Timor-Leste > Liquiçá > Manatti > Boebau > Placa da inauguração da Escola de Sáo Francisco de Assis, em 19 de março de 2018.
Foto: cortesia de página do Facebook da ASTIL
1. O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (exceto na pandemia, 2020, 21 e 22).
São 3 dias de viagem até Díli!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e há dias fez uma operação cirúrgica,delicada, de que está a recuperar felizmente bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue.
Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram entretanhto superadas. Falta, finalmente, resolver o magno problema da colocação, definitiva, de professores de carreira. A escola continua a ser privada e inteiramente financiada pela ASTIL (e os pais dos alunos).
Em Ailok Laran, nos arredores de Díli, costuma ficar na casa do irmão mais novo do Gaspar Sobral (outro cofumdador e dirigente da ASTIL, luso-timoresne, retornado de Angola, onde foi topógrafo), o "Eustáquio" (João de Araújo Moniz de Oliveira Sobral) (que de 1975 a 1978, andou fugido dos indonésios nas montanhas de Liquiçá, com a irmã mais nova e a mãe, tinha então 14 anos!).
Foto à direita: Rui Chamusco (à esquerda), professor de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste: é natural ds Malcata, Sabugal; vive na Lourinhã; é membro da Tabanca Grande, tem 70 referências no blogue; à direita, o Gaspar Sobral, o luso-timorense, retornado de Angola, casado com a Glória Sobral, natural de Sabugal: foi este casal que meteu o Rui nesta aventura solidária (que, para todos, tem sido gratificante).
Quem sabe se o incêndio da catedral de Notre Dame de Paris, este e outros acontecimentos, não terão alguma pedagogia divina? Quem sabe se, em contexto de fé, não serão uma chamada de atenção?... Até já há quem relacione este acontecimento com as “profecias de Nostramus”, como um sinal de purificação nesta Europa que envelhece e perde muitos dos seus valores e referências.
São 3 dias de viagem até Díli!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e há dias fez uma operação cirúrgica,delicada, de que está a recuperar felizmente bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue.
Ele é um exemplo vivo, o dele e da associação que ajudou a fundar (a ASTIL), de amor à lusofonia. Essa história merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné.
Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Depois da pandemia, o Rui voltou a Timor-Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).
Banda desenhada: Rui Gaspar, João Crisóstomo e Gaspar Sobral, membros da ASTIL
"Prompt e orientação editorial: Luís Graça | Imagem: João Crisóstomo (2017) | Geração gráfica assistida por IA: Google (2026), Gemini (versão de 8 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem]. Disponível em: https://gemini.google.com/ "
Continuamos a publicar e excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), realizada pelo Rui Chamusco a Timor-Leste, enquanto cofundador e dirigente da ASTIL, a associação portuguesa de solidariedade com Timor Leste (ASTIL).
Lendo as suas crónicas (que ele reuniu numa brochura em pdf, com cerca de 3 centenas de páginas), ficamos a saber muito mais sobre a história, a cultura, a geografia, a sociodemografia, a idiossincrasia daquele país, que nos é tão querido, membro da CPLP.
Além da construção, organização e funcionamento da Escola, a par do "apadrinhamento de crianças em idade escolar", a pequena ASTIL (que tem sede em Coimbra e delegação no Sabugal) já construiu a "casa do professor" e adquiriu uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha.
Além da construção, organização e funcionamento da Escola, a par do "apadrinhamento de crianças em idade escolar", a pequena ASTIL (que tem sede em Coimbra e delegação no Sabugal) já construiu a "casa do professor" e adquiriu uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha.
Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram entretanhto superadas. Falta, finalmente, resolver o magno problema da colocação, definitiva, de professores de carreira. A escola continua a ser privada e inteiramente financiada pela ASTIL (e os pais dos alunos).
Em Ailok Laran, nos arredores de Díli, costuma ficar na casa do irmão mais novo do Gaspar Sobral (outro cofumdador e dirigente da ASTIL, luso-timoresne, retornado de Angola, onde foi topógrafo), o "Eustáquio" (João de Araújo Moniz de Oliveira Sobral) (que de 1975 a 1978, andou fugido dos indonésios nas montanhas de Liquiçá, com a irmã mais nova e a mãe, tinha então 14 anos!).
