terça-feira, 23 de setembro de 2014

Guiné 63/74 - P13641: Caderno de Poesias "Poilão" (Grupo Desportivo e Cultural dos Empregados do Banco Nacional Ultramarino, Bissau, Dezembro de 1973) (Albano de Matos) (1): Pássaro tecelão, de Albano de Matos, p. 5


Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Bambadinca (?) > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) >  Ninhos do "pássaro tecelão" (?)...

Foto © José Carlos Lopes (2013). Todos os direitos reservados. (Edição  e legendagem: L.G.)







Capa do documento policopiado do Caderno de Poesias Poilão", editada em dezembro de 1973 pelo Grupo Desportivo e Cultural dos Empregados do Banco Nacional Ultramarino (O  GDC dos Empregados do BNU  foi criado em 1924).










"Pássaro tecelão", o poema de Albano de Matos (p. 5), que abre o  perqueno livro, de 35 pp., O Albano de Matos, editor literário, juntou nesta primeira antologia da poesia guineense,  24 poemas,  de 11 poetas lusófonos (4 da Guiné, 3 de Cabo Verde e 4 de Portugal).




1. O nosso camarada Albano Mendes de Matos [, ten cor art ref, que esteve no GA 7 e QG/CTIG, Bissau, 1972/74, e foi o "último soldado do império",], mandou-nos uma cópia, em pdf, do Caderno de Poesias "Poilão"...

Essa aventura (cultural) já aqui foi contada (*). Ele foi um dos obreiros deste livrinho, quer como editor literário quer como autor.

Ficou-nos a curiosidade em saber mais sobre o  conteúdo desta brochuira que representou uma lufada de ar fresco no ambiente, já cético e depressivo, de Bissau, no final da guerra. O lançamento da obra foi feita em fevereiro de 1974, a escassos dois meses do 25 de abril. 700 exemplares do texto, policopiado, esgotarm-se num ápice.

Com o devido apoio e a competente autorização do nosso camarada Albano de Matos (, hoje a viver no Fundão, ) vamos (re)publicar este caderno de poesia, dando-o a conhecer a um público mais vasto de leitores lusófonos, em Portuigal, na Guiné-Bissau, em Cabo Verde e demais lugares do espaço lusófono.

Obrigado, Albano, com o nosso apreço e gratidão. E também ao Aguinaldo de Almeida, que fez parte da equipa deste projeto cultural. LG


[Foto acima;  Bissau > 1974 > Albano de Matos, a preparar o Caderno de Poesias «Poilão», no Clube Militar de Oficiais; foto à direita: o Albano de Matos, hoje]

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Nota do editor:

(*) Vd.poste de 13 de abril de 2014 >  Guiné 63/74 - P12975: Memórias dos últimos soldados do império (2): A aventura do "Caderno de Poesia Poilão", de que se fizeram 700 exemplares, a stencil, em fevereiro de 1974, em edição do Grupo Desportivo e Cultural dos Empregados do BNU (Albano Mendes de Matos)


(...) Posso dizer que fui o último militar português a vaguear pelas ruas de Bissau, de onde saí, na noite de 13 de Outubro, para o aeroporto de Bissalanca, para regressar a Portugal, no último avião da Guiné, na madrugada do dia 14 de Outubro de 1974.

 (...) Colocado em Bissau, sujeito a horários, não tive condições, nem disponibilidade para contactos com os povos negros. Em Bissau, passei a frequentar a UDIB - União Desportiva Internacional de Bissau, da qual fui sócio (...), o Grupo Desportivo e Cultural do Banco Nacional Ultramarino e a Associação Comercial. Na UDIB e no Grupo Desportivo e Cultural do BNU, colaborei na organização eventos culturais, como, concursos literários e sessões de teatro.



Nos inícios do mês de Dezembro de 1973, ao ler o jornal «Voz da Guiné», deparei com um escrito de Agostinho de Azevedo, alferes miliciano, creio que chefe de redacção do jornal, insinuando que não havia poesia na Guiné. Respondi com um escrito, «O Despertar da Guiné», dizendo que havia poesia na Guiné e que, em breve, iríamos ter um Caderno de Poesias, com o título de «Poilão», a designação de uma árvore sagrada na Guiné. Depois da publicação do primeiro número, seriam publicados cadernos de poesia de um só autor.

No Grupo Desportivo de Cultural do BNU, conheci guineenses e cabo-verdianos que faziam poesias e pedi originais para colaboração em «Poilão», que ainda guardo no meu arquivo. Juntei 24 poemas de 4 poetas da Guiné, 3 de Cabo Verde e 4 de Portugal.

De modo artesanal, fiz 300 exemplares do caderno. Dactilografei os poemas, imprimi-os em duplicador, dobrei as folhas e agrafei-as em capa de cartolina, esta impressa em tipografia, com desenho do poilão da autoria de um alferes miliciano, do Batalhão de Transmissões.

Os 300 exemplares do Caderno de Poesias «Poilão», editado pelo Grupo Desportivo e Cultural do Banco Nacional Ultramarino, esgotaram-se na noite do lançamento. Sem preço de capa, cada pessoa dava a importância que queria. O preço por unidade foi de 20$00 a 100$00.

Por minha proposta, o dinheiro angariado foi doado à Leprosaria da Cumura, nas proximidades de Bissau. Preparei, então, mais 400 exemplares que se esgotaram num dia. Havia apetência para a Poesia na Guiné. Eu apercebi-me desse facto.


 (...) Com um mês de licença, em Portugal, e com as antevisões do 25 de Abril, não foram publicados mais cadernos.

O Caderno de Poesias «Poilão» está referenciado, praticamente, em todas as Bibliografias, Dicionários, Histórias e Estudos da Literatura Africana de Expressão Portuguesa, sendo considerado como a primeira Antologia de Poesia na Guiné-Bissau. Tem sido referido em tertúlias, seminários e encontros culturais.

Em «Poilão», colaborou Pascoal D’Artagnam Aurigema, falecido em 1991, que foi um dos principais poetas da Guiné-Bissau [. Nasceu, em Farim, em 1938]  (..:).

Guiné 63/74 - P13640: Parabéns a você (790): Tony Borié, ex-1.º Cabo Op Cripto do CMD AGR 16 (Guiné, 1964/66)

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Nota do editor

Último poste da série de 21 de Setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13632: Parabéns a você (789): Coutinho e Lima, Coronel Art Ref (Guiné, 1963/65; 1968/70 e 1972/73); Teresa Almeida, Amiga Grã-Tabanqueira (Liga dos Combatentes) e Raul Albino, ex-Alf Mil da CCAÇ 2402 (Guiné, 1968/70)

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Guiné 63/74 - P13639: Dossiê Os Libaneses, de ontem (e de hoje), na Guiné-Bissau (7): Vermeer teria gostado de pintar as libanesas de olhos verdes... (Valdemar Queiroz, ex fur mil, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70)


"A rapariga com brinco de pérola" (c. 1665)... Uma das obras primas do pintor holandês Johannes Vermeer (1632-1675). Óleo sobre tela (44,5 cm x 39 cm). Localização atual: Galeria Mauritshuis, Haia. Imagem do domínio público. Cortesia de Wikipedia.

 .
1. Mensagem do  Valdemar Queiroz 
[, ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70]

Data: 15 de Setembro de 2014 às 01:25

Assunto: Ainda sobre as libanesas (*)

Ora viva, caro Luís Graça.

