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segunda-feira, 16 de maio de 2011

Guiné 63/74 - P8281: Tabanca Grande (283): Maria Dulcinea Rocha (NI), esposa do nosso camarada Henrique Cerqueira, que com o filhote de ambos se pôs a caminho de Bissorã onde fez companhia ao marido nos anos de 1973 e 1974

1. Recordemos parte do poste P3779* onde o nosso camarada Henrique Cerqueira (ex-Fur Mil do 4.º GCOMB/3.ª CCAÇ/BCAÇ 4610/72, Biambe e Bissorã, 1972/74) conta o modo como sua esposa, corajosamente, acompanhada do pequeno filho de ambos, meteu pés ao caminho e foi para Bissorã viver a guerra com o seu marido.


Ni, Mansoa, 1973/74

Aproveitando o desafio do nosso camarada Carlos Vinhal, vou então fazer aqui a descrição possível de como foi a vida da minha mulher (com e) na Guerra. Para além disso aproveito assim para lhe fazer uma merecida homenagem, porque foi necessário que ela tivesse muita coragem, abnegação, amor e também uma boa dose de aventureirismo, para tomar a atitude que tomou, ao se juntar a mim na Guiné, em pleno período de guerra e até na altura em que tudo começava a parecer caminhar para o abismo.

Quando informei o meu Comando da minha pretensão de chamar para junto de mim a minha mulher e meu filho Miguel de dois anos, fui desaconselhado.
Eu era um pouco rebelde e em todo aquele cenário de guerra a coisa que mais me custava era o afastamento da família, já que todas as outras dificuldades, bem conhecidas de todos nós, eram como de costume superadas, ora com umas pielas, ora com umas chatices com os superiores hieráticos, etc.
Para a falta da mulher e filho é que não havia nada que apaziguasse.

Ultrapassadas as desmotivações, há que passar à acção para concretizar o nosso desejo (meu e da minha mulher). Após as combinações telefónicas e escritas, marca-se a data para o encontro que virá a acontecer em finais de Setembro de 1973.

A família de Henrique Cerqueira, durante a "Operação ao Biambe"

Há aqui que acrescentar, que esta decisão envolve um camarada e amigo meu que foi o Alferes Santos que estava também na CCAÇ 13 em Bissorã, e que já tinha estado comigo no Biambe, porque ambos pertencíamos ao BCAÇ 4610/72. De certo modo tínhamos em comum a maluqueira instalada nos nossos cérebros e pelos vistos ele foi mais maluco que eu, porque veio de férias à Metrópole, de propósito, para casar e como Núpcias ofereceu à sua novíssima esposa uma bela estadia em Bissorã, recheada de aventuras, tais como paludismo, mosquitos, osgas e até Guerra ao Vivo, mais à frente eu explico.

O "operacional" Nuno Miguel no intervalo da "Operação ao Biambe"

Mas voltando à minha Mulher de Guerra. Antes de historiar, vou começar por apresentá-la, pois que se publicares esta história, acho justo que conste o seu nome assim como o de meu filho. É que queira ou não, a minha MULHER DE GUERRA para além de todo o apoio sentimental que me proporcionou, fez história comigo porque passou por ter de enfrentar penosas viagens, instalações precárias, alimentação deficiente, mosquitos e dois ataques directos à nossa povoação, um dos quais com mísseis.
Ficou no entanto altamente enriquecida com o contacto que teve com as populações da Guiné e suas etnias, como libaneses e caboverdianos. Formámos uma amizade razoável com uma família libanesa e com o casal Administrador de Bissorã que eram de Cabo Verde.

NI e Nuno Miguel confraternizam com tropas do Biambe

O que mais me marcou tem a ver com os factos por mim já narrados no nosso Blogue, quando nos foi pedido que contássemos uma História de Natal e nessa eu tive o apoio incondicional da minha Mulher de Guerra. Quando tomei a decisão já narrada eu esperava que fosse enviado (recambiado) para a fronteira de castigo pelo atrevimento que tive de enfrentar o poder instalado, mas vá lá que os rapazes não foram mauzinhos e perdoaram cá o menino que nunca teve o espírito militar de que o meu respeitável Comandante me acusou, em direito de resposta, ao dito artigo de Natal.

