sábado, 11 de Agosto de 2012

Guiné 63/74 - P10253: Bibliografia de uma guerra (61): Primeiro Capítulo do próximo livro "Quebo", de Rui Alexandrino Ferreira (2): Primeira parte do depoimento do Major General Pezarat Correia (1)

1. Continuação da apresentação do primeiro capítulo do próximo livro, "Quebo", de autoria do nosso camarada Rui Alexandrino Ferreira* (foto à direita) (ex-Alf Mil na CCAÇ 1420, Fulacunda, 1965/67 e ex-Cap Mil na CCAÇ 18, Aldeia Formosa, 1970/72):


COMPANHIA DE CAÇADORES 18

 1. O BCaç 2892 e o Sector S-2 no sul da Guiné-Bissau

Por Pezarat Correia

O Batalhão de Caçadores 2892 (BCaç 2892), mobilizado no Regimento de Infantaria 16, Évora, chegou à Guiné em 28 de Outubro de 1969 e, em 10 de Novembro, assumiu a responsabilidade do Sector S-2, com sede em Aldeia Formosa no sul do Teatro de Operações (TO) (Mapa 1), sob o comando do Tenente-Coronel Rocha Peixoto e sendo 2.º comandante e oficial de operações respectivamente os Majores Moura Sampaio e Pezarat Correia, este último o subscritor destas linhas. Em Abril de 1970 o Tenente-Coronel Agostinho Ferreira substituiria o Tenente-Coronel Rocha Peixoto no comando do batalhão.

O BCaç 2892 rendeu, no Sector S-2, o Comando Operacional (COP) 4, tendo as suas companhias orgânicas ficado assim estacionadas: Companhia de Comando e Serviços (CCS) em Aldeia Formosa, Companhia de Caçadores (CCaç) 2614 em Nhala, CCaç 2615 em Aldeia Formosa e CCaç 2616 em Buba. Passou a ser reforçado com mais 3 companhias operacionais que já se encontravam no sector sob comando do COP 4, CCaç 2381 sedeada em Empada, Companhia de Artilharia (CArt) 2519 em Mampatá e a CArt 2521 em Aldeia Formosa e com 3 Pelotões de Caçadores (PCaç) do recrutamento provincial, 55 em Chamarra, 68 em Mampatá e 69 em Pate Embaló (Mapa 1).

O BCaç 2892 passou também a contar com o apoio, de combate e logístico, de várias subunidades que já encontrou em sector, Pelotão de Artilharia de Campanha (PAC) 14 cm em Aldeia Formosa, PAC 10,5 cm em Buba, 1 Pelotão de Morteiros (PMort) 2138 de 8,1 cm com sede em Buba mas com as suas secções dispersas por Buba, Aldeia Formosa, Mampatá e Nhala, Pelotão de Intendência (PInt) 2191 em Buba e Destacamento do Serviço de Transmissões Militares (DSTM) em Aldeia Formosa. O Pelotão de Reconhecimento (PRec) Fox 2175 entrou em sector juntamente com o BCaç 2892 e ficou em Aldeia Formosa rendendo o que aí anteriormente já se encontrava. Em Junho de 1971 o Sector S-2 passou a contar também com o 2.º Pelotão da Bateria de Artilharia Anti-Aérea (BAAA) 3381, que ficou sedeado em Aldeia Formosa (Mapa 1).

Sob controlo operacional do BCaç 2892 passaram a estar ainda o Destacamento de Fuzileiros Especiais (DFE) 3 sedeado em Buba, duas Companhias de Milícias (CMil) em Empada e Mampatá, esta última com Pelotões de Milícias (PMil) destacados em Aldeia Formosa, Nhala e Buba e um Grupo de Caçadores Nativos (CNat) dispersos por Aldeia Formosa, Chamarra e Pate Embaló (Mapa 1).

Foi com estes meios, aparentemente numerosos, que o BCaç 2892 assumiu a responsabilidade operacional do Sector S-2 em 10 de Novembro de 1969, recebendo do General Comandante-Chefe, do qual, operacionalmente, dependia directamente, a Directiva Operacional “Caça Grossa” que, nas suas linhas gerais, configurava uma típica missão de quadrícula que se articulava em quatro tarefas prioritárias:
- protecção aos trabalhos de construção da pista para aterragem de aeronaves em Aldeia Formosa (temporária e até à conclusão dos trabalhos, o que se verificou em Março de 1970);
- contrapenetração[1] nos eixos tradicionalmente usados pelo PAIGC para, a partir das suas bases na República da Guiné reabastecer e rodar efectivos das suas bases no interior, em Injassane (norte do Rio Grande de Buba) e em Xitole (norte do Rio Corubal);
- controlo da região de Contabane, fronteiriça com a República da Guiné;
- condução da Acção Psico-Social (APS), tendo como principais alvos as populações civis sob controlo das Nossas Tropas (NT), as populações civis sob controlo do Inimigo (IN)[2], as populações civis sob duplo controlo e as NT.

Com base na Directiva Operacional “Caça Grossa” e em resultado de detalhado Estudo de Situação a que se procedeu, o comandante do BCaç 2892 elaborou a sua própria Ideia de Manobra na qual fundamentou o Plano Operacional do Batalhão que se chamou “Galgos Ligeiros”, onde constavam as missões para as suas diversas subunidades e cujo esforço deveria incidir:
- nas acções de contrapenetração, especialmente sobre o chamado “corredor de Missirã” e sua derivação do “corredor de Buba” que, prolongando o “corredor de Guileje”, constituíam os principais eixos de abastecimentos do PAIGC para o interior sul, nomeadamente para as regiões de Injassane e Xitole, a partir das suas bases na República da Guiné (Mapa 2);
- complementarmente, no controlo das respectivas Áreas de Responsabilidade (AR), através de uma constante nomadização e de acções dinâmicas de segurança próxima dos estacionamentos (emboscadas nas imediações das zonas mais favoráveis aos grupos do PAIGC para instalação de bases de fogos para flagelações).

Todas as companhias operacionais, orgânicas e de reforço, ficaram, assim, com AR atribuídas, em missões de quadrícula que preenchiam toda a AR do Sector S-2, inclusive a CCS a quem coube a área envolvente de Aldeia Formosa incluindo os PCaç de Chamarra e Pate Embaló. A única excepção foi a CArt 2521, à qual não foi atribuída AR e que recebeu a missão de unidade de reserva, actuando como força de intervenção do Comando do Sector, prioritariamente destinada a reforçar as acções de contrapenetração no “corredor de Missirã” e em acções de controlo da região de Contabane na fronteira com a República da Guiné. Outro caso particular foi o do DFE, que nem incluo como excepção, uma vez que estava apenas sob controlo operacional do BCaç 2892 e a sua missão, definida pelo próprio Comando-Chefe, estava objectivamente orientada para o controlo do Rio Grande de Buba e seus afluentes, em especial para os locais mais favoráveis à “cambança” (travessia) dos guerrilheiros e reabastecimentos do PAIGC o que, obviamente, também se inscrevia na missão da contrapenetração. Mas o Comando do Sector S-2 podia utilizar o DFE – e utilizou-o excepcionalmente – como unidade de intervenção do sector. Apesar de ter sido várias vezes rendido o Sector S-2 nunca deixou de contar com a presença de um DFE em Buba.

Estas preocupações especiais do Sector S-2 com a contrapenetração, para além de corresponderem à missão recebida do General Comandante-Chefe, são facilmente compreensíveis se atendermos à sua posição na quadrícula da zona sul do TO da Guiné (Mapa 3). A Zona de Acção (ZA) do Sector S-2 deveria constituir um verdadeiro tampão contra a infiltração das colunas do PAIGC vindas do litoral norte da República da Guiné, uma vez que se estendia desde a fronteira com a região de Cansembel, a leste, até ao mar (Canal de Bubaque), a ocidente, procurando isolar a região de Cantanhês, uma das mais fortes do PAIGC. No entanto e apesar da aparente riqueza de meios de que o Sector S-2 dispunha – riqueza apenas efectiva se comparada com as quadrículas em Angola e Moçambique, mas absolutamente ilusória face às condições objectivas da Guiné e, por isso, atrás lhe chamámos aparente –, a contrapenetração nunca foi eficaz, nem neste nem em qualquer outro sector da Guiné. Como não foi em Moçambique, nem em Angola, nem na Indochina, nem na Argélia. A rede de emboscadas da manobra de contrapenetração era mais do que insuficiente, a incontornável rotina da permanência sobre o corredor (o “carreiro” como lhe chamavam os nossos militares), fez com que o PAIGC se fosse apercebendo dos locais preferentemente escolhidos para a sua montagem, jogando habilmente com os horários de instalação e levantamento, aguardando os momentos oportunos para passarem em segurança. Bons conhecedores do terreno contornavam as emboscadas com facilidade e efectuavam manobras de diversão, ameaçando nuns locais ou provocando encontros noutros para passarem ao lado. Várias intercepções as NT conseguiram, algumas com assinaláveis resultados, mas as colunas e grupos do PAIGC nunca deixaram de passar, as suas bases no interior nunca deixaram de ser abastecidas e os seus efectivos nunca deixaram de ser rendidos e reforçados.

