sexta-feira, 26 de abril de 2024

Guiné 61/74 - P25448: Notas de leitura (1685): O Santuário Perdido: A Força Aérea na Guerra da Guiné, 1961-1974 - Volume II: Perto do abismo até ao impasse (1966-1972), por Matthew M. Hurley e José Augusto Matos, 2023 (22) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Abril de 2024:

Queridos amigos,
Chegámos ao término do ensaio da responsabilidade do nosso confrade José Matos e Matthew M. Hurley, eles passam em revista as principais situações que ocorreram em 1972 na Guiné. De tanto apelo, Spínola conseguiu armamento e equipamento para a Zona Aérea, mas o sistema defensivo antiaéreo, que tanto o preocupava, não conheceu remodelação. Como observam os autores, Spínola desesperava por retirar iniciativa às forças do PAIGC, por apresentação de uma proposta do major Moura Calheiros, responsável paraquedista, aceitou pôr em marcha a mais movimentada operação depois da Operação Tridente, a Grande Empresa, que os autores aqui apresentam. Provavelmente através dos serviços de informação, o comandante chefe sabia que algo estava em preparação quanto a novos meios do PAIGC, na sua declaração de Ano Novo Amílcar Cabral, sem o dizer explicitamente, refere que vão aparecer novas armas que poderão acelerar a liquidação do colonialismo. Vivia-se, pois, um compasso de espera, Spínola não tinha ilusões de que não iria receber novos e comparativos meios de Lisboa. Resta aguardar o terceiro volume sobre a Zona Aérea da Guiné em 1973 e 1974.

Um abraço do
Mário



O Santuário Perdido: A Força Aérea na Guerra da Guiné, 1961-1974
Volume II: Perto do abismo até ao impasse (1966-1972), por Matthew M. Hurley e José Augusto Matos, 2023 (22)


Mário Beja Santos
Deste segundo volume d’O Santuário Perdido, por ora só tem edição inglesa, dá-se a referência a todos os interessados na sua aquisição: Helion & Company Limited, email: info@helion.co.uk; website: www.helion.co.uk; blogue: http://blog.helion.co.uk/.

Contracapa do segundo volume

Índice
Abreviaturas

Capítulo 5: “Tudo estava dependente deles, de uma forma ou outra”

Com o presente texto, conclui-se a súmula do livro de José Matos e Matthew M. Hurley, seguramente que o terceiro volume será dedicado ao inquietante período entre 1973 e 1974. Ao longo de 1972, o Comandante-Chefe foi apelando à aquisição de armamento não só para a Força Aérea como para o sistema defensivo, era notório que nos países ocidentais se fazia obstrução de tais compras. A propaganda do PAIGC alardeava grandes perdas em aeronaves da FAP. Concretamente, falavam que tinham destruído entre 1969 e 1972 dez aviões de asa fixa e oito helicópteros, incluindo seis aeronaves alegadamente destruídas em pistas de aterragem (ver anexo III). O registo documental da FAP e a falta de provas apresentadas pelos guerrilheiros revelam que a Zona Aérea não perdeu uma única aeronave por ação inimiga desde que o Fiat que o Tenente-Coronel Costa Gomes pilotava foi atingido, em 1968. Perderam-se aeronaves em acidentes: dois T-6, dois DO-27 e também dois Alouette III caíram na Guiné, daí resultando 14 mortos (incluindo os seis pilotos). Tais acidentes aumentara o número de aviões e helicópteros da FAP perdidos na Guiné desde 1962 para 23, embora três, no máximo, tenham sido destruídos por fogo hostil.

Apesar de todo este seu furor propagandístico, o PAIGC reconhecia que não tinha uma defesa antiaérea eficaz. Amílcar Cabral viajou para a União Soviética em junho de 1962 à procura de melhores armas defensivas. Os seus esforços acabaram por ser recompensados, mas nesse intervalo de tempo a Zona Aérea conseguia gerir a sua guerra contra o PAIGC sem encontrar sérios obstáculos. Durante 1972, as aeronaves da FAP tiveram um total de 10.643 surtidas em todas as áreas de missão, número que representa uma redução de 6% em relação ao ano anterior. O número de ataque e surtidas de apoio de fogo ultrapassou os 3 mil durante 1972, o que representa menos 15% relativamente a 1971, mas um esforço maior comparativamente a 1969 ou 1970. Os Alouette III transportaram na Zona Aérea mais de 6 mil soldados durante 75 operações helitransportadas, em 1972, comparativamente a 58 missões semelhantes e 1971 e 41 em 1970.

Esta defensiva de operações da Zona Aérea teve a sua ênfase no Sul da Guiné, em parte devido à propaganda do PAIGC alegando ter aqui um elevado número de “áreas libertadas”, especialmente na Península do Cantanhez. Spínola sentia que era imperativo demonstrar que as forças militares poderiam exercer um completo domínio no Cantanhez, dado o facto do fracasso inegável do poder afirmar em qualquer outro lugar do Sul da Guiné. No final do ano, esta sua exigência culminou com a Operação Grande Empresa, foi a mais ambiciosa operação ofensiva desde a Operação Tridente, em fevereiro-março de 1964.

Frustrado nas suas tentativas em ludibriar o PAIGC, neutralizar a República da Guiné ou negociar um acordo através do Senegal, Spínola procurou então o local que lhe desse um sucesso militar capaz de poder recuperar um poder de iniciativa face ao PAIGC. Foi-lhe oferecida a oportunidade pelo Major Moura Calheiros, Comandante das Operações e Informações do BCP 12, que identificou a base mais importante do PAIGC nas chamadas “áreas libertadas” do Cantanhez. Com a sua proposta da Operação Grande Empresa, Calheiros deu a Spínola uma oportunidade para destruir um grande complexo de guerrilha, recuperar a Península e a população sob controlo inimigo, através de obras civis, medidas psicológicas e reordenamentos; foram designadas duas companhias de paraquedistas e um destacamento de fuzileiros para o assalto inicial, competia a essas forças especiais ocupar as aldeias de Caboxanque, Cadique e Cafine, na margem sul do rio Cumbijã, enfrentando e destruindo as forças guerrilheiras que tentassem sobrepor-se. Uma vez alcançados esses objetivos, uma força composta por tropas de cavalaria e infantaria, apoiada por pelotões de artilharia chegariam por lanchas ao local e estabeleceriam uma rede de guarnições na Península, desenvolvendo rapidamente obras de construção e reordenamento.

Em 11 de dezembro, um dia antes do ataque, sete Noratlas transportaram 191 paraquedistas da Base Aérea 12 para a sua plataforma avançada, a Base em Cufar. Na manhã seguinte, seis Fiat levaram a efeito um bom bombardeamento preparatório às posições do PAIGC, enquanto dez Alouette III que transportavam 50 paraquedistas os largaram em zonas previamente escolhidas. Uma forte resistência obrigou a trazer mais 50 paraquedistas, mas no final do dia as forças portuguesas esmagaram a resistência e ocuparam as aldeias de Caboxanque, Cadique e Cafine.