Rui Chamusco e Gaspar Sobral (2027) |
Foto à direita: Rui Chamusco (à esquerda), professor de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste: é natural ds Malcata, Sabugal; vive na Lourinhã; é membro da Tabanca Grande, tem 70 referências no blogue; à direita, o Gaspar Sobral, o luso-timorense, retornado de Angola, casado com a Glória Sobral, natural de Sabugal: foi este casal que meteu o Rui nesta aventura solidária (que, para todos, tem sido gratificante).
III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XI: semana de 14 a 20 de abril
15.04.2019, segunda feira - Ambição humana ou recado de Deus?
Este dia ficará na história da humanidade como um marco indelével da perda de um património social, político e religioso ímpar, incapaz de ser reparado na totalidade.
O incêndio deflagrado na Catedral de Notre Dame de Paris deixou todo o mundo atónito. A tarde deste dia 15 de Abril de 2019 ficará registada na história de França com marcas de angústia, de tristeza, de pena e de lamentações. Oitocentos anos de vida que, de um momento para o outro, são postos à mercê das chamas, com obras dem arte reduzidas a cinzas.
A notícia correu célere por todo o mundo. E até aqui em Timor, a tantos quilómetros de distância, é o tema de conversa, particularmente entre os ocidentais que por cá habitam e aqueles que alguma vez tiveram a sorte de visitar
este monumento de renome internacional.
Lembro-me, nos princípios dos anos oitenta, quando habitava Paris, das experiências e vivências que tive neste local: o espetáculo noturno, com raios laser, sobre a história de Notre Dame de Paris; o encontro com o escritor Pe. Jean Leclérc, que dispunha de um gabinete de atendimento na catedral por onde passavam pessoas desesperadas da vida e que, em última oportunidade, foram salvas do suicídio graças a estes encontros (o livro “Début sur le Soleil” escrito por este autor reflete muitos destes casos); o encontro de emigrantes portugueses que, numa tarde de domingo, encheu por completo este templo para uma celebração eucarística, e que depois se prolongou no “parvis de Notre Dame” com manifestações culturais e recreativas; as visitas ocasionais em que eu fiz de guia a alguns amigos que visitaram esta catedral durante a minha estadia nesta cidade da luz.
É impossível ficar indiferente a tal tragédia.
Mas, como nada acontece por acaso, e tal como outros já fizeram com certeza, questiono-me sobre o porquê deste e doutros acontecimentos similares. Como entender tais acontecimentos? Terão algo para nos dizer? Que a Torre de Babel se tenha desmoronado, até parece compreensível à luz da mensagem bíblica. Que as “torres gémeas” de New Work tenham sido abatidas por terroristas assassinos, até parece que se entende devido ao ódio instalado no mundo árabe contra os americanos.
Tudo o que é grande e se orgulha de si próprio como o maior de todos tem o seu fim à vista, sejam torres, aviões, barcos, pessoas, nações, etc... E até pode haver quem diga que isto é castigo de Deus, que são lições de vida, que é o que tem de ser...
Quando há muitos anos estudei teologia, um dos temas de estudo era a “Teofania dos Lugares Altos”. Aí aprendemos que, ao logo de toda a história da salvação, os homens sempre acreditaram que, estando Deus lá no céu, a melhor maneira de estar mais perto dele é subir o mais alto possível, na tentativa de Lhe tocar. Por isso tantos templos, tantas igrejas, tantas capelas no cimo dos montes e em toda a parte.
Mas será que Deus quer ser mesmo tocado (apanhado) desta maneira? Não será mais certo procurarmos cá em baixo o Deus que encarnou e habita connosco? Não será demasiada ambição querer ser igual ou superior a esse Deus criador do céu e da terra?
E por aqui me fico, não vão apelidar-me de profeta da desgraça, de bruxo ou de outra coisa qualquer...
17.04.2019, quarta feira - Ida e volta a Boebau
Era assim que estava combinado. A educadora Diana Rebelo, aproveitando as férias de Páscoa, dispôs-se a ir até Boebau, à Escola de São Francisco de Assis, para “in loco” orientar as duas estágiárias nas suas atividades com as crianças.
