sábado, 14 de junho de 2008

Guiné 63/74 - P2939: No 25 de Abril eu estava em... (3): Guidage (João Dias da Silva, ex-alf mil op esp,, CCAÇ 4150, 1973/74)

Damos início a uma nova série (No 25 de Abril eu estava em...). Apelamos à contribuição de todos os que quiserem e puderem dar o seu testemunho, directo, pessoal, de como os acontecimentos foram vividos em 25 de Abril de 1974, na Guiné (vb).


O 25 de Abril em Guidage


Mensagem de João Dias da Silva (1) , de 27 de Maio último:

Meus caros,

O prometido é devido e aqui estou a dar sinal de vida.

Comemorámos há pouco mais de um mês o 34.º aniversário do 25 de Abril de 1974. Propositadamente utilizei a forma verbal comemorámos em vez de comemorou-se. É que este é muito impessoal, é sinónimo de algo que outros fizeram ou organizaram, enquanto que comemorámos significa que cada um se empenhou em comemorar aquele acontecimento da forma que melhor entendeu e pelas mais variadas razões, sejam elas quais forem, pela positiva ou pela negativa, pois cada um, desde aquela data, é livre de o fazer em obediência aos ditames das suas convicções e opiniões.

E refiro este aspecto porque me tenho apercebido que têm sido expressas no nosso blogue opiniões bem diferentes, antagónicas mesmo, acerca de diversos assuntos, por vezes de uma forma bastante apaixonada que, pensava eu, um período de 34 anos já teria moderado.

Os historiadores é que sabem quando afirmam que é necessário deixar passar sobre os factos o tempo suficiente para que haja um distanciamento tal que permita à razão sobrepor-se à emoção, ou seja, pensar mais com a cabeça do que com o coração.

De todo o modo, mesmo que se esgotem todos os motivos para comemorar o 25 de Abril, eu terei sempre pelo menos um para o comemorar – a minha comissão durou apenas um ano porque, entretanto, ocorreu a queda do regime.

É frequente ouvir-se ou fazer-se a pergunta: onde estavas no 25 de Abril? Eu estava em Guidaje.

O 25 de Abril em Guidaje e primeiras consequências

Respigando uma ou outra das minhas poucas notas pessoais e consultando alguns documentos (apenas as transcrições manuais feitas na altura, mantendo as pontuações e os erros ortográficos, porque os originais ficaram nas pastas de arquivo respectivas) os ecos do 25 de Abril chegaram a Guidage titubeantes, mas logo começaram a produzir efeitos.

Para nos situarmos, será bom relembrar que nesta altura a guarnição de Guidage era composta por duas companhias – a CCaç 19 (africana) e a CCaç 4150 – e um pelotão de artilharia.

25 de Abril de 1974 – Parece que hoje houve um GOLPE DE ESTADO MILITAR, em Lisboa.
Passámos todo o dia à volta do rádio, ouvindo as edições especiais da BBC em língua portuguesa, a tentar saber algo sobre o sucedido.

Por enquanto está tudo muito, muito confuso, pois todas as notícias são precedidas de "parece que" ou finalizadas por "não confirmado". Vive-se por aqui um certo estado de tensão por não se saber nada em concreto. Há que aguardar.

Pelas 22H45 chegou uma mensagem relâmpago confidencial do COM-CHEFE (Brig Bettencourt Rodrigues) a informar que corriam notícias que o Governo de Marcelo Caetano tinha sido derrubado, mas que eram só boatos, com o seguinte texto:





Mensagem vinda do Com-Chefe

AGÊNCIAS NOTICIOSAS INFORMAM QUE GOVERNO PROFESSOR MARCELO CAETANO FOI DERRUBADO POR MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS. NÃO RECEBIDA QUALQUER COMUNICAÇÃO OFICIAL. ADMITINDO QUE IN POSSA TENTAR EXPLORAR SITUAÇÃO INCREMENTO SUA ACTIVIDADE SUBVERSIVA. TODOS OS COMANDOS DEVEM ADOPTAR MÁXIMA VIGILÂNCIA E GARANTIR PRONTA CAPACIDADE REACÇÃO. COMANDANTES UNIDADES SÓ DEVEM RESPEITAR ORDENS QUE RECEBAM APÓS RIGOROSA AUTENTICAÇÃO SUA ORDEM. AUTENTICADO.
Transcrição manual da mensagem original, em impresso normalizado

26 de Abril de 1974 – Farim embrulhou às 6H00.

Continuámos a aguardar com certa ansiedade notícias daquilo que se está a passar na Metrópole quer no RCP (emissor do Movimento das Forças Armadas – é agora a emissora oficial), quer na BBC.

O Gen. Spínola deu uma entrevista sintética. Saiu o 1.º COMUNICADO oficial com o programa. É sensacional, se for cumprido integralmente. A situação ainda não está bem definida. Aguardemos. Recebemos uma MSG do COMCHEFE interino da Guiné (o Gen B. Rodrigues foi-se...).

27 de Abril de 1974 – É dia de descanso.

Saíram comunicados do Instituto Superior Técnico e da Conferência Episcopal dos Bispos reunidos em Fátima. Tudo parece encaminhado no melhor sentido e sem vítimas.

Ontem de manhã (soube-se hoje) o Batalhão de de Pára-quedistas de Bissau cercou discretamente o Palácio do Com-Chefe enquanto a PM mantinha a ordem no seu interior.

Entrou uma comissão pró-Movimento das Forças Armadas que obrigou o Gen B. Rodrigues a demitir-se. À tarde, acompanhado por um Brigadeiro e dois Coronéis (entre eles Vaz Antunes), que não aderiram ao movimento, embarcou escoltado por Páras para Cabo Verde onde todos estão exilados.
 
O Comodoro Almeida Brandão é o actual CMDT interino da Guiné e o Ten Cor Eng de TRMS Mateus da Silva o representante do Novo Governo na Guiné.

4 de Maio de 1974 – Fomos flagelados com armas pesadas.

Algum grupo de guerrilheiros do PAIGC, em deslocação do interior da Guiné, pelo corredor de Sambuaiá, para a sua base do Kumbamori (Senegal), provavelmente desconhecedor dos últimos acontecimentos políticos, aliviou-se do peso das granadas, até porque já estavam perto da fronteira, descarregando-as sobre nós.

26 de Maio de 1974 – A FORMAÇÃO da CCaç 19 entregou ao Cap Carvalho um comunicado que se encontra no "Dossier – GUINÉ".

Ex.mo CAPITÃO
Excelência

Com o maior respeito e compreensão, nós todos aqui presentes, que acabamos por compreender a situação indigna em que nos encontramos, e que queremos fazer tudo que seja natural para nos desembaraçarmos da mesma, pelo futuro melhor do nosso povo e do próprio povo português, decidimos desde então abandonar as Armas e ir participar na mobilização das massas populares da nossa terra.

Visto que é mesmo necessário fazer o nosso povo conhecer a realidade, a qual, foi-lhe sempre escondida e disfarçada durante longos anos de dominação fascista e colonialista. Queremos a Paz e para que haja tal é preciso uma independência da nossa terra. Aliás a independência é a maior aspiração do nosso povo, isto sabe-se mesmo na forma como eles têm lutado nos tempos presentes da Liberdade. E se tal é a vontade do nosso povo, nós não temos nenhuma razão de lutar conta quem a defende. Queremos pelo contrário, facilitar a obtenção de tais direitos de todos os povos do mundo.

Em nome do povo português e de todas as forças amantes da Paz, pedimos a Sua Ex.ª, a maior colaboração para atingirmos o nosso desejo pacífico. Esperamos com maior certeza que as autoridades competentes nos compreenderão.
Para terminar damos os nossos gritos de:

Viva o povo português
Viva a Paz
Viva a Junta de Salvação Nacional
Viva a Liberdade
Viva Portugal progressista
Glória ao imortal herói do nosso povo e de África:
Camarada AMÍLCAR CABRAL


O referido documento, segundo a transcrição manual que fiz na altura

28 de Maio de 1974 – Houve festa em Guidage.
Desde 1968 que não havia batuque devido à guerrilha, pois quando se fazia batuque havia, geralmente, um ataque, por isso...

31 de Maio de 1974 – Carta ao Cap Carvalho de DUKE DJASSY. Encontra-se no "Dossier –GUINÉ".

FRENTE S. DOMINGOS – SAMBUAIÁ

COMBANG'HOR, 31 MAIO 1974

Ex.mo Senhor
CMTE FORÇAS PORTUGUESAS
Em GUIDAGE

Em primeiro lugar os nossos mais sinceros votos de boa disponibilidade na recepção desta carta intrépida.

Tendo escutado, hoje, atentamente o vosso interlocutor, tomei conhecimento, e em nome do Comando Militar da nossa região, decidi rabiscar, no interesse de ambas as partes, as possibilidades que facilitarão o nosso eventual encontro. A vossa iniciativa desfruta grande admiração por nossa parte, que a única razão de nos estarmos batendo foi sempre e sempre será pela conquista da nossa dignidade e liberdade.

Nesta luta que escolhemos como única saída possível naquele momento de desespero, nela se encontra bem definida os interesses que nos identificam com o grande Povo Português, que aliás era vítima da mesma fera "o Colonialismo Fascista". Por isso ele, o Povo de Portugal, é o nosso primeiro aliado e hoje então é uma realidade.

Se o Sr. Comandante faz parte deste bom povo, é por certo que tecemos dos dois lados uma participação franca e de amizade neste contacto no futuro próximo.

Podíamos naturalmente, fazer os demais pormenores concernentes a este convite mas, claro está, não queremos que o mensageiro explore com astúcias as posições de ideias que nos unem e por isso preferimos fazê-lo depois de recebida a vossa resposta.

Sr. Comandante! Nós que não fazemos a guerra pela guerra, nós que nunca confundimos nem confundiremos povo com regime dum governo, nós que temos um critério eloquente entre o indivíduo e sistema político, a nossa participação nesta nova situação regional que ensaiamos criar, como aquele que no topo, em Londres, se desenrola.

A nossa parte não tem poupança de esforços no que se vai construir a Paz, que tudo ao nosso alcance será metido em acção.
Enfim, tudo depende do vosso lado, na espera duma resposta de confirmação e afirmativa.

VIVA PORTUGAL LIVRE!
VIVA O PAIGC!
QUE A VITÓRIA FINAL SERÁ DOS POVOS!
Obrigado prévio
Do camarada franco

a) DUKE DJASSY
Comissário Político Militar
CE 199 e 70

N.B. – Este, DUKE DJASSY, é a minha alcunha, porque o meu nome é Leopoldo António Luís Alfama


Carta-resposta a uma mensagem a solicitar um encontro (ou coisa do género, se bem me recordo, mas cujo conteúdo já não tenho presente, nem possuo qualquer documento), que o Cap. Carvalho (António Eduardo Gouveia Carvalho, Comandante da CCaç 19) fez chegar, através de um mensageiro, a DUKE DJASSY, Comissário Político do PAIGC.

1 de Junho de 1974 – Resposta do Cap. Carvalho. Encontra-se no "Dossier - GUINÉ".

