quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Guiné 61/74 - P16985: Os nossos seres, saberes e lazeres (196): Pelos caminhos de Trancoso até chegar a Foz Côa (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 15 de Setembro de 2016:

Queridos amigos,
Quando rememoro esta viagem, não esqueço a ingestão de líquidos e o bálsamo do ar condicionado. Foi um fim de Julho em que estrondeou um calor que deitava abaixo qualquer vontade de andar por ruas, entrar em igrejas, mirar fachadas de edifícios espetaculares, acresce que a Benedita há muito que falava na viagem e a tudo resistiu, divertiu-se à grande numa piscina numa bela casa de turismo de habitação em Terrenho, perto de Trancoso.
Andou-se por castelos, chegou-se a Foz Côa, a riqueza fabulosa das gravuras rupestres está à nossa espera.

Um abraço do
Mário


Pelos caminhos de Trancoso até chegar a Foz Côa (1)

Beja Santos

O passeio foi idealizado a uma certa distância, nada faria supor que se chegava a Trancoso e depois a belos lugares como Terrenho, Penedono e Marialva com temperaturas abrasadoras, o que confrangia, a Benedita estava com cinco anos e meio. É com redobrado prazer que entro em Trancoso, uma cidade que conheci graças à minha amizade com Luís Rodrigues, que habita em Rio de Mel, será aí que de algum modo nos iremos amesendar. Compraz-me o seu belíssimo centro histórico, as suas muralhas, o altaneiro castelo, as ruas e ruelas do passado, a presença judaica. Aqui estão as Portas do Prado, daqui se saía para Viseu ou Lamego, neste caso por aqui entrámos em grupo, o alvo era o centro histórico e depois uma sombra e uns líquidos para matar a sede.




Estamos em Terrenho, ficamos no Solar dos Almeidas, de um equipamento apodrecido um casal lançou-se à empreitada e conseguiu um milagre de renovar sem beliscar o passado de uma casa afidalgada, fez dela um conveniente turismo de habitação. A Benedita só queria piscina, de manhã, à tarde, sempre que possível. Por uso e costume, não exibo fotografias de familiares e outros viajantes. Mas esta imagem faz-me tremer de emoção, o sorriso da Benedita lembra-me o da sua mãe, nesta precisa idade, mostro-a com espevitado orgulho. E passeámos por Terrenho, aproveitámos as sombras.


Terrenho reúne paradoxalmente a imagem da renovação e do abandono, vemos residências quase apalaçadas na decrepitude e por toda a parte há sinais de que se partiu para sempre, mas há quem para aqui venha e refaça, o lugar, no essencial guarda caráter.




Não se pode resistir à esmagadora imponência de Penedono. Basta olhar para estas imagens e vemos que temos castelo antigo anterior a Portugal, aqui houve mesmo pancadaria da grossa no âmbito da reconquista. Em 1812, recebeu um visitante ilustre, Alexandre Herculano, que não escondeu a sua admiração. Escreve-se num folheto alusivo que é pequeno castelo de montanha gótico, de planta poligonal, encontra-se implantada a 930 metros de altitude, tem torreões nos ângulos, por vidros da matacães e flanqueando o acesso único inscrito num arco quebrado. O pelourinho é um monumento quinhentista, tipo gaiola, idêntico ao que encontramos em Sernancelhe. Assenta num soco de cinco degrau oitavados, tem fuste prismático encimado por capitel tronco-piramidal, que grande beleza!


Mudamos de rumo, estamos em Marialva, não muito longe da sede do concelho de Mêda, aqui se chega depois de passar por planícies de alguma aridez e arvoredo fugaz. Sempre o granito a preponderar. Tem cidadela no interior do castelo, agora despovoada, a vila está cheia de vida, percorremos com grande satisfação um empreendimento turístico, Casas do Coro, um exemplo admirável de inserção e recriação numa zona montanhosa cheia de história. Faz-se o percurso urbano e há passado nas pedras, mesmo nas que jazem ao abandono. Aqui chegaram romanos, godos e aqui se ajudou a fundar Portugal. A região é alvo de projetos turísticos interessantíssimos, passaremos mais adiante por Longroiva, outro caso admirável de boa inserção entre socalcos serranos onde vicejam oliveiras.



