 9 dias, o valente soldado José António Almeida Rodrigues, na sua fuga, desde o local onde era mantido em cativeiro, na região do Boé, até ao seu porto de salvação, no Saltinho?