GUIDAGE
1 Junho de 1974

CAMARADA DUKE DJASSY

Começo por pedir desculpa do tratamento que lhe dou no cabeçalho. Poderá parecer incongruente da minha parte tratá-lo por camarada, a si, que com todos esses bravos combatentes durante anos e anos consecutivos, no meio das maiores privações e sacrifícios, lutaram para conseguir a liberdade deste povo oprimido e explorado por todos os camaleões do antigo regime "Colonialista fascista" que no momento mais alto da história do meu povo, foi derrubado pela união das Forças Armadas – Povo.

Dizia eu, portanto, que não me sinto com a força moral necessária e suficiente de o tratar por "camarada", mas sinceramente é assim que me dá prazer tratá-lo. Era assim que eu gostaria de o ter tratado ao lutar na mesma causa comum, infelizmente as minhas afinidades familiares sobrepuseram-se aos meus ideais políticos e eis a razão porque me encontro num exército que durante anos serviu um governo opressor dos povos africanos que lutaram pela sua liberdade, LIBERDADE essa prestes a ser atingida.

Tentei, portanto, integrado num exército, lutar com palavras, palavras de mentalização aos homens que me estão confiados, tentando informá-los da verdade e da justiça duma guerra em que eles estão inseridos, única e simplesmente, pela falta de informação, que nunca lhes foi confiada e prestada, e o que é ainda mais desumano, comprados à custa de dinheiro.
Como concerteza está informado, é esse dinheiro com que o governo deposto comprou a consciência de milhares de guinéus, que faz com que alguns deles, mesmo agora, tenham uma certa relutância em aceitar a LIBERDADE e a INDEPENDÊNCIA pela qual os vossos valorosos combatentes se bateram.

Será que eles são culpados? Não, só esse governo odioso, poderá abarcar com todas as responsabilidades, pois esse mesmo governo, que montou toda a máquina económico-política para deformar e comprar a consciência humana. É por isso que eu admiro todos os homens que se conseguiram libertar das algemas que os acorrentavam.
Ao ver tão próxima a liberdade por nós desejada continuo na minha mentalização a esses homens enganados, estando convencido que estou a lutar por uma causa comum e é a única causa justa. Tentando dissipar possíveis animosidades criadas durante estes anos entre homens do meu povo que deveriam ter lutado em comum, e só o não fizeram pelo facto de terem sido levados por esses agressores dos povos.
Deve, portanto, camarada deduzir que é uma honra incalculável se conhecer e falar com um dos bravos combatentes desse glorioso Partido que é o vosso. Devido, portanto, à situação especial de Guidage, ter sob o meu comando uma Companhia Armada por homens do vosso Povo, acharia conveniente, se o camarada concordar, encontrarmo-nos, nesta primeira fase, em território senegalês, num local por vós escolhido.

Estando certo que sempre nos uniu a mesma causa, apesar das situações antagónicas em que nos encontramos, espero esse encontro com a maior ansiedade e a maior brevidade possível.

VIVA A REPÚBLICA DA GUINÉ-BISSAU!
Viva o glorioso PAIGC!
VIVA PORTUGAL LIVRE!
VIVA A LIBERDADE ADQUIRIDA PELOS DOIS POVOS OPRIMIDOS!

Do camarada que sempre admirou a causa por que vos lutastes.

a) António Eduardo Gouveia Carvalho
Capitão Miliciano de Infantaria


2 de Junho de 1974 – Veio hoje a Guidage um carro civil de Carlos Vieira (irmão do Nino Vieira, que se encontra estabelecido em Binta com negócios diversos) vender/trazer mantimentos à população, o que não acontecia desde o início da guerra.

Proposta de Duke Djassy. Encontra-se no "Dossier – GUINÉ".

2 Junho de 1974

CAMARADA ANTÓNIO EDUARDO

Saudações fraternais

Acuso ter recebido ontem carta sua, a qual, causou grande emoção, tanto a mim pessoalmente, como a todos aqueles que tiveram a possibilidade de a ler.
Mas espero que o mais importante ainda será o dia da nossa entrevista.
Por isso, quero previamente prevenir-lhe, que estarei acompanhado com mais dois ou três camaradas responsáveis, os quais, não foram, todavia, indicados pela direcção do Partido.
Gostaria que esse encontro tivesse lugar no dia 5 do corrente mês a partir das 17.00 hora TMG (quer dizer, 4.00 horas da tarde na Guiné).
Mas caso o Sr. achar qualquer inconveniente no tempo e lugar escolhidos, convém assinalar logo.
O local será entre as tabancas senegalesas de BEILAN e SECONAIA.
Aceite um abraço do camarada amigo

a) DUKE DJASSY

Seguiu oralmente, através de mensageiro, a resposta do Cap Carvalho a solicitar que tal encontro se efectuasse junto à tabanca senegalesa de MARIÁ, pois aquelas estão muito longe, e a informar que ia acompanhado por mais colegas.

4 de Junho de 1974 – O Carlos Vieira quase todos os dias tem mandado uma camioneta para reabastecer o comércio civil.

5 de Junho de 1974 – À tarde lá foram (Dossier – GUINÉ) ao encontro, na tabanca senegalesa de MARIÁ:

- Cap António Eduardo Gouveia Carvalho – CMDT CCaç 19
- Alf Vítor Manuel Pereira Abreu – CMDT 3.º GR da CCaç 4150
- Alf Luís Socorro Almeida – CMDT 4.º Gr da CCaç 19
- Fur Lopes Pereira – Agente PIM em Guidage
- PATRÃO SONCO
- ANCHEU (FG 12) – Mensageiro, habitante de Mariá

com os elementos do PAIGC:

- DUKE DJASSY (Leopoldo António Luís Alfama, cabo-verdiano) – Comissário Político da Região S. Domingos – Sambuaiá
- MANUEL DOS SANTOS (MANECAS, cabo-verdiano) – Comissário Político da Zona Norte
- BRAIMA DJALÓ (Natural de Bolama) – Cap do Exército e membro do C.E.L.
- 2 CMDT DE BIGRUPO

Não possuo qualquer documento ou referência ao resultado deste encontro, nem me recordo de termos falado o que quer que fosse. Recordo, no entanto, que passados poucos dias o Comissário Duke Djassy veio ao Aquartelamento de Guidage, provavelmente para novo encontro. Nada sei da evolução destes contactos, até porque fomos para Bissau (COMBIS) no dia 4 de Julho de 1974.

15 de Junho de 1974 – À tarde houve um jogo de futebol entre os moços (12/13 anos) de Guidage e do Senegal. É de salientar o contraste: enquanto os de cá falavam mandinga (só falam português connosco e nem todos), os do Senegal falavam francês, correctamente. É sintomático...

1 de Julho de 1974 – Encontro na zona da bolanha de Nenecó (junto da fronteira com o Senegal, a norte de Bigene) entre PAIGC e COP3.

EM 011000JUL74, CMDT CE 199/E/70 QUECUTA MANÉ E SEUS COMISSÁRIOS POLÍTICOS DUKE DJASSY E MANUEL DOS SANTOS (MANECAS) ACOMPANHADOS DE ELEMENTOS ARMADOS DO PAIGC ENCONTRARAM-SE COM O CMDT, OFICIAIS E SARGENTOS DO COP3, NA REG. DA BOLANHA DE NENECÓ, ONDE FORAM DEFINIDOS NOS SEGUINTES TERMOS A SUA LINHA DE CONDUTA:

- Que se o Gen. Spínola visitar a Guiné dará origem ao reinício da luta.

- Que o cessar-fogo por parte do PAIGC é da responsabilidade dos combatentes, dado não terem recebido directivas do S. G. nesse sentido, pelo que poderão recomeçar a luta quando o entenderem.

- Pretendem estabelecer contactos permanentes com metropolitanos, tropas africanas e Pop., pelo que solicitam autorização para enviar equipas de Com. Pol. para GANTURÉ – BIGENE – BARRO e BINTA – GUIDAGE.

- Que consideram a guerra como último argumento e que condenam a violência.

- Que não reiniciarão a luta armada sem aviso prévio e com antecedência às NT.

- Não têm grande esperança em que o diferendo seja resolvido entre o Governo Provisório e o PAIGC pelo que a solução final deverá ser forçada pelas NT que prestam serviço na Guiné.

- Que inicialmente pretendiam apenas contactar quadros metropolitanos, mas que agora pretendem também contactar Tropas Africanas, no sentido de as mesmas entregarem as armas, deixando de colaborar com as NT.

- Não querem voltar à guerra mas que têm um objectivo a conseguir, pelo que serão novamente guerrilheiros se essa for a última solução para conseguir o seu objectivo.

Não sei o que foi tratado neste encontro, mas tive acesso a este documento, que parece ser, pelo seu conteúdo, um memorando de ideias/convicções apresentado pelos dirigentes do PAIGC presentes no encontro com pessoal do COP3 (Bigene), cujos nomes não recordo, mas que era comandado pelo Major Carlos Alberto da Costa Campos.

4 de Julho de 1974 – Deixámos Guidage e fomos para Bissau (COMBIS).

Não fora o 25 de Abril e certamente que esta viagem só teria ocorrido um ano, no mínimo, mais tarde.

E hoje fico-me por aqui. Voltaremos a encontrar-nos.

Um abraço do
JOÃO DIAS DA SILVA.
__________

Notas de vb:
Adaptação do texto da responsabilidade de vb;

(1) Artigo relacionado em
6 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2812: Tabanca Grande (66): João Dias da Silva, ex-Alf Mil Op Esp da CCAÇ 4150 (Guiné 1973/74)

Guiné 63/74 - P2938: Estórias do Juvenal Amado (11): Galomaro, Bambadinca, Cancolim e Gabu (Juvenal Amado)

Juvenal Amado
Ex-1.º Cabo Condutor
CCS/BCAÇ 3872
Galomaro
1972/74


1. Em 9 de Junho recebemos do nosso camarada Juvenal Amado mais uma das suas estórias.

Caro Carlos e restante Tabanca Grande
Fiquei impressionado com o relato das condições em que se encontra o nosso camarada Rodrigues.

Pelo o que eu me lembro dele, já naquele tempo era uma pessoa muito instável. Nunca deveria ter sido exposto às situações que passou na Guiné.

Não acredito que se vá a tempo de fazer algo por ele, mas bem haja o camarada que o foi ver e tentar ajudar.

Um abraço para toda a Tabanca
Juvenal Amado


2. Galomaro, Bambadinca, Cancolim e Gabu.
Por Juvenal Amado

A coluna vinda de Cancolim está parada do lado de fora do nosso destacamento. Em cima das viaturas, os homens daquela Companhia aguardam, já estão cheios de pó e suor.

Eu e o Borges já estávamos avisados de que seguiríamos integrados na coluna para Bambadinca, a fim de fazermos o reabastecimento.

Ao anoitecer do dia anterior, o Furriel Claudino, avisou-me para estar preparado com a minha viatura e que levantasse ração de combate para um dia.

Depois de carregarmos géneros alimentares em Bambadinca, seguiríamos para Cancolim.
Regressaremos quando o destacamento voltar a fazer coluna a Galomaro.
Desta vez, no regresso, traríamos dois grupos de pára-quedistas que ali tinham estado de reforço à Companhia.

A Companhia de Cancolim foi daquelas que não foram felizes. O número de ataques, mortos, feridos, doenças várias, bem como o desaparecimento do seu capitão(*), logo no início da Comissão, tinham tornado o destacamento praticamente inoperacional, com pouco mais de dez meses de comissão.
O moral era baixo.

