terça-feira, 24 de julho de 2012

Guiné 63/74 - P10190: Do Ninho D'Águia até África (2): Montando o Centro de Cripto (Tony Borié, ex-1.º Cabo Op Cripo, Cmd Agrup 16, Mansoa, 1964/66)

1. Continuação da publicação de "Do Ninho de D'Águia até África", de autoria do nosso camarada Tony Borié (ex-1.º Cabo Op. Cripto, Cmd Agrup 16, Mansoa, 1964/66), iniciada no Poste P10177.


Do Ninho D'Águia até África (2)

Montando o Centro de Cripto em Mansoa

O Unimog, pois é assim que chamam à viatura onde viaja o Cifra, que vai sentado num dos bancos corridos que foram colocados em cima desta viatura, que é uma espécie de uma camioneta pequena, com as rodas muito altas, e toda aberta, incluindo a cabine.

O Cifra, leva vestido um camuflado novo. Na cabeça, leva um boné, também de pano camuflado, a que chamam “quico”, é uma espécie de boné com duas palas, uma na frente e outra atrás, mas com dois bicos, o que o Cifra, nunca compreendeu porquê, estes dois bicos. Devia levar um capacete de ferro, mas durante os dois anos em que esteve na província, nunca lho distribuíram, e o Cifra, também não o pediu.

Leva a G3 entre as pernas, segura com ambas as mãos, com o carregador cheio e pronta a disparar, um cinto com dois carregadores extras. Um pouco à frente, na viatura, vai um pequeno monte de malas e sacos, pertencentes aos militares que viajam com o Cifra. São os seus haveres.

Saíram do acampamento, já passava das nove horas da manhã.
Iam a caminho duma vila no interior da província, onde iriam ser colocados. A estrada era estreita, mas quase toda de alcatrão, e em alguns locais, estava coberta com alguma água.

O Cifra ia com algum receio, pois era voz corrente, de que depois de saírem da capital da província, não se podia andar um metro, que havia logo, um guerrilheiro, “armado até aos dentes”, coberto de armas e munições, com catana e tudo, atrás de cada árvore ou arbusto, que encontrassem pelo caminho!

Enfim, sempre que algum colega falava mais alto, ou sempre que ouvia algum barulho fora do normal, o Cifra ficava quase em pânico, e agarrava-se à G3, com quanta força tinha!.

Começa a chover. Tanto ele como os outros militares ficaram encharcados, diziam que era o começo da época das chuvas. O Cifra não sabia o que era a época das chuvas, só sabia que estava molhado até aos ossos, mas mesmo assim não tirava os olhos da sua mala e do saco, principalmente do saco, onde ia a sua roupa, parte dela suja e cheia de lama, usada no acampamento, onde tinha estado por três semanas, e onde não havia condições nem meios para a lavar.

E o Cifra, para ver se perdia um pouco de receio, que o atormentava, começa a falar sozinho:
- Agora, com esta chuva é que a roupa suja de lama, que vai dentro do saco, vai ficar numa lástima, e é capaz de contaminar e sujar toda a restante, e para mais com aquela goma, que a ganga de que é feita tem, quando é nova!

Com estes pensamentos, chegaram ao local de destino.

O furriel miliciano diz, com a água da chuva a escorrer-lhe pela face e a entrar pela boca:
- Tirem as vossas coisas, e acomodem-se o melhor que poderem naquele local, onde há algumas paredes, e o resto do telhado.

Quando o furriel miliciano, se referia às paredes e ao resto de telhado, estava a referir-se às ruínas do que diziam ter sido um convento de padres de uma ordem religiosa francesa.

E continuando, a falar, diz:
- E tu, oh Cifra, quando puderes vem buscar esta mala e este saco, que são meus, e ajeita-me lá um espaço, ao pé de vocês, pois eu ainda tenho muito que fazer.

Cada um procurou, o melhor possível, acomodar-se, e logo se improvisaram camas no chão, com o saco molhado, a servir de travesseiro. Todos barafustavam, mas iam arrumando as suas coisas.

Lá mais para o final do dia, o Setúbal, que foi baptizado com este nome, porque o principal era Jeremias, e não dava muito jeito a pronunciar, diz para o Cifra:
- Tenho fome!

E dito isto, começa a subir para uma enorme árvore, o que mais tarde, souberam que era uma “Mangueira”, e começa lá de cima, a abanar os ramos de onde caíram bastantes “mangos”, que era uma fruta deliciosa!

O furriel miliciano, vendo isto, grita-lhe:
- Aí em cima, estás mesmo a jeito, para levar um tiro dos guerrilheiros! Vem já para o chão, e vem com cuidado, porque podes cair, e se não morres do tiro, morres da queda!

Alguns, riram-se, outros ficaram ainda com mais receio, como foi o caso do Cifra.
A partir daí aquela árvore, passou a chamar-se a “Mangueira do Setúbal”!

Havia, mais ou menos no centro das ruínas, uma fonte, com uma bica que deitava alguma água, o Cifra perguntou a um militar, que já se encontrava há algum tempo, naquela área:
- Esta água, é boa para beber? - Ao que ele respondeu, tirando um cigarro da boca, mostrando uns restos de dentes quase pretos. Era um homem novo, com cara de velho:
- Eu não sei, eu não sou de cá!

E o Cifra pensou, que não fazia muita diferença beber ou não, pois se bebesse, era capaz de morrer, mas se não bebesse, também era capaz de morrer, mas à sede!

Nesta altura, passa o capitão, que era o comandante da companhia, que já lá se encontrava, e o militar, depois do capitão passar, diz, mostrando de novo o resto dos dentes quase pretos:
- Tem cuidado com este gajo, pois ele parte tudo à bofetada! Tanto faz ser soldados como furriéis!

Com estas boas referências, o Cifra, fica colocado em possível cenário de guerra, no interior da província.

Faz parte do comando de uma unidade militar, que irá controlar todos os movimentos de tropas na região. Pelo menos de dia, pois de noite ninguém tinha autorização de sair da área do aquartelamento que entretanto se estava a construir, ao lado das ruínas, assim como em qualquer parte de toda a província. Era proibido andar fora das áreas aquarteladas, de noite.

Há tudo a fazer, desde instalações militares, pista de aterragem para avionetas e helicópteros, paiol, enfermaria, dormitórios, cozinhas, lugares cobertos para refeições, e mais um sem número de outras coisas, que fazem um comando funcionar.

Claro, protecção, ou seja, abrigos subterrâneos e à face da terra, gradeamentos, com arame farpado, em toda a volta do aquartelamento, com especial protecção, em certos pontos estratégicos. Para isso havia sob o comando desta unidade militar, um batalhão de cavalaria, que veio mais tarde, parte de uma companhia de engenharia, um pelotão de morteiros e demais pessoal, que não importa agora mencionar.

Este aquartelamento estava a construir-se num local com alguma estratégia. A este havia uma grande aldeia, com casas cobertas de colmo, onde viviam naturais da província, de uma certa etnia, que pelo menos, se mostrava fiel aos militares.

A norte e oeste, era a vila, típica colonial, com algumas casas de adobe, e cobertas a folhas de zinco, e dos lados algumas bananeiras, que se viam da rua.

Na vila, sobressaiam o posto dos correios [, foto à direita de César Dias, 1970], o mercado, com as suas bancas, onde se vendia de tudo um pouco, e onde não faltavam alguns cães vadios, que não deveriam de ter dono, pois estavam lá todo o dia e alimentavam-se do resto da carne e ossos, embrulhados em folhas de bananeira, que se vendiam em determinada área do mercado, a sede de um clube de futebol local, que abria à tarde, e vendia cerveja à temperatura ambiente, e gasosa muito doce, a saber a cana-de-açúcar, uma pequena igreja, pintada de branco, onde havia missa, sempre que era possível vir um padre da capital da província, um estabelecimento comercial, propriedade da Companhia Ultramarina, que recolhia alguns produtos que os naturais vendiam, a troco, muitas vezes, de bugigangas, sem qualquer valor, ou uns panos de chita, algumas casas pintadas mais a preceito, onde viviam alguns negociantes de madeira, uma casa, que era uma espécie de taberna, de uma senhora de origem cabo-verdiana, que juntamente com as suas filhas, vendia comida e cerveja mais ou menos fresca, que tirava de um frigorífico, que diziam que funcionava a petróleo, cerveja esta que os militares lhe traziam da capital da província, um posto de enfermaria, o edifício público onde funcionava, uma espécie de câmara municipal, que emitia documentos de identificação aos naturais, que queriam viajar de umas povoações para outras, sem serem incomodados pelos militares, entre outras coisas.

As ruas eram direitas, com algumas árvores, em especial Mangueiras, que estavam pintadas de branco, na sua base, pelo menos dois metros de altura. O Cifra, nunca compreendeu porquê, essa pintura. Do lado sul, havia matas, que diziam, mais tarde seria um campo de aviação. Mas creio que isso nunca sucedeu, pois usava-se uma zona ao norte, ao lado da tal aldeia, com casas cobertas de colmo, que era plana e onde aterravam as avionetas, e helicópteros.

Mais a oeste, quase à entrada da vila, passava um rio, com uma ponte em cimento, com um arco, e diziam que era a ponte mais importante da província. Embora, a vila se encontrasse a muitos quilómetros do mar, a maré subia alguns metros, o que fazia ficar grandes áreas submersas, e quando a maré era baixa, deixava a descoberto essas mesmas áreas, que era só lama, e passava a ser o paraíso de algumas aves e crocodilos, enterrados nessa mesma lama.