A minha mulher manteve-se junto de mim, e mais uma vez faz história, ao sofrer um ataque no dia 31 de Dezembro de 1973 enquanto eu estava de prevenção, já que tínhamos ameaça de porrada o que veio a acontecer e ela cumpriu integralmente com as instruções por mim administradas. Enfiou-se no abrigo com o nosso filho mais o casal Santos e Zinha, enquanto eu andava como uma barata tonta a tentar organizar uma saída com o meu Grupo de Combate. Não esquecer da história de Natal, é que nesta altura cá o rapaz estava mal visto, só que continuava sendo um dos graduados daquele grupo que por acaso até estava de prevenção para um possível ataque. Enfim coisas que vida arranja, não é?

Mas íamos na barata tonta, ou seja baratas tontas, pois que passado o susto inicial era ver heróis a correr até ao arame, até Panhares foram ao arame. No entanto o meu Grupo saiu para o mato se bem que reforçado por mais pessoal da CCAÇ 13. Isto foi só um parêntesis, não resisti a uma provocaçãozinha, é que ainda dói.

A Ni na ponte da outra banda em Bissorã

A minha MULHER DE GUERRA ainda viveu mais umas histórias giras, tais como mais um ataque de mísseis e uma guerrita entre mim e o Comandante de Batalhão, por causa de um Furriel Guinéu que tinha o mau gosto de ser racista, isto já depois do 25 de Abril. A verdade é que ela também viveu lá essa data histórica e até teve o previlégio de, no dia em que eu tive o primeiro encontro com o PAIGC, durante uma picagem para o Olossato, em dia de reabastecimento, assistir a este encontro. Mais uma vez era cá o rapaz o protagonista e único graduado no primeiro contacto, após Abril e fim da guerra, teria mesmo de ser o menino mal visto. Está sempre em todas, olha se tivesse espírito militar!!!!)

A minha mulher foi depois comigo até ao ponto de encontro para confraternizar com o pessoal do PAIGC nesse memorável dia. Semanas mais tarde foi comigo passar um Domingo ao Biambe com os meus antigos Camaradas, mas isso dará outra história.

Bom, isto está mesmo a ficar longo e ainda não apresentei a minha MULHER DE GUERRA por tanto lá vai:

Nome de Guerra - NI
Nome próprio - MARIA DULCINEA ROCHA
Filho - MIGUEL NUNO, que tinha dois anos na altura

Embarcaram na TAP em finais de Setembro de 1973 até Bissau, de seguida seguiram comigo no interior de uma ambulância do Exército até Bissorã. Regressaram à Metrópole em 29 de Junho de 1974 tendo eu regressado em finais de Julho de 1974.

Carlos Vinhal tiveste um pouco de culpa por lançares este desafio, é que vieste lembrar algo que recordo com muito agrado e até dá vontade de escrever tintim por tintim, daí tanta escrita.

Envio algumas fotos da minha MULHER DE GUERRA em acção no Teatro de Guerra em Bissorã, Guiné, ano de 1973/1974.

Um abraço Carlos e restantes Tertulianos
Henrique Cerqueira


2. Comentário de CV:

É com grande alegria que hoje fazemos justiça ao integrarmos como nossa tertuliana uma mulher que deixou o conforto de sua casa, e acompanhada pelo seu rebento de 2 anos, se meteu a caminho da desconhecida Bissorã, algures no interior da Guiné, em guerra, para se juntar ao marido.
Estamos a falar da NI, a partir de hoje com direito a figurar na listagem do lado esquerdo da nossa página, entre os ex-combatentes e amigos do Blogue, onde se encontra a nossa amiga Regina que também visitou e viveu com o seu marido, Fernando Gouveia, em Bafatá.

Não podemos deixar de salientar o modo como o Henrique trata a sua esposa, a minha mulher de guerra.

Sendo assim, cara NI, bem-vinda à nossa caserna virtual e ao nosso Blogue que está disponível para receber a narrativa das suas aventuras passadas em Bissorã e Biambe, ali bem pertinho do Morés, famosa estância de férias da Guiné dos anos 60 e 70. Também andei por lá, sei do falo.

Cara amiga NI, a tertúlia recebe-a com um abraço.

Carlos Vinhal
____________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 23 de Janeiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3779: As nossas mulheres (7): Ni, uma combatente em Bissorã (1973/74) (Henrique Cerqueira)

Vd. último poste da série de 14 de Maio de 2011 > Guiné 63/74 - P8275: Tabanca Grande (282): Joaquim Rodero, ex-Fur Mil TRMS (STM/QG, 1970/72)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Guiné 63/74 - P3848: As mulheres que, afinal, também foram à guerra (2): Eu, a NI e o Miguel em Biambe, para um almoço de batatas fritas (Henrique Cerqueira)

1. Mensagem de Henrique Cerqueira, ex-Fur Mil do 4.º GCOMB/3.ªComp/BCAÇ 4610/72 e CCAÇ 13, Biambe e Bissorã, 1972/74, com data de Fevereiro de 2009:

Cá vai mais uma história da minha NI (mulher) de GUERRA(*).