Como oficial de operações do BCaç 2892 tive ocasião de percorrer, a pé, toda a ZA do Sector S-2. Observei pessoalmente muitos dos trilhos que constituíam os corredores de Missirã e de Buba e os locais onde as NT montavam emboscadas. Percorri também assiduamente em coluna auto a estrada Buba-Aldeia Formosa que constituía o eixo nevrálgico do Sector e conhecia bem a zona vista do ar, que sobrevoei muitas vezes. Testemunhei, por isso, as dificuldades e fragilidades da acção de contrapenetração. Os corredores não proporcionavam locais ideais para montagem de emboscadas, longe disso. A ausência de elevações de terreno e a mata densa não permitiam observação a distância, o trilho era uma longa recta sem curvas apertadas, sem desfiladeiros, sem pontes ou zonas não torneáveis. Havia meia-dúzia de lugares mais favoráveis, nomeadamente algumas clareiras ou bolanhas mas, esses, o IN conhecia-os bem, evitava-os ou, se os atravessava, rodeava-se de precauções especiais. Acresce que as NT tinham de estar, em permanência, 24 horas emboscadas, tinham de variar os locais vendo-se obrigados a escolher, por vezes, posições menos apropriadas mas a que não podiam fugir, sob pena de se tornarem, não apenas inúteis porque detectáveis, como alvos fáceis para flagelações do IN. Era um tipo de actividade que, por ser tão aleatória, se tornava cansativa e frustrante. Os Grupos de Combate (GC)[3] das várias companhias empenhadas na contrapenetração, de Buba, Nhala, Mampatá e Aldeia Formosa passavam, de 3 em 3 ou de 4 em 4 dias, 24 horas emboscados nos “carreiros”, actividade que, por vezes, se reforçava com GC da companhia de reserva. Era uma rede de emboscadas dispersa e os GC, obviamente, nunca se rendiam uns aos outros no mesmo local. Ao fim de poucos meses os militares estavam esgotados, saturados e o silêncio absoluto necessário para o êxito nas emboscadas era progressivamente afrouxado. Os guerrilheiros do PAIGC, experientes, com muitos anos de guerra, intimamente conhecedores do terreno, quase “adivinhavam” os locais das emboscadas, que detectavam através dos trilhos que as NT deixavam no terreno para os atingirem. Por tudo isto foram muito escassas as intercepções conseguidas mas, mesmo assim, o mais espantoso terá sido terem-se conseguido essas poucas. De uma maneira geral, quando se efectuavam operações de maior envergadura no corredor de Missirã obtinham-se melhores resultados, mas essa não era a opção táctica do General Comandante-Chefe que desejava uma presença permanente na rede de emboscadas a que atribuía um papel dissuasor mas que, na realidade, não funcionava como tal. E este empenhamento permanente não deixava disponíveis efectivos para efectuar operações mais rentáveis.

Vale a pena contar aqui uma história real, relacionada com esta matéria. Em 9 de Junho de 1970 um GC da CCaç 2614, de Nhala, emboscada no corredor de Missirã, intercepta uma coluna do PAIGC. Houve intensa troca de tiros e baixas de parte a parte. As NT sofreram três mortos e quatro feridos mas, com excepção de um morto causado por fogo IN, as restantes baixas resultaram de um acidente com o dilagrama[4]. Era um acidente infelizmente muito vulgar pois, na tensão do combate, por vezes o atirador de dilagrama perturbava-se na troca de carregadores e acabava por accionar o dilagrama com a munição normal, o que provocava o rebentamento da granada à boca da arma com resultados funestos, para o próprio atirador e para os camaradas que lhe estavam mais próximos. Quando na sede do batalhão recebi, em cima da hora, a informação rádio do incidente e os pedidos de evacuação, falei imediatamente com o comandante e concluímos que deveríamos ir rapidamente ao local da emboscada, com a presença no local do GC interveniente e, aí, analisarmos as condições em que tinha ocorrido o contacto de fogo. Até porque, a experiência nos ditava, o General Comandante-Chefe, mais tarde ou mais cedo e como era seu hábito, quereria ir ver o que se passara e era importante estarmos previamente esclarecidos. Assim fizemos e poucos dias depois o GC estava de novo emboscado no mesmo local e eu acompanhei o Comandante do Batalhão, idos de Aldeia Formosa com outro GC. À chegada constatámos que o local da emboscada correspondia, dentro dos condicionamentos atrás descritos, a uma escolha criteriosa, que houvera uma boa aproximação pelo meio da mata sem deixar vestígios e o dispositivo era perfeitamente aceitável e, a verdade, é que o IN até tinha nele penetrado sem o ter detectado. Apenas o incidente do dilagrama impedira um maior sucesso operacional. De qualquer forma lembro-me de ter prevenido o comandante – o tenente-coronel Agostinho Ferreira, um excelente comandante, experiente, que já ia na segunda comissão no comando de batalhão na Guiné em zona operacional, muito dinâmico e sempre disponível para se integrar pessoalmente em operações – que tínhamos de munir-nos de argumentação sólida pois o General Spínola devia vir de “faca afiada” para desancar a emboscada. Não nos enganámos. Avisámos o Comando-Chefe do resultado da nossa análise no local e, no dia seguinte recebíamos uma mensagem avisando que o General Spínola se deslocaria em dia que indicava ao local da emboscada, onde deveria estar o GC envolvido na acção, reproduzindo o mesmo dispositivo e ainda o Comandante e o Oficial de Operações do Batalhão. Com o GC que nos escoltara a partir de Aldeia Formosa montámos a segurança num local onde aterrou o helicóptero que transportava o general, que chegou com o seu Ajudante-de-Campo e com o Chefe da Repartição de Operações. Dirigimo-nos imediatamente para o local da emboscada e ao chegarmos e quando dissemos “É aqui”, o general parou, ajeitou o monóculo, olhou à sua volta e, apontando o inseparável “pingalim”, ripostou de imediato “Aqui é que eu nunca montaria uma emboscada”. O Comandante do Batalhão e eu trocámos um olhar cúmplice, nada surpreendidos e respondemos de imediato: “Foi o possível para quem tem de mudar todos os dias; este nem é dos piores e a verdade é que o IN até caiu na emboscada. E posições ideais para emboscadas só se encontram em caixas de areia e em temas escolares”. Certo é que Spínola até nem alimentou a controvérsia. Falou com o pessoal que participara na emboscada, inteirou-se das condições em que decorrera o contacto de fogo e deu-se por satisfeito. Afinal ele até gostava que argumentassem com ele, apreciava a combatividade de quem lutava pelo que achava certo.

Nas salas de operações do Comando-Chefe tinha-se uma percepção teórica da potencial eficácia da contrapenetração e queriam resultados diários. Mas a realidade no terreno era bem outra. Esta diferente perspectiva alimentou um conflito permanente entre as unidades de quadrícula e o Quartel-General (QG), independentemente de quem estava nas respectivas funções. Operacionais e “ar condicionado” sempre fizeram guerras diferentes, em todas as épocas e em todos os lugares.

Há um outro aspecto que interessa assinalar e que contribuía para a fragilidade da contrapenetração. Uma das inovações corajosamente assumidas pelo General Spínola quando, em 1968, assumiu o Governo e Comando-Chefe da Guiné, na sequência do Estudo de Situação que mandou elaborar, foi o reconhecimento de que havia áreas do TO que se encontravam sob controlo do PAIGC e, perante isso, tomou a decisão de proceder a uma profunda remodelação do dispositivo de quadrícula – aquilo a que se pode chamar uma retracção do dispositivo – e à reformulação da conduta operacional. Algumas guarnições das NT que estavam completamente cercadas nessas áreas, sem possibilidade de desenvolverem qualquer actividade operacional útil para além de defenderem as suas instalações e que representavam um enorme e não compensador encargo logístico, foram mesmo totalmente abandonadas pelas NT. Essas áreas passaram, justificadamente, a ser exibidas pelo PAIGC como áreas libertadas onde proporcionavam visitas a representações estrangeiras. O exemplo tragicamente mais assinalável foi o de Madina do Boé, a mais extensa e situada no SE do TO, onde em Setembro de 1973 o PAIGC declararia unilateralmente a independência da República da Guiné-Bissau. E digo tragicamente porque, quando da retirada da última guarnição militar portuguesa, a travessia para norte do Rio Corubal foi marcada pelo acidente de uma jangada que causou quase cinco dezenas de mortos às NT, entre militares e milícias. Este reconhecimento de que havia áreas do TO sob controlo do PAIGC levou o Comando-Chefe a delimitá-las dentro das ZA dos respectivos Sectores, com a designação de Zonas de Intervenção do Comando-Chefe (ZICC), nas quais às unidades de quadrícula estava vedado conduzir actividade operacional sem autorização do Comando-Chefe, até porque eram áreas de bombardeamento sistemático da Força Aérea que poderiam atingir as NT se aí estivessem em operações sem conhecimento superior. Passaram a ser zonas reservadas a operações de iniciativa do Comando-Chefe, com as suas unidades de intervenção na base de forças especiais (paraquedistas, fuzileiros, comandos ou grupos especiais), desencadeadas quando recortava notícias indiciadoras de objectivos remuneradores e com as quais, por vezes, colaboravam as unidades da respectiva quadrícula. Foi, por exemplo, numa dessas ZICC, no limite que separava o sul da ZA do Sector S-2 com o norte da ZA do Sector S-3, no mítico “corredor de Guilege”, que forças paraquedistas emboscaram a coluna do PAIGC na qual se integrava o cubano Capitão Peralta, que foi ferido e capturado. Esta operação verificou-se entre 16 e 19 de Novembro de 1969, pouco depois de o BCaç 2892 ter assumido a responsabilidade do Sector S-2 (10 Nov).

É claro que estas ZICC se transformaram (ou melhor se reforçaram porque já o eram) em bastiões do PAIGC, com muita população sob seu controlo e boas zonas de cultivo de arroz e criação de gado. No sul da Guiné as zonas mais férteis para a agricultura estavam todas nas mãos do PAIGC. Os seus grupos circulavam aí com algum à-vontade e tinham bases de apoio aos guerrilheiros, tornando muito mais curtos e menos vulneráveis os troços dos corredores de abastecimento susceptíveis de serem interceptados pela contrapenetração. Na ZA do Sector S-2, quando o BCaç 2892 assumiu a sua responsabilidade, as ZICC representavam, em superfície, quase 50% da área total do sector (Mapa 4).

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[1] Chamava-se contrapenetração à actividade operacional das NT resultante da conjugação de meios terrestres, navais e aéreos, mas que era, no essencial, uma manobra terrestre, destinada a dissuadir, impedir ou, no mínimo, dificultar a utilização, por grupos guerrilheiros, acompanhados ou não de populações, dos eixos que, a partir das suas bases em países fronteiriços, conduziam ao interior do TO, com objectivos de atingir, reforçar ou abastecer áreas por si controladas, ou para desencadearem acções contra as NT.