Mansoa > Ponte sobre o Rio Mansoa

Foto: © Joaquim Mexia Alves (2008). Todo os direitos reservados

O Cifra, tal como o nome indica, tem por missão ajudar a organizar e montar um centro cripto onde funcionará um sistema de cifra que ajuda a comunicação, em código, entre todas as forças militares que estão estacionadas na região, em diferentes zonas de guerra. Monta-se um centro cripto com o mínimo de segurança e organiza-se turnos de modo a funcionar vinte e quatro horas por dia. O centro de transmissões, recebe a mensagem em código, entrega-a por mão no centro cripto, este por sua vez decifra o conteúdo da mensagem e entrega-a no comando, também por mão.

Como já compreenderam, o Cifra, esse puto, que acordava, na sua aldeia do Ninho d’ Águia, ao som do comboio das seis e meia, tem a guerra na mão! Sabe de tudo o que se passa nas zonas de combate, primeiro que os comandos. Como entrega a mensagem, já decifrada, no comando e por mão, por vezes, vê na expressão do rosto do comandante e seus pares, sabendo ele o conteúdo da mensagem, se o comando vai agir, se se cala ou se movimenta tropas. [Foto à direita,  de Paulo Raposo: placa toponímica, Mansoa, 1968].

Enfim, era como aqueles párocos das aldeias, no interior de Portugal, que sabiam a vida de todos os paroquianos, através das confissões.Não diziam nada. Mas sabiam.

Todos os meses mudava o código no sistema de cifra. O Cifra tinha por missão, tal como os seus companheiros no centro cripto, todos os meses ir entregar, também por mão, o novo código ao comando de todas as forças militares que operavam sob o comando da sua unidade. Mais tarde, quem tinha essa missão eram os camaradas criptos, do comando do Batalhão de Cavalaria, que se veio instalar no novo aquartelamento, ainda em construção, mas numa fase já mais adiantada, pelo menos já havia local coberto, para se dormir, embora ainda não houvesse paredes.

As forças militares deste Batalhão de Cavalaria ficaram instaladas  no novo aquartelamento, mas o comando, depois de reconstruir parte das ruínas, ficou aí a funcionar, e construiu uma “Porta de Armas”, com o emblema do Batalhão, bastante bonita, e que era o orgulho dos militares.

Diziam que o comando do Batalhão não gostava de trabalhar em colaboração com o comando das forças militares a que o Cifra pertencia, que funcionava no novo aquartelamento, em algumas habitações, entretanto acabadas. Rivalidades, talvez. Mas os militares de acção, e não só, davam-se bem e eram amigos, pois dormiam e sofriam juntos as agruras e tristezas desta maldita guerra.

Mas voltando ao assunto, os documentos que se transportavam em envelopes fechados, com o carimbo de “muito secreto”, como era de prever, eram entregues por mão a todas as forças militares que se encontravam estacionadas em cenário de guerra.

Tanto o Cifra, como os seus camaradas, usava os mais diferentes meios de transporte. Desde a avioneta do correio, uma coluna militar de movimentação de tropas, o carro dos doentes, que normalmente era protegido por uma secção de combate, ou um helicóptero que cruzasse a zona. Enfim, no final de cada mês andava à boleia na guerra!

Isto, era o que se dizia entre os cifras.

(Continua)
____________

Nota de CV:

Vd. primeiro poste da série de 21 de Julho de 2012 > Guiné 63/74 - P10177: Do Ninho d' Águia até África (1): Mobilização e partida para um Comando de Agrupamento (Tony Borié, ex-1º cabo cripo, Cmd Agrup 16, Mansoa, 1964/66)

Guiné 63/74 - P10189: Os nossos últimos seis meses (de 25abr74 a 15out74) (14): Dos planos de evacuação do território aos graves acontecimentos de Bissorã, em junho de 1974 (Paulo Reis, jornalista, freelancer / Luís Gonçalves Vaz)



A. Mensagem do nosso grã-tabanqueiro Luís Vaz [, foto à direita]:

Data: 28 de Junho de 2012 23:19
Assunto: Sobre os "Planos de Evacuação da Guiné" (Abril/Outubro de 1974)



Caros camarigos.


Para vosso conhecimento:


In: http://guineidade.blogs.sapo.pt/8234.html;


Luís Vaz

B. Reprodução, com a devida vénia, do poste publicado no blogue do nosso camigo e grã-tabanqueiro Leopoldo Amado, Guineidade (que, embora disponível na Web, já não é atualizado desde setembro de 2006):

Quarta-feira, 7 de Junho de 2006 > Ainda sobre a descolonização da Guiné-Bissau: uma esclarecedora carta de Paulo Reis

Caro professor Leopoldo Amado:

Li a sua exposição com muito interesse. E aproveito para salientar alguns aspectos curiosos.

1 - Os acordos de Argel são assinados em 26 de Agosto de 1974, certo? Ora nos documentos que encontrei no AHM [, Arquivo Histórico-Militar,] há referências concretas a um 'Planeamento de redução de efectivos' já em curso em Julho de 1974, que incluiu a desocupação das localidades de Pirada, Bajocunda, Piche e Paunca;

2 - O documento mais completo que encontrei, até agora, é também anterior a 26 de Agosto e nele se utiliza a expressão 'Plano de Evacuação'(4AGO74);

Portanto, a ideia que tenho, neste momento, e baseado nos dados que coligi é a de que o processo de retracção do dispositivo militar português se iniciou e processou, numa primeira fase, completamente à revelia das negociações/instruções resultantes dos encontros de Lisboa, entre o Governo Português e o PAIGC.

Pelos dados que me adianta – nomeadamente os encontros de Cantanhez – julgo que isso terá servido para enquadrar o tal plano de evacuação. Ou seja, tanto a iniciativa política como militar, da parte portuguesa, parece não ter existido e ter andado a reboque das exigências do PAIGC.

Encontrei documentação da 2ª Rep interessante, onde se fala dos problemas de disciplina das unidades do exército português e das dificuldades em fazer a simples rotação de efectivos, já prevista há muito tempo. A partir de certo momento, a própria cadeia de comando estaria em risco, uma vez que os soldados portugueses só queriam ir para Bissau e embarcar para a Metrópole.

A ponto de em Junho de 1974, tropas do PAIGC terem entrado em Bissorã, a propósito de confraternizar. Depois de algumas cervejas, com os soldados portugueses, espalharam-se pela vila e capturaram o Cabá Santiago, um chefe de milícia muito conhecido, desertor do PAIGC, o Bajeba e o Sitafa Camará (ou Quebá), ambos chefes de milícia. Levaram-nos e fuzilaram-nos sem que as forças portuguesas reagissem, de acordo com o testemunho de habitantes locais e soldados portugueses.

Como lhe disse, ainda estou a 'arranhar' a documentação do AHM e pretendo ir mais longe – porque tenho a certeza que haverá outros arquivos (no própria Estado Maior do Exército e talvez na CECA) (*) de documentação do QG do CTIG. Não é possível que a documentação do Quartel General do Comando Independente da Guiné Bissau se resuma à que está nos arquivos do AHM.

Resumindo: é óbvio que a retirada militar foi feita como o PAIGC quis – ou melhor 'sugeriu' – em Cantanhez, que essa retirada já estava em curso em Julho de 74 e que o Governo português se limitou a dar o seu sim a uma situação que já existia, de facto. E que já não tinha capacidade militar para alterar, o que era do conhecimento de ambos os lados.

Por outro lado, já na altura no poder em Portugal se dividia, com Mário Soares e Almeida Santos a serem ultrapassados pelas estruturas do MFA, com Spínola em confronto directo com os sectores mais radicais e Fabião e Spínola em rota de colisão. Enfim...

Procurarei fazer uma listagem mais detalhada e descritiva da documentação com que me tenho cruzado. Uma vez que tenciono pedir cópias de muita dessa documentação, poderemos combinar um encontro, mais tarde, e terei todo o prazer em fornecer-lhe cópias daquilo que for útil.

Para já, na segunda-feira irei pedir cópias do tal 'Plano de Evacuação' e da listagem intitulada 'Desocupação de localidades' . São os documentos mais explícitos que encontrei, reveladores de um plano de retracção das forças militares portuguesas, mas que não fazem uma única referência ao PAIGC, aos encontros de Cantanhez, ou a qualquer outro aspecto político. Se estiver interessado em ter cópia desta documentação, para já, diga-me. Não sei quanto tempo eles demoram a fazê-lo, no AHM, mas logo que os tiver basta combinarmos e entregar-lhe-ei uma cópia.

Agradeço-lhe a gentileza sobre os contactos do lado do PAIGC. O único que consegui até agora, foi o do comandante Lúcio Soares, de que tenho o nº de telefone na Guiné. Mas nesta primeira fase, a hipótese de uma deslocação minha à Guiné ainda é apenas uma hipótese. Este trabalho de investigação está a ser feito à minha custa, sem qualquer financiamento. Só depois de concluída a fase da recolha de depoimentos e documentação disponíveis em Portugal é que me poderei abalançar a tentar obter financiamentos para uma deslocação à Guiné-Bissau, a fim de fechar o círculo desta História.