E chegámos a Foz Côa na mira de conhecer o museu de Côa e de visitar as gravuras. Consta que o seu microclima é mediterrânico, com aquela caloraça vizinha dos 40 graus o que apetecia era um lugar fresco, havia pouco entusiasmo por castelos, monumentos, solares, vilas romanas e até mesmo olhar com a feição os amendoais que ali preponderam. Mas houve coragem para ir ver o Côa e pasmar com as encostas que são verdadeiros cenários do chamado dúrio-trasmontano, assim se pode caraterizar a região. O viandante pôs-se à sombra e tirou do quarto uma fotografia à espetacular cenografia do Côa e antes do jantar tentou-se uma visita à apregoada riqueza da igreja matriz. Estava encerrada, mas a fachada é deslumbrante, como vêem. Amanhã é dia de gravuras e a Benedita não pára de falar no passeio de comboio, entre o Pinhão e a Régua. Depois contamos o que se passou.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 18 de janeiro de 2017 > Guiné 61/74 - P16965: Os nossos seres, saberes e lazeres (195): Pedrógão Pequeno e o Cabril do Zêzere (3) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P16984: Parabéns a você (1200): João Alberto Coelho, ex-Alf Mil Op Esp do BART 6522 (Guiné, 1972/74)

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Nota do editor

Último poste da série de 23 de Janeiro de 2017 > Guiné 61/74 - P16980: Parabéns a você (1199): Augusto Silva Santos, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 3306 (Guiné, 1971/73); Francisco Godinho, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2753 (Guiné, 1970/72) e José Albino, ex-Fur Mil Art do Pel Mort 2117 e BAC 1 (Guiné, 1969/71)

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Guiné 61/74 - P16983: Memórias boas da minha guerra (José Ferreira da Silva) (39): 3 - O amigo Mohammed de Marrocos

Tânger


1. Em mensagem do dia 23 de Janeiro de 2017, o nosso camarada José Ferreira da Silva (ex-Fur Mil Op Esp da CART 1689/BART 1913, , Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), autor do Livro "Memórias Boas da Minha Guerra", enviou-nos a terceira história da sua mini-série "O meu amigo Mohammed", este de Marrocos.

Caros amigos
Junto a história do amigo Mohammed.

Grande abraço
JFSilva


Memórias boas da minha guerra

39 - O amigo Mohammed

3 - De Marrocos

Foi uma viagem incrível a que fizemos no verão de 1975, também conhecido pelo Verão Quente do período revolucionário da nossa democracia. Éramos dois casais, amigos de infância, que se lançaram para a aventura, a caminho de Marrocos. A curiosidade levou-nos a almoçar em Rio Maior onde uma semana antes tinha havido fortes escaramuças provocadas por agricultores contra a reforma agrária, personificada pelas forças políticas de esquerda, especialmente pelo PCP e FSP. Tivemos oportunidade de ver os restos da “barricada” que havia paralisado o País durante alguns dias.

Estive preso mais de cinco horas na fronteira Vila Verde de Ficalho/Rosal de la Frontera, por me terem confundido como um PIDE em fuga, Após uma noite mal dormida (e mal comida) em Sevilha, seguimos para Algeciras. Esfomeados, pensámos aproveitar bem a viagem no restaurante do barco para Ceuta, onde não faltava alimentação. Porém, o enjoo e os vómitos aterraram-nos. Foi horrível quando vomitei lá de cima, da esplanada, sobre as pessoas do piso inferior.

Ceuta ainda era Espanha e, para passarmos para Marrocos, precisávamos de “Visto”. Isso levou-nos para uma fila interminável. Passámos esse Domingo quase todo em Ceuta, mas de uma forma pouco agradável.

Tânger 

Já em Tânger, optámos pelo regresso, uma vez que a frágil mulher do meu amigo, além do medo permanente, não suportava a comida local nem aqueles fortes aromas. Acumulámos, rapidamente, várias peripécias inesperadas com arriscados contratempos à mistura.

Embora me sentisse bastante ligado a África (estive na guerra da Guiné e, como civil, em Angola), apercebi-me de que perdera o entusiasmo de lá voltar.