Como contei na história anterior, a minha NI resolveu acompanhar-me em mais uma pequena (?) aventura em terras da Guiné. É que resolvemos visitar os meus antigos camaradas e amigos do BIAMBE.

Lembro que fui para a Guiné integrado no BCAÇ 4610/72, mobilizado no RI 16 - Évora e, na 3.ª Companhia que viria a ser colocada em Biambe, a qual viria a ser baptizada com o nome TÁ NO PAPO. A sede de Batalhão (CCS) ficou em Bissorã. E foi assim que acabei por bater com os costados na CCAÇ 13 que estava adstrita ao meu Batalhão.

Sendo assim e após este intróito, passemos à história da NI & C.ª.


Um almoço de Batatas fritas em Biambe

Como nós sabíamos que a malta do Biambe há muito não sabia o que era comer batatas, resolvemos que ir levar-lhas, porque o maior desejo do pessoal era mesmo comer umas batatinhas fritas já que, como a tertúlia sabe, na Guiné era só bianda e esparguete (ainda hoje odeio o referido esparguete). Assim, combinámos via rádio o dia da visita e o meio de lá chegarmos em segurança. Esta visita já foi feita após o fim das hostilidades, mas ainda havia muitas minas espalhadas pelas picadas, assim como já havia alguma insurreição entre gente civil relacionada com aquelas euforias pós-revolucionarias do género de nos irem chamando de Colonialistas, etc… Bom é então que se marca um Domingo e a malta do Biambe nos veio buscar a Bissorã a mim, à NI e ao meu filho Miguel.

Após a almoçarada e a respectiva socialização da NI e do Miguel com todos os meus antigos camaradas, a malta teve de nos levar de novo a Bissorã e desta vez todos regressámos bem atestadinhos de álcool fermentado. Embora eu nem por isso, até porque fui sempre muito bem comportadinho. Bem, vezes não são vezes.

Junto algumas fotos desse dia, lamentavelmente tenho muito poucas fotos, porque após a almoçarada (batatas fritas com… batatas fritas) e muita cervejinha e uns Dimples de seguida, retiraram a firmeza das mãos e a minha Chinão (máquina fotográfica) caiu e avariou. Sobraram algumas fotos, das quais anexo estas.

Regressados a Bissorã, tivemos que passar pela porta do Comando… Aí o Nunes (ex-Furriel) resolve insultar o Comando e demais gente. Claro que o rapaz estava mal disposto. Ele hoje até é professor em Coimbra, mas naquele dia deu-lhe para a má disposição. Levo o rapaz ao Bar da CCAÇ 13 para o acalmar e beber umas águas para arrotar.

E pronto, lá fiz merda outra vez. Não é que por causa do Nunes, das batatas, da cerveja e até do filho da pi…pi..pi… do Comandante. Quase que acabava na cadeia... eu sei lá que mais. E isto tudo à frente da NI do Miguel.

E porquê? Perguntam vocês.

Quando levo o Nunes ao Bar, está lá um Furriel natural da Guiné que como estava a ver que, com o fim da guerra, certas mordomias a que estava habituado iriam acabar, deu em deitar para fora o seu racismo, querendo até dar a entender que estava do outro lado. Foi então que ao ver o meu camarada Nunes naquele estado e talvez por alguma boca deste, o dito racista dá um estaladão ao meu amigo.

De certeza que o Nunes nem sentiu (por protecção das batatas e...), mas cá o rapaz sentiu e bem fundo. Disse-lhe:
- Ó camarada, estás a bater num camarada teu e ainda por cima ele está mal disposto!!!! O racista disse que me fazia o mesmo. Que chatice… o Henrique passou um dia memorável com a NI e o Miguel, junto dos seus camaradas do Biambe a comerem batatas fritas e todos felizes, porque a merda da Guerra tinha acabado e ao fim do dia aparece entre mim e meu camarada um dos piores inimigos daqueles dois anos de martírio que é um anormal racista armado em pessoa.

E pronto... ficou o caldo entornado ou seja a cabeça do racista bateu contra uma cadeira, que me apareceu nas mãos, e a partir daí foi uma batalha campal à porta do bar e bem perto do comando. Ainda hoje não sei como a cadeira se agarrou às mãos e até nem sei como a cadeira, que era boa, ficou inteira. Ainda hoje tenho pena dela.