Com os meus melhores cumprimentos,

Paulo Reis

(Jornalista/investigador português)

2. Comentário de L.G.:

O autor da mensagem, dirigida ao Leopoldo Amada, era (é) membro da nossa Tabanca Grande desde meados de 2006. Aliás, ele continua a receber a correspondência (interna) da Tabanca Grande, embora não  nos  dê quaisquer notícias. Em junho de 2006, o Paulo Reis quando nos contactou andava a fazer um trabalho de investigação sobre os comandos africanos. O que levou, naturalmente, ao Arquivo Histórico-Militar. Nessa altura colaborou no nosso blogue com um texto sobre a retração das nossas tropas, a seguir ao 25 de abril de 1974.

Desse texto só se publicou uma primeira parte (**). Possivelmente, por alteração do respetivo endereço de email, perdemos o seu contacto. Não sei se ele chegou a terminar o seu trabalho sobre os comandos africanos.  Possivelmente não, por falta de financiamento. Encontrei o seu rasto na rede LinkedIn, com morada em Macau [.vd.. foto acima].

Tem um "site" em inglês, com o título Madeleine McCann Disappearence. Gostavamos que ele nos voltasse a contactar, até para saber do seu prometido livro sobre os comandos africanos. Também gostaríamos de saber pormenores sobre os graves  acontecimentos ocorridos em Bissorã, em junho de 1974, em que elementos do PAIGC, iludindo a boa fé dos militares portugueses, terão raptado e depois fuzilado chefes das milícias locais. Tem um novo endereço de email.
__________________


Notas do editor:

(*) CECA = Comissão para o Estudo das Campanhas de África. Direcção de História e Cultura Militar.  Repartição de Documentação e Bibliotecas. Estado Maior do Exército.

(**) 9 de junho de 2006 > Guiné 63/74 - P858: Plano de Evacuação da Guiné (Abril/Outubro de 1974) - I Parte (Paulo Reis)

Texto do Paulo Reis, jornalista freelancer que está a fazer um trabalho de investigação sobre os comandos africanos, e membro da nossa tertúlia:

Caros tertulianos:

Tenho andado a analisar documentação diversa sobre a guerra da Guiné, no Arquivo Histórico Militar. Enconteri alguma informação que poderá ser do interesse de muitos de vocês, embora não esteja relacionada directamente com o tema que estou a investigar - os Comandos Africanos. Enviei este conjunto de info's ao Luís Graça, caso ele considere de interesse, a sua publicação no blogue. Aproveito para vos enviar o mesmo texto, pode ser que tenha também algum interesse para vocês. Com os meus melhores cumprimentos. Paulo Reis, jornalista. Telemóvel > 918627929

Plano de Evacuação da Guiné (Abril/Outubro de 1974) - I

O material disponível, no Arquivo Histórico Militar, é escasso e a sua classificação ainda não está completa. No entanto, consegui encontrar algumas informações sobre a maneira como se processou a retirada das tropas portuguesas e o desmantelamento nas unidades de recrutamento local, nos arquivos do CTIG (Comando Territorial Independente da Guiné). A documentação é, como disse, escassa e dispersa, com muitas lacunas. Assim, num despacho (nº5054/B/74) de 4AGO74, assinado pelo Comdt Militar e Adjunto-Operacional, Brigadeiro Octávio de Carvalho Galvão de Figueiredo, escreve-se:

“Por determinação do Brig. Comdt. Chefe:

"a. Serão extintos todos os Pel Caç Nat [Pelotões de Caçadores Nativos] com excepção daqueles que por serem as únicas forças que guarneçam uma determinada localidade não seja aconselhável extinguir.

"b. As praças da PU (#) dos Pel extintos reverterão para a CCAC da PU mais próxima.

"c. Os graduados e as praças europeias dos Pel Caç Nat extintos serão aproveitados para recompletamentos".


Uma circular (nº 2012/C) da 3ª Repartição do QG, datada de 5AGO74 e assinada pelo Chefe de Estado Maior Interino, António Hermínio de Sousa Monteny (Ten Cor do CEM), remete para ordens do Brig Comdt Chefe, segundo as quais deveriam ser “desde já desactivados os seguintes Pel Art [Pelotões de Artilharia], sendo a situação do pessoal e do material definidos por determinação administrativo-logística a emanar pelas repartições competentes”.

A lista dos Pel Art a desactivar é a seguinte:

1º Pel Art - Cacine
5º Pel Art - Bissau
15º Pel Art - Bissau
25º Pel Art - S. Domingos
28º Pel Art - Piche
31º Pel Art - Bajocunda
33º Pel Art - Ingoré
Pel Art Ev - Binta

Em documentos dispersos, sem sequência, encontrei algumas referências a CCAÇ [Companhias de Caçadores] a desmantelar ou desmanteladas. Assim, num documento intitulado “Planeamento de redução de efectivos – alteração nº 1 (23 Julho de 74 – assinado pelo chefe da 3ª Rep, Mário Martins Pinto de Almeida, Tem Cor CEM, doc. Nº 558/INF/C) refere-se a “desocupação das localidades de Pirada, Bajocunda, Piche e Paunca (?). A CCAÇ 11 será desactivada em virtude da passagem à disponibilidade de grande parte dos efectivos”.

O documento mais completo data de 20 de Agosto (de recordar que o Acordo de Argel foi assinado a 26 de Agosto de 1974) e consiste numa acta de reunião das chefias militares e do Brig Comdt Chefe, onde é definido o "Plano de Evacuação". O oficial relator é identificado apenas como Fernando José Pinto Simões. A reunião terá sido realizada alguns dias antes, no dia 15 de Agosto. A data de 20 de Agosto é a data de registo de saída do documento, com carimbo da Repartição de Operações.

No texto refere-se, entre outras coisas, que “todas as tropas africanas têm que estar pagas até 31AGO, incluindo as que estão em Bissau”. Esse pagamento, como se refere mais adiante abrange os meses até 31DEZ74.

Outra nota diz respeito às CCAÇ Africanas: “O pessoal europeu pertencente às CACÇ Africanas vai para o Depósito de Adidos até à liquidação das contas”. Nessa mesma reunião é nomeada uma Comissão de Transportes, para coordenar a retirada e transporte para Portugal, presidida pelo Cor Tir CEM Santos Pinto.

Noutro documento, sem data, que surge aparentemente anexo a este “Plano de Evacuação” são listadas um total de 77 unidades. O extenso documento inclui várias páginas com uma grelha onde estão listadas, da esquerda para a direita o nome da unidade, o trajecto (localidade onde está, percurso e destino, Bissau), e outros pormenores, como data de saída da localidade, chegada a Bissau, aquartelamento, partida para Lisboa, etc. etc. Este segundo documento tem, no final, o nome do Comdt Militar, Brigadeiro Galvão de Figueiredo, mas não está assinado por este. Está, sim, autenticado pelo Chefe de Estado Maior Henrique M. Gonçalves Vaz, Ten Cor CEM.

Paulo Reis, Jornalista (Cart Prof nº 734),
Telemóvel > 918 62 79 29

Nota de P.R.:

(#) Ignoro o que PU, neste contexto, possa significar. Elementos do AHM adiantaram-me duas hipóteses: Polícia de Unidade (pouco provável, dizem) ou Província Ultramarina (mais provável...)

(***) Útimo poste da série > maio de 2012 > 13 de maio de 2012 > Guiné 63/74 - P9892: Os nossos últimos seis meses (de 25abr74 a 15out74) (10): Em Bambadinca, em agosto de 1974, eu (e outros camaradas) fui sequestrado, feito refém e ameaçado de fuzilamento por militares guineenses das NT... Cerca de 40 horas depois, o brig Carlos Fabião veio de helicóptero com duas malas cheias de dinheiro, e acabou com o nosso pesadelo (Fernando Gaspar, ex-Fur Mil Mec Arm, CCS/BCAÇ 4518, 1973/74)

Guiné 63/74 - P10188: Cartas do meu avô (14): Décima primeira (Parte II): De regresso a Lisboa, para o contencioso, nos serviços centrais da CGD... (J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil, CCAÇ 728, Bissau, Cachil e Catió, 1964/66)

A. Continuação da publicação da série Cartas do meu avô, da autoria de J.L. Mendes Gomes, membro do nosso blogue, jurista, reformado da Caixa Geral de Depósitos, ex-Alf Mil da CART 728, que esteve na região de Tombali (Cachil e Catió) e em Bissau, nos anos de 1964/66. [, Foto à direita, com os netos]. As cartas, num total de 13, foram escritas em Berlim, onde vivem os netos, entre 5 de março e 5 de abril de 2012. (*)

B. DÉCIMA PRIMEIRA CARTA >  De Novo Para Lisboa (Parte II)


II – O Contencioso

As perspectivas eram óptimas. O director quando lhe revelei, por telefone, a desistência do CEJ [Centro de Estudos Judiciários] (*() e o meu desejo de ir trabalhar no contencioso central deu logo o seu assentimento. Porque estava mesmo a precisar. E porque esperava muito de mim.

Por mim, também me era apetecível. Voltaria de novo para Lisboa, umas dezenas de anos depois da grande crise. Tudo tinha serenado. Lisboa é Lisboa. A minha mulher também o desejava há muito tempo. Da parte dela, era necessário que o director também lhe aceitasse o pedido de transferência. Eu teria que esperar todo o processo burocrático da substituição e preenchimento do meu lugar. Também deu para comprar um apartamento em Almada, com empréstimo da Caixa.