Começou então o processo, que se previa de longa duração, de pôr em prática de atrair e reintegrar populações civis, isto enquanto se procurava capturar ou aniquilar as forças importantes do PAIGC. O contingente das tropas do Exército construiu novas aldeias, estradas, cercas para guardar animais, fabricaram-se postos médicos, encetaram-se conversações com as autoridades tradicionais para procurar suprir as necessidades imediatas. Este conjunto de iniciativas teve algum sucesso, já que a maioria dos habitantes do Cantanhez revelou tolerância com os esforços portugueses, e muitos deles ajudaram a uma quase erradicação da liderança regional e das infraestruturas do PAIGC.

Ao longo dos noves meses da Operação Grande Empresa, a FAP forneceu reconhecimento contínuo, transporte aéreo, evacuação dos sinistrados e apoio de fogo às unidades de superfície participantes; mas, ato contínuo, as forças especiais de Spínola foram obrigadas e responder a questões mais urgentes que surgiram noutros locais. Os paraquedistas e algumas unidades do Exército foram transferidas em meados do verão, a posição das forças de superfície no Cantanhez iria ficar enfraquecida. Contudo, no final de 1972, as forças portuguesas podiam estar satisfeitas, tinham reocupado o Cantanhez, mas Spínola manteve-se pessimista, conforme relatou no início de 1973 devido ao aumento crescente da atividade e potencial do inimigo, anunciou que era de prever um agravamento militar da situação, perspetivou uma súbita deterioração, provavelmente na forma de destruição convencional em grande escala. Spínola avisou os seus superiores que se avançava para um novo patamar da guerra e temia que Portugal tivesse dificuldade em prevalecer.

Os líderes do PAIGC, por outro lado, começaram 1973 numa atmosfera de otimismo, o PAIGC recebera uma delegação da ONU através das suas zonas ditas libertadas e anunciou publicamente a sua intenção de declarar unilateralmente a independência, nos próximos tempos. Na sua comunicação de Ano Novo, Amílcar Cabral também elogiou as “grandes derrotas e perdas muito importantes” infligidas às forças portuguesas durante 1972. Mas admitiu que o inimigo tinha mais aviões e helicópteros fornecidos pelos aliados na NATO e tinha intensificado os bombardeamentos e ataques contra as regiões libertadas.

“Só a aviação permitiu a Portugal criar situações difíceis para nós.” Nessa mesma alocução Cabral instava as forças do PAIGC a desferir golpes mais duros contra o inimigo colonialista e prometia armas e outros meios de guerra ainda mais poderosos, alertando que o PAIGC iria utilizar de forma mais eficaz os meios existentes e a chegar, suscetíveis de ferir golpes decisivos nos colonialistas.

Para os militares da Força Aérea na Guiné, estas palavras seriam proféticas.

Operações portuguesas helitransportadas em 1972 (por Matthew M. Hurley, baseado em documentação portuguesa)
Área de atividades no decurso da Operação Grande Empresa (Matthew M. Hurley)

Anexo I – Aeronaves atribuídas à Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné

Anexo II – Surtidas na Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné
Surtidas por tipo de aeronave, 1968-1972
Surtidas por categoria de missão, 1968-1972

Anexo III – Perdas da Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné e Reivindicações Propagandísticas do PAIGC, 1962-1972
Perdas confirmadas pela FAP, 1962-1972
Números indicando o lugar dos acontecimentos descritos no quadro acima (mapa elaborado por Matthew M. Hurley)
Reivindicações propagandísticas do PAIGC comparadas com as perdas apresentadas pela FAP
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Nota do editor:

Vd. posts anteriores de:


9 DE FEVEREIRO DE 2024 > Guiné 61/74 - P25153: Notas de leitura (1665): O Santuário Perdido: A Força Aérea na Guerra da Guiné, 1961-1974 - Volume II: Perto do abismo até ao impasse (1966-1972), por Matthew M. Hurley e José Augusto Matos, 2023 (11) (Mário Beja Santos)

16 DE FEVEREIRO DE 2024 > Guiné 61/74 - P25176: Notas de leitura (1667): O Santuário Perdido: A Força Aérea na Guerra da Guiné, 1961-1974 - Volume II: Perto do abismo até ao impasse (1966-1972), por Matthew M. Hurley e José Augusto Matos, 2023 (12) (Mário Beja Santos)

23 DE FEVEREIRO DE 2024 > Guiné 61/74 - P25204: Notas de leitura (1669): O Santuário Perdido: A Força Aérea na Guerra da Guiné, 1961-1974 - Volume II: Perto do abismo até ao impasse (1966-1972), por Matthew M. Hurley e José Augusto Matos, 2023 (13) (Mário Beja Santos)

1 DE MARÇO DE 2024 > Guiné 61/74 - P25229: Notas de leitura (1671): O Santuário Perdido: A Força Aérea na Guerra da Guiné, 1961-1974 - Volume II: Perto do abismo até ao impasse (1966-1972), por Matthew M. Hurley e José Augusto Matos, 2023 (14) (Mário Beja Santos)

9 DE MARÇO DE 2024 > Guiné 61/74 - P25254: Notas de leitura (1674): O Santuário Perdido: A Força Aérea na Guerra da Guiné, 1961-1974 - Volume II: Perto do abismo até ao impasse (1966-1972), por Matthew M. Hurley e José Augusto Matos, 2023 (15) (Mário Beja Santos)

15 DE MARÇO DE 2024 > Guiné 61/74 - P25276: Notas de leitura (1676): O Santuário Perdido: A Força Aérea na Guerra da Guiné, 1961-1974 - Volume II: Perto do abismo até ao impasse (1966-1972), por Matthew M. Hurley e José Augusto Matos, 2023 (16) (Mário Beja Santos)

22 DE MARÇO DE 2024 > Guiné 61/74 - P25296: Notas de leitura (1677): O Santuário Perdido: A Força Aérea na Guerra da Guiné, 1961-1974 - Volume II: Perto do abismo até ao impasse (1966-1972), por Matthew M. Hurley e José Augusto Matos, 2023 (17) (Mário Beja Santos)

29 DE MARÇO DE 2024 > Guiné 61/74 - P25316: Notas de leitura (1679): O Santuário Perdido: A Força Aérea na Guerra da Guiné, 1961-1974 - Volume II: Perto do abismo até ao impasse (1966-1972), por Matthew M. Hurley e José Augusto Matos, 2023 (18) (Mário Beja Santos)

5 DE ABRIL DE 2024 > Guiné 61/74 - P25342: Notas de leitura (1680): O Santuário Perdido: A Força Aérea na Guerra da Guiné, 1961-1974 - Volume II: Perto do abismo até ao impasse (1966-1972), por Matthew M. Hurley e José Augusto Matos, 2023 (19) (Mário Beja Santos)