A NI que tinha ficado na conversa com uma senhora libanesa ali perto, olhou e viu o seu Henrique e mais gente, todos entretidos a gastar energias e achando que já era de mais, foi tentar tirar cá o rapaz do meio da confusão. Só que a partir daí a situação piorou, porque entra na história mais um elemento perverso, que é o Comandante do Batalhão, na altura, penso que interino.

Eu sinceramente não podia mesmo com esse senhor, aliás ninguém gostava dele, só que tinham medo de lhe dizer (compreende-se não é?). Era mesmo uma figurinha desprezível. Veio envolver-se na contenda, tomando partido do racista. Levaram-nos para o Comando onde comecei a ser interrogado pelo dito Comandante, mas sempre sem hipótese de grande defesa, estando sempre a ser acusado de ser o mau da fita. Em boa verdade, eu era mal visto pelos donos da guerra, como sabem aquela história do Natal ainda estava muito fresca e por acaso o racista tinha sido beneficiado nesse ano de Natal. Os tais privilégios que faziam dele um senhor, até superior aos seus irmãos da Guiné.
De certeza que muitos de vós conheceram destes meninos.

No entanto a NI na rua vai passando pela angústia de saber o que irá acontecer ao gajo maluco com que se casou e embarcou naquela aventura. Entretanto eu estava metido num ninho de ratos a receber ameaças de prisão, despromoção, etc. Só que havia um anjo lá dentro que era o Sargento Ajudante, de quem lamentavelmente não sei o nome. Só sei que era do Norte e nós lhe chamávamos o pai de nós todos. Era o homem mais humano que algum dia conheci. Este homem disse-me durante um certo intervalo do interrogatório:
– Ó meu caralho, o que é que eu posso fazer por ti? Agora fizeste mesmo merda. Eu sei que até tens razão, mas estás na tropa.

O que é certo é que uma vez mais o tempo passou, não fui castigado, regressei à Metrópole integrado na minha antiga Companhia e enfim, TÁ NO PAPO

Estranho ainda hoje, porque não sei o que foi feito da minha Caderneta Militar. Será que um Anjo a levou para o Lixo Celeste?

Tudo isto foi fazendo parte da minha vivência com a NI e do fortalecimento da nossa vida de casal e pais, mas que arriscámos, ai isso arriscámos. Foi bom, éramos tão fortes… está bem... também um pouco irresponsáveis, mas que diabo, não houve coragem suficiente para ter dado o salto antes de ir para aquela treta da Guerra.

Atenção malta, porque nunca deixei de cumprir com a minha obrigação de militar, mas mesmo só por obrigação. Tivemos uma óptima relação com as populações, daí a possibilidade de algum fornecimento de frescos que os populares nos levavam a casa, permitindo pelo menos que o meu Miguel fosse comendo alguns legumes e fruta da época, e peixinho da Bolanha.
Mas isso será uma outra história da NI

Vou terminar esta história e afirmo que não pretendo atingir ninguém, porque acho que os factos só tiveram valor na época. Que vi muito racista a espezinhar irmãos da mesma raça, isso eu vi e a esses desprezo ainda hoje

Carlos, este texto está a ser escrito numa tarde chuvosa e provoca uma agradável nostalgia por nos sentirmos protegidos e livres dos tormentos que nos roubaram, pelo menos, dois anos da nossa juventude e a muitos outros toda a sua vida. Por isso é muito bom, mesmo muito bom, termos este meio de expressão através da escrita mais ao menos pública.

Um abraço a toda a Tertúlia
Henrique Cerqueira

NI e Nuno Miguel confraternizam com tropas do Biambe

O operacional Nuno Miguel no intervalo da Operação ao Biambe

Forças intervenientes na Operação ao Biambe

A família de Henrique Cerqueira, durante a Operação ao Biambe

Fotos: © Henrique Cerqueira (2009). Direitos reservados
Edição e legendas de CV

__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste da série de 23 de Janeiro de 2009 > 23 de Janeiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3779: As mulheres que, afinal, também foram à guerra (5): Ni, uma combatente em Bissorã (1973/74) (Henrique Cerqueira)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Guiné 63/74 - P3779: As mulheres que, afinal, também foram à guerra(1): Ni, uma combatente em Bissorã (1973/74) (Henrique Cerqueira)

1. Mensagem do nosso camarada Henrique Cerqueira, ex-Fur Mil do 4.º GCOMB/3.ªComp/BCAÇ 4610/72, Biambe e Bissorã, 1972/74, com data de 18 de Janeiro de 2009:

Camarada Carlos Vinhal:
Em resposta ao teu desafio aqui vai uma narrativa referente à minha Mulher de Guerra na Guiné.
Espero que não seja um texto muito cansativo e já agora se achares necessário podes dar um jeitinho ao texto.