Cá te temos, desta vez pra sabermos o que é o belo. Isto para voltarmos a falar das libanesas de Nova Lamego e/ou Bafatá.

Quanto eu gostava de saber o que é o belo, agora que em toda a zona da Agualva/Mercês há um florescer de plumas, milhares de plumas, que é uma beleza de ver, ou se só as 'Meninas de Avignon', do Picasso, ou 'As meninas' ,de Botticelli, são uma beleza de ver?

 E por que razão as raparigas/mulheres libanesas de Nova Lamego ou Bafatá, não seriam uma beleza de ver? Que mal estaria a rapazida a fazer,  se só apreciassem os olhos verdes das libanesas? Cometiam um grave sacrilégio de apreciar a sua beleza, ou querendo lá saber disso teriam que apreciar o saber do passar a ferro, o mudar a água ás azeitonas, o fazer uma sopa de beldroegas e esperar? 

Acho que não, a rapaziada gostava de ver raparigas bonitas, libanesas, fulas, mandingas e até as filhas dos da metrópole que eram mais finas. Não havia nenhum mal nisso, era absolutamente normal.

Quem em 1969/70, na Guiné, não gostava de ver uma mulher de olhos verdes, sem estar a pensar nas mulheres de olhos castanhos, azuis ou pretos para fazer comparações e também pensar que todas as mulheres têm olhos bonitos, que elas haveriam de ser um dia as nossas companheiras e as mães dos nossos filhos?

Pois é, caro Luís, naquele tempo, há  45 anos, sem querer, já nós apreciávamos a 'Mulher com brinco de pérola', de Vermeer , sem com isso desgostar da 'Mulher de Afife com arrecadas', da 'Mulher com o joelho à mostra na Pastelaria Suíça', ou 'A Vera de biquíni amarelo na Caparica'.

Pois é, caro Luís, isto do belo dá pano para mangas e é só escolher, pra nós as libanesas chegavam: libanesas de olhos verdes, nunca tinhamos visto.

Um abraço e gostei de ver tuas fotos e de ler os teus poemas.
Valdemar Queiroz


Sintra > Zona da Agualva/Mercês  > Setembro de 2014 > "Há um florescer de plumas, milhares de plumas, que é uma beleza de se ver"...

Foto (e legenda): © Valdemar  Queiroz (2014). Todos os direitos reservados [ Edição: LG]
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Guiné 63/74 - P13638: Selfies / autorretratos (2): filho único, com pai emigrado no Canadá, podia também ter saído do país, aos 17 anos... Passei pela universidade de Coimbra e lutas académicas, tendo decidido participar na guerra colonial, contrariado e sabendo ao que ia (Manuel Reis, ex-alf mil cav, CCAV 8350, Guileje, 1972/74)

1. Comentário de Manuel Reis ao poste P13623


[, Foto á esquerda: Manuel Augusto Reis, em Guileje, 1973:  foi alf mil cav, CCAV 8350, Guileje, Gadamael, Cumeré, Quinhamel, Cumbijã, Colibuia, 25/10/72 - 27/8/1974]

Amigo e ex-camarada Vasco:

Abriste uma frente de diálogo bastante interessante e que o Luís com o seu saber deu uma ajuda suplementar.

Conheço o Vasco desde os tempos de escola, com um percurso um pouco idêntico, mas trilhando o mesmo caminho: colégio de Anadia e Universidade de Coimbra e,  imagine-se, ....Gadamael. 

Aproveito para lembrar o percurso dos meus familiares no que à guerra diz respeito. Meu avó (materno) foi mobilizado para a 1ª guerra mundial e participou na batalha de La LYs. Consegui ouvir algumas peripécias, dispersas, dos momentos difíceis, que teve de suportar, na sua qualidade de granadeiro. 

No seu regresso era um homem destroçado anímicamente. A minha presença na sala tornava-se incómoda, pelo que me era dada ordem de retirada.

Na casa dos meus avós vivia-se um ambiente republicano, sendo o meu bisavô, Pedro, meu grande amigo, constantemente perseguido. A maior parte das noites eram dormidas em palheiros, afastados da sua residência. Lamento que o diário do meu avó se tenha extraviado, a sua importância, para mim, era bastante significativa.

Seguiu-se o meu pai, que é mobilizado para alinhar na 2º guerra mundial, sendo enviado para Moçambique, durante 3 anos, onde supostamente se previa um desembarque de tropas japoneses. Nada faria supor esta mobilização do meu pai, recém- casado. Não sofreu os traumas da guerra, mas a ausência da família foi dura.

Poucos anos passados, face ás dificuldades económicas, o meu pai emigra para o Canadá onde permanece durante mais de 20 anos. No ano em que eu completava 17 anos e perante o espectro da guerra que pairava sobre a minha cabeça, desloca-se a Portugal e coloca-me a possibilidade de emigrar também. 

O meu pai, homem simples do campo, tem a noção e a preocupação de que a guerra me espera.Possibilita-me que decida .Estar-lhe-ei  eternamente grato. Acabei por recusar, via a guerra ainda muito longe, e com um percurso académico satisfatório, nada o aconselhava. 

A minha entrada na academia, e o meu envolvimento nas lutas académicas, rasgaram-me outros horizontes e quando decidi, contrariado, participar na guerra que já se vivia nas ex-colónias, sabia para o que ia. A decisão era sustentada no plano familiar, pois na qualidade de filho único, não imaginava um afastamento prolongado dos meus pais.

Um grande abraço.

Vasco,  as caçoilas estão prontas!

Manuel Reis

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Nota do editor;

Último poste da série > 22 e setembro de  2014 > Guiné 63/74 - P13634: Selfies / autorretratos (1): por que é que fomos à guerra... (Vasco Pires / Luís Graça / Francisco Baptista / José Manuel Matos Dinis)

Guiné 63/74 - P13637: Convívios (631): Encontro do pessoal da CCAÇ 2616 (Buba, 1969/71) a realizar-se no próximo dia 4 de Outubro de 2014 em Arraiolos (Francisco Baptista)

1. Mensagem do nosso camarada Francisco Baptista, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2616/BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72), com data de 20 de Setembro de 2014:

Amigo Carlos
Será a primeira vez que eu irei encontrar esta companhia.
A CCAÇ 2616 era sobretudo composta por pessoal do sul (alguns graduados do norte), a CART 2732 como bem sabes da Madeira (graduados e especialistas do continente).
Em parte desculpas minhas, porque na verdade durante muitos anos procurei esquecer a Guiné.

Saúde e um grande abraço
Francisco Baptista


Convivio da CCAÇ 2616 (Buba, 1969/71) 
Arraiolos, 4 de Outubro de 2014

Concentração às 12,30 no restaurante Pelourinho, no centro da vila de Arraiolos*, onde decorrerá o almoço, de cuja ementa constará:

Entradas:
Polvo em vinagrete;
Grau com bacalhau;
Paio de porco preto;
Bom pão alentejano e azeitonas

Primeiro prato:
massinha de peixe

Segundo prato:
carne de porco com ameijoas

Bebidas:
vinho brano e tinto da casa, água e café

Sobremesa:
doces e fruta da época

Cerca das 17 horas será servida a merenda:
Canja de galinha e leitão

Preço: 22,50 euros

As inscrições para o convivio estão abertas até ao dia 2 de Outubro

Contacto: 
João Pausinho - Telefone: 266 499 705 - Telemovel: 969 984 162

Este convite é extensivo a todos os camaradas que connosco conviveram em Buba: Pelotão de Morteiros, Pelotão de Obuses, Pelotão de Intêndencia, Destacamentos de Fuzileiros.