Chegámos já praticamente de noite. Estacionei a minha Berliet com a traseira para a porta do Depósito de Géneros. O meu amigo Correia, apontador de morteiro 81, era o responsável pelo Depósito. Descarregámos e a seguir tomámos um banho de latão, ou banho fula, (**) como lhe chamámos.

A guarnição do morteiro faz turno até à meia noite e é no respectivo abrigo que petisco o resto da ração de combate. De alguma coisa serve ser amigo do Correia, é que ele arranja um pouco de vinho fresco para acompanhar.
Essa noite não ia ser tão calma como desejaríamos.

No posto havia sempre um pequeno rádio que servia, em caso de ataque, para o tiro do morteiro ser coordenado pelo comando.

Nisto ouvem-se vozes vindas do rádio. Não se percebe nada do que dizem, mas o que nos preocupa é que o aparelho é muito limitado na sua captação. Para se estar a ouvir é porque estão muito perto.
Todos os camaradas vão para as valas. As minhas mãos no punho da G3 estão suadas, aliás o suor corre-me pela cara, costas e peito. É da tensão.
Está calor e humidade, é o tempo das chuvas.

Nada se passa de extraordinário e as horas vão passando, até que o estado de alerta é suspenso e nós, a pouco e pouco, vamo-nos deitando.
Eu sou dos últimos e não estou nada descansado.

Começou a chover. É aquela chuva tropical, que mais parece um imenso balde de água que alguém despeja de uma vez. As valas rapidamente enchem de água até aos bordos. Troveja e nisto coincide um relâmpago, com uma explosão fortíssima. Saltámos para as valas e é bom ver em que estado ficámos, todos encharcados de água barrenta. Os páras, embora sendo tropa especial, molharam-se como nós. A chuva não escolhe elites.

Tinha sido um fornilho a rebentar com a trovoada. Fartámos de rir uns dos outros e com umas tolhas, lá resolvemos o assunto.

No dia seguinte os pára-quedistas saíram em patrulha e deparam-se com um grupo de guerrilheiros. Quando estão a posicionar-se para os atacar, apercebem-se que há mais dois grupos, sendo um de artilharia. O IN é numeroso e bem armado demais para aqueles vinte homens.

Contactam o quartel, vamos todos para as valas novamente. São talvez nove horas da manhã, mas já está um calor terrível. Os pára-quedistas recuam e é pedido apoio aéreo. Passado uma hora ou mais, lá aparece um FIAT que dá umas voltas por cima do objectivo e por fim dispara os roquetes na direcção da mata. Regressa a Bissau e nós lá ficámos, mas mais nada acontece. O morteiro 81 faz batimento de zona. Cinco ou seis granadas a espaços.
Parece ser uma coisa sem importância, tal foi a atenção que o Comando da Zona Leste lhe deu.

O almoço é feijoada.
Cancolim não tem refeitório, ou pelo menos ninguém o usa.
O cozinheiro costuma bater numa jante velha e cada um vai com a marmita buscar a refeição, indo comer para onde lhe der mais jeito. Hoje nem toque na jante se ouve, não vão os turras enviarem a sobremesa.

O comer estava intragável, os carneiros (larvas do feijão) dão um aspecto terrível ao molho, tal é a quantidade. Praticamente ninguém come.
Foi distribuída ração de combate para o dia.

No dia seguinte de manhã bem cedo, já nós vamos na picada com os pára-quedistas que levaremos para Nova Lamego (Gabu).

Nessa mesma noite o PAIGC atacou Bafatá com vários foguetões 120 e embora não tenha provocado mortes, o impacto psicológico foi muito mau para nós. Um dos foguetões caiu perto do hospital onde prestava serviço o nosso ex médico(***), não tendo explodido felizmente.

O grupo que efectuou o ataque, foi o mesmo que nós deixámos passar perto de Cancolim um dia antes.

O facto trouxe muitos dissabores ao comandante da Força Pára-quedista que por se encontrar em desvantagem, se furtou ao confronto. Ele entendeu que a vida dos homens dele era mais importante naquele momento e tendo em vista, o fraco apoio aéreo que nos enviaram, eu até estou de acordo com o que ele decidiu.
Seria um sacrifício praticamente inútil, tendo em conta a disparidade das forças.

Já depois do nosso regresso, em conversa com um amigo meu que foi pára-quedista na mesma altura na Guiné, vim a saber que o 2.º sargento que comandava a força em questão, estava ainda a responder por acto de cobardia perante o inimigo.

Faziam de nós carne para canhão, não prestavam o auxilio necessário e ainda à boa ordem Salazarista, exigiam o que nós nos deixássemos matar.

Já na Índia, tinham tentado fazer o mesmo com os camaradas que lá prestavam serviço. O regime queria heróis, nem que fossem mortos.

Juvenal Amado

Notas do autor:
(*) O capitão desta Companhia, após ter sido ferido no pescoço, num ataque talvez três semanas depois de terem chegado a Cancolim, veio à Metrópole e aproveitou para dar o salto para um pais do Norte da Europa, que não o entregou às autoridades portuguesas.

(**) O banho fula consistia num bidão donde nós com uma lata íamos retirando porções de água que derramávamos pela cabeça e assim retirávamos o sabão. Normalmente fazíamos isso atrás da caserna.

(**) O Dr. Pereira Coelho foi com o Batalhão logo de início. Para o final da comissão foi destacado como Director do Hospital de Bafatá. Juntamente com a sua esposa, médica também, que entretanto se juntou a ele, desenvolveu um trabalho meritório a favor das populações civis. Aliás, foi o seguimento do trabalho desenvolvido por ele já em Galomaro. Nunca se cansou de apoiar toda a população. Esteve sempre atento aos nossos problemas, chegando a fazer pequenas cirurgias. É um grande especialista na área da fecundação assistida. Foi mesmo o responsável pelo êxito do primeiro bebé proveta nascido em Portugal há mais de vinte anos. Foi uma honra da qual a o BCAÇ 3872 se pode gabar. Ter privado com ele durante tanto tempo, fez de nós homens melhores.
_______________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 1 de Junho de 2008> Guiné 63/74 - P2910: Estórias de Juvenal Amado (10): A patrulha nocturna (Juvenal Amado)

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Guiné 63/74 - P2937: A guerra estava militarmente perdida? (16): António Santos,Torcato Mendonça,Mexia Alves,Paulo Santiago.

A Guerra estava militarmente perdida?

Duas notas aos Camaradas que com tanto interesse têm acompanhado esta questão:

1. O atraso na publicação das mensagens deve-se ao editor;
2. O reconhecimento a todos, intervenientes activos ou seguidores atentos pela forma elevada como têm conduzido esta "boa polémica", como a designou no início o Luís Graça.

vb

Continuamos a publicar por ordem de chegada as mensagens recebidas.
__________


1. Em 27 de Maio, de António Santos

Camaradas

Saúde para todos.

Antes de mais gostaria de vos dizer que não tenho por hábito entrar em polémicas, não é isso que quero mas, simplesmente esclarecer a nossa Tabanca Grande, portanto é nestes termos que vou comentar o post nª P2872: A guerra estava militarmente perdida (5), do nosso camarada António Abreu.

1º Eu estive na Guiné mais ou menos no mesmo período que o Abreu

2º- As pistas alcatroadas não eram só Bissau e Cufar, como o Abreu afirma, porque a de Nova Lamego também o era, a alcatroada, sim! Tínhamos duas, outra em terra batida. Dizia-se por lá que a alcatroada era a 2ª melhor da Guiné.
Anexo duas fotos e um excerto retirado da história do Bat Cav. 3854:

Pistas de aterragem e placas para helicópteros

Há pistas em Nova Lamego, Canjadude e Cabuca. Em Nova Lamego são duas, uma de terra batida com o comprimento de 1.150 metros e a outra asfaltada com 2.400 metros de extensão, acabada de construir em 1970, dispendendo-se com essa construção 22.000 contos, incluindo a respectiva placa de estacionamento. Nesta segunda pista podem aterrar quaisquer tipos de aviões.
As de Canjadude e Cabuca têm 500 metros de cumprimento, apenas permitem a aterragem dos aviões Do-27.
Existem placas de aterragem de helicópteros em Nova Lamego (concluída) e em construção em Canjadude, Cabuca, Madina Mandinga, Dara e Cansissé.





3º- Além disto, Nova Lamego era sede do CAOP 2, onde era organizada a guerra para toda a zona leste. 6 Sectores. Como forças de intervenção, dispunha de uma companhia do exército e outra de páras sempre às suas ordens que ao fim de um mês se revezavam, por isso era normal termos a 121 a 122 ou a 123 como companheiras.

4º- Não esquecer que também os destacamentos de Mareue e Copá foram abandonados por nós no final da guerra.

Fica pois este esclarecimento às tropas.
Um Alfa Bravo do Camarada

A. Santos
4574/72
SPM 2558

__________

2. Do Torcato Mendonça em 27 de Maio:


Há dias, por razões diversas, não consigo "escrever". Vou tentar, o mais sintético que me for possível. Assim;

1º- Esta troca de opiniões tem interesse para mim. Porquê? Porque me mostra, aquele período da história do meu País, relatada por quem o viveu e, fundamentalmente, pensa de maneira diferente.

2º- Pode efectivamente ser infindável sem ser estéril. Pode ser tratada por Milicianos, para gáudio de alguns "profissionais" mas, eu e muitos fizemos a guerra – não gostávamos da vida militar. Demos o melhor de nós, não em defesa de um ideal mas na defesa, isso sim, de quem comandávamos e do respeito que tínhamos por nós próprios.

3º- Têm participado nesta troca de palavras ex-militares que gosto de ler o que escrevem. Ora o Joaquim Mexia Alves é um deles. Tem, quanto a mim, "ainda um sentir" demasiado vincado com a política de então. Isto nada tem de pejorativo pois aceito a pluralidade de opiniões. Disse-me ele, no III Encontro quando nos despedíamos, querer comentar alguns escritos meus. Pois, meu caro amigo, se não o sentisse não o diria, força. A não varredela politica, pode deformar a objectividade da análise. Conseguirei eu fugir ao meu pensar político? Tento. Só assim consigo distanciar-me e analisar os acontecimentos. Conseguirei? Não sei!

4º- Não posso, não devo contar ou falar sobre tudo. Menos ainda, se estiver directamente implicado ou, devido ao relato, puderem tirar-se ilações de valorização pessoal. Aceitei que me apelidassem de defensor do Solo Pátrio, de assassino da Guerra Colonial, de fascista e outros adjectivos…
Não respondi, nem respondo; não contei tudo, nem contarei, não por medo de (actualmente) mas por pudor e respeito com. Tentei esquecer.

5º- As Guerra como a da Guiné – todas as guerras daquele cariz – estão militarmente perdidas. Friso a Guiné. É isso que, por ora, está em análise.
Quem a preparou sabia fazê-lo. Politicamente deviam ter sido tomadas as medidas correctas para que fosse encontrada uma solução. Não foi pois o nosso País era governado em ditadura. Mesmo assim houve tentativas…alguns militares não aceitavam a solução politica, outros nem tanto, outros… e depois, muitos, tomaram posição. Que posição o Congresso dos Combatentes, a contestação ás muitas Comissões… a não-aceitação de certas interferências corporativas… ou a contestação que levou ao 25ª???!!! Ora íamos por aí fora e ater de ser feito documentalmente. Por isso me interessa esta análise. Esta e outras…

6º- Não me quero repetir e plagiar a frase do Eduardo Águalusa – de quantas mentiras……verdade…mas pedia para ser lido com atenção, quer o preâmbulo, quer os textos hoje publicados sobre a batalha do Como. Lido e relido.