Mas, 25 anos depois, tive um convite de Rabat para uma possibilidade de negócio. Foi o vizinho Neca Souto, camarada da guerra da Guiné, que me proporcionou essa ligação. Conheci então o meu amigo Takirene, ex-deputado parlamentar e herdeiro de uma grande empresa corticeira que entrara em queda logo após a crise causada pelo desmantelamento da URSS.

Acabámos por fazer uma sociedade com base na cortiça de Marrocos, fornecida por ele, e o seu tratamento em Sta Maria da Feira. Passei a fazer viagens assíduas a Rabat e à fábrica de Bouznika, a uns 30 Km a sul de Rabat.

Naquela viagem levava a preocupação de aclarar a estranha discrepância dos tickets das balanças, entre a origem e a chegada.
Posto o problema ao Mohammed, encarregado dos carregamentos dos camiões, ele acabou confessando que “é natural que alguns indivíduos se tenham escondido entre a cortiça para passar as fronteiras”.


Naquela época, era prática diária o aparecimento de relatos chocantes sobre a passagem ilegal de migrantes pelo estreito de Gibraltar, vindos do norte de África. Foram descobertos corpos destroçados nas estradas e outros asfixiados entre os ferros de suporte dos camiões. Na costa marítima espanhola, as pequenas embarcações de fugitivos eram recebidas a tiro pela guarda civil.

Muitos dos migrantes eram apanhados e devolvidos à origem e outros desapareciam por Espanha e Portugal, vagueando de terra em terra, ora escondidos, ora aparecendo como vendedores de artigos supostamente desviados, de contrafacção.

Como eu estava hospedado em Temara, no Hôtel la Felouque, junto à Plage Sable D’or, esperava jantar ali com o meu sócio. Porém, dada a movimentação de pessoal na preparação do palco anexo à esplanada, virado ao mar, por motivo da aproximação dos serões festivos do Ramadão, optámos por ir até um clube naval perto de Skhirat Plage.

Ali, em ambiente bastante mais acolhedor, saboreámos uma espécie de “Paelha à Marroquino”, onde era evidente a fartura de bom marisco. E, embora a “proibição” do álcool fosse uma regra sagrada, eu estava salvaguardado pela excepção do seu cumprimento, ao abrigo duma cláusula governativa que o legalizava, por interesse turístico. Não posso esquecer os bons vinhos que lá bebi, especialmente um tal Cabernet Sauvignon, da região de… Casablanca.

Foi mais um agradável serão, em que muito falámos sobre aquela cultura árabe, um tanto virada para o ocidente europeu. Ouvir o Takirene falar sobre isso era fascinante. Ele próprio, apesar de rico e de formação académica na Europa, vivia entre esses dois mundos. Era licenciado em Direito numa Universidade Católica Espanhola. Contava que seu pai gostava da cultura europeia. Todavia, não podia afastar-se muito dos costumes e da lei islâmica. Por exemplo, referiu que a sua mãe “oferecera ao pai, como prova de amor” uma jovem, para segunda mulher, capaz de lhe dar o prazer que já não conseguia.

Tinha uma irmã mas, segundo a lei, foi ele, filho varão, o principal herdeiro. Casou e procurava o seu descendente varão, que não apareceu. Teve cinco filhas que colocou na Europa a estudar nos melhores colégios. Vivia com o desgosto de ter como principal herdeiro, o seu sobrinho, órfão, tido como vadio, quase sem formação escolar e sem interesse em ocupação responsável. Suspeitava que se metera na droga. Enfim, apesar da fortuna familiar, vivia preocupado com o futuro das filhas.

Aquele agradável serão do jantar prolongado foi interrompido pelo Contabilista Hassan, que se aproximou, a solicitar a atenção do Dr. Takirene. Veio informar que o camião TIR ainda não saíra para Portugal, devido a um grave incidente. Quando o Mohammed, encarregado das cargas, tentou impedir a feitura do buraco no meio da carga, foi ameaçado de morte. O camião está pronto para sair da fábrica e à espera do motorista. O Hassan queria saber o que fazer, antes de o ir buscar ao hotel e lhe entregar as guias.