12 DE ABRIL DE 2024 > Guiné 61/74 - P25377: Notas de leitura (1682): O Santuário Perdido: A Força Aérea na Guerra da Guiné, 1961-1974 - Volume II: Perto do abismo até ao impasse (1966-1972), por Matthew M. Hurley e José Augusto Matos, 2023 (20) (Mário Beja Santos)
e
19 DE ABRIL DE 2024 > Guiné 61/74 - P25411: Notas de leitura (1684): O Santuário Perdido: A Força Aérea na Guerra da Guiné, 1961-1974 - Volume II: Perto do abismo até ao impasse (1966-1972), por Matthew M. Hurley e José Augusto Matos, 2023 (21) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P25447: De volta às montanhas de Liquiçá, Timor Leste, por mor da Escola de São Francisco de Assis, em Boebau (5.ª estadia, 2024): crónicas de Rui Chamusco (ASTIL) (excertos) - Parte III


Timor Leste > Um pequeno país da CPLP (c. 15 mil km2, mais de 1,3 milhões de habitantes), ocupa a parte oriental da ilha de Timor. Independente desde 2002, esteve ocupada pela Indonésia desde final de 1975. Cerca de 10% da população terá sido morta durante o período da ocupação indonésia (1975-2002). A população é predominantemente católica (c. 97%). Línguas oficiais: português e tétum, mas a língua mais falada ainda é o indonésio. E o inglês é uma língua de trabalho.  Dili é a capital e o município mais populoso (c. 200 mil  habitantes), Liquiça surge em 4.º lugar (c. 20 mil).  O tétum é uma língua crioula, com muitos vocábulos malaios e portugueses, falada sobretudo em Díli. O analfabetismo ronda os 50%.  Presidente da República: José Ramos-Horta; primeiro-ministro: Xanana Gusmão.  


De volta às montanhas de Liquiçá, Timor Leste, por mor da Escola de São Francisco de Assis, em Boebau (5ª estadia, 2024): crónicas de Rui Chamusco (ASTIL) (excertos) - Parte III



Rui Chamusco e o seu amigo e 'mano'
Gaspar Sobral. Foto: LG (2017)
Terceira crónica, enviada de Timor Leste, pelo Rui Chamusco, na sua 5ª estadia (fev/maio 2024).

Ele deve regressar a casa por volta de meados de maio. Mas até lá espera poder ultrapassar dificuldades burocráticas e falta de pessoal docente, problemas que afetam o funcionamento e o futuro da Escola São Francisco de Assis (ESFA), construída e apoiada pela ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste.

A ASTiL, como projeto de solidariedade, começou a ser pensada em 23 de Dezembro de 2015 na Aldeia de Malcata, Sabugal. Como organização foi formalmente constituída, em 18 de Setembro de 2017, em Coimbra. A ASTiL é uma instituição privada de solidariedade sem fins lucrativos.

Ao fim destes anos, continua a lutar pela divulgação da língua e cultura portuguesa no interior profundo de Timor-Leste, em Manati-Boebau, Suco de Leotalá e Município de Liquiçá.  Para o efeito, já   construiu e inaugurou a Escola de S. Francisco de Assis Paz e Bem em Manati/Boebau com capacidade para 180 alunos, além da casa para os professores e a  cozinha escolar.  Apesar das suas dificuldades financeiras, assegura também o funcionamento da escola, mas luta  há muito com falta de pessoal docente. (LG).
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16.03.2024, sábado - Há dias assim

Umas vezes parece que temos todo o tempo do mundo, outras vezes parece que o tempo não dá para nada. Hoje é daqueles dias que parece que nunca mais acabam. Nada previsto para hoje, nada a fazer a não ler, escrever e “matar” o tempo. Há ao menos tempo para descansar. 

Lá em casa tudo está calmo e tranquilo. Lá fora o barulho das crianças que brincam, com qualquer coisa que as entretenham, nem que seja a queimar uma garrafa de plástico. Os “motores” que passam apitando, com os canos de escape ruidosamente roncando, quebram a monotonia de quem não sai de casa. 

De vez em quando venho à varanda ver o que se passa, e logo as crianças que me avistam começam a Chamar: “Malae! Malae! Malae!...”  (Estrangeiro, em tetum.) Claro que tive de lhes acenar e dizer “adeus!...”

16.03.204 - Uma voltinha em “motor”

Desde março do ano passado que não andava de mota. Depois da aquisição da pickup nunca mais permitiram que isso acontecesse, com medo das mazelas que me pudesse causar. Mas hoje teve de ser, pois o Eustáquio foi ontem de mota para Boebau, e não tinha condutor para a pickup.

A professora Cristina mandou ontem à noite uma mensagem para nos encontrarmos amanhã no Pateo. Como a mota da casa estava ausente, falei com a Adobe sobre o convite da professora Cristina e pedi-lhe para ir comigo na microlete até ao local do encontro. 

Ela acedeu, mas adiantou logo: “Não, não vamos de microlete.(#) Vou pedir à tia Benedita que me empreste a mota dela, e vamos de motor.” E pronto, a Adobe que ainda não tem carta porque só tem 16 anos, mas que conduz muito bem e com muita segurança, mereceu logo o meu sim. 

Mais ou menos à hora combinada, aparece com a mota e dois capacetes, e lá vamos nós até ao Pateo. Foi uma manhã bem passada, bem diferente de estar em casa fazendo não sei o quê, talvez escrevendo. Obrigado, Adobe!

Bem-haja, professora Cristina!

21.03.2024, quarta feira  - Treino militar?...

“Que voz é esta que se está ouvindo através de grande amplificação sonora?” Perguntei eu a Adobe que chegava da escola. 

“É a instrução militar no quartel de Hera”,  respondeu a moça.

Com efeito, hoje durante todo o dia fomos agredidos com decibéis, que umas vezes eram vozes de comandos, outras eram o ribombar e o rufar de tambores, e outras até era a banda militar. Começou muito cedo com o toque do clarim, com o içar da bandeira que em Timor é algo moroso e espetacular, e continuou pelo dia a fora com as práticas afetas à instrução em causa.

 Não sei é por que se faz amplificação do som, de tal modo que aqui, em Ailok Laran , se ouvia com nitidez as vozes e os sons que comandavam. E dou comigo a pensar na marcha “O Magala” que o saudoso Max popularizou.

“Toca a marchar, andar a fartar / Se és bom militar galopa! / Anda pra frente / E mostra que és gente / E sabes andar na tropa!”

22.03.2024, quinta feira  - Contra os mosquitos marchar, marchar...

Luta inglória esta,  de perseguir adversários que tanto nos incomodam. Alguns quase invisíveis, que só nos damos conta deles depois da picada; outros que anunciam a sua chegada através de sonido irritante, as famosas melgas que até dão o nome a pessoas que não param de nos chatear. “És uma melga!...” 