[2]A designação de Inimigo (IN) não deve ser entendida com um sentido calunioso ou depreciativo, nem subentende qualquer valoração, como por vezes, fora do meio militar, se tende, erradamente, a interpretar. Na terminologia técnica militar e em tempo de guerra o inimigo é o outro, o que se opõe às NT e que é sempre identificado pela sigla IN. Aliás, na Guiné, os militares portugueses respeitavam o PAIGC como movimento de libertação e os seus combatentes como guerrilheiros valorosos, que, apesar de serem apelidados, na linguagem corrente da época, de terroristas, na realidade nunca optaram por acções terroristas.

[3] O GC era uma subunidade operacional da CCaç, portanto correspondente ao escalão pelotão de atiradores, mas reforçado com armas colectivas, metralhadora ligeira, lança-granadas (bazooka) e morteiro ligeiro. Se a CCaç era a subunidade fundamental no dispositivo de quadrícula, o GC era a subunidade predominante nas acções de rotina de contrapenetração, segurança próxima dos estacionamentos, escoltas, etc.

O dilagrama era um dispositivo aplicado à saída do cano da espingarda automática individual G-3 que, através de um disparo com munição especial, facultava o lançamento de granadas de mão a maior distância do que se lançadas manualmente. O lançador de dilagramas transportava carregadores de dois tipos de munições de G-3, munição normal da arma automática e munição exclusivamente destinada ao lançamento do dilagrama. Tinha de ter os carregadores bem assinalados, para os poder distinguir pela vista ou pelo tacto (à noite), conforme as necessidades.

(Continua)
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Nota de CV:

(*) Vd. poste de 10 DE AGOSTO DE 2012 > Guiné 63/74 - P10249: Bibliografia de uma guerra (60): Primeiro Capítulo do próximo livro "Quebo", de Rui Alexandrino Ferreira (1): Mais que um superior hierárquico um amigo de eleição - Pezarat Correia

Guiné 63/74 - P10252: Álbum fotográfico do ex-Alf Mil Art Humberto Nunes (1): Gadamael





1. Primeira série de fotos enviados pelo nosso camarada Humberto Nunes (ex-Alf Mil Art.ª, CMDT do 23.º PelArt,  Gadamael Porto e Cuntima, 1972/74, em mensagem do dia 3 de Agosto de 2012):




Gadamael > À entrada da minha suite

Gadamael > No interior da minha suite

Gadamael > Eu junto a um banco de ostras

Gadamael > Eu

Gadamael > Espaldão do obus de 10,5

Gadamael > Obus em acção de fogo

Gadamael > Artilharia em Banda

Gadamael > Artilharia em confraternização

Gadamael > Romance em miniatura

Gadamael > População em trabalho

Gadamael > População em trabalho

Gadamael > Lançamento de frescos em paraquedas

Gadamael > A última visão a partir da LDM

Fotos (e legendas): © Humberto Nunes (2012). Todos os direitos reservados.
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 4 DE AGOSTO DE 2012 > Guiné 63/74 - P10228: Tabanca Grande (353): Humberto Martins Nunes, ex-Alf Mil Art.ª, CMDT do 23.º Pel Art.ª (Gadamael Porto e Cuntima, 1972/74)

Vd. último poste da série de 10 DE AGOSTO DE 2012 > Guiné 63/74 - P10248: Álbum fotográfico de Abel Santos (2): Beli, Nova Lamego, Buruntuma e Bissau

Guiné 63/74 - P10251: (Ex)citações (191): Ainda guerra perdida e a guerra ganha (Juvenal Amado)

Galomaro > Militares do Pel Rec/BCAÇ 3872 acabados de chegar de uma patrulha nocturna

Foto ©: Juvenal Amado


1. Mensagem do nosso camarada Juvenal Amado (ex-1.º Cabo Condutor da CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1971/74), com data de 7 de Agosto de 2012, subordinada ao tema:


GUERRA PERDIDA, GUERRA GANHA

Página 144/145 - "Diário da Guiné" 
de António Graça Abreu

"Cufar, 4 de Setembro de 1973
O Spínola retirou-se estrategicamente da guerra da Guiné. Fácil de entender porquê. Com o agravamento do conflito, não quis assumir derrotas. Foi a Lisboa, falou com o Marcelo Caetano, pediu mais meios, mais tropa, mais aviões, e disseram-lhe que não havia, não era possível. O General pediu a exoneração e acho que fez bem. Para os guineenses acabou o mito Spínola.
O novo governador, General Bettencourt Rodrigues, parece ser um homem com curriculum notável, mas que pode fazer na Guiné? Vai-se meter em grandes assados. Há muita descrença, cansaço, passividade a povoar o quotidiano da tropa portuguesa. E, de certeza haverá mais feridos e mortos. De que aspectos se revestirá a fase final da guerra na Guiné? Ninguém sabe.”

O autor descreve aqui um cenário pré apocalítico quanto à situação politica/militar, onde não falta a interrogação como será o final da guerra. Sabemos hoje pelo o que ele escreve, que era ainda uma coisa para continuar, até que talvez os soldados se negassem a combater. Cenário mais negro é difícil de imaginar. No fundo foi o que aconteceu de alguma forma com o 25 de Abril. Mas já antes os soldados se tinham negado a embarcar. E também já se falou aqui nas páginas do blogue que soldados houve, que embarcaram com destino a Angola e quando acordaram, estavam na terra dos Fulas, Papéis, Manjacos, etc. Como é que acabam as guerras?

Estando o blogue em águas mornas como convém a quem vai ou foi de férias, vem o meu amigo AGA agitá-las e faz leitura do que mais lhe convém, para assim levar água ao seu moinho.


Poste 10208*

Corta aqui, avança por ali, e lá vai debitando o que defende agora e tantas vezes repetiu, para que não fiquem dúvidas ao seu posicionamento. Porque penso que das piores coisas que se pode fazer a um homem é ignorá-lo, fiquei contente por ele me mencionar no seu comentário, provando assim que o que escrevi na altura acabadinho de “desembarcar no blogue”, ainda com o camuflado cheio de goma e a cheirar a novo, era hoje lembrado como prova irrefutável dos “diz que disse”, sobre o tema da Guerra Perdida, Guerra Ganha.

Não nego uma única palavra nem intensão sobre o que escrevi, embora concorde que hoje escreveria de outra forma, menos a quente e sem deixar lugar para dúvidas. Não sabia eu da existência dos relatórios que trouxeram à luz do dia o que se falava, mas que era considerado “jornal da caserna”

E escrevi eu como num desabafo:

“O medo dos Migs era real, pois foram distribuídos cartazes com fotos identificativos dos referidos aparelhos, em variados destacamentos.

Que nós não tínhamos meios de autodefesa contra esse tipo de ataque. Que a nossa Força Aérea já dificilmente cumpria a sua missão de apoio às tropas debaixo de fogo.

Que os helis e Dorniers voavam rente ao chão e de preferência por cima das estradas e rios (mesmo assim levavam rajadas de automáticas como aconteceu entre Nova Lamego e Piche com o comandante de batalhão dentro do heli). 

Que os batalhões cumpriam 26, 27 meses por não haver homens para formar novos batalhões e assim serem rendidos. 

Que havia movimentos para que os soldados se negassem a embarcar e se não se temesse o efeito dominó, a Guiné já teria sido abandonada.

Que os destacamentos junto à fronteira estavam a ponto de terem que ser evacuados.

Que as nossas armas mais emblemáticas (Chaimites e Fiats) se tornaram obsoletas, graças aos mísseis e novos RPGs (emboscada entre Bafatá e N. Lamego, onde a Chaimite foi varada por munição anticarro).

Que estávamos a um passo de ver os ex-Alferes, que já tinham cumprido comissões serem chamados a cursos de capitães, e serem obrigados a combater em novas comissões. A vez dos outros (furriéis, cabos e soldados) também chegaria a seu tempo.

Que na (Metrópole) a resistência ao regime, desencadeava cada vez mais acções de sabotagem (caso dos helis, centrais eléctricas e navio de transporte de tropas Cúnene dinamitados pela ARA).

As derrotas militares são normalmente precedidas do sofrimento das populações civis. O Povo Português estava cansado de sofrer.( o que eu conhecia, estava sim farto de sofrer e de criar filhos para a guerra)

Se não se tem promovido etnias em desfavor de outras. Se não se tem promovido a cavaleiros do Império, soldados oriundos das populações indígenas, que fizeram em muitos casos o trabalho “sujo”, a guerra teria durado ainda menos.”

Nos tempos que correm não há derrotas militares só por si. Os Americanos foram derrotados no Vietnam sem terem perdido um única grande batalha. Mas por que retiraram eles da Indochina tão atabalhoadamente deixando os seus até aqui aliados, entregues à ilusão que os iam ajudar a deter o vietcong? Foi ou não foi para evitar a derrota vergonhosa e assim salvar o seu sistema politico junto do eleitorado americano?

Como nós não tínhamos sistema eleitoral, facilmente se depreende que só derrubando o regime, acabávamos com a guerra.

Estes tipos de guerras, longe do nosso chão sagrado perdem-se primeiro na retaguarda, quando as pessoas descobrem que foram enganadas e que por causa disso, os seus filhos não param de chegar em caixões.

Hoje as guerras que a América trava são mais os grupos de segurança privados (ex-soldados hoje mercenários contratados por grupos poderosos que foram formados pela CIA) a combater do que soldados para evitar assim o efeito devastador do seus mortos na opinião publica.

Já agora pergunto porque não ganhámos aquela guerra? Quando apareceram os relatórios do Luis Vaz, que eram pertença de seu pai, perante as dúvidas que alguns camaradas levantaram à veracidade dos mesmos, fiz o seguinte comentário;

“Nunca duvidei da coragem dos soldados, marinheiros e pilotos, o que sempre pus em causa foi a impossibilidade de ganharmos a guerra, que quando se deu o 25 de Abril a estávamos a perder de forma acelerada e o porquê, acaba por ser explanado aqui neste poste, bem como nos comentários.