Seria fácil a denúncia destes foragidos. No entanto, era visível a complexidade de situação tão perigosa. A bonomia habitual do meu sócio não queria alhear-se do problema social daquele gente que lutava pela sobrevivência. Por outro lado, preocupava-se com as consequências que o Mohammed pudesse vir a sofrer.
- Que me dizes, José, sobre esta situação?
Não contava ter de lhe dar opinião. Todavia, adiantei:
- Por mim, não sei de nada, nem virei a saber.

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Uns anos mais tarde, já fora de qualquer negócio com Marrocos, quando saía do Restaurante As Cubatas, logo a sul de Albergaria, dava uma olhadela aos artigos expostos no chão. O vendedor fitou-me e disse:
- Patrão, escolhe o que quiseres, tenho muito bom material.

Disse-lhe que não precisava de nada e lamentei que a cana de pesca não fosse o que precisava. Ele respondeu que eu poderia comprar outras coisas em Lourosa, porque ele também andava por lá e se abastecia nos armazéns de Sanguedo. Notei que já me conhecia.
- Como sabe que sou de lá?
Ele logo respondeu:
- Tu trabalhaste na cortiça e eu conheço bem Bouznika e o Dr. Takirene, de Rabat. Vous êtes bonne personne.

Ao afastar-me, ele insistia:
- Quero oferecer-te alguma coisa.

Surpreendido com a oferta, olhei para trás e ele acrescentou:
- Nous sommes amis de Mohammed.
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Nota do editor

Último poste da série de 17 de janeiro de 2017 > Guiné 61/74 - P16961: Memórias boas da minha guerra (José Ferreira da Silva) (38): 2 - O amigo Mohammed da Mauritânia

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Guiné 61/74 - P16982: Notas de leitura (922): “De África a Timor, uma bibliografia internacional crítica (1995-2011)”, por René Pélissier, Edições Húmus, 2014 (2) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Novembro de 2015:

Queridos amigos,
Aqui se põe termo a uma digressão sobre recensões guineenses, entre as muitas centenas que vêm inseridas nesta obra monumental de recolha de investigações que muitas vezes não aparecem no mercado português. Para o estudioso e mesmo para o leigo interessado sobre acontecimentos dos dois últimos séculos do império colonial, Pélissier é incontornável, e quem põe dúvida a esta afirmação pode esclarecer-se com esta leitura, pois a obra está disponível nas livrarias.
Registo que Pélissier procura repertoriar tudo que tem a ver com a literatura da guerra colonial.

Um abraço do
Mário


De África a Timor: uma maratona de livros por René Pélissier (2)

Beja Santos

“De África a Timor, uma bibliografia internacional crítica (1995-2001)”, por René Pélissier, Edições Húmus, 2014, é uma obra indispensável para leigos e investigadores sobre trabalhos que se prendem com as diferentes parcelas do antigo império português. Pélissier é um nome gigante nas investigações da colonização portuguesa e não se conhece mais ninguém com este palmarés de milhares de recensões inicialmente publicadas em revistas especializadas e depois em diferentes volumes. Como é óbvio, neste espaço procuramos referenciar estudos e recensões centrados na Guiné. A propósito de um escritor português, Luís Rosa, Pélissier observa:
“A literatura dos antigos combatentes é um género, ou subgénero, que mobiliza e mobilizará os professores de literatura portuguesa durante muitas gerações, bem depois do desaparecimento dos que a escreveram. Estes académicos, em geral, não têm as mesmas preocupações dos autores e ainda menos as dos historiadores. Os últimos desejam saber o que não se encontra nos comunicados de imprensa da época nem na história oficial estabelecida a posteriori pelos Estados-Maiores. Para os historiadores o estilo e o lirismo, a poesia e o vocabulário das emoções não são mais do que acessórios. O aborrecimento chega depressa após a leitura das proezas desta ou daquela Unidade; não nos devemos desencorajar pois acabamos por descobrir pepitas mesmo nos romances históricos, redigidos por certos atores (em geral oficiais milicianos) que tiveram de combater a sério.
"Memória dos Dias sem Fim", por Luís Rosa, Editorial Presença, 2009 é disto um bom exemplo. Luís Rosa está numa guerra absurda e enfrenta na Guiné um inimigo decidido e combativo. O alferes Rosa e a sua Companhia estão na zona nevrálgica fronteiriça do Sudeste, entre o rio Cacine e o limite artificial da Guiné Conacri. É um lugar de passagem obrigatória do PAIGC, que está encarregado de retomar e defender. Um historiador que já sublinhou abundantemente o caráter arbitrário do traçado dos contornos da Guiné não pode ficar insensível esta demarcação que devido o país dos Nalus. De entre as caraterísticas mais importantes do livro, limitar-nos-emos a citar as mais originais: a) a presença de um comerciante português em Gadamael que explora impiedosamente os Nalus; b) a tortura de um louco, prisioneiro; c) a execução em Guileje, por um alferes, de um velho informador/agente duplo, a quem obriga a cavar o próprio túmulo antes de arrancar uma orelha do seu cadáver; d) o bombardeamento com morteiros do posto de Sangonhá a partir do campo de Marela do PAIGC, na Guiné Conacri e o franqueamento, em represália, da fronteira pelos Comandos e milícia local; e) a receção dos refugiados que fogem da fome; f) a primeira destruição pelas unidades regulares de artilharia do PAIGC da guarnição portuguesa de Guileje; g) o fornecimento de informação contra o PAIGC por um chefe Nalu, refugiado na Guiné Conacri, em troca de um tratamento contra as doenças venéreas”.