É igualmente extensivo a todos os camaradas do BCAÇ 2892 e a todas as Companhias e Pelotões Independentes de Aldeia Formosa, Mampatá ou Empada, cujo comando de sector era em Aldeia Formosa.

Todos os outros camaradas da Guiné ou doutros TOs que se queiram associar a nós serão bem-vindos e acolhidos como irmãos.

(*) OBS: - Em virtude de o centro da vila de Arraiolos, onde se situa o restaurante, ser uma zona pedonal, aconselha-se a todos os camaradas que vierem ao almoço, que estacionem as suas viaturas no Parque, que fica atrás do edifício dos correios.
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Nota do editor

Último poste da série de 22 de Setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13636: Convívios (630): Almoço de confraternização e comemoração do 40.º aniversário do regresso da CCAÇ 4544/73, levado a efeito no Marco de Canaveses (António Agreira)

Guiné 63/74 - P13636: Convívios (630): Almoço de confraternização e comemoração do 40.º aniversário do regresso da CCAÇ 4544/73, levado a efeito no dia 14 de Setembro de 2014, no Marco de Canaveses (António Agreira)




1. Mensagem do nosso camarada António Agreira (ex-Fur Mil TRMS da CCAÇ 4544/73, Cafal, 1973/74), com data de 20 de Setembro de 2014:

Mais uma vez a CCAÇ 4544 reuniu para o almoço de confraternização e comemoração dos 40 ANOS do regresso.

O local escolhido foi Marco de Canaveses, e este ano tivemos a presença de 4 camaradas de armas que se juntaram a nós pela primeira vez nestas andanças.

Foi um dia esplêndido na companhia de alguns familiares que nos acompanharam.

Mais uma vez a organização esteve a cargo do Oliveira (o reguila)

Cordiais cumprimentos
António Agreira
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Nota do editor

Último poste da série de 18 de Setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13621: Convívios (629): I Encontro de paraquedistas do Oeste... Lourinhã, 6 de setembro de 2014... Parte V: Discurso do Jaime Bonifácio Marques da Silva > 1ª Parte: o elogio dos Boinas Verdes, e a homenagem aos nossos bravos, caídos na campo da honra (I Grande Guerra, 1914/18, França, Angola e Moçambique; e guerra colonial, 1961/74)

Guiné 63/74 - P13635: Notas de leitura (634): “Vamos", por Jacinto Lucas Pires (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Março de 2014:

Queridos amigos,
Mais uma grande surpresa, um projeto de inovação social a que a fundação Gulbenkian está ligado, buscam-se novas soluções para novos e velhos problemas sociais.
Jacinto Lucas Pires conta primorosamente histórias de jovens que foram capazes de fazer cada obstáculo um degrau, são estudantes e simultaneamente dinamizadores, coordenadores de projeto ou fazem estágios. Jovens que valorizam a liberdade, que aprenderam a perdoar.
A fotografia de Tiago da Cunha Ferreira substitui luminosamente as palavras. Mostra estes jovens prontos a conquistar o mundo mesmo quando vivem nos bairros mais inóspitos.

Um abraço do
Mário


Chegar ao começo e sonhar com o céu (1)

Beja Santos

Que a vida me tem sido benfazeja em imprevistos deleitosos, escuso-me de queixar, sou pródigo em tais benesses, em felizes acasos. E então na descoberta de livros…
Vai um cidadão pronto para assistir a “Dido e Eneias”, de Purcell, tem ainda uns momentos ociosos, deambula pelas estantes de livros, a Gulbenkian, mesmo fora da feira de Natal, tem sempre umas oportunidades catitas. O livro chama a atenção pelo grafismo, o livro parece um álbum, tem papel de boa gramagem, e as ilustrações, então…
Os olhos saltitam pelas histórias, trata-se de texto da autoria de Jacinto Lucas Pires, está lá a Guiné e jovens guineenses na diáspora, casos ímpares de força de vontade, histórias incríveis, poderiam emparceirar nos relatos das sagas e odisseias. Compra-se sem hesitar, estão aqui jovens que apostam no futuro, os chamados casos de resiliência, vamos ler e depois contar no blogue.

Porque a esperança nunca acaba. O livro chama-se “Vamos”, a fotografia é de Tiago Cunha Ferreira, o convidado para a empreitada da escrita é Jacinto Lucas Pires, Edição Gulbenkian, 2011.
Como foi possível estar tanto tempo sem saber deste projeto? A responsável da Gulbenkian, Isabel Mota, dá-nos o pano de fundo: “A Academia Ubuntu, dinamizada pelo Instituto Padre António Vieira, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e da Universidade Católica Portuguesa, deu vida, no último ano, a um projeto experimental de capacitação de jovens líderes descendentes de imigrantes, tendo como patronos Mandela, Tutu e Luther King. Estes gigantes da humanidade inspiraram um ambicioso e inovador programa que procurou desenvolver competências ao serviço dos outros. Quatro dezenas de jovens inseridos em contextos de grande exclusão social, viveram um roteiro de formação exigente, na certeza de poderem contribuir para alavancar a mudança”.
E mais adiante Isabel Mota explica no final do projeto se lançou o desafio a Jacinto Lucas Pires para que retratasse as histórias por dentro das vidas dos que frequentaram a Academia Ubuntu, vidas reais contadas pelos próprios como se não fosse nada. Aqui ficam extratos de histórias de jovens guineenses:  
“Foi há dezoito anos, mas Edson nunca mais esqueceu daquele dia em Bissau. O primo-irmão Mário tinha ido buscar a sua irmã Daise ao jardim-de-infância. Estão os dois à beira da estrada à espera para atravessar, um dia normal de sol, quando a criança larga a mão do primo, começa a correr e é atropelada por um autocarro.
Mário chega a casa assustadíssimo a dizer que a menina está morta. Daise está morta, morreu, um acidente muito grave.
Edson tem oito anos e aquela notícia provoca-lhe um sofrimento grande demais.
Depois vêm dizer-lhe que não, a Daise não morreu, mas ele não acredita. Pensa que é tudo mentira, que lhe dizem aquilo para que não sofra tanto. Um sofrimento intenso, do qual não se pode sair, do qual é impossível conseguir sair.
Dias mais tarde, quando vai ao hospital e vê a irmã, é como se testemunhasse uma ressurreição.
A mãe de Edson traz Daise para Lisboa, para ser vista por uma junta médica no Hospital da Estefânia e Edson fica em Bissau. Passa a viver com a avó e os tios numa grande casa coberta de palha. Teve uma infância bastante feliz”.