Com estas ultimas palavras e o sublinhado tinha respondido. Mas fi-lo com amizade e consideração: Ao Mexia Alves, ao Mário B. Santos e aos nossos Editores.

Envio a todos os que lerem um abraço de,
Torcato

__________

3. Em 30 de Maio, de Joaquim Mexia Alves:

Meu caro Virgínio Briote

Pego na tua introdução ao post 2899:

"Eram as armas que iam decidir o conflito?
Em 1974, a grande maioria do povo português desejava a continuação da guerra?
Entre os militares estacionados na Guiné a contestação era cada vez mais aberta. E às claras. Em Março de 1974, algumas unidades dispersas pelo território receberam uma mensagem assinada pelo Ten Cor Banazol, em nome do "Movimento de Resistência das Forças Armadas", apelando à rebelião e programando uma operação de retracção do dispositivo militar para o mês de Maio próximo...estou a citar o então Capitão J. Golias.
E, depois do 25 de Abril, o grande público veio a saber que o governo de então já não pensava de maneira muito diferente. Marcello Caetano tinha enviado a Londres o diplomata José Villas-Boas para uma reunião com dirigentes do PAIGC (Vítor Saúde Maria, Silvino da Luz e Gil Fernandes, reunião que ocorreu entre 25 e 26 de Março e na qual ficou agendada novo encontro para 5 de Maio seguinte...".

Ó meu amigo e camarada, com todo o respeito, assim não nos entendemos!
O que está em discussão, ou pelo menos foi nessa discussão que entrei, é se a guerra à data do 25 de Abril estava perdida militarmente, repito militarmente, ou não.
Já o disse e já todos o dissemos que com certeza não seriam as armas que iam decidir o conflito.
Não só em 1974, mas até antes, a grande maioria do povo português não desejava a guerra, nem a sua continuação.
Quantos povos desejam verdadeiramente uma guerra, seja porque que motivos for?
Com certeza que havia contestação, sempre houve e muito provavelmente, (não sei), essa mensagem terá sido enviada depois do 16 de Março.
E a quantas unidades?
E quantos mais poderão ser citados que dizem o contrário?
Mas repito, não é isso que está em causa, (pelo menos para mim), mas sim a afirmação de que a guerra estava militarmente perdida naquela altura.
Quanto às negociações de que falas já respondi ao Mário Beja Santos sobre o assunto.
As negociações existiam mas não forçosamente por causa de um entendimento de que a guerra estava perdida militarmente, mas por causa do mal que estava a causar ao país, (os governantes não era estúpidos, apesar de teimosos), em virtude da crise internacional que se reflectia no país, e por, sem dúvida nenhuma a pressão internacional que se fazia sentir e se estava a tornar incontornável.
Porque é que raio o PAIGC iria negociar uma guerra que estava a ganhar, (segundo o que dizem), e perante aquilo que dizem serem as negociações, a independência a troco de um cessar fogo, não aceitava essa proposta e continuava a guerra para alcançar aquilo que já lhe estava a ser dado, ou seja, a Independência da Guiné.
Há qualquer coisa que não bate certo!
Eu falo do que acontecia, do que estava no terreno, não falo do que poderia acontecer se acontecesse isto ou aquilo.
De qualquer modo este não é o projecto da minha vida, a guerra da Guiné, e por isso vou acalmar e deixar que outros tomem parte se assim quiserem neste debate/polémica.

Um grande e amigo abraço do
Joaquim Mexia Alves
__________

4. 2 de Junho, de Paulo Santiago:

A guerra na Guiné estava militarmente perdida?

Camaradas

A saga está para continuar. Não queria voltar a falar no tema em questão.
Primeiro, continuo sem resposta àquela pergunta.
Segundo, somos tantos no blogue e só três ou quatro dão a cara neste assunto.
O que me leva hoje a botar mais um escrito?
Simplesmente a amizade que tenho pelo Vítor Junqueira, que se constrói não só na consideração mas também na discussão de pontos de vista, que até poderão ser divergentes ou antagónicos. Não quero que os meus amigos digam Amen com tudo o que escrevo, assim com não serei yes man nas opiniões dos meus amigos.

Guerra de Guerrilha
Na minha opinião, friso "minha", a guerra de guerrilha envolve além das forças combatentes, guerrilheiros, uma franja, mais ou menos alargada das populações. Terá que ter um fim justo (guerra justa, será?) não ser motivada por puro banditismo. Exemplo actual. Não posso considerar as FARC da Colômbia uma força guerrilheira a lutar por uma causa justa. Não, estes "guerrilheiros" são bandidos, assassinos, sequestradores que sobrevivem à conta do tráfico de cocaína. Marulanda, tiro-certeiro, não passava de um psicopata assassino. A ETA é, logicamente, outro bando de facínoras tal como os muchachos do Bin-Laden.
No pólo oposto temos o exemplo dos afegãos que levaram a efeito uma justíssima guerra de guerrilha para correr com os soviéticos. Toda esta conversa serve para separar águas.
O PAIGC, como considerá-lo? Sabemos que, antes da luta armada, Cabral tentou negociar com Salazar uma independência para a Guiné. Tal não foi possível devido ao pensamento anacrónico e contra os ventos que sopravam em África, do Botas. Após a greve e consequente repressão na doca de Pindjiguiti, Cabral e a organização política do PAIGC concluíram que só pela via armada chegariam à independência. Mas para iniciar essa luta, em Janeiro de 1963 (?) foi necessário grande trabalho político (Pindjiguiti foi em 3 de Agosto de 59).
Há um forte contraste entre o PAIGC e o exemplo da UPA/FNLA em Angola. Holden roberto não tinha nem credo político nem credo de guerrilha, só uma incitação à violência e ao massacre, não procurava conquistar populações, apenas tinha o ideal da independência de Angola, e ele Roberto, chefe de estado. Os massacres perpetrados pela UPA contra brancos e negros, com a convivência de missões religiosas e dos US, foram um crime hediondo.
Amilcar Cabral enfrentou uma tarefa complicada ao tentar convencer a população que estava a ser oprimida. Na Guiné não havia concentração de colonos que aparentemente explorassem a população. Segundo as suas próprias palavras. Não seria possível mobilizar as pessoas dizendo-lhes
"A terra a quem a trabalha". Porque aqui, terra não falta...Jamais conseguiríamos mobilizar as pessoas na base da luta contra o colonialismo.
Isso não levaria a nada. Entre nós, falar da luta contra o imperialismo nunca levaria a nada...Isto prova a necessidade de fazer com que cada camponês encontre o seu próprio caminho para se mobilizar para a luta. (in Amilcar Cabral, Textos Políticos)
Assim procurou adaptar a sua mensagem revolucionária a termos que atingissem as preocupações quotidianas da população rural. Lembrem-se sempre de que as pessoas não lutam por ideias, por coisas que só existem na cabeça de indivíduos. As pessoas lutam e aceitam os sacrifícios necessários. Mas fazem-no para conseguirem proveitos materiais, para viverem em paz e melhorarem os seus modos de vida, para conhecerem o progresso e poderem garantir um futuro aos seus filhos. (in Amilcar Cabral, Palavras de Ordem Gerais)
Esta foi uma forma frutuosa de mentalização para a luta armada.

Algumas ideias sem qualquer alinhamento:

Segundo o Censo de 1960, a Guiné tinha uma população de 525.437 habitantes.
Segundo o Graça Abreu viviam 440.000 guineenses nas tabancas, vilas e cidades controladas por nós. Há aqui uma diferença de 85.000 pessoas. Morreram? Estavam junto do PAIGC? Oitenta e cinco mil pessoas é muita gente.

O meu camarada e amigo Vítor faz várias perguntas sendo uma delas "Tens conhecimento de alguma aldeia, lugar ou sítio que o PAIGC tenha subtraído militarmente ao controlo das NT?"
Era frequente em patrulhamentos e operações encontrar tabancas abandonadas. Claro que não tinham sido tomadas de assalto pelo IN, tão-somente a sua defesa tinha-se tornado insustentável. Contabane foi abandonada após um ataque violento, nunca mais tendo sido reocupada. Gadembel penso ser um caso paradigmático, onde só havia aquela solução. Na tabanca do Quirafo esteve destacado um GComb da Companhia do Saltinho, retirou. Há o caso de Beli. Madina do Boé não vale a pena falar, aquilo era simbólico, não tinha interesse para qualquer dos lados. É possível que haja outros casos, não sei.
Não tenho aqui implícito qualquer desprimor para os nossos camaradas, sempre aguentaram até à impossibilidade. Deixa-me citar o Gen Spínola, pág. 235 de Portugal e o Futuro O exemplo da Índia é um precedente bem vivo do porvir que receamos. Nunca se acreditou que sucedesse o que, afinal, era inevitável; no entanto, a tragédia deu-se; e logo foi desviada a atenção da Nação para o campo circunstancial da conduta militar, acusando-se as Forças Armadas de não se terem batido heroicamente; quando, na realidade qualquer que fosse a eficácia da defesa, o colapso seria sempre questão de dias. Qual seria o porvir que o Gen receava?

Perguntas Vítor: Nas acções da iniciativa do IN, tipo emboscada, quem retirava e quem explorava o êxito, o adversário ou a tua força? Infelizmente tenho uma resposta, envolta em tragédia, a emboscada do Quirafo.
Nunca me envergonhei, nem me envergonho de ter sido combatente, aprendi muito, fiz grandes amigos e lamento, tal como tu, Vítor, que hoje as Forças Armadas não sejam o povo armado, mas uma agência de emprego, onde se procura ir para sítios longínquos e exóticos, ganhando pipas de massa, defendendo os interesses de alguns, que não os de Portugal.
Falemos de saúde, isto hoje vai meio embrulhado, mas é assim que está a sair. Na Guiné em 1971 (estou a citar Contra-Insurreição em África de J.P.Cann) o Exército tinha aumentado de tal forma o grau de sistema de saúde que este não só alcançou como superou os padrões da OMS.
(...)

O Vítor faz também uma citação do Dr. Mário Soares a propósito da Cimeira da Guerra nos Açores, mas como hoje clico sem grande encadeamento, vou chamar o Dr. Mário Soares por outro ponderoso motivo. Quando de uma visita de Estado à Guiné, o protocolo de estado programou a deposição de uma coroa de flores no talhão dos Combatentes da Liberdade da Pátria. O Dr. Soares procedeu a essa homenagem, mas de seguida foi ao talhão dos Combatentes Portugueses homenageando, do mesmo modo, aqueles Camaradas que lá ficaram, apesar de alguns protestos. O anterior Presidente da República, militar e combatente na Guiné, quando de idêntica visita esqueceu-se do talhão dos Combatentes Portugueses. Bem-haja Dr. Soares pelo seu gesto, eu que não fui seu votante nas últimas eleições.
Fico por aqui, sem responder à pergunta tema, porque mais uma vez não consigo ter resposta certeira. Aceito o"porvir receoso"do Gen Spínola.
Desculpem-me este emaranhado que hoje escrevinhei.
Abraço
Paulo Santiago
__________

Nota de vb: Vd. artigos relacionados em:

12 Junho > Guiné 63/74 - P2932: A guerra estava militarmente perdida? (15): Uma polémica que, por mim, se aproxima do fim (Beja Santos)

12 Junho > Guiné 63/74 - P2929: A guerra estava militarmente perdida? (14): Estávamos fartos da guerra e a moral nã era muito elevada. A. Graça de Abreu.