Põem-se em dúvida os relatórios, duvida-se das assinaturas independentemente da época em que foram feitos. Acaba-se por pôr em causa a qualidade do nosso estado maior na Guiné, com o tão aclamado Spínola e posteriormente B. Rodrigues à cabeça. Este tipo de suspeitas vem dar razão de que, efectivamente a guerra estava perdida e que o nossos governantes militares e civis, tinham perdido completamente o Norte. Com tais chefes que nem liam e pior assinavam sem ler, como é que íamos ganhar a guerra?

Temos aqui lido sobre a qualidade do nosso armamento.
Passo a citar:
Uma bomba de 750 libras largada de avião teria um efeito de destruição de duzentos e cinquenta metros (em todas as direcções) e provocava um terramoto de grau 5. Que um obus 14, fazia uma razia tal que nem árvores de grande porte ficavam de pé. Multipliquem-se por 3 obuses 14, mais morteiros, mais aviões a bombardear em voo picado, ou simplesmente aviões com a porta aberta, donde se atiravam bombas de 750 libras à mão (já aqui li isto também, o que prova que embora estando lá, não sabia da missa a metade.

Quanto às baixas do inimigo eram de arrepiar. Há pouco tempo se disse aqui num comentário que só 5% dos feridos sobreviviam. Não custa acreditar nisso, na verdade era um esforço enorme que a guerrilha tinha que fazer para transportar os seus feridos. Por muito mal que nós estivéssemos, nunca se poderiam comparar as condições de assistência médica e alimentar que nós tínhamos com as deles.

E agora pergunto eu quais eram os resultados ?

Como é que o IN escapava ao poder destruidor das nossas bombas? À partida eles quando atacavam não tinham protecção, pois não podiam andar com um abrigo às costas, contra semelhante poder de destruição, com a agravante de que muitos dos ataques deles não eram esporádicos, mas por vezes atacavam vários dias seguidos. Onde é que estão relatórios das baixas infligidas ao IN? Não falemos por favor de propaganda.

Em dez anos de guerra em que altura perante tanto poder de fogo se tornou visível a nossa vitória militar e se ela era possível porque não ganhamos? O aniquilamento do inimigo e a ocupação do terreno não deveria ser uma consequência lógica?

Voltamos a finais de 1968 quando o brigadeiro Hélio Felgueiras disse por outras palavras, que não era possível bater o IN embora o enorme dispêndio de homens e meios em operações militares, que após o seu fim voltava tudo ao mesmo nas zonas intervencionadas .

Não tínhamos no terreno o equivalente a seis soldados por cada guerrilheiro? Entre esses soldados tínhamos grupos especialmente formados para a guerra de guerrilha ( fuzileiros, comandos, paraquedistas e operações especiais). É verdade que a grande maioria da tropa, estava aquartelada em zonas que dominavam, policiavam e defendiam dos ataques do IN. ( fomos injustamente acusados de não sair do arame por um general, o que causou grande indignação nos camaradas deste blogue).

Com tal disparidade de meios como é que os não varremos, não lhe conseguimos tirar a capacidade ofensiva?

Gostei de ler o poste do camarada (António Martins de Matos), porque o acho com peso conta e medida. Também o considero muito corajoso. Nele é e explicada a forma como se tentou resolver a crise dos Strella, mas também é posto a nu as nossas fragilidades em equipamentos, a confrangedora economia de recursos, bem como a falta de pilotos. Onde é que se viu atirar bombas à mão pela porta do avião? Na 1.ª Guerra Mundial, nos livros do major Alvega e na Guiné em 1973.

Nunca haverá uma verdade para todos e se o que está escrito por quem nos comandou como ponto de partida não serve, estamo-nos a entreter e nada do que deixarmos escrito para o futuro terá qualquer valor.”

Termino com mais um excerto do Diário da Guiné do António G. Abreu.

“Cufar 12 de Novembro de 1973
Na LDG chegou uma companhia de “periquitos” com um mês de Guiné que vão render os infelizes que estão em Cobumba. Já perceberam para onde vão e estão completamente desmoralizados. Como é possível aguentar as NT a combater na Guiné quando o que todos desejam é a paz e sair daqui.”

Um abraço para todos
Juvenal Amado

Notas do editor:
- Sombreado da responsabilidade do autor do texto
- Título do poste da responsabilidade do editor
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 30 de Julho de 2012 > Guiné 63/74 - P10208: Notas de leitura (386): O 25 de Abril e o Conselho de Estado - A Questão das Actas, por Maria José Tiscar Santiago (Mário Beja Santos)

Vd. último poste da série de 19 DE JULHO DE 2012 > Guiné 63/74 - P10171: (Ex)citações (190): Conhecemos pessoas que ignoramos serem camaradas de armas (Carlos Nabeiro)

Guiné 63/74 - P10250: Passatempos de verão: Hoje quem faz de editor é o nosso leitor (8): O soldado tranquilo, o soldado silencioso... A(s) Mina(s): Excerto de texto da antiga embaixadora israelita em Angola, Tamar Golan...

Minas, por T. G. [Tamar Golan]

[Foto à esquerda, de Carlos Vinhal, uma mina anticarro]



Chamam-lhe o "soldado tranquilo", ou o "soldado silencioso (...) (*) 

A carga explosiva pesa escassos gramas ou alguns quilogramas. É feita de metal ou de plástico. Grande e pesadona ou pequena e ligeira. Fabricada na China, na Rússia, nos Estados Unidos, em Israel e em dezenas de outros países à superfície da Terra. É fácil e simples de fabricar. Barata, eficaz e mortal.

O preço de uma mina é baixo. As organizações de combate às minas calcularam que o custo de uma “unidade” pode ir de menos de um dólar até cento e cinquenta dólares. Mas a remoção de cada mina pode ascender a mil e quinhentos dólares!

Por isso, converteu-se na arma ideal dos pobres. Perante as bombas atómicas, os aviões evasivos, as bombas “inteligentes” comandadas a laser, os míssei9s balísticos, perfila-se a mina pequena e barata. Os que a utilizam não precisam de ser pilotos competentes ou técnicos diplomados. Nem precisam de saber ler e escrever. As instruções elementares do manejamento vão desenhadas na embalagem.

Nem sempre é necessário dar-se ao trabalho de a ocultar debaixo de terra. Em países com clima tropical quente e húmido, pode-se simplesmente espalhar as minas nos campos à volta da aldeia remota. A chuva e a erosão farão o resto e a camponesa que sai para cuvar a sua leira, não vai reparar no “soldado” que lá está escondido.

A mina não discrimina homens ou mulheres, nem distingue civis de militares. As crianças são um alvo permanente. Ao contrário das bombas “inteligentes” que deverão atingir alvos previamente definidos, as minas não são pretensiosas e quem as coloca não ambiciona que o seu planeamento seja preciso e sofisticado. Assim, também não têm de confessar que erraram.

Esta arma é absolutamente desprovida de ideologia. Esteve ao serviço dos Estados Unidos e da União Soviética, da China comunista e da Africa do Sul do apartheid. Todos a usaram nas suas guerras contra todos, por vezes, na mesma nesga de terra do mesmo país.

Ocorreu-me, mais do que uma vez, que a mina é tão irritante,  precisamente por não obedecer às ordens variáveis de que quem as usa. Generais vêm e vão, polítcios substituem-se – mas ela mantem-se. Desde o momento que é posta no chão, é autónoma no terreno.

Durante a Segunda Guerra Mundial falou.-se muito em “campos de minas” – terrenos definidos e assinalados em mapas pormenorizados, Nas guerras do Terceiro Mundo não existem, hoje em dia, mapas, mas campos há muitos. Os campos de inofensivos agricultores, os pátios das escolas rurais e os adros de igrejas. E também, é claro, aeroportos, linhas de caminho de ferro, estradas e pontes. Já não há guerras entre exércitos regulares, mas conflitos de todos contra todos.

É um tema nos órgãos de comunicação. A muitos é comum a moda de condenar esta arma terrífica. Comos se os outros tipos de armamento fossem menos condenáveis. Há alguns anos, foi finalmente decidido pô-la fora da lei. Uma convenção internacional foi solenemente assinada em Otawa, no Canadá. Proibe a venda, o fabrico, a exportação, e o uso de minas. A convenção também exorta à desmontagem de minas onde quer que se encontrem. A convenção está em vigor, mas os grandes fabricantes – à frente dos quais os Estados Unidos – ainda não a ratificaram.

Especialistas definiram um grupo de países onde a praga das minas é mais grave. À frente – Cambodja, Afeganistão, Angola e Moçambique. Disse-se sobre Angola que tem o maior número de minas por habitante e a taxa mais elevada de crianças atingidas. Todos concordam em que ninguém sabe o número de minas dispersas pelo mundo fora.

As minas de Angola chegaram aos cabeçalhos dos jornais graças à princesa Diana. Quarenta e oito horas passou a bela princesa em território deste ferido país, e uma fotografia dela, na companhia de um menino sem membros, fez mais por consciencializar as pessoas para o perigo das minas, do que milhares de fotos só de crianças destroçadas. Todo o mundo já leu e assistiu a relatos infindos. Mas nunca bastam.

Os anos da minha estada em Angola foram à sombra de minas. Não há domínio que mais me tenha ocupado. Esteve no âmago da minha actividade e mesmo quando terminei a missão, permaneci em Angola, para continuar a contribuir com todas as minhas capacidades.

No ano transacto, como noticiado, foram removidas e deflagradas trinta mil minas em Angola. No terreno ficaram uns dez milhões. Talvez mais, talvez menos.

As estatísticas continuam a assustar. As tentativas de lutar contar esta praga são limitadas, os êxitos escassos - e os malogros imensos.

In: Tamar Golan e Tamar Ron – Encontros em Angola: o homem e a natureza na sombra da guerra. Luanda: Caxinde; Lisboa: Prefácio. 2007,  pp. 67/69. [Reproduzido com a devida vénia...]

TG [ Tamar Golan] (**) (***)
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 1 de agosto de 2012 > Guiné 63/74 - P10215: Guiné 63/74 - P10215: Passatempos de verão: Hoje quem faz de editor é o nosso leitor (4): O soldado tranquilo, o soldado silencioso...