Só uns bons meses depois é que tudo se deu. Vim para o contencioso. E para a nova casa.. Trouxe o filho mais novo comigo e passei a levá-lo todos os dias para o colégio de São João de Brito, dos jesuítas. Minha mulher ficou à espera da autorização, em Aveiro, acompanhada da filha mais nova. Finalista de Engenharia Química. Se tudo corresse bem, seriam mais uns seis anos de trabalho. Com o suplemento militar, podia pedir a reforma antecipada, aos cinquenta e sete.

No dia marcado, apresentei-me no contencioso. A secretária anunciou-me. Trouxe o recado de que me receberia à hora X… Entretanto fui conversar com os colegas conhecidos. Até que fui chamado para ir ter com o Sr. Director. A secretária entreabriu a porta. Vi-o sentado no topo duma mesa muito comprida.
- Ah, é o Sr. Dr. Mendes Gomes? Seja benvindo. - Disse enquanto vinha ao meu encontro - Sente-se aqui nesta cadeira, se faz favor. Então? Finalmente!...

Sorrimos.
- É verdade. O tempo de tudo acaba por chegar …- respondi.
- Mas custou, desta vez. As coisas não são tão simples. Por minha vontade o Dr. Mendes Gomes vinha logo. E a filial? E arranjar outro?
- Pois é verdade.

Daí para a frente, contei tudo sobre o CEJ e sobre o que esperava. Foi uma conversa longa e muito interessada. Até que chegou a hora de ele ir ter com a Administração. – manifestou-mo.
Saímos os dois e continuamos a conversa pelos corredores.





Lisboa > Edifício-sede da Caixa Geral de Depósitos > 28 de abril de 2012 > Um dos corredores exteriores, laterais, do lado da Culturgest.  Inaugurado em 1993. Autoria do arquiteto Arsénio Cordeiro, autor também do edifício da Torre do Tombo. Duas obras que têm fãs e críticos...

Fotos: © Luís Graça (2012) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados.


O megalómano edifício novo da Caixa era-me totalmente desconhecido. Não sabia onde ficava nada. Muito menos a Administração. Fui-o acompanhando enquanto, dele, não recebi instruções em contrário. Até que flectimos à direita. Reparei que o ambiente envolvente ficara mais sofisticado. Tudo bem. Pelo menos para mim. Para ele, não.
- Onde é que o Senhor vem?... - desfechou com ar muito altivo e distante.

... Fiquei parvo. Pensei que estivesse a brincar.
– Que é que deu ao fulano? Passou-se…- pensei cá para comigo. -Não deve ser comigo.
- Não sabe que para aqui é a Administração?...

Fiquei mais espantado que um burro…
- Eu sei lá onde é a Administração. É a primeira vez que aqui venho…

Não sei como nos despedimos. Só sei que tinha acabado de apanhar com um balde de água gelada pela cabeça abaixo. Nunca imaginei me viesse acontecer. Muito menos vinda de que sempre me falara com toda a cerimónia. Ele era mais novo do que eu, em todos os parâmetros. Em idade, como advogado, como servidor da Caixa. Soube depois que tinha sido convidado pela Administração para a Caixa e que era membro activo da, para mim, tenebrosa Opus Dei. Dava catequese…Estava tudo explicado.

A partir daqueles instantes, o meu futuro ali estaria definitivamente comprometido. Não consigo admitir tamanho, desabrido e disparatado desaforo. Cerrei-lhe os dentes.
- Vou procurar dar o meu melhor, mas, aquele dr. H..., amistoso, próximo e natural, que pensava conhecer, acabou de falecer… morreu.

Todas as reservas seriam poucas O futuro haveria de confirmar tim-tim-por-tim, o que supus naquele instante.

O contencioso era servido por exército de advogados, altamente especializados naquelas coisas de acções e execuções, a maior parte oriundos do quadro geral como eu. Cada um deles tinha uns três ou quatro funcionários de carteira, a trabalhar nos processos que lhe estavam adstritos. Todos eles respeitavam a créditos em contencioso. De empresas e particulares. As secretárias ficavam tapadas de montes de processos logo pela manhã. Para serem tratados ontem…

Um turbilhão de requerimentos, petições e contestações, sobre a hora, pareceres para tudo a submeter ao subdirector, tudo dentro duma absurda imposta submissão e controlo hierárquicos, desrespeitosa da mais lídima e consagrada autonomia técnica que a nossa condição de advogado exige e impõe…

As reuniões com o director aconteciam com uma intensidade inaudita. Só ele nelas pontificava e se fazia ouvir. Gostava libidinosamente de se ouvir falar…Ai de quem ousasse expor o que pensava…vinha logo muito bem camuflado o peso da hierarquia…
- Que logro!...Isto é para se ir levando da melhor forma possível e aguentar até à reforma.- pensei eu

Tanta vez me lembrei de como fora tratado no meu reino de Aveiro…Minhas orelhas sangrariam de torcidas… Atingido o tempo suficiente para a pré-reforma, seria a libertação. Mal sabia o calvário que aí vinha para lá chegar. Estiveram-se nas tintas para a compensação do serviço militar…Tive de trabalhar mais um ano e meio do que devia. Porque não me fora concedida autorização. O serviço não permitia…
Só que eu sabia que, antes, todos os que quiseram usar essa faculdade o conseguiram, na hora…e ainda receberam a indemnização legal correspondente à categoria. Uns bons milhares de contos.

Tão estranha e injusta atitude aconteceu só comigo. E, para cúmulo, quando finalmente, foi concedida, porque coincidiu com o ingresso dum subido gestor encartado, um especialista arrasa-montanhas, que arribava nas altas esferas das administrações financeiras, o célebre Almerindo Marques, para administrador, este determinou, abruptamente, o corte geral das indemnizações por antecipação de reforma… saí sem nada…(seriam só uns três mil e quinhentos contos, Na cotação dos anos 1999…) .

Por isso, foi um cáustico tempo de expiação o que, por crasso erro meu, fui passar ao contencioso central. Mas, não há mal que sempre dure… a seguir vinha aí a bonança da aposentação.

(Continuação)

___________________

Nota do editor:

(*) Vd. último poste da s+erie > 17 de julho de 2012 > Guiné 63/74 - P10162: Cartas do meu avô (13): Décima primeira (Parte I): A toga de juiz que não cheguei a envergar... (J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil, CCAÇ 728, Bissau, Cachil e Catió, 1964/66)

Guiné 63/74 - P10187: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (7): Fotos do Marcelino da Mata, ten cor ref, precisam-se para projeto editorial da Oficina do Livro / Grupo Leya


Comandos a caminho de Bafatá, junto ao Dakota para operações na região do Xitole.

O 1º Cabo Marcelino da Mata (hoje ten cor na reforma, e com cerca de 75 anos de idade) é o primeiro da esquerda, na segunda fila (assinalado a vermelho). Dois dos atuais membros da nossa Tabanca Grande também constam desta histórica foto: O Alf Mil Briote, o segundo, a contar da esquerda, da primeira fila (assinalado a verde); e o então Capitão Rubim (hoje cor art ref ), o 6º da primeira fila, também a contar da esquerda (assinalado a amarelo).

Foto: © (2005). Todos os direitos reservados.


1. Mensagem de Carla Matias, da editora Oficina do Livro, Grupo Leya:

Carla Matias [Carla.Matias@oficinadolivro.leya.com]
Enviado: quinta-feira, 12 de Julho de 2012 11:15
Assunto: pedido de ajuda

Exmo. Senhor,

O meu nome é Carla Matias e trabalho na editora Oficina do Livro. Neste momento estamos a preparar um livro sobre alguns dos combatentes na Guerra do Ultramar. Um dos visados no texto é o Tenente-Coronel Marcelino da Mata, e, na impossibilidade de termos imagens deste senhor, recorremos ao seu blogue na esperança de que nos pudesse ajudar a conseguir fotografias do Tenente-Coronel. No arquivo do Diário de Notícias existe apenas uma que não serve para o efeito. Terá o Sr. Luís Graça o contacto de alguém que nos dissesse como podemos obter mais imagens?

Despeço-me pedindo desculpa pelo incómodo.
Antecipadamente gratos pela sua atenção,


Carla Matias
Departamento Editorial
Oficina do Livro
Rua Cidade de Córdova, n.º 2
2610-038 Alfragide
Tel. (+)351 21 041 74 48
www.oficinadolivro.pt~


2. Resposta, de 13 do corrente, ao pedido supra:

Carla: O ten cor ref Marcelino da Mata não pertence formalmente ao coletivo deste blogue (que tem 565 camaradas e amigos da Guinéd registados). Mas é, para todos os efeitos, um camarada da Guiné. Isto significa que não temos quaisquer depoimentos e/ou fotos da sua autoria. Temos no entanto cerca de duas dezenas de referências a este combatente, bem como diversas fotos.

Os créditos fotográficos pertencem pertencem ao blogue e aos respetivos autores. Tenho que ter o seu acordo. Faz parte das nossas regras bloguísticas. É na base desta confiança mútua que temos já um fabuloso arquivo sobre a guerra colonila na Guiné. Preciso que me dê mais informações sobre o plano da obra, o índice, os autores, etc. Um sinopse, se quiser. Teremos muito gosto em colaborar com a Oficina do Livro.