Mas o pior ainda é quando, furiosos, nos lançamos a eles na certeza que, com uma palmada, os vamos esborraçar e, afinal, acabamos de nos agredir a nós próprios com uma valente bofetada. Até os mosquitos se riem!... 

Claro que temos as armas químicas que dão cabo deles. Mas, luta por luta, dão-nos um baile do caraças. Ouço alguém a cantar: “Não és homem p’ra mim...” Creio que nem o Dom Quixote de la Mancha nem o seu aio Sancho Panza nos poderão valer qualquer coisa. Aqui não há moinhos de vento, mas há muitos mosquitos contra que lutar. Contra os mosquitos marchar, marchar!...

23.03.2024, sexta feira  - O que foi que ele disse...! O que foi que ele disse...!

Hoje ao almoço, na troca de encontrar provérbios com a Adobe, apanhei este que diz tudo sobre o modo de ser timorense. Mais a mais são os chineses,  que por cá andam,  os“paizinhos” deste dito. 

Então o que é que eles dizem?... Aqui vai: “ os timorenses trabalham mas não suam; os timorenses comem e estão sempre a suar”. Este dito revela algo dos timorenses que, quem está por cá, pode observar. 

Mas não diz tudo. Qualquer ser humano em qualquer parte do mundo não está feito para trabalhar desalmadamente, de modo a não ver mais nada que o trabalho, custe o que custar. Por isso os timorenses, e não devem ser os únicos, preferem ir trabalhando, de modo a garantirem a sobrevivência, mesmo que seja com pouco. Quem estará certo?

Trabalhar para viver ou viver para trabalhar?

 Para a maioria das pessoas o trabalho em excesso serve para acumular riqueza, para ser maior do que o outro. Gente rica é outra  coisa! Nem que essa riqueza não seja usufruída nesta vida, que é efémera. “Ricos e pobres sempre os tereis connvosco”... E enquanto durar esta dicotomia teremos de conviver como podemos, suando a trabalhar e suando a comer.É assim a vida!... (...)

25.03.2024, domingo - A caminho de Boebau

Viagem programada, que nos leva de novo até às terras montanhosas do interior deste país. O caminho já é sobejamente conhecido, até por que agora só este dá acesso a Boebau. Depois do temporal que se abateu sobre estes montes, que derrubou árvores de grande porte sobre o caminho, levou telhados de casas e danificou os postes da luz, havia alguma apreensão sobre esta viagem. 

Pelo sim e pelo não, o Eustáquio fez o reconhecimento da passagem, em “motor”, e trouxe-nos a certeza de que, com algumas dificuldades, já se podia passar. E aí vamos nós (Adobe, Monízia, Fátima, Eustáquio e eu), de manhã, até Liquiçá, aonde tivemos algumas diligências a fazer.

25.03,2024, domingo  - Tum-tum  pela 1ª vez

Quem conhece um pouco da vida de Timor sabe bem que os Tum-tum  são um meio de transporte muito peculiares: motor silencioso, decorações e música “ad libitum”, sem portas nem janelas, com quatro assentos, mas com lotação inesgotada. Cada cidade tem os seus, exceto Dili, a capital, que tem serviço de táxis tradicionais e os carros da Uber.

Por diversas vezes senti vontade de viajar neles, e é agora a ocasião. Como tivemos de parar em Lahuata para apanhar o professor Alarico, tomamos a decisão: o Alarico, eu, a Adobe e a Monízia vamos no Tum-tum; o Eustáquio e a Fátima vão na pickup

E que viagem agradável!... Sem pressas, sem stress, observando regaladamente a paisagem, o movimento, dando e recebendo os cumprimentos de “bom dia!” Poderei até dizer que, em Liquiçá, o movimento de tantos Tum-tum é um grande cartaz de visita. E, há sempre uma primeira vez...

Ao princípio da tarde foi a 2ª etapa da viagem, sempre a mais difícil, a mais dolorosa pelas dificuldades do caminho: o leito da ribeira, as curvas e contracurvas, o caminho estreito, a profundeza de buracos, os troncos das árvores, os precipícios, as paisagens vertiginosas. 

Mas chegamos sãos e salvos. Ok! Agora há que descansar e preparar a reunião de amanhã.

26.03.2024, segunda feira  - Reunião com os Pais e Encarregados

Hoje é dia que escolhemos para reunir as escolas São Francisco de Assis e a escola de Kilo, os professores, os encarregados de educação de ambas as escolas, chefes e ex-chefes do poder local, com o objetivo de apresentarmos uma proposta de colaboração, que depois de ser dada a conhecer a todos os presentes irá ser discutida e votada.

Seguidamente será entregue na Educação Distrital da Educação de Liquiçá, que a fará chegar ao Ministério da Educação de Timor-Leste, juntamente com a lista de presenças.

26.03.2024 - “Devagar que tenho pressa!”

Sempre a aprender... E nada adianta que temos de começar a horas, porque aqui é assim.

A reunião está marcada para as 9.00 horas, mas ninguém me sabe dizer a que horas vai verdadeiramente começar. As pessoas vêm para passar o tempo que for preciso, mesmo que seja o dia todo. 

Mas para isso há que assegurar a comida. Por isso o primeiro ato é o “matabicho”. Depois vem a reunião. E, depois da reunião o “almoço”. Por isso não adianta marcar horas. A gente junta-se para a reunião, mas também para conviver.  E está bem assim. Aqui, na montanha, temos todo o tempo do mundo. Talvez até porque há pouca gente com relógio. Os relógios roubam-nos o tempo porque o controlam.

26.03 - Proposta de colaboração aprovada

É com regozijo que verificamos o interesse e a vibração com que esta proposta foi acolhida. Ninguém se manifestou contra, e por isso foi aprovada por unanimidade.

Todos se manifestaram prontos a fazer o que lhes for possível para que ela se concretize, a saber: alargamento do ensino escolar com o pré escolar e o 1º ciclo na Escola São Francisco de Assis, e o 2º ciclo (5º e 6º anos) na Escola de Quilo. 

Será um benefício grande para a região, para as crianças e encarregados de educação, evitando que os seus alunos tenham de se deslocar para longe para continuarem a estudar. 

Se conseguirmos que esta proposta se concretize, já valeu a pena estarmos em Timor pela quinta vez.

26.03 - A anona mais saborosa

Não há nada que pague estes momentos. De tarde, frente à casa do Cesáreo, avisto uma árvore que, só pelo fruto, consigo identificar. No início quase impercetíveis, para logo aseguir descobrir anonas abundantes. 

Foi então que o Alarico, qual chipanzé trepador, sobe pela árvore afora procurando a anona mais madura. Que sabor! Que delícia! Que néctar divino! Foi com certeza a melhor anona que até agora já comi.