3 de Junho de 2008 > Guiné 63/74 - P2913: A guerra estava militarmente perdida? (13): Henrique Cerqueira.

31 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2907: A guerra estava militarmente perdida? (12): Vítor Junqueira.

29 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2899: A guerra estava militarmente perdida? (11): Correspondência entre Mexia Alves e Beja Santos.

28 de Maio > Guiné 63/74 - P2893: A guerra estava militarmente perdida? (10): Que arma era aquela? Órgãos de Estaline? (Paulo Santiago)

27 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2890: A guerra estava militarmente perdida? (9): Esclarecimentos sobre estradas e pistas asfaltadas (Antero Santos, 1972/74)

25 de Maio > Guiné 63/74 - P2883: A guerra estava militarmente perdida ? (8): Polémica: Colapso militar ou colapso político? (Beja Santos)[Por lapso, houve um salto na numeração, não existindo os postes nº 7 e 6 desta série ]

22 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2872: A guerra estava militarmente perdida ? (5): Uma boa polémica: Beja Santos e Graça de Abreu

15 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2845: A guerra estava militarmente perdida ? (4): Faço jus ao esforço extraordinário dos combatentes portugueses (Joaquim Mexia Alves)

13 de Maio de 2008 > Guiné 73/74 - P2838: A guerra estava militarmente perdida ? (3): Sabia-se em Lisboa o que representaria a entrada em cena dos MiG (Beja Santos)

30 de Abril de 2008 > Guiné 63/74 - P2803: A guerra estava militarmente perdida ? (2): Não, não estava, nós é que estávamos fartos da guerra (António Graça de Abreu)

17 de Abril de 2008 > Guiné 63/74 - P2767: A guerra estava militarmente perdida ? (1): Sobre este tema o António Graça de Abreu pode falar de cátedra (Vitor Junqueira)

Guiné 63/74 - P2936: Em busca de... (31): Companheiros do Pel Caç 955, 1964/66 (Joaquim António Sousa Dias)

1. Em 8 de Junho de 2008, recebemos uma mensagem de Joaquim Dias, para saber de contactos de camaradas de seu pai.

Caro camarada:

Gostaria de saber informação sobre elementos que pertenceram à CCAÇ 955, que sairam de Lisboa em 15 de Julho de 1964 e chegaram à Guiné em 21 do mesmo mês.

Eu sou filho de Joaquim António Sousa Dias, o meu pai já faleceu e eu gostaria de contactar antigos camaradas dele e gostaria de saber se há encontros anuais.

Um abraço
Joaquim Dias

2. No mesmo dia foi solicitado ao Joaquim Dias mais elementos sobre o seu pai

Caro amigo Joaquim Dias:

A fim de que o possamos tentar ajudar, indique, se souber, o posto militar e a especialidade de seu pai.

Como por vezes os militares eram conhecidos pela terra da naturalidade, diga por favor de onde ele vivia à época.

Um abraço
Carlos Vinhal

3. No mesmo dia veio a resposta

Obrigado pela vossa atenção.

O meu pai era natural de Selmes, Vidigueira, Beja.

O número de matrícula de meu pai era P41679, ele era Atirador, era Soldado e esteve colocado no BC8 e RI1. Foi Pronto da Escola de Recrutas em 16 de Maio de 1964.

Cumprimentos
Joaquim Dias

4. No dia 12 de Junho enviamos esta mensagem ao Joaquim Dias

Caro Joaquim Dias:

Vamos lá ver se as informações que tenho lhe podem ser úteis.

No nosso Blogue, neste endereço: (basta clicar em cima)
http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2008/02/guin-6374-p2504-o-bca1860-o-3-bat-em.html
aparece uma referência ao Pelotão de Caçadores 955 como força que integrava, na Guiné, o Batalhão de Caçadores 1860 (Guiné 1965/67). Logo o seu pai não foi para a Guiné, integrando numa Companhia de Caçadores, mas sim num Pelotão de Caçadores.

Procurei na Página do nosso camarada Jorge Santos em: http://guerracolonial.home.sapo.pt/, Convívios, Ponto de Encontro, Guiné, Procura de ex-combatentes, Guiné e encontrei três camaradas do BCAÇ 1860 a procurar contactos.

Se quiser tentar junto deles, aqui estão os nomes e telefones:
(...)
Entretanto vou fazer circular uma mensagem pela nossa Tertúlia na esperança de que mais alguém possa ajudar.

Receba um abraço

Carlos Vinhal

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Guiné 63/74 - P2935: Comemorações do dia 10 de Junho de 2008 (2): Viana do Castelo e Lisboa (Sousa de Castro / Fernando Chapouto / Fernando Franco)

Viana do Castelo, Capital do Alto Minho> Centro Histórico

1. A linda cidade de Viana do Castelo, onde Rio Lima se encontra com o mar, foi escolhida para as celebrações oficiais do dia 10 de Junho de 2008.

O nosso camarada Sousa de Castro esteve lá e mandou algumas fotos, donde destaquei as duas que se publicam.

Caros tertulianos,

Como sabem o Dia de Portugal comemorou-se este ano em Viana do Castelo.

Assisti ao desfile e uma das coisas que mais me impressionou foi ver muitas senhoras nas Forças Armadas. "Amigos temos de ter cuidado para não nos deixarmos ultrapassar, decididamente as senhoras estão tomando conta do comando", obviamente que estou a brincar. Bem!... apresento algumas fotos que obtive através da minha câmara. Se acharem que tem interesse para o blogue podem publicar.

AB,
Sousa de Castro


Sousa de Castro fotografou este obús 8,8. Quem não se lembra de ver por terras da Guiné estas peças de artilharia. Também as havia de calibre 11,4 e 14.

Nesta foto, Sousa de Castro brinca aos pilotos, na cabina de um Allouette. Quem não se lembra deles, também?

Fotos: ©
Sousa de Castro (2008). Direitos rerservados.


2. Em Lisboa, como é habitual no dia 10 de Junho, houve a romagem ao Memorial dos Mortos na Guerra Colonial. Neste dia, também se encontram por ali alguns dos camaradas da nossa tertúlia.

Lisboa> Memorial aos Tombados na Guerra Colonial
Foto: © Hugo Moura Ferreira (2007). Direitos rerservados.


Fernando Chapouto mandou-nos esta foto onde vêem Vacas de Carvalho, Jorge Cabral, Mário Dias, Fernando Chapouto, António Santos, Fernando Franco e Tino Neves, de cócoras. Também por lá, mas desenfiado da fotografia, estava o Luís Camões.
Foto: ©
Fernando Chapouto (2007). Direitos rerservados.


Do nosso camarada Fernando Franco veio esta foto com a Corveta António Enes fundeada no Tejo, talvez integrada nas comemorações.
Foto: ©
Fernando Franco (2007). Direitos rerservados.
_____________

Nota de CV:

Vd. poste de 11 de Jinho de 2008> Guiné 63/74 - P2928: Comemorações do dia 10 de Junho de 2008 (1): Leça da Palmeira, Matosinhos (Carlos Vinhal)

Guiné 63/74 - P2934: Estórias de Guileje (13): Com os páras, no corredor da morte: armadilhe-se o moribundo (Hugo Guerra)




























Guiné > PAIGC > Departamento Secretariado, Informação, Cultura e Formação de Quadros do Comité Central do PAIGC > 1966 > Capa e página 23 (?) do manual escolar O Nosso Primeiro Livro.

Créditos fotográficos: ©
A. Marques Lopes / António Pimentel (2007). Direitos reservados.


1. Mensagem, com data de 13 de Fevereiro de 2008, do nosso camarada Hugo Guerra, ex-Alf Mil, hoje Coronel DFA, comandante do Pel Caç Nat 55 e Pel Caç Nat 50 (Gandembel, Ponte Balana, Chamarra e S. Domingos, 1968/70):


Caro Luís e demais camaradas da Tabanca [Grande]:

O assunto é, parece-me, algo melindroso. Verás, por favor, da oportunidade. Não tem nada a ver com uma estória narrada num livro pelo ex-Sarg Pára Carmo Vicente cujo titulo é "Morto o homem, armadilhe-se o cadáver" (*).

Só conheci o Carmo Vicente aqui em Lisboa na ADFA. Acho que partiu as duas pernas ao saltar dum heli e é DFA.

Mas é possível que se tivesse tornado rotineiro fazer isso. Não faço juízos de valor mas o que eu vi foi o que relato.

Quando passares no Corredor [de Guileje], agora que vais à Guiné , saúda esse jovem por mim e pede-lhe para me deixar dormir em paz (**)...

Hugo Guerra


2. Estórias de Guileje (12) >
A minha 2ª ida ao Corredor
de Guileje (***)

por Hugo Guerra


Se da primeira vez ia meio lúcido , meio bêbado , desta vez fui completamente lúcido….. para mal dos meus pecados.

Não recordo o dia mas para o que vou relatar pouco importa. É uma estória com um triste final…

A Companhia era de Páras, porque como bem disse o Idálio Reis o pessoal da [CCAÇ] 2317 [Gandembel, Abril de 1968/Janeiro de 1969] já tinha passado tanto que só as forças especiais reuniam condições físicas e anímicas para ir ao corredor. Os Páras eram rendidos de 15 em 15 dias e, como na altura, o pior local da guerra era Gandembel, tudo o que os tirasse dali era ganho.
Lá fomos até ao corredor montar uma emboscada com a esperança que resultasse. Às primeiras horas da manhã após os pelotões estarem instalados, não se ouvia mais que o silêncio da mata quando o mesmo foi quebrado por conversas em crioulo que denunciaram de imediato a coluna que vinha a chegar.

Em minutos ouve-se um terrível fogachal das NT seguidas de um silêncio ainda mais assustador para mim, que me via pela primeira vez naquelas alhadas.

Fui a correr à frente ver o que se passara e deparei-me com uma cena que ainda hoje faz parte dos meus pesadelos. No local estavam dois ou três mortos e um moribundo cheio de balas no peito. De repente a embriaguez da morte tomou conta de mim e vejo-me a vasculhar os bolsos de um daqueles rapazes e apanho um troféu…… um caderno escolar.

Como tínhamos que retirar de imediato pois estávamos certos que aqueles homens eram só os batedores, vi alguns Páras apanharem os RPG 7 ainda embrulhados em plástico, as armas ligeiras e pistolas e munições, etc.

Poderia dizer que até aqui se tratou dum acto de guerra, normal nas situações que se viviam naquele despudorado horror que todos vivemos.

Mas o que tinha ainda mais para ver e que foi horrível, foi ver um Pára armadilhar o cadáver. Não um corpo qualquer dos que já estavam mortos. Foi do moribundo de quem eu levava o caderno, ainda na mão.