Um abraço
Henrique Cerqueira


NI, mulher de guerra de Henrique Cerqueira

Ni, Mansoa, 1973/74

Aproveitando o desafio do nosso camarada Carlos Vinhal, vou então fazer aqui a descrição possível de como foi a vida da minha mulher (com e ) na Guerra. Para além disso aproveito assim para lhe fazer uma merecida homenagem, porque foi necessário que ela tivesse muita coragem, abnegação, amor e também uma boa dose de aventureirismo, para tomar a atitude que tomou, ao se juntar a mim na Guiné, em pleno período de guerra e até na altura em que tudo começava a parecer caminhar para o abismo.

Quando informei o meu Comando da minha pretensão de chamar para junto de mim a minha mulher e meu filho Miguel de dois anos, fui desaconselhado.
Eu era um pouco rebelde e em todo aquele cenário de guerra a coisa que mais me custava era o afastamento da família, já que todas as outras dificuldades, bem conhecidas de todos nós, eram como de costume superadas, ora com umas pielas, ora com umas chatices com os superiores hieráticos, etc.
Para a falta da mulher e filho é que não havia nada que apaziguasse.

Ultrapassadas as desmotivações, há que passar à acção para concretizar o nosso desejo (meu e da minha mulher). Após as combinações telefónicas e escritas, marca-se a data para o encontro que virá a acontecer em finais de Setembro de 1973.

Há aqui que acrescentar, que esta decisão envolve um camarada e amigo meu que foi o Alferes Santos que estava também na CCAÇ 13 em Bissorã, e que já tinha estado comigo no Biambe, porque ambos pertencíamos ao BCAÇ 4610/72. De certo modo tínhamos em comum a maluqueira instalada nos nossos cérebros e pelos vistos ele foi mais maluco que eu, porque veio de férias à Metrópole, de propósito, para casar e como Núpcias ofereceu à sua novíssima esposa uma bela estadia em Bissorã, recheada de aventuras, tais como paludismo, mosquitos, osgas e até Guerra ao Vivo, mais à frente eu explico.

Mas voltando à minha Mulher de Guerra. Antes de historiar, vou começar por apresentá-la, pois que se publicares esta história, acho justo que conste o seu nome assim como o de meu filho. É que queira ou não, a minha MULHER DE GUERRA para além de todo o apoio sentimental que me proporcionou, fez história comigo porque passou por ter de enfrentar penosas viagens, instalações precárias, alimentação deficiente, mosquitos e dois ataques directos à nossa povoação, um dos quais com mísseis.
Ficou no entanto altamente enriquecida com o contacto que teve com as populações da Guiné e suas etnias, como libaneses e caboverdianos. Formámos uma amizade razoável com uma família libanesa e com o casal Administrador de Bissorã que eram de Cabo Verde.

O que mais me marcou tem a ver com os factos por mim já narrados no nosso Blogue, quando nos foi pedido que contássemos uma História de Natal e nessa eu tive o apoio incondicional da minha Mulher de Guerra. Quando tomei a decisão já narrada eu esperava que fosse enviado (recambiado) para a fronteira de castigo pelo atrevimento que tive de enfrentar o poder instalado, mas vá lá que os rapazes não foram mauzinhos e perdoaram cá o menino que nunca teve o espírito militar de que o meu respeitável Comandante me acusou, em direito de resposta, ao dito artigo de Natal.

A minha mulher manteve-se junto de mim, e mais uma vez faz história, ao sofrer um ataque no dia 31 de Dezembro de 1973 enquanto eu estava de prevenção, já que tínhamos ameaça de porrada o que veio a acontecer e ela cumpriu integralmente com as instruções por mim administradas. Enfiou-se no abrigo com o nosso filho mais o casal Santos e Zinha, enquanto eu andava como uma barata tonta a tentar organizar uma saída com o meu Grupo de Combate. Não esquecer da história de Natal, é que nesta altura cá o rapaz estava mal visto, só que continuava sendo um dos graduados daquele grupo que por acaso até estava de prevenção para um possível ataque. Enfim coisas que vida arranja, não é?