(**) Tamar Golan [, foto à esquerda, cortesia do sítio da Embaixada de Israel em França,] foi a primeira embaixadora de Israel em Angola (1995-2001), por nomeação pessoal do então primeiro ministro Yitzhak Rabin. Foi depois consultora, por parte da ONU, do Governo angolano  na instituição da Comissão Nacional Intersectorial de Desminagem e Assistência Humanitária (CNIDAH). Conheceu África, pela primeira vez, em 1961. Nesse ano, perdeu o marido, num acidente, na Etiópia. Era doutorada em Ciências Políticas e Administração, pela Universidade de Colúmbia, N.Y., com especialização em Assuntos Africanos. Foi jornalista. Viveu em Israel, onde foi professora na Universidade Ben Gurion, no Neguev. Morreu em Israel, aos 78 anos, em 30 de março de 2011. Escreveu, entre outros, este belíssimo livro, "Encontros em Angola", a quatro mãos, com a sua amiga e compatriota Tamar Ron, bióloga e igualmente consultora do governo angolano, em 2000-2004, para a conservação da biodiversidade.


(***) Último poste da série > 9 de agosto de 2012 > Guiné 63/74 - P10243: Passatempos de verão: Hoje quem faz de editor é o nosso leitor (7): Como se chamam estes frutos secos, três dos quais são usados para fazer saborosos sumos ?...

sexta-feira, 10 de Agosto de 2012

Guiné 63/74 - P10249: Bibliografia de uma guerra (60): Primeiro Capítulo do próximo livro "Quebo", de Rui Alexandrino Ferreira (1): Mais que um superior hierárquico um amigo de eleição - Pezarat Correia

1. Mensagem do nosso camarada Rui Alexandrino Ferreira (Alf Mil na CCAÇ 1420, Fulacunda, 1965/67 e Cap Mil na CCAÇ 18, Aldeia Formosa, 1970/72) actualmente Ten Coronel Reformado, com data de 7 de Agosto de 2012:

Meu caro Carlos:

Com um agradecimento a todos os tertulianos que mantêm a extrema preocupação com o estado debilitado da minha saúde, junto envio, para uma possível publicação se assim o entenderes, o Primeiro Capitulo do livro que espero ainda consigo terminar.

Um grande abraço do
Rui Alexandrino Ferreira.



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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 2 DE AGOSTO DE 2012 > Guiné 63/74 - P10219: Bibliografia de uma guerra (59): Prece de um Combatente - Nos Trilhos e Trincheiras da Guerra Colonial, de Manuel Luís Rodrigues Sousa

Guiné 63/74 - P10248: Álbum fotográfico de Abel Santos (2): Beli, Nova Lamego, Buruntuma e Bissau




1. Segunda e última série de fotos do nosso camarada Abel Santos* (ex-Soldado Atirador da CART 1742, Nova Lamego e Buruntuma, 1967/69), chegadas recentemente ao nosso Blogue:





Estrada de Beli, Fevereiro de 1968

Estrada de Beli, Fevereiro de 1968

Descanso do guerreiro > Margem do Rio Corubal, lado de Madina do Boé 

Buruntuma, 15 de Setembro de 1968

Buruntuma, 15 de Setembro de 1968

Buruntuma, Janeiro de 1969

Buruntuma > Abrigo, Janeiro de 1969 > Caça à cobra

Bissau, Janeiro de 1969

Bissau, Janeiro de 1969

Bissau, Janeiro de 1969

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Nota de CV:

(*) Vd. poste de 6 DE AGOSTO DE 2012 > Guiné 63/74 - P10231: Álbum fotográfico de Abel Santos (1): Viagem de ida, Bissau, Nova Lamego e Cheche

Guiné 63/74 - P10247: Notas de leitura (390): Aristides Pereira, Minha Vida, Nossa História, entrevistas de José Vicente Lopes (3) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 20 de Junho de 2012:

Queridos amigos,
Aqui termina a digressão pelos temas da luta armada e da rotura entre Guiné e Cabo Verde, pelo olhar de Aristides Pereira.
Ele que foi o dirigente político que mais conviveu com Amilcar Cabral irá certamente surpreender quem ler aqui as suas respostas às perguntas afiadas de José Vicente Lopes. É o olhar de um ancião que responde serenamente assumindo as suas limitações. Há temas controversos, como é evidente, por exemplo nega que tenha havido execuções no Congresso de Cassacá, em Fevereiro de 1964, o que é contraditado por muitas outras opiniões. E revela-se cheio de coragem a dissecar o muito que separa os guineenses dos cabo-verdianos, é mesmo pungente ouvi-lo dizer que não esteve à altura de contribuir para reparar os danos causados pelo golpe de Estado de 14 de Novembro.
É acima de tudo um livro luminoso, até nos desabafos pessoais.
Recomendo vivamente a sua leitura.

Um abraço do
Mário


Aristides Pereira, Minha Vida, Nossa História (3)

Beja Santos

Aristides Pereira, já retirado de afazeres partidários ou de Estado, concedeu a José Vicente Lopes uma entrevista sobre a sua vida e a sua atividade política. Surpreendendo pela língua desatada, dá respostas abertas, na maior parte dos casos esclarecedoras, a perguntas por vezes bem afiadas. Nunca antes se pronunciara sobre os diferendos entre a Guiné e Cabo Verde de uma forma tão acutilante. E ficamos igualmente a saber que esses diferendos eram bem conhecidos de Amílcar Cabral e diz abertamente: “Na altura do seu assassinato ele estava precisamente no fogo cruzado. Os guineenses achavam que ele só queria saber dos cabo-verdianos, que estavam a comer bem e não sei que mais; os cabo-verdianos da parte deles, achavam que ele só dava atenção à luta armada na Guiné e que Cabo Verde não servia para nada”. O líder do PAIGC sentia-se incompreendido e injustiçado e adianta uma questão que era muitas vezes escamoteada pelos próprios cabo-verdianos: “Havia o problema de como o caso de Cabo Verde era gerido num quadro de extremo secretismo, imposto por uma luta com as nossas características. Esses cabo-verdianos não entendiam que Cabral não desse conhecimento a todos eles das medidas que a direção do partido estava a tomar para desenvolver a luta armada em Cabo Verde. Ora, isso era impossível. Havia infiltrações. Apareceu o Bibino, que foi a Cuba, formou-se lá com os outros e que quando deserta fornece as informações todas à PIDE. Isso apesar das medidas que Cabral tomou”. E não tem papas na língua quanto ao contencioso entre Abílio Duarte e Amílcar Cabral e as dificuldades de relacionamento entre Amílcar Cabral e o seu irmão Luís.

No capítulo alusivo à independência da Guiné-Bissau, Aristides elogia a visão diplomática de Cabral, a sua progressiva aproximação da ONU, seria aqui que a proclamação da independência tinha que ter reconhecimento. Fala sobre a missão da ONU em territórios libertados, elucida que foi José Araújo quem acompanhou os observadores da ONU e fala sobre o itinerário da missão: “Entraram pelo Sul. O Araújo levou-os até quase Quínara. Houve dificuldades. Um dos membros, o tunisino chegou uma altura em que não quis mais avançar. Os combatentes disseram-lhe: nós vamos carregá-lo. Fizeram uma maca e levaram-no. O sueco e o equatoriano, mais o fotógrafo japonês, comportaram-se muito bem. Terminada a missão, fizeram um relatório que deu as bases para a proclamação da independência”. Finda a missão, começou-se a trabalhar a todo o vapor no recenseamento e nas eleições.

E assim chegamos ao 25 de Abril e às negociações, Aristides pormenoriza um encontro com Mário Soares em Dakar e depois o encontro em Londres. O entrevistador interroga-o sobre os temores de parte a parte. Veio à baila a questão da futura aviação do PAIGC e ele responde: “Na altura da proclamação da independência já estavam estudantes nossos a formarem-se para pilotos de MIG e helicópteros. Tanto assim que logo após a entrada em Bissau esses jovens fizeram demonstrações. Com a independência, mais tarde, esses pilotos foram desviados para a aviação civil”. E faz insinuações sobre alegadas ingerências de Spínola na Guiné já independente: “Até deixar o poder, ele procurou manobrar o tempo todo, criando tensões desnecessárias. Tivemos informações nesse sentido. Aliás, vem daí a confusão dos comandos africanos e outras coisas mais. Da nossa parte, estávamos abertos a uma solução acerca dos comandos com os portugueses mas soubemos que o Spínola tinha dado garantias a alguns chefes desses comandos… E tivemos indicações de que eles estavam a concentrar-se numa das ilhas dos Bijagós”.

Espraia-se sobre os problemas relacionados com a independência de Cabo Verde e das incidências que teve a sua deslocação para a Prainha: as desinteligências e pruridos entre Luís Cabral e Pedro Pires, as objeções de Nino e de Chico Té em que o secretário-geral do PAIGC se deslocasse para outro país, por exemplo. E assim chegamos à desagregação do PAIGC, um processo que ele regista a partir do III Congresso do PAIGC, em Bissau, em 1977. Vieram ao de cima os fatores da desagregação. De novo Aristides faz insinuações sobre o apodrecimento guineense: “Eu penso que tudo veio da nossa instalação em Bissau. Aliás, o próprio Cabral, mais ou menos, previu isso: chegar a Bissau era uma desgraça para nós. O Spínola tinha aquilo minado. A propaganda contra os cabo-verdianos, a tendência para uma sociedade de consumo, ter vivendas luxuosas, viaturas, mulheres, etc., tudo isso foi o nosso fim”. Dá pormenores de comportamentos, de questiúnculas, as fragilidades morais, e depois o golpe de Estado de Nino Vieira em que ficamos a saber que de há muito havia relações estudadas entre Nino e Luís Cabral, deplora a decadências de Osvaldo Vieira, a sua convicção de que Osvaldo estava seriamente ligado à conspiração que desembocou na morte de Cabral. E refere-se igualmente a todo o esforço para impedir a rutura, mas cedo se tornou claro que era um caminho sem retorno.

