quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Guiné 63/74 - P4931: Em busca de... (89): Camaradas da CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71 (João Rito Marques, ex-cabo quarteleiro, Soito, Sabugal)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Crachá da CCAÇ 2590 / CCAÇ 12 (1969/71). Design: Tony Levezinho (Fur Mil At Inf).

Foto: © António Levezinho (2006). Direitos reservados


1. Mensagem de Sandra Marques, com data de 6/8/2009, enviada para a minha caixa de correio (LG):


Boa tarde!

Antes demais vou identificar-me. Chamo-me Sandra Marques e sou filha do camarada 1º Cabo Manut Material João Rito Marques.

Quando andava a navegar pela Net deparei-me com o nome do meu pai; depois de ler grande parte do seu blog verifiquei que um dos camaradas da Guiné andava à procura de João Rito Marques. Falei de imediato com o meu pai e confirmou que realmente era mesmo ele.

O meu pai solicita que lhe envie o seu contacto para poderem falar. Vive no Soito - Sabugal, é casado e tem apenas uma filha. O contacto do meu pai é: 965464877.

Agradeço, pois "o homem está impaciente" para falar com os camaradas que marcaram bastante a sua vida. :)

Sandra Marques.

2. Em 8 de Setembro, nova mensagem, desta vez para a caixa de correio do Carlos Vinhal, edição de serviço:

Pensei que quem me respondesse fosse Luís Graça que ele, sim, foi camarada dele [, do do meu pai,] na Guiné, estiveram todos na Guiné, Zona Leste, Sector L1, Bambadinca, 1969/71 (*)

Quando navegava pela Net reparei que o Sr. Luís Graça tinha um blog onde constava o nome do meu pai e referia que nunca mais soube do paradeiro de alguns dos camaradas, entre eles constava o meu pai.

Mostrei o nome de todos os camaradas registados no blog e ele de imediato reconheceu a maioria deles.

Já enviei emails para o Sr. Luís Graça, no entanto não obtive resposta. Agradecia que me dessem o contacto dele ou doutro camarada para assim o meu pai entrar em contacto com o grupo, pois farta-se de falar "dessa gente e dessa guerra".

Irei contactar com o meu pai e entregarei os cumprimentos.

Atentamente e aguardando reposta.
Sandra Marques

3. Finalmente, a tão desejada resposta do L.G., a 9 de Setembro, já no regresso de férias:

Sandra:

Costumamos dizer que os filhos dos nossos camaradas nossos filhos são... Fico feliz pelo seu contacto e pelo amor filial que pôs na busca de informações sobre os camaradas do seu pai (CCAÇ 2590/ CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, Maio de 1969/Março de 1971) (*).

Acabo de falar com o seu pai, pelo número de telemóvel que me deu. Já tenho as coordenadas dele. Sei que vive no concelho de Sabugal, que ainda trabalha e que está de boa saúde... Reconheceu alguns camaradas desse tempo (O Galvão, o Sousa, o Almeida, o Monteiro...), aliás ele conhecia muito bem toda a gente, incluindo os condutores que eram "quase todos do Norte"...

Disse-me que vive na "maior freguesia de Portugal", mas eu não eu fixei logo o topónimo [Souto, ou melhor, Soito, para os seus habitantes, concelho de Sabugal, distrito da Guarda, uma terra do Portugal, com um vasto património histórico, arquitectónico, arqueológico, etnográfico, astronómico e natural, tornando-se visita obrigatória, nomeadamente no "nosso querido mês de Agosto", por causas das suas festas, romarias, touradas, garraiadas e e... capeias arraianas, que são únicas no mundo]...

Gostava de publicar uma foto do seu pai, digitalizada (se fossível, uma antiga e outra actual), para dar notícia dele no nosso blogue (Luís Graça e Camaradas da Guiné).

Com tempo e vagar, posso dar-lhe mais informações sobre o paradeiro desses camaradas da Guiné... Eu era o Furriel Miliciano Apontador de Armas Pesadas de Infantaria, o Henriques, "um bocado revolucionário" (lembrou-me agora o seu pai) - expressão que eu tomo como um elogio...

O João Rito Marques era o nosso cabo quarteleiro, o homem que tinha a tremenda responsabilidade pela limpeza, segurança e boa manutenção de todo o material que precisávamos, desde os colchões até às armas e munições... Sei que no final da comissão, em Março de 1971, lhe tive de pagar um colchão de espuma que requisitei, para um amigo de passagem por Bambadinca, e que deve ter voado na confusão dos últimos dias de fazer a mala e de dizer "adeus, Guiné!"...

Ele tinha uma grande paciência para nos aturar, mas no dia de fazer contas, "contas eram contas" à moda do Soito... Deve ter dado cabo do toutiço a conferir, periodicamente, o vasto e detalhado material que estava à sua guarda, não fosse o Cap Brito ou o Sargento Piça embrulhá-lo em papel selado e atrasar-lhe o tão desejado regresso à santa terra arraiana e, quiçá, ao forcão da capeia... [Sei que ele hoje ainda está no activo, tem o seu negócio de serralharia, é um português empreendedor que não come à mesa do Estado...]

Pode dizer ao seu pai que temo-nos encontrado todos os anos, em Maio, a malta de Bambadinca, de 1968/71 (incluindo os da CCAÇ 12, que eramos meia centenas, os de origem metropolitana) (*)... O próximo encontro é em 2010, em Óbidos, e é organizado pelo ex-Furriel Miliciano de Transmissões, o Almeida (**). Era bom que ele aparecesse...

Sei que você é professora de matemática, e vive na região de Lisboa, EM Cascais. Pode contactar-me por um telefone fixo: 21 751 21 93 (gabinete de trabalho, em geral das 9 às 18h) ou 21 471 0736 (casa)...

É pena que o seu pai não nos possa seguir directamente através do blogue, mas posso mandar-lhe os links em que se fala da nossa CCAÇ 12, de Bamdinca, etc. Há já centenas de referências sobre o nosso tempo, na zona leste, algumas das quais presumo que você já lhe tenha mostrado...

Veja também neste endereço: http://blogueforanada.blogspot.com/ (Luís Graça & Camaradas da Guiné, I Série).

Contacte-me sempre que precisar. Dê um grande abraço ao seu pai, quando o vir, do Henriques (hoje, Luís Graça)

__________

Notas de L.G.:

(*) Vd. post de 21 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXV: Composição da CCAÇ 12, por Grupo de Combate, incluindo os soldados africanos (posto, número, nome, função e etnia)

Além do pessoal que compunha os 4 grupos de combate da CCAÇ 2590/CCAÇ 12, havia ainda mais os seguintes especialistas e quadros de origem metropolitana:

1º Sarg Cav Fernando Aires Fragata;
2º Sarg Inf José Martins Rosado Piça;
2º Sarg Inf Alberto Martins Vieira;
Furriel Mil MAR Joaquim Moreira Gomes;
Fur Mil Enf João Carreiro Martins;
Fur Mil Trams José Fernando Gonçalves;
Fur Mil Arm Pes Inf Luís Manuel da Graça Henriques;
1º Cabo Aux Enf José Maria S. Faleiro;
1º Cabo Aux Enf Fernando Andrade de Sousa;
1º Cabo Aux Enf Carlos A. R. dos Santos;
1º Cabo Trams Inf António Domingos Rodrigues;
1º Cabo Cripto José António Damas Murta;
1º Cabo Cripto Gabriel da Silva Gonçalves;
1º Cabo Manut Material João Rito Marques;
1º Cabo Mec Auto Renato B. Semedos;
1º Cabo Mec Auto António Alves Mexia;
1º Cabo Escriturário Eduardo Veríssimo de Sousa Tavares;
1º Cabo Cond Auto Luís Jorge M.S. Monteiro;
1º Cabo Radiotelegrafista Manuel da Graça S. Zacarias;
1º Cabo Corneteiro Manuel Joaquim Martins Ferreira;
1º Cabo Cozinheiro José Campos Rodrigues;
1º Cabo Apont de Arm Pes José Manuel P. Quadrado.