26.03 - Milho e mais milho... (Batar, em tetum)

Ao longo do caminho que percorremos até Boebau, fomos observando que, ao redor das casas por ali existentes, havia manchas amarelas em abundância. Quis saber o que era aquilo, e perguntei ao Eustáquio que, de repente me respondeu: “ Tiu, é batar, é milho que está a secar.”

 Alguma vez eu pensava que no mês de março se secava o milho!...

Com o fuso horário trocado, dou comigo a pensar que, em Portugal, estas tarefas dão-se no mês de setembro. Ficamos com os neurónios num oito. Isto pode lá ser!?... 

O melhor de tudo é esquecer esta disparidade e saborear este alimento tão generalizado no mundo, e base da alimentação de alguns povos. Que venha a broa de Portugal, que venha o  batardan  (##) de Timor-Leste, que venha o .......... do México! 

Amarelo, vermelho, branco, ou mesmo às cores. Milho verde, milho maduro, em grão ou em massaroca. Venha milho, e vira milho!...

27.03.2024, terça feira  - Afazeres em Liquiçá

A manhã foi passada com os alunos da Escola São Francisco de Assis, com atividades musicais, como é costuma sempre que por aqui estou. Depois do almoço na casa do Cesáreo,  descemos outra vez até Liquiçá, para a Direção da Educação Distrital, e fim de completarmos e entregarmos a candidatura a um programa de melhoramento dos espaços escolares. Pode ser que caia alguma coisinha para o nosso lado. 

Depois foi rumar até Dili, até Ailok Laran e encontrar o sítio tão desejado para fazer a toba (sesta), porque o cansaço já era tanto, que a vontade de chegar a casa era o nosso maior desidério.

28.03.2024, quarta feira  - Aqui, em Timor, é assim.

Quinta feira Santa, em Ailok Laran. Logo, bem cedo, me dei conta do movimento não habitual. Cá em casa, todos buliam na limpeza e arrumação dos espaços. 

Perguntei à Adobe o porquê desta agitação, e la pronto me deu a resposta: “Amanhã é sexta feira Santa, e não podemos varrer, nem cantar, nem fazer barulho”. 

E, por mais que eu tentasse fazer-lhe ver que isso não tem importância, que noutros países, noutras terras não era assim, ela manteve a sua postura e respondeu-me:  "Ok! Eu compreendo e sei que os costumes e hábitos de outras terras são diferentes mas,  aqui em Timor é assim".

Temos de respeitar e seguir a tradição”. E pronto! Não está cá mais quem falou. 

“ Ó tempora, ó mores!...” (###)

29.03.2024, sexta feira  santa - Meditando...

A vida e a morte. Independentemente de qualquer ideologia ou religião, temos a certeza de que tudo o que nasce há de morrer. Mas será que este destino é linear? Será que nascemos para morrer, só e nada mais? Será que o nascimento não será o princípio de tudo o mais que possa acontecer? Nascer somente para morrer para morrer parece-me demasiado trágico. 

Prefiro dar um sentido à morte, como uma passagem para outro modo de ser, seja ele qual for. Nem que seja para uma existência cósmica, para além do pó da terra. “Nada se perde: tudo se transforma” dizia Pascal. “Se a semente que cai naterra não morrer e germinar, não poderá dar o seu fruto”. 

“Por cada flor estrangulada há milhões de flores que florescem”. 

Hoje, dia em que os cristãos celebram a morte deJesus Cristo, quero acreditar que a morte tem sentido, sempre que ela traz transformação, salvação. Cristo Alfa e Ómega é ponto de partida e de chegada, segundo o antropólogo e teólogo Teillard de Chardin. 

Mesmo que não concordemos com muito do folclore religioso associado às celebrações religiosas destes dias, faz-nos bem pensar de que isto tudo não acaba por aqui. 

Que uma vida nova, melhor até do que esta que nos é permitido viver, é possível e desejável. E só assim consigo entender a atitude de São Francisco de Assis que, chamando irmãs a todas as criaturas, não se esqueceu de chamar também irmã à morte corporal. 

A fé é um dom que podemos ou não aceitar e cultivar. Quem puder acreditar, acredite.

31.03.2024, domingo - Páscoa de 2024

Hoje, dia de Páscoa de 2024, amanheceu com o sol radiante aqui em Dili. Toda a natureza exulta de alegria: as aves, sobretudo a passarada, as árvores que viçosas ostentam os seus ramos e as suas flores, as pessoas que, anafaiadas (####), percorrem as veredas e caminhos deste recanto. Tudo parece feliz, tudo canta...Tudo é vida! 

Neste país maioritariamente de religião católica, é fácil compreender a razão de todo estecontentamento. Jesus Ressuscitou! Nova vida, nova esperança para todos. A Páscoa é a certeza de que esta vida não acaba, apenas se transforma. A própria natureza, transborda este anúncio.

“Na natureza tu podes ver / o sol acaba sem medo / para o dia de novo nascer”. 

É este elã vital que habita em cada um de nós que nos transforma e nos faz querer ser homens novos, com capacidade de ajudarmos a transformar este mundo num mundo melhor. Feliz Páscoa!...

(Revisão / fixação de texto, para efeitos de publicação deste poste: LG)

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Notas de LG:

(#) Veículo privado de transporte colectivo de passageiros. Origem etimológica obscura

"microlete", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2024, https://dicionario.priberam.org/microlete.

(##) Prato tradicional timorense à base demilho (batar)

(###) Frase latina, atribuída a Cícero: Que época, que costumes!

(####) Julgo tratar-se de um regionalismo beirão (o autor é do Sabugal...), derivado de "anafaia", do árabe... (Os primeiros fios que faz o bicho-da-seda, antes de formar casulo). 

"anafaia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2024, https://dicionario.priberam.org/anafaia.

Para os leitores que se queiram associar a este projeto, aqui fica a conta solidária da Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste (ASTIL) (Página do Facebook)

IBAN: PT50 0035 0702 000297617308 4

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Guiné 61/74 - P25446: Convívios (990): XXXVII Convívio da CART 3494 / BART 3873, dia 8 de Junho de 2024, com concentração no antigo RAP 2, na Serra do Pilar - Vila Nova de Gaia e almoço em Matosinhos (Sousa de Castro, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista)



XXXVII CONVÍVIO CART 3494 / BART 3873

Meus amigos,
Sou a informar que o 37.º Encontro da CART 3494 irá realizar-se no dia 08 de junho de 2024 a partir das 10,00 horas no Regimento de Artilharia - 5 (ex-RAP 2) na Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia, local onde o Batalhão de Artilharia 3873, foi formado para servir Portugal na guerra da Guiné.

Vamos comemorar o cinquentenário da nossa chegada (03/04/1974).

Prestaremos homenagem aos mortos em combate e a todos aqueles que de alguma forma deixaram a vida terrena, junto do memorial, com deposição de uma coroa de flores.