Confessa a sua fraqueza e incapacidade para ter gerido melhor a situação explosiva que se viveu, diz mesmo que a situação enveredara pelo irracional: “O cabo-verdiano tornou-se o culpado de todo o mal na Guiné. Portanto, o Nino aí teve responsabilidades agravadas, embora eu lhe faça um desconto, tendo em conta as suas limitações intelectuais, políticas e morais”. E volta a refletir sobre o choque de civilizações, a dificuldade sentida pelos cabo-verdianos quando viam gente a comer com a mão, eles diziam abertamente serem incapazes. É um acervo de considerações que exigem leitura ponderada, Aristides refere-se mesmo a outros dirigentes como Paulo Correia, Victor Saúde Maria, Mário Cabral e Vasco Cabral.

E termina assim esta gama de reflexões acerca do arrependimento dos guineenses que fizeram ou aderiram ao 14 de Novembro: “Aprenderam por conta própria que não eram os cabo-verdianos os responsáveis da desgraça da Guiné, como procuraram fazer crer com o 14 de Novembro. Nós, da nossa parte, diga o que se disser, viabilizámos o nosso país enquanto eles fizeram o contrário. Todos os sacrifícios consentidos redundaram em nada, para a desgraça do povo humilde da Guiné que, infelizmente, teve o azar de apanhar essa gente como dirigente”.

A longa entrevista, prossegue mas já fica centrada nos problemas cabo-verdianos e na sua compreensão pelos problemas contemporâneos, terminando por notas pessoais como, por exemplo, o drama da morte do seu filho Eugénio.

A partir de agora, este longo e apurado trabalho de José Vicente Lopes é de leitura obrigatória para quem se interesse pelo estudo da luta armada na Guiné e pelas sequelas da rutura entre Guiné e Cabo Verde, a partir de 1980.
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Nota de CV:

Vd. postes da série de:

3 DE AGOSTO DE 2012 > Guiné 63/74 - P10221: Notas de leitura (387): Aristides Pereira, Minha Vida, Nossa História, entrevistas de José Vicente Lopes (1) (Mário Beja Santos)
e
6 DE AGOSTO DE 2012 > Guiné 63/74 - P10230: Notas de leitura (388): Aristides Pereira, Minha Vida, Nossa História, entrevistas de José Vicente Lopes (2) (Mário Beja Santos)

Vd. último poste da série de 8 DE AGOSTO DE 2012 > Guiné 63/74 - P10241: Notas de leitura (389): O Ultramar e a revisão constitucional de 1971, Revista Vida Mundial de 16 de Julho de 1971 (José Manuel Matos Dinis)

Guiné 63/74 - P10246: Efemérides (107): Dia 10 de Agosto de 1972 - Naufrágio no Rio Geba de um sintex com pessoal da CART 3494 (Jorge Araújo)

1. Mensagem do nosso camarada Jorge Araújo (ex-Fur Mil Op Esp/Ranger da CART 3494/BART 3873, Xime e Mansambo, 1972/74), com data de 9 de Agosto de 2012:

Caríssimo Camarada Luís Graça, e restantes operacionais do nosso blogue:

Os meus melhores cumprimentos.

Serve o presente para anexar uma narrativa dos acontecimentos relacionados com o Naufrágio de 10 Ago 1972, no Rio Geba, envolvendo alguns militares da CART 3494.

Através desta metodologia pretende-se transferir o conhecimento individual de quem viveu de forma intensa aquele contexto, descrevendo-se um conjunto de detalhes julgados pertinentes com o objectivo de se conceber a sua história, agora que estão decorridos quarenta anos após esse acidente.

Ela é, ainda, mais uma pequena contribuição que é disponibilizada à opinião pública, por meio deste espaço plural de partilha, como é o caso da «Tabanca Grande», sobre as diferentes ocorrências registadas durante o conflito militar no CTIG, quer ela seja interpretada pelos ex-combatentes quer se trate da análise a realizar pelas gerações mais novas no âmbito multidisciplinar.

Obrigado pela atenção.
Jorge Araújo.
Ex-Furriel Mil Op Esp/RANGER
CART 3494
Xime-Mansambo
1972/1974


O RIO GEBA E O MACARÉU 

O NAUFRÁGIO NO DIA 10.AGO.1972

I – O NAUFRÁGIO NO RIO GEBA – 10.AGO.1972

No intervalo das duas emboscadas sofridas pela CART 3494 na Ponta Coli, local situado na estrada entre o Xime e Bambadinca, e já objecto de narração anterior (Postes 9698* e 9802*), focalizámo-nos hoje em mais um acontecimento que marcou a vida colectiva dos seus membros, em particular daqueles que directamente nele estiveram envolvidos, e que ficou conhecido, na história da Companhia e do Batalhão, como o Naufrágio no Rio Geba.

Este episódio verificou-se exactamente a meio dos dois acontecimentos anteriormente assinalados, contabilizando-se um período de cento e onze dias entre cada um deles, o que é uma coincidência interessante.

Durante alguns minutos vivemos entre a água e o céu, entre a terra e o inferno, entre a vida e a morte, sendo que esta última expressão/conceito viria a aplicar-se, lamentavelmente, a três dos catorze militares que naquela 5.ª feira, dia 10 de Agosto de 1972, faz hoje quarenta anos, tinham por missão fazer a travessia entre as margens esquerda e direita do Rio Geba, por esta ordem, com o objectivo operacional de sinalizar eventuais vestígios deixados no terreno pelo IN, vulgo reconhecimento à zona circunvolvente ao Destacamento de Mato Cão.

Curiosamente, nessa mesma data, foi testemunhado o movimento de um meteoro, que se tornou conhecido como A Grande Bola de Fogo Diurna de 1972, sobre as Montanhas Rochosas do Sudoeste dos EUA em direcção ao Canadá e que, caso tivesse explodido (dizem os cientistas),  seria semelhante à explosão de Hiroshima (Bomba Atómica Little Boy), ocorrida em 03.Ago.1945, ou seja vinte e sete anos antes, e que acabaria por estar ligada ao términus da II Guerra Mundial concretizado oficialmente após a assinatura do armistício verificada em 02.Set.1945, na Baía de Tóquio.

Entretanto, a travessia do Rio Geba, a iniciar-se no Cais do Xime, seria feita com recurso a um bote de fibra de vidro conhecido por Sintex, com motor fora de bordo de 50 Cavalos, sendo sugerida, como elemento de segurança, que a sua lotação não deveria ultrapassar a dezena de indivíduos, incluindo o barqueiro.

Para se ter a noção deste tipo de embarcação, uma vez que não existem imagens reais da ocorrência, seleccionámos a foto ao lado, publicada pelo Correio da Manhã em 27.Jun.2010, na rubrica “A Minha Guerra”, e que serviu para enquadrar a História de Guerra contada pelo nosso amigo e camarada ex-alferes Joaquim Mexia Alves,  naquele órgão de comunicação social.

Porém, tudo leva a crer que estamos perante o mesmo bote que foi utilizado naquele dia 10 de Agosto, uma vez que o ex-alferes Mexia Alves, ao ser nomeado CMDT do Pel Caç Nat 52 algum tempo depois, viria a ser colocado no Destacamento de Mato Cão, ficando este sob a jurisdição do BART 3873, e, portanto, dependente do seu apoio logístico.

Com efeito, e porque ainda hoje subsistem algumas dúvidas sobre como tudo aconteceu, nomeadamente causas e efeitos das decisões tomadas pela linha de comando, este texto corresponde tão só e apenas ao que ainda guardamos em memória deste tema (e ainda bem que o ser humano tem memória), uma vez que também neste caso estivemos envolvidos até ao tutano.

Procuramos, através da informação retida e das muitas imagens ainda bem presentes, caracterizar cada elemento do todo fenomenal, com o objectivo de acrescentar algo mais ao que já foi tornado público em outras ocasiões, em particular no Blogue da CART 3494 (vidé: poste 17 (10.fev.2009); poste 29 (22.mar.2009) e poste 44 (12.nov.2009).

Tal como nos depoimentos anteriores, o método utilizado assenta numa estrutura organizada cronologicamente a partir de cada um dos diferentes momentos: o antes, o durante e o depois dos factos.


II – O DIA 09 DE AGOSTO DE 1972

Tendo por cenário as ocorrências contabilizadas durante a primeira emboscada sofrida pela CART 3494, através do seu 4.º GComb, no dia 22.Abr.1972, levando-o a ficar inoperacional por algum tempo, como consequência dos diferentes graus de enfermidade e de inferioridade física de parte significativa dos seus elementos, foi decidido superiormente que transitaríamos de imediato para o 1.º Pelotão, em virtude deste GComb estar desfalcado de quadros de comando.

Esta transferência, que no início tinha carácter provisório acabaria por ser definitiva, pelo que nos mantivemos neste pelotão até ao final da comissão de serviço no CTIG, justificada, em certa medida, pela transferência do seu oficial adstrito (ex-alferes Carneiro) para uma CCaç, e que, por motivos que desconhecemos, não viria a ser rendido.

Assim, em conformidade com o plano das acções/missões atribuídas a cada pelotão, o dia 09 de Agosto de 1972 foi passado no cumprimento das diferentes tarefas logísticas internas como sejam a limpeza, recolha e abastecimento de água pelos diferentes abrigos e outros serviços de manutenção ao aquartelamento, sob a orientação operacional dos três furriéis do grupo: Godinho, Ferreira e eu próprio. Concluídas as diferentes missões, o restante tempo que faltava para encerrar o dia foi utilizado no jantar, na messe, e depois recolhemos ao nosso Tê Zero, procurando recuperar energias para o dia seguinte, já que a missão atribuída na escala era de intervenção, desconhecendo-se, naquele momento, o que estava previsto ou pensado para esse efeito.

Já na posição horizontal, recebendo o ar fresco da ventoinha suspensa na estrutura da cabeceira da cama, eis que entra no quarto o ex-Furriel Ferreira, com ar de poucos amigos, contando que tinha sido chamado ao Gabinete do CMDT da Companhia, ex-Cap. J. A. Pereira da Costa, líder da CART 3494 desde 22.Jun.1972, recebendo instruções para preparar a sua Secção (Bazuca) reforçada com mais alguns elementos do Pelotão, com o objectivo de no dia seguinte, de manhã, participar num patrulhamento a efectuar na margem direita do Rio Geba, estando prevista a inclusão, na acção, do Major de Operações do BART 3873, ex-Major de Art. Henrique Jales Moreira.