Passados poucos minutos e na retirada para o aquartelamento a poucos quilómetros fomos surpreendidos por uma emboscada do grupo IN que vinha mais atrás dos batedores. Recordo-me de só termos um ferido com uma bala que lhe entrou por baixo dos dedos dum pé e foi sair do outro lado.

À chegada a Gandembel lembro-me de sermos saudados com palmas, mas eu ainda vinha agoniado e mais ainda fiquei quando, ao desfolhar o caderno à procura de indicações estratégicas do IN, dou com uma folha com um desenho de uma casa, como as que nós aprendêramos a fazer na nossa instrução primária e que tinha escrito por baixo “A MINHA CASA”...

Mais um sonho dum jovem, desfeito com uma rajada de tiros.

Nunca mais fui ao Corredor da Liberdade.

Um abraço,

HUGO GUERRA
________

Notas de L. G.:

(*) Vd. postes de:

4 de Junho de 2008 > Guiné 63/74 - P2915: Com os páras da CCP 122/ BCP 12, no inferno de Gadamael (Carmo Vicente) (1): Aquilo parecia um filme do Vietname

5 de Junho de 2008 > Guiné 63/74 - P2917: Com os páras da CCP 122/BCP 12 no inferno de Gadamael (Carmo Vicente) (2): Quase meia centena de mortos... Para quê e porquê ?

12 de Junho de 2008 > Guiné 63/74 - P2933: Com os páras da CCP 122/BCP 12 no inferno de Gadamael (Carmo Vicente) (3): Manuel Peredo, ex-Fur Mil Pára, hoje emigrante

(**) Vd. postes de:

14 de Março de 2008 > Guiné 63/74 - P2640: Uma semana inolvidável na pátria de Cabral: 29/2 a 7/3/2008 (Luís Graça) (5): Um momento de grande emoção em Gandembel

16 de Março de 2008 > Guiné 63/74 - P2650: Uma semana involvidável na pátria de Cabral: 29/2 a 7/3/2008 (Luís Graça) (6): No coração do mítico corredor de Guiledje

17 de Março de 2008 > Guine 63/74 - P2655: Uma semana inolvidável na pátria de Cabral: 29/2 a 7/3/2008 (Luís Graça) (7): No corredor de Guiledje, com o Dauda Cassamá (I)

17 de Março de 2008 > Guiné 63/74 - P2656: Uma semana inolvidável na pátria de Cabral: 29/2 a 7/3/2008 (Luís Graça) (8): No corredor de Guiledje, com Dauda Cassamá (II)


(***) Vd. postes anteriores desta série:

14 de Janeiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2437: Estórias de Guileje (1): Num teco-teco, com o marado do Tenente Aparício, voando sobre um ninho de cucos (João Tunes)

23 de Janeiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2473 - Estórias de Guileje (2): O Francesinho, morto pela Pátria (Zé Neto † )

27 de Janeiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2483: Estórias de Guileje (3): Devo a vida a um milícia que me salvou no Rio Cacine, quando fugia de Gandembel (ex-Fur Mil Art Paiva)

27 de Janeiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2483: Estórias de Guileje (3): Devo a vida a um milícia que me salvou no Rio Cacine, quando fugia de Gadamael (ex-Fur Mil Art Paiva)

29 de Janeiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2489: Estórias de Guileje (4): Com os páras, na minha primeira ida ao Corredor da Morte (Hugo Guerra)

30 de Janeiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2492: Estórias de Guileje (5): Os nossos irmãos artilheiros Araújo Gonçalves † e Dias Baptista † (Costa Matos / Belchior Vieira)

31 de Janeiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2493: Estórias de Guileje (6): Eurico de Deus Corvacho, meu capitão (Zé Neto † , CART 1613, 1966/68)

11 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2523: Estórias de Guileje (7): Um capitão, cacimbado, e um médico, periquito, aos tiros um ao outro... (Rui Ferreira)

18 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2552: Estórias de Guileje (8): Como feri, capturei e evacuei o comandante Malan Camará no Cantanhez (Manuel Rebocho, CCP 123 / BCP 12)

23 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2574: Estórias de Guileje (9): O massacre de Sangonhá, pela Força Aérea, em 6 de Janeiro de 1969 (José Rocha)

7 de Abril de 2008 > Guiné 63/74 - P2729: Estórias de Guileje (10): os trânsfugas de Guileje, humilhados e ofendidos (Victor Tavares, CCP 121/BCP 12, 1972/74)

31 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2905: Estórias de Guileje (11): A besta do Celestino (Zé Neto † , CART 1613, 1966/68)

Guiné 63/74 - P2933: Com os páras da CCP 122/BCP 12 no inferno de Gadamael (Carmo Vicente) (3): Manuel Peredo, ex-Fur Mil Pára, hoje emigrante

1. Mensagem, de 8 de Junho, do nosso camarada Manuel Peredo, um português da diáspora, emigrante em França, e que foi Fur Mil Pára-quedista, na CCP 122/BCP 12 (Guiné, Brá, 1972/74), o mesmo é dizer: camarada do Carmo Vicente (CCP 122), do Victor Tavares (CCP 121) e do Manue Rebocho (CCP 123).

Fixação e revisão do texto: Carlos Vinhal.


Caros responsáveis do blogue:

Depois de muito pensar, lá me decidi a exprimir algumas opiniões sobre a guerra da Guiné, mais precisamente sobre os acontecimentos de Gadamael.

Primeiro, a minha apresentação ao comandante do blogue. Chamo-me Manuel do Nascimento Peredo; estive na Guiné de Outubro de 1971 a Novembro de 1973 como furriel miliciano pára-quedista. Conheci muito bem em Tancos e na Guiné o Manuel Rebocho, pertencendo eu à 122 e ele à 123.

Ultimamente tem-se falado no livro algo polémico que o primeiro sargento pára Carmo Vicente escreveu (1). Pertencíamos os dois ao quarto pelotão da 122, portanto estivemos os dois no campo de férias em Gadamael. As suas declarações talvez chocassem algumas pessoas, mas a mim nem por isso e atrevo-me a dizer que são verdadeiras, embora um pouco exageradas.

Eu também digo que o nosso comandante era temido por todos. Até os médicos cumpriam as suas instruções dando como aptos soldados com ferimentos ainda por cicatrizar. O que o Vicente diz do alferes pára C.P., origem indiana, é pura verdade. Sei o que digo porque chegou a comandar o meu pelotão. Quanto ao alferes D… não me lembro de ele se recusar a sair para o mato, a não ser que isso tivesse acontecido quando fui evacuado para Bissau, mas sei que não era um exemplo de coragem.

O facto do capitão T.M. bater nos quatro soldados, não me admiro nada, porque não foi caso único. Podia contar o que o coronel Rafael Durão [, que é uma figura pública conhecida, pelo que não vale a pena ocultar a sua identidade,] fez a um cabo da minha secção na minha presença. O bater nos soldados era moeda corrente nos páras, principalmente durante a instrução em Tancos.

Falando agora nos bombardeamentos de Gadamael, acho que o Vicente exagera um bocado. O pior talvez tivesse acontecido antes de nós irmos para lá, atendendo ao estado em que ficaram as instalações. Quando havia mais movimento no quartel, quase sempre éramos presenteados com um dilúvio de metralha, o que deixa entender que alguém estaria a dar informações ao IN.

Já agora vou descrever um pouco por alto aquilo que ainda está gravado na minha memória. Quando nos disseram em Bissau que íamos para Gadamael, informaram-nos que a situação era muito grave e que não valia a pena irmos carregados ,só o necessário para três ou quatro dias. Quando nos aproximávamos de Gadamael, recordo-me muito bem de ver muita tropa à beira do rio, com uma expressão de terror na cara.

Alguns dizem que desembarcámos em botes, mas eu quase afirmava que foi de LDM e era capaz de jurar que só a minha companhia, a 122, é que desembarcou nesse dia e não me lembro de estarem lá duas companhias de páras ao mesmo tempo. Penso que a 123 nos foi render para a 122 poder descansar uns dias em Cacine.

Mal chegámos a Gadamael, dois pelotões foram logo para a mata, onde passaram a noite. Em Gadamael apenas se encontravam lá uns quinze ou vinte homens, o resto tinha fugido. Recordo-me que veio logo uma Berliet conduzida por um açoriano muito destemido para evacuar os mortos e feridos. Soube pelo blogue que o José Casimiro Carvalho também fazia parte dos que não fugiram. O meu pelotão, o quarto, fazia parte do bigrupo que passou a primeira noite no mato e, quando estávamos a regressar ao quartel, este foi fortemente bombardeado ,originando a morte de alguns soldados do exército que tentaram fazer fogo com o obus 140, salvo erro. Estivemos à espera que os rebentamentos acabassem para poder entrar no quartel.

Um dia ou dois mais tarde morreram mais três soldados e um alferes miliciano, vítimas duma emboscada, muito próximo do quartel. Alguém devia ter um grande peso na consciência por ter mandado para o mato um grupo de apenas duas dezenas de militares, se tanto. Este ataque já foi contado pelo José Casimiro e pelo Vicente.
Aqui o Vicente deve estar enganado. Quem foi primeiro recuperar os corpos foi outro pelotão, o nosso pelotão foi enviado em reforço porque tínhamos acabado de chegar do mato. Encontrámo-nos a meio caminho e demos uma ajuda a transportar os corpos que estavam muito mal tratados : tinham o corpo queimado e ferimentos causados pelas balas. O alferes tinha um grande buraco na cara derivado a uma rajada e um soldado nem calças trazia vendo-se bem o efeito das chamas.

Quando chegámos ao quartel, os colegas dos militares mortos estavam no cais à espera e houve um pormenor que me deixou surpreendido e até chocado. Nenhum deles teve a coragem de nos ajudar a carregar os mortos para a Berliet. Os corpos eram postos no chão e o pessoal ia para as valas. Eu próprio os carreguei com a ajuda de colegas. Quando estávamos com este trabalho, o IN lançou novo ataque e eu só tive tempo de saltar do paredão do cais para me proteger. Foi a minha salvação pois uma granada caiu no local que tinha deixado. Escapei a uma morte certa por décimos de segundo.
Outro pormenor que me surpreendeu : quando íamos resgatar os corpos, um dos soldados que tinha fugido da emboscada dirigiu-se a mim, suplicando-me por tudo quanto me era sagrado, que tentasse recuperar uma medalha ou um fio que a mãe lhe tinha dado. Essa medalha ou fio devia estar no casaco que ele largou durante a fuga. Os ataques iam-se sucedendo e talvez mais espaçados e a tropa que tinha fugido ia regressando ao quartel talvez por se sentirem mais seguros com a nossa presença.

No dia dez de Junho (ninguém no mundo me convencerá que não foi neste dia ) sofremos então uma emboscada que deixou a 122 muito debilitada. Pela manhã fomos montar uma emboscada um pouco distante do quartel. Nada se passou de anormal a não ser uma tentativa do IN em abater um Fiat que voava bem lá no alto : distinguia-se perfeitamente o fumo do míssil que tinha rebentado.