Refira-se ainda os nossos soldados de origem metropolitana (para além dos operacionais já eventualmente citados, neste caso apenas o Sold At Inf Arménio Monteiro da Fonseca):

Sold Básico João Fernando R. Silva;
Sold Básico Salvador J. P. Santos;
Sold Mec Auto Gaudêncio Machado Pinto;
Sold Trams Inf José Garcia Pereira;
Sold TICA António Fernando Cruz Marchão;
Sold TICA José Leite Pereira;
Sold TICA António Dias dos Santos
Sold Cozinheiro Henrique Manuel;
Sold Corneteiro Orlando da Cruz Vaz;
Sold Corneteiro José de Sousa Pereira;
Sold Radioteleg João Gonçalves Ramos;
Sold Radiot Manuel Maria Catita André;
Sold Cond Auto António S. Fernandes;
Sold Cond Auto Manuel J. P. Bastos;
Sold Cond Auto Manuel da Costa Soares;
Sold Cond Auto Alcino Carvalho Braga;
Sold Cond Auto Adélio Gonçalves Monteiro;
Sold Cond Auto João Dias Vieira;
Sold Cond Auto Tibério Gomes da Rocha;
Sold Cond Auto António S. Fernandes;
Sold Cond Auto Francisco A. M. Patronilho;
Sold Cond Auto Manuel S. Almeida;
Sold Cond Auto António C. Gomes;
Sold Cond Auto Fernando S. Curto;
Sold Cond Auto Aniceto R. da Silva;
Sold Cond Auto Diniz G. Dalot;
Sold Cond Auto Manuel G. Reis.

Há ainda a referir dois soldados africanos que não eram operacionais ou que, pelo menos, não constavam da lista dos grupos de combate:

Sold Cozinheiro 82116869 Gale Camará
Sold Cozinheiro 81117669 Amadú Camará.

Vd. também os seguintes postes:

24 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1545: Lista do pessoal de Bambadinca (1968/71) (Letras A/B) (Humberto Reis)

21 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1773: Lista do pessoal de Bambadinca (1968/71) (Letras C / Z) (Humberto Reis)

(**) Vd. postes de:

20 de Abril de 2005 > Guiné 69/71 - V: Convívio de antigos camaradas de armas de Bambadinca (Luís Graça)

29 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCCXIV: Ao Fernando Sousa: Sei que estás em festa, pá (Luís Graça)

9 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1742: Convívios (2): Lisboa, Casa do Alentejo, 26 de Maio de 2007: Bambadinca 68/71, BCAÇ 2852, CCAÇ 12, etc. (Fernando Calado)

31 de Maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4444: Convívios (138): Em Castro Daire, agora chão de Bambadinca, 1968/71 (1): O reencontro na capela de N. Sra. da Ouvida

31 de Maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4446: Convívios (139): Castro Daire, agora chão de Bambadinca, 1968/71 (2): A música, a festa, a dança no planalto beirão

Guiné 63/74 - P4930: Histórias do Jero (José Eduardo Oliveira) (14): Emboscada às NT em Sare Dicó, na estrada de Fajonquito – Canjambari


1. O nosso Camarada José Eduardo Reis de Oliveira (JERO), foi Fur Mil da CCAÇ 675 (Binta, 1964/65), enviou-nos a sua 14ª estória do seu livro "Golpes de Mao's - Memórias de Guerra", com data de 29 de Agosto de 2009, que mais uma vez muito agradecemos.

Camaradas e Amigos,

Sinto-me na necessidade de algumas palavras prévias em relação à história que se segue – a nº 14. Até aqui tenho pisado terreno que conheço bem – o da C.Caç. 675 – não só por vivência mas ter prova testemunhal – O “Díario” da Companhia impresso em 1965 – em relação a todos os temas que tenho abordado.

O aerograma que agora reproduzo está comigo na minha sala de estar desde que regressei da Guiné. Emoldurei-o como exemplo dum aerograma, por ser escrito por um amigo e por ter uma caligrafia lindíssima.

Emprestei-o há uns tempos atrás para uma exposição documental feita pela APVG, de Alcobaça. Tirei-o então da moldura e li-o. Como já estava num novo ciclo da minha vida – descoberta do blogue “Luís Graça e camaradas da Guiné - li-o com outros olhos.

É um documento impressionante: emboscado a um pequeno contingente das NT – 20 homens – de que resultaram 10 mortos. Procurei no nosso blogue e não encontrei nada sobre o assunto ou vi mal ou não há mesmo qualquer referência a este dia trágico dia 11 do ano de 1966 – mês de Janeiro – .

A única coisa que encontrei foi uma referência e fotos das campas aos nossos militares sepultados no cemitério de Bafatá.O aerograma do meu colega Carlos Dias fala em “massaricada” e faz críticas implícitas mas não explícitas.

Conheci-o bem – foi meu colega do CSM no HMP, da Estrela/Lisboa – e guardo memória de um militar consciente e ponderado. Não mais voltei a encontrá-lo. Vivia em Lisboa mas em pesquisa recente constatei que não consta da lista de telefones fixos.

Posto isto segue-se a narração:

Emboscada às NT em Sare Dicó, na estrada de Fajonquito – Canjambari

(11JAN1966, um dia trágico para os militares do BCAV 757)

À distância no tempo já não consigo recordar como é que a “má nova” chegou à minha companhia – a C. Caç. 675, que estava sedeada em Binta, no Cachéu, na região de Farim -.

Alguma coisa de muito grave teria acontecido às NT na zona onde actuava a nossa companhia “irmã” – a C. Caç. 674.

Utilizando os meios disponíveis na altura escrevi de imediato um aerograma ao meu amigo e colega dos bons velhos tempos do HMP de Lisboa, Carlos Cardoso Dias.

O Carlos era o Furriel Miliciano Enfermeiro da C. Caç. 674. Tínhamos viajado juntos no UIGE na viagem de 8 de Maio de 1964 que tinha chegado a Bissau em 13 do mesmo mês.

Ao longo dos meses trocávamos correspondência de vez em quando. E os aerogramas não tendo a “velocidade” dos actuais telemóveis tinham uma vantagem: permaneciam no tempo como documentos escritos.

O texto que reproduzo seguidamente a resposta do furriel Carlos Cardoso Dias ao meu aerograma, que também era conhecido na gíria militar como “bate-estradas”.

Com uma letra digna de um copista cisterciense escrevia o Carlos:

Fajonquito, 27 de Janeiro de 1966
Quinta-feira – 17h00
Amigo Oliveira:

Saúde da boa. Acabo de receber o teu bate-estradas e apresso-me a responder.

Antes de mais, os mortos foram do Bat. Cav. 757 de Bafatá e não nossos. Felizmente continuamos a manter as zonas da vida intacta. Vou descrever-te o que realmente se passou na operação “DURÃO”, à qual não fui e ainda estou para saber a causa.