Perante os sinais de ansiedade transmitidos em cada frase emitida e o nervosismo sentido em cada movimento corporal, logo o questionámos – eu e o Godinho – o que se passa contigo?

A resposta não foi imediata. Mas, depois de alguma insistência, afirmou sentir-se um pouco em baixa de forma. Perguntei-lhe se queria que eu fosse no seu lugar. A sua resposta foi afirmativa, deixando cair, então, um grande fardo que tinha sobre os seus ombros.

Questionado se já tinha dado instruções aos seleccionados para a missão, a sua resposta foi positiva.

Passado algum tempo chega a informação de que o bazuqueiro, ex-Soldado Ricardo Teixeira (imagem ao lado), tinha ficado ferido durante o serviço de limpeza, em consequência de ter espetado um prego no pé, ao tentar compactar o lixo que se encontrava na viatura, deixando-o, assim, incapacitado para a tarefa agendada para o dia seguinte.


III – O DIA 10 DE AGOSTO DE 1972 – o naufrágio no Rio Geba

As actividades militares do dia em referência foram iniciadas com a concentração vs organização dos militares destacados para a acção identificada no dia anterior, grupo constituído por nove praças devidamente equipados para a missão, por mim próprio, a quem tinha sido entregue um rádio de transmissões AVP1, a que se juntou, no Cais do Xime, o CMDT da Companhia, ex-Cap. Pereira da Costa, o ex-Alferes Guimarães, em situação de Estágio Operacional e o ex-Major de Operações Henrique Jales Moreira, totalizando treze elementos.
A este número faltava adicionar, ainda, o barqueiro do Sintex, perfazendo então um universo de catorze militares a transportar no bote que, como referido no ponto I, era aconselhada uma lotação máxima de dez indivíduos.

Parecendo estarem reunidas todas as condições operacionais para o sucesso da missão, embarcámos para o bote Sintex, distribuindo-se a totalidade dos elementos de modo equitativo, dando-se então início à navegação por volta das 09:00 horas.

Depois de percorridas algumas dezenas de metros, verificou-se que o plano de água não permitia o avanço da embarcação, uma vez que o hélice do motor batia no fundo do rio, pois estávamos ainda na situação de baixa-mar, pelo que era necessário aguardar pela passagem do macaréu. Por isso regressámos ao local da partida, dando por concluída a primeira tentativa da travessia do Geba.

Uma vez que o Aquartelamento distava do cais entre 250/300 metros, e a nossa presença não era necessária naquele contexto, decidimos ali regressar. Quando estávamos já no seu interior, muito perto da parada, depois de ultrapassada a porta de armas original, cujo modelo ou patente julgamos não ter sido registada, ouvimos um sinal sonoro no nosso rádio AVP1, que atendemos. O conteúdo da informação recebida dava conta da passagem do macaréu, pelo que se solicitava a presença de todos os militares no cais, para dar-se início a nova viagem.
Contudo, foi com algum espanto e muita perplexidade que recebemos a notícia da passagem do macaréu, na medida em que conhecíamos mais ou menos bem a sua evolução no processo de enchimento da maré, devido à situação de proximidade com o rio, facto que suscitou em nós, desde o início, uma natural curiosidade pela observação deste fenómeno da natureza.

E o que é o fenómeno macaréu?

A hidrografia explica que o macaréu é o choque das águas de um rio caudaloso com as ondas durante o início da maré enchente.

Este fenómeno das marés, que dá origem à elevação do nível das águas oceânicas, faz com as mesmas invadam a foz dos rios, podendo formar ondas até dezenas de metros de largura, com três a cinco metros de altura, atingindo uma velocidade entre trinta e cinquenta quilómetros por hora. Esta poderosa massa de água que se transforma em onda pode durar entre quinze minutos e uma hora.

Para além do Rio Geba, este fenómeno é observado em vários pontos dos cinco continentes, nomeadamente no Brasil, na foz do rio Amazonas e afluentes do litoral paraense e amapaense, como sejam os rios Araguari, Maicaré, Guamá, Capim e Moju, e na foz do rio Mearim, no Maranhão.

Nessa região amazónica, esse fenómeno é designado por pororoca, mupororoca ou macaréu. Porém, outras designações são atribuídas ao mesmo fenómeno, com diferentes escalas, observado em diferentes rios do mundo, de que é exemplo o caso de Inglaterra, na foz dos rios Severn, Tamisa e Trent, conhecido por bore. Eis algumas imagens de cada um dos diferentes fenómenos.


Na França, o exemplo observado na foz dos rios Gironda, Charante e Sena é conhecido por mascaret ou barre.

De regresso ao cais, as dúvidas suscitadas inicialmente quanto à oportunidade de dar-se início à travessia não se dissiparam, antes pelo contrário, elas ampliaram-se em função da qualidade de agitação da água do rio. Esta nossa avaliação era coincidente com a do Cabo Silva (um militar da Marinha, que durante mais de duas décadas viveu as experiências das diferentes marés por onde andou, por ter estado ligado às actividades dos submarinos) e que naquela ocasião se encontrava no cais, dirigindo os trabalhos de carregamento de madeiras para a embarcação civil CP10.

Esta conclusão resultou do facto de ter escutado a parte final da conversa havida entre aquele militar e o Major de Operações, em que o primeiro tentou convencer o segundo a não se fazer à água naquele momento, aconselhando-o a aguardar mais algum tempo de modo a diminuir o risco de um eventual acidente, mas sem sucesso. À ordem de avançar porque se fazia tarde, eis a mensagem que circulou, entrámos pela segunda vez no bote Sintex, mantendo-se a distribuição anterior.

A partida aconteceu no local indicado na foto ao lado (Cais do Xime), agora em ruínas.

O sentido da navegação corresponde igualmente à da imagem apresentada, sendo a margem esquerda aquela que se encontra à direita e a margem direita a que se encontra à esquerda.

Demos, então, início à segunda tentativa da travessia do Rio Geba. Com a navegação a cargo do barqueiro, com o motor em funcionamento e com as águas muito agitadas, certamente que cada um de nós se interrogou quanto ao sucesso da aventura em que tínhamos embarcado e que não tinha hipóteses de retrocesso.

Logo nas primeiras dezenas de metros, os “palpites” começaram-se a escutar, na medida em que a embarcação não podia tomar o rumo certo. Uma ordem foi escutada: desligue-se o motor, o que foi acatado pelo barqueiro. Mas, mesmo assim, dava a sensação de que o bote continuava com o motor ligado, tal era a velocidade com que o mesmo deslizava naquelas águas revoltas.

O pânico subia à medida que a embarcação se aproximava da cabeça do macaréu, cada vez com mais agitação e remoinhos à mistura. Naquele momento, um novo conceito surgiu no léxico dos militares, particularmente nas praças, que traduzia o sentimento que estavam a viver, ou seja “eu não sei nadar”, no princípio entredentes e depois mais audíveis e expressivos.

O cenário começava, então, a ficar cinzento, diria mesmo muito cinzento no sentido da cor negra, independentemente de estar um dia óptimo, cheio de sol e com a temperatura ambiente a aumentar.
A pergunta filosófica que, certamente, cada um formulou para si, era a de saber como poderíamos sair daquele imbróglio, sãos e salvos?

Entretanto, uma nova ordem foi dada, visando criar algumas réstias de esperança quanto à possibilidade de sobrevivência colectiva, apontando para uma “navegação o mais perto possível da margem esquerda”, ou seja, a mesma donde partíramos. Quando nos encontrávamos a cerca de quatro/cinco metros do tarrafo – zona de lodo ainda não submersa, e onde habitualmente a comunidade de crocodilos (alfaiates) se organiza em frisa apanhando os seus banhos de sol – eis que se escuta uma nova ordem: “haja um que salte para o tarrafo levando consigo as correntes do bote com o objectivo de o poder suster”.

Olhando à minha volta, e perante a ausência de candidatos e/ou voluntários disponíveis para o cumprimento deste desiderato, eis que tomámos em mãos esse desafio. Porque a embarcação continuava instável face à movimentação das águas, o salto só poderia acontecer quando a distância entre o bote e o lodo fosse de molde a facilitar a operação proposta.

Não sendo possível identificar o melhor momento para o salto, eis que no tempo «X» saltámos levando nas mãos a dita corrente já referida anteriormente. Durante o salto, feito de frente para o tarrafo, ouvimos, vindo da nossa rectaguarda, um ruído provocado pelo embate da proa do bote na parte mais alta do lodo, tendo como consequência a inclinação do mesmo projectando para a água todos os seus ocupantes, primeiro os que se encontravam no lado esquerdo da embarcação e depois os do lado direito, por efeito do desequilíbrio de peso que entretanto ocorrera (lei da física).

Quanto a nós e na sequência do salto, ficámos de imediato enterrados no lodo até aos joelhos, procurando, mesmo assim, manter o controlo da embarcação através do uso da sua corrente, mas não por muito tempo. Face à diminuição da nossa resistência por via da força da maré, que nos conseguiu arrancar ao lodo arrastando-nos num espaço de alguns metros quase até à posição de «pino», não tivemos outra alternativa senão deixar o bote entrar à deriva.

Como podem imaginar todo esta descrição corresponde a uma fracção de tempo diminuto entre alguns segundos e poucos minutos, mas que no terreno mais parece uma eternidade.

Entretanto, na água, a luta era extremamente desigual entre o poder do homem e o poder da maré. Cada um dos militares, equipados e vestidos com os seus camuflados que lhes dificultava a mobilidade dentro de água, procuravam chegar a terra firme o mais rapidamente possível, pondo-se a salvo. E isso aconteceu a oito de um total de catorzes elementos.

Dos seis em falta, três conseguiram entrar no bote: o barqueiro (nome que desconhecemos, pois era elemento da CCS), o Miranda (1.º Cabo de dilagramas) que remando com a sua sacola das granadas permitiu recolher o ex-Major de Operações Jales Moreira em situação muito difícil. E os três seguiram ao sabor da corrente na direcção de Bambadinca, local onde estava sediado o Batalhão.