Foi com surpresa que tomei conhecimento do romance “Deixei o meu coração em África”, por Manuel Arouca, Oficina do Livro, 2006. Segundo Pélissier, trata-se de uma extraordinária reconstituição da realidade vivida pelos soldados portugueses em Guileje. Esta reconstituição é tanto mais notável quanto Manuel Arouca não parece ter conhecido a Guiné no seu crepúsculo caetanista. E é mesmo um romance em que tudo o que o autor narra sobre este país em guerra lhe foi contado por um primo. Vejamos os termos, segundo Pélissier:
“Assim, encontramos Spínola, mas sobretudo o quotidiano de uma guarnição, ameaçada e rotineira, que só se anima com as escoltas dos comboios de provisões, a chegada do correio, os bombardeamentos de napalme, as emboscadas, as personalidades fortes, como a do capitão cabo-verdiano que comandava a Companhia e que era o único patriota otimista neste posto português. Assistimos, em seguida, ao casamento em Gadamael-Porto de um suboficial de Coimbra com a filha de um chefe Fula: um caso de luso-tropicalismo que acabará mal (ao pisar uma mina, o marido perderá as duas pernas). Conhecemos também um soldado marxista que denúncia as operações em proveito do PAIGC e o herói do livro, um furriel, é adotado por uma família Balanta cujos filhos gémeos são, um, um chefe de guerrilheiros e, o outro, um capitão dos comandos africanos portugueses. A obra abarca o período de 1968 a 1971. O maior problema do Exército Português prendia-se com o facto de serrem raros – exceto entre as tropas especiais – aqueles que acreditavam verdadeiramente na utilidade daquilo que faziam. E não estavam provavelmente enganados”. 
Refere também o “Diário da Guiné” de António Graça de Abreu, Guerra e Paz Editores, 2007, dizendo:
“Graça de Abreu observa a política contestada de Spínola e permanece duvidoso quanto às pretensões do PAIGC em dominar todo o território, mas cedo se apercebe de que, pelo menos entre os Manjacos, décadas de exploração colonial não podem ser apagadas por tardias reformas materiais”. 
E, mais adiante: 
“No final de 1973, Cufar e todas as guarnições em redor são bombardeados pelos 122. As tropas sabem que vão para a morte na ofensiva contra o Cantanhez e as minas que os esperam. Os sábios de uniforme escrevem poemas que Camões não teria imaginado, mas todos mergulham no álcool para adormecer os seus medos. O Estado-Maior e os serviços de saúde pública terão elaborado, posteriormente, estatísticas sobre a dependência alcoólica dos antigos combatentes portugueses? A água pura era rara na Guiné no início de 1974. Sabemos a que é que tudo isto conduziu Exército e o Estado-Novo”.

Temos aqui centenas de recensões numa edição cuidada, incluindo lista de autores, a ordenação geográfica da respetiva bibliografia e o facilitador índice toponímico.