Boa saúde, bom trabalho. Luis Graça

3. Resposta da editora,. com data de 23 do corrnte:

(...) Muito obrigada pelo seu email.

A Oficina do Livro vai publicar um livro sobre a acção de vários combatentes na guerra colonial. No total serão 9 histórias. Contam-se as histórias de Marcelino da Mata, Alípio Tomé, Heróis de Mucaba, António Júlio Rosa (prisioneiro do PAIGC), entre outros.

Ao longo da feitura deste trabalho temo-nos deparado com dificuldades em obter algumas imagens, dai termos pedido a sua ajuda.

Hoje voltei ao seu (vosso) blogue e encontrei imagens de Mubaca (http://ultramar.terraweb.biz/06livros_PPires_MOliveira_Orbelino_Imagens_11Mucaba.htm).

O senhor poderia dizer-me se conseguiríamos obter estas imagens? E como?

Agradeço, mais uma vez, a sua atenção. Com os meus melhores cumprimentos, Carla Matias (...)

4. Pedido de colaboração a todos os nossos amigos & camaradas da Guiné, quer façam ou não formalmente parte da nossa Tabanca Grande:

Quem quer e pode "ajudar" a satisfazer este pedido da Carla Matias ? O ten cor ref Marcelino da Mata não faz parte do nossa Tabanca Grande mas foi um camarada nosso, e temos aqui algumas referências sobre ele... Pelo menos cerca de duas dezenas de referências, inckluindo algumas imagens, antigas ou atuais:

http://blogueforanadaevaotres.
blogspot.pt/search/label/Marcelino%20da%20Mata

http://blogueforanadaevaotres.
blogspot.pt/2009/02/guine-6374-p3839-fap-4-drama-humor-e.html

http://blogueforanadaevaotres.
blogspot.pt/2009/03/guine-6374-p4024-fap-16-o-reencontro-22.html

http://blogueforanadaevaotres.
blogspot.pt/2009/06/guine-
6374-p4466-o-grupo-especial-
do.html

http://blogueforanadaevaotres.
blogspot.pt/2006/12/guin-6374-p1354-testemunhos-sobre.html

http://www.ensp.unl.pt/lgraca/
guine_guerracolonial12_comandos.html

http://blogueforanadaevaotres.
blogspot.pt/2006/12/guin-6374-p1355-o-combatente-destemido.html

http://blogueforanadaevaotres.
blogspot.pt/2010/03/guine-6374-p6033-estorias-avulsas-78-o.html

Já em tempos recolhemos, em 2006, a pedida de uma das suas filhas, que vivia em Londres, uma série de depoimentos, por ocasião do seu 70º aniversário:

http://blogueforanadaevaotres.
blogspot.pt/2006/12/guin-6374-p1385-testemunhos-sobre-o.html

Veja-se, entre outros, o testemunho do nosso co-editor Virgínio Briote, ex-alf comando, sob as ordens de quem serviu, em 1965/66, o então 1º cabo Marcelino da Mata:

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2006/12/guin-6374-p1354-testemunhos-sobre.html

Mais recentemente, o nosso camarada Marcelino da Mata visitou a (e foi homenageado pela) Tabanca do Centro,  por iniciativa conjunta do Joaquim Mexia Alves e do Miguel Pessoa.

Quem tiver fotos do Marcelino da Mata e as queira partilhar, façam-nas chegar ao blogue, com a respetiva autorização, por escrito, do direito de reprodução, a conceder à editora Oficina do Livro /Grupo Leya.
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Nota do editor:

Último poste da série > 28 de maio de 2012 > Guiné 63/74 - P9955: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (6): Instituto Politécnico do Cávado e do Ave desenvolve um estudo relacionado com próteses dos membros inferiores e pede a colaboração do nosso Blogue para a recolha de informações

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Guiné 63/74 - P10186: Memórias boas da minha guerra (José Ferreira da Silva) (29): O Floriano "Florita" e o tio que pescava

1. Mensagem do nosso camarada José Ferreira da Silva (ex-Fur Mil Op Esp da CART 1689/BART 1913, , Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), com data de 22 de Junho de 2012:

Caro Vinhal
Aí vai mais uma história das “Memórias boas da minha guerra”.
Mais uma vez, pretendo registar momentos interessantes e divertidos que me acompanharam naquele tempo de combatente.
Peço-vos que compreendam o tipo de linguagem utilizado, uma vez que ela reflecte a autenticidade dos seus intervenientes. Todavia, conto com a vossa colaboração para a correcção dos respectivos exageros.

Com os meus agradecimentos e
Um grande abraço
Do Silva da Cart 1689


Memórias boas da minha guerra (29)

O Floriano “Florita” e o tio que pescava…

O Floriano foi um bébé fora do normal. Ainda criança de colo, usava e abusava da alimentação maternal e de todos os peitos a que pudesse deitar as mãozitas. Logo que começou a andar, agarrava-se às pernas das mulheres e, cheio de curiosidade, punha-se a espreitar lá para cima. Teve que ser forçado a deixar de mamar, mesmo que compensado por um excessivo carinho do colo, que pedia a todas as mulheres. E como tinha os genitais muito desenvolvidos para a idade, era constante motivo de brincadeiras por parte das raparigas.

Antes de ir para a Escola já tinha decidido sobre o seu futuro profissional: queria ser médico, para poder manusear as configurações femininas. (É claro que, com a idade, não conhecia a deontologia profissional…).

Na Escola Primária teve a sorte de ter uma linda professora, de Aveiro, que era bastante meiga e muito tolerante. Apaixonou-se por ela. Fazia tudo e mais alguma coisa para lhe agradar e, ao mesmo tempo, não desperdiçava uma oportunidade para tentar espreitar-lhe as pernas ou outras partes…

Quando o pai faleceu (ele era o mais novo dos 6 irmãos - 4 raparigas e 2 rapazes) não teria mais que 8 anos. Então, ele passava o tempo livre pela casa do tio Zeca, de quem recebia muita atenção.

O Zeca da Macieira era um homem invulgar para a época. Vivia só, numa enorme casa, onde recebia muitas pessoas que lhe solicitavam serviços de apoio tipo médico, uma vez que tinha sido enfermeiro. Teria 1,75 de altura, olhos claros e o cabelo liso, quase loiro. Tinha ainda boa figura. Nunca quis casar nem perdia muito tempo com namoros. Pouco falador, apaixonado pela pesca e pela cozinha. Preparava excelentes petiscos.

O Zeca atraía as mulheres. - Não lhe falta “feno”. - dizia o sobrinho Florita, pois que cedo as espreitou lá por casa. Porém, lá na terra, só foi pai de uma linda miúda, cuja mãe era de família muito distinta. Dizia-se que, pelas margens dos rios por onde pescava, deixou mais 8 filhos de 7 mulheres diferentes. Apesar disso, há que reconhecer que o Zeca se norteava por um certo comportamento social.

O Florita cresceu, continuou magricela e pouco desenvolvido. Teve que ir trabalhar para a cortiça no Grupo Amorim. Foi aí que o baptizaram de “Gaiolas”. Trabalhava sentado numa das bancas feitas de madeira, onde se cortava manualmente a cortiça aos quadradinhos. Essas bancas eram abastecidas por mulheres que despejavam gigas de traços.

Pum, pum, pum - ouvia-se um bater na madeira - e logo uma das mulheres se dirigia para a banca da sua zona de apoio.

Quem servia na zona do Florita era a Mamuda de Canedo, uma rapariga de peitos avantajados que, ao despejar a giga na banca, lhe roçava na cara, que ele não desviava, com uma das mamas. Por isso, o Florita, amiudadas vezes, excitado, batia com o pénis debaixo da banca, de forma bem sonora – pum, pum, pum - para que a Mamuda lhe trouxesse mais cortiça, para trabalhar. De seguida lá ia ele para o WC aliviar-se.

Fumava muito e, sempre que podia, desenfiava-se do trabalho e ia para às prostitutas. Assim e porque tinha que ajudar a família, tinha grandes dificuldades em gerir as despesas. Aproveitava as boleias para o Porto e para Espinho, sempre que podia. Porém, já no Porto, deixava os colegas, à espera, no Café Derby, em Cimo de Vila, enquanto ia arranjar dinheiro prestando serviços aos homossexuais da Sé.

Porto > Zona da Sé

Foto: http://conhecerportugal.com/rotas/rota-catedrais-norte, com a devida vénia

Passava o tempo todo a falar de “fuzaico”, o que, para ele, queria dizer tesão ou f_ _ _r. E, obcecado como andava sempre pelo “fuzaico”, não demorou muito a desflorar uma jovem de 16 anos, com quem viria a casar.


Por essa altura, (1963/64), houve substituição na chefia da Repartição de Finanças. O novo Chefe foi muito bem recebido lá terra, não só porque era um homem de trato agradável, mas também, e acima de tudo (penso eu), porque se fazia acompanhar por uma mulher divinal. Teria ele 43 anos e ela uns 23 ou 24. Eram pais de um menino de 6 anos. O marido, que era uma excelente pessoa, engravidara-a e cumpriu a sua obrigação, segundo os usos e costumes daqueles tempos e da sua terra minhota.