Dia 10.01 – 20H00 – A nossa companhia, apenas com dois pelotões inicia uma marcha que os levaria ao limite do sector, junto ao Rio Canjambari. Claro que a velha caminhada foi feita pelo mato, pois a “velhice” sabe como é o Caresse e as suas estradas. Nada sucedeu durante toda a noite até de manhã.

Dia 11.01 – 04H00 – O pessoal do Batalhão, com o seu comandante e vários oficiais, sargentos e “manga” de pessoal, sai de Fajonquito com as viaturas, para se juntar à 674 e continuar a operação. O jipe do comandante a certa altura sofre o primeiro aviso: uma mina anti-pessoal rebenta sobre a roda dianteira, lado direito, salvo erro. Nada sucedeu à excepção do valente susto.

- Este Batalhão é conhecido pelo 7 de Espadas. –

O carro é içado para cima de uma Mercedes e vem para Fajonquito, onde não foi possível a reparação. A Mercedes volta para junto da coluna. Colocaram então na estrada um bocado de cartão da RC que dizia: “Isto para o 7 de Espadas é pouco”.Cerca das 15H00 uma GMC da coluna avaria.

O Comandante manda que a mesma seja rebocada por uma Mercedes até Fajonquito, visto no local o nosso mecânico não a poder reparar. São nomeados os homens, assim como o oficial e os sargentos, todos do Batalhão, para virem nas viaturas.

Três homens nossos um pouco adoentados pedem para se retirarem. O Comandante autoriza. O nosso mecânico vem também com as viaturas. Total: 20 homens.

Precisamente no mesmo local onde explodiu a mina anti-pessoal, sofreu uma forte emboscada. A primeira “roquetada” atinge quatro homens e envia-os ao céu. O pessoal salta das viaturas e só ouvem rebentamentos de GMD e tiros de armas automáticas, “costureirinhas”.

Ouve-se então resposta nossa mas fraca. O Alferes vê vários homens feridos e… foge com eles. Outros que vêem o gesto e pensam que ficam sós, imitam-nos. Entre eles 2 homens nossos que estavam a fazer fogo.

Lá atrás a nossa Companhia ouve o tiroteio, assim como o pessoal do Batalhão e vem todo o pessoal socorrê-los. Já era tarde, pois os 10 mortos, já não poderiam recuperar. Há algum pessoal ferido e outros sem uma única beliscadura. O nosso mecânico estava no mato.

A GMC passou-lhe por cima da coxa. Entretanto em Fajonquito a presença do médico e de socorros era reclamada para Sare Jamdarã (1ª serração). Lá fui mais o médico. Seis feridos à parte dos restantes, arrasados pela fuga de cerca de 15 Km.

Cerca da 22H00 aparece o restante pessoal com os feridos, mortos, etc. Mas faltava um homem nosso. Apareceu mais tarde. Preparava-se para entrar em Sare Jamdarã quando a rapaziada já se preparava para o ir encontrar. Todo o mundo veio para Fajonquito. Aqui, o peso que estava em cima de nós ausentou-se. Os nossos homens estavam “vivinhos da costa”. O trabalho durou até cerca da O1H30 do dia 12.

Aqui tens pois o resumo da “massaricada” de várias pessoas. Se a culpa é de A, B ou C, não compete a mim dizê-lo mas que houve não há dúvidas.

Muitas vezes fomos ao Caresse. Já nos vimos lá da cor dos “tomates”, mas a sorte e um pouquinho de conhecimento tem chegado para que sejamos hoje a 1ª Companhia na Guiné sem ter baixas. Tem havido sorte, não há dúvida, mas nunca tivemos “ garganta” como aconteceu ao 7 de Espadas.

Queriam fazer “ronco”, e houve, mas para os “turras”.
Tanto eu como a rapaziada da “674” agradecem à GRANDE 675 as palavras amigas e, creiam-nos que bastante fundo nos sensibilizaram.

É tudo por hoje caro Oliveira. Cumprimentos à rapaziada. Saúde, felicidades e até à próxima.

Um forte abraço do amigo certo,

Carlos Cardoso Dias


Quarenta e três anos depois não acrescentamos qualquer comentário ao relato do Carlos Dias.

Confirmámos com emoção o nome dos mortos referidos no seu aerograma que constam do 8º. volume da Resenha Histórico-Militar das Campanha de África (1961-1974) – Mortos em Campanha, edição do Estado-Maior do Exército, (pgs.166,167,168 e 169).

- Agostinho Monteiro. Soldado Atirador nº 447/65. Natural do Biombo – Bissau. Sepultado no cemitério de Bafatá.

- Aires Jesus Moreira. Soldado Explorador – Observador nº 1473/64. Natural de Calendário – Vila Nova de Famalicão. Sepultado no cemitério de Bafatá.

- Artur Mário Ferreira Duque. Soldado Condutor de Auto Rodas nº 2439/64. Natural de Dafundo/Carnaxide, Oeiras. Sepultado no cemitério de Bafatá.

- Braima Camará. Soldado Atirador nº 443/65. Natural de Nema, Bafatá. Sepultado no cemitério de Nema - Guiné.

- José António de Jesus Barreto. 1º Cabo de Reabastecimento nº 1390/64. Natural de São Sebastião da Pedreira, Lisboa. Sepultado no Cemitério da Amadora.

- José Dias Guimarães. 1º Cabo Explorador - Observador nº 1570/64. Natural de São Bento, Salvador, Arcos de Valdevez. Sepultado no Cemitério de Arcos de Valdevez.

- José Mota Braz. Soldado Básico nº 1380/64. Natural de Vila Nova, Casével, Santarém. Sepultado no cemitério de Bafatá.

- José Salvado Dias Raposo. Soldado Sapador nº 1591/64. Natural do Fundão. Sepultado no cemitério de Bafatá.

- Júlio Varela Dias. Soldado Atirador nº 47/65. Natural de São José, Bolama. Sepultado no cemitério de Bafatá.

- Norberto Pina Araújo Júnior. Soldado Atirador nº 45/65. Natural de Nossa Senhora da Graça, Bafatá. Sepultado no cemitério de Bafatá.

De todos os registos atrás referidos constam como local de operações Sare Dicó, na estrada de Fajonquito – Canjambari.

O dia 11 de Janeiro de 1966 foi sem dúvida um dia particularmente trágico para os militares do Batalhão de Cavalaria 757.

Um abraço,
JERO
Fur Mil Enf da CCAÇ 675

Imagens: José Eduardo Oliveira (2009). Direitos reservados.
___________
Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

Guiné 63/74 - P4929: Memória dos lugares (41): Estragos no quartel dos COMANDOS, Brá 1968 (Magalhães Ribeiro/Abreu dos Santos)

O nosso Amigo e Camarada-de-armas Abreu dos Santos (ex-Combatente em Angola), enviou-me oportuna e importante informação, que aqui muito lhe agradeço, sobre alguns pormenores que poderão contribuir para ajudar a esclarecer, o que é que se passou no aquartelamento dos COMANDOS, em Brá, no ano de 1968, que provocou os enormes estragos que se podem verificar nas fotos, que nos foram enviadas pelo nosso Camarada José Nunes, e foram publicadas no poste P4895 (*):

«Não é conhecido, que algum "quartel dos comandos" tenha sofrido «um forte ataque do IN», fosse na Guiné, em Angola ou em Moçambique. Não pela circunstância de ser "tropa especial" (tal como os camaradas pára-quedistas ou fuzileiros especiais, poderiam ter sido alvo de rocketadas e/ou morteiradas In), mas pela singela questão de, nos anais castrenses [e não só], se desconhecer um tal «forte ataque do IN aos comandos de Brá». Se alguém sabe, que avance e fundamentadamente contradite. Se não, deixem-se de estórias da carochinha...

