Crónicas da III viagem a (e estadia em) Timor Leste (janeiro- abril 2019) - Parte II: semana de 10 a 16 de fevereiro
por Rui Chamusco
10.02.2019, domingo - Bendita promiscuidade!...
Será que o jardim do Eden era assim?...Passo a descrever o que me rodeia enquanto escrevo: pardais, galinhas, pintaínhos e galos, cães, porcos (javalis), peixes, teques e toquês, papaeiras, bananeiras, coqueiros, palapeiras, goiabeiras, árvores que dão mangas, inhames (talas), casas em blocos, telhados de zinco, pessoas, crianças,etc...
Tudo isto tendo como banda sonora o cantar dos galos ao desafio, o piar dos pintaínhos, e uma luz solar que dá cor e brilho a tanta criatura.
Não fora alguns maus odores provenientes de infraestruturas debéis ou quase inexistentes e de lixos acumulados, diríamos que estávamos no paraíso. A natureza no seu melhor e o progresso no seu pior com este maldito império dos plásticos e outras porcarias que infestam o ambiente. É assim a ação humana: ao querer arranjar muitas vezes estraga.
São as consequências nefastas da civilização e do progresso.
10.02.2019 - Carga d’água
Mais uma demonstração de força da natureza.. Talvez a maior chuvada que eu já vi em Timor. Pelas dezassete horas, um ruído crescente vindo de longe, se foi aproximando. Era a chuva que, batendo nas folhas das árvores e nos telhados de zinco, anunciava a sua chegada. E choveu tanto, tanto, tanto que não ficou um palmo de terreno seco. Uma benção, dizem uns: uma desgraça dizem outros. Imagino como terá ficado o caminho de acesso a Boebau...
Aqui, em Ailok Laran, cada vez que chove, mesmo que seja muito, é uma festa. Todos saem à rua gritando e brincando com a água. Com roupa ou quase sem ela, todos encharcados até ao tutano ósseo, divertem-se com brincadeiras de criança que a todos nos fazem inveja. Então o Gaspar, prevendo já o que vai acontecer sempre que estas cargas de água nos visitam, vai apressado buscar a máquina de filmar pararegistar estes felizes acontecimentos.
“E a chuva ouviu e calou seu segredo à cidade. E eis que ela bate no vidro, trazendo a saudade”.
11.02.2019, segunda feira - Deus nos dê paciência!...
Isto é que vai uma crise!..É já a quinta vez que o Eustáquio e eu vamos à paróquia de Motael para que um registo de Batismo seja assinado pelo pároco. E ainda não foi desta. Enchem-se de razões para justificarem o padre: “o amo (padre) está doente”, “o amo está em reunião”, o “amo está a dormir a sesta”, patati-patatá, patati-patata.
O que é certo é que a certidão de Batismo ainda não está assinada. E depois de assinada ainda tem que se ir à chancelaria diocesana para carimbar. Será que o processo é omesmo? Por quanto tempo temos de esperar?
Custa-me ver como estes serviços ligados à igreja (a certidão de batismo consta como registo oficial da certidão de nascimento) não têm uma resolução mais célere e mais eficaz.
Sei que os timorenses são um poço de paciência, mas quanto tempo não se ganharia com um serviço mais pronto e eficaz. Deus nos dê paciência!
11.02.2019 - Um encontro franciscano-capuchinho
Já não é a primeira vez que por aqui nos encontramos. O frei Fernando, superior provincial dos franciscanos-capuchinhos em Portugal, veio de visita canónica às fraternidades de Tibar e Laleia. O frei Miguel, que conheci pela primeira vez, é o superior e pároco da comunidade de Laleia. À hora marcada e connosco já esperando no Pateo, apareceram trajados com o hábito dos capuchinhos, dando assim testemunho da sua condição de frades menores. Gostei da imagem simples com que apareceram.
A mesa completou-se assim: o frei Fernando e o frei Miguel, o Eustáquio e o Gaspar Sobral, e eu próprio. Enquanto saboreávamos um café à portuguesa, pusemos a conversa em dia, particularmente eu e o Fernando, pois muitas coisas nos unem desde os tempos da sua adolescência (fui diretor dele no seminário).
Serviu também este encontro para combinarmos uma visita à Escola de São Francisco de Assis em Boebau. Com certeza que todo aquele povo e especialmente as crianças vão gostar de ver o São Francisco de Assis, hoje em carne e osso, e irão cantar com toda a alma “ São Francisco lá na glória / Lá nesse formoso céu / Protege a nossa escola / Protege este povo teu “ (letra do hino da escola).