Mas íamos na barata tonta, ou seja baratas tontas, pois que passado o susto inicial era ver heróis a correr até ao arame, até Panhares foram ao arame. No entanto o meu Grupo saiu para o mato se bem que reforçado por mais pessoal da CCAÇ 13. Isto foi só um parêntesis, não resisti a uma provocaçãozinha, é que ainda dói.

A minha MULHER DE GUERRA ainda viveu mais umas histórias giras, tais como mais um ataque de mísseis e uma guerrita entre mim e o Comandante de Batalhão, por causa de um Furriel Guinéu que tinha o mau gosto de ser racista, isto já depois do 25 de Abril. A verdade é que ela também viveu lá essa data histórica e até teve o previlégio de, no dia em que eu tive o primeiro encontro com o PAIGC, durante uma picagem para o Olossato, em dia de reabastecimento, assistir a este encontro. Mais uma vez era cá o rapaz o protagonista e único graduado no primeiro contacto, após Abril e fim da guerra, teria mesmo de ser o menino mal visto. Está sempre em todas, olha se tivesse espírito militar!!!!)

A minha mulher foi depois comigo até ao ponto de encontro para confraternizar com o pessoal do PAIGC nesse memorável dia. Semanas mais tarde foi comigo passar um Domingo ao Biambe com os meus antigos Camaradas, mas isso dará outra história.

Bom, isto está mesmo a ficar longo e ainda não apresentei a minha MULHER DE GUERRA por tanto lá vai:

Nome de Guerra - NI
Nome próprio - MARIA DULCINEA ROCHA
Filho - MIGUEL NUNO, que tinha dois anos na altura

Embarcaram na TAP em finais de Setembro de 1973 até Bissau, de seguida seguiram comigo no interior de uma ambulância do Exército até Bissorã. Regressaram à Metrópole em 29 de Junho de 1974 tendo eu regressado em finais de Julho de 1974.

Carlos Vinhal tiveste um pouco de culpa por lançares este desafio, é que vieste lembrar algo que recordo com muito agrado e até dá vontade de escrever tintim por tintim, daí tanta escrita.

Envio algumas fotos da minha MULHER DE GUERRA em acção no Teatro de Guerra em Bissorã, Guiné, ano de 1973/1974.

Um abraço Carlos e restantes Tertulianos
Henrique Cerqueira

A Ni e a Zinha em treino de luta corpo a corpo... só para a fotografia

A Ni na ponte da outra banda em Bissorã

A Ni era dotada para a guerra. Ao fundo a minha macaca Gasolina de seu nome

A Ni e o Miguel fizeram muitas amizades com as pessoas da Guiné. Nesta foto, com o Homem Grande de Bossorã

O meu filho de guerra Miguel Nun0

Nesta foto: Sanhã, Zinha, Ni com a G3, fiel amigo Inhatna Biofa e o Miguel Nuno com um amiguinho

Henrique, filho Miguel Nuno, esposa NI, Zinha e marido Alf Santos

Fotos e legendas: © Henrique Cerqueira (2009). Direitos reservados



PS: Peço desculpa por numa das fotos aparecerem o Alferes Santos e sua Mulher ZINHA sem eu ter autorização para mostrar publicamente as suas imagens. Acontece que perdi o contacto deles e de certo modo pretendo prestar-lhes aqui a minha homenagem pelos tempos que passámos juntos. Para os dois um grande abraço.

Henrique Cerqueira
Ex-Fur Mil
3.ª Comp.ª/BCAÇ 4610/72
Biambe até Novembro de 1972
CCAÇ13 até Julho de 1974

Nota: Amigo Carlos não tenho grande jeito para a escrita se possível e for do interesse dá um jeitinho nisto. É que narrar é fácil (às vezes difícil), mas compor texto já é mais difícil. Uma vês mais grato pelo espaço ao nosso dispor.
__________

Notas de CV:

Vd. poste de 16 de Janeiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3748: As nossas mulheres (4): Recortes de imprensa de uma noiva (Luís Faria)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Guiné 63/74 - P2356: O meu Natal no mato (2): Bissorã, 1973: O Milagre (Henrique Cerqueira, CCAÇ 13)

1. Mensagem do nosso camarada Henrique Cerqueira, que mora na Foz do Douro (1):

Amigo Luís Graça, se vires que esta história tem algum interesse publica no nosso blogue e se achares por bem podes corrigir algo do Português.

Omito nomes para que só seja entendida a história,se achares que como historia não vale nada,não há problemas porque me fez muito bem escrever hoje fim de tarde friorento e até te digo estou aliviado e feliz, e seja o que Deus quiser.