“Braima nasceu em Bolama, na Guiné-Bissau; uma ilha do arquipélago dos Bijagós. Do lado da mãe, são bijagós (única etnia da Guiné que não foi islamizada). O pai de Braima é do continente, de Buba; os bisavós vieram da Guiné-Conacri. Do lado do pai são muçulmanos. Do lado da mãe animistas, de educação católica. Braima teve uma educação católica.
Quando ele tinha seis anos, a mãe teve um problema de saúde e veio para Portugal. Curou-se e ficou por cá.
Braima tem cinco irmãos da parte da mãe. O pai teve doze filhos, ao todo. Em Bolama, ele era o codé (é o mais novo da família).
O avô de Braima ficou viúvo muito cedo. Era funcionário público e não tinha com quem deixar a filha pequena (a mãe de Braima). Uma senhora, a Avó Nhinha, costuma ver a miúda sentada ao pé da mesa onde o avô de Braima trabalhava as escrever numa máquina antiga. Um dia, foi ter com ele e perguntou-lhe se não queria que ele tomasse conta da menina. A partir daí, a mãe de Braima – e depois Braima – passa a integrar essa outra família, de origem senegalesa.
Braima também passou muito tempo da infância no Senegal. Quando era miúdo, até falava uólofe.
Mas a sua primeira língua é o crioulo guineense. Na Guiné fala-se português na aula e crioulo no recreio. E português é muito diferente do crioulo e é muito difícil para os miúdos. É preciso dobrar a língua, coloca-la mais leve. O crioulo da Guiné é falado com a língua no céu-da-boca e não tem, por exemplo, os sons ‘lh’ e ‘rr’. Também não há artigos masculinos ou femininos, é sempre neutro”. 

“Edson tem outra irmã, do lado da mãe, com dez anos. Também veio para Portugal antes dele.
Agora está parado no sol do meio-dia, nas escadas da Faculdade de Letras, em Lisboa. A camisa branca é um concentrado de luz. Edson tem 24 anos e olha para nós; uma cicatriz na base do nariz, uma curta linha horizontal, lembrança de um prato que lhe acertou na cara quando era criança. O resultado de se ter metido no meio de uma discussão entre adultos: os tios estavam aos gritos e ele armou-se em ONG”.

“Em Bissau, à noite, Edson sente saudade de um lugar que não conhece chamado Lisboa. Sonha em vir ter com a mãe e os irmãos.
No dia 22 de outubro de 2000, com 13 anos, veio finalmente para Portugal. É o último da família a vir porque é o irmão mais velho.
Mas, quando chega, as aulas estão a meio e tem de ficar um mês sozinho num apartamento em Odivelas. Chora todos os trinta dias”.

“Os Barai são da região de Bula, na Guiné. A mãe de Rui é a filha de um português de Reguengos de Monsaraz e de uma guineense do Arquipélago dos Bijagós. Os avós paternos são guineenses, da etnia mancanha.
Os pais conheceram-se em Bissau; Rui nasceu lá, veio para Portugal com três anos. O pai veio estagiar como meteorologista e a família veio com ele. São três irmãos, Rui é o do meio.
Depois regressaram à Guiné, mas o pai de Rui viu as coisas lá não estavam a correr bem e voltou para Portugal. A família ficou na Guiné mais um tempo. em 1977 os pais de Rui, que eram casados só pelo registo, casaram pela igreja e fizeram uma bela festa em Bissau. O plano era regressarem todos a Portugal em 1998, mas de repente estalou a guerra.
A família já não consegue voar para Lisboa.
A mãe, os três filhos e uma prima que vive com eles saem da cidade, para uma casinha no mato. Vão para Bolama, de canoa – uma canoa cheia de animais e tralha –, e daí para Bambaiá, e depois para o Sul.
A tia tem uma fábrica de descascar arroz. Algumas pessoas dão dinheiro, outras dão parte de arroz, outros pagam com gado, e vai-se vivendo assim. Um dia vão lá militares, mas a tia dá-lhes arroz e eles não fazem mal a ninguém.
Não há notícias, não há rádio, comunicações, não sabem de nada. Rui tem dez anos.
Passados uns meses, regressam a Bissau, mas perdem o barco que os podia tirar dali. Decidem então sair por terra, pelo Senegal.
Em Dakar, numa zona de barracas de venda, uma senhora olha para a mãe de Rui e para, espantada. É uma tia do pai de Rui. Vai ter com eles, pergunta-lhes o nome e abraçam-se.
O pai compra-lhes bilhetes de avião para eles virem ter com ele a Portugal, mas no aeroporto há truques, têm de pagar aos funcionários, etc., e não conseguem passar. Várias tentativas, em vão. A mãe vem para Portugal e eles ficam lá.
Entretanto, o tio do Rui torna-se secretário de Estado da Cooperação Internacional da Guiné. Tem o mesmo nome que ele, Rui Barai. É ele que os vai buscar a Dakar.
Em 2000, chegam a Portugal. Vão viver para a Póvoa de Santa Iria, para um lugar chamado Bragadas. Rui tem onze anos, vai fazer doze”.


Dois jovens que sonham com o céu

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 19 de Setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13625: Notas de leitura (633): “Poesias e Cartas", por José Bação Leal (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P13634: Selfies / autorretratos (1): por que é que fomos à guerra... (Vasco Pires / Luís Graça / Francisco Baptista / José Manuel Matos Dinis)


Guiné > 1970 > Um "selfie" ("avant la lettre"...) do Vasco Pires, ex-al mil art,  cmdt do 23.º Pel Art, Gadamael, 1970/72; bairradino, vive no Brasil desde que acabou a comissão de serviço no CTIG).

Observ.: Selfie - junção do substantivo self (em inglês "eu", "o próprio") e o sufixo ie. Ou selfy... É um tipo de fotografia de autorretrato,  normalmente tirada com uma câmara digital de mão ou telemóvel  com câmara. Foi considerada a palavra internacional do ano de 2013 pelo Oxford English Dictionary. Tornou-se "viral",  como muitas outras modas... Fonte: Adapt. de Wikipedia.


Foto: © Vasco Pires (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: LG]


1. O Vasco Pires foi quem deu o mote (*):


(...) Nesses tempos de "selfies" (neologismo que significa autorretrato), chamou minha atenção essa [minha] foto de 1970, poucos dias após a chegada à Guiné [, vd. foto acima].

Autorretrato acompanha a História da Humanidade, lembra Narciso,  filho de liríope, passa pela necessidade de autoconhecimento, até chegar na expressão dos modernistas angustiados.

Mas voltemos ao soldado, que parece perguntar:
- Como é que eu vim parar aqui?

É uma viagem à década de sessenta, jovens inexperientes, num país que se queria fechado ao mundo. Eu, particularmente, vinha da Bairrada profunda, de um grupo familiar que Gramsci apelidada "intelectuais rurais', logo por defenição conservadores, embora dela tenham saído alguns que ele chama de intelectuais urbanos.

Passando pelas escolas locais, cheguei na Academia Coimbrã em plena efervescência da segunda metade da década de 60, verdadeiro "ponto de clivagem", dos valores e hábitos Ocidentais (não vamos achar que somos o centro do Mundo, só porque assim fizemos como nosso mapa).
Um fervilhar de ideias, contestação dos valores tradicionais, onde poucos tinham uma visão cosmopolita.

Na época, muitos devem lembrar, a figura do "passador", que mediante determinada quantia, fazia chegar as pessoas, além Pirenéus.

Pois, tinha um que era amigo da família, pai de um amigo, e que trabalhava em parceria com um frade (não sei se este o fazia por dinheiro ou convicção), eu tinha também, grande parte da família do outro lado do Atlântico. Assim, com essa facilidade, eu, que jamais pensei que a missão era "dilatar a fé e o império", nunca me passou pela ideia de usar os seus serviços, ou me reunir aos parentes. Penso, talvez, que não queria romper com os valores culturais em que estava inserido.
Contudo, "nesta altura do campeonato", não é mais relevante. Alguns de nós foram à guerra por convicção, outros movidos pela propaganda, muitos por inércia, e alguns outros com receio de enfrentar usos e costumes estrangeiros.