Como toda a gente, minimamente informada, sabe, Brá não era "o" quartel dos Comandos: era um Campo Militar ou "grupo de aquartelamentos" (mal-acomparado, assim-a-modos-que um mini-polígono de Tancos, ou um Grafanil ou um Boane), no qual os Comandos tinham o sector próprio e perfeitamente delimitado, com a respectiva porta-de-armas para a estrada Bissalanca-Bissau. Aliás, o próprio BEng447, tanto quanto julgo ser correcto, também estava instalado "em Brá"...!, paredes-meias com os aludidos "Comandos". Portanto, aquelas imagens de abarracamentos meio-desmantelados – dir-se-ia "por um tornado" –, tanto poderiam ter sido produzidas em instalações do BEng447 como em qualquer outro dos quartéis que existiam naquele Campo Militar. Mas, acaso tenham sido obtidas "no quartel dos Comandos", tê-lo-ão sido: em que precisa data? por quem? e com autorização de quem?

Quanto às objectivas perguntas, colocadas pelo co-editor MR:

1. «Foi um temporal? Um incêndio? Um acidente? Um defeito de construção?»:

As fotos não demonstram, de forma concludente e iniludível, «um incidente que teve lugar no quartel dos COMANDOS em Brá»; ilustram, sim, uma das especulações relacionadas com o seguinte recorte noticioso (que poderia enquadrar, parcialmente, a 2ª pergunta)...

2. «Em que data, mais ou menos?»:

19Fev68 (2ªfeira) – Em Conackry, o PAIGC usa a emissora oficial guineana, para fazer propaganda sobre os seus últimos feitos, afirmando que lançou «ofensivas sobre as localidades de Bafatá, Gabu, Farim, Mansôa, Cansumbé e Bolama»; e que anteontem, numa acção chefiada por André Pedro Gomes, «atingiu com foguetes o aeroporto de Bissau»; mas omite, obviamente, que no cais de Conackry lhe foram recentemente entregues lanchas rápidas de origem soviética, com as quais iniciou a flagelação de destacamentos da Armada no rio Corubal.

– «Atacámos todos os centros urbanos do país, excepto Bissau, se não contarmos com o ataque [!?] ao aeroporto. O ataque ao porto [sic] de Bissau foi planificado por nós com todas as precauções. O único contratempo foi o de se não ter realizado na data marcada, por terem surgido dificuldades materiais: houve um atraso de alguns dias, mas foi planificado por nós no decurso de uma reunião com todos os camaradas; escolheram-se mesmo os homens que deviam tomar parte na acção.

Centros como Bafatá, Gabu, Farim, Mansôa, Cansumbé e Bolama foram atacados várias vezes; fizémos um certo número de prisioneiros; houve várias deserções e destruímos um grande número de barcos portugueses, o que nunca tínhamos conseguido.»¹

¹ (Amílcar Cabral, in "Cadernos Necessários", 1969)

3. «Que companhia lá estava na altura?»:
Como aquartelamento-base, a 3ªCCmds [operacional 02Nov66-08Abr68], comandada pelo cap mil inf cmd Álvaro Manuel Alves Cardoso.

Quanto à contemporânea 5ªCCmds (cap art cmd António Gabriel Albuquerque Gonçalves), foi deslocada em 19Jan68 para Cacine e mantida no sector sudoeste até seguir em 10Jul68 para o Gabu, pelo que à época não estava em Brá.»
Melhores cumprimentos,
Abreu dos Santos
(ex-Combatente em Angola)

Foto: © Virgínio Briote (2009). Direitos reservados.
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Notas de MR:

(*) Vd. poste com as fotos do José Nunes em:

Guiné 63/74 - P4928: Parabéns a você (25): Tony Grilo, nosso camarada radicado no Canadá (Editores)

Dia 10 de Setembro é data de aniversário do nosso camarada Tony Grilo. Por esta razão aqui estamos a felicitá-lo e a desejar-lhe que a festeje com alegria junto dos seus familiares e amigos.

Não sabemos se o Tony ainda se encontra em terras do Canadá, uma vez que estaria nos seus planos regressar este ano a Portugal, mas onde quer que esteja, está concerteza muito feliz.

A Tabanca inteira quer comemorar esta data muitas vezes mais, desejando tudo de bom. São os votos dos seus 365 amigos do Blogue do Luís Graça & Camaradas da Guiné, aqui representados pelo editor do poste.



Tony Grilo está connosco desde Fevereiro passado. Recordemos as suas palavras:

Amigo Graça:

Desculpa o meu começo, pois eu sigo os teus conselhos. Na tabanca todos nos tratamos por tu, e aí vai.

Caro amigo Graça, primeiro que tudo quero felicitar-te pela tua obra.

Agora se me dás licença, vou-me apresentar: O meu nome é Tony Grilo, cumpri o serviço militar, um ano e meio, em Portugal, e em 1966 fui mobilizado para a Guiné.

Saímos, no dia 31 de Maio de 1966, do cais de Alcântara no navio Alfredo da Silva. A viagem demorou 6 dias, percorremos 3666 milhas marítimas e chegámos no dia 6 de Junho de 1966.

O navio ficou ao largo, à espera do capitão de porto para o rebocar para o cais. E ali também vinham 6 pessoas.

Isto é apenas uma pequena história que sucedeu.

Agora vou contar-te algo mais sobre a minha pessoa!

Estive 24 meses na Guiné, era Apontador do obus 8,8 e a nossa Bateria, estava situada no QG em Bissau.

Estive ali só 2 semanas, pois fui enviado logo para o mato, Cabedu, ao Sul da Guiné, na célebre mata do Cantanhez.

Estive lá longos 18 meses, onde a vida era difícil, muita fome aí passávamos.

Ao fim desse tempo regressei a Bissau.

Como era bom rapaz e o capitão engraçou comigo, disse logo ao Primeiro para me marcar viagem para o mato. O motivo foi por me desenfiar do quartel. Não havendo sítio melhor, fui logo para Cacine e Cameconde, também ao Sul, na área do Cantanhez.

Graça, isto é só um pequeno apontamento, pois agora que tenho o vosso E-Mail, já é mais fácil contar as minhas histórias da passagem pela Guiné.

Actualmente vivo no Canadá, já há 38 anos, estou reformado e estou a pensar regressar ao nosso lindo Portugal em fins de Maio deste ano.

Graça, em breve vou-te enviar as minhas fotos.