A meio da tarde, iniciámos o regresso ao quartel. Estava previsto o meu pelotão e mais um pernoitarem na mata, já muito próximo do quartel e estávamos já nesses preparativos, quando se deu a emboscada. Os dois pelotões que lá deviam pernoitar encontravam-se já na mata e os outros dois seguiam pelo caminho que dava acesso ao quartel. Os dois bigrupos encontravam-se em posição paralela o que podia ter custado muito caro. Claro que foi um erro de quem dirigiu a manobra. Os dois pelotões que iam para o quartel é que deviam ir na frente. Eu por acaso apercebi-me do erro e disse aos meus homens para não dar fogo. Aquilo nunca mais acabava. Quando os caças Fiat vieram em nosso auxílio ainda o combate não tinha acabado. Não havia árvores de grande porte para nos protegermos. O meu colega do lado esquerdo tentava proteger-se atrás dum arbusto que foi ceifado por uma granada logo por cima da cabeça. O que estava do meu lado direito foi levantado pelo sopro duma granada possivelmemte dum RPG7. Acreditem que foi verdade pois vi com os meus próprios olhos. Há minutos na vida que duram uma eternidade. Resultado da brincadeira :17 feridos, todos causados por estilhaços fazendo eu parte desse grupo com um ferimento na cabeça.

Por absurdo que pareça eu fiquei bem disposto e até brinquei com os meus colegas. Quando estes me viram a sangrar da cabeça disseram-me : o meu furriel já pode estar descansado, já acabou a comissão. Mal eles imaginavam que passados oito ou dez dias estava de novo junto deles. Claro que o ferimento não era grave e, derivado ao medo que os médicos tinham do comandante, eu próprio pedi para voltar à minha companhia. Quando voltei, já a 122 estava a descansar em Cacine e mal cheguei lá fui presenteado com um ataque de paludismo. Veio logo o capitão Terras Marques dizer-me que tinha que recuperar depressa pois precisava de mim para irmos fazer uma operação à fronteira da República da Guiné.

Voltando um pouco atrás. Fomos então evacuados para Cacine em dois botes que iam superlotados e de Cacine seguimos de helicótero para Bissau. Quando eu estava no hospital a aguardar transporte para Bissalanca, chegou o homem do monóculo para ver como estavam os feridos. O médico que o acompanhava apontou para mim e disse-lhe que eu era um dos feridos. Dirigiu-se a mim e perguntou-me como se tinha passado. Quando lhe disse que foi no regresso, logo me perguntou se vínhamos pelo mesmo caminho. Pensei logo que estava ali uma armadilha e lá lhe enfiei o barrete.

Caros amigos,acho que vou ficar por aqui. Desde que descobri o vosso blogue, já perdi muitas hors de sono, para não dizer noites. Até hoje nunca tive a oportunidade de encontrar alguém que tivesse vivido as mesmas aventuras para poder desabafar. Desde que passei à disponibilidade, emigrei para a França onde ainda trabalho e ainda bem que a Internet existe para conhecer as opiniões de outros que também passaram pela Guiné.

Um abraço para todos

2. Caro Manuel Peredo, esperamos que esta tua mensagem seja a primeira de muitas, através das quais colaborarás no nosso Blogue, que todos queremos seja o depositário das nossas experiências na guerra da Guiné.

Poderás aderir formalmente ao nosso Blogue, enviando as fotos da praxe, uma dos teus tempos de tropa e outra actual, em fomato tipo passe de preferência.

Todas as tuas estórias serão bem-vindas, que poderão ser acompanhadas de fotos para as ilustrar.

Na nossa tertúlia temos pouca malta dos Páras, como constatas, pelo que a tua adesão é importante.

Recebe, em nome dos editores e da restante tertulia, um fraternal abraço com votos de bem-estar por essas terras de França.
___________

Nota de CV:

(1) Vd. poste de 5 de Junho de 2008 > Guiné 63/74 - P2917: Com os páras da CCP 122/BCP 12 no inferno de Gadamael (Carmo Vicente) (2): Quase meia centena de mortos... Para quê e porquê ?

Guiné 63/74 - P2932: A guerra estava militarmente perdida? (15): Uma polémica que, por mim, se aproxima do fim (Beja Santos)

A Guerra Estava Militarmente Perdida?

Fixação e revisão de texto: vb


1. Esclarecimentos de Mário Beja Santos em mensagem de 3 de Junho.

Caros Luís Graça e Graça Abreu, muito prezados tertulianos,

Creio que esta polémica se aproxima do fim. Pela minha parte, trago hoje como postulados:

1. O frenesim político para encontrar um cessar-fogo;
2. O plano de abandono de quartéis junto às fronteiras por incapacidade de responder à supremacia do armamento do PAIGC;
3. Testemunhos de protagonistas da época.

Para último apontamento, a enviar na próxima semana, vou alinhavar a bibliografia que reputo como fundamental para apreciar o período crítico de 1973 a 1974 e a leitura que faço da derrocada da Guiné no contexto do 25 de Abril.

Primeiro, Rui Patrício esclareceu em 1995 as negociações em curso ("A Guerra de África", por José Freire Antunes, volume II, Círculo de Leitores, 1995):

"Fui defensor das negociações secretas com o PAIGC, já em 1974... Eu nunca fui partidário de que a derrota militar seria o melhor. Quando se está com o canhão e espingarda diante de nós, chama-se a isso estado de necessidade... Qualquer explicação era possível porque qualquer coisa era melhor que a derrota militar. A estratégia que levou às conversações de Londres foi só conduzida pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros. Era uma negociação para discutir o futuro político da Guiné".

Cabe perguntar, no âmbito desta polémica, porque razão desesperadamente fomos para a mesa de conversações quando, a acreditar nos argumentos do Graça Abreu, não estávamos a caminho da derrota.

Segundo, quer o comandante-chefe da Guiné, quer o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas referem, na obra acima citada, que havia um programa de abandono de quartéis, atendendo à situação crítica que se vivia graças à modernização do equipamento do PAIGC.

Diz Bettencourt Rodrigues (Volume I, página 112):

"Estava também a ser ponderado um certo retraimento do dispositivo, afastando da fronteira as guarnições militares, como já se havia feito em Madina do Boé. Deste modo, para as flagelações, o PAIGC teria de instalar os seus meios em território da província... O PAIGC recebia material de guerra moderno e eficiente em quantidades vultosas destacando-se nesse material os foguetes terra-ar, que determinavam alterações na conduta das operações, os RPG2 e 7, com significativo efeito psicológico sobre o nosso pessoal e os materiais de artilharia e morteiros".

Quanto ao General Costa Gomes, as suas observações aproximam-se das do comandante-chefe (Volume I, página 121):

"O Ministro dos Negócios Estrangeiros afirmou que eu tinha dito numa reunião do Conselho Superior de Defesa Nacional que a Guerra na Guiné se podia ganhar. Mas o que eu de facto disse foi que a guerra na Guiné podia durar um pouco mais se modificássemos o dispositivo e o concentrássemos... Eu preconizava esta alteração do dispositivo que nos permitiria reunir e ter à disposição do comando forças que pudessem ser empregues em caso de ataque...".

Alguns comentários a estas declarações:

o que estes dois militares não dizem é que o abandono de aquartelamentos significava o desaparecimento de povoações, e terá sido esta uma das razões fundamentais pela qual o general Spínola se demitiu.

Nesta já tão ventilada reunião do Conselho Superior de Defesa Nacional, Marcello Caetano, segundo escreveu no seu primeiro livro no Brasil terá perguntado se a Guiné era defensável e se não o fosse haveria que retirar, deixando um oficial na comissão liquidatária.

Costa Gomes teria retorquido que a Guiné era defensável desde que se fizessem alterações ao dispositivo, insinuando que a guerra estaria perdida se acaso fosse verdade que o PAIGC dispusesse de MIGs e os utilizasse.

Ora nesta altura já havia informações que o PAIGC possuía aviação, razão pela qual andávamos febrilmente à procura de adquirir um sistema defensivo compatível para Bissalanca e procurávamos comprar a que preço fosse mísseis terra-ar, depois da formidável negativa de Washington.

Terceiro, Silva Cunha, então Ministro da Defesa, no seu depoimento nesta obra (volume I, página 341) refere compras de armamento e pasma a ingenuidade das suas afirmações:

"A África do Sul tinha comprado duas baterias de mísseis terra-ar Crotale em França - eu consegui que eles desistissem de uma, e comprámo-la nós, directamente aos franceses. Pagámos a bateria aos franceses, os trinta por cento que estavam no contrato, e chegámos a mandar o pessoal para ser treinado. A bateria dos Crotale era para proteger o aeroporto de Bissau. Havia na Guiné aviões MIGs, mas podiam ser usados lá. Conseguimos artilharia em Israel, porque uma das coisas de que se queixava na Guiné era que a artilharia deles tinha alcance superior ao da nossa. Conseguimos os Red Eye na Alemanha. Não sei quem os vendia, só sei que eles nos forneciam 500 Red Eye americanos".

O ministro Silva Cunha refere igualmente que o Governo português esteve à beira de comprar aviões Mirage. Escapou-lhe a boca para a verdade, afinal sempre havia aviões MIG de uma república independente chamada Guiné-Bissau. Gostava de saber se nas contas de armamento do Graça Abreu aparece artilharia israelita, a bateria dos Crotale e os aviões Mirage. Provavelmente não, já tínhamos entrado na espiral demencial da tomada de medidas sem quaisquer consequências.

Quarto, porque numa polémica é mister facultarmos a quem está de fora o pensamento dos outros que, desta ou daquela maneira, intervieram nos acontecimentos em análise, oiçamos alguns testemunhos.

O General Diogo Neto (Volume I, página 321) refere-se aos mísseis Strella, dizendo que a reacção da Força Aérea foi péssima quando eles apareceram, e escreve:

"O míssil actuava a partir dos 250 pés até aos 8000. Como o bombardeamento de Fiat era feito a partir dos 8000 pés, ficava sempre na mira dos mísseis. Evidentemente que foram afectadas as unidades do exército que estavam isoladas e que dependiam do apoio logístico dos aviões pequenos e até dos próprios helicópteros... A parte final da Guiné correu mal. O PAIGC teve um incremento muito grande ao nível das acções. Tudo isto veio afectar o moral e a capacidade da Força Aérea".

Carlos Fabião, um dos oficiais mais conhecedores da Guiné, também depõe (Volume I, página 374):

"Quando apareceram os Strella, a guerra da Guiné acabou. Deixámos de ter possibilidades de acção. Não é fácil dizer que a situação estava perdida, embora haja gente que faça análises pouco sérias, na minha opinião. Se me disserem que a Guerra colonial estava perdida na Guiné, eu digo que estava. Se me disserem que a guerra colonial não estava perdida na Guiné, eu digo que não estava. E não estava a que preço? O regime mandava para lá aviões, helicópteros, mas homens não sei aonde é que os iria buscar".

Oiçamos Jaime Neves (Volume I, página 400):

"A minha convicção pessoal era de que a Guiné estava perdida... A Guiné estava arrumada. O que era a Guiné? Era uma machamba da CUF, estávamos lá a guardar os amendoins da CUF".

Oiçamos Almeida Bruno (Volume II, página 722):

"Nós só abandonámos Madina do Boé e Beli, não abandonámos os quartéis portugueses. Houve, no Sul uma debandada de um quartel, que depois foi reassumido com a colocação lá do capitão Manuel Monge. Foi em Gadamael. Guilege, por exemplo, nunca foi abandonado e o PAIGC nunca entrou em Guilege. Se saíssem aviões da Guiné-Conacri para nos bombardear, lá teríamos que fazer a segunda Operação Mar Verde. E se viessem MIGs da Guiné-Conacri, o Governo teria de comprar Mirage que pudessem ir à Guiné bombardear. E estavam a ser negociados".