Como sempre o Fernando desfaz-se em atenções para comigo, o que muito lhe agradeço. Mas ele sabe bem que estamos em sintonia, no mesmo barco, em projetos de solidariedade de “Paz e Bem”.
11.02.2019 - Farwest made in Ailok Laran
Quem diria do que esta gente se lembra?!... Durante a tarde, sob uma grande chuvada, ouvimos um enorme alarido de bandos de pessoas que corriam numa determinada direção. O que é?... O que não é?... E todos aguçavam a sua curiosidade.
Soubemos que um jovem agrediu outro, e que as claques se juntavam e incitavam o seu protegido. E até já sabíamos o nomes dos protogonistas desta batalha. Diziam até que já lá estava a polícia.
Foi então que o Chefe da aldeia Bartolomeu Pinto passou por aqui e nos explicou o que verdadeiramente se passava. Trata-se de cenas montadas previamente de lutas para serem gravadas e publicitadas no youtube. Por cada visualização esses jovens irão receber a sua recompensa em dinheiro, fazendo desta atividade uma forma de ganharem a vida.
Não sei não, mas se a moda pega vai haver uma grande batatada!...
13.02.2019, quarta feira - filosofia oriental
Estamos sempre a aprender com esta gente. Então não é que o Eustáquio, constatando que eu e o Gaspar andamos meio adoentados com forte tosse e expetoração profunda, nos dá uma lição de vida!
Segundo ele e os entendidos deste canto do mundo, somosnós que criamos as nossas próprias enfermidades. Tal e qual! E explica: “se tem qualquer coisa na cabeça, sobretudo maus pensamentos, tem que deitar fora, falar.
Não pensar nem guardar só para si. É o que guardamos dentro que nos faz mal, e provoca a dores no nosso corpo. Não precisa de médico...”
Isto dito assim até nem parece errado. Aliás é o fundamento de todas as técnicas de psicoterapia. Mas será que chega? Não será melhor atacar logo com um produto farmacêutico Recorrer a terapias disponíveis e a processos mais rápidos e eficazes?
Pelo sim e pelo não esta tarde vou consultar um médico. E pode ser que, com culturas e conhecimentos orientais, possam curar este corpo ocidental.
E de repente vem me à ideia o título do livro de Roger Garaudy “Parole d’homme -Ocident ou Acident?”, onde se pode concluir que a salvação vem do oriente.
Estejamos portanto muito atentos...
13.02.2019 - Cobardia!...
Falo de mosquitos, de melgas... Então não é que mordem a gente à traição, pois estamos a dormir, enchem a barriga do nosso sangue e depois abandonam o local do crime.
Depois de verificar o estrago que me fizeram, busquei furioso a raquete assassina para me vingar destes dráculas. Querem lá saber... Nem um sequer apanhei! E por aquinandamos nós ao sabor desta bicharada que teima em dar cabo de nós â ferroada.
Cobardes, cobardes, cobardes!... Eles que se deixem apanhar para verem os que lhes acontece. Nem os ossos se lhes vão aproveitar!...
14.02.2019, quinta feira - Rumo a Liquiçá
Com várias tarefas em mente, mas sobretudo o encontro com o diretor distrital de educação dr. Zito (?), a fim de nos esclarecer em pormenor o apoio que estão a dar à Escola de São Francisco de Assis em Boebau. Muito bem recebidos pelo senhor diretor e por um seu colega, depressa mos deram conta da situação.
Ficamos então a saber que a escola de São Francisco de Assis está registada no ministério de educação timorense com o número 36 do distrito de Liquiçá, e que irá usufruir dos apoioslogísticos ao dispor. Este ano letivo conta com duas salas de ensino pré-escolar, e é frequentada por 40 crianças. O professor Luís, no cargo de inspetor do ensino pré-escolar, garantiu-nos que todas as ações de formação destinadas a este ensino, promovidas por esta direção escolar seriam comunicadas a tempo de modo a poderem ser frequentadas pelas trabalhadoras da nossa escola. O resto: apoios económicos, destacamentos e outras coisas mais explicaram que dependiam do que o ministério da educação lhes afetasse.