Trata-se de um levantamento de um historiador infatigável, de alguém que anda há várias décadas a coligir, peça a peça, a desmesurada bibliografia de antigos combatentes e de investigações dos mais diferentes matizes.
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Nota do editor

Último poste da série de 20 de Janeiro de 2017 > Guiné 61/74 - P16972: Notas de leitura (921): “De África a Timor, uma bibliografia internacional crítica (1995-2011)”, por René Pélissier, Edições Húmus, 2014 (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P16981: Álbum fotográfico de Luís Mourato Oliveira, ex-alf mil, CCAÇ 4740 (Cufar, dez 72 / jul 73) e Pel Caç Nat 52 (Mato Cão e Missirá, jul 73 /ago 74) (10): 28 de outubro de 1973, dia de festa ecuménica, a festa do fim do Ramadão (Eid-ul-Fitr) no... Mato Cão


Foto nº 1 


Foto nº 1 A


Foto nº 1 B


Foto nº 2 A


Foto nº 2

Guiné >Zona leste > Setor L1 (Bambadinca) > Mato Cão > Pel Caç Nat 52 (1973/74) >   Dia de festa: festa o fim do Ramadão (Eid-ul-Fitr) : convívio com os familiares dos militares guineenes do pelotão. Nesse ano deve ter sido a 28 de outubro. Estamos ainda na época das chuvas, o capim ainda está verde... Nessa época, a guerra israelo-árabe do Yom Kippur punha a paz mundial em perigo (de 2 a 26 de outubro de 1973)... No Mato Cão, um pequeno grupo de portugueses e guineenses  faziam uma pequena festa ecuménica...

Lê-se no sítio português Al-Islam

"Eid-ul-Fitr é uma festa religiosa que assinala o fim do mês Sagrado do Ramadão. Este dia festivo é comemorado para dar graças a Deus pelas bênçãos do Ramadão. Os Muçulmanos assistem oração de Eid numa congregação, que se realiza de manhã. Eles vestem roupas novas, cozinham comida deliciosa e convidam amigos e vizinhos para comemorar com eles. O jejum durante o Ramadão inspira simpatia para os famintos e os necessitados, e incentiva os Muçulmanos a doarem generosamente aos pobres." 

Fotos (e legenda): © Luís Mourato Oliveira (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. Continuação da publicação do vasto e rico álbum fotográfico do Luís Mourato Oliveira, nosso grã-tabanqueiro, que foi alf mil da CCAÇ 4740 (Cufar, 1972/73) e do Pel Caç Nat 52 (Mato Cão e Missirá, 1973/74). (*)

Lisboeta, com família do lado materno na Lourinhã (Miragaia e Marteleira), hoje bancário aposentado, cicloturista, o Luís Mourato Oliveira esteve na Guiné, em rendição individual de 1972 1974... Foi o último comandante do Pel Caç Nat 52. Ele irá terminar a sua comissão em Missirá e extinguir o pelotão, em agosto de 1974. Também visitava Bambadinca e Fá Mandinga e dava a devida importância aos convívios (entre militares e entre estes e a população).

Em meados de 1973 (por volta de julho), veio de Cufar, no sul, região de Tombali, para o CIM de Bolama, para fazer formação específica antes de ir comandar, em agosto, o Pel Caç Nat 52, no setor L1, zona leste (Bambadinca), região de Bafatá, subunidade que era composto maioritariamente por fulas.

Publicam-se mais algumas fotos do tempo em que o alf mil Luís Mourato Oliveira passou no destacamento de Mato Cão, neste caso a festa do fim do Ramadão. Os seus soldados, fulas, eram muçulmnos.

Recorde-se, mais uma vez, que a missão principal do destacamento do Mato Cão era proteger as embarcações que circulavam no Rio Geba Estreito, entre o Xime e Bambadinca. As condições de alojamento e segurança eram precárias.