Claro está que nós (o Eustáquio, o Gaspar, a Adobe, a Diana e eu) sentimo-nos na obrigação de a acompanhar e apoiar em todas as solicitações. Depois de três horas de caminho nada fácil, mesmo que viajando em jipe alugado para o efeito, lá chegamos ao destino, onde as crianças já nos esperavam. Depois da imposição do tais à educadora Diana, e feitos os cumprimentos habituais, fomos mostrando e explicando as instalações da escola.
A Diana aproveitou logo para dar sugestões de trabalho para estes dois grupos de crianças: o Grupo A, de 3 e 4 anos, com 17; o Grupo B, de 5 e 6 anos, com 27 crianças. Ao todo frequentam neste momento a escola 44 alunos.
Verifiquei a avidez com que as senhoras Fátima e Adelina (estagiárias) ouviam e assimilavam as observações feitas pela professora educadora, bem como a preocupação de registarem as ideias de trabalho para cada um dos grupos. Tenho a certeza de que esta visita vai contribuir imenso para o bom funcionamento da escola São Francisco de Assis. À educadora Diana um grande obrigado pela ajuda que, desdeno primeiro momento, nos tem prestado. É para nós uma referência de solidariedade.
Apesar dos muitos afazeres, está sempre disposta a colaborar connosco. OBRIGADO!
Aproveitamos também esta curta estadia para tratarmos de alguns assuntos pendentes, nomeadamente da construção de uma casa residencial para professores e voluntários.
Estivemos no local previsto para a construção, e estamos agora à espera de negociar o terreno e a empreitada. Pedimos para que fossem rápidos a apresentarem as suas propostas e, se assim for, em breve começará a sua construção. Casa residencial é uma condição “sine qua non” para que possamos motivar alguém da classe docente a aceitar trabalhar na nossa escola. Por nossa vontade, a sua inauguração será no começo do ano 2020. Mas isso não depende inteiramente só de nós.
Eram 14 horas quando procedemos ao regresso. Pelas 17.30 horas estàvamos todos em casa, felizes desta jornada. Amanhã será outro dia...
19.04.2019 - Sexta Feira Santa: hábitos, usos e costumes...
A religião católica, a par de outras religiões, tem uma presença muito signicativa na sociedade timorense. A sua influência na vida deste povo é bem notória nos seus hábitos, usos e costumes.
Hoje, Sexta Feira Santa, segundo dia do tríduo pascal, “es dia de dolor / murió nuestro Señor / No se puede estudiar” (letra de uma canção espanhola).
Pois, aqui em Timor, povo que alia a sua cultura animista ao culto e à prática religiosa, celebra-se com devoção o dia da morte do Senhor em cerimónias que, sobretudo a religião católica, organiza nas suas igrejas. A afluência dos fiés é enorme e, regra geral, todo o povo se orienta por regras e princípios que desde há muito existem ou existiram na maior parte do mundo católico.
Sabemos que o mais importante está dentro de nós, observantes ou não observantes. Sabemos que há pessoas não alinhadas nestas práticas religiosas.
Sabemos que cada um é livre de seguir esta ou aquela religião. Mas há ainda nesta cultura timorense hábitos, regras, usos e costumes que no dia de hoje, Sexta Feira Santa, ninguém deve transgredir: não dar o bom dia, a boa tarde, a boa noite; não varrer a casa; não fazer barulho: não gritar, não assobiar e não cantar; não ver televisão, etc, etc...
Onde é que eu já vi isto há mais de cinquenta anos atràs?
A verdade é que aqui, em Ailok Laran, hoje não se tem ouvido a algazarra, a música do todos os dias: crianças que passam, jovens cantarolando e tocando guitarra, carretas carregadas de produtos alimentares que, em alta música, vão anunciando a sua chegada, etc...
O único ruído que se vai ouvindo são as folhas das árvores que, sopradas por um vento suave, nos vão enchendo os pulmões de oxigénio. Nem mesmo o cantar dos galos ou o cacarejar das galinhas se faz ouvir. (Ops!... que agora cantou um galo três vezes e me alertou de que, tal como Pedro, vos estou a mentir.)