Para lembrarmos o militar Tony, aqui ficam as suas fotografias, infelizmente sem legendas








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Notas de CV:

Vd. postes de Tony Grilo, Apontador de obús 8,8, Cabedu, Cacine e Cameconde, 1966/68 com datas de:

5 de Março de 2009 > Guiné 63/74 - P3986: O Nosso Livro de Visitas (57): Tony Grilo, Canadá: Artilheiro, apontador de obus 8,8 (Bissau, Cabedu, Cacine, Cameconde,1966/68)

24 de Março de 2009 > Guiné 63/74 - P4073: Tabanca Grande (126): Tony Grilo, Artilheiro, Apontador de obús 8,8 (Guiné, 1966/68)

15 de Abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4192: Estórias avulsas (28): Sorte na Vida... ou quando uma dor de dente te salva a vida (Tony Grilo, Canadá)

20 de Abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4220: Cancioneiro do Cantanhez (2): Cabedu és nossa terra (Tony Grilo, Canadá)

16 de Maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4358: Em busca de... (73): BAC1, CART 1692, CART 1427, 1966/68 (Tony Grilo)


Vd. último poste da série de 5 de Setembro de 2009 > Guiné 63/74 - P4896: Parabéns a você (24): José Marcelino Martins, ex-Fur Mil TRMS da CCAÇ 5 (Os Editores)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Guiné 63/74 - P4927: Os Nossos Enfermeiros (3): Às vezes até fazíamos o que não sabíamos (Armandino Alves)

1. Mensagem de Armandino Alves, ex-1.º Cabo Auxilitar de Enfermagem da CCAÇ 1589, Beli, Fá Mandinga e Madina do Boé, 1966/68, com data de 8 de Setembro de 2009:

Caro Luís Graça
Tenho estado a ler os Postes sobre o Serviço de Saúde Militar e vamos a ver se nos entendemos.
Eu nunca pus em causa a competência de Médicos (Oficiais) ou Enfermeiros (Sargentos e Furriéis). Dentro das suas capacidades cada um fazia o que podia e sabia e às vezes o que não sabia. O que ponho em causa é a maneira como o Serviço de Saúde era tratado. E vou pôr um caso concreto.

Enquanto estivemos aquartelados no 600 em Stª. Luzia, o Furriel Enfermeiro teve um desaguisado com outro Furriel na Messe de Sargentos, em que andaram copos de vinho pelo ar. Foi punido com a saída da Companhia e colocado não sei onde. Eu nem o conheci.

Quando cheguei à Companhia não havia quem soubesse preencher os formulários para o Laboratório Militar pois isso era da competência dele. Só 3 a 4 meses depois é que foi substituído.
Nesse entretanto fui encarregado pelo meu Capitão, não por ser o mais antigo da Companhia, mas porque tendo estado no HMR 1 onde era eu, que a pedido do Sargento que nunca lá estava, elaborava os mapas, fazia a requisição dos medicamentos e quejandos, e fui tendo umas luzes, continuando na Academia Militar a fazer o mesmo a pedido do 1.º Sargento que era um tipo porreiro e me desenrascava nos fins de semana para vir ao Porto. Amor com amor se paga.

Ora isto não se aprendia nos cursos que eles nos davam. Nós é que por moto próprio íamos tentando aprender.

Por exemplo, o meu tirocínio foi em infecto-contagiosas. O que é que esta especialidade interessa para o mato? Absolutamente nada. Era uma especialidade hospitalar. No entanto em suturas era um zero. A primeira vez que vi suturar na Academia Militar, o Cabo que estava a executá-la teve que deixar o ferido para me atender a mim. No entanto na Guiné tive de fazer das tripas coração e fazê-las, pois tive colegas que delas precisaram.

Mas não foi o Serviço de Saúde do Exército que nos ministrou isso nos cursos. Mesmo os Enfermeiros nos Hospitais Civis, só quando passam pelos serviços de urgência é que aprendem alguma coisa além de dar injecções, medir a tensão ou distribuir comprimidos.

Armandino Alves
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 7 de Setembro de 2009 > Guiné 63/74 - P4914: Os Nossos Enfermeiros (2): As malditas doenças venéreas e a bendita... penicilina (Armandino Alves, CCAÇ 1589, 1966/68)

Guiné 63/74 - P4926: Meu pai, meu velho, meu camarada (12): 1º cabo Ângelo Ferreira de Sousa, S. Vicente, 1943/44 (Hélder Sousa)

Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mapa de 2007, da autoria de Francisco Santos. Imagem copyleft (Fonte: Wikipédia)

Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > Foto nº 2 > Ângelo Ferreira de Sousa (1921-2001), pai do nosso camarada Hélder Sousa, natural de Vale da Pinta, Cartaxo, ex-1º Cabo n.º 816/42/5 da 4ª Companhia do 1º Batalhão de Infantaria do R.I. (23 ?) [ou seria do R.I. 5, Caldas da Raínha ? (LG)]... A foto 2 tem a data de 18 de Outubro de 1943 e na legenda refere ser 'recordação de S. Vicente'.

Cabo Verde > Ilha de São Vicente (?) > Foto nº 24 > 1º Cabo Ângelo Ferreira de Sousa (n. 1921 e, infelizmente, já falecido, em 2001). A foto 24 tem a data de 28 de Setembro de 1944 e acho que se trata de recordação já depois do regresso [à Metrópole].

Caldas da Rainha > 8 de Maio de 1943 > Foto 1 > A foto 1 é das Caldas da Raínha, com data de 8 de Maio de 1943 e tem no verso a indicação de ter sido 'tirada na véspera da minha retirada para Cabo Verde e um dia depois da promoção a 1º Cabo'. [Ao fundo, a fachada do hospital termal, (LG)]...

Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Baía do Mindelo > Foto nº 3 > S/d > A foto 3 não tem referências a datas mas é visível tratar-se do [navio] Colonial [, ainda a navegar no final dos anos 40; o meu pai tem uma foto do Mouzinho de Albuquerque, que me parece ser do mesmo tipo ou série(LG)].

Cabo Verde > Ilha de S. Vicente > Mindelo > Foto nº 4 > S/d > A foto 4 é equivalente à que está no texto sobre o teu pai. Tratam-se de 'barcos hospitais' e não há dados no verso da foto. No entanto é provável serem os mesmos [, italianos,] que se estão referenciados na troca de prisioneiros e doentes em 1942 [antes, portanto, da chegada do meu pai]. Deve tratar-se de 'postal ilustrado'... [Segundo informação do nosso amigo açoriano João Coelho, ex-FAP, tratava-se do Vulcania e do seu irmão Saturnia, dois navios de passageiros italianos, transformados em hospitais durante a II Guerra Mundial; eram, conhecidos dos açorianos de São Miguel; o Vulcania terá navegado até 1974!... Segundo o meu pai, estes navios chegaram a São Vicente e ficaram ao largo da baía do Mindelo em 11 de Abril de 1942 (LG)].

Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > As fotos 5 e 6 referem-se a uma parada militar ocorrida em 14 de Agosto de 1942, dia do exército. Nessa data o meu pai ainda não estava lá pelo que essas fotos devem ter sido adquiridas mais tarde e devem ter servido de recordação. [Deve tratar-se de postal ilustrado: Foto Melo. (LG)].

Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > Foto nº 6 > Comemoração do dia do exército, 14 de Agosto de 1942. Foto: Melo. [Vê-se ao fundo o Ilhéu dos Pássaros, (LG)]


Cabo Verde> Ilha de São Vicente > Mindelo > Foto nº 7 > S/ d > A foto 7 ilustra a passagem dum zeppelin mas não tem datas. [É uma raridade esta foto: ao que parece, dataria de 1937, ano e que o Mindelo foi sobrevoado por um dirigível que pretendia abrir uma carreira entre a Europa e o Novo Mundo, o LZ 129 Hindenburg, de fabrico alemão:

(...) Reza a História, que o dito aparelho, uma das grandes apostas à época para o transporte de passageiros, adoptando os mesmos tipos de luxos dos grandes 'Paquetes Transatlânticos' que estabeleciam as ligações entre os três continentes, Europa, África e Américas, fez só uma viagem ligando os dois continentes. Partiu da Velha Europa para o Novo Mundo - o continente Americano, tendo passado sobre CV.