Não que estes depoimentos sejam concludentes, mas o mínimo que se pode dizer deles é que insinuam que se estava num fim de época.
A derrota militar na Guiné é contemporânea de múltiplos factores que a interseccionam: o isolamento diplomático, o abandono dos principais aliados, o aparecimento da crise petrolífera, a criação do Movimento dos Capitães, uma estratégia defensiva para tentar resistir ao armamento sofisticado do PAIGC, o reconhecimento da República da Guiné-Bissau com consequências gravíssimas a prazo na natureza do tratamento do beligerante (metade da comunidade internacional deixara de aceitar existirem terroristas a combater as tropas portuguesas).

Fernando Rosas refere na obra "Marcello Caetano - A Transição Falhada", Circulo de Leitores, 2003, que o regime entrara na esquizofrenia, prometendo continuar a lutar e, pela surda, negociava e cessar-fogo e a independência da Guiné e de Moçambique, para salvar as outras colónias.

Prometo para a semana concluir estes apontamentos, agradecendo antecipadamente as observações e comentários que me permitam rectificar as análises incorrectas.

As saudações tertulianas do

Mário Beja Santos
__________

Notas de vb:

Vd. artigos relacionados em:

12 Junho > Guiné 63/74 - P2929: A guerra estava militarmente perdida? (14): Estávamos fartos da guerra e a moral nã era muito elevada. A. Graça de Abreu.

3 de Junho de 2008 > Guiné 63/74 - P2913: A guerra estava militarmente perdida? (13): Henrique Cerqueira.

31 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2907: A guerra estava militarmente perdida? (12): Vítor Junqueira.

29 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2899: A guerra estava militarmente perdida? (11): Correspondência entre Mexia Alves e Beja Santos.

28 de Maio > Guiné 63/74 - P2893: A guerra estava militarmente perdida? (10): Que arma era aquela? Órgãos de Estaline? (Paulo Santiago)

27 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2890: A guerra estava militarmente perdida? (9): Esclarecimentos sobre estradas e pistas asfaltadas (Antero Santos, 1972/74)

25 de Maio > Guiné 63/74 - P2883: A guerra estava militarmente perdida ? (8): Polémica: Colapso militar ou colapso político? (Beja Santos)

[Por lapso, houve um salto na numeração, não existindo os postes nº 7 e 6 desta série ]

22 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2872: A guerra estava militarmente perdida ? (5): Uma boa polémica: Beja Santos e Graça de Abreu

15 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2845: A guerra estava militarmente perdida ? (4): Faço jus ao esforço extraordinário dos combatentes portugueses (Joaquim Mexia Alves)

13 de Maio de 2008 > Guiné 73/74 - P2838: A guerra estava militarmente perdida ? (3): Sabia-se em Lisboa o que representaria a entrada em cena dos MiG (Beja Santos)

30 de Abril de 2008 > Guiné 63/74 - P2803: A guerra estava militarmente perdida ? (2): Não, não estava, nós é que estávamos fartos da guerra (António Graça de Abreu)

17 de Abril de 2008 > Guiné 63/74 - P2767: A guerra estava militarmente perdida ? (1): Sobre este tema o António Graça de Abreu pode falar de cátedra (Vitor Junqueira)

Guiné 63/74 - P2931: Não venho falar de mim... nem do meu umbigo (Alberto Branquinho) (2): Da solidão de pides, padres, administradores, mascotes...


Guiné-Bissau > Bissau > Abril de 2006 > Um pobre babuíno, acorrentado, mais conhecido como macaco-cão (sanjiu, segundo o Alberto Branquinho - e não sancu -, termo crioulo para macaco, provavelmente do francês singe) (1).

Em muitos dos nossos aquartelamentos e destacamentos, havia um Zeca Babuíno, mascote das NT, como este que aqui se evoca, numa estória em que se fala das nossas misérias e grandezas em tempo de guerra, da solidão dos pides e das suas esposas oficiais, dos missionários italianos e dos capelães franciscanos e das suas bajudas de mama firme, dos administradores caboverdianos e seus cipaios, sem esquecer as NT e as suas mascotes... (LG).

Foto: © Hugo Costa / Albano Costa (2006). Direitos reservados

1. Texto enviado, em 9 de Junho, pelo Alberto Branquinho, que foi alferes miliciano na CART 1689 (1967/69), tendo passado por Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá:


Luis Graça:

Obrigado pela atenção dispensada. Aí vai o nº 2 do... UMBIGO (1).

Quanto à MINHA fotografia [para a fotogaleria do nosso blogue], ainda não escolhi. Já pensei enviar uma do MEU casamento, mas o MEU casamento não teve o charme de um casamento à distância, na MINHA ausência representado pelo MEU procurador, desempenhando as MINHAS funções in situ.

Um abraço

Alberto Branquinho

_________

NÃO VENHO FALAR DE MIM... NEM DO MEU UMBIGO (2) > NOTAS SOBRE UM LUGAR E ALGUMAS FIGURAS


No lugar da guerra havia lugares e lugares. Com muito em comum, mas, também, diversos.

Este lugar de que venho falar era maior que o habitual. Tinha uma povoação (atenção, não era “população”) com casas de pedra (ou de tijolo) quase encostada ao arame farpado. Antes da guerra era um entreposto para recolha e saída dos produtos da terra.

Todos os lugares tinham as suas figuras e figurantes, fixados ou de passagem, com mais ou menos capacidade de intervenção, que iam desempenhando o seu papel no palco da vida (e da morte).

Havia um PIDE, mais propriamente, um agente da Polícia Internacional e de Defesa do Estado.

O PIDE estava instalado numa casa junto ao arame farpado do quartel e tinha uma mulher. Ter uma mulher era vulgar. Muitos tinham, também, mulher. Se não oficialmente, pelo menos oficiosamente. No caso do PIDE era a mulher oficial e estava ali naquela casa. Isso era proibido aos militares. Naquele lugar um tanto ou quanto perigoso.

Além disso, o PIDE tinha muitos informadores. Pagava-lhes para trazerem novas sobre as movimentações e intenções da insurreição política. Para ele tratava-se de insurreição política. Para os militares, se havia insurreição, era armada.

Além disso, o PIDE tinha antenas altas. Não era dessas. Eram mesmo antenas de comunicações. Telecomunicações, como agora se diz. Tinha, também, antenas horizontais, que ligavam as tais antenas altas à torre da igreja (das Missões). E, assim, falava com Bissau, ou com Lisboa, passando uma tangente sobre Bissau.

Quando, durante um ataque ao quartel, rebentou uma granada de canhão contra o muro da casa que ocupava, concluiu que a guerra também era com ele. A mulher quase abortou. Saiu em helicóptero e, creio, nunca mais voltou. O PIDE, sòzinho, passou a andar mais fora de portas, procurando o convívio com os militares. ( Os polícias também sofrem de solidão !).

Havia, também, um Oficial de Informações do Batalhão, que andava irritado por duas razões:

(i) porque o PIDE tinha mais informadores e, portanto, mais informações;

ii) porque o PIDE tinha mais antenas que ele e mais altas.

Quando o PIDE lhe aparecia com salameleques e fingindo trazer-lhe informações importantes (que eram os restos das que tinha já transmitido pelas antenas), o Oficial de Informações tratava-o “por cima da burra” (apesar de nesse tempo não haver burros na Guiné) e não o convidava para um whiskey no bar. Aí o PIDE procurava atracação nos oficiais menores (milicianos), mas estes assobiavam para o lado.
- Então e o chefe de posto ? – pergunta do fundo do subconsciente uma voz em off, interpelando o escriba.
- Ah, pois. O chefe de posto....Qual chefe de posto ?

Era Administrador Colonial, depois caiu o “Colonial” e passou a ser só Administrador. (Se era também Executivo não sei, mas não seria). Ocupava uma casa grande, solene, com gradeamento metálico de um verde debotado, estilo colonial, ao cimo de um grande largo com muitas árvores e que, nos tempos em que estaria tratado e limpo, teria sido agradável. Era caboverdiano, como era habitual. Tomava um porte solene e respeitável. Tinha ao seu serviço cipaios, vestidos de camisa e calção caqui, armados de Mausers, tendo no topo um chapéu colonial, igual ao que é usado nos safaris, porque safari sem aquele chapéu não é safari.

De vez em quando visitava o Comandante do Batalhão, que o recebia e que, enfadado, o acompanhava à porta.

Depois, havia um padre (italiano?), que falava assim para o esquisito. Mas só aparecia depois das “monções” [mnpo da chuva] e por pouco tempo. Dizia-se que estranhou as antenas do PIDE na torre da igreja, mas acabou por se contemporizar, como acontece sempre nas relações entre a Igreja e o Estado. Constava que também recolhia informações, mas em sentido contrário, pois dizia-se que andava em “contramão”.

O outro padre era franciscano, capelão voluntário. Liberto do hábito sentia-se livre como um passarinho. Só duas coisas o incomodavam: a boina e os soldados com as mãos nas mamas das “bajudas”, apertando assim como se apertavam as buzinas de borracha das bicicletas do antigamente. Em vez do barulho roufenho das buzinas, ouvia-se:
- Mama firme, mama firmada !

Triste foi vê-lo constatar que havia realidades bem mais cruas e que passaram a incomodá-lo muito mais. Fez-lhe bem e... fez-lhe mal. Mudou, mudou muito e no final... mudou-se para outra associação.

Havia mais, havia mais, muito mais. Havia, por exemplo, um alferes que sabia fazer contas e que tinha adoptado um macaco-cão, cuja principal divertimento era passear pela mesa de jantar já em mise-en-place, mijando sobre a fileira de pratos (sem derrubar os copos). Não entendiam que aquele acto tão simples significava grande apreciação pela organização do tampo da mesa e que, desse modo, demarcava o seu próprio território. Quando o alferes estava ocupado a fazer contas, o Zeca Babuíno era zurzido de pancada. Fugia choroso e a gritar de desespero para os ramos do mangueiro próximo. Se o alferes estava presente (embora “ausente”, como era seu costume), o Zeca chorava abraçado ao seu pescoço e depois entrava-lhe para dentro da camisa, chorando e aninhando-se-lhe no peito.

A concluir: É óbvio que, com tanta gente a querer mandar ou (como mais recentemente se diz) pretendendo ter “poderes executivos”, parecerá que seria difícil determinar quem era “aquel qui na manda” naquele espaço territorial. Não, não era.

Tomando como exemplo a acção do Zeca Babuíno, que tentava demarcar o seu território mijando ao longo das fronteiras que desejava e que, vendo bem, até eram aceitáveis (quanto à sua dimensão...), não conseguia conservar o território demarcado. Quem manda é quem tem armas e tropas. O Zeca, para além de não ter garras nem chifres, só tinha como aliado um alferes armado de canetas e lápis. Portanto...

Alberto Branquinho

Ex-Alf. Mil Op Esp
________

Nota de LG:

(1) Vd. poste de 30 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2903: Não venho falar de mim... nem do meu umbigo (Alberto Branquinho) (1): Palavras e expressões do crioulo