Sobre o Mato Cão, que era um lugar mítico, temos já mais de 70 referências... Pertencia ao subsetor do Xime. Por lá passaram diversos camaradas nossos, membros da Tabanca Grande...
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Guiné 61/74 - P16980: Parabéns a você (1199): Augusto Silva Santos, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 3306 (Guiné, 1971/73); Francisco Godinho, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2753 (Guiné, 1970/72) e José Albino, ex-Fur Mil Art do Pel Mort 2117 e BAC 1 (Guiné, 1969/71)



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Nota do editor

Último poste da série de 22 de Janeiro de 2017 > Guiné 61/74 - P16976: Parabéns a você (1198): Rogério Freire, ex-Alf Mil Art MA da CART 1525 (Guiné, 1966/67) e Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando, CMDT do Grupo Os Diabólicos (Guiné, 1965/67)

domingo, 22 de janeiro de 2017

Guiné 61/74 - P16979: Fotos à procura de... uma legenda (81): foto-de-cão-posição... ou o fotógrafo como cão em vinha vindimada... (Luís Graça)










Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz > 24 de setembro de 2011


Fotos: © Luís Graça  (2011). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Canaradas da Guiné]


fotodecomposição

fo.to.de.com.po.si.ção
fɔtɔdəkõpuziˈsɐ̃w̃
nome feminino

decomposição de determinadas substâncias por ação da luz solar

De foto-+decomposição

Fonte:  fotodecomposição in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017. [consult. 2017-01-22 21:42:20]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/fotodecomposição



Domingo à tarde…
Sempre detestaste os domingos à tarde:
ou chovia ou fazia vento
e um cão uivava
na vinha vindimada pelo Senhor,

sobretudo nada acontecia de notável
no domingo à tarde,
e até o tempo parava
no relógio da igreja da tua aldeia.

Mesmo que a vida tivesse um sentido,
e tu escutasses a boa nova do padre Escudeiro,
no largo do convento,
às vezes soalheiro,
a vida ia no sentido inexorável
dos ponteiros do relógio,
dextrorsum,
aprenderás mais tarde, na escola,
ou, por outras palavras,
do berço à cova,
donde ninguém escapa,
os novos sucedendo-se aos velhos na fila da morte.
E quem acaba, sua cova tapa. (...)


(Excerto)

In: Luís Graça - Autobiografia: com Bruegel, domingo à tarde, 2005, c. 50 pp. (inédito)
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Guiné 61/74 - P16978: Blogpoesia (490): "A suavidade..."; "À minha frente..." e "Saída do nada...", poemas de J.L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728

1. Do nosso camarada Joaquim Luís Mendes Gomes (ex-Alf Mil da CCAÇ 728, Cachil, Catió e Bissau, 1964/66) três belíssimos poemas, da sua autoria, enviados entre outros durante a semana ao nosso blogue, que publicamos com prazer:


A suavidade…

A suavidade, em doses certas,
Faz brilhar as superfícies.
Implica cortes.
Cerceia ímpetos.

Como uma plaina aguda,
Sobre uma tábua,
Tudo aplaina
E faz luzir.

Ficam expostos todos os traços.
Sua rede interna.
Onde corria a seiva.

Se aplica a cera
E um móvel lindo
Aparece à luz.

A aspereza tudo arranha.
Faz feridas.
Fazem sangrar.

Até a voz se altera
E perde a graça.

Um gesto brusco
Provoca avalanches
E arrasa tudo.

A suavidade abranda a marcha.
Poupa esforço
E garante a meta…

Berlim, 22 de Janeiro de 2017
8h44m
Amanheceu luminoso
Jlmg

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À minha frente…

À minha frente,
Há um horizonte refulgente
Que desperta.
Vem frio mas luminoso.
Tem tons de cobre
E aguarelas de cor azul.

Das casas dormentes,
Saem volutas negras das chaminés.
E, transparentes, de ramos nus,
Se oferecem aos céus,
As copas altas pedindo sol.

Incessantes, em cortejo infindo,
Chegam cansados os aviões para Tegel.
Dos telhados escuros,
Mui lentamente,
Escorre sua toalha branca.

Mais um pouco, já não é precisa, apago a luz…

Ouvindo “Para Elisa” de Beethoven

Berlim, 16 de Janeiro de 2017
7h53m
Jlmg

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Saída do nada...

Há uma musa que canta
e encanta, saída do nada.
Voz refulgente,
com brilho,
doçura e transparência.

Sóbria.
Vibrante.
Entoa e pinta com cor
o fulgor e a sombra.

Lhe brota da alma,
pureza de fonte,
num timbre de prata,
cristal a brilhar,
banhado de sol.

E foi por acaso,
alguém encontrou...
Susan Boyle.