"Mindelo ficou na sua rota e Tuta registou esse momento, único! O aparelho passou sobre a Ilha de São Vicente, tendo largado três sacos de 'Mala Postal' - a forma complicada como se dizia correio - e teve um fim trágico ao aterrar em Lakehurst nos USA [, em 6 de Maio de 1937].

"Para os arquivos, fica mais esta imagem, só possível em Mindelo, pelo manancial de informação que corria na ilha, por causa dos cruzamentos dos cabos submarinos do Telé grafo Inglês e da Italcable (Italianos) e do seu movimentado Porto, também à época local de passagem obrigatória para os barcos que cruzavam o Atlântico Sul" (...)".


Fonte: sítio Mindel Na Coraçon


Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > Foto nº 8 > S/d > A foto 8 é também equivalente a uma outra que o Luís mostra com tubarões. Também não tem data. [Nao se sabe quem seja a criancinha que, insolitamente, aparece em primeiro plano, (LG)]

Cabo Verde > Ilha de São Vicente > S. Pedro > Foto nº 9 > As fotos 9 e 10 têm a data de 16 de Junho de 1943 e referem no verso terem sido 'tiradas nas rochas do mar em S. Pedro, [a sudoeste do Mindelo,] com amigos de 40, 41 e 42'.

Cabo Verde > Ilha de S. Vicente > S. Pedro > Foto nº 10 > 16 de Junho de 1943

Cabo Verde > Ilha de S. Vicente > Mindelo > Foto nº 11 > As fotos 11, 12 e 13 têm data de 21 de Agosto de 1943 (dois dias depois do 23º aniversário do pai do Luís) e no verso consta terem sido tiradas 'junto à Caserna da 4ª Companhia, estandono dia em que fiz 3 meses de África', donde eu presumir que deve ter chegado lá cerca de 21 de Maio de 43, o que estará certo.

Cabo Verde >Ilha de São Vicente > Foto nº 12 > 21 de Agosto de 1943

Cabo Verde > Ilha de S. Vicente > Mindelo > Foto nº 14 > A foto 14 não tem data mas tem no verso o seguinte 'Nos dias de S. António e S. João nativos dançando cancan ou cola-cola' [o famoso 'cola Sanjon', ponto alto, hoje, dos festejos tradicionais do São João, em Junho]

Cabo Verde > Ilha de S. Vicente > Mindelo > Foto nº 15 > A foto 15, datada de 30 de Janeiro de 44, diz que se trata de 'recordação do Quartel de Chã do Alecrim, S. Vicente, Cabo Verde'. [Chã de Alecrim ficava a nordeste do Mindelo, perto da Baía de Laginha, estando hoje integrada na cidade (LG]].

Cabo Verde > Ilha de S. Vicente > Chã do Alecrim > Foto nº 16 > A foto 16, também datada de 30 de Janeiro de 44, diz o mesmo que a anterior mas acrescenta: 'Esta é a nossa querida Bandeira'. [As fotos 20, 21 e 22 não têm datas nem referências, embora nesta última se possa identificar a tal Caserna da 4ª Companhia; não têm um mínimo de qualidade, razão por que não se publicam, LG].

Cabo Verde > Ilha de S. Vicente > Mindelo > > Praia da Matiota > Foto nº 17 > As fotos 17, 18 e 19 não têm elementos para além da data e de que se trata da Matiota, local da praia, presumo.

Cabo Verde > Ilha de S. Vicente > Mindelo > Foto nº 18 > Praia da Matiota

Cabo Verde > Ilha de S. Vicente > Mindelo > Foto nº 19 > Praia da Matiota

Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > Foto nº 23 > A foto 23 tem a data de 10 de Setembro de 1944 e diz ser 'recordação da despedida de Cabo Verde, com dois 2ºs Cabos nativos, amigos'. [As fotos 20, 21 e 22 não têm datas nem referências, embora nesta última se possa identificar a tal Caserna da 4ª Companhia; não têm um mínimo de qualidade, razão por que não se publicam (LG)].

Fotos: © Hélder Sousa (2009). Direitos reservados. (Legendas de HS e LG)




Vídeo (2'50''): © Luís Graça (2009). Direitos reservados (Disponível no You Tube > Nhabijoes)


Luís Henriques, de 89 anos, natural da Lourinhã, ex-1º Cabo Expedicionário na Ilha de São Vicente, Cabo Verde (1941/43), improvisa uma letra, ao som da música da conhecida morna, popular, de autor desconhecido, 'Papá Joaquim Paris', uma das jóias da música de Cabo Verde, imortalizada por nomes como o Bana, a Cesária Évora, o Tito Paris, etc.

Luís Henriques: Nascido em 19 de Agosto de 1920, na Lourinhã, foi mobilizado para Cabo Verde, durante a II Guerra Mundial, como 1º Cabo nº 188/41, 1º Pelotão, 3ª Companhia, 1º Batalhão do Regimento de Infantaria nº 5 (unidade mobilizadora, das Caldas da Rainha). É pai do Luís Graça (*)...

Tal como o pai do Hélder Sousa, o meu esteve na Ilha de São Vicente, na cidade do Mindelo, de 23 de Julho de 1941 a (?) de Setembro de 1943. Ao todo, foram 26 meses "a comer pó". Esteve aquartelado no Lazareto, a oeste da cidade do Mindelo (cidade, na época, mais importante que a Praia, capital político-administrativa do arquipélago, na Ilha de Santiago). Lembra-se de, ao regressar à sua terra, a primeira coisa que quis comer foram uvas...

Mas a peluda só veio, oficialmente, em Janeiro de 1944. O mundo inteiro vivia o pesadelo da II Guerra Mundial... E Portugal tinha milhares e milhares de homens espalhados pelos diversos territórios do seu Império, incluindo as estratégicas ilhas adjacentes, da Madeira e dos Açores. Das colónias africanas, o arquipélago de Cabo Verde era o território que ficava mais perto da Europa e do teatro de operações do Atlântico Norte... Pelo seu posicionamento geoestratégico, aero-naval, esteve na mira tanto dos Aliados como das potências do Eixo...

Do Mindelo, o meu pai lembra-se de pessoas e lugares: por exemplo, o seu impedido, o Joãozinho, com quem repartia o rancho, e que morreu, de doença, quando ele próprio estave internado (no interior da ilha ), durante 4 meses, com "problemas de pulmões... Lembra-se do Monte Cara, do Lazareto, da praia da Matiota, de São João da Ribeira, do Calhau... Sei que nunca foi à Baía das Gatas, por exemplo (hoje conhecida por ser uma estância de turismo e pelo seu famoso festival de música)... nem nunca explorou muito bem o lado meridional da ilha... (Bastavam-lhe os longos e penosos exercícios físicos e marchas que faziam no interior da ilha, para se manterem em forma, matar o tédio, esquecer a fome, a sede e a saudade)...

Lembra-se, além disso, dos nomes (e até dos números ) de alguns camaradas... Lembra-se dos nomes e de alguns histórias dos seus oficiais (alguns, bem prussianos, militaristas, germanófilos, de acordo o o figurino da época) ... Lembra-se até dos resultados dos renhidos torneios de futebol e de voleibol que se realizavam no Mindelo, entre tropas de diferentes subunidades... Escreveu centenas e centenas, senão mesmo alguns milhares, de cartas, em nome daqueles que na época (e eram muitos...) não sabiam ler e escrever... Muitas vezes eram os próprios putos cabo-verdianos, engraxadores de rua, escolarizados, que liam as cartas recebidas pelos expedicionários, metropolitanos, analfabetos... Que triste ironia!...