Por fim, e em jeito de remate, ouvimos da parte do senhor diretor o mais importante desta nossa visita de cordialidade: “Com a vossa colaboração e o nosso apoio a Escola de São Francisco vai fazer o seu caminho, a pouco e pouco; vai funcionar para bem de todas as crianças que a frequentam”.
14.02.2019 - Enxurrada inesperada
Estamos de volta. Na estrada Liquiçá-Dili, constantemente em obras, e que mais parece solo lunar devido ao pó e às crateras, um pouco antes do cruzamento para Tibar acontece o inesperado. Uma grande enxurrada corre precipitadamente edesemboca mais ou menos a dez metros do mar. Cada um safa-se como pode.
Motores e karretas procuram o melhor sítio para passar.
Também o Eustáquio deu o seu melhor para que o carro em que viajávamos chegasse são e salvo ao outro lado. Azar!... O motor parou e , de tentativa em tentativa, negava-sde sempre a pegar. Uma confusão danada. Apita daqui, apita dali. Uma microlete ainda parou para tentar ajudar, mas ninguém tinha corda para atrelar. O Gaspar bem tentou telefonar ao Quino para que fosse ao nosso encontro munido da cordanecessária, mas nada conseguiu.
E no meio desta ansiedade onde até já se rezava, um sinal de esperança surgiu, A mais uma tentativa de ver se pega, o motor arrancou e com muita dificuldade lá foi andando devagarinho, ganhando ânimo e acelerando, apreensivos até ao fim. Só em casa ficamos descansados. Está claro que o êxito desta expedição deve-se inteiramente ao Eustáquio, homem persistente e desenrascado. E à proteção divina.
14.022019 - O amor anda no ar
Anunciado e festejado em todo o mundo (o amor é universal), o dia de São Valentim tem o condão de avivar sentimentos, de despertar paixões, de combinar arranjos, de suscitar gestos, mensagens, telefonemas, cartas... e tudo o mais que seja preciso para que o mundo pule e avance “ como bola colorida nas mãos de uma criança”.
Há quem tente esquivar-se deste dia, tentando dar a entender que tudo isto é uma fantochada. Mas Cupido, com a sua flecha amorosa, a todos atinge, queiramos ou não. Porque, “o amor anda no ar”. Basta abrir os olhos para o ver, abrir as narinas para sentir o seu odor, abrir os ouvidos para escutar os seus segredos. E, como diz a letra de uma canção espanhola, “Cinco sentidos tenemos / De todos necessitamos / Pero los cinco perdemos / Quando nos enamoramos”.
Hoje mesmo, aqui em Ailok Laran, pude compreender que este dia pode ser importante para alguém. O namorado da Eza, cumprindo o ritual de São Valentim, veio namorar à noitinha. E mais uma vez associei a letra da canção do rio Douro “conta a lenda / Que a namorar à noitinha / Foram encontradas as ninfas / com o rio Douro ao luar!”
Sim, a força do amor (que não só o amor físico) move montanhas. “Sapete perché il mondo va? Perché in torno al mondo gira l’amore...” E, embora com um dia especial, 14 de Fevereiro - que São Valentim seja todos os dias.
16.02.2019, sábado - ADHAN: o chamado para a oração
Aqui, em Timor, a religião mulçumana tem uma grande adesão, ainda que não comparável com a religião cristã, com destaque para a religião católica.
Cada religião desenvolveu uma maneira de chamar os seus fiéis para o momento do culto: os judeus utilizavam uma corneta, os budistas uma trombeta, os cristãos os sinos das suas igrejas...
Já não é a primeira vez que, entre as cinco e cinco e meia da manhã, oiço o uma voz que percorre este ambiente. No princípio algo estranho, mas depois facilmente compreensível. Trata-se da chamada para a oração mulçumana - o Adhan - que é pronunciado em tom melodioso pelo Muazzin, do alto dos minaretes das mesquitas de todo o mundo.
Não percebendo nada do que se dizia cantando, fiz uma pesquisa na net sobre o conteúdo deste anúncio. E então deparei com o original e a sua tradução, que transcrevo:
Allahu Akbar | Deus é Maior !
Ach hadu an la ilaha ill- Allah | Testemunho de que não há outra divindade além de Deus.
(Revisão / transcrição de texto, título, negritos: LG)
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Nota do editor LG:
Último poste da série > 20 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27934: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte I: semana de 31/1 a 9/2: santa paciência e ajudas...divinas