2. Comentário do nosso editor Luís Graça [ex-fur mil, armas pes inf, CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, 1969/71]  (*)

(...) "Alguns de nós foram à guerra por convicção, outros movidos pela propaganda, muitos por inércia, e alguns outros com receio de enfrentar usos e costumes estrangeiros". (..:)

Vasco, lusitano da diáspora que estás sempre a lembrar as tuas raízes bairradinas... e respiras portugalidade por todos os poros... Dava uma série, para o nosso blogue, o feliz título que tu escolheste: "autorretrato de um soldado"...

No fundo, a questão que pões é: "por que é que eu fui p'rá guerra"...

Questão provocatória, incómoda, ou até absurda ?... Alguns camaradas nossos poderão achar que sim... Se a "pátria" te chama, só tens que responder com prontidão... Não foi sempre assim ao longo da nossa história ?... Se calhar não foi sempre assim... A história da nossa pátria está longe de ser um "livro aberto" e ter uma única leitura...

Sabe-se que de 1946 a 1973, dois milhões de portugueses sairam da sua terra, e quase metade (45%), em plena guerra colonial, só no curto período de 1966 a 1973... A maioria em idade ativa e jovem... E muitos deles, portanto, terão sido refratários...

Como alguém disse, o Estado Novo e as suas políticas (incluindo a guerra colonial) foram plebiscitadas pelos portugueses "com os pés"...

As motivações para a saída em massa e ilegal (, "a salto",) são fáceis de perceber: o círculo viciosoa da pobreza, em Portugal, não poderia ser mantido mais tempo, com o "milagre económico europeu" à nossa porta... (Os "trinta gloriosos", as décadas de excecional desenvolvimento económico e social que a Europa conheceu, desde o pós-guerra até 1973)... Já não  era preciso ir para o Brasil: a França e a Alemanha estavam ali, à nossa porta, ou pelo menos, a partir dos Pirinéus...

Muitos jovens da nossa geração emigraram, não tanto para fugir à guerra colonail, mas por razões "económicas" (, digamos assim, para simplificar)... E outros (e se calhar muitos) fizeram a guerra para ter direito a um passaporte e poder emigrar (ou passear pelo estrangeiro, estudar, etc.) legalmente...

Lutámos em África também para ter direito a um pátria... De certo modo, foi o teu caso, o meu, e de muitos outros de nós que fizemos a tropa e a a guerra...

Não sei, não temos suficiente evidência empírica sobre esta questão... Cada um, portanto, só poderá falar de si e por si....

Sinto, no entanto, que é não "confortável" para os ex-combatentes falar, para os seus "pares", num blogue como o nosso, com a audiência que o nosso tem, sobre estas "questões do foro íntimo"... Para mais, à distãncia de meio século...

No passado, quando jovens, reagíamos com o corpo inteiro (cabeça, coração, estômago, hormonas, braços e pernas, o chamado "sangue na guelra"...). Hoje tenderemos a "racionalizar" e a "idealizar" as "escolhas" que fizemos no passado (e que estavam longe de serem inteiramente livres...).

Um alfabravo verde-rubro do tamanho do Atãntico que nos separa e que, ao mesmo tempo, nos une... Luís. 


3. Comentário de Francisco Baptista [ex-alf mil inf da CCAÇ 2616/BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72)] (*):

Amigo Vasco:

O meu percurso é parecido com o teu. sendo eu natural do nordeste transmontano, filho de lavradores ilustrados para o tempo e região, tinham a quarta classe.
Nesses tempos, excluindo os da capital eramos quase todos provincianos, eu influenciado por algumas leituras, não abençoadas pelo regime, pois por falta de meios financeiros, não fui para a faculdade, deixei que me levassem para a Guiné, por inércia, por outros medos e porque tinha 5 irmãos mais novos que precisavam da minha ajuda. (...)

4. Comentário de José Manel Matos Dinis [ex-fur mil, CCAÇ 2679, Bajocunda, 1970/71]


Olá, Vasco,

A mesma frase que lança o Luís em comentário, pode ser acrescida de outras controversas condições: para além da veneração à pátria, e da aceitação das atribuições dela decorrentes, também a transigência aos costumes, e o medo da perseguição e discriminação pessoal e familiar eram condicionantes influentes na decisão de ir à guerra. Se podemos considerar decisão, face ao estatuto de passividade existente.

Eu nem me questionei muito. Se fugisse, nem sabia bem para onde, pois uma paixoneta ou outra em Inglaterra não seriam garantia de nada. Por outro lado, cedo comecei a preparar-me mentalmente para a sorte ou o azar de ir batê-las em África, e fui sem custo especial.

O comentário do Luís tem a virtude de alongar o nosso raio de pensamento sobre a questão, e de nos fazer confrontar, 40/50 anos depois, com o estado de espírito da época.

Ele tem uma interrogação pertinente, "não foi sempre assim ao longo da nossa história?"

Pois a minha resposta é que não sei, em primeiro lugar, porque a história está mal contada, em segundo, porque ao longo do tempo muitos foram arrebanhados para diferentes campanhas, sempre ao serviço dos poderosos, que evitavam a valorização do povo para dele disporem melhor. Ainda é assim. (...)

 ___________________

domingo, 21 de setembro de 2014

Guiné 63/74 - P13633: Fotos à procura de... uma legenda (34): Missas históricas no Império: do ilhéu de Coroa Vermelha, no litoral sul da Bahia, Brasil (26/4/1500) a Gandembel, Região deTombali, CTIG (25/12/1968)... (António Rosinha / Idálio Reis)


A Primeira Missa no Brasil, 1860. Museu Nacional de Belas Artes, Brasil. Imagem do domínio público. Cortesia de Wikipédia.

A obra prima do pintor  académico Victor Meirelles de Lima (Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, 1832 — Rio de Janeiro, 1903) . A tela é um hino ao ecumenismo, ao retratar a chegada pacífica da armada de Álvares Cabral a Porto Seguro, no sul da bahía,  e a celebração da primeira missa, no Novo Mundo, assistida pelos habitantes locais, tupiniquins, pertencentes á nação tupi... Os descendentes dessas hstóricas testemunhas da chegada dos portugueses ao Novo Mundo não deverão ultrapassar hoje um milhar...

"A primeira missa no Brasil foi celebrada por Dom Frei Henrique de Coimbra no dia 26 de abril de 1500, um domingo, na praia da Coroa Vermelha, em Santa Cruz Cabrália, no litoral sul da Bahia. Foi um marco para o inicio da história do Brasil e descrita por Pero Vaz de Caminha na carta que enviou ao rei de Portugal, D. Manuel I (1469-1521), dando conta da chegada ao Brasil, então Ilha de Vera Cruz, pela armada de Pedro Álvares Cabral que se dirigia à Índia" (Fonte: Wukipédia).

Na sítio "História da Bahia", Jonildo Bacalar escreve o seguinte sobre esta priimeira missa:

"Quatro dias após ter chegado em Porto Seguro, no Domingo de Páscoa, em 26 de abril de 1500, Cabral determinou que se realizasse uma missa no ilhéu da Coroa Vermelha. Foi a Primeira Missa celebrada em solo brasileiro e o evento foi documentado pela Carta de Caminha. Era o último ano do século 15.

Cabral ordenou a presença de todos os capitães na Missa. Mandou armar um esperavel, e dentro dele um altar mui bem corregido.