Mas, fantástico, os ex-expedicionários de Cabo Verde desta época continuaram a encontrar-se durante muitos e muitos anos, até à década de 1990... O meu velhote costumava ir aos encontros do 1º Batalhão do RI 5, nas Caldas da Raínha... até que as pernas começarem a falhar e a maior parte deles, dos seus camaradas, desapareceu de chez les vivants... (LG)


1. Mensagem de 1 de Setembro, do nosso camarada Hélder Sousa


Caro Luís e restantes Editores

Faz algum tempo, quando saiu o P4059, em 20 de Março passado (*), que algumas das situações lá referidas e algumas fotografias me fizeram sentir que me eram familiares. Acho que te dei conta disso em comentário.

Esse artigo ou texto ficou inserido numa série intitulada "Meu pai, meu velho, meu camarada" e nele referias a estadia do teu Pai inserido no Corpo Expedicionário Português em Cabo Verde, ao tempo da 2º Grande Guerra Mundial.

Acontece que o meu Pai, entretanto falecido faz alguns anos, também foi Expedicionário em Cabo Verde. Também esteve em S. Vicente. Curiosamente, também, no verso de algumas fotografias, tem escritos a tinta verde, como tu indicas nos escritos do teu Pai. Talvez seja só coincidência. Talvez fosse moda na época. Talvez fosse o tipo de material de escrita que havia ou era distribuída aos militares, disso, agora, por mim, não consigo aclarar, por razões óbvias.

Só agora consegui que a minha Mãe, adoentada, me facultasse as fotos que estavam guardadas "algures".

Recuperei algumas que envio em anexo. Pode ser que o teu pai identifique alguém ou consiga lembrar-se das situações.

Existem fotos repetidas, ou quase, relativamente às que fizeste acompanhar o texto referido, como as dos "barcos hospitais" e as dos "tubarões", bem como as das "festas nativas".

Segundo os dados que consegui obter dos versos das fotos, o meu Pai, nascido a 28 de Abril de 1921, fez a recruta nas Caldas da Raínha, onde passou a 1º Cabo, em 7 de Maio de 1943, e donde terá partido em 9 de Maio (?) para a sua "retirada" (como ele escreve) para Cabo Verde onde, supostamente, pelas tais notas nas fotos, terá chegado em 21 de Maio de 1943. Calculo que, tudo isto a bater certo, se terá cruzado com o teu Pai ainda lá, pois existe uma foto dele no dia de anos em 19 de Agosto de 43 em S. Vicente.

De acordo com notas que encontrei no verso de algumas fotos, o meu Pai, chamado Ângelo Ferreira de Sousa, natural de Vale da Pinta, Cartaxo, seria o 1º Cabo n.º 816/42/5 da 4ª Companhia do 1º B.I. do R.I.(23 ?) [ou seria do R.I. 5, Caldas da Raínha ?] (

Eu e o meu Pai não falámos muito destas nossa experiências africanas, ou quase. Aliás, acho que nem sequer falámos disso. Por acaso referes no teu texto o livro Hora di Bai, de Manuel da Fonseca, que também li e que na altura me deu para entender (pelo menos nos meus conceitos) os tempos por lá vivido.

É claro, também, que "não estive lá" e se calhar, por isso, não poderia entender, como agora parece ser apanágio de alguns amigos que acham que só quem "esteve" é que pode falar ou entender. Entender, todos podem. Falar, no sentido de "saber", é certo que quem viveu pode corrigir e falar talvez mais acertadamente, esclarecer melhor um ou outro pormenor, uma data, uma hora, um número de Companhia, mas não pode impedir que se fale do assunto. Por esse ponto de vista estreito não se podia falar da tomada de Lisboa aos mouros, "não se esteve lá", nem da batalha do Salado, "não se esteve lá", nem da viagem de Vasco da Gama à Índia, "não se esteve lá", e por aí fora com aberrações semelhantes.

Tive dois professores caboverdeanos. Um deles, Francelino Gomes, autor dum dos melhores livros de matemática que conheci e que muito me ajudaram na minha vida escolar, o livro e o professor. Outro foi o Terêncio Anahory, que chegou a viver no meu prédio, em Vila Franca de Xira, e que também estava referenciado como um dos autores contemporâneos de poesia caboverdiana. Como vês, os contactos com Cabo Verde são estreitos.

As fotos que te envio, com legendas, podem talvez ajudar a criar referências e a possibilidade de o teu Pai identificar algumas coisas e ou pessoas.

Um abraço

Hélder Sousa

2. Nova mensagem, de 2 de Setembro , do Hélder:


O texto que antes enviei com as fotos em anexo, tinha o objectivo inicial de apenas seguir para o Luís para ele mostrar as fotos ao Pai e a partir daí ver se haveria alguma identificação.

Por isso, em algumas partes da escrita a mesma é dirigida ao Luís. Depois, com o correr do tempo e a passagem das fotos, acabei por enviá-la para o Blogue.

Acho que se entenderem que terá matéria para publicação será necessário, talvez, algum enquadramento, pois poderão não faltar "vozes" a dizer que Cabo Verde não tem nada a ver com a nossa estadia na Guiné e o blogue é "camaradas da Guiné" e não com "velhadas em Cabo Verde".

Poderá ser qualquer coisa, como introdução, que relacione um pouco as questões do envolvimento das diferentes gerações nas épocas de guerra (o meu avô na 1ª Grande Guerrra, o meu pai contemporâneo da 2ª Guerra Mundial, eu e a minha/nossa geração nas frentes africanas).

Espera-se que os nossos netos (para os que os têm) tenham a mesma sorte que os seus pais, nossos filhos, os quais não tiveram que entrar em nenhuma situação semelhante.

Ainda bem!
Um abraço
Hélder Sousa

3. Comentário de L.G:

Hélder:

Quero publicamente agradecer-te estas autênticas preciosidades!... (Já o fiz em privado). Como te tinha prometido, aqui vão as fotos do teu pai, com as tuas legendas e o teu texto introdutório, inseridos na série Meu pai, meu velho, meu camarada.

É uma justa, justíssima, embora pequena, homenagem que fazes, não só ao teu vellho, aos nossos velhos (o meu felizmente ainda vivo, com 89 anos feitos em 19 de Agosto passado, no memso dia do Mário Fitas), mas também aos nossos amigos e irmãos de Cabo Verde... Seria uma pena que essas velhas fotos (e as memórias que elas cristalizam) se perdessem... É uma património (documental) também a preservar, e que pertence a todos... Quanto ao resto, deixa lá para trás eventuais críticas ...

Vou, de resto, fazer o mesmo com as fotos dos expedicionários que estiveram em Goa, Damão e Díu, até à data da invasão indiana, em Dezembro de 1961... Temos tendência, quando escrevemos ou falamos sobre a guerra colonial, para esquecer o caso da Índia Portuguesa, a jóia da coroa do nosso Império Colonial. Tenho um primo, o Luís Maçarico, de Ribamar, que esteve lá preso, nessa época ... A maior parte da malta ficou sem nada, incluindo os álbuns fotográficos... Ele consegiu salvar e trazer o seu...