Não havia mulher mais bela, mais charmosa e mais sexy para os olhares da malta dos anos 60. E ela, com consciência dos seus atributos, aproveitava todos os momentos para se exibir e provocar o grupinho dos jovens mais apetecíveis da terra. De roupas escassas, leves e insinuantes, fazia-os olhar, de boca aberta, sempre que aparecia na esplanada do Café Central. Ao mesmo tempo provocava os olhares aterradores às moças do grupo, no qual se destacava a figura atraente do jovem Nelito (Dr. Nelito) que, com apenas 26 anos, já se evidenciava no mundo empresarial. O seu excelente aspecto físico, os carros e as roupas (modernas e caras), fazia-o ser o homem desejado por todas as mulheres. Perante este quadro, tudo levava a crer que a boazona iria cair nas suas malhas. Poucos dias depois da chegada, já o Nelito passava grande parte do seu tempo livre a conversar com o casal, especialmente com... o marido.

Também não levou muito tempo para que a fama do Zeca “a dar injecções”, chegasse ao conhecimento da dita sereia. E, quando menos se esperava, lá surgiu o boato: a “toura” do Chefe foi ao Zeca, para que lhe desse umas injecções. Porém, contrariando todas as aparências, nada aconteceu. Quem o confirmou foi o Florita que ainda não perdera o hábito de ir espreitar o tio. E foi dele que ouviu a frase fatal:
- Lamento muito, minha senhora. Não dou injecções a mulheres casadas.

Bronca na terra, vergonha para o conquistador Dr. Nelito e admiração pelo Zeca que nunca quis contribuir para desfazer lares.

Guiné > Praça do Império

Foto: http://ultramar.terraweb.biz/CTIG/Imagens_CTIG_JoseSobra_ImagensGuine.htm, com a devida vénia

No Natal de 1968, estando eu de Sargento de Ronda, acabava de chegar da baixa de Bissau. À entrada do Quartel General ouvi, do lado direito, na cadeia, alguém aos gritos:
- Filhos de uma grande p_ _a, tirai-me daqui, seus cabrões. Cambada de paneleiros…

Pela voz, constatei: - Parece o meu vizinho Florita.
Fui junto do Oficial Dia, disse-lhe que o rapaz era meu vizinho e que gostaria de falar com ele. O Oficial que já estava cheio de o ouvir berrar, aconselhou-me a visitá-lo de manhã, porque ainda estava muito bêbado. Assim aconteceu.

- Então, Florita, como vai a vida? – perguntei.
- Ando fodidinho. Saí do Guileje para ir ter com a tua Companhia, que nos foi ajudar em Gandembel e não te encontrei. Vim para baixo, com estilhaços e inchado das abelhas e para aproveitar ser tratado aos pulmões. Continuo na mesma e estes filhos da p_ _a só me enterram cada vez mais.
- Mas, porque estás na cadeia?
- Quando cheguei lá ao “600”, onde faço serviços, com uns copitos a mais, f_ _eram-me. Tinha tido numa jantarada com o meu primo Lito para esquecer o meu velhote que morreu pelo Natal, abusei e acabei a insultar os chicos. Estive quase à “batatada” com um Furriel. Agarraram-me e mandaram-me para aqui. Safei-me de Gandembel mas aqui também não estou bem.

E, voltou ele:
- Arranja-me aí um cigarrito porque estou desesperado e sem tostão.
- Então, como é que te safas?
- Ando a “comer” um Sargentola, já entradote, que me vai dando algum.
- Como???!!!
- Lá em baixo, junto à Casa Gouveia, no Café Bento, meteu-se comigo e...
- Tafoda morcom, continuas na mesma merda e nunca mais endireitas. – foi a minha conclusão.

Porto > Cinema Batalha

Foto: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Porto_Cinema_Batalha.JPG, com a devida vénia

Uns oito anos mais tarde (1975), em frente ao Teatro S. João, quando vinha do Governo Civil do Porto, vejo o Florita a sair do Cinema Batalha e perguntei:
- Não me digas que vens de ver um filme pornográfico?
- Bruxo. É só fuzaico! - respondeu ele.

E continuou:
- Tens de me arranjar um dos teus calendários de gajas nuas. Preciso de substituir o que está por cima da minha cama.

Perguntei:
- E a tua mulher, deixa-te lá por isso?
- Claro, se ela quer pôr lá o Cristo, eu também tenho direito a pendurar uma gaja boa!

Silva da Cart 1689
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 8 de Janeiro de 2012 > Guiné 63/74 - P9331: Memórias boas da minha guerra (José Ferreira da Silva) (28): A guerra em Dunane

Guiné 63/74 - P10185: Humor de caserna (27): Recepção aos piras do BCAÇ 2927 em Bissorã, em fins de outubro de 1970 (Armando Pires)

1. Mensagem do nosso camarada Armando Pires (ex-Fur Mil Enf.º da CCS/BCAÇ 2861, Bula e Bissorã, 1969/70) com data de 16 de Julho de 2012:

Meus Caros Editores Camaradas:

Dias atrás, lembrou o régulo maior da nossa Tabanca que o verão está à porta e com ele, por causa dele, a habitual diminuição do produto “noticioso” ameaça deixar o mural da Tabanca a pão e laranja. E sugeria, como alternativa, a actualização e aprofundamento do nosso álbum fotográfico.

Faz tempo que dentro da minha cabeça bailava a vontade de dar o meu contributo para o enriquecimento dessa página do blog. Vamos então a ela, deixando para depois das férias as duas histórias que já se encontram alinhavadas nos rascunhos.

E começo pelo fim. Por aquele momento em que definitivamente respiramos fundo. O momento em que o pensamento voa longe, até que alcance a família, levando nas suas asas uma mensagem escrita que diz, sosseguem, mais uns dias e estou aí. O momento em que recebemos e damos as boas vindas aos que nos vêm render. Quem não recorda esses instantes que foram mistura de perplexidade e medo à chegada, de jubilo e paz na partida?

Tenho tão vivo e tão presente aquele 15 de Fevereiro de 69, quando saí da jangada e meti pé em terra firme de João Landim, assustado e atónito com tudo à minha volta, com uns tipos de camuflado de cor completamente diferente do meu a atirarem-me mãos cheias de amendoins (vim a saber depois que se chamava mancarra), ao mesmo tempo que gritavam, “salta periquito, vem que o paizinho quer ir para casa”, o bater metálico das culatras à rectaguarda, o roncar das Panhard  a ganharem posição na coluna, o arranque em grande velocidade estrada fora e, finalmente, a entrada no aquartelamento de Bula por entre filas de militares que se riam, que para nós se riam, com ar de quem mais parecia dizer, “coitadinhos, tão tenrinhos, nem sabem no que se metem”.

Depois, o tempo encarregou-se de tornar tudo isto normal, encarregou-se de em nós deixar fruir a ideia de que “a nossa hora também chegará”. E chegou em fins de Outubro de 1970, em data que a memória, a nossa e a deles, não consegue precisar.

Lá vêm os “piras”. 

Vindos da estrada de Mansoa, entram em Bissorã as primeiras viaturas que transportam a CCS e a CCAÇ 2781 do BCAÇ 2927. À sua espera a “Policia da Unidade”, formada pelo impagável Orlando Bonito, Fur Mil Amanuense, e o seu inseparável 1.º Cabo, o "Alentejano”, que se esforçou, todo o dia, por convencer os recém-chegados que, não obstante estarem “no mato”, tinham de andar devidamente escanhoados e ataviados, sem esquecer as botas devidamente engraxadas.

É destas praxes, destes momentos mais ou menos hilariantes, que cada um, no seu lugar e à sua maneira, preparava para receber condignamente aqueles que os vinham render, que quero dar testemunho nas fotos que se seguem. Peço desde já desculpa por algumas delas não serem “exclusivas”. De facto, algum tempo atrás, o Quim Santos, que pertenceu à CCAÇ 2781, que edita o blog “Guiné-Bissum” , pediu-me uma ou outra fotografia da sua chegada. Mas atrevo-me a oferecê-las ao nosso álbum por nele nunca ter visto semelhante tema retratado. Vamos a isso.


O pano é a legenda. "A ferrugem saúde os piriquitos". A festa dos putos é a vida.


Provocações! "Piras, tendes fome ? A velhice oferece-vos mancarra... Saltitão!...


A equipa de reportagem da RadioTelevisão de Bissorã registou o grande momento. Ao volante o Fur Mec Meneses, no lugar do realizador o Fur Trms Gesteiro, o camara é o 1.º Cabo Trms Carlos Senra. A velhcie saúda os piriquitos!"...


Esta até a mim me surpreendeu. Sobretudo ao ver que os pilantras foram aos fundos da enfermaria “gamar” as batas que não eram utilizadas mas que faziam parte do espólio a entregar. Aos protagonistas peço desculpa por me “faltarem” os nomes, mas vamos, a partir da esquerda: 1- “Setúbal”, pintor 2- Lameiras, mecânico 3- era o condutor da GMC rebenta-minas 4- o bate-chapas. O 5º sou eu, que também quis ficar para a posteridade. Cartazes: "Assistência à velhice", "Serviço de saúde ao domingo"...


Alinhada já no interior do aquartelamento de Bissorã, a coluna que transportou os homens do BCAÇ 2927.