A Primeira Missa foi celebrada pelo frei franciscano Henrique Soares de Coimbra, auxiliado pelo padre Marcos de Oliveira Ferreira. No total, eram oito frades, todos franciscanos, todos presentes e todos rezaram.

A bandeira de Cristo, trazida por Cabral de Belém, ficou hasteada durante a Missa. Não há menção de Caminha quanto a existência de uma cruz na Primeira Missa.

Acabada a Missa, frei Coimbra desvestiu-se e subiu numa cadeira alta, de onde fez uma pregação do Evangelho, terminando com referências à chegada dos portugueses na terra achada.

A cerimônia foi também acompanhada pelos tupiniquins. No final, levantaram-se muitos deles, tangeram corno ou buzina, e começaram a saltar e dançar um pedaço." (...)



Guiné > Região de Tombali > Gandembel > 25/12/1968 > Missa de Natal celebrada pelo capelão-mor das Forças Armadas, bispo de Madarsuma (*). Foi a última missa celebrada em Gandembel...


Foto: © Idálio Reis (2007). Todos os direitos reservados [Edição de L.G.]


1. Comentário do nosso "mais velho" Antº Rosinha ao poste P13616 (*):

(...) A foto da "Última Missa em Gandembel", é uma das fotos mais falantes do que qualquer outra que se possa ver sobre a Guerra do Ultramar. Aquela mesa/altar, aquele ajudante em tronco nú, representam bem o desenrascanço da malta.

Esta última missa documentada por Idálio Reis, contrasta com a 1ª missa, festejada por índios e pintada por artistas e documentada pela carta de Caminha.

Quatro dias após ter chegado em Porto Seguro, no Domingo de Páscoa, em 26 de abril de 1500, Cabral determinou que se realizasse uma missa no ilhéu da Coroa Vermelha. Foi a Primeira Missa celebrada em solo brasileiro e o evento foi documentado pela Carta de Caminha. (...)-


2. Comentário do editor LG:

Rosinha, é uma legenda genial, a tua,  para esta foto, como já te tinha dito... Tens olho de lince e um grande sentido do simbólico, e uma grande sensibilidade sociocultural, ou não fosses tu um português das sete partidas...

Descobri agora esta foto de uma conhecidíssima tela do pintoir brasileiro Victor Meirelles.. Foi pintada em 1860 e teve sucesso nuam exposição em Paris, em 1861.. Espero que os nossos leitores nos ajudem a enriquecer (ou a rescrever) a tua legenda... Há algum paralelismo entre uma e outra imagem, a primeira missa em terras brasileiras domingo de páscoa, 26/4/1500)  e a última missa na martirizada Gandembel (natal, 25/12/1968), aquartelamento que será avacuada um mês de depois  (E menos de nove meses sofreu mais de 370 ataques e flagelações) (**)....

Já agora convidamos os nossos leitores a conhecer (ou a reler) a famosa Carta de Pero Vaz de Caminha a el-Rei D. Mnauel I, fixada em português moderno e publicada pelo jornal Público, por ocasião do seu 24º aniversário, na sua edição de 5/3/2014. 

É um espantoso documento literário e etnográfico que os brasileiros valorizam muito mais do que os portugueses. É também uma fonte de inspiração e um exemplo a seguir por todos aqueles que, tendo sido combatentes na última guerra do império, se identificam com (e/ou seguem) este blogue, mas acham que não têm de nada especial ou excecional para contar ou ou que  têm pouco ou nenhum jeito para a escrita. Cite-se a parte final da Carta:

(,,,) "E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza do que nesta vossa terra vi. E, se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, que o desejo que tinha, de Vos tudo dizer, mo fez assim pôr pelo miúdo.

E pois que, Senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro – o que d'Ela receberei em muita mercê.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.

Pêro Vaz de Caminha"


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Guiné 63/74 - P13632: Parabéns a você (789): Coutinho e Lima, Coronel Art Ref (Guiné, 1963/65; 1968/70 e 1972/73); Teresa Almeida, Amiga Grã-Tabanqueira (Liga dos Combatentes) e Raul Albino, ex-Alf Mil da CCAÇ 2402 (Guiné, 1968/70)



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Nota do editor

Último poste da série de 15 de Setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13609: Parabéns a você (788): Ribeiro Agostinho, ex-Soldado TRMS da CCS/QG/CTIG (Guiné, 1968/70)

sábado, 20 de setembro de 2014

Guiné 63/74 - P13631: O nosso Livro de Visitas (180): Alexandre Alberto Correia Cardoso, ex-Soldado Apontador de Armas Pesadas da CCAÇ 2464/BCAÇ 2861, Biambe, 1969/70)

1. Hoje presenta-se nesta nossa enorme tabanca, com o nº 667,  o nosso Camarada Alexandre Alberto Correia Cardoso, ex-Soldado Apontador de Armas Pesadas da CCAÇ 2464/BCAÇ 2861, Biambe, Buba e Nhala,1969/70 


Camaradas, 



Tendo vindo a acompanhar a evolução deste formidável blogue, decidi-me juntar-me a este virtual "batalhão". 



Assim, enviei os meus dados e algumas fotos ao Magalhães Ribeiro, para a devida apresentação.

Fui mobilizado pelo RI10 em Fevereiro de 1969, com destino aos Adidos, tendo seguido para Encheia e, posteriormente, para Biambi.

Mais tarde tomamos o rumo a Buba onde fizemos escolta e segurança à capinagem.

Finda esta missão, seguimos para Inhala.

Eu era conhecido pelo “Cardoso Metralha”.








Um abraço,
Alexandre Cardoso
Sold Apontador de Armas Pesadas da  CCAÇ 2464

2. Camarada Alexandre Cardoso, em nome do Luís Graça de demais Camaradas integrantes desta nossa Tabanca Grande quero dar-te as boas-vindas. 

Com a tua prestação são já 4 os elementos do teu batalhão de que temos aqui notícias.

Os outros 3 Camaradas são, como podes constatar no link: 


- José Maria Claro, DFA, (ex-Soldado Radiotelegrafista de Engenharia) da CCAÇ 2464;

- António Nobre (ex-Fur Mil) da CCAÇ 2464;

- Armando Pires (ex-Fur Mil Enf.º) da CCS.

Resta-me desejar que se te lembrares de alguma(s) história(s) nos as envies bem com mais fotos que possuas no teu álbum de memórias.

Um abraço Amigo do MR.
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Nota de M.R.: 

Guiné 63/74 - P13630: Manuscrito(s) (Luís Graça) (38): Viagem no vinte e oito da Carris



Lisboa, 14 de setembro de 2014 > Rua de São Bento, o elétrico da carreira nº 28

Vídeo (0' 25''): You Tube > Nhabijoes


Lisboa. Praça das Flores > 14 de setembro de 2014 > Festival Todos >Animação de rua

Vídeo (0' 24''): You Tube > Nhabijoes




Lisboa. Rua do Poço dos Negros  > 14 de setembro de 2014 > Festival Todos > Este topónimo resulta, segundo tradição, da existência de um poço mandado abrir por D. Manuel I em 1515 e que funcionava como sepultura colectiva dos cadáveres dos escravos negros. Noutro ponto da cidade, na freguesia de Penha de França, há a Calçada do Poço dos Mouros...