Nunca estive em Cabo Verde (apenas duas horas no Sal, em 1970, na minha ida de férias à Metrópole, no voo Lisboa-Bissau, numa paragem técnica), mas é como que se lá tivesse vivido, nesta ou noutra incarnação... Como já aqui o disse, o álbum fotográfico do meu pai foi para mim, desde pequenino, uma fonte de maravilhamento por essa África tão próxima e tão distante, tão quente e tão estranha...

No fim de semana vou estar com o meu velhote, no casamento de um neto dele... Vou testar, mais uma vez, a sua memória... Tenho um entretanto um improviso, comovente, dele, acompanhando a música (a parte instrumental) dessa fabulosa morna que se chama Papá Joaquim Paris, imortalizada pela Cesária Évora, entre outros grandes intérpretes de Cabo Verde... Já pus no You Tube > Nhabijoes... (Escuta, entretanto, a diva aqui: http://www.youtube.com/watch?v=OhpTTXUmN64o ).

Um abraço. Luis

4. Esclarecimento posterior do H.S:

Caros amigos: Em relação à data do falecimento do meu pai foi em 21 de Novembro de 2001. Problemas da próstata, por isso cuidem-se, meus amigos...Não a coloquei logo porque tinha a dúvida se teria sido em 2002 ou 2003 (pensamos sempre que o tempo não passa...) mas para tirar a dúvida a minha irmã esclareceu a data correcta.

Relativamente ao que o Luís refere sobre o facto de ter crescido com a visão das fotos, é curioso ele dizer isso, porque comigo sucedeu parecido, já que quando estava doente com anginas (antes da operação às amígdalas) era costume ficar com algumas coisas para me entreter entra as quais a caixa com as fotos do meu pai. Aí via esses exotismo e imaginava-me lá. Quem diria!

Um abraço. Hélder

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Notas de L.G.:

(*) Vd. postes da série:


20 de Março de 2009 > Guiné 63/74 - P4059: Meu pai, meu velho, meu camarada (1): Memórias de Cabo Verde, São Vicente, Mindelo, 1941/43 (Luís Graça)

21 de Março de 2009 > Guiné 63/74 - P4060: Meu pai, meu velho, meu camarada (2): Militar de carreira, herói da 1ª Grande Guerra, saiu do RAP 2 como eu (David Guimarães)

21 de Março de 2009 > Guiné 63/74 - P4062: Meu pai, meu velho, meu camarada (3): No Dia Mundial da Poesia (António Graça de Abreu)

24 de Maio de 2009> Guiné 63/74 - P4407: Meu pai, meu velho, meu camarada (4): Não é um elogio fúnebre que te quero dedicar... (António G. Matos)

26 de Maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4420: Meu pai, meu velho, meu camarada (5): A minha família e o RAP2 (Vila Nova de Gaia) (David Guimarães)

16 de Julho de 2009 > Guiné 63/74 - P4694: Meu pai, meu velho, meu camarada (6): Ex-Cap Pára João Costa Cordeiro, CCP 123/ BCP 12 (Pedro M. P. Cordeiro / Manuel Rebocho)

17 de Julho de 2009 > Guiné 63/74 - P4700: Meu pai, meu velho, meu camarada (7): Cap Pára João Costa Cordeiro: Um homem de carácter (António Santos / Carlos Matos Gomes)

17 de Julho de 2009 > Guiné 63/74 - P4703: Meu pai, meu velho, meu camarada (8): Sobre o Capitão-Pára João Costa Cordeiro (Manuel Peredo)

18 de Julho de 2009 > Guiné 63/74 - P4705: Meu pai, meu velho, meu camarada (9): Testemunho do Coronel Pára Sílvio Araújo sobre o Cap-Pára João Costa Cordeiro (João Seabra)

18 de Julho de 2009 > Guiné 63/74 - P4706: Meu pai, meu velho, meu camarada (10): Depoimento e fotos sobre o Cap-Pára João Costa Cordeiro (Miguel Pessoa)

24 de Julho de 2009 > Guiné 63/74 - P4731: Meu pai, meu velho, meu camarada (11): Mensagem do filho do Cap-Pára João Costa Cordeiro (Pedro Miguel Pereira Cordeiro)

(**) Outro Regimento que teve tropas destacadas, a nível de batalhão (800 homens), durante a II Guerra Mundial, em Cabo Verde, nas Ilhas de São Vicente e Santo Antão, foi o RI 15 (Tomar):

Vd. Islas de Cabo Verde > Adriano Moreira Lima > Tomar, 25 de Fevereiro de 2006 > TROPAS EXPEDICIONÁRIAS A CABO VERDE DURANTE O PERÍODO DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL - MEMÓRIA QUE PERDURA

(...) Como é sabido, Portugal não teve qualquer envolvimento na Segunda Guerra Mundial, tendo optado por uma posição de neutralidade que se manteve ao longo de todo o conflito. No entanto, sabedor da importância estratégica das suas ilhas atlânticas, nomeadamente os arquipélagos dos Açores e de Cabo Verde, alvos apetecidos por qualquer dos contendores, Portugal entendeu que seria curial guarnecer aqueles territórios com forças militares suficientes para dissuadir qualquer veleidade por parte dos beligerantes.

O conflito assumira uma dimensão considerável no Atlântico e aqueles arquipélagos eram, com efeito, detentores de elevado potencial estratégico, sobretudo do ponto de vista aero-naval. Uma fraca presença militar de forças nacionais poderia indiciar um sintoma de desleixo, susceptível de encorajar uma ocupação estrangeira à revelia do direito internacional, em manifesto atropelo da soberania portuguesa.

O Regimento de Infantaria nº 15, de Tomar, foi das unidades do exército que enviaram forças expedicionárias a Cabo Verde. Conheço muito bem o historial deste Regimento por nele ter servido durante longos anos. E é assim que me capacito a divulgar a curiosa memória afectiva que os expedicionários deste Regimento de Infantaria desde sempre vêm cultivando e perpetuando.

A par de outros Regimentos do Exército, competiu ao Regimento de Infantaria nº 15 organizar e mobilizar para Cabo Verde um Batalhão de Infantaria (cerca de 800 homens). As quatro companhias do Batalhão ficaram instaladas em S. Vicente e S. Antão, tendo partido de Portugal agrupadas em três contingentes. O primeiro embarcou em Portugal em 19 de Outubro de 1941, o segundo em 17 de Novembro do mesmo ano, e o terceiro em 8 de Janeiro de 1942.

(...) O facto é que desde a sua desactivação, os ex-militares que serviram no citado Batalhão vêm promovendo reuniões anuais em alomoços-convívio para recordar a sua passagem por Cabo Verde, nomeadamente pelas ilhas de S. Vicente e de S. Antão, por onde se distribuíram as suas companhias.

Estive presente num desses convívios pela primeira vez em 1986, pela circunstância de o mesmo ter sido realizado nas instalações do Regimento de Infantaria nº 15, por convite do seu Comandante. Competiu-me, na altura com o posto de major, ser o oficial a apoiar a organização desse evento, que se inseria nesse ano nas comemorações do aniversário do Regimento, condição que me permitiu assistir do princípio ao fim a confraternização dos ex-militares.

O leitor nem imagine a satisfação daqueles homens quando lhes disse que eu era cabo-verdiano de origem. E isto porquê? Porque quando se juntam a intenção é celebrar a memória de uma experiência militar vivida na intensidade anímica dos seus 20 anos, mas também recordar e celebrar a terra cabo-verdiana com eflúvios de uma saudade que eu não imaginava possível. (...)