Lembro que é do nosso conhecimento, que, 39 camaradas já deixaram a vida terrena, deixaram a saudade eterna, principalmente, das suas famílias, mas na certeza de que um dia vamo-nos encontrar novamente.

Prevemos uma Guarda de Honra por um Pelotão do Regimento.

Pelas 11,30 horas seguiremos em caravana auto até Matosinhos onde será servido um excelente almoço no “Restaurante Mariazinha”, findo o qual cada um rumará aos seus destinos, fazendo votos para que no próximo ano (2025) nos encontraremos de novo.

Apelamos à tua participação com família e amigos, contacta até ao dia 30 de maio impreterivelmente, por favor!

Contactos:
Ex-Fur Mil Trms – Luís Coutinho Domingues, 961 070 184 ou 22 013 76 18
Ex-Fur Mil Art – Manuel Benjamim Martins Dias, 965 879 408


MENU DO ALMOÇO

ENTRADAS
- Salgadinhos, rissóis, pataniscas, pata de gamba, recheio de sapateira e bolinhos de bacalhau

PEIXE
- Bacalhau à Zé do Pipo

CARNE
- Vitela assada com batata

BEBIDAS
Vinho da casa – tinto ou branco, verde ou maduro, cerveja, água e refrigerante

Bolo de aniversário, acompanhado com Flute de vinho espumante
Café.

Nota: em ref. a digestivos, quem quiser pode trazer de casa se assim o entenderem.

Preço: 30 bazucas

Um abraço a todos antigos combatentes,
Muito obrigado
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Nota do editor

Último post da série de 17 DE ABRIL DE 2024 > Guiné 61/74 - P25399: Convívios (989): 95º encontro da Tabanca do Centro: Quinta do Paul, Ortigosa, Leiria, 6ª feira, 26 de abril de 2024

Guiné 61/74 - P25445: Os 50 anos do 25 de Abril (13): Testemunhos - Numa Das Malas Velhas Da Minha "Fundação" (António Inácio Correia Nogueira, ex-Alf Mil da CCAÇ 16 - CTIG, 1971 e ex-Cap Mil, CMDT da CCAV 3487/BCAV 3871 - RMA, 1972/74)

1. Em mensagem do dia 24 de Abril de 2024, o nosso camarada António Inácio Correia Nogueira, Doutor em Ciências Sociais, especialidade em Sociologia, ex-Alf Mil da CCAÇ 16 (CTIG, 1971) e ex-Cap Mil, CMDT da CCAV 3487 / BCAV 3871 (RMA, 1972/74), enviou-nos este artigo da sua autoria, publicado ontem no Jornal "O Despertar", de Coimbra:


TESTEMUNHOS

Numa Das Malas Velhas Da Minha "Fundação"

Regressei da guerra colonial há 50 anos, por isso é tão significativa, para mim, esta celebração do 25 de Abril. É muito tempo para quem continua vivo, é pouco tempo para quem quer esquecer os fragores dessa guerra injusta.

Na que era a casa do meu pai, aos Olivais, tenho um compartimento, que as minhas filhas apelidam, pomposamente, “Fundação”, onde guardo tudo o que constitui resquícios das memórias e das estórias da minha vida. Muitas vezes, inopinadamente, descubro relíquias que pensava já não existirem. Esta condicionante deve-se ao facto de ser muito desorganizado mas, ao invés, muito zelador como guardador de grandes e pequenos nadas.

Recentemente tive um convite da Escola do 1.º Ciclo de Fala onde estuda, no 4.º ano de escolaridade, a minha neta Lúcia, para comunicar algo às crianças sobre o 25 de Abril, principalmente, da minha experiência sobre esse dia memorável.

Para a sua preparação, dei-me ao trabalho de revisitar esse espaço mágico, na tentativa de encontrar material que pudesse entusiasmar a pequenada e incutir-lhe um pouco da importância do 25 de Abril, na construção da deles e da minha democracia e liberdade.

Encontrei uma mala velha, muito velha, que pressenti pesada. Tive receio de a abrir e de tirar tudo cá para fora. Ela podia conter, por ventura, esconder, os meus mitos, os ritos, os medos, os entusiasmos, as raivas, os desassossegos de então, enquanto jovem.

Obriguei-me a tal. Tirei quase tudo a monte cá para fora, espalhei pelo chão e verifiquei como o seu recheio estava envelhecido, amarelado pelo tempo, mas de valor incalculável. Os papéis, as imagens e as coisas agora velhas, que fui agasalhando à medida que lhes tocava, reportavam-me, com um misto de entusiasmo e melancolia, inenarráveis, à época e idade, tão jovem, de há tantos anos!

Fui encontrar o meu camuflado da guerra colonial, coçado pelas andanças de muitos quilómetros nas terríveis matas do Belenguerez na Guiné e do Maiombe em Angola. Primeiro, olhei-o indiferente, qual trapo que na altura detestava usar. Hoje, contemplei-o com benevolência e algum bem-querer.

Achei jornais e revistas diversos: o Diário de Lisboa, a Flama, a Vida Mundial, A Capital, A República, apresentando em grandes parangonas as primeiras notícias da Revolução de Abril; nas primeiras página, sempre o mesmo protagonista, Salgueiro Maia, o meu herói.

Os discos primeiros de José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Padre Fanhais e muitos outros cantores de protesto estavam por lá espalhados riscados de tanto terem tocado no meu velho gira-discos. Lá estava a Grândola do Zeca e O Depois do Adeus de Paulo de Carvalho. Estas duas canções foram as senhas para a saída das tropas revolucionárias.

As canções do Ary dos Santos e do Sérgio Godinho marcavam também a sua presença… estou a viver tudo como se tudo fosse hoje. Oiçam, oiçam, como eu, a voz e a música que saem da mala, ecoam cá fora:… só há liberdade a sério quando houver, a paz, o pão, saúde, educação, só há liberdade a sério quando houver liberdade de mudar e decidir… / Grândola, vila morena, terra da fraternidade, o povo é quem mais ordena dentro de ti, ó cidade… / e depois do adeus e depois do amor, e depois de nós, o adeus, o ficarmos só.

A medo e sem olhar, meti mais uma vez a mão, até apalpar o fundo da mala. Agora em silêncio, arvorei o punhado, veio prestes, um livro já velhinho, mil vezes sublinhado, A Praça da Canção, edição de 1969, de Manuel Alegre e um disco datado de 26 de Abril de 1974, Caxias, Portugal Ressuscitado, com a participação de Ary dos Santos, Pedro Osório, e vozes de Grupo In-Clave, Fernando Tordo e Tonicha.

Das duas preciosidades cantei exuberante, qual menino da revolução:
(…)
Mesmo na noite mais triste,
Em tempo de servidão,
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não.