Um abraço, um dia ainda te hei-de conhecer, isto vai lá devagarinho é que há muitos anos que não mexia na ferida.

Um bom natal para ti e para as pessoas que mais amas, assim como para todos os tertulianos e camaradas de todas as nossas Guinés.

Henrique Cerqueira


2. O meu Natal no mato (2) > Um milagre em Bissorã, 1973

por Henrique Cerqueira (CCAÇ 13)

Protagonista Principal:

Henrique Cerqueira, Fur Mil Atirador, BCAÇ 4610/72, em regime de voluntariado na CCAÇ 13 até Julho de 1974.

Protagonista secundário:

Regime de Marcelo Caetano e restantes (A BESTA)

Introdução:

Capitão, Alferes, Médico... não se sintam culpados, vocês foram vítimas da BESTA e com a vossa atitude permitiram o meu "Milagre de Natal", daí esta minha introdução que só os protagonistas entenderão.

Quanto á história tentarei que a entendam, pois que não sou escritor e só vou narrar o que está gravado na mente. Além disso prometi escrever algo para a tertúlia e sendo assim aqui vai e ao jeito do correr da pena.É que amanhã já não arrisco.

Véspera de Natal do ano de 1973. Nesse ano e contra mares e marés consegui ter a minha mulher Dulcinea (Ni para os amigos) e meu filho Miguel, de dois anitos, junto de mim. Vai daí pensei eu que atendendo a circunstâncias relacionadas com o Natal de 1972 e eu explico essas circunstâncias.

No ano de 1972, Natal e Ano Novo, cá o rapaz ficou a Patrulhar nessa noite de Natal só como Graduado e com o seu grupo de combate. Pois que aceitou (que remédio) que o seu Alferes fosse passar o Natal aos Açores e, como tinha mais um furriel no grupo, mas que por acaso era Guineense, esse também foi autorizado a ir para Bissau.

Cá o Henrique até nem se chateou pois que para levar um balázio na mona tanto faz ter mais furriéis ou mais Alferes junto e, como ainda era a noite em que a única falta era a da família e como os ditos atrás até tiveram passes e autorização,porque não???

E assim se passou o Natal de 1972. O Alferes veio dos Açores. O Furriel veio de Bissau e mais tarde até vieram, de prenda atrasada, mais dois Furriéis para o Grupo.Como vêem, até foi um Natal feliz para todos, ná é ?!...

Bom o ano de 1973 foi correndo - correndo devagarinho...devagarinho - , , mas lá chegou a outro Natal, o de 1973. Ah! esse, sim, ia ser o meu Natal Feliz na Guiné. Calma, malta, isto tem de ir devagarinho´, é que estou a abrir o ficheiro(mona,tola, massa encefálica,etc.). É que isto, malta, também é Guiné.

Bom, andemos.Dia 24/12/1973 chegou e então logo pela manhã e como sabia que o plano de protecção ao comando estava traçado e que mais uma vez o meu grupo estava escalado para Patrulha até pelo menos a meia-noite, este rapaz que acreditava que ainda havia Natal para todos, o que faz? Vai, muito alegre e contente, falar ao Aferes e pedir dispensa para a patrulha da noite e até disse que o único motivo de tal pedido era pelo simples facto de ter a mulher e filho junto dele.

Errado... Errado... O Alferes até parecia que estava à espera de tal pedido, pois que de imediato e de rajada me disse:
- Não, senhor, nem pense ,você não tem privilégios, não é mais que outros, por tal há que ir pró mato.

Ainda tentei falar ao coração do meu "camarada", depois até lhe lembrei o Natal de 1972. Qual quê?! Nem pensar, o grupo esse ano ia todinho para o mato patrulhar ou seja UM Alferes, três Furriéis e vinte e tal Soldados.

Meti o rabinho entre pernas (que é como quem diz sufoquei as lágrimas) e vim para a minha tabanca e pensei…..(ainda pesava !..):
- Parto um pé e prontos, não vou ao mato!!!

Merda, a pedra era torrão ferruginoso, desfez-se no pé e só ficou a arder... Merda, merda, assim não podia ser. Ainda pensei num tirito no pé,mas não se tornou viável, tinha muitos mirones e depois as balas eram caras, não é?? Então cá o rapaz que ainda não estava Homem feito,resolveu escrever um bilhetinho e mandou ao Capitão a dizer que estava doentinho.

Porreiro, mudou de folha e até coincide com a mudança de tudo e em especial com a minha grande mudança nesse dia e até para todo o sempre.