Lindos e frescos, os periquitos sorriem para a objectiva. Aquele ali ao centro, de G3 com dilagrama e cigarro ao canto da boca, é o Furriel Cerqueira, o enfermeiro da CCS que me foi render.


E pronto! Chegou a hora de ir para casa. A nossa última coluna à partida de Bissorã para Bissau. Em primeiro plano a minha equipa. Juntos, unidos, como sempre estivemos naqueles 22 meses de Guiné. A contar da esquerda, eu, o 1º Cabo Enf Machado e os Soldados Maqueiros Maltez, Teixeira e João. Infelizmente, não está na foto o Soldado Maqueiro Daniel Agostinho, de cuja história já aqui vos dei conta no P9877. Esperou por nós em Lisboa e deu-nos uma grande alegria. 
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 5 de Março de 2012 > Guiné 63/74 - P9562: Humor de caserna (26): Chocos recheados para curar o paludismo (Henrique Cerqueira)

Guiné 63/74 - P10184: Notas de leitura (383): "No Percurso das Guerras Coloniais 1961-1969", de Mário Moutinho de Pádua (Mário Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 28 de Maio de 2012:


Queridos amigos,
É pena que este militante comunista disperse as suas memórias em questões fulcrais, salta de um assunto para outro, relata pessoas e situações com pouca consistência, o que é pena para quem quase ia sendo executado no Congo, observou a sociedade checa, viveu nos meios oposicionistas de Argel e trabalhou no Lar de Ziguinchor, apoiando o PAIGC.

É o relato de quem esteve no outro lado,  sentindo-se português antifascista e apercebendo-se que as causas com que simpatizava ruíam na areia. Apesar de tudo, confessa que viveu intensamente todo esse idealismo.

Um abraço do
Mário


Mário Moutinho de Pádua e o PAIGC

Beja Santos

Mário Moutinho de Pádua foi o primeiro dos oficiais portugueses a desertar, logo em 1961. Em 1963 escreveu um livro que provocou sensação, “Guerra em Angola”. O seu segundo livro, como escreve Pepetela, é uma espécie de crónica de vida, fica-se a saber como fugiu pelo Norte de Angola, as prisões que conheceu no Congo Léopoldville, onde parecia inconcebível que militares portugueses se recusassem a combater contra os angolanos, correu aqui todos os riscos de vida. Do Congo partiu para a Checoslováquia, e se vinha desiludido do Congo enquanto país dito descolonizado, o tal país dito socialista amargurou-o. Da Europa voltou a África, primeiro a Argélia e depois o Senegal, como médico apoiante do PAIGC (“No Percurso de Guerras Coloniais, 1961-1969”, por Mário Moutinho de Pádua, Edições Avante!, 2011). Se a todos os títulos estas memórias justificam leitura para se conhecer um testemunho comprometido deste militante comunista sobretudo quanto à causa angolana e à sua vivência no meio oposicionista de Argel, é do maior interesse histórico o que ele escreve sobre o PAIGC. Como se vai sintetizar.

Mário Pádua chega a Conacri em 1967, começa a tratar os guerrilheiros guineenses no Lar do Combatente. Descreve as relações por vezes muito difíceis entre os políticos influentes da Guiné-Conacri e a Direção do PAIGC. Ao fim de algum tempo de estar em Conacri, Mário Pádua sentiu que estava a desperdiçar aqui as suas habilitações, vai então para Boké trabalhar com médicos e enfermeiros cubanos, um trabalho com recursos muito limitados. E conta o que viu numa visita que fez a uma base do PAIGC já em território guineense:

“A base constava de uma dezena de cabanas dissimuladas debaixo de árvores frondosas. Observei com particular interesse a sala de operações. Esta surpreendeu-me pela extraordinária limpeza do solo. Muitas salas de operações de países ricos não são tão escrupulosamente varridas ou aspiradas. Uma enfermeira afugentava as moscas durante as intervenções cirúrgicas”.

E de Boké foi transferido para Ziguinchor, colocado no recém-criado Lar do Combatente. A sua memória desliza para dirigentes, situações e considerações sobre a guerrilha. Mário Pádua sentia-se bem ali, havia mais meios:

“Enquanto eu ali trabalhei a provisão de medicamentos renovava-se sobretudo com os envios da RDA e, em menor escala, de outros países socialistas assim como de países nórdicos (…) O hospital local, cobrindo uma área cheia de pavilhões muito maior que o lar do PAIGC, dispunha de pouco mais camas e a alimentação não fazia parte dos serviços inerentes ao internamento”.

E conta como se relacionou com o médico vietnamita que prestava serviço no hospital de Ziguinchor.

Os meios postos à disposição do PAIGC eram rudimentares, nas suas bases os guerrilheiros passavam toda a casta de provações, viviam muitas vezes subalimentados. É uma descrição que importa registar. Primeiro os feridos:

“Logo que os desembarcavam assistíamos ao espetáculo de feridas enormes, abertas, que já não se podiam suturar, dado o intervalo de tempo que decorrera após a lesão. Eu e os enfermeiros guineenses, meus colaboradores, limpávamos os tecidos infetados com água oxigenada, cortávamos os tecidos mortos e terminada a limpeza cirúrgica tentávamos aproximar os bordos esticando a pele com adesivo. Sucedeu, em feridas fundas e com pequeno orifício de entrada, que quando retirava a sonda exploratória, me vinha ao nariz o cheiro inconfundível da gangrena gasosa. Um dia comecei a tratar um soldado que tinha o braço direito muito destroçado embora não sangrasse. Estas limpezas cirúrgicas em geral demoravam horas. Este doente não se queixava de dores. Quando terminei, pele, músculos, vasos e nervos de um dos membros superiores tinham praticamente desaparecido. Apenas restavam os ossos, completamente descarnados. Nessas circunstâncias só restava a amputação”.

Conta-nos episódios de extremo sofrimento, os guerrilheiros demoravam demasiado tempo a chegar a Ziguinchor. Mário de Pádua descobriu nos seus exames laboratoriais que o PAIGC travava a luta com um número impressionante de soldados anémicos.

Mário de Pádua é também testemunha da educação dos combatentes e da preparação ideológica dada no Lar de Ziguinchor. Mas tudo era precário face às inúmeras deficiências em meios de diagnóstico. Além de anémicos, os guerrilheiros passavam literalmente fome. Verificou que a alimentação em particular na época seca era tão fraca que chegava a induzir situações de fome, os camponeses tinham tal falta de arroz que não entregavam aprovisionamento ao PAIGC para não morrerem à míngua.

No Lar de Ziguinchor momentos houve em que a alimentação estava reduzida a arroz. O autor desdobra-se em histórias relacionadas com falta de meios de diagnóstico de tratamento que redundavam em insucessos no tratamento, para desespero dos profissionais de saúde. Mostra-se sempre assombrado com o estoicismo dos guerrilheiros:

“Quando os feridos demoravam dias para chegar a Ziguinchor, as larvas fervilhavam nos tecidos expostos. O que fazia parte da rotina da guerra e me deixava estupefato era o transporte de feridos e doentes por zonas flageladas, vinham em macas fabricadas com troncos. O esforço físico exigido dificilmente se pode conceber”.

E de novo o relato salta para assuntos de espetro mais largo como o relacionamento entre as autoridades do Senegal e o PAIGC. São notas soltas onde cabem a superstição africana, a convivência de Mário de Pádua com médicos vietnamitas e jugoslavos, os aspetos chocantes da extrema pobreza e a grande riqueza em Dakar, o vespeiro de informadores e boateiros,  conta como Amílcar Cabral lidava com o conceito de libertação da mulher e evitava o combate à poligamia.

À distância dos anos, perpassa por estas memórias uma incontida melancolia, medindo o desaire de tudo quanto se passou após a independência da Guiné-Bissau. Mário de Pádua faz muitas vezes uso das memórias de Luís Cabral vazadas em “Crónica da Libertação”, mostra-se inconformado com os desvios dos dirigentes para o prazer e as venalidades. Deixa transparecer muita inocência para as questões graúdas do caos pós-independência e a corrupção que assaltou o aparelho de Estado, em Bissau, diz não acreditar nos crimes que são atribuídos a Luís Cabral, o fantasma da PIDE e o perigo das tropas africanas parecem ser suficientes para justificar a barbárie em que se tem vivido permanentemente desde a independência.

São memórias avulsas, por vezes pouco consistentes, é enorme a porosidade no tratamento dos temas, salta vertiginosamente de uns para outros, deixando o leitor atónito pela mudança de agulha. Porque Mário de Pádua tem testemunhos riquíssimos e não ilude a frustração por ver espatifarem-se os mitos em que acreditou.

Pepetela descreve-o como um homem bom, corajoso, de ideias firmes, um homem que conhece as fraquezas dos outros, que percebe as tibiezas e as traições, mas não se vinga delas. A verdade é que sabe contar as suas deceções e adversidades sem abdicar das suas convicções, mesmo que apresente justificações insensatas. E as suas memórias são incontornáveis no que toca ao que viveu no Lar de Ziguinchor.
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 20 de Julho de 2012 > Guiné 63/74 - P10174: Notas de leitura (382): A Caça no Império Português, de Henrique Galvão, Freitas Cruz e António Montês (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P10183: Facebook...ando (18): Os nossos (re)encontros (Armando Pires / Bernardino Cardoso)



1. Troca de mensagens, em 16 do corrente, na página do Facebook da Tabanca Grande, entre o Armando Pires e o Bernardino Cardoso, dois grã-tabanqueiros (o último, mais recente). Recorde-se que o Armando Pires,que mora em Santarém, foi ou ainda é jornalista ( Rádio Ribatejo, Rádio Clube Português, Rádio Comercial, Antena 1, Agência France-Presse,Jornal "Europeu"), de acordo com a informação que consta da .