Berlim, 20 de Janeiro de 2017
9h0m
Jlmg
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Nota do editor

Último poste da série de 15 de janeiro de 2017 > Guiné 61/74 - P16956: Blogpoesia (489): "Piano mendigo..."; "Só o sonho é livre..." e "Afónica a catatónica...", poemas de J.L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728

Guiné 61/74 - P16977: Militares mortos na 1.ª Guerra Mundial e Guerra do Ultramar do concelho de Torre de Moncorvo (Armando Gonçalves) - Parte I


Torre de Moncorvo: logo da câmara municipal (cortesia da página do município). O concelho teve 28 mortos na guerra colonial / guerra do ultramar (1961/74)- O município erigiu, em 2013, um monumento aos combatentes da guerra do ultramar.



1. Mensagem, com data de 14/11/2016, do nosso amigo Armando Gonçalves,  professor de História, do Agrupamento de Escolas Dr. Ramiro Salgado (pai do nosso camarada Paulo Salgado), em Torre de Moncorvo, e que aceitou integrar a nossa Tabanca Grande, passando a ser o nº 733 (*)

Caro Dr. Luís Graça,

Ao fim de algum tempo reapareço para lhe entregar em primeira mão o resultado de um pequeno contributo (*).

Desiludido, como já transmiti ao amigo Manuel Augusto Reis (**), com a apatia da autarquia sobre tão importante evento (que é o de homenagear os militares e suas famílias e não o meu trabalho, que está bem aquém do merecimento de tão nobres moncorvenses).

Informo-o que recolhi duas fotos do blogue Luís Graça &  Camaradas da Guiné, devidamente citados o autor e a fonte.

Devido à quantidade de correio eletrónico só mais tarde percebi que para fazer parte da Tabanca era necessário foto. Irei a tempo?!

Um abraço,
Armando Manuel Lopes Gonçalves

2. Mensagens anterior, de 18 de maio de 2016, do nosso amigo Armando Gonçalves



Luís Graça,

Muito me honra o seu convite. Terei todo o gosto em pertencer à Tabanca Grande como amigo de todos vós. Tenho recebido provas de consideração e amizade impressionantes muito acima do trabalho realizado.

Há um espírito de solidariedade entre os veteranos, muito genuína, admirável.

Na medida das minhas capacidades e possibilidades darei o meu contributo.

Um cordial abraço,

Armando Gonçalves




Facebook > Página oficial do centenário da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), da responsabilidade da Liga dos Combatentes (Com a devida vénia...)


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(Continua)
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Nota do editor:

(*) Vd. postes de  





(...) Há perto de um mês, um professor de História da Escola Secundária de Moncorvo, Armando Gonçalves, solicitou ao Blogue a sua colaboração para que pudesse concluir a sua pesquisa sobre as condições que envolveram a morte do Alf Mil Lourenço da CCAV 8350, falecido na Guiné em 5 de Março de 197373(1).


Este caso englobava-se num projecto mais amplo, respeitante a todos os ex-combatentes de Moncorvo, falecidos nas ex-províncias ultramarinas e nascidos no concelho de Moncorvo. Como se depreende a sua tarefa não foi fácil. O conhecimento das datas de nascimento, filiação, localização dos cemitérios onde se encontram os corpos e a localização de familiares ainda vivos exigiu muito tempo e perspicácia ao Armando. Os locais e as circunstâncias em que morreram foram talvez o trabalho mais complicado. A singela homenagem aos ex-combatentes mortos ser-lhes-à prestada com a colaboração da Câmara Municipal, em data oportuna. 

Quero deixar aqui duas notas: O meu apreço e gratidão pela dedicação do Armando a ex-combatentes, nossos camaradas e amigos. Não basta dizer que houve uma guerra e como em todas as guerras há mortos, feridos e estropiados. É redutora esta visão. Há algo mais para além disso. O meu apreço pela pronta, rápida e eficaz colaboração do Blogue, que acabou por me envolver neste processo e me sensibilizou para avançar na localização da campa do Alf. Lourenço e da da sua família. 

Em pouco tempo se reuniram a maior parte dos elementos que o nosso amigo Armando precisava com a ajuda preciosa do Alf. Gonçalves, outro dos Alferes da CCAV 8350, que vive em Almada e não via há imensos anos. Localizámos a campa do Alf. Lourenço e dois dos seus primos ainda vivos. (...)