(…)
[Manuel Alegre]

Depois da fome e da guerra
Da prisão e da tortura
Vi abrir-se a minha terra
Como um cravo de ternura.

(…)
[J.C. Ary dos Santos]

Não quis tirar mais nada. Os meus 81 anos estavam exaustos de memórias tão vivas, tão presentes. Não vi o que restou por lá, mas abriguei lá dentro tudo o que trouxera para fora. Voltei a fechar a mala. Fui repousá-la no lugar que lhe pertencia, até que outro a abra. O que fará com aquelas memórias? Deita-as fora? Porventura, mas elas perdurarão na vida e para além da vida, sempre, sempre, em mim.

Fui cheio de ânimo, mas preocupado, ao encontro dos meus meninos.
As crianças à volta da sala de aula levantaram os cravos vermelhos, vestiram a farda, olharam os jornais, e prometeram que serão guardiães da liberdade e da democracia para sempre
Cantei com eles, levantei a bengala e senti-me, quase miúdo como eles o são.
Obrigado meninos. Vocês são o alento do meu fim de vida.

Com beijinhos para todos e também para a vossa professora Lúcia, de que muito gostei.
Até sempre!
Viva o 25 de Abril

António Inácio Correia Nogueira.
Jornal O Despertar

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Nota do editor:

Último poste da série de 24 DE ABRIL DE 2024 > Guiné 61/74 - P25439: Os 50 anos do 25 de Abril (12): Hoje, na RTP1, às 21:29, o primeiro de nove episódios: "A Conspiração", série documental realizada por António-Pedro Vasconcelos (1939-2024)

Guiné 61/74 - P25444: A minha ida à guerra (João Moreira, ex-Fur Mil At Cav MA da CCAV 2721, Olossato e Nhacra, 1970/72) (40): HISTÓRIA DA COMPANHIA DE CAVALARIA 2721: Minas levantadas ou accionadas



"A MINHA IDA À GUERRA"

João Moreira


MINAS LEVANTADAS

1970/MAIO/14:
- 1 Mina antipessoal - LEVANTADA - Areal entre Maqué e Bissorã.

1970/MAIO/19:
- 1 Mina antipessoal - ACCIONADA - Soldado milícia gravemente ferido.

1970/JUNHO/27:
- 2 Minas antipessoais - LEVANTADAS - Antiga estrada Farim/Canjaja.

1970/AGOSTO/27:
- 1 Mina anticarro reforçada com 1 - mina antipessoal - LEVANTADAS - Estrada para Bissorã.

1970/DEZEMBRO/17:
- 1 Mina antipessoal - DETECTADA PEL CCP 121 - LEVANTADA PELA CCAV 2721.

1970/DEZEMBRO/18
- 1 Mina antipessoal - LEVANTADA.

1971/FEVEREIRO/14
- 2 Minas antipessoais - LEVANTADAS.

1971/MARÇO/20
- 1 Mina antipessoal - Junto à bolanha de Jaboiá. LEVANTADA.

1971/ABRIL/08
- 1 Mina antipessoal - ACCIONADA. Soldado André, do 1.º grupo de combate. Ferimentos num pé e numa mão.
- 1 Mina anticarro S47/53 ao lado da outra foi LEVANTADA.

1971/ABRIL/26
- 2 Minas antipessoais - Em BINTA4F18. LEVANTADAS.

1971/MAIO/06
- 1 Mina antipessoal - Em BINTA 4E575. LEVANTADA.

1971/MAIO/?? -
2 - Minas antipessoais de madeira. - Região de Marecunda. LEVANTADAS.
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Nota do editor

Último post da série de 18 DE ABRIL DE 2024 > Guiné 61/74 - P25407: A minha ida à guerra (João Moreira, ex-Fur Mil At Cav MA da CCAV 2721, Olossato e Nhacra, 1970/72) (39): HISTÓRIA DA COMPANHIA DE CAVALARIA 2721: Material apreendido ao PAIGC

Guiné 61/74 - P25443: 20.º aniversário do nosso blogue (11): Seleção de poemas do "corredor de Guileje" ou "corredor da morte" (José Manuel Lopes, ex-fur mil, CART 6250/72, Mampatá, 1972/74)


Guiné > Região de Tombali > Mampatá > CART 6250 (1972/74) > "O Furriel Gomes, do Pelotão de Caçadores Nativos (Pel Caç Nat 68), o Amadú, um guia e amigo do mesmo pelotão, e eu, carregado de cadernos e livros apreendidos no 'corredor da morte' [ou corredor de Guileje]. De salientar a quantidade de livros escolares em português que o PAIGC tentava fazer chegar às zonas por eles controladas".


Guiné > Região de Tombali > Mampatá > CART 6250 (1972/74) > Um momento de descanso nas operações diárias de patrulhamento, picagem e montagem de segurança aos trabalhos da nova estrada Aldeia Formosa (Quebo) - Mampatá - Salancaur...  Lendo e escrevendo... O fur mil arm pes inf, op esp, MA, José Manuel Lopes (Josema, como poeta). 

Fotos (e legendas) : © José Manuel Lopes (2008). Todo os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

 
1. É um apanhado de alguns dos melhores poemas do Josema, escritos com "sangue, suor e lágrimas", no Sul da Guiné,  no "corredor de Guileje" ou "corredor da morte", entre 1972 e 1974, em lugares tão estranhos e já esquecidos (hoje,  à distância de 50 anos) como Mampatá, Nhacobá, Colibuía, Salancaur, Uane... 

A fonte é a série "Poemário do José Manel",  por nós publicada,  entre março de 2008 e setembro de 2009 (trinta postes, muitos deles com mais de um poema). A maior parte dos poemas não têm título, e nem todos são datados.  

Esta seleção, pessoal, feita pelo nosso editor LG, é também uma forma singela de homenagear o poeta de Mampatá (e do Douro) e de  o associar aos 20 anos do nosso blogue (**),


Naquela picada havia a morte,
havia a morte naquela picada,
de vinte e quatro
foi tirada a sorte,
para um foi a desgraça,
o diabo o escolheu
ou foi Deus que o esqueceu,
havia a morte naquele caminho,
naquela picada havia a morte.


Estrada de Nhacobá, 1973

Olhos semi cerrados 
querendo ver
para além das árvores,
passo controlado,
procurando caminho
já calcado e pisado,
orelhas a pino,
a querer ouvir
além da neblina,
todos os sentidos
são poucos,
escaparão com vida?
não ficarão loucos?

Carreiro de Uane, 1972

 

O sol queima em Colibuía,
e nas tendas de campanha
sentimos o seu abraço,
logo, logo, pela manhã
e é só o começar
de uma semana de rações,
sete dias de suores,
milhares de comichões,
de bons e maus humores
e outras complicações.

Os dias lá vão passando
entre picagens,
patrulhamentos,
em cordões de segurança
à construção da estrada
que avança lentamente,
como cobra gigantesca,
pelo matagal imenso.