(i) Armando Pires:

Meu Caro Cardoso.

Aqui tens a foto da última vez em que estivemos juntos. No almoço do Esquadrão [ de Reconhecimento 2454], em Coimbra.

Já faz tempo, eu sei, mas o tempo apenas nos soma idade.

Nesta foto do teu perfil, a que utilizas [, no Facebook], não te reconheci. Mas sendo do esquadrão, e do meu tempo, dei voltas para te "apanhar".

Foi a outra foto, a do golfe, por estar mais aberta, que gritei: Eureka!.

Eu sou o gajo Fur Enf [da CCS / BCAÇ]2861, que animava as noites cantando o fado, acompanhado pelo nosso outro companheiro de fotografia, que não consigo escrever o nome (que tu me vais recordar) porque só me vem à ideia "o Guitarrinha".

Bolas, quanta alegria voltar a cruzar-me contigo.

O Blog do [Luís] Graça tem feito verdadeiros prodígios a proporcionar reencontros de velhos camaradas.

Vai para ti um grande abraço.

(ii) Bernardino Cardoso:

Um grande abraço para ti. Já começo a recordar estas noites de Fado no esquadrão até às quinhentas, assim como a Lerpa até que o gerador era desligado. O Guitarrinha era o Dias. Guitarreiro de gema, creio que ainda.

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Nota do editor:


Último poste da série > 29 de maio de 2012 > Guiné 63/74 - P9958: Facebook.. ando (17) : Alexandre Leites, de Sandim, V.N. Gaia, ex-1º cabo enfermeiro, CCAP 122/BCP 12 (1971/73)

domingo, 22 de julho de 2012

Guiné 63/74 - P10182: Passatempos de verão: Hoje quem faz de editor é o nosso leitor (1): Animais do Cantanhez: nomes científicos e outras curiosidades...

















Guiné-Bissau > Região de Tombali > Parque Nacional do Cantanhez > Iemberém > 2 de março de 2008 > Animais desenhados nas paredes exteriores das instalações da AD -Acção para o Desenvolvimento. Fotografia de Luís Graça, por ocasião de visita ao sul, no ãmbito do Simpósio Internacional de Guiledje (Bissau, 1-7 de março de 2008).

Fotos: © Luís Graça (2008) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados.


1. Todos os anos, por  esta altura, em que baixa, com as férias escolares e a canícula do verão,  a "tiragem" e a "audiência" do nosso blogue, arranjamos um passatempo para entreter os leitores e fazer descansar os editores...  Este ano não será exceção: férias são férias, e os editores bem merecem uns dias de descanso...

A série que que inventámos vai chamar-se "Passatempos de verão: Hoje quem faz de editor é o nosso leitor"... Qualquer leitor do nosso blogue, quer seja ou não camarada da Guiné, membro ou não da Tabanca Grande, pode colaborar na edição deste poste (que está incompleto)... O objetivo é encontrar, com recurso à Internet, mas também aos livros que a malta tem lá em casa (incluindo os dos filhos e netos em idade escolar...), os "nomes científicos", a classificação zoológica desta bicharada que ainda hoje, felizmente, se  pode encontrar nas matas do Cantanhez, a última floresta húmida da Guiné-Bissau... 

Os nomes que vêm nas imagens são as designações, em crioulo, por que são conhecidos estes animais entre os guineenses (a maioria dos quais, sobretudo os que nasceram e vivem em Bissau, nunca os viram)... O nosso leitor, com tempo e vagar, pode explicar-nos melhor, por exemplo, que raio de bicho é esse tal Tucurtacar Pangolim, como é que os zoólogos o classificam, quais são as suas principais caraterísticas, habitat, alimentação, distribuição geográfica, etc.Quem diz o Pangolim, diz o Nhinhte Camatchol - cobra ou ave ? nem sei.. -  que nunca encontrei, confesso, nas minhas andanças pela zona leste, só sul, no chão dos nalus... Já quanto à onça tenho dúvidas: trata-se de um felino, sem sombra de dúvida, mas será onça ou leopardo ?

As contribuições de cada leitor podem chegar-nos por duas vias: (i) por email, através do nosso endereço: luisgracaecamaradasdaguine@gmail.com
; ou  (ii) por comentário (o leitor não precisa de estar registado no Google, pode enviar-nos o comentário "como anónimo" (mas nome e apelido, no final, da mensagem são obrigatórios)... Sugerimos que cada leitor "adote um bicho" e faça uma pequena pesquisa sobre ele... 

À medida que as contribuições forem chegando, há um escravo de um editor de serviço (que só terá férias em setembro... do ano que vem) que vai atualizando o respetivo poste... O leitor, não sendo grã-tabanqueiro, pode mandar-nos uma foto tipo passe, digitalizada, para publicar ao lado  do seu nome... (mas isto é facultativo, ninguém é obrigado a mandar a "chapa")...  Podem mandar-nos "asneiras" que a gente não censura nada, mas, atenção!,  ficam sujeitos - se o TPC não for bem feito - a "levar na pinha" por parte dos outros leitores... A ideia deste passatempo é que podemos, em conjunto, aprender algo mais - neste caso, sobre a fauna da Guiné-Bissau - , e ao mesmo tempo divertir-nos... Aceitam o desafio ?!
Bom verão, boas férias, bons passatempos, bons encontros... Carpe diem... Gozem as coisas boas da vida!

Luís Graça e seus co-editores de serviço, Carlos Vinhal e Eduardo Magalhães Ribeiro.
PS - Atenção: continuem a visitar-nos. Queremos, no final de agosto, chegar aos 4 (quatro) milhões de visitas... e no final do ano aos 600 (seiscentos) grã-tabanqueiros (membros registados na Tabanca Grande).

Guiné 63/74 - P10181: Estórias dos Fidalgos de Jol (Augusto S. Santos) (5): A emboscada das abelhas

1. Segunda estória dos Fidalgos de Jol enviada pelo nosso camarada Augusto Silva Santos (ex-Fur Mil da CCAÇ 3306/BCAÇ 3833, Pelundo, Có e Jolmete, 1971/73), na sua mensagem de 15 de Julho de 2012:


ESTÓRIAS DOS FIDALGOS DE JOL (5)

A “Emboscada” das Abelhas

Lendo há algum tempo atrás um episódio do nosso camarada Luís Faria sobre o que consigo se passou com um “ataque” de abelhas, que poderia ter consequências trágicas (felizmente tudo não passou de um valente susto), veio-me à lembrança uma situação semelhante (salvo as devidas proporções) que comigo se passou.

Estando dois dos nossos grupos de combate em progressão para realizar mais uma emboscada em possível local de passagem do inimigo, baseados no relato de um elemento da população, em dada altura da deslocação e, já muito perto do objectivo, fomos surpreendidos por uma autêntica debandada pelo pessoal que seguia na frente, com cada um a correr para seu sítio, sem que nos fosse dada qualquer explicação sobre o que estava a acontecer, e numa autêntica desorganização.

Sendo o meu grupo o que seguia na retaguarda, com o mato bastante denso e sendo difícil de descortinar o que realmente se estava a passar, perante tal cenário, mesmo sem até então termos ouvido qualquer tipo de contacto (tiros), logo nos colocámos todos em posição de combate prontos para uma eventual protecção aos nossos camaradas em apuros.

Não tardou porém muito tempo, para que igualmente o meu grupo se levantasse das suas posições e, desordenadamente, cada um se pusesse a fugir para o seu lado, pois do que efectivamente se tratava era de um violento ataque de abelhas, que ainda conseguiu fazer várias vítimas, algumas das quais com bastantes ferradelas.

A minha sorte e do guia das milícias que comigo de perto seguia, de seu nome Vermelho, foi termos connosco um pano de tenda com o qual nos cobrimos completamente, conseguindo assim escapar ao ataque e a algumas picadelas.

Foi um valente susto, felizmente também aqui sem consequências de maior, mas ainda demorou algum tempo até que conseguíssemos recompor todo o pessoal, mas o que desde logo ficou decidido é que naquele local já não iríamos emboscar. É que ainda tínhamos presente o que havia acontecido a um camarada Furriel da Companhia do Pelundo, que algum tempo antes numa situação semelhante, levou tantas ou tão poucas ferradelas, nomeadamente na cabeça, que ficando inconsciente teve de ser evacuado de helicóptero.


Jolmete, Maio de 1972 > Posto de vigía

Jolmete, Maio de 1972 > Junto à entrada do meu abrigo

Jolmete, Maio de 1972 > Com o Fidalgo, filho do Cájan e neto do Régulo

Jolmete, Junho de 1972 > Na hora da correspondência

Jolmete, Julho de 1972 > Convívo com o pessoal do Pelundo. O meu irmão é o mais alto ao meio.
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 19 de Julho de 2012 > Guiné 63/74 - P10170: Estórias dos Fidalgos de Jol (Augusto S. Santos) (4): De caçador a caçado