Os outros três elementos em falta eram: o José Maria da Silva Sousa, o Manuel Salgado Antunes e o Abraão Moreira Rosa, que acabariam por desaparecer nas águas barrentas do Rio Geba, sem que existisse qualquer hipótese de salvamento. No caso do José Sousa ainda o vi emergir três vezes. Mas como tinha em seu poder a bazuca e esta estava presa à paleta da camisa, provavelmente esta situação não lhe foi favorável, dificultando-lhe ainda mais os movimentos.

Para além de não se ter concretizado a travessia, de o grupo ter ficado fraccionado e com baixas, de termos ficado desarmados e sem meios de comunicar com a nossa Companhia, tínhamos ainda pela frente um longo caminho a percorrer até chegarmos ao nosso Aquartelamento, no Xime.

Assim, os oito elementos que estavam aparentemente a salvo, mas ainda dentro de água tentando localizar alguma das armas perdidas, tinham ainda pela frente um osso difícil de roer, passe a imagem metafórica, uma vez que faltava transpor o obstáculo tarrafo até chegar a terra mais sólida.

E a primeira dificuldade com que nos deparámos tinha a ver com a necessidade de percorrer cerca de quinze metros de lodo extremamente mole, num momento em que as águas continuavam a subir a um ritmo veloz, e em que o movimento de elevação de cada perna, correspondente a cada passo, era sempre maior que o anterior, fazendo lembrar que estávamos perante um contexto de areia movediça.

Após os primeiros passos, não nos restava outra alternativa senão tentar nadar no lodo, agora cada qual em tronco nu mas com os seus objectos sob controlo (roupa, cinturão e carregadores). Na sequência de cada braçada, esses objectos eram arremessados para a frente, para depois se efectuar nova braçada e novo arremesso. Todo o nosso corpo era lodo: o cabelo, o rosto, a boca, os membros, etc., etc., etc.. Para percorrer os tais quinze metros de tarrafo, aproximadamente, foram gastos cerca de vinte e cinco minutos, o que diz bem das dificuldades sentidas. A meio da viagem, por efeito de estar verdadeiramente exausto, pensei que já não seria capaz de ali sair. A força e a energia tinham-se esgotado.

Depois de um curto descanso a pedido do corpo e da mente, aconteceu um novo impulso antes da última transcendência (a morte), conseguindo então chegar ao fim da linha. Espalhados ao longo do lodo encontravam-se ainda os meus sete camaradas, cada um lutando para ultrapassar as suas dificuldades.

Fazendo uso da faca de mato, que usávamos presa ao cinturão, procedemos ao corte de alguns troncos dos arbustos existentes na zona, arremessando-os na sua direcção, visando facilitar a mobilidade nos últimos metros da tortura. Os pequenos troncos, porque foram colocados entre os corpos e o tarrafo, funcionando como estrado, acabariam por provocar ligeiros ferimentos, particularmente no peito e zona abdominal, devido às suas saliências.

Tendo saído vitoriosos da primeira batalha, outra seguir-se-ia, mas esta sem alvo pré-definido, uma vez que o itinerário era desconhecido, impondo-se, então, uma decisão quanto ao rumo a tomar (sentido de orientação). É que estávamos no início de uma bolanha (exemplo: imagem ao lado) e tanto quanto o horizonte visual nos permitia enxergar, não víamos alma nem qualquer vestígio da presença humana.

Avançámos de forma empírica corrigindo a direcção por simpatia, sabendo-se, no entanto, que aquela zona estava sob controlo das NT, e que provavelmente estávamos em presença da bolanha de Nhabijões, o que se veio a confirmar depois.

Durante a caminhada, sob um sol abrasador e com uma temperatura a rondar os 35/40 graus (a estação da época era a das chuvas), a resistência de cada um de nós voltou a ser, uma vez mais, posta à prova, concluindo-se que o humano não conhece os seus limites. A exaustão e a desidratação eram compensadas com um mergulho na bolanha a cada dez metros, distância suficiente para fazer secar os corpos e a roupa. Passado algum tempo não cronometrado - esse detalhe não era importante naquela situação - avistámos ao longe umas chapas de zinco brilhando por efeito do sol, tendo seguido nessa rota. Estávamos então nas traseiras da Tabanca de Nhabijões. Aí chegados, impunha-se conquistar uma merecida sombra e a ingestão de líquidos e de alguns alimentos. Mas há falta de recursos, bebemos água e eu comi uma lata de salada de frutas de conserva que jamais esquecerei.

O CMDT do pelotão aí residente estranhou a nossa presença, pois não sabia do que nos tinha acontecido. E foi a partir desse momento que sinalizámos a nossa existência na rede de comando, solicitando uma viatura para nos transportar até ao Xime, onde chegámos a meio da tarde.

À chegada, foi-nos confirmado o desaparecimento dos três camaradas anteriormente referenciados, bem como a ancoragem do Sintex no Cais de Bambadinca transportando os três elementos que nele entraram para uma viagem única em que foi aproveitada a força da maré.

Entretanto, e porque o ex-Major de Operações Jales Moreira foi o primeiro a dar a notícia da ocorrência, logo se providenciou no sentido de se mobilizarem os meios operacionais, nomeadamente a partir dos recursos humanos da CART 3494. Sob o comando do ex-Cap. Pereira da Costa foi encetado um novo patrulhamento com maior incidência na zona do naufrágio, visando encontrar os corpos dos militares afogados, mas sem sucesso. Esta acção contou com o apoio de meios aéreos.

O regresso ao Xime aconteceu já de noite.


IV - CAUSAS/EFEITOS DO NAUFRÁGIO

O dia seguinte foi vivido, por todos, sob o efeito das diferentes ocorrências do dia anterior, todas elas contribuindo para um estado de espírito francamente negativo, em particular pela perda, de uma assentada, de três membros do nosso grupo, num acidente inquestionavelmente estúpido, como são todos aqueles que poderiam ser evitados. Deste modo, a angústia e a ansiedade dominaram este e os dias seguintes, desenvolvendo-se a crença e/ou a expectativa dos corpos dos desaparecidos poderem ser recuperados.
Essa crença e/ou expectativa apenas se concretizou uma vez, lamentavelmente.

Decorridas mais de trinta horas após o acidente foi localizado um corpo/cadáver junto ao Cais do Xime (imagem ao lado); era o do José Maria da Silva Sousa (o bazuqueiro).

O seu corpo estava desnudo e em processo de transformação, o que é natural neste tipo de ocorrência. O seu comprimento aumentara substancialmente, ultrapassando largamente os dois metros, assim como o seu peso, agora com valores a rondar os cento e cinquenta quilos.

Dois dias depois procedemos à realização do funeral, numa tarde de autêntico dilúvio e com direito a Honras Militares, ficando o seu corpo sepultado no cemitério de Bambadinca, conforme se demonstra na foto ao lado, cedida pelo ex-1.º Cabo Condutor Auto – Abílio Soares Rodrigues.

Durante mais alguns dias, todos os olhares estiveram direccionados para o Rio Geba, esperando que ele nos devolvesse os restantes corpos, mas em vão.
Entretanto, devido a ter-se verificado mortes e desaparecido material de guerra, foi decidido pelo CMDT do Batalhão 3873, ex-Tenente-Coronel Tiago Martins (que já não está entre nós) a abertura de um Auto de Averiguações, que decorreu durante os primeiros meses, tendo sido consultados/inquiridos os militares envolvidos neste acidente.

Treze meses depois do naufrágio – Setembro de 1973 – fomos convocados para comparecer no Tribunal Militar Territorial, em Bissau, para participar no acto de julgamento do processo, tendo como Réu o ex-Major Henrique Jales Moreira, e na qualidade de testemunhas oculares, eu próprio e o 1.º Cabo Miranda.

Tratou-se de uma nova aventura e de uma grande experiência que não gostaríamos de repetir, em função do ambiente em que decorreu.

O veredicto final do Tribunal determinou a absolvição do Réu.

Por último, resta-nos referir que esta nova história que ousei narrar sobre um tema sensível no contexto da CART 3494 / BART 3873, escrita na primeira pessoa e que agora vos dei a conhecer, ocorrida durante o projecto militar desenvolvido no CTIGuiné (1972/1974), ficará gravada indelevelmente para sempre na minha história de vida, na medida em que é difícil fazer-se o seu luto.

Em cada um dos diferentes momentos foi possível retirar lições de vida, ajudando-nos a melhor compreender os desempenhos socioculturais e sociopolíticos do ser humano.

Assim, deixo à consideração de cada um dos leitores a competente avaliação do valor do escrito e das lições que dele julguem poder retirar.

Um grande abraço para todos, e até à próxima história.
Jorge Araújo.
Agosto/2012.
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Notas de CV:

 (*) Vd. postes de:

3 DE ABRIL DE 2012 > Guiné 63/74 - P9698: O caso da ponta Coli, Xime-Bambadinca (Jorge Araújo)
e
 25 DE ABRIL DE 2012 > Guiné 63/74 - P9802: O caso da Ponta Coli (Xime-Bambadinca) II. Nova emboscada (Jorge Araújo)

- Vd. ainda postes do Blogue da CART 3494 & Camaradas da Guiné de:

10 de Fevereiro de 2009 > P17: Soldados da CART 3494 apanhados pelo Macaréu quando se deslocavam para OP no Mato-Cão (10AGO1972)

22 de Março de 2009 > P29: SITUAÇÃO DE RISCO ELEVADO - CART 3494 ( Xime, 10 de Agosto de 1972)
e
12 de Novembro de 2009 > P44 - Os mortos da Companhia de Artilharia 3494

- Vd. último poste da série de 1 DE AGOSTO DE 2012 > Guiné 63/74 - P10216: Efemérides (106): Romagem ao Cemitério de Lavra, Concelho de Matosinhos, no dia 8 de Agosto de 2012, em homenagem aos militares mortos em campanha na Guerra Colonial (Carlos Vinhal)