A semana chega ao fim,
volta-se a Mampatá,
um paraíso afinal
e o bálsamo ideal
do inferno quinzenal.

s/l, s/d


Estradas amarelas

corpos cobertos de pó,
pica na mão à procura delas,
o polegar ferrado no pau,
tac, tac, tac, tac, tac, tac,
tateando por sons diferentes,
o Fernandes com cara de mau
espeta no solo o ferrão da pica,
tac, tac, tac, tac, tac, TOC...
o calafrio,
depois o grito,
anunciando o perigo,
o grupo é mandado parar,
chega o Vilas à frente
e todos manda afastar,
de joelhos no chão,
numa simulada carícia,
afaga a terra com a mão,
com gestos simples e perícia,
vai cavando devagar:
hei-la... está aqui,
lisa preta a brilhar;
parece inofensiva, a maldita,
deita-lhe a mão e grita:
és minha, já te tenho;
volta-a,
tira-lhe o detonador
e, entre dentes, diz:
esta não,
esta não causará dor.

s/l, s/d


Pior

que o inimigo
é a rotina,
quando os olhos já não veem,
quando o corpo já não sente,
quando já se não recorda
o nosso último abraço,
e a arma se tornou
um apêndice do braço;
pior
é quando nos esquecemos
dos afagos e carícias
que uma mão pode fazer,
da mensagem e melodia
que uma canção pode conter;
pior
que as chagas nas virilhas
ou o aço a entrar no corpo,
são os delírios sem sentido,
e o procurar esquecer
as pessoas mais queridas;
pior
é o despertar
do mal que há em nós,
e é preciso pensar
e é preciso parar
e é preciso sentir
que ainda estamos a tempo.


Salancaur, março 1973


Sangue derramado

Puseste o pé em sítio errado,
um som violento, o pó levantado,
escondeu por algum tempo
teu corpo violentado.

sem pensar em outras minas
correram em teu socorro,
o sangue fugia de teu corpo
e o hélio não chegava.

tua cara, ainda de criança,
ficava cada vez mais pálida,
tudo, num silêncio angustiado.

apesar dos teus vinte anos,
a vida fugia-te em golfada.
porquê tanto sangue derramado?

s/l, s/d

Sabes o que é morrer

com a vida por viver?
sabes o que é sentir
toda uma vida a fugir?
ter de cerrar os olhos
para voltar a sorrir?
eu fecho-os
para ver as vinhas e os montes,
eu fecho-os
para ver o Douro correr,
eu fecho-os
para ver uma mulher,
eu fecho-os
para não pensar
nem me lembrar
que também posso morrer.


Mampatá, 1973

Gostava de vos falar
dos esquecidos,
dos heróis que a história
não narra,
que as viúvas choraram
mas já não recordam,
daqueles
que nem tempo tiveram
de ter filhos
que os amassem,
descendentes
que os lembrassem,
daqueles
que nunca tiveram
o dia do pai,
vítimas de guerras
que não inventaram,
em tempo que já lá vai,
falar deles é prevenir,
se bem que de nada lhes valha,
de guerras que possam vir,
geradas pela ambição
dos que nunca morrerão
num campo de batalha.

s/l, s/d


Calor, cansaço, suor,
saudades de tudo
e de um rio...
mas podia ser pior,
pois há ali o Corubal,
com sombras e água boa,
nem tudo é mau, afinal,
não é o Douro, eu sei,
nem o Tejo de Lisboa,
são outros os horizontes,
falta o xisto e o granito,
as encostas e os montes,
mas diga-se, na verdade,
há o Carvalho, há o Rosa,
há um hino à amizade,
há o Gomes e o Vieira
a sonhar com a Madeira,
há o Farinha e o Polónia,
gestos e solidariedade,
há o Esteves e o Pinheiro,
amigos e sinceridade,
há o Nina e até amor,
também sofrimento e dor,
há o desejo de voltar
e um apelo à liberdade.

Mampatá, 1974

As duas faces da verdade 

a outra face da verdade
é só
o outro lado da história,
é apenas
outra maneira de sentir,
é só
o reverso da medalha,
o outro ângulo,
outra maneira de ver,
e põe em causa
a minha razão,
mas terei nunca
vergonha
desta farda que me cobre,
quero sim é entender
a outra face da verdade.

Mampatá, 1974

Ao Albuquerque (#)

O teu sangue não manchou
só a terra onde caiste,
apagou o futuro e
os filhos que não terás,
causou dor
nos que te perderam,
despertou loucuras
em noites perdidas
a recordar-te,
o teu sangue vertido
marcará para sempre
bem fundo, dentro de nós,
prometo não mais chorar,
quero rir por ti,
quero viver por ti,
quero gritar ao mundo
como foi inútil o teu sacrifício,
assim nunca serás esquecido.

Mampatá, 1973



É tempo de regressar às minhas parras coloridas

e ver a água a gelar,
esquecer mágoas e feridas,
e a todos abraçar, 
olho por cima dos ombros,
vejo a mata, lembro Amadú,
e nem tudo são escombros,
há a ilha de Bolama,
há Susana, há Varela,
as ilhas de Bijagós
e a vida pode ser bela,
se nunca estivermos sós,
houve prazer e amor
em terras de Mampatá,
senti a raiva e a dor,
saudades do lado de lá,
a distância e tanto mar,
mas não há ódio ou rancor
e um dia... vou voltar.


Bissau, 1974
____________

Nota do autor:

(*) O Albuquerque era um soldado do 3º grupo de combate. A segunda baixa da nossa companhia em Abril de 1973. Vítima de uma mina antipessoal quando o seu grupo procedia à picagem na frente de trabalhos da estrada [Quebo-Salancaur] que a Engenharia estava a abrir. 

Todos os dias se fazia a picagem até à frente de trabalhos, foram detectadas dezenas de minas antipessoal e anticarro. Era um trabalho que aqueles homens faziam com muito rigor e segurança, e que correu bem até aquele dia. 

O Albuquerque era um jovem alegre, quase sem barba, ainda hoje o vejo na vespera de Natal de 1972 a tourear uma cabra entre os arames farpados de Mampatá. O furriel Vieira um dos furriéis do 3º. grupo assistiu também à cena pois já o ouvi num dos nossos encontros referir-se a ela.

(Seleção, revisão e fixação de texto: LG)
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Notas do editor:

(*) 25 de abril de 2024 > Guiné 61/74 - P25442: No 25 de abril eu estava em... (33): No regresso de uma operação no mato, já no dia 26, com a malta (que tinha ficado no aquartelamento) a gritar, eufórica, no heliporto, à nossa espera: ""Meu furriel, a guerra acabou, a guerra acabou"...A notícia tinha sido escutada na BBC por um dos um militares, rádio-amador na vida civil (José Manuel Lopes, ex-fur mil, CART 6250/72, Mampatá, 1972/74)