Lisboa.  Rua de São Bento > 14 de setembro de 2014 > Festival Todos > Anúncio de exposição / instalação de fotografia na Casa dos Mundfos (, sita na Rua Nova da Piedade)



Lisboa.  Travessa da Arrochela, perpendicular à Rua de São Bento > 14 de setembro de 2014 > Festival Todos >




Lisboa.  Travessa da Peixeira, perpendicular à Rua de São Bento > 14 de setembro de 2014 > Festival Todos > 


Vídeos, fotos e texto: © Luís Graça (2014). Todos os direitos reservados.


O Vinte e Oito da Carris

Calçada da Estrela,
Rua de São Bento,
Rua do Poço dos Negros,
Calçada do Combro…
Por aqui passa
O Vinte e Oito,
Ora pachorrento,
Ora desencabrestado
Como um cavalo louco
Com o freio entre os dentes.


Num perigoso ombro a ombro
Com os prazeres da vida
E a desgraça da morte,
Vou afoito
Mas desassossegado,
Estrela abaixo,
Os cabelos ao vento,
No vinte e oito da Carris,

Tal como o poeta,
Que punha os pontos nos ii,
Pessoa, muito,
Fernando, pouco,
Que por aqui terá vivido,
Ainda jovem,
Algum tempo,
Na Rua de São Bento.
Que de poeta e louco 

Todos temos um pouco.

Paro, escuto e olho,
E no bar da livraria em frente
Ao prédio,
Peço um café e um grogue
De Santo Antão.
Para matar o tédio.
- I’m sorry,
Não, não vem no cardápio pessoano.
- Não faz mal,
Pode ser um bagaço
Que sempre é made in Portugal.


Passam tuca-tucas,
Alegres,
Despreocupados,
Gingões,
Afadistados,
Com turistas que adivinho felizes,
E presumo endinheirados,
Petrorrussos, chinocas, brasucas,
Desaguando dos cruzeiros massificados.
Tiram postais digitais
De Lisboa,
Ai que coisa boa,
Por certo,
E a África tropical,
Aqui tão perto,
Sem o ébola nem o dengue,
Nem o paludismo cerebral.

Mais acima,
No templo da democracia,
Há os senhores da palavra
Ou os senhores que tomam a palavra,
Em nome do povo,
Ou invocando o seu nome em vão.
De que falarão ?
São os democratas
Que adoram sentar-se em hemiciclo,
Para melhor ver o mundo através do seu umbigo,
E falar para o boneco,

Ouvindo o seu eco.

Apeado,
Sem abrigo,
Sento-me agora na escadaria,
Cá fora,
No chão,
De castigo,
Na esperança de ter pão e circo,
Ou se calhar nem uma coisa nem outra.
Mas, uma vez por ano,
Tenho direito a um cadeirão.
Abrem os portões do palácio ao povo,
Os senhores da nação.
Inventaram os megafones
E os microfones
E até os trombones
Onde põem a boca.
Ou a bocarra.
E produzem clones
Por toda a parte,
Com devoção e sabida arte,
Dos palanques à televisão,
Os logocratas.

Retomo o carrossel do vinte e oito,
O elétrico,
A caminho do Chiado,
Que já foi chique e burguês,
E que é de novo do povo,
Diz o outdoor publicitário
Num imóvel à espera do camartelo camarário.
E, mais abaixo, a Baixa agiota,
Do ouro, da prata e do vil metal.
Ouço o aviso do guarda-freio.
Temerário,
Poliglota
E português,
Falando em bruto e feio europês:
- Cuidado com os carteiristas!
Cuidado con los carteristas!
Attention aux voleurs!
Attenzione ai borseggiatori!
Beware of pickpockets!
Achtung taschendiebe!



Saio no Terreiro do Povo,
Outrora Terreiro do Paço,
Cheio de turistas
E de esplanadas.
Acabo a curta viagem
E a reflexão que eu faço
É que a vida é, afinal, um passatempo,
Um jogo de palavras cruzadas.

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Nota do editor:

Último poste da série > 8 de setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13586: Manuscrito(s) (Luís Graça (42): Extremadura(s)...

Guiné 63/74 - P13629: Bom ou mau tempo na bolanha (67): Da Florida ao Alaska, num Jeep, em caravana (7) (Tony Borié)

Sexagésimo sexto episódio da série Bom ou mau tempo na bolanha, do nosso camarada Tony Borié, ex-1.º Cabo Operador Cripto do CMD AGRU 16, Mansoa, 1964/66.




Sétimo dia de viagem

Não é os “Caminhos de Santiago”, que eram aqueles percursos percorridos pelos peregrinos, que afluíam a Santiago de Compostela, desde o século IX para venerar as relíquias do apóstolo Santiago Maior, cujo suposto sepulcro se encontra na catedral de Santiago de Compostela. Também não são as “Via Cássia”, “Via Domícia”, “Via Egnácia”, “Via Devan” ou “Via d’Etraz”, que eram aquelas Estradas Romanas, que partiam de diversos pontos da Europa Medieval, com destino a Roma ou Jerusalém, onde em algumas, era concedida “indulgência” plena, a quem fizesse o seu percurso, não tem pontes e marcos históricos, em pedra de granito e milenários, os seus, são mais recentes, mas o seu percurso também atravessa, montanhas, vales, rios, alguns de água quente, planícies, glaciares, florestas, savanas e, tem muitos precipícios e, também não se concede qualquer “indulgência” a quem a percorre.

É, única e simplesmente, o “Alaska Highway”, ou seja, a estrada que liga por terra, os USA, atravessando o país amigo do Canadá, ao estado do Alaska.


Já bastante no norte do Canadá, nesta altura do ano era de dia, pelo menos por um período de 18 ou 20 horas, saímos da povoação de Beaverlodge, ainda na província de Alberta, onde dormimos por umas horas, tomando um refrescante banho, comendo fruta, bebendo água e sumos, com alguma medicina de manutenção diária, era madrugada, pelo menos no nosso relógio, pois já havia sol, continuámos na estrada número 43, atravessando a fronteira, entrando na província de British Columbia, chegando à cidade de Dawson Creeck, procurando o local da “Historic Mile 0”, ou seja o quilómetro zero, preparados para iniciar a jornada pelo famoso “Alaska Highway”.


Quando parámos no local, onde se inicia o “Alaska Highway”, na cidade de Dawson Creek, no Canadá, a que podemos chamar, tal como eu chamo muitas vezes à “nossa” Mansoa e, o “comandante” Luís, apelidou de “Mansoa City”, um “posto avançado de fronteira”, já lá estavam algumas caravanas, motos e outros veículos, alguns vindo da Europa, onde despacham os seus veículos, via Frankfurt/Alifax, viajando depois de avião ao encontro deles, pois muitas pessoas oriundas daquele continente, principalmente alemães, italianos, ingleses ou franceses, têm orgulho em dizer que viajaram no “Alaska Highway”, também se vêm muitos oriundos da Austrália, então as pessoas que viajam de moto, que nós consideramos uns heróis, depois de fazerem o “Alaska Highway” ou o “Dalton Highway”, de que falaremos mais tarde, são considerados pelos seus companheiros, como sendo uns heróis, ou seja, é quase o máximo que se pode exigir a uma pessoa viajando de moto, depois desta aventura fica mais ou menos com a patente de “General”, na linguagem militar.