Seja como for, o melhor é respeitar a cultura deste povo e a suas manifestações religiosas. Sexta Feira Santa, um dia de respeito, de devoção, de silêncio interior, de purificação. Estamos a caminho da Páscoa da Ressurreição...
20.04.2019, sábado - Vigília Pascal...em noite de lua cheia
Para os cristãos esta é a noite mais importante do seu calendário litúrgico. Como se lê ou canta no Precónio Pascal, também chamado de “Exultet”, esta é a noite ditosa em que o céu se une à terra para celebrar a Ressurreição de Jesus:
“No esplendor desta noite / Que viu ressurgir Jesus / Do sepulcro. Exultemos / Pela vitória da Cruz.”
“Noite mil vezes feliz / Na noite clara como o dia / Na noite de Cristo glorioso / Exultemos de alegria.”
Não importa muito como se começa; importa é como se acaba. Ora, convenhamos que a ressurreição de Jesus é um acontecimento únco na história da humanidade, e é o auge de toda a vida terrena, de toda a vida cristã. Como diz a letra do cântico “Ressuscitou” de Kiko Arguello: “ Se com Ele morremos, com Ele vivemos, com Ele cantamos Aleluia!” Ou seja, também nós havemos de ressuscitar. É uma questão de fé. Temos de acreditar.
Em todo o mundo os cristãos celebram a Páscoa (do hebraico Pasha, que quer dizer passagem) com manifestações religiosas diversas: a Festa da Ressurreição, a Festa das Flores (talvez por ser o inívio da primavera): Para os não cristãos é também uma festa.
São as férias escolares, são os encontros de família e de amigos, são as provas desportivas, são os doces e as amêndoas, etc... Queiramos ou não todo o mundo está envolvido. É a Festa da Páscoa de 2019.4.21
Aqui em Timor, com uma maioria predominantemente católica, vive-se a Páscoa intensamente. A julgar pela afluência e participação dos fiéis nas cerimónias que as igrejas promovem.
Em Ailok Laran, pelas dezanove horas passavam constantemente grupos de pessoas bem trajadas. Perguntei para onde ia toda aquela gente, e de pronto
me responderam: “vão para a catedral, para a vigília pascal. Com mais ou menos meia hora de caminhao para cada lado, quer dizer que só lá para a meia noite estarão de volta. A liturgia desta vigília é muito demorada, devido em parte à quantidade de leituras que são proclamadas. Mas esta gente é de ferro. Tudo suporta em nome daquilo em que acredita. É gente de uma fé inabalável, capaz de tudo. Que Deus os abençõe!
E eu, um ocidental aqui deslocado, que faço eu neste contexto? Às vezes tenho inveja da fé simples mas forte destes crentes. Nós escusamo-nos e defendemo-nos com a nossa racionalidade, mas eles dão-nos exemplos e lições do que é acreditar com o coração. Se calhar, eles é que têm razão.
Mas nesta noite santa de 20 de Abril de 2019, quis a natureza associar-se a esta vigília pascal, presenteando-nos com uma lua cheia espetacular. A noite estava inundada de luz, a preconizar a luz solar que iria colmatar este luar.
Sentado na varanda mais alta desta casa, desfrutei por horas este cenário idílico, deixando-me embeber deste luar inebriante. E, contemplando a lua, pensei em tudo: no homem que lá se vê com um molho de silvas às costas (crendice de meninos); nas viagens lunares, na compra de terrenos e viagens para a lua, no fascínio e apetência dos homens por este astro através dos tempos.
A lua feiticeira que a todos encanta e extasia. Contemplando o horizonte, cheio de luzinhas e penumbras provocadas pelo arvoredo circundante, termino louvando o criador com as palavras de São Francisco de Assis, no Cântico do Irmão Sol ou Cântico das Criaturas: “ Louvado sejas meu Senhor pela irmã lua e as
estrelas que no céu formaste claras. preciosas e belas.”
(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
______________
Nota do editor LG:














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