Passados mais menos uns trinta minutos vejo a se dirigir para a minha tabanca uma Delegação de Respeito, ou seja: Um Capitão, um Alferes e um Médico e creio ainda que mais atrás vinham alguns mirones "aramistas" e então começaram as "negociações" (hé…hé..deixa-me rir!).

1º Você não está nada doente, o que quer é se baldar;

2º Não tem privilégio nenhum só porque teve o atrevimento de trazer a família para junto de si (a palavra atrevimento eles pensaram e eu só agora escrevo, é da minha autoria neste texto)

3º Como toda aquela conversa me estava a enojar, pois que todos sabiam que eu sempre fui voluntário para tudo que não era desejável, sabiam ainda o que se tinha passado no Natal de 1972, nunca tinha contestado ordens de superiores,sempre tinha respeitado todos os camaradas Furriéis e todos os soldados do grupo ou de outros agrupamentos, assim como apesar da minha juventude eu tinha uma óptima relação com os civis e até no aspecto de Humanização e ainda após todos aqueles anos já longos de Guinè não havia nada a apontar na minha folha de serviços e como já estava farto da treta dos três e após ameaça de ficar preso no domicílio, ser despromovido, e ainda recambiado para a Fronteira, eu então tive... o MEU MILAGRE DE NATAL!

Fiquei Homem de verdade e aceitei o valor da proposta e, como tal nessa noite de Natal de 1973, em Bissorã eu fiquei preso, comi rabanadas que fritei em conjunto com a Ni ,comi arroz doce, tive muitos amigos em casa, tocámos viola, cantámos chorámos e rimos, enfim houve Natal esse ano,eu tive o Natal que queria,o Milagre aconteceu e deu-me coragem para me revoltar contra o sistema da altura e até venci a BESTA porque: Não fui para a Fronteira, não fui despromovido, não fui preso e vivi em companhia da Ni e do Miguel mais todos os intervenientes desta história o FIM GLORIOSO DA BESTA COM A CHEGADA DO 25 DE ABRIL...

Não fiquem todos contentes por ter acabado a história, é que até Julho de 1974 ainda tive de enfrentar mais algumas BESTEIRAS e assim consolidar o meu amadurecimento como Homem.

É assim que eu, a Ni e o Miguel desejamos um muito Feliz Natal a todos os Tertulianos e em especial ao Capitão e Alferes que foram pessoas marcantes na minha vida.Um bom ANO para todos e para quem mais amam na vida.

Henrique Jorge Cerqueira da Silva

Ex-Furriel Miliciano
Batalhão 4610/72
3º Companhia no Biambe
4º Grupo de Combate da CCAÇ 13, 1972/74

Dulcinea (NI: Minha Mulher e mobilizada por mim para Bissorã em 1973/74

Miguel Nuno: Meu filho de dois anos mobilizado pela NI para Bissorã em 1973/74

3. Comentário de L.G.: Henrique, grande leão, fiquei muito sensibilizado por arranjares tempo e coragem para nos contares esse belíssimo milagre de Natal, no já longínquo ano de 1973 e nesse lugar não menos distante que era Bissorã. Um homem é um homem, e um bicho é um bicho: eis a conclusão (moral) que a gente pode tirar do teu relato, onde a emoção ainda se sente à flor da pele... Um homem, armado com a poderosa arma da razão, é um homem livre e frontal, capaz de enfrentar o medo, a ameaça, a prepotência...

Como sabes, nenhum camarada, neste blogue, deve fazer julgar o comportamento (militar) de outro camarada no TO da Guiné... Não sou (nem quero ser) juiz, não vou dizer que fizeste bem ou que fizeste mal. Não tenho dúvida em concordar contigo: nunca mais esquecerás esse Natal que te ajudou a tornar-te um homem de corpo inteiro... A tua Dulcineia e o teu Nuno tiveram muito orgulho em ti nessa noite, e vejo que continuaram a admirar-te pela vida fora... Deixa-me ainda dizer-te que é uma atitude de nobreza, da tua parte, não mostrar hoje qualquer rancor ou desejo de vingância, em relação ao Capital, ao Alferes e ao Médico, também eles vítimas de um sistemas iníquo e prepotente... Aquele abraço. Luís.

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Nota de L.G.:

(1) Vd. post de 26 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2219: Tabanca Grande (37): Apresenta-se Henrique Cerqueira, ex-Fur Mil (BCAÇ 4610/72 e CCAÇ 13, 1972/74)