Esperámos pela nossa vez. Tirámos as fotos da praxe junto do “Historic Milepost 0”, visitámos o local que circunda toda a área, fizemos os últimos preparativos, tanques cheios de gasolina, o do Jeep e mais quatro tanques extras, de cinco galões cada um, água, fruta, pão, mapas organizados, o GPS ligado e, marcado no que julgávamos ser o nosso destino, embora sabendo que em muitas partes do percurso não existe sinal de satélite, que era só uma estrada, não havia que enganar, mas queríamos saber as milhas percorridas a cada instante. Eis-nos na estrada, que começa na cidade de Dawson Creek, no Canadá e se prolonga até à cidade de Delta Junction, onde está o “Historic Milepost 1422”, já no estado do Alaska, continuando para sul, ou para norte, com o nome de “Richardson Highway”, para sul, leva-nos à cidade de Valdez, para norte, leva-nos à cidade de Fairbanks, onde se encontra o “Historic Milepost 1520”, que nos diz que percorremos mais ou menos 2500 quilómetros de terra, lama, pedra miúda ou graúda, algum alcatrão, riachos, buracos com água, alguns com dimensões para tomar banho, pontes em reparação, onde passa só um veículo de cada vez, entre outras coisas, a espera pelo “Carro Piloto”, que nos guia por uma determinada distância, onde não temos autorização de nos desviarmos da rota do referido carro.


Mas nem tudo são coisas más, pois a paisagem é de outro “planeta”, temos a oportunidade de apreciar, algumas planícies, montanhas, “glaciares”, aves e outros animais selvagens, lagos, rios revoltosos, alguns de água quente, árvores, vistas de montanha que não se tem oportunidade nunca na vida de um ser humano ver, a não ser viajando no “Alaska Highway”.


O “Alaska Highway”, a quem também chamam, “Alaskan Highway”, “Alaska Canadian Highway”, ou simplesmente “ALCAN Highway”, foi construído durante a “World War II”, (Segunda Guerra Mundial), com o propósito de haver uma via de comunicação terrestre entre os USA e o estado do Alaska, passando pelo Canadá.


A sua construção começou no ano de 1942, pois o ataque do Japão à baía de Pearl Harbor, no Hawai, começou um teatro de guerra no oceano Pacífico, com o Japão a querer avançar para ocupar a costa oeste dos USA, incluindo as “Aleutian Islands”, que se situam também na parte oeste do Alasca. Assim, no dia 6 de Fevereiro de 1942, o congresso dos USA, aprovou a sua construção e, o presidente Franklin D. Roosevelt mandou começar as obras uns dias depois, o Canadá concordou com a condição de a construção ser financiada pelos USA e, no final, a estrada e todas as facilidades dela provenientes, ficassem propriedade do governo do Canadá.


Oficialmente a sua construção começou em Março de 1942, depois de centenas de peças de equipamento de construção de estradas terem sido transportadas com uma certa prioridade por comboios da “Northern Alberta Railways”, com o pessoal do “U. S. Army Corps of Engineers”, (Corpo de Engenheiros do Exército dos USA), que é uma agência federal, que em conjunto com o “Major Army Command”, (Comando Maior do Exército), que integrava alguns milhares de pessoas, civis e militares, que ainda hoje estão associados à construção de barragens, canais, ou protecção contra inundações ou outras catástrofes, não só nos USA, como em diversas partes do mundo, juntamente com o mesmo departamento do estado do Canadá, a trabalharam arduamente, pois havia notícias que o Japão queria invadir Kiska Island e Attu Island, na região das “Aleutians Islands”. Tudo tinha que ficar completo antes que chegasse o inverno, uns começando pela parte do norte/oeste e outros pela parte do sul/leste, encontrando-se em Setembro do mesmo ano, na “Históric Milepost 588”, que depois foi chamada “Contact Creek”.


Em Outubro do mesmo ano estava completa e, quero mencionar algumas curiosidades, uma foi, que não existe, em todo o seu percurso, um único túnel, tudo foi feito à pressa, à luz do dia, improvisando, com os recursos que na altura havia, fazendo todas as curvas, que o acidentado do terreno mostrava, em algumas zonas, não sendo possível seguir, rasgavam o lado das montanhas, de onde tiravam terra, cascalho ou pedra, para colocar em alguns terrenos mais baixos, que eram alagadiços. Outra curiosidade, foi que durante a sua construção foi chamada de “Oil Can Highway”, dado o grande número de latões vazios de óleo e outros combustíveis, que iam ficando para trás, marcando o progresso da estrada. Também devemos recordar que foi construída, quase toda, com muito trabalho físico, onde era usada a pá, picareta e a vagoneta, também movida com esforço físico, por homens, do tempo dos nossos pais ou avós, pois nos dias de hoje, para se estender um fio eléctrico de umas centenas de metros, usam um helicóptero.


Já chega de história, os primeiros contactos com o “Alaska Highway”, foram no início, tal como esperávamos, longas zonas de estrada em construção sinal que daqui a alguns anos, já não vai existir o “Alaska Highway”, pois o progresso vai fazer desta estrada, onde ainda existem as tais pontes originais, que atravessam rios e ribeiros, precipícios, zonas de lagos, animais a atravessarem a estrada, não contentes com a presença humana no seu território e, como dizíamos vão fazer dela uma verdadeira auto-estrada, é o sinal do progresso, já existem povoações que são formadas única e simplesmente por trabalhadores de construção de estradas, com casas transportáveis, tipo “contentor”, onde existem já alguns hotéis, sempre com lotação esgotada, sem qualquer vaga, só para trabalhadores de construção, com oficinas e algumas plantas de cimento e alcatrão, tudo isto nas primeiras 80 ou 100 milhas, mais ou menos, mesmo depois de passar a povoação de Fort St. John, onde comprámos alguma gasolina.


Depois, continuou a aventura, parando aqui ou ali, umas vezes por obras de reparação na estrada, onde o inverno, com avalanches de neve, ou forte corrente de água, onde os rios cresceram destruindo parte da estrada, principalmente junto de algumas pontes, outras vendo a paisagem, chegando à povoação de Fort Nelson, “Historic Milepost 300”, onde encontrámos alguns dos aventureiros das motas que connosco estiveram na cidade de Dawson Creek, pela manhã, sujos, molhados, mas alegres, trocando a corrente das motas, dizendo que nesse mesmo dia, se iam aventurar até à povoação de Liard River.


Nós, com o Jeep e a Caravana, bastante sujos, mas em boa condição de andar, depois de ver muitos ursos pretos e castanhos, lobos, muitos búfalos, aves e outros animais a atravessarem a estrada, ou a fugirem a esconder-se no interior das matas que circundam a estrada, rios selvagens, montanhas com neve, cascatas de água pura, resolvemos acampar na região de “Muncho Lake”, “Historic Milepost 456”, mesmo à beira do lago, com água também pura, vinda dos “glaciares”, que se pode beber. Aqui preparámos uma refeição com vegetais e conservas portuguesas e vinho também português, dormimos na nossa Caravana e, quando abríamos a porta, deparávamos com um cenário de montanha e lagos que talvez custasse “um milhão de dólares”, mas que não era possível ver, se não nos tivéssemos “arrojado” a esta aventura.

Neste dia percorremos 489 milhas, com o preço da gasolina a variar de $1.78 a $1.98 dóllares o litro.

Tony Borie, Agosto de 2014
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Nota do editor

Último poste da série de 13 de Setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13606: Bom ou mau tempo na bolanha (65): Da Florida ao Alaska, num Jeep, em caravana (6) (Tony Borié)